terça-feira, 1 de outubro de 2013

Reminiscências Crepusculares

Há meses que não via um horizonte tão limpo, hoje morreu muita gente e pelo menos
Um poeta, porém, os tractores regressam poeirentos, as moscas adivinhando o frio,
Pedem a atenção de uma mão e há já uvas comidas pelos pássaros, um gato vê-se tentado a
Provocar um escorpião, mas logo se arrepende, o horizonte tão limpo, a canícula desfeita,
O gato vencido, todos vencidos por outros horizontes cortados pouco depois de jantar,
Um poeta que não escreverá mais, contudo, carros com bandeiras com as cores de sempre
Mentem às ruas, promessas de um dia, para um dia, a democracia nesta terra é tão estranha
Quanto a moral católica e o respeito às tradições convenientes, mesmo assim, os pimentos
Amadurecem, vermelhos como os lábios e a máquina de escrever de uma Aliide Truu jovem,
Finlandesa, como a do filme Puhdistus, prefiro o livro, porque lhe dei a cara que quis e os
Lábios sempre vermelhos, menos quando nos meus dedos, a voz rouca dos cigarros e de quem
Gosta de engolir esperma em ruas desertas e nos quartos das amigas quando elas não estão,
O horizonte tão claro como o passado, tão vivo como o vermelho a pedir mais dentro,
Enquanto vozes como moscas a incomodar com a proximidade do frio, agora resta esperar
Que os figos sequem, que alguém ganhe para alguém ser derrotado e acabar com o ruído de
Fundo que apodrece as uvas, assusta os gatos e decompõe poetas, de quem afinal, toda a
Gente gostava e admirava, não me pronuncio, prefiro evocar a morte dos momentos vermelhos,
Atrás dos olhos que o horizonte ignora, lavo-me nas águas limpas de um poema sueco ou no
Tanque de lavar a roupa debaixo do marmeleiro, ambos vivos, o sueco e o marmeleiro, mais vivos
Que os altifalantes diluídos pelo crepúsculo e reduzidos ao incomodar das moscas, chupadoras
De sangue, que adivinham que o frio está para chegar que o Inverno não tarda e será longo.

Torre de Dona Chama

23.09.2013


João Bosco da Silva 
Dívida De Lágrimas

Um dia, quando for possível, dar-te-ei todos os momentos dos dias em que tive saudades tuas,
Agora, continuo no tempo do silêncio, que dizem curar tudo, mas mais parece sal nas feridas,
Se te deixei só, à geada, não foi para que te doessem as orelhas e o nariz, foi para me veres
Mergulhar no Inferno que foi crescendo na escuridão dos anos que fui somando, não tenhas
Pena de mim, as recordações sempre me salvaram, não me invejes, as recordações sempre me
Salvaram de viver, quem parou a música, não sei, mas não pares de dançar e de chorar à flor
Da pele com a alegria quase impossível nessa palidez de infância interrompida, tenho pena por
Te ter dado nada, nada que te tenha tornado melhor, consumi-te os melhores anos,
Plantei-te rugas e flacidez, fui muitas vezes cego ao corte de cabelo para evitar certos
Mal entendidos, no fundo perdi-me mais do que o que te perdi, trago comigo tudo o que
Foi comum e o arrependimento secreto de ter criado certos segredos, é que sabes, a vida
Aborrece-me, sempre me aborreceu e a felicidade estável, chupa-me o sangue e a luz dos dias,
Perde logo o sabor e torna-se em tédio e tenho uma compulsão em tornar o Inverno dos dias
Lentos e pacatos no Inferno caótico de baloiços ao lado de cemitérios e conas infectadas
Sem nomes para a memória me acusar de negligência, mereço todas as humilhações que o
Futuro me reserva, todas as vezes em que me deixaram fora, mas também, tu sabes que nunca
Planeei em tornar-me mais velho que o Kurt Cobain, por isso me fizeste prometer sobre uma
Despedida que evitaria cordas, facas e lâminas, comprimidos, e caçadeiras, só não falaste
Do tempo e da sua relatividade e letalidade, um dia, pouco antes de ser demasiado tarde,
Entregarei à Primavera explosiva todos os sorrisos que te fiquei a dever, dar-te-ei todos os
Momentos dos dias em que tive saudades tuas e que em vez de te dizer, bebi, escrevi ou
Engoli como se fosse possível esquecer-te, antes do chumbo abrir as sinapses na eternidade.

19.09.2013

João Bosco da Silva


Coimbra

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Palidez De Um Black Label 3

Preciso de ti Johnnie Walker Black Label, salvador de todos os perdidos em mapas
Desactualizados, alimento das almas cansadas do cansaço da vida a arrastar-se nos
Dias de neve e peso bolorento, ergo-te à Lua para que me apagues o desespero
De uma solidão impossível, as ruas fervilham de certezas e todos morrem num silêncio
Constrangedor que revela a sua verdadeira natureza quando os esfíncteres finalmente
Cedem às evidencias e as aparências, o brilho rapidamente ferrugem quando o latão
Deixa de ser polido e chamado de ouro, engulo-te ó companheiro de outros poemas
De paralelos, outras descidas ao fundo do poço de carne e osso chamado memória,
Que tudo engole e tudo ama enquanto cai no esquecimento infinito, espera-se
Que os avôs nos abracem com o seu hálito a vinho, nos lábios roxos apagaram-se
Todas as histórias e não se adivinha um dia de copos vazios, mas a ausência de vida,
Nunca acreditarei no Pablo Com Roupa de Arlequim à beira de um Stendhal em Helsínquia
Numa das visitas de Picasso aos nórdicos, não fosse o reforço das vitaminas B e julgaria
Que tudo não passaria de um sonho, ou uma psicose de Karsakov, que acaba por ser o mesmo,
Por isso preciso de ti, porque me faltam sonhos e a memória promete-me nuncas mais,
Como tudo o que a memória promete, o vazio é grande e precisa de ser preenchido por
Ilusões de ouro e uma pedra de gelo ou diamante, os cães também já não ladram,
Os caçadores mataram-nos, os incendiários mataram os montes, no fundo, todos me mataram
Um pouco, as veias arrefecem com o que corre lá dentro, eritrócitos, que nunca gostei da palavra,
Hemácias que sabem melhor, com um pouco de vinho do porto e dois artistas, um só de vida
Outro também de fazer na vida, agora hemácias secas, falciformes, sabe-se lá em que
Entroncamento a bruxaria se fará, entretanto, traz-me um pouco do menos que fui,
Que este acumular de mais uns anos, apagou-me o brilho infernal que durante muito tempo
Mantive aceso à força de muitos sopros de ferreiro de martelos sagrados, ergo-te, copo vazio.

18.09.2013

Coimbra


João Bosco da Silva
Visita A Koroisten Piispankirkko Com Tranströmer E Carpelan

“The heart does not accord
with its bounds,
nor the poem with reality,
nor reality with God´s dream.”
Bo Carpelan

Ao ler  Gläntan de Tomas Tranströmer lembro-me de Koroisten Piispankirkko à beira
Aura, a erva também milagrosamente viçosa, uma cruz branca a anunciar que o agora
Nu, em ruínas, uma mandíbula desdentada, antes um templo, rodeado por mais uns amontoados
Pálidos de pedras, incrustadas no solo verdejante de uma Primavera explosiva,
Antes a capela do bispo, emuralhada por uma paliçada absorvida pelos anos, com torres para o rio,
Reduzidas à estranha sensação de nostalgia que as ruínas evocam, já não saltitam por lá galinhas
À espera da faca no pescoço, só crianças pequenas acompanhadas pelos jovens pais,
Casalinhos sentados nos bancos com as bicicletas à espera de outras distâncias que não
As do tempo, todos parecem ignorar a informação em finlandês e sueco, o resto adivinha-se,
Uma casa de deus, onde parece que também eu já estive, de alguma forma, além das vozes
Que ouço, da língua que reconheço e compreendo, parece-me ouvir outra que reconheço,
Mas não compreendo, a língua de Tranströmer ou melhor de Bo Carpelan, que conheci uma vez
Numa revista e melhor conheci a sobrinha-neta, que diz que pouco se relacionou com ele
E eu ainda conservo dele a necrologia de um recorte de jornal, o mesmo sinto quando a encontro
Por acaso, dentro de um livro, o mesmo que sinto ao pisar os alicerces da Piispankirkko,
Muito diferente do que sinto ao tentar traduzir um poema meu, numa noite de bebedeira nórdica
À sobrinha-neta do Bo Carpelan, que só pensava em tê-lo dentro, e continha-se pelo
Interesse da amiga e o seu fascínio pela minha roupa interior a secar na cozinha,
Onde estará o tal bispo a estas horas a secar a sua roupa interior, “só os arquivos é que envelhecem”,
Mas também só o corpo que arquiva tudo envelhece e ao contrário do suporte dos arquivos,
Morre ao mesmo tempo de quem o registou, só ficarão os fantasmas projectados em amontoados
De pedras, num alto, à beira de um rio antes sueco, sempre humano, tanto meu como
Tudo o que um dia levarei comigo, toda aquela água em direcção ao Báltico, em direcção
Ao esquecimento, ao desaparecimento de tudo, menos das pedras-alicerces.

“Não procures na erva muda, procura a erva muda.” Bo Carpelan

19.09.2013

Coimbra


João Bosco da Silva
Purga

A caminho de Rantasalmi onde me espera um gelado no fim da tarde, uma traição
Com a amante de cavalos e um susto de filha que muitas vezes suspiro por quase
E não ser, o gelado derrete para os dedos, os bêbados começam a estar, podia-se
Beber uma cerveja, mas lê-se um pouco mais de Antunes enquanto se espera que
O talento venha, isto não passa de uma preparação para, para na verdade, nada,
Acabou o tempo a caminho de Rantasalmi, a minha mãe já dorme mais descansada,
Porque apesar de eu nunca tão distante, sabe-me perto, longe dos russos e do
Perigo além fronteiras, quando é cá, que mais me temo e menos me sou, perduro,
Sem ter aprendido este sacrifício de Sol, esta expiação de pecados inventados
À luz da lareira, estes modos de ser educado com uma alma bruta e pequena,
A caminho do útero mais quente, onde me purgo de todos os pecados por omissão,
Por pecar, e o desperdício de vida que acarreta esse ficar por pecar, engulo o vinho
Da eucaristia luterana, sangrada sabe-se lá a que distância, as searas prepara-se
Para as grandes máquinas e no Sul sua-se um suor barato e criam-se uns calos
Que ninguém vê como necessários, cultiva-se o culto ao sacrifício desregrado
E inútil, buscam uma tristeza feliz no pingo de cera que dói, mas que de um santo
Qualquer, uma cona ejaculadora lava melhor os pecados, especialmente se
É de nenhuma santa, de uma mulher real, mesmo que sem nome, dança-se
Na escuridão a medo dos olhos, tem-se tanto medo dos olhos, e da língua dos olhos
Nesta terra de cobras, a caminho de Rantasalmi, sentado numa recordação sentado,
Com o fascínio que se ignorava de uma ruiva pálida que acreditava que o diabo
A dormir num banco de autocarro, o diabo que ela queria ter dentro e engolir
E sentir até doer, no adro da igreja de Savonlinna, enquanto a madrugada se desfaz
Em cigarros e promessas em forma de despedida e nunca mais, regressarei, a mim.

18.09.2013

Coimbra


João Bosco da Silva
Desconsolos Sobre Melancolia

para o que se perdeu,

Senta-te e espera, dá um avanço ao cigarro, deixa o fumo vaguear, não te apresses,
Já não vais a tempo, as ideias que valiam a pena, ficaram esmagadas por mais um gesto mecânico,
Tu, no fim de contas, não és nada, não há olhos para te verem, não há dedos que mereçam
Sujar-se com a verdade que tentas arrancar dos becos viscosos da alma que construíste com
A lama das noites frias, aos poucos, esquecem-te e arrefeces, como uma profundidade
Que nunca antes tinhas sentido, e ainda dizem que isto é um país quente, de língua,
Quente como são quentes as pedras pequenas ao Sol, que servem só para incomodar
Os pés vivos que querem caminhar em direção a algum lado, de dentro, de fora para dentro,
Não te canses, morreste mais do que o que poderás morrer se te queimarem as inutilidades
Dos dias passados para aguentar mais um dia, a madrugada mal te reconhece, mal lavaste
Os olhos e já te apetece adormecer e esquecer o que te tirará o sono da noite que te cresce dentro,
Faz falta que te percas, uma vez mais, seja em quem for, onde for, mas perde-te, ou estarás perdido,
Não há asas para bater, só punhetas em honra a sortes melhores e esquecimentos sinceros,
Nem te sentes, não vale a pena, entrega os manuscritos às mãos da tua irmã e pede-lhe
Que sejam engolidos na lareira da tua infância, também nunca deverias ter ganho pêlo
Nos tomates, agora confundem o tamanho de uns com sonhos, não te mexas, exigem de ti
A concentração de uma pedra e tu engoles, o vazio de uma boca seca, com medo de perderes
A miséria a que por favor te submetem, perde-te, só assim darão por ti, só assim dirão que tu
E mais nada, que falem, que rebentem de nojo e inveja, a liberdade incomoda como a merda,
Daí ser tudo tão limpo neste país de cus de ouro, despe-te também, enquanto transferes o vazio
Para umas garrafas familiares, olha que o cigarro não dura sempre, nem tu terás essa falta de
Motivação que te leva a soprar o castelo de cartas de cada vez que te aborrece o tamanho
E a ordem da desordem, dá-lhes a morada para que te enviem a vontade que sem tocares nascentes,
Não esperes pedrinhas contra a janela quando a noite se esqueceu de te incluir nos seus planos,
Ninguém espera nada de ti, a não ser cumprires o papel de fazer os outros sentirem-se maiores
Nas suas vidas de suicídio mal solidificado, levas um cinzeiro de vidas bem fumadas
E até isso incomoda os cães que nunca perderam o instinto territorial de mijar e esgaravatar
A aridez onde cagam e comem, roem ossos de impérios e nomes de família, os teus montes
Ardem e a infância reduz-se a dez dedos incapazes de acompanhar a saudade e tudo fica.

17.09.2013

Coimbra


João Bosco da Silva

Poema lido por Sara F. Costa: https://soundcloud.com/sara-f-costa/poema-de-joao-bosco-da-silva 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Regurgitações 3

As uvas amadurecem, ou como o vejo, apodrecem no seu doce, uma implosão quente,
O Sol troca a tarde pelo crepúsculo como quem troca Os Maias e os cães ladram nas ruas
Estreitas onde poucas mentes mais estreitas passam, em direção à pipa ou à mulher
Embrutecida pelos anos, ou ao homem embrutecido pelo encornamento e o fumo lento dos
Cafés ou das lareiras no Inverno para o fumeiro e outros chouriços, tudo parece tão distante em
Setembro e mal a cinza assentou, mal o fígado se repôs das longas noites para nada,
Sanita abaixo, cona adentro, alguém racha lenha e dá um peido, despedidas que já
Arrefeceram, ninguém aprende que nunca se volta quando o tempo não se pode rebobinar,
Fica só o vazio e a separação, o lagar aguarda o esmagamento que é o Outono, sangue para o
Arrefecimento gradual do sangue, ao ritmo do encolher dos dias, as motas Zundapp e Sachs
Tentam arrastar-se a tempo do jantar, o fim sem consolo do final do dia, o mais certo
Que se leva é o sal na pele do suor que entretanto secou, o sino da igreja de Tromsø dá as oito
Horas da noite, a madeira não crepita, cansa-se do pragmatismo nórdico, em Helsínquia a
Catedral lava-se da cor rosada do fim do dia e o Inverno não tarda, tão longo, por cá fermenta-se
O que se fodeu sem nome, a vontade, aniquila-se, o sentido sem direção, as crianças vão aos
Lodges cheios de turistas buscar água para o fim do dia em Maasai Mara, os russos continuam
A ser os maiores sob a barba de Dostoievski e o Hotel Chelsea espera pelo vinho azedo de tantos anos
Espremidos pelo tédio e desespero, é o desprezo que mais dói, onde se escreverá a sangue
A última linha, sem ponto final a rematar a diarreia desta gastroenterite apanhada pelos sentidos
E pela sensibilidade à despedida das andorinhas, as de Fevereiro em Nairobi, mais silenciosas,
Com medo do Sol e das águias com olhares de colonizador inglês, o Saimaa já lavou tudo
O que se trouxe e este ano haverá pouco vinho, que se foda a fermentação, o Sol emagrece os
Olhos de sede e Miguel Torga, jaz, silencioso, numa estante de livros que despiram mais do que a sauna.

Torre de Dona Chama

08.09.2013


João Bosco da Silva

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Super-homem Regressa A Krypton

Os dramas dos santos patéticos, donos das suas certezas, leis próprias e deuses absolutos
Da moral certa e da verdade em questão, fazem-me rir e irritam-me o intestino grosso,
Que sabem estes bebés, com pêlos nos genitais, de infernos, se nunca cortaram à dentada
O cordão umbilical, não sei para que os ouço, há quem prefira os dramas das telenovelas,
Ou das vidas das velhinhas nos programas da tarde, eu ouço por passividade, tirei os óculos
E assumi que o super-homem regressou a Krypton e deixou o super na terra do Sol,
Mais um qualquer que tem que se fingir impressionado com o tédio da vida correcta dos
Outros, que dramas, que sofrimentos, nunca engoliram metade do sangue que eu engoli,
Nem enfrentaram racistas psicóticos sobre influência de drogas tão sintéticas que fazem
A cocaína parecer um filme noir, mas quem sou eu, sozinho não posso fazer nada,
Nem com as palavras, julguei ser capaz de fazer parte, mas entretanto, a sinceridade
Da libido afastou falsos profetas de amor livre e outras teorias bonitas quando se têm
As cuecas no lugar e as mãos nos próprios bolsos, e ouço-os, com o mesmo tédio com que
Corto as unhas, porque crescem, porque é a vida, porque os dias passam e somam-se
Aos que passaram e confundem-se na repetição e bebo o vinho na mó de baixo,
Sem qualquer dor de dentes, que muitos tornariam num drama digno de um romance
Premiado, geralmente são esses que levam o reconhecimento dos patetas pela sua
Abordagem fiel e sincera da mediocridade, da vida superficial e estéril, nem uma palavra
Merda, aqui me cago, e ninguém se espelha, porque aqui há demasiada gente sem cu,
São todos boca e falinhas mansas, todos punhetas engolidas a medo e fodas projectadas
Em sonhos de almofadas de aloé vera, ouço-os com um sorriso que se confunde com
O horizonte nauseado de um crepúsculo de incêndio, acendo um cigarro e queimo
O futuro para que se misture com o passado, para tomar algum corpo para aguentar
A passagem, até à hora da morte, sem pecados, só o que os outros apontam com dedos
Demasiado limpos para quem diz que tem vivido, esqueço o que terei que lembrar e engulo
Mais um gole de vinho, na mó de baixo, ignorando o moinho que me gasta os dentes da paciência.

Coimbra

02.09.2013


João Bosco da Silva

sábado, 31 de agosto de 2013

Speramus Meliora; Resurget Cineribus

Não sei o que me trouxe a Detroit, provavelmente o facto de estar familiarizado
No sangue com impérios afundados, sejam barcos, ruínas, abandono, tradições
Baseadas na obscuridade, nos becos esquecidos por tudo menos pelo oportunismo
Parasitário, o sangue escravizado pela terra ou pelas máquinas, trabalhar para viver
Para trabalhar, não sei se as casas abandonadas, se os abandonados nas casas, à espera
Do golpe final, um corte, e a ténue película entre aqui e a bancarrota letal, a miséria
É a desculpa para as oscilações do humor frio das bolsas dos bolsos abstractos dos deuses
A quem ninguém reza e toda a gente deve, paga-se com a vida e está-se finalmente
Descansado, que o coveiro não nos enterre muito fundo, temos que incomodar
Ao menos os narizes, já que este mundo é de surdos, mudos e idiotas feitos pinguins
No ar frio com que engolem o peixe miúdo, nunca serás ninguém enquanto não tiveres
Praga ou Budapeste, dizem-me entre dentes numa fotografia, pensei pedir equivalência,
Afinal tive boa nota na sueca e noutras cartadas internacionais, os certificados entretanto
Foram lavados com sabão e horas de suor e cerveja, outros desfizeram-se quando acordaram
De manhã e o lençol já frio, um manto de neve sobre Detroit, pisado por um rapper
De outros tempos, no tempo em que se podia ser ainda tudo, sabendo o mundo,
Desde logo, que nunca permitiria grandes voos, uns cruzeiros para um futuro naufrago.

31.08.2013

João Bosco da Silva


Coimbra
Intermitências De Fogo E Gelo ou Pasteurização Do Material Anti-poético

Passa-se o dia à espera de um poema, um que sacuda o pó e dê brilho ao cadáver
Que nos habita, um de muitos, uma madrugada que foi esmagada por uma centena de noites,
O cheiro de alguém entranhado nos dedos, que mal se lembra da cor dos nossos olhos,
Ressuscitar fantasmas, quando a carne já apodreceu há muito, pega-se então num livro de
Poemas, enquanto o próprio não vem e encontram-se lugares comuns onde nunca se esteve,
Pedaços de vida, como pedaços de carne numa canja, coincidências felizes que cobrem
A cereja de melancolia, tudo perdido, tudo, quanto muito, um poema que ninguém
Vestirá completamente, ou de nenhuma forma, uma ilusão entre um sono e um sonho,
Até que os olhos orbitem no universo próprio das ligações entre neurónios, esquecem-se
Do transdérmico e os anos todos a entreabrir os dedos, as recordações areia, perdeu-se
O balde e a pá e os caranguejos agora só o seu exoesqueleto verde a lembrar uma lenda
Japonesa qualquer que se ouviu em infância ou num sonho, que é a mesma coisa,
Mesmo que se escreva, aquela boca quente que pedia e engolia o esperma, na esplanada
Das traseiras de um café fechado numa cidade do norte, com as meias e as cuecas descidas
Ao nível dos tornozelos, não voltará a dizer, com hálito a futuros perdidos, que vai para o
Inferno por isto, com um sorriso de levantar o pau de seguida, tudo engolido, é a fatalidade
De tudo, tudo por aí abaixo, ampulheta abaixo, estômago abaixo, terra abaixo, ponteiros abaixo,
Bota abaixo, já nem a casa dos avôs na aldeia se reconhece, um quarto onde era outro, uma varanda
Onde antes uma janela, voltada para a montanha de onde o Sol saía, não nascia,
Tentam-se imortalizar as loucuras ordinárias, esbatidas pelo próprio combustível da loucura,
Mas não vale a pena, no fundo, são só palavras, o batom não se espalha à volta dos tomates
Latejantes, ela não se abre em cima da sanita e pede para a foder, anjo aberto para abraçar
O pecado, que dizem que é pecado e portanto, que se fodam, enquanto o amigo de ímans
Meio desmaiado no sofá com a lata de cerveja na mão, fode-me fode-me, mais, adoro
Os teus tomates, como pode um anjo loiro de olhos de céu ter uma boca tão vermelha,
Mas nada, da varanda da casa dos meus avós, agora, só o Sol se põe enquanto um cigarro
Se consome, na companhia do tio que noutros tempos partilhava cinquenta escudos
Numa arcarde de aldeia fronteiriça, eu agora sempre na corda bamba, entre o tédio e a loucura,
À espera de um poema indecente, sobre as indecências da minha vida, enquanto
Passo um dia à espera que acabe, sem saber bem porquê, para quê, mas siga, que venha,
Tudo o resto, foi engolido, digerido, cagado, e não passa agora de material anti-poético.

31.08.2013

João Bosco da Silva


Coimbra

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Ode À Sombra

Escreve-se sempre à sombra do que já foi escrito, mesmo à noite quando o Panero olha
A Lua como se fosse um olho e por dentro uiva afiando versos e a agulha para depois
Coser a boca dos sapos, enquanto esmaga baratas com os pés para duendes desdentados,
Escreve-se sob a barba de Sebastião Alba, que o veste de abandono e loucura nos olhos
Que só olham para fora, as putas, à mesma hora, contando com o dinheiro roubado
À caixa do dinheiro das alminhas do purgatório, dirigem-se ao local de venda do corpo
Para sustentarem os luxos do dia, há dignidades que se vêm e brilham mais do que uma
Consciência limpa, mais vale a sombra, da barba de Walt Whitman ninguém fala, talvez
No supermercado, na zona dos legumes ou perto dos lacticínios, à tarde é melhor nem
Sair de casa e ficar a amansar plexus e esticar circunvoluções com a televisão generalista,
Queimar mais um dia até que venha mais um livro do Bukowski, de poemas, nada melhor
Para o Sol do meio-dia na ressaca de um Verão desperdiçado em adiamentos e derrotas
Predefinidas, já ninguém salta da ponte, nunca foi branca, mas culpam os romanos, esquecem-se
Das silvas que lhe dá o ar selvagem que merece, também o Rilke me aborreceu ligeiramente,
Mas deve ser comum a poetas sem fome, o jejum afia as agulhas e não há sapo que não fique
De boca fechada a engolir o que vomita, até vir uma pega para lhe comer o fígado e o deixar
Estripado ao Sol, não vejo o Céline a sujeitar-se a certas amizades e sacrifícios por fidelidade
E até prova em contrário, o futuro é sempre uma fome, nas ruas nunca se encontra uma amigo
Quando se caminha de bolsos ou coração vazio, só os cães não se desviam, da sombra, quando
Passa, já os gatos só lhe querem a ausência de luz, os olhos sensíveis de cabrões peludos
Egoístas têm preguiça de arroz, na Lapónia a noite de Inverno desperta sonhos de Verão,
Os pés arrefecem e ainda dizem que a viagem é só dentro, não é, tudo se passa à sombra,
Do que já foi vivido, mesmo que isso implique mudar um ou outro nome, para não ferir
Pessoas vivas ou mortas, reais ou baseadas nas possibilidades tão ou mais verdadeiras
E hoje um nome que custa encontrar-se na palidez de uma cara familiar que nunca mais
Nos irá sorrir, por causa da sombra, porque a miséria nos ensinou que se não podes estar
Sempre feliz, não és feliz, procura então a imperfeição na fotografia onde ambos sorriam,
De verdade, com sincera vontade, a fotografia que entretanto os olhos tornaram quase
Estranha ao espelho, com uma data por trás, no tempo de certezas hoje podres, ao Sol,
Numa cidade sombria, desde uma vila cada vez mais distante e ridícula, antes da aurora e do fim.

Torre de Dona Chama

09.08.2013


João Bosco da Silva
Karri Tahvanainen

“I was drunk enough to go for anything.”
Jack Kerouac

Ó capitão, meu capitão do barco encalhado!

Onde ficaram as noite brancas, Karri Tahvanainen, a erva fumada nos baloiços ao lado do
Cemitério e a hambúrguer empurrada à pressa com meio litro de leite, para curar
A paranóia induzida pela qualidade da coisa, quase tão boa como a irmã do que a forneceu,
Como vai o nosso amigo Kaiponen, ainda salta de varandas, continuas a tratar bem as
Portuguesas com namorado, que só querem levar no cu e fazer mamadas, sabes,
Eu também nunca percebi os escrúpulos das mulheres daqui, por aqui usam-se muitas
Saias, ninguém vai nu para a sauna, e até é uma vergonha foder despido,
Não vá um carro aparecer e o cornudo ser iluminado por um amigo sincero, tens acendido
A lanterna verde às psicoses que levam o chão à carne e a terra ao sangue, nunca te faltou vinho,
Rum, mesmo que do mais barato, mesmo que depois comer pizzas de microondas assadas
Na fogueira, ainda terás o mesmo sofá, nele ainda adivinho o cheiro a esperma seco
E sumo de cona, a tocadora de kantele no fim ainda agradeceu à madrugada, e a garota
De dezasseis anos, chegaria a amadurecer a esquizofrenia, tu bem lhe provaste da loucura
Que eu bem a ouvi gemer deitado na tua cama quase inconsciente das suas maminhas pálidas
A roçar o meu medo de vontade, prometeu-me o cu para o Natal, mas embebedei o Pai Natal
Para que se esquecesse de mo trazer embrulhado numa mortalha, sempre te acompanhavam
Fadas e duendes, às vezes quando penso em ti, parece-me que tu criavas personagens de carne,
De sangue, o professor de arte e as suas bandas desenhadas, nunca o ouvi quando sóbrio,
Mas também nunca me ouvi quando ele bêbado, no alto das torres de armazenamento
De cereais, com a polícia a fazer-nos descer à terra com ameaças aos nossos aviões de papel,
Quem pagou foi o carrinho de supermercado, que congelou no lago Saimaa e só foi resgatado
Já de outra cor, na Primavera seguinte, ao lado de uma bicicleta, hábitos de vodka e outra viina,
Que as noites, mesmo as longas de Inverno, sempre tão luminosas, brancas, continuas a fermentar
A obra, não te esforces muito, tu és a obra, um personagem mais fantástico do que qualquer
Imaginação, se te tivesses atravessado na estrada de Kerouac, de certo que farias empalidecer
Uns quantos beats, tu, o maior beat finlandês, que vive num cemitério de garrafas
E louça suja, dormes num sofá-cama que raramente está vazio e que nunca se fecha,
Onde se separaram lábios com a facilidade de um amanhecer de Verão nórdico,
Logo, ali, que a vontade é de calor, de um mergulho refrescante na alma de alguém
Que não quer mais nada a não ser dar-se e receber, a ruiva, a gémea, a australiana,
As portuguesas, e todas as outras que a ressaca apagou com uma secura de boca,
De manhã também cheiravas os dedos, para te certificares que as noites foram reais,
Eu sim, e escondia-as debaixo da almofada, para que o dia não me lavasse os sonhos.

21.08.2013

Coimbra


João Bosco da Silva

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Sonho Em Veneza

É difícil perdermo-nos em Veneza, lá, está-se sempre num sonho, não se sente
Fome ou cansaço, os olhos engolem o corpo todo e por osmose absorve o que
A alma pede, não deixo de sentir inveja dos que aqui vivem, os seus altos e baixos,
Todos os dias, tão mais belos que os meus, sobe-se, desce-se e sempre uma recompensa,
Ao se sair de uma rua escura e estreita uma praça que abre tanto os olhos que não bastam
E pedem também a boca para se engolir tanto fascínio, entra-se na igreja de S. Pantalon,
Olha-se para cima e sente-se o peso do Síndrome de Stendhal a espremer-nos até
Ao limite da beleza suportável em tons escuros, não se pode ter medo de morrer em Veneza,
Penso até, que aqui, se recebe a morte sem tristeza, mas com romantismo, talvez um pouco
De melancolia, mas não da que o português sente, mais daquela de passar por uma porta
Aberta e ouvir um ensaio das Quatro Estações no berço de Vivaldi, é verdade que aqui não
Se deve beber muito à noite, a não ser que se tenha um anjo da guarda atento, gondoleiro,
Aconselha-se a vista desarmada e sem medo de encarar decotes ou olhos de gelo com vontade
De serem penetrados enquanto pálpebras se apertam em mais um canal e a gôndola passa,
A espuma da cerveja aquece, está-se num sonho, ao lado da Hostaria Venexiana, à espera
De uma morte do que se esqueceu de acordar, sete horas depois do almoço, ainda com a
Piazza S. Marco a latejar profundamente, desde o córtex occipital ao frontal, atravessando
Em linha recta as memórias congénitas do hipocampo, um dia voltarei com a impossibilidade
De regressar acordado, lá, só um avião me conseguiu beliscar, enquanto o Sol se deixava levar
Pela cidade a acender-se nos canais, mesmo assim, sorri, com a mesma seriedade com que
Cada pedra foi colocada em cima de estacas de madeira vindas da Eslovénia, Croácia e
Montenegro, cada canal violado com a inocência da fome dos turistas, que lhe perdem
Tempo em montras com nomes que se encontram também no Japão, como também o cheiro
A gasolina e protector solar, os dentes americanos mastigam quantos dólares uns sapatos
E o seu tamanho perante a beleza da sereníssima, nem a pele queimada pelo Sol se lembra
De despertar, só a de fora contra os olhos e toda a fome de sonho, de sombra e frescura,
E ainda dizem que Veneza é melancólica, nunca viram a invicta do império que levou
Ao dito declínio da que se afunda no Adriático, enquanto com o vibrar de cordas
No crepúsculo, ressoa no coração amargo de um poeta, é decididamente mais fácil
 Morrer-se em Veneza que nos perdermos lá, só o coração se perde entre o corpo e o sonho.

Veneza

01.08.2013


João Bosco da Silva

sábado, 3 de agosto de 2013

Pacotes De Leite Mediterrânico

Fabio, porque sois todos iguais, não sei se é por seres francês, quase a vomitar na língua,
Mas deixo-te desviar as cuequinhas húmidas para o lado no canto da escuridão do barulho,
Espreitam por detrás dos ombros da vergonha, engolem como um desabafo a aproximação
De uma liberdade pesada na almofada onde de manhã a máscara da noite apagada,
Um abraço de rotina, para manter a boa fama, todos iguais, vós, o namorado a estranhar,
Ficar até tão tarde, depois do turno da noite do hotel entrar no da manhã, ele a espremer o
Tempo nas pernas que passam e nas que se lhes abrem, latas de cerveja a povoar a mesa,
Nunca tinha feito isto e até é amor, é, é a magia dos Fabios que são todos iguais,
Vendidos por febra e uma descarga de todo o catecismo às urtigas, fodas no adro da igreja,
Desfarda-se, cobrindo os speedos com vergonhas maiores, uma camisola de uma equipa
De NBA só porque é a moda da praia, a velha alemã geneticamente modificada por
Engenheiros nazis, leva as mamas demasiadamente proporcionais às nádegas da idade
Que à volta dos olhos como nas árvores os anéis, lixada e polida pelo Sol dos países
Conquistados à força política e da economia pseudo livre de mercado, esmagadoramente livre
E absorvente, uma afronta à osmose, a areia que engole a saturação do escarro e outros
Desprezos salpicados, todos, uma questão de influência gladiadora, eu sou legião, tenho-o dito,
Uma das engolidas por bárbaros germânicos, aqui não se discute, são distúrbios motores
Na língua, demasiados cunnilingus na época dos bancos de jardim ou punheta depois
Da missa de Domingo para purificar o corpo depois da alma fumada e curada, mais fome
Do que as chamas que se imaginam, nós pobres Fabios, tudo se transformou, não fomos
Criados assim, tanta obsessão com o pecado, teve que fazer-se merecer tanta culpa tatuada
Na inocência dos que nasceram por pecado e em pecado, sorriem e já adivinham o jacto
De esperma nos dentes bem cuidados, na palidez da sua qualidade de vida que trata
A miséria por pesadelo, os padrões sempre foram o seu fraco, fácil de adivinhar o púbis
Bem aparado, depilado ou não, a cor real que escondem no que mostram, todos iguais,
Vós, Fabios, quase virgens quando cai em cima de vós a responsabilidade de um tesão
Sempre pronto para tanta puta, sei que és fácil, a lavar pratos com as nádegas
Engordadas com fast food, para a fast foda, esquecida do exército americano,
Do soldadinho meant to be, encornado, das lições de kickboxing, tão submissa agora,
Também com o, não sei se é por seres francês, ou lá o que aquilo é, por ter provado
Vinho francês e conhecer somente mais o californiano, queijo, azeite, pão fora de embalagens,
De forma orgânica e irregular, é uma visita à Torre Eiffel, ajoelha-se e desaperta a braguilha
Numa retribuição brilhante, mas com muito dente à americana, comemos cavalo por vaca,
Pérolas para porcos, a enfeitar o azul daqueles olhos patrióticos, a mão encontra o desvio da
Careca e ou suor ou uma prontidão eficaz que promete somente madrugadas e ressaca,que
Passará muitos anos depois, dos anos que ainda quentes, na ressaca se escreve ainda,
Sem dores de cabeça, só a melancolia do sabor que se lavou mastigando dias, todos iguais vós,
E eu nem Fabio sou, cresci a carne de porco das matanças de Inverno, provei pizza só
Depois dos dez e antes, pensava que eram omoletes, agora ovos e gemadas na certeza
Estereotipada de tudo o que é estrangeiro e ignorante, acabe-se já a Peroni, a cinta descaída,
Os calções até aos lábios maiores, a tinta também, que até o Miller se cansou de tanta foda
No vazio, tanta página em branco preenchida com a solidão trazida pela humidade que passa.

Rimini

28.07.2013


João Bosco da Silva

quarta-feira, 24 de julho de 2013

O Café Nocturno De Van Gogh No Hotel Moscovo

A sala um negativo fotográfico de O Café Nocturno de van Gogh, embebido em melancolia e
A promessa de um frio lancinante além da porta que insiste em abrir-se contentemente
Cuspindo almas envoltas em corpos envoltos em peles ou de uma leveza maior e o interior
Mais cheio de fogo transparente, uma outra aguardente, de batata dizem, e água da que
Passou muito tempo sólida, a mesa ao centro, num lugar onde centro impossível,
Cadeiras estrategicamente colocadas para o reconhecimento fácil do volume nos bolsos
E da braguilha, o recheio dos bares russos, cada um com um ar mais suspeito e vicioso
Do que o outro, uma ambiguidade afogada no ar rosado e escaldado pelo frio e pela vodka,
As putas sentadas nas cadeiras e as putas sentadas nas putas e as putas sentadas no frio
Dos bolsos cheios e no dos bolsos vazios que ao menos uma braguilha farta, ou uma cara
Estrangeira com promessas de plástico lá fora, que já venho, nós uns trocos, tantos para tão
Pouco, um jogo de bilhar apressado, espremido entre a paranóia e a claustrofobia ao sovaco
E perfume demasiado afiado e doce, apontado ao fundo dos colhões do cérebro, tacadas
Concentradas nas pernas que se descruzam em sorrisos e insinuações de puta, ao menos
O interesse directo e a sinceridade de batom vermelho para esborratar os tomates
E roçares brutos de um carinho siberiano, falta o do fato branco, junto à mesa de bilhar,
Mas está o tempo a substituir a sua presença fantasmagórica, neste hotel Moscovo,
Em São Petersburgo, onde as bolas teimam em esticar o tempo e alargar uma conta incerta,
A carteira a tornar-se cada vez mais seca e cresce a vontade de fugir dali ou foder uma daquelas
Putas, vontade escondida da vontade até, que todos católicos, rodeados de uma ortodoxia
Treinada pelos séculos dos tubérculos e dos regimes de outro estômago, os tacos perdem
A sua faculdade recta e parecem um tesão saltitante no meio de uma multidão de praia,
Se ao menos mais de menos trinta graus lá fora, um cigarro que logo um a cravar na língua
Dele e um gajo sem perceber a mostrar-lhe o isqueiro e o maço e ele as duas coisas,
Toma lá, vai lá, não apetece ir fazer companhia ao Dostoievsky que a vida ainda vai em pouca
Miséria e até se saciar, muita beiça desesperada, cansada do dono, muito verso desesperado
Cansado do dono, uma colecção de garrafas vazias, livros consumidos como se escritos por
Alquimistas, quadros quase lambidos, também ali perto no Ermitage, a vontade de levar tudo,
Mais, para deixar a apodrecer entre as lágrimas dos que ficam e o seu esquecimento,
Fica assim, empatamos, vamos sair daqui, mas antes, bebemos uma cerveja Baltika.

24.07.2013

João Bosco da Silva


Coimbra

terça-feira, 23 de julho de 2013

Buthus ibericus

Conta-me outra vez essa história, pela milésima vez, conta-a com todos os pormenores,
Conta-me essa ou outra que também já sei de cor, eu serei todo interesse e se tiver que ser vida
Conta o que quiseres, mas não te cales, nem me faças encontrar na tempestade outras razões
Além de alterações de pressão, baixas de temperatura, a atmosfera ionizada e pronta para
Um pranto que não tem nada a ver com o que me obriga a escrever ou a chorar quando o papel
É outro e a solidão permite extremos, conta-me outra vez essa história, ou aquela outra, tanto faz,
Conta enquanto tento encontrar o teu cheiro na terra quente molhada, a tua companhia num
Copo de vinho, custa-me que o mundo o mesmo e nada igual, antes de ti também tristeza,
Lugares vazios à mesa, mas nunca o teu, o meu mundo nunca antes de ti, por isso que interessa,
Os ciclos passavam por ti e a tua vida uma rotina ao seu ritmo, todos os anos encerravam-se neles
Mesmos e pariam outro, para engordar até lá para Dezembro e tu como quem conta no fim
Do jogo da sueca, contavas sem saberes sequer escrever o teu nome na inutilidade dos papéis,
A tua realidade feita de terra, mau tempo, pedras, madeira, castanhas e vinhas, a verdade
Longe da especulação que queima séculos de suor, mas não tens que escrever nada, conta-me mais uma vez,
Como foi arrancar o espigão de um escorpião com as unhas, como foi vingares-te do Buthus ibericus
E a que sabe a dor da sua picada, conta-me em que pensavas enquanto sangravas na cama
E os teus filhos pequenos não esperavam que tu mais de oitenta um dia, por um pedaço
Tão pequeno de metal, até o homem mais forte é facilmente travado por um pedaço
De algo que pára as engrenagens do relógio da vida, e pára e parou, conta-me pelo menos,
Como foi daquela vez, em que fechaste os olhos e fizeste acreditar a todos, menos a mim, que morreste.

13.07.2013

Torre de Dona Chama


João Bosco da Silva