sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Um Daqueles Sobre Pouco

Houve duas noites, numa foi aquela das duas miúdas de Helsínquia, em que uma me disse
Tu não pertences aqui, e tudo  bem, conversa toda a noite, e no fim, eu e o meu amigo médico
Turco, fomos com elas até ao carro onde elas iam dormir depois, e depois dormiram,
A outra foi na mesma discoteca, eu e o meu Dean, depois de termos ganho uns bons euros
No blackjack, das poucas vezes em que isso acontecia, duas, desta vez mesmo da zona,
Uma delas não estava muito virada para a conversa, a outra sim, um loira, Lolita bem armada,
Com bastante leite para dar e beber, eu com a mesma conversa de ser velho, há quantos anos
Ando eu com esta conversa, a gaja estava louca para viver, para saborear, para experimentar,
Nem que fosse engolir o meu mijo, a outra, tentava esconder as queimaduras, consequências
Do seu trabalho, trabalhava para o palhaço que diz ajudar as crianças, a ficar gordas e
Futuros bipass, a mesma puta de hipocrisia que faz crescer uns à custa da miséria dos outros,
Miséria feliz, mas pronto, escondia os braços, as queimaduras a cona e tudo o resto,
Naquela noite uma santidade, não estava bêbado para o que quer que viesse, mesmo assim,
Ficou, sou vingativo quanto ao desperdícios de possíveis momentos de orgasmo, ou ao menos
Penetração, já há algo de revelação nisso, ou não, não se foderia tantas vezes bêbado,
Se não, ou sem vontade, se não, ou só para conspurcar, conquistar, submeter, vontade do poder,
Filhos da puta, vacas e viciados em glória para levar o caixão cheio de sapatos de verniz e um
Fato que nunca se vestiria em vida, seja como for, pagamos tudo, a noite ficou barata e ainda
Teve que se pedir o resto das fichas em dinheiro para levar para as hambúrgueres da tarde seguinte,
Manhã, nem pensar, não há manhãs nos dias livres de onde se é pago pelo trabalho que se faz,
A tal Lolita, muitos dias depois, pediu caralho, apanhou-me numa ressaca fodida,
Estou, neste momento a pedir-te para vires aqui, onde vivo, e foderes-me a cona até ao cérebro,
Impossível, realmente era impossível, naquela noite tinha um poema para nascer e responsabilidades
De fachada para poder dormir e acordar numa cama quente todos os dias, ou a maioria,
Nunca me perdoou pela recusa de piça, quando ma pediu, tão encarecidamente,
Quanto à amiga das queimaduras, é uma das loiras nos poemas anteriores, das que engoliam,
Pediam mais, fodiam nas camas das amigas, nas casas de banho enquanto os meus amigos
Tentavam engatar a amiga lésbica ou adormeciam com uma lata de cerveja na mão, no sofá,
Ao lado de uma máquina de escrever vermelha, que não escrevia nada, porque estava só
Para se ver, há muitas assim, por isso, mais vale pegar numa caneta e escrever no papel gorduroso.


26-10-2013

Coimbra


João Bosco da Silva
Demasiado Cansado Para Dormir

“Sit and drink Pennyroyal Tea
Distill the life that´s inside of me”

Kurt Cobain

Os versos fermentam no cansaço, amadurecem nos dias cinzentos
Entre horas perdidas, roubadas à exaustão, mas o sumo,
Esse vem do Verão, da seiva que escorre dos dias loucos,
Das overdoses de felicidade, quando se bebe para alargar a noite
E não para aliviar os olhos do peso dos tempos sérios e sem
Grandes horizontes verdes, as ovelhas ainda pastam na periferia
Da confusa cidade, que o Turner visita ao fim do dia para pintar o céu
De medo, os olhos procuram o alívio das pálpebras  vermelhas ao Sol,
Mas não há Sol, não para todos, é por essa razão que
Todos sonhamos , consumimos o açúcar dos sonhos para tentar
Embebedar os outros com a certeza de todas as nossas incertezas,
E um verso é uma confissão, mesmo quando vinagre, é o testemunho
Da doçura que o tempo transformou, como a ignorância em
Maldade, inocência em hipocrisia, o cansaço num sono impossível
De dormir e que os dedos tentam largar, letra a letra, como
As moscas desesperadas por causa da chegada do frio, procurando
Um sentido para levar toda a confusão à razão, já o mestre dizia
Que a verdade está na doçura, mas nem todos a conseguem
Saborear enquanto escorre pelos dedos, falta infância,
Na verdade, as lágrimas sempre foram mais reais que sorrisos.

Coimbra

25-10-2013


João Bosco da Silva

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Revolta Contra A Deglutição

Cansou-se e o forno não tinha gás, os óculos também estavam cansados e a carne
Esqueceu-se da sua utilidade redentora, achou que a solução era a eternidade,
Mas não sabia que a eternidade é onde ninguém vive, terra de imortais, todos os
Que vivem enquanto os mortais os inventarem ao acordar, nos mitos, nas religiões
Ou nas páginas de banda-desenhada, não sei que dor a levou a engolir tanto,
Devia ter distribuído lostras e broches ao sabor da vontade e do desejo,
Não me desiludiu, nem me impressionou, mas esperava uma manifestação
De vida, porque a vontade é de viver e é uma reacção contra a morte e o tédio,
Engolir o fim nunca é solução, engolir futuros, apesar de tudo, não apaga
Tantas luzes e desperta material anti-poético dos cemitérios que somos,
Cemitério de Valhalla em San Elmo, com um nome tão acertado, todos merecemos
Um lugar no cemitério dos heróis nórdicos, todos merecemos esperar o Ragnarok,
E cuspir nas entranhas do inimigo misturadas com as nossas, foi isto, fodeu-se,
Mas nada de adiar e engolir cobardemente um grito, grite-se se a vontade é essa,
Chore-se, mije-se, ejacule-se na cara, ,mande-se foder, cultivem-se cornos,
Colecionem-se DSTs, tudo acabará por ser poesia, mas sem poeta, nada feito,
Foda-se, acorda, tira a cabeça desse forno apagado, espera um cancro,
Um carro que te confunda com um vagabundo, cansa-te ao menos da cegueira do mundo,
Conhece-a até ao teu limite, já que ela não tem fim, mas fica comigo, fica aqui,
Onde a solidão se escreve em companhia, onde dormir quente é acordar frio,
Sonhar é desejar perder tudo para ter uma tela em branco, onde pintar sonhos,
Sem medo de perder, porque tudo foi perdido, tudo menos a tinta que é a vida,
Foda-se, não me percas essa luz que eu tanto gosto de fingir ser possível
À minha volta, a escorrer por mim, a envolver-me quente e ébria, contente,
Tu és tão grande, demasiado grande para uma morte precoce, envelhece por favor,
Envelhece-me a mim também, e se um dia tiveres coragem, daqui a cinquenta anos,
Ou tal, terei todo o gosto em entrar dentro da tua experiência e contar os teus anéis.

18.10.2013

Coimbra


João Bosco da Silva
Pão Fiambre Queijo Pepino

Não interessa que cheire a mijo e pão fresco na esplanada da
Pastelaria, nem que os idiotas se reproduzam ao ritmo das pombas
E comparem os grandes futuros que lançam na podridão de
Séculos, quanto mais parvos, mais alto falam, não sei como
Conseguem engordar com a dieta de telenovela de manhã
À noite, mas sobra-lhes tempo para cobrirem as pregas de mania
E olhares onde não está ninguém, carros estacionados,
Mas nada disto interessa, não desde que hajam as palavras
Terríveis das que as mães se queixam, não são para elas, nem
Por elas, são as hóstias que consagram os dias do inferno,
A água benta que lava os intestinos saturados de lixo, o cérebro
Atulhado de merda, não interessa o pançudo com o carro a condizer,
Que conhece toda a gente e não reconhece ninguém, não interessa,
Enquanto houver fome e páginas em branco para essa fome,
Haverá sempre salvação, não interessa que se aprove uma taxa
Para o ar, ou que obriguem o aborto a quem não tiver um salário
Capaz de permitir direitos fundamentais, como um BMW, não interessa,
Tudo está bem desde que haja pão de forma, fiambre, queijo e pepino.


Coimbra

16.10.2013


João Bosco da Silva

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Discurso Enquanto Mosquitos Chupam

Da injustiça incoerente diz-se que é o que temos, pela dos nossos padres, eramos todos,
Literalmente, ovelhas vestidas de freiras com o rabo alçado, tudo o resto é pecado,
O que está fora do alcance dos seus bolsos e braguilha, na verdade somos vacas
Num matadouro, prontas a enriquecer uma multinacional e engordar muitos burros de morte,
Falta harmonia neste estrume, traçam-se linhas rectas sobre o horizonte recortado pelo tempo
E espera-se com isso tornar tudo mais habitável, mais controlado na verdade, ilusão,
Tudo é à imagem e semelhança do dinheiro, um geometria para olhos brutos, cegos pelo
Brilho frio do ouro, daltónicos para as cores da geometria divina das coisas pequenas,
Há uma grande lição na  Ishavskatedralen em Tromsø, algo que os bárbaros do Sul nunca
Conseguirão compreender com a sua visão moldada em forma de cruz e claustro, por cá,
Desiste-se da montanha a meio, divinizam-se as putas e elevam-se os verdadeiros ladrões,
Falta canonizar os assassinos imunes e indiferentes às fomes que espalham pelas vidas,
Cada vez menos livres, cada vez menos livros, cresce a estupidificação em massa,
Vestida de loiro artificial, mamas de revelação rápida e pernas de abertura fácil, tudo com
O software de um tamagotchi, somos quadrados e agudos, confundimos depressão com
Profundidade, reflexão com preguiça, anémico com anímico, inúteis pedantes cheios de
Certezas válidas apenas nas próprias loucuras mal diagnosticadas, no tabuleiro pessoal
Do Monopoly, somos o país do Sol, onde se é sombrio todo o ano, o escroto estéril da Europa,
Ainda cheio de si e das recordações de fertilidades antigas, aqui fode-se por número e por
Submissão, por favor a favores, não se espera o orgasmo como recompensa, mas que seja
Breve e que venha rápido o que se espera das calças aos pés da cama, sempre com um saldo
Ridículo e humilhante na tolerância às papilas gustativas e olhares frontais, capital dos sorrisos
Amarelos, das amizades da pança cheia e dos cornos afiados de perto, dos olhares de esguelha
Em direcção ao lado da braguilha, se fosse alguém, queria ser norueguês e descobrir o Novo Mundo.

11.10.2013-15.10.2013

Torre de Dona Chama – Coimbra


João Bosco da Silva
Atacador

O que enlouquece, não é a morte de alguém
Querido, ou a doença, não é o abandono, ou o esquecimento,
Não é perder um amigo, o que enlouquece é o autocarro que se atrasa,
São os taxistas com a sua pressa de fazer pouco,
É uma linha que se transforma numa corda ao se aproximar da agulha,
São as filhas da puta das rotundas, onde todo o civismo
Converge, voltas para logo ali, ou lado nenhum,
O que enlouquece é a prisão aberta em que se vive, cheia de olhos
Para fora, inquisidores sem pecados com os bolsos cheios de pedras,
O que enlouquece é acordar tarde, abrir o frigorífico e não ter
Nada para comer, com dinheiro na carteira, para pagar contas
De merdas que não se chegarão a usar, o que enlouquece
É engolir a vontade saudável de ser homem e esconder nos lençóis
Os sonhos que matam mais um pouco ao se acordar,
O que enlouquece não é sobreviver a um grave acidente,
É ter um furo, no meio do trânsito e sentir-se completamente só,
É não ter um euro para se ir cagar à casa de banho, numa cidade
Grande, cheia de arte, cultura e gente sem cu,
O que enlouquece é ter a loucura aprisionada,
Esconder a luz e andar pelo mundo às apalpadelas,
Ter um cigarro e não ter isqueiro, beber no silêncio,
Dormir com os pés quentes e sonhar que se fode,
Estar a um metro quando falta um metro, mastigar e não engolir,
Não conseguir arrancar um pêlo com a pinça e ter que o arrancar
À dentada, ter perdido o que se poderia ter tido,
O que realmente leva a caçadeira à boca, ou os comprimidos,
Não foi a porrada que se levou, é o silêncio numa noite
De Lua cheia, um tecla que se falha no fm de mais um poema.

Coimbra

João Bosco da Silva


08.10.2013

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O Principio De Incerteza Do Fim Certo

“Na minha vida, a única coisa certa é a confusão.”
Pedro Juan Gutiérrez

Podia ser um fim de tarde quente de Junho, perto do fim da inocência, na esplanada
Do café perto da escola, a beber uma Frize limão a falar do que não se conhecia, o desconhecido,
Que na altura se chamava de futuro e era visto como algo branco, uma página, à espera
Da nossa vontade, do nosso esforço, das nossas cores, hoje já se sabe, que o desconhecido
É algo escuro, dominado pela sombra, só a incerteza é comum, sem pinga de optimismo,
Falava-se dos livros que se iriam comprar, quando se vivesse na cidade, sem as limitações
Do que está à mão e toda a gente lê, a época de Nietzsche, Schopenhauer, Sartre e
O agradecidamente obrigado Ferreira para os apagões das primeiras insónias, podia ser um
Fim de tarde quente de Junho, mas não é, nem há esplanada, nem os velhos amigos, cada um
Cada vez mais outros que eles mesmos, os anos ainda trazem vida a alguns, vida e brinquedos
Espalhados pelos corredores, os que nunca se tiveram na infância, podia estar a beber uma Frize
Limão e esperar tranquilamente pelo tudo ir dar certo, mas não, bebo um gin tónico com
Pepino enquanto a noite arrefece o dia de Outono e espero, inquietamente, por um pouco
Mais de nada, que o desconhecido se revele num mais ir andando, são as palavras possíveis,
Vai-se andando, tudo na mesma, e a vida, vai, enquanto for menos mal, desde que as curvas
Da estrada se façam, desde que a dor vá passando e haja ao menos um dia ou outro para
Enfiar a cabeça num copo ou numa garrafa e lembrar alto o delicioso que era o pouco que se
Tinha nas mãos, quando as mão capazes de segurar em tudo, ilusão, as mãos mal aguentam
Mais uma noite, escorre pelos dedos e no fim, pouco mais fica que um bocejar amargo ao
Longo do dia, procura-se num livro a inocência que se deixou esquecida na cadeira daquele café,
Mas os livros, cada vez mais, são reflexos do desencanto, uma reclamação às promessas que
Nunca nos foram feitas, uma lista de tudo que nos foi quase dado, das lições que, essas sim,
Nos foram oferecidas à força do chicote e da humilhação, é para aprenderes, agora lê-se,
Não para encontrar, mas pela companhia, agora bebe-se com Bukowski, vai-se ao engate
Com o Miller, viaja-se com o Jack, mete-se com o Will, fuma-se com o Juan Pedro,
Consulta-se o Dr. Thompson sobre os malefícios do tédio, às vezes procura-se um pouco
De ar num poema nórdico, ou a familiaridade num romance finlandês, revisitam-se os museus
Que no café da terra faziam parte de sonhos, os quadros que só nos manuais de educação visual,
Até o professor morreu, mas que esperar, se o gelo do gin já derreteu e o copo transpira como
Se em privação de álcool, sei que o mestre continua a visitar o café diariamente nos dias de aulas,
Porque os mestres são constantes, atingiram um nível máximo de fidelidade, o devir é algo certo,
Constante, e já se sabe, que quando se abrir a caixa o gato poderá estar morto, portanto,
Seguem, com a certeza de um gato dentro da caixa fechada e nada mais, o resto é levar o dia à noite,
Porque a família em casa espera e tudo o mais é esquecimento, um aluno que um dia não
Esperou ser tanto, nem tão pouco, tão menos daquilo que os olhos lhe prometiam,
Do verde, resta o pepino no fundo do copo e daí nem isso, que também o mastigarei,
E amanhã de manhã, será mais um verso, sobre isto, o principio de incerteza do fim certo.

Coimbra

07-10-2013


João Bosco da Silva

sábado, 5 de outubro de 2013

De Um Brinde Poético À Distância De Um Abraço

A distância asfixia-nos, mas não aquela que traz horizontes escurecidos pelos anos,
A distância dos horizontes verdes, dos verdes anos, ou simplesmente do tempo
Que apenas embebedava em vez de afogar, esmagar, semear o prateado indesejável
E as curvas que toda a gente quer ocultar, bebe-se demasiado mas nunca se bebe
Quanto a sede merece, tantas lágrimas engolidas no durar em que o viver se torna,
Entre goles com vontade e aqueles que têm que se engolir, entre uma gota de mel
E mais uma descarga biliar, o verde amargo da esperança que corrói os intestinos da alma,
Ao ponto de não se poder absorver mais os dias de Sol, com os mesmo braços abertos
De antes, o sorriso é um reflexo para responder socialmente ao que se espera,
Lê-se tanto, porque se tem tanto para dizer, mas o medo de se acertar na cadência do coração
Impede a língua o que os dedos consentem na solidão, entre a primeira e a última cerveja,
Gostava de conseguir espremer o limão, fazer sumo, simplesmente, e refrescar a alma,
Mas sempre que me dão limões, faço gasolina com eles e incendeio as páginas em branco,
Engulo o ácido destilado à sombra da solidão e da noite e vomito tudo em forma de salvação,
Uma mapa da perdição onde me encontro, onde por vezes me parece que também tu estás,
Poeta, não o meu espelho grotesco à moda do retrato de Dorian Gray, mas tu, simples e
Inocente, até mesmo no amor ébrio dos sofás da madrugada, purificado, água de um glaciar
Que agoniza com graça, ensina-me a ser menos poluído, a engolir o tempo com calma,
A beber menos o que me encurta o tédio e me alonga os versos, tu sabes, a ser menos eu,
Mas é esta distância que nos aproxima, porque também o espaço é relativo, e muitas vezes
Vamos contra as suas leis, já que estamos tantas vezes no mesmo ponto sem a confirmação do olhar,
Ou do estilo, ambos no mesmo ritmo que nos leva e lava, bebemos como vivemos.

06-10-2013

Coimbra


João Bosco da Silva

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Carta A Poema

Crias na tua aborrecida rotina doméstica, realidades improváveis
Em forma de difamação, estando tu tão certa da própria desilusão,
Crias utopias que só tu não entendes, páras de ti com mais um
Cigarro e no fumo vês-te a chupar a ilusão e o desejo, com as
Mesmas ganas que usas para  masturbar e escrever, só, devias
Dar-te mais, nunca te disseram, ao menos à vontade, sempre te foi
Fiel aos dedos, sê mais carne, deixa as palavras, cada um dá-lhes
A cor e o valor que quer, a beleza é o que é e mais nada, e é tua,
O suspiro é universal e o orgasmo é a única moeda que nunca
Desvalorizou, não é que eu queira que me pagues a amizade, mas
Podias aceitar um agradecimento viscoso, sincero e ilícito, pela
Tua voz de vela de cemitério e sonho gótico ganzado, não penses
Que te ficarei a dever, não um poema, que apesar de, preferi o
Olhar de esfinge ao espelho, quando o espelho um bruto, eu, o que
Desejaste foi o teu reflexo selvagem ou então a submissão ao
Magma antes de se tornar pedra, sólido, seguro, duro e irreversível
Como o tempo demasiado tarde, é algo que não existe, é como a
Morte e o não podemos, quando vivos e na idade do agora porque sim
E chega de não, a eternidade já te negará tudo e a idade trará
A escassez hormonal, apesar de cada vez conheceres mais gente,
Cada vez menos terás contigo a gente que interessa, esquece
O Nilo, eu já o atravessei de uma ponta à outra, literalmente, e não
Me lembrei das civilizações, dos amontoados de pedras, dos deuses,
Do início da escrita, mas dos cadáveres que aquela água já lavou,
Caga no simbolismo, no misticismo e na depuração de legista, confesso-te que
Três meses sem tesão, depois de ver os órgãos reprodutores femininos
Numa caixa transparente, o champanhe sabe melhor sorvido
Dos lábios de uma cona quente, a morte só me inspira por revolta,
Nunca por simpatia, esquece os baús bolorentos, cultivados com,
Quem sabe quem, esporos bem recentes, por fungos ladradores, ignora,
A geada é má para os cogumelos, por isso apanha-os nos dias húmidos
Nos fins de semana da época da escola primária, compreendes,
Foder com inocência, sem o apodrecimento induzido pelos santos
E pelo catecismo, se ao menos as catequistas a tua voz ardente
Num quarto escuro, ou num palheiro em Julho, a poesia tem que vir
Depois do poeta se vir, mas que sei eu, que com os meus escassos anos
Não fiz mais nada a não ser viver, que outra escola tiveram os
Meus ídolos, que bem conheces, pinta-me antes a mim com a tua
Vontade psicadélica de sacrilégio e pecado, usa-me depois como vírgula nos
Versos dos teus piores poemas, ou na ponta dos dedos debaixo do
Chuveiro, que é quando és realmente tu, só tu e só aí, podemos estar
Juntos, ou nas gotas de uma janela num dia húmido e triste,
Usa-me como o cotovelo na mesma janela, embaciada, abrindo
Um pequeno buraco para o mundo onde vivem os vizinhos, ou melhor,
Esquece-me, para eu poder recordar-te com aquela saudade única
De quem passa sem ter deixado nada, de quem passa e leva tudo,
Pesadíssimo e no fim, nem a palavra esquecimento, a mais horrível de todas,
A que torna a vida tão injusta, não te aborreças mais, ignora
A louça suja, a cama desfeita que há semanas nem gota de sumo ou
Leite, não te esforces por alinhar o naturalmente irregular que só os
Outros vêem, deixa a métrica para os quadrados, vem, vem-te muito.

Coimbra

03.10.2013

João Bosco da Silva


(TA contessa 2 de luxe)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Reminiscências Crepusculares

Há meses que não via um horizonte tão limpo, hoje morreu muita gente e pelo menos
Um poeta, porém, os tractores regressam poeirentos, as moscas adivinhando o frio,
Pedem a atenção de uma mão e há já uvas comidas pelos pássaros, um gato vê-se tentado a
Provocar um escorpião, mas logo se arrepende, o horizonte tão limpo, a canícula desfeita,
O gato vencido, todos vencidos por outros horizontes cortados pouco depois de jantar,
Um poeta que não escreverá mais, contudo, carros com bandeiras com as cores de sempre
Mentem às ruas, promessas de um dia, para um dia, a democracia nesta terra é tão estranha
Quanto a moral católica e o respeito às tradições convenientes, mesmo assim, os pimentos
Amadurecem, vermelhos como os lábios e a máquina de escrever de uma Aliide Truu jovem,
Finlandesa, como a do filme Puhdistus, prefiro o livro, porque lhe dei a cara que quis e os
Lábios sempre vermelhos, menos quando nos meus dedos, a voz rouca dos cigarros e de quem
Gosta de engolir esperma em ruas desertas e nos quartos das amigas quando elas não estão,
O horizonte tão claro como o passado, tão vivo como o vermelho a pedir mais dentro,
Enquanto vozes como moscas a incomodar com a proximidade do frio, agora resta esperar
Que os figos sequem, que alguém ganhe para alguém ser derrotado e acabar com o ruído de
Fundo que apodrece as uvas, assusta os gatos e decompõe poetas, de quem afinal, toda a
Gente gostava e admirava, não me pronuncio, prefiro evocar a morte dos momentos vermelhos,
Atrás dos olhos que o horizonte ignora, lavo-me nas águas limpas de um poema sueco ou no
Tanque de lavar a roupa debaixo do marmeleiro, ambos vivos, o sueco e o marmeleiro, mais vivos
Que os altifalantes diluídos pelo crepúsculo e reduzidos ao incomodar das moscas, chupadoras
De sangue, que adivinham que o frio está para chegar que o Inverno não tarda e será longo.

Torre de Dona Chama

23.09.2013


João Bosco da Silva 
Dívida De Lágrimas

Um dia, quando for possível, dar-te-ei todos os momentos dos dias em que tive saudades tuas,
Agora, continuo no tempo do silêncio, que dizem curar tudo, mas mais parece sal nas feridas,
Se te deixei só, à geada, não foi para que te doessem as orelhas e o nariz, foi para me veres
Mergulhar no Inferno que foi crescendo na escuridão dos anos que fui somando, não tenhas
Pena de mim, as recordações sempre me salvaram, não me invejes, as recordações sempre me
Salvaram de viver, quem parou a música, não sei, mas não pares de dançar e de chorar à flor
Da pele com a alegria quase impossível nessa palidez de infância interrompida, tenho pena por
Te ter dado nada, nada que te tenha tornado melhor, consumi-te os melhores anos,
Plantei-te rugas e flacidez, fui muitas vezes cego ao corte de cabelo para evitar certos
Mal entendidos, no fundo perdi-me mais do que o que te perdi, trago comigo tudo o que
Foi comum e o arrependimento secreto de ter criado certos segredos, é que sabes, a vida
Aborrece-me, sempre me aborreceu e a felicidade estável, chupa-me o sangue e a luz dos dias,
Perde logo o sabor e torna-se em tédio e tenho uma compulsão em tornar o Inverno dos dias
Lentos e pacatos no Inferno caótico de baloiços ao lado de cemitérios e conas infectadas
Sem nomes para a memória me acusar de negligência, mereço todas as humilhações que o
Futuro me reserva, todas as vezes em que me deixaram fora, mas também, tu sabes que nunca
Planeei em tornar-me mais velho que o Kurt Cobain, por isso me fizeste prometer sobre uma
Despedida que evitaria cordas, facas e lâminas, comprimidos, e caçadeiras, só não falaste
Do tempo e da sua relatividade e letalidade, um dia, pouco antes de ser demasiado tarde,
Entregarei à Primavera explosiva todos os sorrisos que te fiquei a dever, dar-te-ei todos os
Momentos dos dias em que tive saudades tuas e que em vez de te dizer, bebi, escrevi ou
Engoli como se fosse possível esquecer-te, antes do chumbo abrir as sinapses na eternidade.

19.09.2013

João Bosco da Silva


Coimbra

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Palidez De Um Black Label 3

Preciso de ti Johnnie Walker Black Label, salvador de todos os perdidos em mapas
Desactualizados, alimento das almas cansadas do cansaço da vida a arrastar-se nos
Dias de neve e peso bolorento, ergo-te à Lua para que me apagues o desespero
De uma solidão impossível, as ruas fervilham de certezas e todos morrem num silêncio
Constrangedor que revela a sua verdadeira natureza quando os esfíncteres finalmente
Cedem às evidencias e as aparências, o brilho rapidamente ferrugem quando o latão
Deixa de ser polido e chamado de ouro, engulo-te ó companheiro de outros poemas
De paralelos, outras descidas ao fundo do poço de carne e osso chamado memória,
Que tudo engole e tudo ama enquanto cai no esquecimento infinito, espera-se
Que os avôs nos abracem com o seu hálito a vinho, nos lábios roxos apagaram-se
Todas as histórias e não se adivinha um dia de copos vazios, mas a ausência de vida,
Nunca acreditarei no Pablo Com Roupa de Arlequim à beira de um Stendhal em Helsínquia
Numa das visitas de Picasso aos nórdicos, não fosse o reforço das vitaminas B e julgaria
Que tudo não passaria de um sonho, ou uma psicose de Karsakov, que acaba por ser o mesmo,
Por isso preciso de ti, porque me faltam sonhos e a memória promete-me nuncas mais,
Como tudo o que a memória promete, o vazio é grande e precisa de ser preenchido por
Ilusões de ouro e uma pedra de gelo ou diamante, os cães também já não ladram,
Os caçadores mataram-nos, os incendiários mataram os montes, no fundo, todos me mataram
Um pouco, as veias arrefecem com o que corre lá dentro, eritrócitos, que nunca gostei da palavra,
Hemácias que sabem melhor, com um pouco de vinho do porto e dois artistas, um só de vida
Outro também de fazer na vida, agora hemácias secas, falciformes, sabe-se lá em que
Entroncamento a bruxaria se fará, entretanto, traz-me um pouco do menos que fui,
Que este acumular de mais uns anos, apagou-me o brilho infernal que durante muito tempo
Mantive aceso à força de muitos sopros de ferreiro de martelos sagrados, ergo-te, copo vazio.

18.09.2013

Coimbra


João Bosco da Silva
Visita A Koroisten Piispankirkko Com Tranströmer E Carpelan

“The heart does not accord
with its bounds,
nor the poem with reality,
nor reality with God´s dream.”
Bo Carpelan

Ao ler  Gläntan de Tomas Tranströmer lembro-me de Koroisten Piispankirkko à beira
Aura, a erva também milagrosamente viçosa, uma cruz branca a anunciar que o agora
Nu, em ruínas, uma mandíbula desdentada, antes um templo, rodeado por mais uns amontoados
Pálidos de pedras, incrustadas no solo verdejante de uma Primavera explosiva,
Antes a capela do bispo, emuralhada por uma paliçada absorvida pelos anos, com torres para o rio,
Reduzidas à estranha sensação de nostalgia que as ruínas evocam, já não saltitam por lá galinhas
À espera da faca no pescoço, só crianças pequenas acompanhadas pelos jovens pais,
Casalinhos sentados nos bancos com as bicicletas à espera de outras distâncias que não
As do tempo, todos parecem ignorar a informação em finlandês e sueco, o resto adivinha-se,
Uma casa de deus, onde parece que também eu já estive, de alguma forma, além das vozes
Que ouço, da língua que reconheço e compreendo, parece-me ouvir outra que reconheço,
Mas não compreendo, a língua de Tranströmer ou melhor de Bo Carpelan, que conheci uma vez
Numa revista e melhor conheci a sobrinha-neta, que diz que pouco se relacionou com ele
E eu ainda conservo dele a necrologia de um recorte de jornal, o mesmo sinto quando a encontro
Por acaso, dentro de um livro, o mesmo que sinto ao pisar os alicerces da Piispankirkko,
Muito diferente do que sinto ao tentar traduzir um poema meu, numa noite de bebedeira nórdica
À sobrinha-neta do Bo Carpelan, que só pensava em tê-lo dentro, e continha-se pelo
Interesse da amiga e o seu fascínio pela minha roupa interior a secar na cozinha,
Onde estará o tal bispo a estas horas a secar a sua roupa interior, “só os arquivos é que envelhecem”,
Mas também só o corpo que arquiva tudo envelhece e ao contrário do suporte dos arquivos,
Morre ao mesmo tempo de quem o registou, só ficarão os fantasmas projectados em amontoados
De pedras, num alto, à beira de um rio antes sueco, sempre humano, tanto meu como
Tudo o que um dia levarei comigo, toda aquela água em direcção ao Báltico, em direcção
Ao esquecimento, ao desaparecimento de tudo, menos das pedras-alicerces.

“Não procures na erva muda, procura a erva muda.” Bo Carpelan

19.09.2013

Coimbra


João Bosco da Silva
Purga

A caminho de Rantasalmi onde me espera um gelado no fim da tarde, uma traição
Com a amante de cavalos e um susto de filha que muitas vezes suspiro por quase
E não ser, o gelado derrete para os dedos, os bêbados começam a estar, podia-se
Beber uma cerveja, mas lê-se um pouco mais de Antunes enquanto se espera que
O talento venha, isto não passa de uma preparação para, para na verdade, nada,
Acabou o tempo a caminho de Rantasalmi, a minha mãe já dorme mais descansada,
Porque apesar de eu nunca tão distante, sabe-me perto, longe dos russos e do
Perigo além fronteiras, quando é cá, que mais me temo e menos me sou, perduro,
Sem ter aprendido este sacrifício de Sol, esta expiação de pecados inventados
À luz da lareira, estes modos de ser educado com uma alma bruta e pequena,
A caminho do útero mais quente, onde me purgo de todos os pecados por omissão,
Por pecar, e o desperdício de vida que acarreta esse ficar por pecar, engulo o vinho
Da eucaristia luterana, sangrada sabe-se lá a que distância, as searas prepara-se
Para as grandes máquinas e no Sul sua-se um suor barato e criam-se uns calos
Que ninguém vê como necessários, cultiva-se o culto ao sacrifício desregrado
E inútil, buscam uma tristeza feliz no pingo de cera que dói, mas que de um santo
Qualquer, uma cona ejaculadora lava melhor os pecados, especialmente se
É de nenhuma santa, de uma mulher real, mesmo que sem nome, dança-se
Na escuridão a medo dos olhos, tem-se tanto medo dos olhos, e da língua dos olhos
Nesta terra de cobras, a caminho de Rantasalmi, sentado numa recordação sentado,
Com o fascínio que se ignorava de uma ruiva pálida que acreditava que o diabo
A dormir num banco de autocarro, o diabo que ela queria ter dentro e engolir
E sentir até doer, no adro da igreja de Savonlinna, enquanto a madrugada se desfaz
Em cigarros e promessas em forma de despedida e nunca mais, regressarei, a mim.

18.09.2013

Coimbra


João Bosco da Silva
Desconsolos Sobre Melancolia

para o que se perdeu,

Senta-te e espera, dá um avanço ao cigarro, deixa o fumo vaguear, não te apresses,
Já não vais a tempo, as ideias que valiam a pena, ficaram esmagadas por mais um gesto mecânico,
Tu, no fim de contas, não és nada, não há olhos para te verem, não há dedos que mereçam
Sujar-se com a verdade que tentas arrancar dos becos viscosos da alma que construíste com
A lama das noites frias, aos poucos, esquecem-te e arrefeces, como uma profundidade
Que nunca antes tinhas sentido, e ainda dizem que isto é um país quente, de língua,
Quente como são quentes as pedras pequenas ao Sol, que servem só para incomodar
Os pés vivos que querem caminhar em direção a algum lado, de dentro, de fora para dentro,
Não te canses, morreste mais do que o que poderás morrer se te queimarem as inutilidades
Dos dias passados para aguentar mais um dia, a madrugada mal te reconhece, mal lavaste
Os olhos e já te apetece adormecer e esquecer o que te tirará o sono da noite que te cresce dentro,
Faz falta que te percas, uma vez mais, seja em quem for, onde for, mas perde-te, ou estarás perdido,
Não há asas para bater, só punhetas em honra a sortes melhores e esquecimentos sinceros,
Nem te sentes, não vale a pena, entrega os manuscritos às mãos da tua irmã e pede-lhe
Que sejam engolidos na lareira da tua infância, também nunca deverias ter ganho pêlo
Nos tomates, agora confundem o tamanho de uns com sonhos, não te mexas, exigem de ti
A concentração de uma pedra e tu engoles, o vazio de uma boca seca, com medo de perderes
A miséria a que por favor te submetem, perde-te, só assim darão por ti, só assim dirão que tu
E mais nada, que falem, que rebentem de nojo e inveja, a liberdade incomoda como a merda,
Daí ser tudo tão limpo neste país de cus de ouro, despe-te também, enquanto transferes o vazio
Para umas garrafas familiares, olha que o cigarro não dura sempre, nem tu terás essa falta de
Motivação que te leva a soprar o castelo de cartas de cada vez que te aborrece o tamanho
E a ordem da desordem, dá-lhes a morada para que te enviem a vontade que sem tocares nascentes,
Não esperes pedrinhas contra a janela quando a noite se esqueceu de te incluir nos seus planos,
Ninguém espera nada de ti, a não ser cumprires o papel de fazer os outros sentirem-se maiores
Nas suas vidas de suicídio mal solidificado, levas um cinzeiro de vidas bem fumadas
E até isso incomoda os cães que nunca perderam o instinto territorial de mijar e esgaravatar
A aridez onde cagam e comem, roem ossos de impérios e nomes de família, os teus montes
Ardem e a infância reduz-se a dez dedos incapazes de acompanhar a saudade e tudo fica.

17.09.2013

Coimbra


João Bosco da Silva

Poema lido por Sara F. Costa: https://soundcloud.com/sara-f-costa/poema-de-joao-bosco-da-silva 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

Regurgitações 3

As uvas amadurecem, ou como o vejo, apodrecem no seu doce, uma implosão quente,
O Sol troca a tarde pelo crepúsculo como quem troca Os Maias e os cães ladram nas ruas
Estreitas onde poucas mentes mais estreitas passam, em direção à pipa ou à mulher
Embrutecida pelos anos, ou ao homem embrutecido pelo encornamento e o fumo lento dos
Cafés ou das lareiras no Inverno para o fumeiro e outros chouriços, tudo parece tão distante em
Setembro e mal a cinza assentou, mal o fígado se repôs das longas noites para nada,
Sanita abaixo, cona adentro, alguém racha lenha e dá um peido, despedidas que já
Arrefeceram, ninguém aprende que nunca se volta quando o tempo não se pode rebobinar,
Fica só o vazio e a separação, o lagar aguarda o esmagamento que é o Outono, sangue para o
Arrefecimento gradual do sangue, ao ritmo do encolher dos dias, as motas Zundapp e Sachs
Tentam arrastar-se a tempo do jantar, o fim sem consolo do final do dia, o mais certo
Que se leva é o sal na pele do suor que entretanto secou, o sino da igreja de Tromsø dá as oito
Horas da noite, a madeira não crepita, cansa-se do pragmatismo nórdico, em Helsínquia a
Catedral lava-se da cor rosada do fim do dia e o Inverno não tarda, tão longo, por cá fermenta-se
O que se fodeu sem nome, a vontade, aniquila-se, o sentido sem direção, as crianças vão aos
Lodges cheios de turistas buscar água para o fim do dia em Maasai Mara, os russos continuam
A ser os maiores sob a barba de Dostoievski e o Hotel Chelsea espera pelo vinho azedo de tantos anos
Espremidos pelo tédio e desespero, é o desprezo que mais dói, onde se escreverá a sangue
A última linha, sem ponto final a rematar a diarreia desta gastroenterite apanhada pelos sentidos
E pela sensibilidade à despedida das andorinhas, as de Fevereiro em Nairobi, mais silenciosas,
Com medo do Sol e das águias com olhares de colonizador inglês, o Saimaa já lavou tudo
O que se trouxe e este ano haverá pouco vinho, que se foda a fermentação, o Sol emagrece os
Olhos de sede e Miguel Torga, jaz, silencioso, numa estante de livros que despiram mais do que a sauna.

Torre de Dona Chama

08.09.2013


João Bosco da Silva

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Super-homem Regressa A Krypton

Os dramas dos santos patéticos, donos das suas certezas, leis próprias e deuses absolutos
Da moral certa e da verdade em questão, fazem-me rir e irritam-me o intestino grosso,
Que sabem estes bebés, com pêlos nos genitais, de infernos, se nunca cortaram à dentada
O cordão umbilical, não sei para que os ouço, há quem prefira os dramas das telenovelas,
Ou das vidas das velhinhas nos programas da tarde, eu ouço por passividade, tirei os óculos
E assumi que o super-homem regressou a Krypton e deixou o super na terra do Sol,
Mais um qualquer que tem que se fingir impressionado com o tédio da vida correcta dos
Outros, que dramas, que sofrimentos, nunca engoliram metade do sangue que eu engoli,
Nem enfrentaram racistas psicóticos sobre influência de drogas tão sintéticas que fazem
A cocaína parecer um filme noir, mas quem sou eu, sozinho não posso fazer nada,
Nem com as palavras, julguei ser capaz de fazer parte, mas entretanto, a sinceridade
Da libido afastou falsos profetas de amor livre e outras teorias bonitas quando se têm
As cuecas no lugar e as mãos nos próprios bolsos, e ouço-os, com o mesmo tédio com que
Corto as unhas, porque crescem, porque é a vida, porque os dias passam e somam-se
Aos que passaram e confundem-se na repetição e bebo o vinho na mó de baixo,
Sem qualquer dor de dentes, que muitos tornariam num drama digno de um romance
Premiado, geralmente são esses que levam o reconhecimento dos patetas pela sua
Abordagem fiel e sincera da mediocridade, da vida superficial e estéril, nem uma palavra
Merda, aqui me cago, e ninguém se espelha, porque aqui há demasiada gente sem cu,
São todos boca e falinhas mansas, todos punhetas engolidas a medo e fodas projectadas
Em sonhos de almofadas de aloé vera, ouço-os com um sorriso que se confunde com
O horizonte nauseado de um crepúsculo de incêndio, acendo um cigarro e queimo
O futuro para que se misture com o passado, para tomar algum corpo para aguentar
A passagem, até à hora da morte, sem pecados, só o que os outros apontam com dedos
Demasiado limpos para quem diz que tem vivido, esqueço o que terei que lembrar e engulo
Mais um gole de vinho, na mó de baixo, ignorando o moinho que me gasta os dentes da paciência.

Coimbra

02.09.2013


João Bosco da Silva