sexta-feira, 28 de maio de 2010


A Neve Que Fica

onde o Neva entra no Báltico

Ao lado do caviar dígitos que nunca mais acabam,
A carteira gorda de rublos, tantos para tão pouco,
A mulher da mercearia a gritar lentamente as palavras,
Que continuam a não fazer sentido,
Tanto barulho por um sumo de laranja,
Sim, sumo de laranja e só se compreende um indicador
A apontar um pacote entre muitos do mesmo,
Nada mais, um indicador que deve vir do tempo de Babel,
Antes das línguas kalashnikov a disparar no ar frio sem parar.
A campainha avisa os sorrisos, escassos pelas redondezas,
Que se acendam, a custo pelo frio que vem da rua,
Garrafas pelas prateleiras, escondem as paredes,
De todas as cores, de todos os tipos, de todos os sabores,
Um arco-íris para cegar, para enganar o frio,
A escuridão das ruas quase agrestes, lembram mansardas
Apesar de largas, o tamanho comprime os sentidos,
O tamanho do maior país do mundo que sempre esmagou os vizinhos.
As ruas quase vazias no seu tamanho difícil de saturar de gente,
Com gente nas paragens à espera, com um ar amarelo e triste,
Com os seus casacos de acordo com o vazio da sua carteira,
Gente que sai quando a luz arrefeceu e se suspende em cabos,
Vão para o trabalho, regressam do trabalho, desiludidos,
Pelo que se pode ler nestas horas de crepúsculo já apodrecido.
Os travestis perseguem quem passa uns metros
Lançando no ar envolvente a provocação de um cheiro híbrido,
Os Ladas passam, quase latas de sardinhas com rodas,
O gordo feio mais pesado que a carne pelo ouro que carrega,
Leva a sua cadela loira, de casaco de pele, mini-saia e botas de salto alto,
Vinte anos mais nova que ele e eu revolto-me com o amor pelo papel.
As salas de jogos com os seus neons a dizer que dentro calor
E o transsexual, demasiado apetitoso, do qual fugimos, a entrar atrás de nós,
A moeda cai e nós saímos de imediato,
Ninguém a querer admitir que tinha umas nádegas que convenciam o toque a cair-lhe,
Ele a olhar para trás arrependido da moeda que perdeu.
Não se encontra um bar, um café dos que estão habituados os do sul,
Uma provável striper convida-nos a segui-las, ia para o trabalho,
Na esperança de mais uns rublos de reconhecimento pela sua ajuda,
Mas afinal o bar tinha um ar pouco seguro, numa cave, de uma rua ainda mais escura,
Nós não, obrigado, bom trabalho, continuamos à procura,
Cartão de membro, pedem os armários à porta, negros por dentro e na roupa,
Membro por uma noite, para isso o hotel com o cemitério em frente
Onde dorme Dostoievsky, com a escuridão apagada no coração.
Na zona dos elevadores as prostitutas esperam a clientela que desce só,
Para subirem com companhia e há de tudo:
Velhas, jovens, demasiado jovens, demasiado velhas,
Várias gerações no mesmo negócio de descarga de peso, assassinas da solidão,
Loiras, ruivas, as ruivas, aquela ruiva se me sobrassem rublos
E me faltasses escrúpulos, morenas, altas, baixas, gordas, magras, das que só à dentada.
Subimos com a porta automática do elevador a fechar-nos os sorrisos
Depois das negociações para amanhã, quando já lá não estivermos,
O bar à espera e mais duas, com um menú de serviços,
A fingir que vestidas com vestidos transparentes a deixar ver os mamilos
Que se adivinham rosados e quem sabe com hálito do último cliente,
A linha fina na púbis a indicar de onde vem a motivação para quase tudo na vida,
Um belo par aquele, irmãs, quem sabe, parecidas sim
E os escrúpulos e as garrafas de vodka ainda cheias a tornar a noite sem sal,
Sem aquele sal daquela pele pronta a tudo,
Assassinas da solidão, da escuridão, da noite e do frio da antiga capital.
Sabemos que depois haverá festa no nosso andar,
Com americanas, francesas, alemãs, italianas, belgas, suecas...
Os quartos esperam e a vodka espera o convite para desculpar
Um assalto ao corpo alheio, pagando o prazer com o prazer,
Que assim é que deve ser. Os seguranças vêm e acaba tudo mais cedo,
Cada um entra aleatóriamente para uma porta aberta atrás de um cartão magnético
E assim se faz um destino, o de uma noite,
Poucas semanas antes do atentado checheno, os tais vizinhos esmagados,
Tanta arte e tão pouco respeito pelos autores, a humanidade, cansa-me.
A ressaca acompanham a dança de Matisse, tão longe da primeira vez,
No livro de educação visual e tecnológica, tão grande que Síndrome de Stendhal
E eu sem saber se aquilo real, se eu a sonhar há muitos anos,
Tão pequeno lá no país da minha língua.
A carteira emagrece, quero lá saber, não quero sair daqui com um rublo,
Não posso sair daqui com um rublo,
O resto é encher os bolsos de recordações,
Como os bolsos vazios do espanhol que nos veio dizer que alguém lhe tinha pedido a carteira,
Menos mal que foi a carteira,
Podia ter lá ficado ele, numa daquelas ruas geometricamente perfeitas,
Cheias de turistas cegos pela fascinação, quase como estar em Paris
E é verdade, com mais água, canais por todo lado
E a cara arranjada e maquilhada de um império grotesco,
Às portas do outro lado da Europa, olhando o poluído Golfo da Finlândia,
Mesmo de cara para o esgoto dos países bálticos,
Faz-me lembrar uma puta cara num bairro degradado,
Com joias como das grandes actrizes, sem clientes e miserável na sua gigante solidão.
Ao longe do outro lado de uma das muitas pontes
Alguém a fazer flexões no meio da neve,
Um louco, ou não, tudo depende da frequência das loucuras,
Repetem-se e tornam-se hábitos, o povo todo repete e tornam-se tradições.
Louco eu, que acho estranho o que me é estranho,
Gosto com um certo sentido masoquista, aquelas punhaladas
Na minha virgem ignorância de tantas coisas.
Tantos contrastes, mas nem é preciso ir longe,
Basta olhar para o lado, através da janela do autocarro,
Ver os monumentos que se tornam cada vez mais raros,
As torres que se tornam cada vez mais parecidas às que há em todas as cidades grandes,
Como se a verdade por fim a ser revelada,
Um acordar ao lado de uma almofada borratada e uma desconhecida feia, envelhecida pela noite,
Um palhaço grotesco, como as marionetas do teatro de marionetas de Nevsky,
Os Ladas ridículos naqueles trinta graus negativos, ultrapassados pelas limusinas,
Os Hummers negros, americanos, blindados, dos homens do petróleo e das drogas,
Aqueles gordos de cadelas loiras pela mão, vinte anos mais novas que eles
E a sustentar a família toda desde a avó até à filha que tiveram aos catorze anos,
Todos num apartamento pequeno, numa daquelas torres a dizer adeus.
Adeus máscara de teatro, com o teu sorriso cortado pela metade triste,
Deixaste-me dentro o mesmo sorriso torcido, o fascínio desiludido da humaniade.

28.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 27 de maio de 2010


Momento Trazido

de Bragança

Sentado num muro à espera, com o Sabor em frente,
O Eça a fazer-me companhia, na cidade onde nasci,
À espera que venham do médico para regressar.
No meio da rua adormecida pela hora de trabalho,
Com os carros que passam atrasados, sempre atrasados,
Sempre a chegar onde nem vale a pena pensar,
Com o livro, inclinado sobre o papel, quase lá dentro,
Não fosse a brisa primaveril e os passos no passeio.
Será que um dia lhe saberei o nome, a ela que passa?
Deve ser da minha idade, uns quase dezassete,
Também deve andar a ser Eça e pensar que os seus problemas
São tão grandes, enquanto o rio passa e vai para longe
De onde eu nasci.
E o próximo ano será o último, depois, depois tão longe
Do que imagino, perdido em ruas ainda mais desconhecidas
Que estas da cidade onde nasci.
O castelo, sei tão pouco sobre o castelo, sobre o Gungunhana,
Só que deve ter sido alguém muito grande para ter as calças num museu.
Sei que gosto e me faz lembrar tempo que nunca vivi,
Mas que alguém viveu até eu nascer nesta cidade,
Como se toda a história do mundo fosse para eu estar aqui,
A ler Eça, que certamente escreveu este livro para não estar só
Enquanto espero que venham do médico.
Não tarda a avalanche de carne apressada e com fome
A caminho do cheiro das batatas fritas,
A dar-me movimento aos olhos para fora, só para fora.
Não tardo e chego a meio, depois mais umas tardes ao sol
E acabo a outra metade. Hoje não, hoje a hora do almoço está próxima
E ainda temos que atravessar a serra, a terra fria até casa.
A serra, verde, cheia de segredos e de casas vazias.
Um dia irei vasculhar aqueles interiores vazios,
Enquanto faço horas, como se fosse um criador de tempo.
Um dia irei vasculhar interiores vazios na companhia daquelas casas,
Sem me importar dos carros solitários que passam,
A caminho da cidade, ou regressando da cidade onde nasci,
Iluminando por momentos os suspiros e os gemidos nos vidros.
Que nome terá? Era bonita, o nome não interessa,
Mas qual será? Um dia direi que gosto dela: gosto de ti.
Não. Gosto do livro que leio. Nunca pensei, mas nunca o tinha lido,
Gosto desta cidade, que tão poucas vezes visito,
Apesar do cordão umbilical e da gente que passa e nem me faz ser.
A culpa é do cheiro do almoço e das prioridades,
Das pressas que não deixam ver, que não dão tempo à gente de ser gente.
Um dia quero voltar a visitar o castelo, a Domus Minicipalis,
Passar uma noite na serra a fingir amor, para que outra noite venha.
Afinal de contas todos nos sentimos sós, mesmo numa rua cheia de gente,
Onde ninguém dá por ninguém, enquanto esperamos, um olhar, um sorriso,
A esperança de um nome de olhos bonitos,
Uma recordação para levar pelo mundo fora,
Para quando um quarto fechado e estranho, apesar do nosso cheiro nas paredes.
Não estranho nada o tempo do livro, deve ser assim que se vive nas grandes cidades,
Lá longe, na capital, da qual só me lembro da gente esquisita,
Sem olhos, dos autocarros como concertinas, do sono nos barcos do rio largo,
Da forma de falar muito asséptica, dos bancos de jardim onde mora gente,
Das ruas tão grandes e cheias onde custa respirar,
O cheiro a alcatrão quente, os táxis com cheiro a pele e fumo,
O táxista simpático de bigode, como os imaginava,
Os olhares no chão de manhã, os olhares no chão...
Porquê os olhares no chão quando se pode levar o Eça
Para amparar o olhar?
Aqui ainda passam tractores, gente com enxadas às costas,
Um cavalo, ou um burro de vez em quando.
De onde virão os cavalos, ou acabei de ler algo sobre cavalos?
Os burros nem pergunto, vêm de todo lado.
As rãs? Quase as ouço, ou será uma noite de primavera sentado numa manta,
Fora da cidade à beira de um açude, a contemplar os dedos nas estrelas,
Enquanto as minhas ideias humedecem o ar?
O ritmo dos passos aumenta, os passo aumentam,
A gente nasce de todos os lados, na mesma cidade onde eu nasci,
São todos meus irmãos.
Sinto umas pontadas no estômago. Deve ser fome,
Ou saudades do que não poderei levar comigo,
Quando eles chegarem do médico e eu me for.
O velho da boina diz-me bom dia,
Parecia o meu avó, mas com boina, já deve ter almoçado.
Dá-me mais fome por saber que há quem não a tenha,
Sinto-me mal, pela quase inveja, olho o sol no rio para acalmar.
Regresso ao Eça, que se continuar à espera, não passarei da metade.
Eles que venham quando vierem, por enquanto espero,
Já com fome, pela hora do almoço tardio.

28.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Admirável Mundo Novo

não o de Aldous Huxley

Um louco-obrigado atravessa as noites cada vez mais altas,
Vestido de moléculas instáveis, onde se cruzam carros flutuantes
Com gente que será gente depois da gente.
Os vivos-mortos, os mortos-vivos e outros ressuscitados,
Porque já se pode brincar com o que antes definitivo.
As megacorporações com o poder de fabricar deuses,
Novas religiões fundadas na ciência esquecida da ética,
Fabricantes das leis à sua medida.
A velocidade vertiginosa das novas guerras,
Reduzem multidões a pasta fertilizante, sem dar tempo a um grito,
A beleza dos nanoconstructores a tornar entulho em palácios,
Enquanto os habitantes de uma capital se tornam estrume homegéneo,
Quando bio-aviões bombardeiam plasma pelos seus genitais grotescos.
As ruas cheias de ladrões de implantes de crédito,
De punhal em punho prontos para te abrirem as tripas
Por roupa de marca das megacorporações
E as novas drogas sintécticas, mais viciantes que o oxigênio,
Ladrões-assassinos capazes de lágrimas e de pedir clemência
Quando os seguranças corporativos os vão fritar nas horas-vagas depois do trabalho.
O ciberespaço cheio de vida virtual, vigilantes, vírus com ideias de apocalipse
Capazes de instalar o caos no mundo dependente da cibernética.
O amor impossível de um holograma pelo seu patrão,
Incapaz de tocar, de sentir a não ser aquela estranha fusão de informação
Que leva a um erro no sistema, aproximando o que foi criado pelo humano do humano,
Condenado a uma imortalidade informática, enquanto a informação tiver lugar para estar.
Passeiam-se, uns por vaidade, outros por necessidade, os dos implantes cibernéticos,
Já além do humano, um lugar entre a criação e o criador,
Facilitando a vida tão dificultada pelas facilidades modernas.
Os sociopatas sadomasoquistas capazes de usar o sofrimento e a dor para criar arte,
Teatros de gritos, berros e suspiros cansados e resignados,
Com telepatas capazes de trazer de volta os momentos mais dolorosos que já viveste,
A infalibilidade da tortura telepática, quando o corpo já não chega,
Em nome da arte, mas mais em nome dos créditos ganhos por satisfazer os fetiches modernos.
Se tens créditos suficentes, envelhece sem medos, abusa do corpo,
Dá cabo de ti com as sensações mais extremas,
Depois trocas o teu corpo decrépito por o de um jovem são com a familia pobre,
Se tens créditos suficientes compras quem tu quiseres.
Ainda há caça às bruxas, apesar de se ter dissipado há muito a cinza das inocentes,
Caça aos geneticamente diferentes, o novo racismo anti-evolução,
O mesmo medo do que é diferente, num mundo tão diverso, cada vez controlado por menos.
Apesar do cheiro, do tráfico de drogas, das ruínas do século passado, de toda a miséria,
Ainda é no submundo que a humanidade é mais humana, longe dos que vivem nas alturas,
Alheados, esquecidos das suas origens, viciados nas suas drogas legais, marionetas das corporações.
Os novos programas públicos, as execuções ao vivo,
Com os julgamentos feitos nas rodas da sorte, ou do azar,
O entretenimento das massas à custa da dor humana como nos tempos antigos,
Já que a bestialidade dos homens não muda, moderniza-se.
Deuses, os que a ciência quiser criar, por manipulação genética,
Nada está fora do alcance das mãos do mortal,
Desde que a bioética ficou no velhinho início de século, em nome do progresso,
Que para empatar chegaram os séculos de ignorância religiosa.
As cidades flutuantes, para os que são dignos do céu em vida,
Pelo seu implante de crédito de platina, longe dos ladrões, dos mutantes degenerados,
Das misérias da terra, na companhia dos deuses das megacorporações,
Mesmo onde flutuam as estações de controlo meteorológico,
A dar chuva ou sol quando se quer, para quem paga, sempre para quem paga,
Só para quem pode pagar.
Este é o admirável mundo novo, onde a minha criança cresceu,
Não muito diferente do velho mundo do adulto que sou.

26.06.2099

Valhalla

João Bosco da Silva

domingo, 23 de maio de 2010


Ninguém Me Mor(r)a

O fogo que se propaga pelo esófago até cair
Lá no fundo onde também não sou eu
Dentro do corpo, perto de onde moro,
Mas não sou.

Sou esse fogo a atravessar este corpo
Emprestado para a passagem das coisas.

As mãos capazes de tudo,
Capazes de entrar em todos,
Mais profundas que os olhos,
Atrás dos quais não habito.

Sou todos os pecados das mãos inocentes,
Todos os milagres roubados ao vazio.

Aquela imagem cá dentro que os olhos roubaram
Ao momento que não é mais,
Que não é minha, que nem vejo
Apesar dos olhos abertos tão longe de mim.

Sou aquele mundo que se acende
Quando os olhos se fecham mesmo abertos.

Entrar no corpo naturalmente lubrificado
Pelos sussurros da língua nas orelhas e no pescoço,
Mesmo que eu fique sempre de fora
A assistir às conquistas do meu corpo.

Sou a confusão dos dois corpos
Na noite quente e suada, roubada ao verão que passou.

24.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

Adeus Vida Merecida

ao miúdo do sorriso,

A vida, a vida é só a desculpa para a morte,
Um mostrar à fome pão cada vez mais longe.
Deus nem morre, nem tem nada a ver com a morte,
Só quem nasce, só quem é, pode levar com a injustiça
De caminhar para o vazio, convencido que um dia, um dia,
Um dia nunca mais e todos os sonhos apagados,
Todas as conquistas ridículas, todas as tristezas inúteis,
Que seriam arrependimento se a escuridão o permitisse.
A vida uma ilusão consciente, uma ferida aberta na eternidade,
Um mergulho breve entre o nulo e o nada,
Onde um monte de matéria sente a outra por onde passa,
O tempo a escorrer lento, aparentemente tão lento.
Tão breve a eternidade que somos,
Entre um acordar e um adormecer inesperado.
A vida oferecida e roubada quando nos habituamos a ser,
Um brinquedo que nunca será nosso,
Nem emprestado, nem alugado, assim, um engano antes do sono,
Uma mão que nunca chega ao horizonte,
Um beijo que seca antes de se ter dado,
Um corpo que nunca sentimos de verdade,
Só o nosso a dizer que outros e nós ignorantes de outras vidas,
Nós que nem da nossa somos donos.
No cinzeiro os momentos persistem em filtros,
Filtros que já se esqueceram dos lábios sedentos de vida,
De sensações, de novidade, de gotas que secam sempre,
Antes de caírem, antes de se confundirem na terra que somos.
As cortinas vazias de presenças movem-se com a brisa quente
Que nos deixa a saudade dos que agora atravessados por raízes,
Trancados em órbitas vazias, de olhar no infinito até ao fim dos tempos,
Até que venha o fim de todos, o esquecimento inevitável,
Já que nem as estrelas brilharão para sempre.
Quantas lesmas viscosas, peçonhentas, a ocupar existência,
Com um lugar tão merecido que deixaram vazio,
Lá de onde vieram... mas a vida é para os filhos da puta,
A morte é para todos, para os que mereciam mais que uma vida,
Para aqueles a quem o deus não-vivo ignorou.
O mundo tão vazio a cada voz que se cala,
Cada vez mais vazio, naqueles corações que ficam a bater nas lágrimas
Que se engolem em silêncio, que se secam em murros no pinho,
Mão cheia de terra que o vento espalha antes de cair,
Antes do eco na escuridão eterna.
Deixai que me dispa num adeus gritado,
Deixai que deixe a roupa espalhada pelas vossas casas,
Na esperança que o meu cheiro mais um pouco,
Depois dos olhos fechados a minha presença mais uns momentos
E um sorriso: era ele, dentro, aqui mesmo, onde já nunca mais.

Tão insignificantes as lágrimas que os dedos choram.

23.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

segunda-feira, 17 de maio de 2010


Ruas De Longe


Nunca ninguém me disse que tão longe fosse possível
E apesar da distância, ainda tão em cima de mim,
Que mal me consigo distinguir dos paralelos sujos da rua gasta pelos passos dos anos.
Não sabia que fosse possível uma rua estreita chegar ao futuro das grandes avenidas,
Mantendo o cheiro a peste negra, e as conversas de janela a janela,
As lutas de viola, sem viola, só o som das cordas a cortar o silêncio dos meus olhos.
Nem o rio sabe o que leva, nem eu o que levo dentro e me corre,
Sem parar, quase como se a vida de água, puxada a murros lentos que aceleram
Quando subo para a cegueira dos que passam mais barulhentos
E me acordam para o hoje onde se misturam as muralhas de outras infâncias.
Estive para ficar nas águas escuras, naquela tarde quente até que se cansou,
Até que a cerveja acabou e o último comboio ameaçou partir,
Estive para ficar na escuridão do outro corpo que nem se ofereceu,
Foi eu, mesmo que eu quase para ficar nas águas escuras,
Provocando todos os afogados dos séculos santos, com camisas rotas nos cotovelos
E os joelhos cansados das orações que ninguém ouve debaixo de água.
Se calhar não sabem, mas deus não ouve debaixo de água,
Por isso mergulhem e digam-lhe as verdades que nunca irá ouvir,
Que as ruas não têm palavras suficientes nos brasões dos nossos avós.
A rua logo ali, logo ao fundo desta, ao lado, a acompanhar e nunca a ser a minha,
Quase impossível, não fosse a mão dela na minha, a dizer com um olhar egípcio
Que há vida além da minha vontade de morte, nas ruas quase apagadas a altas horas.
As roupas que passam com almas dentro, lá no fundo, quase duvidosas,
A transpirar um medo que se dispersa nas ruas vazias e contagia quem passa,
Matando a solidão segura, deixando no nariz a ureia persistente dos becos frios
Até a porta se fechar atrás e a chave rodar duas vezes e um puxão.
Um gato atravessa a rua, como no sonho, atravessa dentro, além dos olhos,
Selvagem e impossível na noite de pó e sombras da cidade, patas como os pensamentos,
Sobre a calçada que desce até ao abismo, onde não há senão a presença do futuro.
Imitação, porque tudo imitação, francesa, a fingir que a distância aqui ao lado,
Com mais pó, arquitectura mais cansada, povo aborrecido, com olhos só no que brilha,
Nunca passando o lustro no que envelhece, deixando ir, pela noite fora, até à escuridão absoluta.
Deixo cair umas palavras no silêncio para anunciar a madrugada ao táxistas
Que passam como espectros, abutres quase, em busca de almas que querem cair mortas,
Numa estalagem, numa casa de alterne, no sofá da mulher que não parecia cama suficiente,
Num beco onde espera uma gota de água no inferno, na erva fresca que anoiteceu o rio,
No último comboio que tanto ameaçou que agora vai mesmo,
Na casa de banho do bar onde o álcool o único cheiro na almofada de loiça.
Parece que cada passo dado é para ficar no ontem, com as pedras a fazerem casas vazias,
Janelas pequenas só para se espreitar a ascensão e a queda do império individual,
Acrescentando mais aos ontens que virão até o longe se tornar impossível.

17.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 13 de maio de 2010


Epifania Na Aurora

O tempo não muda, acrescenta.
...uma sensação de plenitude,
como quando olhava o céu estrelado nos verões quentes...
...o fascínio de uma aurora,
as mãos que podiam tudo antes de se lançarem ao trabalho...
...o meu tamanho a medir-se para dentro,
maior que o vazio dos dias negros...
...a vida é um momento de luz na escuridão,
um segundo de lucidez na loucura da noite eterna...
...o gato que brinca com as sombras,
eu que me rio invejoso da sua inocência...
...a ilusão tão real que se sente dentro,
o primeiro amor que deu vida aos primeiros poemas...
...tudo igual à primeira vez,
eu mais confuso e com o peso do pó dos anos...
...o ar fresco de um dia que nasce,
sem a noite ter morrido...
...a beleza da doçura de uma maçã nos dentes dela,
quando ela não está e só a maçã...
...os sonhos que deixaram de o ser,
agora mãos cheias de areia e os dedos finos...
...o mundo que não pára de encolher,
mesmo que cada vez mais pesado...
O tempo não muda, acrescenta.

13.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

segunda-feira, 10 de maio de 2010


Só Faz Frio Quando Se Está Fora

aos carneirinhos que me tiram o sono

Só me dei conta de que te amava quando as minhas mãos vazias de ti.
A distância tornou-se tempo em cima do que sou,
Tornou-me branco e aí vi que estava perdido de ti.
Aquele beijo de manhã, antes de ires para o trabalho, antes de te perder,
Que só tu sabias que era o último e me deixou um gosto de haver mais,
Mas só tu sabias que era um adeus mudo ainda com a cama quente dos dois.
Hoje sentado sobre o passado, onde vejo as pequenas verdades em que nem reparei,
Pegunto-me se saberias mesmo. Saberias mesmo?
Ainda como um eco nos meus lábios, um prazer que se tornou em dor latejante,
A cada batimento do meu punho vazio da tua presença, no meu peito.
Não sabes que depois de ti foi só entrar em vazios e sair deles com um novo dentro,
Porque também se perdem mãos cheias de nada, quando se teve o que não se tinha.
As noites de bebedeira só me adiam para a manhã seguinte a agonia da tua ausência,
Todos os gritos violentos dentro dos que nunca terão os teus olhos nos meus,
No meu fundo do que nem me conheço, enquanto não sei se eu tu, ou se só dentro,
De joelhos, adorando-te como se adora de verdade,
Sentindo-te como se sente o que somos, mas sabendo que reais,
Com os suspiros a dizer que sou e os gemidos a dizer que és.
A sede nos meus poros do teu suor, o teu cabelo a frisar entre os meus dedos
Agora inúteis, agora tristes e só palavras para tentar encontrar-te nelas,
Mas tu longe, esse teu corpo que me fazia tremer de calor,
Longe, tão longe que a tua textura só dentro, a que os dedos escrevem sem tocar mais.
Sei que não me dei por dentro, porque só me dei conta quando vi as mãos vazias de ti,
Só quando o tempo me tornou os braços curtos, os mesmos que te abraçavam,
Quando em ti, os mesmo que nem aí me davam o que dentro,
O que dentro que nem sei se habita mais, porque eu já não te moro,
Só agora sei que fora de ti faz frio e atiro pedrinhas à janela da casa abandonada.

10.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

domingo, 9 de maio de 2010


A Ponte Que É Uma Ilha Quando Se Quer

Da ponte romana só saímos quando a vontade nos chegar,
Só quando o luar acabar, o rio deixar de correr,
Os corações se cansarem de bater e a amizade, que é imortal, morrer.
Em cima da ponte a acrescentar ao rio, gozar a vida a cair,
Enquanto caimos juntos na inevitabilidade do futuro que ameaça e é sempre presente.
A luzes atravessam e nós indiferentes, dentro vão apagadas
E nem dão pela ponte que passam, nem pela água que corre em baixo,
Nem pelos sonhos que ali nasceram e morreram, noutras tardes antes de outras noites,
Quando eramos maiores nas mãos que esperavam o que vinha.
Veio e tão pequeno e pesado que não se sabe se vale a pena aguentar,
Não fosse o poder de evocar os ecos que já tinham desaparecido
E ressuscitar os sorrisos que pareciam ser os últimos sinceros.
Lembras-te daquela vez? Lembro, está a acontecer.
Morrer é como entrar amanhã no bar,
Sem saber que hoje lá vou estar e perguntar, ontem estive cá?
Morrer é só esquecer que se viveu, sem pontes para lado nenhum,
Sem a brisa fresca da primavera em cima de um rio,
Onde se podem ouvir as crianças que fomos na água,
Em verões que deixamos para ser estes tão pobres de sonhos.
Olhemos as estrelas que são as únicas que tem idade suficiente
Para nos iludirem com a eternidade,
Olhemos a escuridão que nos esmaga como insectos
Com um grito de quem está vivo e é uma força individual.
Cá estamos, em cima da ponte de tantos mortos para que hoje nós,
Em cima dela, à espera da vontade para chegar ao outro lado,
Mas hoje virá tarde, hoje virá só quando o luar acabar, o rio deixar de correr,
Os corações se cansarem de bater e a amizade, que é imortal, morrer.

09.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 6 de maio de 2010


A Casa Dos Braços Abertos

ao Pedro e à Andreia

Deus levou os avós e deixou a casa vazia,
Encheu-lhes os olhos de terra, plantou-lhes ciprestes nos ossos
E deixou-lhes o nome para ser esquecido.
Veio o amor ou o que aproxima dois corpos,
O frio da uma cama sem pulmões no nosso silêncio,
Com os suspiros solitários da insónia,
Veio o amor ou uma noite em que se entrou dentro
E se ficou mais fundo do que a carne pensa
E a casa dos avós, com os sons de quem tem vida dentro,
Ainda jovem, dos netos daqueles olhos cegos pela eternidade.
A amizade visita-a e enche as noites de risos sinceros
Mesmo que amanhã seja outro dia de trabalho,
Não interessa, não se sabe quando as raízes nos ocuparão o olhar.
Teima-se pela noite dentro, até irem altas as horas, baixas as garrafas,
Os paralelos já frios de esperar por uns passos incertos de regresso
Para um silêncio de quem adormece com um sorriso nos lábios.
A casa dos braços abertos onde os copos nunca estão vazios,
Onde o silêncio não sobrevive às violências da única felicidade possível,
As paredes guardam os ecos das gargalhadas para outros invernos
E o tempo não se sente, não interessa, nem parece passar.

06.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

terça-feira, 4 de maio de 2010


A Madrugada Da Noite Que Nunca Morreu

um brinde a vós,

A noite que eterna nos vem trazer a amizade de granito,
Quando entramos no dia sem deixar de ser quem somos,
Com o grito da verdade que acorda os pulmões e a Lua,
A sinceridade que só quando a sobriedade se esqueceu
E os abraços de sempre, que ecoam nos músculos felizes.
O vidro que castanho nos canta a letra que escrevemos dentro,
Erguido no ar, entre o luar e a eternidade, na companhia da brisa leve,
Quase quente, quase como dentro de nós.
Os cães que não dormem cruzam as ruas em baixo,
Ladram no vento que nos leva até ao amanhã aos poucos,
Mesmo que o amanhã a ser agora, em cima do muro de granito,
No adro da capela, próximos dos deuses impossíveis,
Única realidade na noite que suspira o amanhecer em tons azuis,
As nossas vozes, a cortar a distância que se aproxima, lá longe.
Não se podem agarrar os momentos, por isso só resta que sejamos eles,
Esgotá-los até ao limite, até à exaustão do corpo,
Até que a alma se canse e adormeça e um leve gosto na boca a ser recordação.
Hoje neste monte, em cima do mundo que há no nosso olhar,
Somos a eternidade e o infinito, o Luar é um capricho nosso e o amanhecer o nosso medo.
A vila dorme, só nós vivemos neste momento,
Humanos quase deuses, quase selvagens, quase ramos que o vento anima,
Quase os grilos que impedem o silêncio de uma escuridão completa,
Quase um uivo os nossos gritos contra o horizonte polvilhado de almas que dormem.
A noite que cede, cansada dos nossos olhos que insistem em criar mundos,
Levanta além dos montes, além da bruma da distância, os primeiros dedos quentes,
Do astro que nos diz que é hora, que o hoje já cá está,
A gente abre portas, entra em carros, acende fogões, aperta cordões,
Escova dentes, a gente acorda, faz o café, abre o jornal fresco,
É domingo e alguns a cortar a luz do amanhecer com moto-serras.
Nós sabemos que o mundo nos espera,
Mas não sabemos o que esperar do mundo.
Descemos quase contrariados para a luz do dia que aquece os nossos corpos
Ainda frios da noite e dos inúmeros brindes gelados,
Os madrugadores entram no café, quando nós já lá estamos,
Sentados a agarrar o que resta da noite, metendo o vazio nas garrafas
Que nos trazem à mesa, falando do que só sabemos nesta manhã,
Só nós nesta manhã e ainda há tão pouco tempo só nós e a Lua.

04.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quarta-feira, 21 de abril de 2010


*

Queres subir, alto, cada vez mais alto,
Mas as coisas que tu conheces,
Que tu gostas de verdade, porque conheces,
Que fazem parte de ti,
Cada vez mais longe,
Cada vez mais pequenas,
Quase impossíveis.

Não sabes que o céu é lugar para vazios?
À noite só uma imensidão negra,
Com umas estrelas de luz tímida,
Tão distantes,
Separadas umas das outras por eternidades.

Queres subir, alto, cada vez mais longe de ti,
Perder-te num vazio desconhecido,
Só porque desconhecido.
Sente os pés na terra,
Respira fundo, abre os olhos,
Abre os olhos e olha à tua volta:
É o que tu és.
Não te procures onde não estás.

João Bosco da Silva

21.04.2010

Savonlinna

Poema para “Disse-me António Montes”

sexta-feira, 16 de abril de 2010


À Beira Do Rio

No Bairro do Aleixo os táxis vêm e vão,
A vida fica suspensa numa agulha
Num descampado onde sombras não estão de verdade.
Chegam e vão-se vazios, ninguém vê, ninguém sabe quem foi,
Só o papel fica, uma mancha no chão,
Uma gota no canhão a ser vermelha, sinal da vida que se foi,
Uma chama desesperada na cápsula ferrugenta,
Ou na colher do veneno, o filtro ridículo de um cigarro consumido,
A sopa que não alimenta e suga o corpo à alma,
As pernas que se abrem numa insensibilidade
De quem espera menos umas gramas de dor,
Que gotejam uma morte lenta numa excitação animal,
O escuro de uma luz demasiado forte,
Fazendo esquecer os abcessos da alma,
Alguém que se deixou ali logo,
Porque não aguentou e metade nas calças,
As vozes da escola além do muro, ali, aqui mesmo,
Onde os táxis passam, onde os olhos se fecham pela cegueira
A que o êmbolo os empurra,
Onde os orgasmos parecem não chegar e nem se sentem,
Só algo a pingar, porque se deixou cair a seringa
E a veia como se uma lágrima rubra, do corpo que chora,
Que agradece num desesperado o fim de uma ausência,
Nas nuvens de algodão, onde não se sente nada,
Onde se fecham os olhos todos do corpo e da alma,
Se adia a miséria da realidade por mais um momento de ilusão.
No Bairro do Aleixo, com as torres que fazem sombra no rio que nasce
Longe destas misérias, o tornam mais escuro,
Com os carros da boa gente que passa, que finge que não vê,
A vida suspensa numa agulha, onde as crianças brincam e crescem,
As mães se vendem e se contagiam com tudo possível,
Até que o diabo se lembre de inventar algo mais,
Apontando-se ao céu como dedos ameaçadores, que culpam a ausência maior,
Os olhos que não vêem, os muros que são como uma mão aberta na cara,
A fingir que não se quer ver.
Os dentes caíram, o peso caiu, a vida arrasta-se levada por uma vontade
Além do animal e humano, sujando-se no estrume infértil de um tempo
Que é culpa de todos que nele vivem.
A luz vermelha acende-se, o dedo empurra o êmbolo,
Os olhos fecham-se, mesmo que pálpebras abertas, e o sol entra, feito de algodão.

16.04.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Despedida do comboio a vapor - Via Larga, Porto, 1977.Foto: Comissão de Estudo para Instalação do Museu Ferroviário.

No Comboio

para Istambul,

Se entro no comboio em São Bento é porque não te conheço,
Apesar de só uma noite acabada na manhã da mesma estação.
Uma despedida como se a noite uma vida
E quantas vezes a noite uma vida, mais que uma vida.
Quantas noites não valem o resto dos dias?
Se entro no comboio para Guimarães
É porque te quero entrar com a força de uma curiosidade quase infantil,
Levado por uma vontade quase orgânica,
Mesmo que não te conheça, só o sabor dos teus lábios
Confundido com a cerveja que acabaste de engolir
E o roxo dos meus lábios de vinho da garrafa que se evaporou por Miragaia.
Se entro neste comboio é porque quero encurtar a distância,
Impossível, apesar de me ir confundir no teu corpo,
Apesar de te aspirar o fumo como um beijo do inferno,
Respirar os teus miasmas, desconhecidos, por isso entro no comboio.
Se te soubesse, não entraria neste comboio, que parte,
Não estaria sentado a criar futuros possíveis, dentro, inúteis.
Nunca me disseste que eras mais que tu. Se o tivesses dito,
Entraria no comboio, teria chegado a acompanhar-te até morrer a noite?
Passados impossíveis, ainda mais inúteis que os futuros possíveis,
Dentro de um comboio em direcção ao castelo desde a varanda de um andar alugado,
Com cerveja na mão e uma saia que se abre e se senta no colo,
A dar-se, sem se dar a conhecer, arrefecendo o calor que o sol deixou,
Com um de carne húmida que acolhe a curiosidade infantil de estar noutro,
Mesmo que nunca se possa conhecer verdadeiramente.

15.04.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quarta-feira, 14 de abril de 2010


Caminho De Olhos Fechados

até Mirandela

Caminho, sentado ao longe, caminho de olhos fechados,
Bem fechados, apertando com força até que anéis brancos,
Até que caminho de verdade, longe do caminho.
Caminho sobre cheiros de portas abertas a dizer que papel,
Comida quente na hora do almoço, roupa nova saída de caixas e plásticos,
Cabelo no chão com a quarenta e sete onze das barbearias,
Relva aparada, a ser mais verde com o sol que a rega, do outro lado,
O asfalto quente e os pneumáticos a dar-lhe razão de ser,
O fumeiro e outros aromas familiares das lojas de comida regional,
Caminho sobre os cheiros da cidade até que a luz vermelha quando atravesso.
Paro e olho. Tão longe! Sentado, num banco de jardim,
A olhar o rio que passa e eu que passo, longe do rio,
A ter pena dele, para não ter pena de mim,
Porque espero que os outros tenham, porque eu longe,
Afinal esquecido, só pernas quando olhos fechados,
Asas quando longe e pernas quando olhos fechados.
Verde. Pés no caminho, no cheiro do café,
A frescura da água que rega a relva, a ponte velha,
Com cheiros inesperados em noites quase impossíveis, lá longe,
O cheiro que se adivinha vir da farmácia, mais roupa,
Gente de plástico atrás de vidros quentes, com gente a vesti-la,
Real, do outro lado da rua,
O quase cheiro da sombra que me cobre por momentos,
O fumo do cigarro de quem passa apressado e eu longe com saudades.
Paro e olho um pinheiro por perto e bronze a ser figura de gente, verde,
Olhos abertos e o branco salpicado de negro,
À espera que um carro pare, que o asfalto quente para pés por momentos,
À espera de poder atravessar.
Estou do outro lado, longe, uma vez mais de olhos fechados,
Apertados com a força de quem quer regressar a um sonho bom,
Caminho. O cheiro do dinheiro que sai das paredes,
Do ar portiço que se escapa do interior do banco e gravatas,
Mãos de papel, a vida a vida aqui, mentira,
Eu caminho, fora sobre a doce realidade das pastelarias,
Um pastel de nata e um café, se faz favor, longe,
De olhos fechados, na esplanada, com o sol lá fora,
Como um estranho que passa e me olha pela janela,
Caminho sentado na esplanada, passo por borracha, pele,
Pés que provam o tamanho para passos, na sapataria ao lado.
Atravesso, sem abrir os olhos, já não passam por aqui sentados sobre pneus,
Só sentados de olhos fechados, bem apertados, até que sol,
Do outro lado, o cheiro impossível da visão, do ouro,
Até que papel, útil para olhos que se fecham e caminham,
Entro na Lusitana, onde conheci Vergílio Ferreira, longe, tão longe.

14.04.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

terça-feira, 13 de abril de 2010

Mini Antologia Poética 2003


Árvores, águas e pontes

Neste parque, sempre verde,
Sinto-me a voar.
Quebro a dura parede,
Que me obriga a pensar.

Devoro o verde, bebo a luz,
Corro pelas pontes,
Minha alma reluz.
Sou a criança de antes.

Não sinto o corpo maior,
Nem actuais conhecimentos.
Sinto-me melhor,
Longe de todos sofrimentos.

Nem dou por mim a rir,
Com toda a sinceridade,
Dali não quero sair.
Quero viver lá toda a eternidade.

16-09-2003

João Bosco da Silva


#


À noite a luz da Lua,
Despe-me de toda a razão.
Minha alma fica nua,
Calmo é meu coração.

Se uma nuvem por ela passar,
Não tenho nada que temer.
Sinto sua presença no ar
E sua luz o vazio encher.

E aqui na noite serena,
Meu coração é domado.
Nesta terra agora morena,
Vem a mim o passado.


25-06-2003

João Bosco da Silva


#


À beira do rio

Sento-me à beira do rio,
Vejo uma frágil folha a passar,
Fecho os olhos e rio,
Da nossa efémera vida a voar.

E a folha vai tão pequena
Levada pela água, soprada pelo vento,
Sua fraqueza é meu descontentamento.
Minha alma já não é serena.

O vento dá-lhe uma forte rajada,
Ela estremece, mergulha, emerge,
E aí prossegue sagrada,
Na sua simplicidade herege.

O rio que a leva inconstante ,
Sereno aqui, turbulento ali nos rápidos,
O vento é suave e constante,
Ouvem-se gritos e risos.

Quando irá parar a folha?
Será que é além na parte baixa?
Ela não se importa nem olha.
Para quê se o fim é uma caixa?

É agora um pontinho ao fundo,
Sempre diferente e sempre na mesma,
Envolta de um verde profundo,
Não pensa, nem sonha, nem cisma.
02-06-2003

João Bosco da Silva


#


A Origem

No inicio, escuridão,
Silêncio, infinitamente vazio;
Matéria imaterial,
Nada que tudo é.

Então fez-se Luz,
Imensa, fulminante,
Infinitamente quente,
Dilacerante, destruidora;
Nada destruído pela luz.
Luz material sem se ver,
O agora é Agora.
O que é, ainda não é.

Água, substâncias em folia,
Trovões, moléculas − Vida.
Milhões de tempos. Reinados;
Conquistas marítimas, terrestres,
Aéreas. Gigantes mortos,
Nobres por terra, imortalizados,
Na pedra. Rato ancestral,
Cresce, torna-se primata.
Primata pica pedra, mata,
Come carne, rouba fogo.
Então fez-se Deus,
Aquele que tudo fez,
Aquele que tudo criou.
Criou o Homem, o amor,
As guerras, a morte,
A dor angustiante − o Inferno.

A Luz em fim apagada,
A matéria imaterial,
No inicio escuridão

20-01-03

João Bosco da Silva

quinta-feira, 8 de abril de 2010


Criança

Existe uma criança que te segue para todo o lado.
Segura uma faca ensanguentada, com a qual se matou,
Pinga, pinga e deixa gotas de sangue no teu rasto.
Existe uma criança tão pálida quanto o dia,
Que te olha perplexa como a um estranho familiar.
Existe uma criança que te odeia quando não sabes sorrir
E te puxa a manga do casaco para que vejas de verdade.
Tem as calças rotas nos joelhos,
Está suja como quem brincou na terra dias e dias,
Ou foi desenterrada. Tens terra nas mãos?
Existe uma criança no reflexo das tuas mãos,
Onde te vês e quase não te reconheces.
O cabelo é castanho claro, descolorado pelo sol,
Pelas tardes antes da terra nos olhos,
Antes dos olhos fechados que agora te seguem.
Existe uma criança que tem as órbitas vazias
Da cor do desespero, com lágrimas negras como tatuagens,
Que não escorrem. Tens um lenço impossível?
Existe uma criança que te dá a mão
Que tu sacodes com vergonha, finges que não a conheces,
Mesmo que ela desde que tu nasceste.
Existe uma criança que leva um mochila aberta e vazia,
Só com uma alça no ombro, com a outra pendente e descozida,
Vai eternamente atrasada. Tens um tempo para ela?
Existe uma criança que é tua irmã,
Que eras tu e que abandonaste com uma faca na mão,
Numa tarde de sol, mesmo antes do crepúsculo lançar o cheiro fresco a noite
Sobre a terra, a terra que lhe pinta a palidez,
Que te esconde a vergonha, que lhe cobre os olhos agora cegos e
Lhe suja a mão que tu recusas. Tens vergonha de quê?

08.04.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quarta-feira, 7 de abril de 2010


Canção Lógica ou Ode A Vós

Encheram-me com o entulho da civilização
E agora chamam-me gente.
Tive profundidade no olhar espaço dentro
Com braços até ao infinito, capaz da novidade,
De sentir a luz de outro dia como nova.
As flores tinham cor para que eu as achasse belas
E essa era a razão de todas as coisas serem como são.
Os rios tinham pontes para eu ter medo ao atravessa-los,
Medo de abismos sem fim com criaturas possivelmente reais
E por isso tão fantásticas.
Dizem que vazio, que incompleto, que página em branco,
Eu digo que sim, agora sim,
Mãos que só conseguem o vazio, que nunca chegam, página onde se desistiu do impossível.

Obrigaram-me a tudo, até a um deus.
Nem isso me deixaram criar, já o tinham criado,
Há muito tempo, quando a civilização também criança, prestes a perder a inocência.
Queria tantos deuses, dos que sorriem e não têm a agonia nos olhos,
Dos que vivem porque é bom viver e há flores,
Deuses sem madeira nas costas a criar símbolos, futilidades.
Tinha o poder criador capaz de deuses novos, frescos,
Com mais sentido, mas obrigaram-me ao deles,
Acima do homem e de todas as coisas visíveis e invisíveis, impossível,
Capaz pela mão do homem de atrocidades cegas.

A tradição, a tradição criança, mata-te.

Obrigaram-me a matar completamente a crianca em mim
Para conseguir livrar-me do vosso crucificado
E outros símbolos irracionais, ridiculamente mais importantes que a vida.
Lá por terem os pêlos todos no corpo
E a culpa de se tocaram na alma,
Não quer dizer que a criança que acredita tenha morrido.

As crianças sem inocência, das que carregam armas e ignorância,
Acorrentadas a uma cegueira adulta.

Deram-me tudo, tudo já feito, já inventado,
Já imaginado, já criado,
A mim que era o inventor de um novo mundo,
A matéria-prima para um universo melhor.
Cortaram-me a infância, amputaram-me a inocência
E tornaram-me em gente triste.
Crescer é tornar-se triste e sem imaginação.
Os olhos tornaram-se duplos vendo segundas intenções em tudo,
Significados em tudo além da verdadeira significação,
Símbolos por todo lado a provar que somos gente.

Meteram-me tudo em caixas, rotularam-me tudo,
Fizeram-me negar o que lhes parecia errado,
Só porque estava na caixa errada,
Na caixa onde alguém muito morto colocou.
Ergueram-me paredes com leis escritas,
Ecos de regras ridículas, enforcaram-me a liberdade,
Para que fosse gente.
Crescer é perder a liberdade original e real.

É porque tem que ser, dizem-me.
É porque também os outros, obrigam-me.

E um dia eu terei que lá chegar,
Onde eles não esperam, eles sempre um passo à frente,
A serem sempre maiores, mais sabedores das verdade que criam,
Donos das leis que criam para os que vêm atrás.
Eu cada vez mais a invejar os cães,
Até os que me morrem e os choro como mais um pedaço da minha infância perdida.

Tudo o que me sabia bem,
Tornaram-no em pecado, trancaram-no com a culpa.
Ofereceram-me o cinto de castidade da liberdade,
A culpa, obrigado.
Até as flores quase pecado olha-las.
Até os rios quase pecado senti-los no corpo,
Inferno se sentir o corpo no corpo à beira-rio.
A gente é falsa e dissimulada,
Come às escondidas a luxúria da sua gula
E tranca-se em portas grandes e frias.
Sê gente, dizem-me. Precisam de companhia nos seus jogos.
Para quê a culpa e a invenção do pecado?

Tudo em caixas.
Quem comeu os chocolates para deixar as caixas vazias?
Torna-te gente, gritavam-me.

Eu, que só queria que me deixassem estar, a ser,
Sentir porque me sabia bem,
Sem querer saber que tinha um nome aquilo,
Se tinha uma etiqueta, um lugar numa caixa.

Nunca pedi a ninguém o manual de intruções para a vida,
Mas vieram logo entregar-me um, com uma página nova todos os dias,
Como se alguém já me tivesse vivido.
Como me querem ensinar a viver a minha vida,
Se nunca ninguém viveu a minha vida?

Eles a quererem que me torne neles,
Me junte a eles naquela massa disforme,
Onde já não há indivíduos, só pedaços de um monstro maior.

Encheram-me com o entulho da civilização
E agora chamam-me gente.

Eu como a gente a fazer o que esperam de nós,
Como animais amestrados e eles a chamarem-me inteligente e esperto,
Só porque macaco de imitação,
Só porque dou passos atrás deles, cego.
Até deus criaram à sua imagem e semelhança
E o que não for semelhante a eles não é gente.

Não te mates, é pecado.
E o suicídio é a única carta de liberdade que me resta.
Na verdade, já morri, só o corpo a acolher o entulho,
Que pelos anos fora me foram lançando,
Asfixiando o que realmente fui e viveu,
Antes de me obrigarem a ser gente.

Obrigaram-me a ser gente
E nem me deixaram despedir de mim,
Daquele com o infinito no olhar,
Com mãos capazes de tocar na vida como se a primeira vez,
Todas a vezes.
Adeus ó não-gente que fui,
Coberto pelo entulho da civilização,
Civilização lixo de civilizações mortas,
Monstro de retalhos putrefactos e nós nisto,
Eu nisto.

Deixo cair a alma,
Uma mancha pequena e negra,
Um ponto-final.

07.04.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

sexta-feira, 2 de abril de 2010



Hoje


Hoje...sou eu como tenho sempre sido
E muitas vezes odiando ser.
Sou mais um nada, não um desses grandes nadas,
Que comigo e com inúmeros outros nadas,
Constituem a humanidade, que não passa de uma palavra.
Hoje encerro em mim um universo,
Como ontem encerrei, e encerro a cada segundo que passa.
Um universo tão grande, ou maior que o que me contém,
Tão cheio de sonhos que sufocam
A realidade impedindo a sua materialização.
Sou aquele que tudo tem, que tudo é,
Mas que não sai de si, nada mostra
E o mundo não vê, ignora e por isso é nada.

Hoje vou esmurrar violentamente um muro de granito
E pintar nas pedras o meu desespero com sangue,
Até secar e se tornar mais uma mancha do tempo que passa.
Só para sentir dentro deste crânio outra dor
Que não a de respirar e sentir o ar dentro dos pulmões,
Sentir o peso da minha realidade nos ombros,
Na coluna e no resto dos ossos,
Sentir o ar frio, quente ou ameno que não sou eu,
Sentir-me eu, a mim e a separação do que sou
E do que não sou.
Hoje vou estirar todos os meus músculos...
Vou correr até o ácido láctico queimar as terminações nervosas
E aí vou correr ainda mais
Até aos níveis de toxicidade serem fatais...
Mas não vou correr, porque estou trancado em mim,
Não saio deste muro ósseo.

Fecho os olhos e voo para longe,
Respiro o ar fresco das alturas,
Absorvo a cor fria de uma montanha gelada no topo,
Sorvo a frescura do brilho do sol na água...
Abro os olhos e vejo a inutilidade e a mentira
Das minhas imagens mentais.
Abro os olhos e tomo consciência da estupidez
De estar sem sentir,
Viver sem viver!

Contraio um músculo só para me sentir vivo,
Sinto-o duro, sinto-o meu, penso-o a separar-se dos ossos,
A ficar laxo e podre...alimento para outros que vivem
Uma vida, talvez mais digna que a minha.
Sinto-me vivo, penso-me morto.
O sentir é coisa de agora, do já, deste momento...
Mas eu sempre fui do que foi e do que será.
Sempre fui do que está dentro e não se pode mais viver, nem sentir
E do que não existe, porque não se passa e nem se passará.

Já não bebo pela sede, pela comunhão,
Pela estranha sensação de liberdade e pelos episódios maníacos,
Bebo só para me não sentir dentro,
Mas com isto, não sinto o de fora,
Nem os de fora que não viram o abismo do eu sóbrio.
Sóbrio penso e não tenho espaço para sentir,
Ébrio nem penso, nem sinto, nem sou...
Passo, embalado pela embriaguez libertadora do que sou e do ser,
Dormindo num estado acordado, esquecido de mim.

Mas hoje não bebo... hoje escrevo!
Hoje sou eu dentro de mim e esboço o que sou
Nestas palavras inúteis e sem significado para quem não sou.
Escrevo e tenho aquele diálogo impossível
Que nunca ninguém me proporcionará.
Estou eu, sozinho a falar comigo,
De dentro para fora... e de fora para dentro.
Como um cão que vomita
E depois come o que vomitou... assim sou eu.
Cão, mas sem a felicidade de não saber sequer
Que é feliz.

Hoje queria sentir o sabor metálico
De um sangue que não fosse meu...
Água de uma fonte cardiaca diferente
Do meu taquicárdico músculo.
Hoje...queria dormir, sem sentir a inutilidade que isso é
Perante toda a eternidade em que o farei.
Hoje... agora... queria ouvir alguém a bater-me à porta,
Alguém que me quisesse pedir desculpa
Por me olhar e me fazer com isso existir de outra forma
Daquela que não experimento;
Que me desse as mãos e mas apertasse como quem ama,
Ou seja, daquela forma como ninguém faz.

Lá fora ouço os ruídos de uma cidade prestes a adormecer.
Ouço as pessoas que se apressam para chegar ao seu sossego,
Ao seu descanso, ao seu ocioso bem estar e estéril calma.
Mas nesta hora em que o sossego me devia visitar e embalar,
Chega-me a melancolia e a insatisfação de ter vivido mais um dia
Para a inutilidade de um outro dia que se repetirá.

Se ao menos fosse especial de alguma forma,
Se fosse importante, essencial...
Mas a ironia é que sou apenas um saco pequeno
Que encerra o mundo todo;
Um saco a que ninguém tem acesso ao conteúdo,
Nem o conhece, nem o pode ver...
A minhas pupilas são buracos negros
Para dois universos que se fundem e me fazem quem sou.

Hoje sei que o que quero está na outra margem
E que a minha vida passa entre a margem onde estou
E aquela onde está o que quero
E nunca poderei alcançar enquanto a vida passar.
Sei isto, mas sonho formas de construir uma ponte
Que me permita alcançar...
Mas o que construo são ilusões e mais ilusões
Que se amontoam no sótão das desilusões.

Hoje o que sou, será parecido ao que muita gente pensa que é...
E como se sente...
Não se enganem, nem se iludam,
Só sentem o que estão a sentir ao me ler,
Não o que eu senti ao escrever.
Por mais que me esforce o que sou realmente,
O que sinto, ou penso dentro desta tigela de miolos
Nunca passará para a experiência dos outros.

Se hoje fosse o último dia da minha vida,
Tudo o que restaria de mim
Seria um nada adiado
E umas pinturas abstractas de palavras
Que cada um interpretará à sua maneira muito única e errada.

Por agora vou beber um copo fresco de água
E sentir o que não sou refrescar-me as entranhas,
Fazendo perdurar mais uns momentos a minha dolorosa existência,
Sem razão para ser,
Mas também sem razão para não ser.

07/10/2006



Porto

João Bosco da Silva

quarta-feira, 31 de março de 2010


A Casa Que As Heras Esconderam


entre São Gregório e Pontes Barxas




Quase irreconhecível, com as suas paredes escondidas
Pelas heras do esquecimento, com o seu verde escuro e brilhante se sol,
Mas só o cinzento no céu a dizer que o ar húmido,
Quase à beira lagrimas, quase a fazer-me entrar pela porta entreaberta
De casa abandonada, com uma escuridão cor de pó no interior ,
À espera de ser redescoberta dentro, anos de distância que se acendem.
Anos de heras a esfarelar as paredes de granito,
Erguidas no tempo da ditadura e das fronteiras fechadas,
Como se as linhas dos mapas muros reais feitos por gente com línguas diferentes,
Com o mesmo ritmo dentro, quente, vermelho, orgânico e visceral.
Envelheceram, morreram, foram levados para longe do fim do mundo,
Os que ali viveram, antes do esquecimento cobrir aquelas paredes,
Com histórias de contrabandistas, noites longas entre dois mundos,
Que se encontraram para nunca mais.
Só o rumor do rio o mesmo, a vibrar também nas paredes,
Como ossos roídos pela osteoporose,
Com a rua lá fora cada vez mais estreita, agora que não há quem lhe dê passos
Na calçada a dizer que gente, que olhos nas janelas e olhos atrás das janelas,
Entre cortinas, hoje esquecidas do branco que foram, amarelecidas,
Pelo tempo e pelo esquecimento, à sombra das heras,
Que cobrem de verde com uma esperança irónica e inocente de natureza.
Só dentro as paredes limpas, se os olhos fechados,
Só dentro as vozes dos vizinhos, se só o rumor do rio que corre perto,
Tudo ecos de pedras que agora caídas, aleatórias e quase sem sentido,
Paredes cobertas pelo esquecimento.

31.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

terça-feira, 30 de março de 2010


No Metro


inspirado no amarelo e cinzento


As portas abrem-se e atrás das minhas costas o desconhecido,
Vazio como a escuridão imensa da minha ignorância.
Passos de quem entra também, um toque de quem tem pressa,
Um empurrão de quem não me sente como verdade.
Procuro um lugar, sento-me e espero pelo movimento que dá início à viagem.
Espero, com o meu monólogo interior, passeio dentro,
Enquanto vejo o espaço lá fora, quase cores, a passar,
Quando na verdade sou eu que passo, o metro passa,
Eu que passo no metro.
Gente a falar com a gente se dois que se conhecem lado a lado,
Ou de pé se a viagem for breve, ou porque não havia lugar.
Uns que se beijam além, jovens que ainda acreditam no para sempre.
Outros que se beijam ali, sabendo que nesta cidade ninguém os conhece,
Fugindo da prisão dos seus dias em direcção a um hotel barato.
Aquele com a mão no bolso do outro, sem carteira,
Com uma surpresa à espera na hora de pagar o café.
Uma mulher com uma criança nos braços a ser mãe,
Enquanto ao seu lado um idoso se curva sobre si mesmo,
Com o peso da dor acumulada sobre as costas frágeis.
Este aqui a ler, a ser dentro o que o dentro de outro lançou para fora,
À sua maneira.
Eu nada. Olho, faço desenhos no ar com a cabeça, sem me aperceber,
Os olhos como se um nistagmo horizontal a tentar seguir as cores lá fora,
Que fogem sem ter percebido ao que dão a cor.
Eu nisto, a olhar, à espera até que o metro pare,
Até chegar à estação onde terei que sair.
Pára, levanto-me, abrem-se as portas, saio e chego ao Nada.

30.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

Ao Pai

ao meu pai

Quando chove e nem uma gota na cabeça,
Levado pela mão com o casaco dele a cobrir menos os pés,
Apenas o cheiro da sua roupa nos olhos e uma escuridão segura,
Porque a mão a guiar-me os passos molhados.
Eu tão perto da sua cintura, um dia que serei maior, mas nunca tão grande.
Nunca terei umas mãos capazes de guiar no escuro de uma tempestade,
De abrir a terra e sempre com a timidez de uma carícia que só dentro,
Longe do granito áspero que as cobre.
Aquelas mãos e o cheiro do único deus real e possível debaixo do seu casaco,
Numa tarde de fim de verão, depois de deixar as armadilhas aos pássaros.

Queres vir comigo aos pássaros,
Porque ele quando pequeno gostava de ir aos pássaros.
Eu pequeno, eu um ele pequeno que nunca serei,
Cá dentro outro, que ele estranha, alguém novo na sua vida,
Eu que sempre o tive desde que abri a cor dos olhos.
Um dia com o filho
E eu a pensar que era por ele,
Porque ainda gostava de ir aos pássaros.
Subir montes, rasgar urzes, estevas, giestas, silvas,
Cruzar pinhais onde se adivinham cogumelos,
Levado pela mão criadora, que todos os nomes sabe.
A chuva a dizer que nunca mais e a tornar um só dia
Num dia maior.

Aquelas mãos que nunca lançaram comentários ao vento,
Nem críticas ao silêncio,
Incapazes de ferir por dentro.
Um muro de pedra a cercar um lameiro verde.

Pões isto na cabeça que ainda apanhas uma pneumonia,
Vindo de outro tempo, de outro mundo mais fatal,
Em que se ia aos pássaros, já que não havia muito mais para fazer,
Nem sobrava a carne na mesa.
Aquelas mãos forjadas na dureza,
Capazes de guiar uns pés pequenos, inseguros, no início de uma caminhada,
Que não se sabe se longa, até à escuridão inodora.
Pai é quando chove e nem uma gota na cabeça.

30.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

domingo, 28 de março de 2010


*

Dizes que vês a vida na água
Que corre fresca e limpa na agueira.
Na agueira só vejo folhas de salgueiro
Que passam e estão mortas,
Insectos que lá caíram e ainda lutam,
Outros que lá vivem com outros animais
E um fundo de terra através da fina transparência da água.

Bebe um golo fresco de água
Sente a ponta do nariz dentro da frescura,
Todo o teu peso nos joelhos enquanto te ajoelhas
E te inclinas para beber.
Não vejas a vida,
Sente a vida!

Se vês a vida na água,
Bebe-a,
Mas bebe-a com goles lentos.
Sente no esófago a passagem refrescante a cada trago,
A água a descer,
A aquecer na descida até se tornar parte de ti.
Tu és a vida!

28.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

Poema para “Disse-me António Montes”

quinta-feira, 25 de março de 2010


Fazem Falta Lameiros

Fazem falta lameiros, frescos, verdes,
Dos que se inspiram pelas costas quando deitados,
Os becos escuros com o cheiro a mijo,
Onde o sol se esquece de visitar, na cidade,
Uma terra lavrada e o castanho no ar,
Antes do estrume nos cortes que o ferro lhe abriu,
Antes da ferrugem, do verde cobrir todo o trabalho do homem,
A chuva levar o cheiro a mijo dos becos escuros,
Os homens de verde levarem os preservativos esquecidos
Nas escadas antes dos olhos se abrirem, de manhã,
O musgo das fragas onde se dorme de olhos abertos dentro,
Com o peito a aquecer os olhos,
Antes do rio ter uma cor de mortos e meter nojo à pele,
Antes das ruas cinzentas de tantos passos sem sentido,
Sem serem sentidos em direcção a um nada,
Que mais tarde não dá lugar a arrependimentos,
Só o vidro do carro a abrir e um preservativo apressado
Nos bancos traseiros pela janela fora,
Dissolvido na escuridão, na água do rio que passa,
Em direcção a ruas com becos e cheiro a mijo,
Só porque fazem falta lameiros e o cheiro a cavalo suado,
Com o latex entre o indicador e o polegar,
Como um lenço dos de dizer adeus, e adeus mesmo a muitos impossíveis,
Antes do cheiro dos cafés a abrir o dia,
Quando para muitos se fecha até às quatro da tarde,
Com a pele cheia de cheiros a peles e a vícios,
Contra a escuridão de um beco,
Só porque fazem falta lameiros onde o peso dos corpos fica,
Até a erva se erguer de novo a dizer que ali ninguém nunca,
Nem a chuva que obriga a mão no vazio além do interior,
Com cemitérios a deixar luzes tristes e frágeis para lembrar a vida
Que se deve inspirar sempre que se pode,
Mesmo vazio num beco escuro, com o mijo a picar o nariz,
Como a água dos rios da cor dos mortos vinda de terras onde vacas e lameiros,
Carros parados até pelo menos um orgasmo, um indicador e um polegar,
Um abraço de prache e um beijo de rotina antes de se levar a casa,
Porque o coração não precisa de carnes quando há lameiros,
Só dentro o peso a quere
r sair, no beco escuro se ninguém a ver,
Quando o mundo todo da cidade a dormir, menos os homens verdes,
Que piscam, pirilampos a acordar os padeiros para o pão,
Mesmo que as searas longe do trigo que se vende irreconhecível,
O fumo de dois corpos, invisível a encher o espaço pequeno do interior do carro,
A espalhar-se pelo ar quando se tocam e um derrete para outro se perder dentro,
Para depois um indicador e um polegar a dizer que humanos,
Numas luvas amarelas a dizer “estes caralhos”,
E nem um lameiro onde se sintam vacas suadas com o sol a fazer brilhar o sal da pele,
Que se lambe em desespero para sair por momentos,
Do inevitável cemitério inadiável,
Quando basta um lameiro rasgado e um esquecimento mais sincero,
Longe de becos a cheirar a mijo e vida que não se faz,
Só se fode com um egoísmo de “se pudesse, só me vinha eu”,
Mesmo que os pirilampos digam que “estes caralhos”,
Sem ver o recibo a factura, aquilo uma factura perdida no escuro,
Tanto sol no lameiro, vazio de gente, verde, fresco,
A fazer lembrar pernas abertas com a mesma vontade do sol a brilhar.

25.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

segunda-feira, 22 de março de 2010



Uma Cerveja No Cemitério

O rumor de umas chamas que persistem nas velas,
O cheiro do ar quente na terra que arrefece a sua cor,
O quase silêncio, não fosse a vida a fazer festa ao longe,
Esquecidos disto aqui, onde me refugio das luzes,
Da minha cara na cara dos outros.
Trouxe companhia para vos acompanhar,
Já que estamos sós se só eu convosco.
Trouxe a companhia que traz a quase felicidade,
Não fosse engolida a golos desesperados,
Como quem apaga a luz para se afogar nas trevas.
Aqui estou, porque só vós me ouvis quando grito em silêncio,
Só vós nunca me conhecestes, nem conhecereis,
Eu que vos tenho dentro, apesar de incompletos,
Da falta de nomes, as faces que só um círculo pequeno no granito,
A de um dia que não esperava que ficasse para os do futuro,
Que ficasse para um sempre relativo.
A pedra ainda quente, a tocar-me de granito,
Onde me deito, de onde normalmente ninguém se ergue,
Com o copo na mão, apertado, a fazer-se sentir, ainda fresco,
A mão que quase pende, quase perdida no vazio cintilado por velas
Que insistem em marcar presenças ausentes.
Ergo-me em provocação, com a cruz de pedra atrás a ser pequena,
Ergo o copo e bebo, bebo à vossa, à minha por que vós possíveis um dia,
Apesar de hoje a tornar-me esta solidão quase impossível.
A vós vos trago dentro, atrás, no passado que não vivi na vida.
Não me conheceis, mas sou um daqueles que muitas vezes imaginastes,
Se um dia chegásseis lá, aqui, onde me sento,
Com a vida a correr por entre os dedos,
A sentir-se nas têmporas a cada segundo do tempo do corpo.
Sou o resultado sensível da vossa actual insensibilidade,
O orgão que toca a realidade, o que vos não deixa morrer por completo.
Hoje, dia de festa, esquecido o mundo do mundo que foi,
Dos que inventaram as festas para esquecer o silêncio,
A escuridão entre paredes nuas, debaixo de pesadas pedras,
Ou pequenos montes de terra de onde arrancam o verde,
Por que ali já não há esperança,
Bebo a minha cerveja antes que a vida a aqueça,
Na companhia dos que nunca conheci e foram vida antes de eu a conhecer.

22.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

sábado, 20 de março de 2010



Bom Dia

ao Carlos, César, João, Sebastião, Paulo e Rui

Com o peso de todas as preocupação nas alças de uma mochila,
A manhã que começa com o cheiro a café, torradas e leite.
Bom dia e sente-se de verdade, porque se sente a frescura de mais um dia,
Naquele momento nunca poderia ser mau dia,
Ainda se espera algo de novo, é certo ter-se algo de novo no dia,
Quando as preocupações todas dentro de uma mochila.
A manhã abraça-nos, fresca, cheia de portas abertas, de sonhos,
Como se fossemos os especiais, a esperança de um mundo que não cresce.
Dos paralelos até à rua principal, passando pelos cafés que acordam,
Com as vassouras a dar os primeiros retoques,
Como o pente e dedos molhados a dar os últimos,
A deitar aqueles cabelos que insistem,
Porque há sempre quem insista, quem queira fazer a diferença,
Quem vá contra, até que vem uma mão cheia de gel, marcas do tempo.
Com pedaços de felicidade à espera no átrio,
Para mais bons dias sinceros, de coração cheio e inteiro,
Com o cheiro branco da geada a fazer doer as orelhas e o nariz,
E eram todas as dores que tinhamos.
Pedaços de nós que ainda não reconhecemos,
Mas um dia, esta parte de mim é dele,
Aquela dele é minha, até que o pó vem e cobre tudo,
A tinta passa e faz-nos esquecer o que fomos, o que somos, por baixo,
O que eramos quando a mochila era o único peso a fazer peso na vida.
Entra-se pela porta com menos vontade do que com a que se sai,
Apesar de se saber que se vai sair a ser mais por dentro,
Aos poucos mais pesados, com um peso que não nas alças,
No pescoço, irradiando para os ombros, para as costas, para dentro,
Onde se começa a duvidar que more lá uma alma.
Aos poucos e com o tempo a inocência que torna tudo leve,
A esvanecer-se, a ser apagada pela luz que nos apontam aos olhos,
Como num interrogatório, a ver se somos gente.
Que venha o toque e uma pausa para falar à vontade,
Para completar o que somos com os que somos também,
Aqueles primeiros, os pedaços de felicidade com quem partilhamos o mundo,
O que se espera dele, sem saber que pouco nos espera.
Bom dia, e ainda temos muito pela frente,
Um dia inteiro de cada vez, até chegarmos lá,
E uma vez lá... onde é lá?
Aulas constantes onde é tão difícil acompanhar as vozes,
Testes todos os dias, tão difíceis, tão inúteis,
Para poder ter isto, que nunca quis quando o Bom dia sincero,
Isto que nunca sonhei quando acordei uma manhã para enfrentar mais um dia,
Tão igual e tão diferente aos dias anteriores,
Com o cheiro a café, torradas e leite,
Em baixo na cozinha à espera, com um Bom dia sincero à espera,
A manhã depois da porta à espera, com um abraço de Bom dia,
Os que me são no átrio à espera, com um Bom dia em coro,
A sala à espera, com um Bom dia sábio,
O intevalo à espera e nós à espera dele, é um Bom dia.
Intervalos que se tornam cada vez mais curtos,
Cada vez mais raros, de semana a semana,
De mês a mês, de meio em meio ano, de anos a anos,
Até que só um nome, uma doce recordação, um pedaço de nós,
Cada vez mais longe, cada vez menos visível, debaixo de tanto lixo,
A pesar no que somos, a esmagar o que fomos,
O que fomos capaz de um Bom dia sincero, com esperança,
Com as mãos cheias de nada, esperando com elas agarrar a vida,
Conquistar o mundo, que afinal, não vale a pena conquistar.

20.03.2010

Savolinna

João Bosco da Silva

sexta-feira, 19 de março de 2010



Liberdade

a Christopher McCandless

Não sei o que me dizem os olhares silenciosos,
Que se cruzam comigo sempre que estou na rua.
Não me chamam pelo meu verdadeiro nome,
Não sabem o meu real tamanho, mas continuam a afirmar,
Que eu isto e eu aquilo, quando eu nada do que dentro deles.
Não me dizem para ser livre,
Dizem-me que esperam que eu seja assim e de outra forma,
Porque esperam que assim seja,
Como se deuses, eles todos, uma massa a fazer de deus,
A enganar-me com um livre-arbítrio falso,
Quando só posso escolher entre o que eles oferecem.
Não sei o que os olhares esperam,
Não sei por que eles esperam algo de mim,
Eu que não lhe vivo dentro.
Querem que eu preto ou branco,
E eu cinzento no vazio dos seus olhos sem fundo,
Que não conseguem reconhecer a minha cor real.
Não sei o que me dizem aqueles dedos barulhentos,
A desenhar no ar realidades que não exitem,
Que não podem existir.
Não me apontam para o caminho que eu quero,
Eu que não quero nenhum caminho,
Não quero ter que escolher,
Simplesmente porque não tenho que escolher.
Continuar está bem, basta a interrupção inevitável.
Cumpri com o que esperavam
E nunca me senti fiel aos meus desejos,
Cumpri e nem os conhecia,
Aos dedos, aos olhos, tantos, a fazerem de deus,
De lei que não está escrita em nenhum lado,
Nem faz sentido algum,
Mas tem que se cumprir,
Porque assim esperam.

19.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 18 de março de 2010


Vozes Que Crepitam

Vozes amigas que crepitam como a lareira
Nas noites solitárias e frias de Inverno, na vila,
Com a geada a congelar todos os problemas até à manhã,
Ou durante o Inverno, onde o Sol não chega.
Vozes amigas que crepitam, mesmo que caminhe só,
No dia frio de fim de Inverno,
Quase noite, com a noite a cair como um véu púrpura.
Um cheiro invulgar a lareira no ar,
Já que a cidade de cheiros viscerais poucos.
Ouço-os, como nas noites de festa no Verão,
Todos a subir por cima do som da música do baile,
Para chegar uns aos outros, depois de tanto tempo,
Depois de tantas saudades,
Depois de um Inverno tão longo e distante,
Tão parecido com uma morte que se sente.
Vozes amigas que dizem que está tudo bem e contigo
E nós também, obrigado, queres beber um copo
E vamos lá por que o Inverno vem, lá ao longe
E a distância, nem se pensa nela, quando se está perto.
Venham elas, que nós agora as bebemos todas.

18.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

domingo, 14 de março de 2010


Caretos

A máscara a abrir a porta para a liberdade,
Grotesca, a pôr um véu no humano coberto de franjas,
Que já não o é, porque é mais: É sagrado porque é pagão.
É o fim de um ser e o início de outro.
É a porta entre dois mundos.
É o que vem e o que foi, neste que é.
Um nu colorido e barulhento a chocalhar pelas ruas
Da terra atrás das raparigas férteis e disponíveis.
É a festa da renovação, uma oração à natureza,
Um pedido à terra para que traga um ano bom.
As chamas levam o passado,
Por que tudo o que já não, é inútil, não faz crescer,
Há que purificar a terra para o devir.
O Inverno não dura sempre, mesmo que volte,
Cá estaremos para o ano.
Um presente eterno, mesmo que longe do início,
Mesmo que os avós mortos e os filhos por nascer,
Também eles foram, também eles serão.
Hoje nós o presente, a eternidade mascarada,
Protegidos do mundo dos outros dias,
Donos da porta que é o tempo.
Amanhã os facanitos a olhar-nos por detrás da máscara,
E nós à espera que nos abram a porta,
Mas hoje nós o que eles querem ser um dia,
Os que têm as chaves todas a chocalhar.
Hoje somos os arautos da natureza,
Da vida que ela dá e tira.
O animal preso durante todo o ano,
Finalmente livre, como um diabo aos saltos,
Com licença sem pedido concedida, porque hoje é o dia eterno.
Hoje duas caras. Hoje as chaves para todas as portas.
Hoje dia da liberdade mais pura.
Com uma paz violenta a fazer mal sem maltratar,
Ninguém pode levar a mal aos deuses por um dia.
Venha o barulho e a confusão,
O caos de uma rajada de vento a levantar as saias,
Ou uma vara se ele faltar,
Porque hoje somos nós que abrimos a porta.
Venha a geada e o frio a despedir o ano,
Que nós de um mundo entre mundos,
De um tempo entre tempos.
Donos e senhores de todas as chaves do universo,
Do universo comum, da ruralidade de onde a humanidade nasceu,
Fiel e transcendente, com origem na origem,
Nas fornalhas do tempo, quando o homem nu,
Com franjas e uma máscara de madeira ou couro,
Atrás das portas para abrir o futuro à humanidade.
Hoje os males dos homens e dos deuses longe,
Protegidos por uma mística imunidade,
Com uma misteriosa força que faz as pernas saltar,
A garganta gritar, livremente, pelas ruas da terra fora,
Atrás do que se gosta mais:
Raparigas solteiras.
Hoje fazemos a regra: haja liberdade!

14.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

sábado, 13 de março de 2010


Miranda do Douro

Do alto de uma escarpa, a ser pequeno aos ombros do gigante,
A ver a água que passa, lá em baixo,
Entre a pedra serrada pelos milénios da vida: o Douro.
Entre um país e o outro, a mesma água, a que interessa,
Onde quase se reflectem as muralhas erguidas pelo medo de outros tempos,
Levados pela água que passa e sempre a mesma.
Mudam-se os tempos e a água corre a ser Douro, a cortar muros de pedra,
Que o homem aproveitou para chamar o país de cá e o país de lá.
Entre uma escarpa e a outra o que corre, o que é fluido e leva a vida,
Entre a aridez da pedra, com as rugas do tempo e o verde inesperado.
As aves no limiar do abismo a fazer a vida,
Para buscar a vida na vida que passa,
Entre dois terras, só porque o homem lhes deu nomes distintos,
Para depois ter que erguer outras muralhas,
Erguer outros medos, quando o do abismo basta,
Com a água lá no fundo a ser morte vista de cima.
E para onde vai? Onde se meteu?
Foi visitar vinhas, ondas verdes que escorrem pelos vales,
Até chegar ao dominó irregular e multicolor que entre pontes se equilibra há séculos,
Pontes das que tornam um lado parte do outro,
Porque nem tudo muros e medos a separar.
Vejo-o a passar, porque estou condenado a um lado,
Porque não posso fingir ser o tempo,
Desde a aridez da pedra, à terra de onde o vinho se espreme,
Às casas vizinhas da casa onde nasceu a ideia de um mundo global,
Como se a história da humanidade no correr das suas águas.
Os sinos da sede, até aqui, a lembrar-me que eu pequeno entre gigantes
Que não adoram nada, porque a água passa e é sempre a mesma.
As muralhas a envergonharem-me e eu a querer fingir ser uma ave que vive no limite,
Que atravessa fronteiras sem nome, sem papéis, sem medos, universal.
Do alto desta escarpa, a do meu lado, impossível ser o que corre entre,
Unindo o que os nomes separam,
Por que afinal, não há linha nenhuma entre a água que passa,
Sinto-me tão pequeno, aos ombros do gigante que vê a vida a passar,
Levada por um gigante maior que se estende pelo tempo, criando história,
Sem dar por isso, porque só o homem do lado da escarpa a ser pequeno.

13.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 11 de março de 2010


Chuva

Chove, mas não cai nada que se sinta.
Chove, mas nada húmido, nada se molha.
Chove, mas não chove nada,
É algo dentro a partir como se uma nuvem,
Só por que o peso demasiado,
Só porque tem que chover.
Silêncio. Nem gota se ouve contra a chão seco,
Contra uma folha de verde sedento,
Contra um insecto e o seu caminho interrompido.
Só o silêncio de algo a quebrar por dentro
E uma gota a querer ser,
A escorrer, quem sabe se salgada,
Quem sabe se sumo do que se partiu, por dentro,
A querer cair, mas a escorrer,
A rasgar um sorriso numa linha brilhante dos olhos aos lábios,
Que lambida e não chove,
Mesmo que por dentro.
Nada cai, ninguém vê, ninguém sente,
Só por dentro quem sente a chuva que fica
E pesa e faz com que o sal se canse de estar,
Faz com que o sal se case e se derreta em sorrisos tristes,
Diluído na desilusão, só porque não cai,
Só porque não se sente a ser algo húmido,
Que quase não molha,
Que chove, mas não chove,
Só porque demasiado peso a quebrar,
Sem olhos para dizer que também chove para mim,
Que eu te vejo essa chuva,
Que eu te sinto a chuva.

11.03.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

segunda-feira, 8 de março de 2010




Formigas de Asa

ao meu primo Rafael


Ainda as formigas na terra onde não formigas,
Só passos que lhe caem, ainda no ar, sempre,
Com as formigas sem estarem mais, só porque foram tantas no crepúsculo,
Só porque a atenção para as asas se as tinham,
Para enganar os pássaros com uma fácil morte, mas para eles.

Agora nada. Formigas, só as sombras que elas deixaram,
Algures, na região occipital, como um teatro de sombras
Contra uma parede de osso onde tudo, o meu tudo e o tudo que é possível ser,
Quando os meus olhos se abrem e o mundo entra e fica...
Até quando? As formigas agora que o Sol já não se vê em lado nenhum,
Só as sombras crescem e um resto de calor no ar a permitir os passos,
Que caem na terra onde não formigas,
Só a antecipação de mais um passo,
Mais uma marca onde nada,
Sem formigas apesar das sombras dentro a confundirem-me.
Para quê? Já não interessa, a cabaça está cheia,
Amanhã os pássaros cairão no engano e serão formigas a fazer sombra.
A morte é só uma sombra que fica em nós quando não é a nossa sombra que nos cai nos olhos.
As formigas, tantas, enquanto caminho, eu com medo de as pisar,
Apesar de levantar os pés, a marca do passo e as formigas ainda a viver,
Cá atrás, dentro, onde a comichão me pede os dedos de uma mão,
Na nuca do embaraço quando uma palma, porque não há formigas e eu a vê-las.
Olha tantas, também as vês? O escuro a crescer e o tempo a ir-se,
Os olhos ou quem lhe diz o que ver, enganados.

As formigas de asa a crepitar dentro da cabaça,
Como um fogo vivo, colectivo, negro,
Num roçar de asas transparentes, reais e eu seguro que elas ali,
Na cabaça que na minha mão suada e eu sem a sentir,
Vendo as formigas que ainda insistem em se mostrar,
Sem estarem mais.


Rantasalmi

09.03.2010

João Bosco da Silva