sábado, 21 de dezembro de 2013

Chocolate Starfish And The Hot Dog Flavoured Water

Ela julgava-se especial com o seu vestido transparente, à entrada da porta aberta num dia de Sol em Agosto,
Eu convencido de que não queria saber de mais nada além daquela silhueta, já tinha provado a rata fresca
Da amiga da minha irmã e manchado as páginas do Hemingway com o sumo da sua puberdade,
Ela julgava-se especial, eu convencido de que o mundo orbitava à volta do seu sorriso desmaiado,
A luz a despi-la nos meus olhos torturados por tanta punheta e rima forçada, até torres caíram
E ainda o Frodo não tinha saído do Shire, as mãos dela nas minhas, na sala escura protegida da canícula
E a fábrica a sobrecarregar uma líbido de cão de inferno, se ao menos na altura eu soubesse o significado,
Ou pelo menos o sabor daquele significado, as palavras que juntos ouvíamos, ela que se julgava tão
Especial e eu tão encolhido, invaginado ao ponto de me poetizar, o início de uma descida ao pântano
Dos nados impossíveis despejados em vazios desconhecidos, das palavras disparadas em convulsões
Silenciosas nas gargantas gorgolejantes, contra os peidos de cona e os desconfortos anais das
Submissões anónimas e a água a escorrer, a dor vertida numa vingança sublimada e traduzida para a língua da língua,
Inocentes, ela julgava-se especial, eu não me julgava nem me conhecia, tinha papilas gustativas
Inexperientes, desconheciam a estrela de chocolate, ao Sol e eu sem saber que a sede não era de mãos
E carícias inocentes, mas daquilo que o mar não dá, só a terra e o desejo inocente de um pouco de inferno,
Com o epicentro longe do cataclismo das noites passadas à procura dos futuros perdidos nos esfíncteres
Alheios, tudo se torna claro e belo, chocolate starfish and the hot dog flavoured water, o meu amor
Induzido, subliminar, entre olhares vestidos de inocência e jogos de cartas para diluir a verdadeira natureza do poeta.

Seia

09-12-2013


João Bosco da Silva
Arte De Te Beber

Podia dizer-te que te quero abrir como uma garrafa de vinho, depois de estudar o teu rótulo,
A tua origem, o ano da tua colheita, abrir-te lentamente e deliciar-me com a tua abertura,
O som da rolha de cortiça a sair da garrafa e a deixar o aroma encher o ar, deixar-te respirar,
Respeitar a tua cerimónia, podia dizer-te isso tudo e colocar um pouco de ti no copo certo,
Agitar-te levemente, cheirando-te, procurando o teu tom único, a tua transparência e provar-te,
Mastigar-te com suavidade, podia mentir-te, mas o vinho encerra verdade, por isso te digo
Que a vontade é de te abrir como puder, e sem um saca rolhar, enfiar a rolha para dentro da
Garrafa e engolir-te de pernas para o ar, sem te saborear, não te quero estudar, tenho sede
De ti, quanto ao rótulo, deixar dele uma mancha de cola, restos de papel arrancados com as
Unhas, como se faz às garrafas da cerveja quando se tenta adiar mais um cigarro, quero beber-te
No desespero da solidão, não te quero partilhar com mais ninguém a não ser com a madrugada,
E engolir, engolir-te toda até deixar de me sentir eu e triste, até conseguir adormecer
Contigo toda dentro de mim, sabendo que vou acordar com a cor da tua pele nos meus lábios
E a tua presença pesada onde dizem que habita o amor, não consigo beber-te de outra forma,
Podia mentir-te, mas o vinho como tu, deve beber-se com verdade e antes de ficar vinagre.

18-12-2013

João Bosco da Silva


Coimbra

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Saimaan Rannalla

aos,

Onde a água é dourada ao fim da tarde tardia, os barcos passam e nem se vê neles
A passagem da vida, sente-se a escorrer, a água do lago, lágrimas inversas, o prazer
Da pele quente pelo Sol leve filtrado pelo verde, engole-se uma Olvi na ilha do museu,
Confessam-se todos os pecados em segredo ao castelo, enquanto se grita alto
Liberdade, roubam-se os talheres do restaurante medieval para se esquecerem
Numa oxidação inocente entre erva grossa, as loiras brilham mais que o Sol,
As garrafas de vinho enterram-se na areia à espera do amigo italiano, enquanto
Se juntam troncos para criar uma homenagem à amizade e à felicidade do pouco,
Sozinho à beira do Saimaa, não é possível sentir-se triste, a cambada toda com
Peixes frescos, assados na madrugada, e caixas de vinho barato português,
O mais barato, cigarros enrolados na improbabilidade da companhia, mergulhos
Sem pudor, apenas carne e gente, a água benta dos católicos purificada
Pela fria água do lago, os dedos dentro da tocadora de kantele, os peixes
Brilhantes na ressaca de uma noite de cona de dezanove anos entre as coníferas
Da ilha pequena ao lado do casino antigo, a arte de viver na arte, a caverna perto
Da estação onde se caga para a esterilidade branca do que se vende aos olhos
Ignorantes dos estrangeiros, a cerveja que esperava onde se escoam as chuvas
E a neve dos meses que derretem, o podre tem outro sentido, purificador,
O leite é uma necessidade fotogénica e há beleza em tudo, até em mim,
Sentem mais os olhos que não traduzem que todas as dissecações da terra,
A bicicleta desiste da corrente e leva-me ao lago, acabo em arbustos
E com o sabor metálico do sangue misturado com vodka barata, é no local
Do costume, onde sempre é casa, venha-se do inferno que se venha
E no fim do dia, janta-se muikku sem intenções, entre vietnamitas, belgas,
Espanhóis, chineses e americanos, e a noite traz óculos de sol e vestidos
Pretos e brancos manchados com esperma e um agradecimento sincero,
Ao ritmo de um ressonar bêbado, na cama do quarto da porta aberta.

05-12-2013

Coimbra


João Bosco da Silva
Tea Bagging

A estação de comboios, ao lado, esperava, gelada, as viagens que não voltaria a fazer,
Não voltaria a partir, nem voltaria a escrever poemas no vagão restaurante com uma
Cerveja quente, enquanto vivia a vida dos outros e transcrevia a minha no papel
Suado das viagens do Verão, agora parece impossível o calor, mesmo a marca
De gotas de sangue na neve, quente, nem um cão na rua, só eu farejo em direcção
A mais uma perdição, a luz do dia ainda fechada como o resto do dia, na sala estava
Um amigo bêbado, daqueles que se encontra a más horas de pé esquerdo, tentava decidir
Entre mergulhar na amiga lésbica, já desfocada com os seus grossos óculos de massa,
Ou afogar-se na cerveja que restava, nem todos dormem e menos ainda são os que sonham,
Ao ritmo de uma viagem que nunca chegará ao destino na noite, uma boca vermelha
Envolvia o saco de chá, dizia que gostava com leite, mas o vinho não permitia vias lácteas,
Procurava com o olhar suplicante, extrair pelos poros do  escroto uma vibração que eu sentia
A escorrer em forma de saliva e sede, alguém acordava para começar menos um dia, alguém
Se vestia, a nossa roupa no chão da casa de banho a fingir sinais de amor, só fome na verdade,
E aquela sede de ruína, de ter-se bebido demasiado, de paixão, pouco ou nada, apenas a fúria
Nos lábios e o desespero no olhar, uma solidão crónica que se mata só com a desilusão,
O caminho de casa estava no sentido inverso, mas no fim, quando não há mais caminho por
Onde ir, resta voltar para trás, não regressar, nunca se regressa, o tempo não o permite,
O chá terá arrefecido, poderá até ter açúcar desta vez, outro sabor fermentado por algo
Parecido à saudade, mas saudade como sentir falta de um dedo onde outros dedos
Entraram e mal se estranharam, ela adorava tê-los na boca e eu adoro a marca que a boca
Me deixou na solidão que estes dedos agora percorrem sem arrependimento.

Coimbra

26-11-2013


João Bosco da Silva
A Sombra Da Anti-Matéria

Respeita a matéria negra, afinal de contas é ela
Que suporta o peso de toda a luz, dá também espaço
A estes poemas destilados da treva, do cheiro a salitre,
Da merda fermentada, do esperma bêbado em adro de igreja,
Ninguém vive sem cagar, mas passa-se sem se tomar banho,
Há purgas essenciais, da alma nada fica e só na vida
Tem que se arrastar este saco de tédio a que se chama
Imaculação, sem crucificação não haveria religião,
Respeita a matéria negra e o lado escuro da poesia,
Sem Rimbaud não haveriam tantos iluminados hoje,
Sem tantos iluminados, não haveriam tantas sombras,
Deixa apodrecer as flores, azedar o amor como o leite,
O sumo também fermenta, é mais natural, e não podes
Esconder que o que move os dedos, não é a vida,
Mas a consciência da grande sombra, ou também os ratos
Seriam poetas nas bibliotecas das faculdades de letras.

Coimbra

10-11-2013


João Bosco da Silva
Uma Fidelidade Inútil

Escrever nunca me trouxe glória ou amor, muito menos
Quando escrevia por uma coisa e a ilusão da outra,
Escrevi cartas de amor, em noites passadas em casas de amigos,
Tu ficas com esta e eu com aquela, mas escreves tu as duas,
E eu escrevia, no fim, uma das duas dava resultado, talvez
Me faltasse o olhar, ou as palavras nos lábios, ou apenas
Prontidão, seja como for, ficava a entreter a amiga com
Silêncios constrangedores, enquanto o meu amigo comia o fruto
Do meu trabalho, a que ficava comigo, entediada, sabia no fundo
Que as cartas tinham tido um único autor, apesar de uma delas
Não ter tanta timidez, depois das cartas vieram as mensagens
Rápidas, outras noites a escrever para mim e para os outros
O que sentia, do meu lado, sem efeito, do outro, ainda estão
Juntos, no fim de contas foi com o que fiquei, escrever,
E agora, nesta noite solitária, se calhar, sinto-me menos só.


Coimbra

10-11-2013


João Bosco da Silva

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Vomitar Antes De O Barco Parar 

Perseguem-me os ecos das ruas escuras, percorridas no mais rigoroso Inverno possível 
À civilização, as jogadoras de voleibol de dezanove anos, misturam-se com as sonhadoras 
De terras pequenas e afogadas em tradição e hipocrisia engordada a hóstias e fumada a incenso, 
Agora as jogadoras exigem dos seus santos maridos lenços do LV para limpar do canto da boca 
O esperma que colheram entre caixotes do lixo, que entretanto azedou como o vinho que 
Não coube mais na bebedeira, perseguem-se os olhares certos como pedidos sinceros, 
Mas só o reflexo deles, na memória decapitada por recentes difamações circadianas, 
Perde-se a conta às garrafas que consumiram o tédio, amordaçaram a vontade de incendiar 
O Inferno com perversidade inocente e franca, do que se queixam os cadernos que amarelecem 
Numa caligrafia sísmica, não o sei, até as amizades se cansam do cansaço dos outros, e o tempo, 
Esse, persegue quando se torna fantasma, e naquele impossível de se trazer por crânio, 
Que torna as noites tão pesadas quando não se tolera fechar todo o vazio dentro de casa 
E sair para a companhia do incerto, quando é tão certo o que preenche o que falta para o infinito, 
Nada mais me prende a nada, a não ser o desespero, a fome, a sede, tudo que se destila 
Numa aguardente infinitamente inflamável e inflável, nem todas as pedras são levadas 
Pelo vento, não as que matam cedo os sonhos ridículos de criança, nem as que levam 
Ao passo fatal de mais um dia que será levado pelo resto dos dias, perseguem-me os ecos, 
Mas estou trancado entre osso e osso, mudo, só me acompanha a inquietação de tudo 
O que perdi, mas que afinal tive, para perder, quase tomo o Reis como o favorito deles todos, 
Apesar de tudo, prefiro injectar o tédio até ao limite da tolerância, até aos dedos se resignarem 
À guerra contra o passar lento do lixo limpo que se acumula nas ruas comerciais das cidades 
Destes burros com maneiras de inglês, com diplomas escritos com lápis de cera em papel higiénico. 

16-11-2013 

Coimbra 

João Bosco da Silva

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Senhora Professora Eu Confesso II

Podia estar a foder uma professora, ou a escrever um poema sobre uma professora que fodi,
Sob o efeito de muito sake, mas já não há nada para aprender a estas horas, nem para ensinar,
A grade de cervejas, alguém se esqueceu de a levar de volta ao café, não fui em quem a pediu,
A escola agora está vigiada, tem porteiro, a cama tem os lençóis frios, e de manhã espera
O meu corpo cansado para a aquecer, o sake agora só com a desculpa de um sashimi duvidoso,
Vai-se às peixeiras do Bolhão comprar salmão fresco da Noruega, tão longe, tudo deixa
De ser o que se diz que se é, até as tatuagens perdem a cor, as cobras tornam-se em manchas
Estranhas em ombros que um dia tiveram a nossa saliva a secar e o nosso esperma, salpicado,
A cristalizar sob o céu estrelado do Inverno que sem promessas tudo torna escorregadio,
Houve uma professora nas pradarias africanas, onde o céu queima poetas com a mesma
Inocência com que os poetas fodem, a mesma curiosidade do primeiro beijo, não há desculpa
Para aquela escavadeira a enferrujar onde os elefantes fodem em Samburu, mas fica a dúvida
Da chuva, os pneus também temem uma vergonha, não agora, as professoras dormem,
Ou engolem alguém mais ou melhor, não interessa, tudo passa e até os dedos perdem o cheiro
Do sashimi que se cortou mal, quase um dedo, tal é a virgindade de cada poema,
A porta do carro já não se abre para ela gritar, armada em lobisomem com uma piça bêbada
À procura de um aleitamento outonal, dizem que um ficou doente e teve filhos, o outro
Continua a engordar e a sonhar com iguanas entre garrafas de mini, tornou-se político,
Ou besta de carga, como todos no fim de contas, neste país de puxar burros gordos
Pelas mentiras e promessas ridículas fora, não há professoras, a não ser as amigas,
Agora também essas não fazem mais nada a não ser fazerem de esposas responsáveis,
Há quem tenha sorte tendo apostado tudo antes do river, até as garrafas deles estão cheias,
Não compreendo, mas é mesmo por isso que continuo a escrever, sobre professoras e assim.


26-10-2013

Coimbra


João Bosco da Silva
Um Daqueles Sobre Pouco

Houve duas noites, numa foi aquela das duas miúdas de Helsínquia, em que uma me disse
Tu não pertences aqui, e tudo  bem, conversa toda a noite, e no fim, eu e o meu amigo médico
Turco, fomos com elas até ao carro onde elas iam dormir depois, e depois dormiram,
A outra foi na mesma discoteca, eu e o meu Dean, depois de termos ganho uns bons euros
No blackjack, das poucas vezes em que isso acontecia, duas, desta vez mesmo da zona,
Uma delas não estava muito virada para a conversa, a outra sim, um loira, Lolita bem armada,
Com bastante leite para dar e beber, eu com a mesma conversa de ser velho, há quantos anos
Ando eu com esta conversa, a gaja estava louca para viver, para saborear, para experimentar,
Nem que fosse engolir o meu mijo, a outra, tentava esconder as queimaduras, consequências
Do seu trabalho, trabalhava para o palhaço que diz ajudar as crianças, a ficar gordas e
Futuros bipass, a mesma puta de hipocrisia que faz crescer uns à custa da miséria dos outros,
Miséria feliz, mas pronto, escondia os braços, as queimaduras a cona e tudo o resto,
Naquela noite uma santidade, não estava bêbado para o que quer que viesse, mesmo assim,
Ficou, sou vingativo quanto ao desperdícios de possíveis momentos de orgasmo, ou ao menos
Penetração, já há algo de revelação nisso, ou não, não se foderia tantas vezes bêbado,
Se não, ou sem vontade, se não, ou só para conspurcar, conquistar, submeter, vontade do poder,
Filhos da puta, vacas e viciados em glória para levar o caixão cheio de sapatos de verniz e um
Fato que nunca se vestiria em vida, seja como for, pagamos tudo, a noite ficou barata e ainda
Teve que se pedir o resto das fichas em dinheiro para levar para as hambúrgueres da tarde seguinte,
Manhã, nem pensar, não há manhãs nos dias livres de onde se é pago pelo trabalho que se faz,
A tal Lolita, muitos dias depois, pediu caralho, apanhou-me numa ressaca fodida,
Estou, neste momento a pedir-te para vires aqui, onde vivo, e foderes-me a cona até ao cérebro,
Impossível, realmente era impossível, naquela noite tinha um poema para nascer e responsabilidades
De fachada para poder dormir e acordar numa cama quente todos os dias, ou a maioria,
Nunca me perdoou pela recusa de piça, quando ma pediu, tão encarecidamente,
Quanto à amiga das queimaduras, é uma das loiras nos poemas anteriores, das que engoliam,
Pediam mais, fodiam nas camas das amigas, nas casas de banho enquanto os meus amigos
Tentavam engatar a amiga lésbica ou adormeciam com uma lata de cerveja na mão, no sofá,
Ao lado de uma máquina de escrever vermelha, que não escrevia nada, porque estava só
Para se ver, há muitas assim, por isso, mais vale pegar numa caneta e escrever no papel gorduroso.


26-10-2013

Coimbra


João Bosco da Silva
Demasiado Cansado Para Dormir

“Sit and drink Pennyroyal Tea
Distill the life that´s inside of me”

Kurt Cobain

Os versos fermentam no cansaço, amadurecem nos dias cinzentos
Entre horas perdidas, roubadas à exaustão, mas o sumo,
Esse vem do Verão, da seiva que escorre dos dias loucos,
Das overdoses de felicidade, quando se bebe para alargar a noite
E não para aliviar os olhos do peso dos tempos sérios e sem
Grandes horizontes verdes, as ovelhas ainda pastam na periferia
Da confusa cidade, que o Turner visita ao fim do dia para pintar o céu
De medo, os olhos procuram o alívio das pálpebras  vermelhas ao Sol,
Mas não há Sol, não para todos, é por essa razão que
Todos sonhamos , consumimos o açúcar dos sonhos para tentar
Embebedar os outros com a certeza de todas as nossas incertezas,
E um verso é uma confissão, mesmo quando vinagre, é o testemunho
Da doçura que o tempo transformou, como a ignorância em
Maldade, inocência em hipocrisia, o cansaço num sono impossível
De dormir e que os dedos tentam largar, letra a letra, como
As moscas desesperadas por causa da chegada do frio, procurando
Um sentido para levar toda a confusão à razão, já o mestre dizia
Que a verdade está na doçura, mas nem todos a conseguem
Saborear enquanto escorre pelos dedos, falta infância,
Na verdade, as lágrimas sempre foram mais reais que sorrisos.

Coimbra

25-10-2013


João Bosco da Silva

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Revolta Contra A Deglutição

Cansou-se e o forno não tinha gás, os óculos também estavam cansados e a carne
Esqueceu-se da sua utilidade redentora, achou que a solução era a eternidade,
Mas não sabia que a eternidade é onde ninguém vive, terra de imortais, todos os
Que vivem enquanto os mortais os inventarem ao acordar, nos mitos, nas religiões
Ou nas páginas de banda-desenhada, não sei que dor a levou a engolir tanto,
Devia ter distribuído lostras e broches ao sabor da vontade e do desejo,
Não me desiludiu, nem me impressionou, mas esperava uma manifestação
De vida, porque a vontade é de viver e é uma reacção contra a morte e o tédio,
Engolir o fim nunca é solução, engolir futuros, apesar de tudo, não apaga
Tantas luzes e desperta material anti-poético dos cemitérios que somos,
Cemitério de Valhalla em San Elmo, com um nome tão acertado, todos merecemos
Um lugar no cemitério dos heróis nórdicos, todos merecemos esperar o Ragnarok,
E cuspir nas entranhas do inimigo misturadas com as nossas, foi isto, fodeu-se,
Mas nada de adiar e engolir cobardemente um grito, grite-se se a vontade é essa,
Chore-se, mije-se, ejacule-se na cara, ,mande-se foder, cultivem-se cornos,
Colecionem-se DSTs, tudo acabará por ser poesia, mas sem poeta, nada feito,
Foda-se, acorda, tira a cabeça desse forno apagado, espera um cancro,
Um carro que te confunda com um vagabundo, cansa-te ao menos da cegueira do mundo,
Conhece-a até ao teu limite, já que ela não tem fim, mas fica comigo, fica aqui,
Onde a solidão se escreve em companhia, onde dormir quente é acordar frio,
Sonhar é desejar perder tudo para ter uma tela em branco, onde pintar sonhos,
Sem medo de perder, porque tudo foi perdido, tudo menos a tinta que é a vida,
Foda-se, não me percas essa luz que eu tanto gosto de fingir ser possível
À minha volta, a escorrer por mim, a envolver-me quente e ébria, contente,
Tu és tão grande, demasiado grande para uma morte precoce, envelhece por favor,
Envelhece-me a mim também, e se um dia tiveres coragem, daqui a cinquenta anos,
Ou tal, terei todo o gosto em entrar dentro da tua experiência e contar os teus anéis.

18.10.2013

Coimbra


João Bosco da Silva
Pão Fiambre Queijo Pepino

Não interessa que cheire a mijo e pão fresco na esplanada da
Pastelaria, nem que os idiotas se reproduzam ao ritmo das pombas
E comparem os grandes futuros que lançam na podridão de
Séculos, quanto mais parvos, mais alto falam, não sei como
Conseguem engordar com a dieta de telenovela de manhã
À noite, mas sobra-lhes tempo para cobrirem as pregas de mania
E olhares onde não está ninguém, carros estacionados,
Mas nada disto interessa, não desde que hajam as palavras
Terríveis das que as mães se queixam, não são para elas, nem
Por elas, são as hóstias que consagram os dias do inferno,
A água benta que lava os intestinos saturados de lixo, o cérebro
Atulhado de merda, não interessa o pançudo com o carro a condizer,
Que conhece toda a gente e não reconhece ninguém, não interessa,
Enquanto houver fome e páginas em branco para essa fome,
Haverá sempre salvação, não interessa que se aprove uma taxa
Para o ar, ou que obriguem o aborto a quem não tiver um salário
Capaz de permitir direitos fundamentais, como um BMW, não interessa,
Tudo está bem desde que haja pão de forma, fiambre, queijo e pepino.


Coimbra

16.10.2013


João Bosco da Silva

terça-feira, 15 de outubro de 2013

Discurso Enquanto Mosquitos Chupam

Da injustiça incoerente diz-se que é o que temos, pela dos nossos padres, eramos todos,
Literalmente, ovelhas vestidas de freiras com o rabo alçado, tudo o resto é pecado,
O que está fora do alcance dos seus bolsos e braguilha, na verdade somos vacas
Num matadouro, prontas a enriquecer uma multinacional e engordar muitos burros de morte,
Falta harmonia neste estrume, traçam-se linhas rectas sobre o horizonte recortado pelo tempo
E espera-se com isso tornar tudo mais habitável, mais controlado na verdade, ilusão,
Tudo é à imagem e semelhança do dinheiro, um geometria para olhos brutos, cegos pelo
Brilho frio do ouro, daltónicos para as cores da geometria divina das coisas pequenas,
Há uma grande lição na  Ishavskatedralen em Tromsø, algo que os bárbaros do Sul nunca
Conseguirão compreender com a sua visão moldada em forma de cruz e claustro, por cá,
Desiste-se da montanha a meio, divinizam-se as putas e elevam-se os verdadeiros ladrões,
Falta canonizar os assassinos imunes e indiferentes às fomes que espalham pelas vidas,
Cada vez menos livres, cada vez menos livros, cresce a estupidificação em massa,
Vestida de loiro artificial, mamas de revelação rápida e pernas de abertura fácil, tudo com
O software de um tamagotchi, somos quadrados e agudos, confundimos depressão com
Profundidade, reflexão com preguiça, anémico com anímico, inúteis pedantes cheios de
Certezas válidas apenas nas próprias loucuras mal diagnosticadas, no tabuleiro pessoal
Do Monopoly, somos o país do Sol, onde se é sombrio todo o ano, o escroto estéril da Europa,
Ainda cheio de si e das recordações de fertilidades antigas, aqui fode-se por número e por
Submissão, por favor a favores, não se espera o orgasmo como recompensa, mas que seja
Breve e que venha rápido o que se espera das calças aos pés da cama, sempre com um saldo
Ridículo e humilhante na tolerância às papilas gustativas e olhares frontais, capital dos sorrisos
Amarelos, das amizades da pança cheia e dos cornos afiados de perto, dos olhares de esguelha
Em direcção ao lado da braguilha, se fosse alguém, queria ser norueguês e descobrir o Novo Mundo.

11.10.2013-15.10.2013

Torre de Dona Chama – Coimbra


João Bosco da Silva
Atacador

O que enlouquece, não é a morte de alguém
Querido, ou a doença, não é o abandono, ou o esquecimento,
Não é perder um amigo, o que enlouquece é o autocarro que se atrasa,
São os taxistas com a sua pressa de fazer pouco,
É uma linha que se transforma numa corda ao se aproximar da agulha,
São as filhas da puta das rotundas, onde todo o civismo
Converge, voltas para logo ali, ou lado nenhum,
O que enlouquece é a prisão aberta em que se vive, cheia de olhos
Para fora, inquisidores sem pecados com os bolsos cheios de pedras,
O que enlouquece é acordar tarde, abrir o frigorífico e não ter
Nada para comer, com dinheiro na carteira, para pagar contas
De merdas que não se chegarão a usar, o que enlouquece
É engolir a vontade saudável de ser homem e esconder nos lençóis
Os sonhos que matam mais um pouco ao se acordar,
O que enlouquece não é sobreviver a um grave acidente,
É ter um furo, no meio do trânsito e sentir-se completamente só,
É não ter um euro para se ir cagar à casa de banho, numa cidade
Grande, cheia de arte, cultura e gente sem cu,
O que enlouquece é ter a loucura aprisionada,
Esconder a luz e andar pelo mundo às apalpadelas,
Ter um cigarro e não ter isqueiro, beber no silêncio,
Dormir com os pés quentes e sonhar que se fode,
Estar a um metro quando falta um metro, mastigar e não engolir,
Não conseguir arrancar um pêlo com a pinça e ter que o arrancar
À dentada, ter perdido o que se poderia ter tido,
O que realmente leva a caçadeira à boca, ou os comprimidos,
Não foi a porrada que se levou, é o silêncio numa noite
De Lua cheia, um tecla que se falha no fm de mais um poema.

Coimbra

João Bosco da Silva


08.10.2013

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O Principio De Incerteza Do Fim Certo

“Na minha vida, a única coisa certa é a confusão.”
Pedro Juan Gutiérrez

Podia ser um fim de tarde quente de Junho, perto do fim da inocência, na esplanada
Do café perto da escola, a beber uma Frize limão a falar do que não se conhecia, o desconhecido,
Que na altura se chamava de futuro e era visto como algo branco, uma página, à espera
Da nossa vontade, do nosso esforço, das nossas cores, hoje já se sabe, que o desconhecido
É algo escuro, dominado pela sombra, só a incerteza é comum, sem pinga de optimismo,
Falava-se dos livros que se iriam comprar, quando se vivesse na cidade, sem as limitações
Do que está à mão e toda a gente lê, a época de Nietzsche, Schopenhauer, Sartre e
O agradecidamente obrigado Ferreira para os apagões das primeiras insónias, podia ser um
Fim de tarde quente de Junho, mas não é, nem há esplanada, nem os velhos amigos, cada um
Cada vez mais outros que eles mesmos, os anos ainda trazem vida a alguns, vida e brinquedos
Espalhados pelos corredores, os que nunca se tiveram na infância, podia estar a beber uma Frize
Limão e esperar tranquilamente pelo tudo ir dar certo, mas não, bebo um gin tónico com
Pepino enquanto a noite arrefece o dia de Outono e espero, inquietamente, por um pouco
Mais de nada, que o desconhecido se revele num mais ir andando, são as palavras possíveis,
Vai-se andando, tudo na mesma, e a vida, vai, enquanto for menos mal, desde que as curvas
Da estrada se façam, desde que a dor vá passando e haja ao menos um dia ou outro para
Enfiar a cabeça num copo ou numa garrafa e lembrar alto o delicioso que era o pouco que se
Tinha nas mãos, quando as mão capazes de segurar em tudo, ilusão, as mãos mal aguentam
Mais uma noite, escorre pelos dedos e no fim, pouco mais fica que um bocejar amargo ao
Longo do dia, procura-se num livro a inocência que se deixou esquecida na cadeira daquele café,
Mas os livros, cada vez mais, são reflexos do desencanto, uma reclamação às promessas que
Nunca nos foram feitas, uma lista de tudo que nos foi quase dado, das lições que, essas sim,
Nos foram oferecidas à força do chicote e da humilhação, é para aprenderes, agora lê-se,
Não para encontrar, mas pela companhia, agora bebe-se com Bukowski, vai-se ao engate
Com o Miller, viaja-se com o Jack, mete-se com o Will, fuma-se com o Juan Pedro,
Consulta-se o Dr. Thompson sobre os malefícios do tédio, às vezes procura-se um pouco
De ar num poema nórdico, ou a familiaridade num romance finlandês, revisitam-se os museus
Que no café da terra faziam parte de sonhos, os quadros que só nos manuais de educação visual,
Até o professor morreu, mas que esperar, se o gelo do gin já derreteu e o copo transpira como
Se em privação de álcool, sei que o mestre continua a visitar o café diariamente nos dias de aulas,
Porque os mestres são constantes, atingiram um nível máximo de fidelidade, o devir é algo certo,
Constante, e já se sabe, que quando se abrir a caixa o gato poderá estar morto, portanto,
Seguem, com a certeza de um gato dentro da caixa fechada e nada mais, o resto é levar o dia à noite,
Porque a família em casa espera e tudo o mais é esquecimento, um aluno que um dia não
Esperou ser tanto, nem tão pouco, tão menos daquilo que os olhos lhe prometiam,
Do verde, resta o pepino no fundo do copo e daí nem isso, que também o mastigarei,
E amanhã de manhã, será mais um verso, sobre isto, o principio de incerteza do fim certo.

Coimbra

07-10-2013


João Bosco da Silva

sábado, 5 de outubro de 2013

De Um Brinde Poético À Distância De Um Abraço

A distância asfixia-nos, mas não aquela que traz horizontes escurecidos pelos anos,
A distância dos horizontes verdes, dos verdes anos, ou simplesmente do tempo
Que apenas embebedava em vez de afogar, esmagar, semear o prateado indesejável
E as curvas que toda a gente quer ocultar, bebe-se demasiado mas nunca se bebe
Quanto a sede merece, tantas lágrimas engolidas no durar em que o viver se torna,
Entre goles com vontade e aqueles que têm que se engolir, entre uma gota de mel
E mais uma descarga biliar, o verde amargo da esperança que corrói os intestinos da alma,
Ao ponto de não se poder absorver mais os dias de Sol, com os mesmo braços abertos
De antes, o sorriso é um reflexo para responder socialmente ao que se espera,
Lê-se tanto, porque se tem tanto para dizer, mas o medo de se acertar na cadência do coração
Impede a língua o que os dedos consentem na solidão, entre a primeira e a última cerveja,
Gostava de conseguir espremer o limão, fazer sumo, simplesmente, e refrescar a alma,
Mas sempre que me dão limões, faço gasolina com eles e incendeio as páginas em branco,
Engulo o ácido destilado à sombra da solidão e da noite e vomito tudo em forma de salvação,
Uma mapa da perdição onde me encontro, onde por vezes me parece que também tu estás,
Poeta, não o meu espelho grotesco à moda do retrato de Dorian Gray, mas tu, simples e
Inocente, até mesmo no amor ébrio dos sofás da madrugada, purificado, água de um glaciar
Que agoniza com graça, ensina-me a ser menos poluído, a engolir o tempo com calma,
A beber menos o que me encurta o tédio e me alonga os versos, tu sabes, a ser menos eu,
Mas é esta distância que nos aproxima, porque também o espaço é relativo, e muitas vezes
Vamos contra as suas leis, já que estamos tantas vezes no mesmo ponto sem a confirmação do olhar,
Ou do estilo, ambos no mesmo ritmo que nos leva e lava, bebemos como vivemos.

06-10-2013

Coimbra


João Bosco da Silva

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Carta A Poema

Crias na tua aborrecida rotina doméstica, realidades improváveis
Em forma de difamação, estando tu tão certa da própria desilusão,
Crias utopias que só tu não entendes, páras de ti com mais um
Cigarro e no fumo vês-te a chupar a ilusão e o desejo, com as
Mesmas ganas que usas para  masturbar e escrever, só, devias
Dar-te mais, nunca te disseram, ao menos à vontade, sempre te foi
Fiel aos dedos, sê mais carne, deixa as palavras, cada um dá-lhes
A cor e o valor que quer, a beleza é o que é e mais nada, e é tua,
O suspiro é universal e o orgasmo é a única moeda que nunca
Desvalorizou, não é que eu queira que me pagues a amizade, mas
Podias aceitar um agradecimento viscoso, sincero e ilícito, pela
Tua voz de vela de cemitério e sonho gótico ganzado, não penses
Que te ficarei a dever, não um poema, que apesar de, preferi o
Olhar de esfinge ao espelho, quando o espelho um bruto, eu, o que
Desejaste foi o teu reflexo selvagem ou então a submissão ao
Magma antes de se tornar pedra, sólido, seguro, duro e irreversível
Como o tempo demasiado tarde, é algo que não existe, é como a
Morte e o não podemos, quando vivos e na idade do agora porque sim
E chega de não, a eternidade já te negará tudo e a idade trará
A escassez hormonal, apesar de cada vez conheceres mais gente,
Cada vez menos terás contigo a gente que interessa, esquece
O Nilo, eu já o atravessei de uma ponta à outra, literalmente, e não
Me lembrei das civilizações, dos amontoados de pedras, dos deuses,
Do início da escrita, mas dos cadáveres que aquela água já lavou,
Caga no simbolismo, no misticismo e na depuração de legista, confesso-te que
Três meses sem tesão, depois de ver os órgãos reprodutores femininos
Numa caixa transparente, o champanhe sabe melhor sorvido
Dos lábios de uma cona quente, a morte só me inspira por revolta,
Nunca por simpatia, esquece os baús bolorentos, cultivados com,
Quem sabe quem, esporos bem recentes, por fungos ladradores, ignora,
A geada é má para os cogumelos, por isso apanha-os nos dias húmidos
Nos fins de semana da época da escola primária, compreendes,
Foder com inocência, sem o apodrecimento induzido pelos santos
E pelo catecismo, se ao menos as catequistas a tua voz ardente
Num quarto escuro, ou num palheiro em Julho, a poesia tem que vir
Depois do poeta se vir, mas que sei eu, que com os meus escassos anos
Não fiz mais nada a não ser viver, que outra escola tiveram os
Meus ídolos, que bem conheces, pinta-me antes a mim com a tua
Vontade psicadélica de sacrilégio e pecado, usa-me depois como vírgula nos
Versos dos teus piores poemas, ou na ponta dos dedos debaixo do
Chuveiro, que é quando és realmente tu, só tu e só aí, podemos estar
Juntos, ou nas gotas de uma janela num dia húmido e triste,
Usa-me como o cotovelo na mesma janela, embaciada, abrindo
Um pequeno buraco para o mundo onde vivem os vizinhos, ou melhor,
Esquece-me, para eu poder recordar-te com aquela saudade única
De quem passa sem ter deixado nada, de quem passa e leva tudo,
Pesadíssimo e no fim, nem a palavra esquecimento, a mais horrível de todas,
A que torna a vida tão injusta, não te aborreças mais, ignora
A louça suja, a cama desfeita que há semanas nem gota de sumo ou
Leite, não te esforces por alinhar o naturalmente irregular que só os
Outros vêem, deixa a métrica para os quadrados, vem, vem-te muito.

Coimbra

03.10.2013

João Bosco da Silva


(TA contessa 2 de luxe)