terça-feira, 21 de setembro de 2010



Portugal


Portugal, estás a gozar comigo ou és mesmo a brincar?

Portugal, abres portas para um futuro que é um mar,

Uma vida à deriva, um cérebro desperdiçado a fazer contas numa caixa de supermercado,

Uns olhos que vêem, que trabalham numa livraria cheia de mortos, de olhos para sem vida?

Portugal, quando nos levas a sério, a nós que te julgamos um país tão exemplar,

Com tantas leis que tentamos cumprir como crianças sem compreender a vida de verdade?

Portugal, quando regressam as naus dos aventureiros que morreram no passado,

Dos que nunca deram origem aos portugueses de hoje, porque tem tanto medo de saber que és a brincar.

Portugal, quando deixas o passado e te agarras ao futuro que deixaste desprezado no passado,

Quando uns pisavam a revolução industrial e tu esperavas que o ouro roubado fosse para sempre?

Portugal, para que me deixaste acreditar que eu era capaz, se sabias que não me ias dar asas para voar?

Nem valorizas as laranjas que as mãos honestas colhem, nem o azeite, nem o vinho, nem a cortiça, nem o Sol: só os ingleses, os espanhóis é que têm bom gosto?

Portugal, para quê as tuas mentiras de cabelo branco para os cérebros de telenovela,

Se me andaste a fazer gente com olhos para fora? Para que me deixaste ser olhos para fora

Se andas de agulhas ferrugentas a furar glóbulos oculares?

Não tenho mais nada a fazer em ti a não ser afogar-me na tua produção nacional de cerveja,

Porque ainda tento valorizar a produção nacional de alguma coisa,

Mesmo que seja para não ver as pontes que caem porque tu andas de olhos fechados

E nos deixas andar por aqui, a pagar direitos que afinal nos deixam cair nas águas escuras

E morrer. Ainda pagas o direito ao uso das pontes do império romano?

Somos sempre os melhores, mesmo que nunca perto dos primeiros,

Convencidos de que afinal… convencidos do nosso erro, cegos por ti, Portugal.

Amanhã é que vai ser, mas tem sido sempre amanhã desde que me lembro

E o amanhã chega e nada, tudo pior que o igual, sempre mais uma mentira que ontem.

Números que poucos percebem e todos votam nas caras sorridentes da mentira

E tu deixas, Portugal, tu deixas e ardes todos os verões e és inferno todos os invernos

Nas cidades grandes, em especial nas cidades grandes, além de papelões das riquezas de poucos.

Tu és uma merda Portugal. Dá-me uma ponte alta, dá-me um cartucho cheio de chumbo, de verdade,

Dá-me uma liberdade que seja real e não a falsa igualdade de direitos.

Não sabes que as tuas crianças sofrem, que os teus deuses são uns filhos da puta que estão a matar o teu futuro?

Deixa-te andar que o fim é sempre em frente, não pares que o abismo está lá no fim

Desse caminho. Levas-nos a todos, já devias saber, mas tu também vais,

Também vais porque somos todos Portugal, ou julgas-te um nome, uma ideia: somos nós.

Só as terras lavradas por burros são dignas da tua glória passada,

Da tua glória duvidosa. Nunca te vivi como agora, sei lá das páginas que têm escrito,

Se tudo em ti me parece uma mentira, tudo a brincar.

És o meu país Portugal? És mesmo um país? Não sei mesmo, já não sei nada,

Depois de tanta desilusão, de tanta ilusão consciente de mentira.

Já não se pode ter voz em ti, mais uma vez, andas para trás orgulhoso das tuas revoluções: para quê?

Estou aqui a enterrar-me na areia do parque infantil só porque já bebi o suficiente para abrir a voz dos olhos.

Já não conheço as tuas cores e a televisão de manhã, diz-me que és um país ridículo,

Um país que quer agradar a quem anda por andar, que nem tenta abanar a vida

E dizer, acordem, estão a viver a vossa vida, a vossa vida: a vossa vida!

Que interessa o que diz um brinquedo? Não estou aqui para brincar, sou dos muitos brinquedos,

Para satisfazer a imaturidade de líderes de merda: disse “líderes de merda”?

Portugal, estou fodido e ainda por cima disse que estou fodido.

Deixas andar homicidas de almas pelas ruas da rua de todos, enquanto condenas

Quem rouba um pão para matar a fome a corpos que morrem de miséria.

Ser lento para quem queres, para quem pode brincar, deixas andar…

Implacável para quem não tem um centavo para dizer “eu sou gente”

E um grito mudo que só a família sente no coração colectivo.

Sinceramente… deixa-te de merdas de uma vez por todas!

Sê no que podes ser e deixa-te de mostrar aos outros de outros tamanhos que ainda és capaz.

Já foste e agora cala-te, agora agrada a quem és: és os portugueses…

Ou só alguns? Queres ser uma Rússia de hoje? Estás a passos, mesmo tão longe,

Mesmo sem o tamanho real. Oito e oitenta mortos de fome no frio da injustiça social.

Pensas que te basta acreditar no comprimento dos braços para alcançar?

Querias ser, estar além do Atlântico há tantos anos…

As revistas cor-de-rosa a dar corpo à vida da conversa do que tu és

E eu quase a vomitar, apesar de não ter bebido para tanto.

Não és um país disciplinado, sabes bem que não. Não exijas ser o que não és,

Começa por ti, por cada um de ti, aos poucos. Não podes arrancar valores e transplantar valores,

Ou não sabes o que é a psicologia? Vamos, envia mais uns soldados com bandeiras minúsculas

Ao ombro, para te fazeres notar no mundo real,

Enterra-te mais no teu buraco e finge que és importante. Ninguém te liga puto Portugal!

Têm pena de ti e mesmo assim te pagam e te fodem, porque até a cultura vendes por…

Diz-me tu Portugal, por que te vendes? Essa ferrugem ainda é para ficar por muitos anos?

Está na hora de levares a vida a sério, de seres um país para todos,

Ou só cagas filhos para os deixares na merda? Ainda os adoptas para os tratares como escravos?

Para que dizes que dás direito a todos de serem eles, eles portugueses, se depois te armas em anos quarenta?

O papa não é Jesus, ninguém é Jesus, ninguém mais, para quê tanta subordinação,

Tanta vela desperdiçada em mentiras. Luxo desperdiçado em imagens enquanto os teus filhos choram de estômagos vazios.

Ponham-se a andar, não esperem por milagres. A fome não se cura com orações.

Os teus filmes: merda, porque são demasiado reais na sua ficção,

Porque tentam dizer demasiado que é ficção a puta da verdade que sente quem nem é actor.

Pensas que os primeiros têm a graça do senhor e se põem a dormir à sombra do passado?

Pensas que as lágrimas dos pesadelos das crianças são a brincar? Não sentes o salgado na tua língua fria de país cego pelo poder? Poder… ridículo!

Que é afinal deus nesta merda? Quem se vai safar da morte, quem não cai depois de garrafa e meia de Jameson, quem mata e não morre um pouco por dentro (nem sente a morte dos que ainda se arrastam)?

Como podes pedir ao teus filhos maiores que deixem de ser portugueses,

Não te sentes bem com a verdadeira grandeza? És uma inquisição cerebral,

Queimas as ideias plantadas em becos sem saída e um salário para comer durante um mês,

Um mês a menos para a miséria de uma reforma: um dia menos para morrer, que isto nem vale a pena.

Gostam que lhe caguem em cima e eles é que o fazem a quem está a tentar viver a vida,

Inocentes das perversidades dos deuses (sempre feios apesar dos cabelos brancos a imitar actores de Hollywood).

Só queremos apagar as horas depois do jantar para acordar de manhã

Para a máquina de engrenagens irregulares que tu és: Portugal.



22.09.2010



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva

domingo, 19 de setembro de 2010



Horas Do Fim


à Beirute,


É no silêncio da noite que se ouvem melhor os gritos

Da consciência, ou de algo com outro nome, ou sem nome,

Mas que fala de dentro, de longe, onde mora o que é verdadeiro.

Não vale a pena nem mais um segundo com palavras que nem merecem

A saliva que um dedo leva à página, que foi escrita para se vender,

Para se prostituir nas noites solitárias dos verões que morrem,

Sempre todos ao mesmo tempo, enquanto as uvas deixam o açúcar

Tornar-se álcool. Horas em que nem o vinho chegou a abrir a porta,

Nem o corpo se deixou cair nas garras do tédio, só a indiferença por cada inspiração.

Não terá valor quem já viveu muitas vidas, mais vidas que muitos mortos?

Hoje dorme-se melhor ao lado do cemitério, onde as palavras ficaram por dizer,

Onde o silêncio conta as verdades que se ignoram ao longo do dia.

O coração que não se cala, apesar de se ter desistido há muito tempo,

É a única companhia dos cães vadios que atravessam a estrada já vazia,

Enquanto os lençóis envolvem um corpo sem vontade de acender o Sol da manhã.

Nada interessa, mas nem que arranquem os nervos do poeta maior,

Que não vive mais, o toque dos dedos nas frias palavras valerá algo,

Não a estas horas. Agonizam os dias quentes, as lareiras estão vazias de calor,

As garrafas vazias a ser espelhos de gente, a roupa pelo chão de ser só um,

As portas trancadas que não esperam ninguém, os olhos fechados apesar do cérebro,

O cérebro a chamar vidas mortas, vidas que ficam apesar de o sabor ter ficado longe

E nem umas reticências são merecidas a estas horas. Que se acabem de vez

Todas as horas escuras de janelas abertas para o vazio das estrelas moribundas!

Já foi tempo, já foi tempo, agora o vazio quer ser tudo,

Como se fosse possível relembrar os momentos decisivos onde cabe deus para alguns.

É possível, mas não vale a pena, não a estas horas, a horas do fim.



20.09.2010



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva

sexta-feira, 17 de setembro de 2010



Lição 100



Deixa-te cair todo, todo o que te vês ao espelho dos outros,

Todos os pedaços que são o que tu és, que adoptaram o teu nome,

Mas não és. Despe-te, sem pressas que já vens tarde.

Usa os punhos para lavar esses olhos da tua cara,

Usa os punhos até os olhos serem os teus,

Ignora a mancha de tinta que se espalha à volta deles,

Era o que vias, a verdade que comias logo de manhã.

Não sabes que ao dizeres que és,

Queres dizer que foste feito assim,

Convencido de que és original e único.

Esquece, esquece tudo. Abre as mãos e deixa cair esse lixo,

Deixa as mãos livres do que dizes ser e abre-as ao vento.

Sente o toque da realidade. É isso que realmente és:

Uma mão aberta, nua, contra o vento que passa.



17.09.2010



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva

quinta-feira, 16 de setembro de 2010



“Encore… une fois”


a Zach Condon,


Não tenho fome de nada e isso vê-se no espírito farto de vazios,

Cansei-me de mastigar, da ânsia de querer entrar ou meter dentro no que os olhos me fazem querer,

Estou cansado da obrigatoriedade de ser no mundo uma entrada e uma saída para lado nenhum.

Hermann Hesse e Henry Miller já me escreveram as possíveis biografias,

Mais um Lúcifer caído no deserto, onde longe a flor de lótus,

Longe as prostitutas de Paris, as santas dinamarquesas, que um Desperto.

“Je t´aime”, nunca sincero, só nos olhos acesos de vontade,

Só nos lábios vermelhos de desejo, até que se sente a queda,

Se vêem as portas do Inferno onde deus dorme desde sempre,

Se sente a alma a ser maior que o corpo, se morre e só o corpo fica,

A latejar, como se uma dor que é vazio a tomar conta da casa de carne suada.

Uma vez e nunca foi, uma vez e depois já não serás tu,

Uma vez tantas vezes, até que o sorriso deixa de se sentir,

Até que os lábios só uma pele estranha e quente, até que dentro só alguém que não te diz nada,

Se a boca fechada, se os olhos apagados na escuridão de dedos selvagens e línguas desesperadas.

Os Domingos tornaram-se numa oração silenciosa além da hora do almoço,

Numa dor esperada, mesmo assim “un dernier verre (pour la route)” depois de o bar fechar,

Depois de já estarmos tão longe todos, num Nirvana ridículo sem paz de espírito,

Onde as almas esperam o julgamento do dia seguinte,

Do Domingo seguinte nas paredes sagradas dos lençóis húmidos se houver um nós que sobreviveu ao amanhecer.

“Je t´aime”, nunca sentido na pele, só nos ossos da ilusão, onde a luz da evidência

Não ilumina a consciência de que tudo um ridículo humano.

Quem nunca dormiu em Montparnasse ao lado da Simone, com uma pedra na mão a ser gente?

Fumar charutos ao lado de consciências apagadas, como se o fumo envolvesse o pouco que somos,

E lhe desse, ao menos, a ilusão de outra profundidade.

Somos tão pouco e o pouco que somos é tudo o que há. Mais uma vez…

Um sorriso da cor do Sol nas tardes do Inferno de Agosto neste país de brincar,

Um sorriso para a vida, como se ainda tivéssemos interesse nela,

Um sorriso para lhe dizer que sim, sim, sem vontade, para lhe dizer um “Je t´aime”,

Mas já sem catorze anos, num Nirvana ao lado do cemitério,

Um Nirvana com cheiro a vinho azedo, pão bolorento, óleos que fazem chorar as crianças,

Cera queimada, paredes com centenas de anos de tosses, espirros e outros cochichos,

Ao lado da pia da água colonizada por milhões de crentes.

Mas a vida sabe melhor, quando alguém nos canta ao ouvido o que faz valer a pena,

Nos sopram sem palavras a verdade de um momento: passa, passa, passa…

Quis regressar como o Gatsby, mas não interessa o enriquecimento que não se vê,

Não neste Inferno fechado por falência. “If I was young”, porque os sonhos já estão enterrados.

Vamos lá, pegar no acordeão, chamar as almas dos grandes que aqui ficaram,

Em papéis amarelecidos pelos dedos sujos do tempo,

Acordar com a trompeta os adormecidos na vida, mais umas garrafas de vinho, um pôr-do-sol,

Um ukulele para lhe dar tons pacíficos e textura a areia quente nos pés,

E caminhemos em direcção a mais um fim, que o resto foi há muito, muito tempo atrás.


16.09.2010


Torre de Dona Chama


João Bosco da Silva

domingo, 12 de setembro de 2010




Fogueiras de Pavese e Rum Pécoul



aos que lá ficaram



As fogueiras de Pavese lá longe da Itália, longe deste meu país de brincar,

Longe das noites de brasas curtas, sempre excessivamente ébrias,

Frias, apesar do dia quente, noites sempre frias mesmo com estrelas.

As fogueiras dentro, onde se queimam almas passadas, onde se bebem corpos líquidos

Dos pecados que ficarão no esquecimento. Ardem as fogueiras de Pavese

E eu com dezoito anos a fazer trinta daqui a uns dias, se lá chegar,

Se a lenha não arder toda, se os pecados não deixarem de ser novos,

Se os sonhos não voltarem a tomar conta do desejo, se o amor não se revelar na sua dor.

O Sol já não interessa nestas horas do fim, nestas horas do fim da manhã que nem se viu,

Do fim da tarde que passou e nem se sentiu, o Sol já não interessa e os vampiros podem sair,

Eu posso sair sedento do sangue da minha vida que passa, onde vou, às vezes meio adormecido,

Cabeceando contra o vidro dos meus olhos. Brilham as chamas das fogueiras que não existem,

Nos meus olhos cansados pelo vento dos dias poeirentos.

Porque é que o rum acaba sempre, antes de se adormecer na areia enquanto uma voz amiga:

Vamos sonhar que somos piratas, arr arr arr!

Fazer fogueiras numa praia deserta, como as que não existem nas noites frias de gente,

Fogueiras como as de Pavese, lá longe deste país a brincar, onde piratas a sério,

Saqueiam almas ainda pequenas, onde pescadores não têm barcos, onde arde tudo,

Menos fogueiras como as de Pavese.

Pelas noites ébrias, percorro sóbrio a melancolia das ruas desertas das quatro da manhã;

Surpreende a quantidade de gatos negros nas terras deste país,

A quantidade de pão de côdea dura, vazios por excesso de fermento, que ressonam,

Fartos de uma fome que se julga ter que ser, por resignação.

Arr arr arr, passa aí o Pécoul e vamos dizer adeus aos barcos apressados,

Tão vazios, tão rápidos, tão longe das fogueiras que dentro temos. Arr arr arr!

Apagam-se as palavras, lavadas a cinquenta e quatro por cento de noites puras,

Apagam-se as fogueiras de Pavese, que nunca serão as mesmas.



12.09.2010



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva

segunda-feira, 6 de setembro de 2010


Pela Estrada Fora

a Jack Kerouac

As imagens que se tem engolido pelos anos do que passamos, tornam-se em pedaços do espelho partido,
Roubado ao universo e no fim de contas só a barba de Walt Whitman era universal,
Ou a barba de Allen Ginsberg, de um universo mais seu, mas do mesmo tamanho de qualquer outro.
A estrada faz-se mesmo que sentados à sombra de um cedro a ver as carrinhas a passar, cheias de gente morena,
Cheias de sol na ferrugem, com o cheiro a uvas no ar, até se perder na linha que os olhos cortam.
Se fosse jovem, deixar-me-ia cair da cama para o vazio, abraçava-o sem medo, cortava todos o cartões,
Esquecia todas as moradas, todos os números, todas as lições inúteis que não foram ensinadas na vida,
Partia para a morte certa, porque toda a morte é certa na vida que se vive sem as correntes
Que nos dão como os objectivos da vida. Quem já viveu a vida de outro para lhe dar indicações?
Segue o teu caminho Jack, esse que se vai criando à tua frente, com a pele salgada das mexicanas,
Das adolescentes doces e loiras, inocentes algumas, das noites loucas de Denver, o regresso louco a Nova Iorque,
Sempre o regresso, apesar de a estrada ser sempre em frente, o teu professor em Nova Orleães,
O professor da vida, o único estudante real e possível da vida, a fuga para o fim da viagem sem destino.
Imagens, de vidas, da vida que vai desde as terras mais frias, noites chuvosas em Estocolmo,
Noites surreais, brancas e ultracongeladas de São Petersburgo, horas vazias, gastas a tiros de cerveja quente
Na Europa que nos roubou tantas vezes no passado, a fuga dos lábios roxos de Bordeaux para a noite de Paris,
O hálito confuso nas ilhas da costa Africana, aromas andaluzes, escoceses, minhotos...
A visita a Kansas, logo ali, à mão da noite fria Europeia e afinal os filmes americanos nem sempre filmes.
O cabelo empastado pelo suor de tantas imagens, sem nunca se ter visitado a Interzona, tão próxima,
Tão longe dos olhos que se abrem todas as manhãs desde o princípio dos tempos.
Imagens da branca Helsínquia, tão aparada que dá vontade de passar as poucas horas de Sol de Inverno
A acariciá-la com as solas encharcadas de Finlandia ou Suomi viina, se não der para melhor,
Se a vontade não chegar para querer percorrer o interior doce e quente de uma alma livre.
Sei que Picasso teve uma namorada finlandesa, apesar de ter sido um sueco a dizê-lo,
Tinha uma bicicleta e vestidos de tecidos leves com flores estampadas na brisa leve de Julho.
Quem se perder no caminho, pode dizer que finalmente se encontrou.
A primeira e última vez em Barcelona, com os olhos demasiado sedentos de tudo em pouco tempo,
A promessa do regresso que ficou pendente no parapeito e gelou numa manhã da Terra Fria,
Apesar dos convites italianos, dos olhos castanhos e quentes do longe de aqui.
Seja no Bom Inverno, ou no Inferno Mau, há dias em que imagens nos dão mais ao que diziamos ser,
Mais uma quebra num pedaço de espelho já partido, mais uma pincelada no quadro abstracto que só nós,
Ou melhor, nem nós compreendemos. Somos arte, não tem que ter um sentido, é um caminho,
Dos caminhos de Jack, com um destino quântico, pela estrada fora.



06.09.2010


Torre de Dona Chama


João Bosco da Silva

sexta-feira, 3 de setembro de 2010



Aqui Nunca É

Ali sim, seriam todos felizes, aquele lugar antes da chegada,
Antes de os pés marcarem com a presença física , ali sim,
Onde só o sonho é ainda, onde só os olhos chegam a muito custo
E não é o que dizem ao cérebro que vêem.
Pregam a alma nas árvores brancas, como se o apocalipse viesse com as estrelas,
Como se valesse a pena ficar para o vazio,
Deixam os cães soltos com medo dos salteadores que vivem dentro da gente,
Cortam o verde com medo de que a amargura não venha,
Vem sempre, às lambidelas ácidas nas feridas que ficam pelo caminho,
Abertas e as moscas, sempre moscas, negras de olhos demasiado olhos para a consciência,
Cospem nas sagradas memórias ainda a latejar na pele do que se é.
Mas ali sim, ali todos terão tudo, quando ainda vem dentro o desejo,
Ali, onde os lagos são como o ventre quente de uma terra fértil,
Que recebe os corpos cansados das violências do dia que morre, lentamente,
Até ao pescoço, com os olhos lá longe e a fazer crescer o indivíduo pelo horizonte,
Quebrando o limite do, sou da pele para dentro, até ao fim, além que foi ali.
(Sou dos olhos para fora e o que dos olhos me vem.)
O tempo aumenta a impossibilidade da distância e só o perfume traz o que ficou,
Só o olhar tenta dizer o que se cala, só a dor, a dor dá comprimento aos braços para o abraço de longe.
Agarram-se com os dentes ao que não se é, sempre em qualquer lugar, menos ali,
Sempre má, sempre má e a culpa é por não se estar ali.
Condenados do dia e da noite até ao aqui onde não se estará,
Por fim uma paz, ou nada, quase ali, ao lado da incerteza, quase no sonho, no fim que nunca se toca.

03.09.2010

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva

segunda-feira, 30 de agosto de 2010



Koskenkorva


longe sente-se perto


As ruas amplas, brancas com cortes sujos, sinceras e frias,
De Inverno, de Kemi, às portas do fim-do-mundo,
Com as noites mais largas do mundo dos seus visitantes.
Não se consegue mastigar um ar assim, não é para mastigar,
Tem que se esperar pelo calor das luzes nocturnas,
Da escuridão infinita além, onde o gelo torna os passos dos sonhos maiores,
Para se poder engolir a loira da recepção do hotel, ao ritmo de uma garrafa de Koskenkorva.
Às seis e meia da manhã, não existe ninguém além telefone,
Só os olhos nos olhos e abraços com demasiado corpo e a ilusão de um romance instantâneo.
Trazem-se estes pedaços de gelo cravados na carne,
Com um prazer orgulhoso, uma dor só pela distância, uma saudade de longe de casa.
É Verão no Inverno de Kemi, hoje bolsos cheios a pingar, aos poucos,
A deixar a vergonha das calças molhadas, maior por ser água fria
E a vida corre e olha e ri, com os olhos demasiado para fora do sul,
Tão fora que só olham a superfície imediata e mesmo assim: infelizes.
Está tudo em ti, tudo depende de ti, dizem os olhos azuis, o hálito de álcool,
O dourado no pálido de Inverno, que se adivinha mais dourado em mel nos verões verdes.
Só vêem aquilo que tu vires em ti, dizem as ruas apressadas pelo frio,
Os carros que passam timidamente pelo gelo, as amigas que se beijam só quando alguém vê
No bar quando o corpo pede outra luz, outro calor, o fim do silêncio do dia.
Quantos quilómetros se podem trazer dentro, quantos anos, quantas pessoas?
Uns olhos, só uns olhos que ninguém vê, que se fecham, que encerram mundos,
Que ignoram portas, que se enganam com sonhos e não param, não param,
Enquanto se atravessa Kemi, de madrugada, com o sabor loiro ainda nos lábios frios.


30.08.2010


Torre de Dona Chama


João Bosco da Silva

quarta-feira, 25 de agosto de 2010


Noites Do Fim


Há noites que são eternas e há noites que são irreais,
Que se colam à pele, que insistem em existir, contra a vontade do luar,
Mesmo que os barcos tenham sido engolidos pela tempestade
E o mar vazio, mesmo que o rio tenha morrido e esse morto parido um pântano
No momento em que lhe parava a água.
Há noites que marcam como uma tatuagem que não se queria
E fica, presente no nosso cérebro, nos olhos dos outros, cegos pela luz do tédio.
Há noites que deviam acabar com elas, que deviam deixar-nos dormir,
Que deviam apertar-nos a almofada para dentro dos sonhos e adormecê-los também.
Os olhos que parem, os olhos que também parem fechados imagens para dentro,
Resíduos, lixo, tudo lixo, sempre lixo e no fim o abismo a derradeira lixeira.
Se ao menos ainda se conseguisse ouvir a brisa quente que traz os aromas amarelados,
Hoje numa noite quase a mesma, quase os mesmos números,
Não fosse o peso do pó, do pó que se trouxe de longe, que se traz há muito tempo.
A chuva de Estocolmo não arrefeceu a fome das noites eternas,
O vento não levou a vontade da carne aberta, da doce carne nórdica,
Só as raposas raivosas que se agarram às pernas por um olhar vivem nas noites
Irreais no mundo onde se plantou o vaso, tão cheio de lixo, de terra e terras, de vidas e mortes,
De carnes que não ficaram, hoje só umas cicatrizes no tecido que não se regenera.
Bebe-se, bebe-se e anula-se o tédio com a aniquilação de qualquer sentido,
Qualquer fibra de vontade, qualquer desejo a dois passos e fica-se…
Fica-se numa noite irreal, que se cola à pele, sanguessuga negra a engordar com o sangue ébrio,
Onde os lobos morrem de fome, sem brilho nos olhos, sem uma lua que lhe mereça os uivos.
Os barcos afundam-se nas trevas, nas águas baixas e negras do rio que vai morrendo,
Os sonhos nem se vêem com tanto luar a afogar as estrelas.
Há noites que não valem a pena, que deviam ser passadas num autocarro
Que atravessa as montanhas, as casas em ruínas, as terras moribundas e as pontes esquecidas,
Em direcção ao dia de um mundo novo.

25.08.2010

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva

terça-feira, 24 de agosto de 2010


Respiração de Cheyne-Stokes

morte de um poema,

Depois de o mundo ter encerrado o seu tamanho,
Os lábios azuis em despedida, os olhos fixos no vazio amarelo que antecede a verdade,
A clareza de não ter valido a pena faz ofegar uma alma que se prepara para desaparecer,
Já longe da solidez dos dias de sol, das gargalhadas dos primeiros cabelos brancos,
Da água dos primeiros verões, nos rios ou nas praias vazias cobertas de toalhas.
As mãos ao lado do corpo, inertes, os pulmões a tentar agarrar o ar com a violência
De um precipício, um precipício que agarra os pés, pingos gelados,
Sem mãos para a avalanche de nada que aí vem.
Inspira, expira, inspira, expira e mergulha… o dióxido de carbono nem se sente,
Aumenta, torna cada vez mais longe, aproxima o inevitável.
Inspiração, já que ainda não foi desta, já que mais um segundo valia a pena
E agora, já tão longe, cada segundo um ano luz de distância,
O corpo, cada vez mais vazio, as mãos já vazias, sós
E os segundos que contam aqueles que não serão, que ficarão numa expiração eterna,
Na resignação do corpo cansado pelo peso dos anos,
Lacerado pelas lâminas de granito da calçada, abusado e abusador.
A insuficiência cardíaca não é desculpa para mãos vazias,
Houve amor… haverá amor?
A vida não sabe tão bem a conta-gotas, a hora da morte mostra bem a agonia
Dos passos lentos, arrastados, viscosos, com medo dos últimos, de olhos nos pés.
Expiração porque os pulmões mal aguentam os últimos litros
E o sangue já venenoso a tornar-se morte. Só o coração moribundo
E os olhos no vazio, as mãos abertas à espera da que não vem,
Nunca virá, porque será tarde de mais. Expiração…
A nuca enterra-se na almofada a engolir mais um momento inútil,
O corpo a tornar-se bicolor, a ser cada vez menos, a deixar de ser,
As mãos vazias… Ninguém virá, ninguém virá.
Já há horas que se esqueceu a ilusão de um reencontro,
Há horas que se deixou de acreditar, porque o natural é enfrentar o vazio com a fragilidade,
De mãos vazias receber a eternidade.
Ser esmagado pelo peso infinito do fim, um universo que se apaga,
As estrelas agonizam, vão perdendo brilho, expira, desaparecem na escuridão,
As mãos onde pousa uma mosca à espera, que adivinha, que tem mais tempo na vida,
Apesar de uma mosca, inspira e o corpo estremece todo, sem mãos,
Agarra-se quando já cai no abismo. A mosca nem sente.
Silêncio, a vida de trinta em trinta segundos, cada vez menos,
Entre mergulhos na matéria escura,
O mergulho final aproxima-se, mas ainda não está na hora…

24-08-10

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva

terça-feira, 27 de julho de 2010


Último Canto

conde de um castelo em ruínas

Cantam tão longe que eu nem sei se é dentro,
Se é som mesmo, ou algo mais além do que se sente,
Mas se algo mais é nada, impossível e eu louco ou morto como se espera ser quando....
Cada página nova revestida dos fumos que os olhos inventam
E nada, sempre nada, mesmo que as gotas de água chamem o calor de volta
E façam a pele retalhar-se em pequenos momentos,
A ser memória, de carne, de fora, com o vapor e o cheiro à sombra de uma figueira.
Judas sabia que só à sombra de uma figueira, se pode ignorar o cheiro a negro
Que a corda excreta quando o pescoço não engole o remorso.
Cantam, mas não é canção de gente, é a canção do que nos leva,
Das ruas de longe onde acabam nos comboios para a eternidade.
Se as ruas fossem da gente quando o sol aparece cansado no fim do dia,
Em vez de formigas de asa apressadas para o fim, negras mesmo que no ar,
A tentar fazer pontos no sol, pontos negros que ninguém sente,
Passam e nem uma casa a ser ruínas para trás, convencidos de que os castelos são para sempre,
Quando nem os nomes são eternos.
Acumulam-se pelos paralelos antes da fronteira as beatas de lábios desconhecidos,
Partilhados entre eles em horas perdidas, comidas pelos silvados que cobrem o granito,
Criam o mistério até o rio ser maior que linhas imaginárias.
Nem a primavera ouve esses cantos do inferno, como se o inferno fosse possível mesmo no verão.
A ansiedade dos pássaros vibra na canícula das últimas horas
E mesmo assim não sentem a chegada dos ouvidos do futuro.
Até as paredes surdas neste momento, só olhos de burro fascinados por palácios de papel.
Cantam e sei que nada interessa a não ser o que vejo cantar,
Mesmo que seja a canção de uma embriaguez entre galochas e pêlos púbicos descuidados,
Que nos acolhem da mesma forma, menos perfumada mas sincera.
A sinceridade é uma palavra, mas pode ser muitas palavras,
Poucos o sabem, porque se canta longe, onde o horizonte é nu e ácido,
Além das ruas de longe, à beira do rio dos mortos de joelhos cansados de pedir ao céu
Uma chuva mais purificadora que a água das pias,
Uma chuva que seja linfa nos corpos de alma doente.
Cantam tão longe que me parece ser onde é exclusivamente possível tudo,
Só pode mesmo, apesar de sentir o sistema límbico a ser mais eu que eu.
Se isto é real, é o indicador esquerdo com a sua colecção de cicatrizes,
De quando ainda se tinha medo de morrer quando o sangue se apresentava
E confundia com o seu cheiro enjoativo a ferro e vida.

27.07.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

sexta-feira, 23 de julho de 2010


A Casa Assombrada

contra a vontade, sem motivação ou inspiração


O teu jardim não te espera e as orquídeas de vinte espécies diferentes,
Com a sua beleza humana a ser absorvida pela real.
Tão pouco tempo e o verniz das unhas já de um rosa ridículo e frágil,
Lascado como se fosse um estranho relógio de erosão.
Como consegues abrir os olhos e olhar o vazio para dentro?
Do que gemes se já ninguém te habita? És uma casa assombrada?
Choram por ti as tuas lágrimas, que bem se vê o peso de cinquenta anos
Nas rugas e nos cabelos brancos, bem se vê nas lentes que engordaram, bem se vê...
Será que o cão sente a tua falta ao pé do prato esquecido?
O sol sempre disse que não vale a pena, que amanhã será outro e hoje é nada,
Amanhã já cá ninguém estará dos que anoiteceram o dia com os olhos a fechar.
Agora não te queixas das dores nos dias frios ou da gordura que te distancia do que és dentro,
Agora deixas escorrer a luz por entre os dedos com uma indiferença de cadáver
Na praia com o nariz e as orelhas comidas por cães vadios.
O relógio de parede na sala continua, indiferente, outros suspensos em horas mortas,
Enquanto a vida insiste em ser chamada pelo nome.
Apesar de tudo, a cor do cabelo torna-se sincera.
Nunca imaginaste que um dia, sem ser tua vontade, te ias suicidar.
O corpo é que sabe e é quando lhe apetece e quando não é ele,
Somos nós por inteiro e um mau dia a fechar a ilusão de que nada melhor.
Se soubesses que te ias matar sem o teu consentimento de deus mortal,
Tinhas bebido mais, ficado até mais tarde, fechado os olhos e sentido o corpo todo aberto,
Como se o corpo todo braços que recebem o abraço da vida.
Nunca tiveste os pelos das pernas tão compridos nesta época do ano:
Contam em milímetros a distância do tempo onde te afogas.
Se soubesses que te ias matar tinhas dito mais vezes que sim,
Faltado mais vezes ao que não faz falta e ignorado o que nem te toca de verdade.
E agora? Respondes com o olhar fixo no infinito, um suspiro fora de horas,
O azul que também pode estar morto, mesmo que ainda hajam lágrimas que esperam.
Agora, estás e não és mais quem foste, nem aquela ligeiramente diferente de mais um dia.
Agora, és só o que os outros dizem que foste, mesmo que às vezes pareça que estás,
Mas és tão longe nessa pele que se esquece do toque do sol.
Agora, as orquídeas não te esperam, nem sentem a tua falta,
Continuam floridas enquanto o orvalho as visitar depois da noite onde tu não moras.

23.07.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

segunda-feira, 5 de julho de 2010


A Corrida Dos Invisíveis Antes De Horas


Correm quase invisíveis na sua pressa infeliz,
Já são não sei que horas e por isso atrasados,
Todos eles atrasados, convencidos de que um passo mal dado
Agarra o tempo que se perdeu e se perde, sempre,
Se escoa pelo ralo, passando pelos cabelos que caíram, os que se arrancaram,
Por serem brancos e sinais do tempo que passa,
Pelo ralo, num vortex que se ignora com a pressa nos pés.
Correm e saltam pelos paralelos metálicos e quentes como a borracha,
Deixando um ar desgastado ao dia, apesar de ainda não serem horas de tal,
Mesmo que a luz ainda esteja límpida apesar dos cheiros confusos,
Das horas que já passaram, que já se esqueceram.
Correm e eu não sei para quê, sei que há sempre tempo para lá chegar
E que é sempre demasiado cedo.
Quando o dedo percorre o horário dos comboios até ao fim,
Toca o relógio e já não haverá mais que o último que acaba de partir,
Haverá um amanhã que chegará a tempo, se ainda lá estiver à espera,
Com o vestido de hoje na brisa quente do verão da sua varanda,
A olhar, à espera, do atraso de mais um dia.
Correm e as pernas parecem que se esticam, ficam tão compridas,
Que eles lá em cima, a fazer sombra cá em baixo e umas pernas finas,
Que mal tocam o passeio, que atravessam a rua sem lhe deixar rasto,
Apressados para pousar a chavena de café, ainda quente e já vazia,
Despedem-se com um olá e mal se tocam, nem com os olhos,
Porque a pressa está sempre em frente, sempre em frente,
Como se não houvesse algo mais do que sempre em frente.
Nunca ninguém esteve lá à frente e é daqui que se pode ver isso,
Sempre daqui, que não serve para mais nada a não ser correr e ter pressa,
Para chegar aos cabelos brancos, às rugas, ao cansaço e às dores,
Ambas as dores e outras que julgavamos ser invenções dos que já cá estavam antes de nós,
Porque a gente sempre foi e sempre será gente, com pressa, sempre,
A correr para chegar antes que o jantar arrefeça,
Dormir à pressa antes que a cama aprenda a temperatura do corpo,
Tocar apenas o essencial para um orgasmo e dizer boa noite num silêncio de papel,
Agarra-se a roupa antes de ela cair no chão e já o suor está a secar,
Tudo à pressa, não chegue gente, não acordem os meninos,
Não acabe o tempo que se gasta com a pressa, com passos inúteis para chegar
Onde não interessa, onde há sempre tempo e se ganha a vida, perdendo a vida.
Não sei que sabedoria encerrará o das barbas compridas, sentado na relva do jardim,
Falando com as pombas, olhando os seres invisíveis, de mão estendida,
A pedir um olhar, um pouco de tempo, um alívio para a solidão de uma cidade
Que corre e ainda não são as tantas horas e ainda não chegou o próximo autocarro
Para a próxima paragem e mesmo assim, ofegar na sombra metálica da paragem,
À espera, com o cheiro de suores alheios, à volta, sem donos,
Partilhar o tempo com desconhecidos apressados, acompanhados de sacos, malas e jornais,
Alças de plástico que marcam palmas suadas, o peso de uma vida,
Ovos, pão, bananas, sabão, uma garrafa de vinho para acender a luz
Enquanto entram pela janela gritos dos vizinhos, das sirenes, do sol que se despede
E se vai triste por ninguém o ter sentido na pele, por serem todos invisíveis,
Correndo por entre os fios de luz, sempre pela sombra do seu interior,
Onde só se houve o tic-tac do relógio de parede, na casa vazia, que não espera, está
E ainda não são horas, ainda se escorre, se escoa e os cabelos transparentes no ralo.


05.07.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quarta-feira, 30 de junho de 2010


Poema De Doer

entre a inspiração profunda e o suspiro desiludido,

Começa... do nada, surge inesperado, do vazio
Para um vazio visível e torna-se real para dentro,
Sente-se, mesmo que noutra carne, de outra forma,
Sente-se, apesar de não se sentir de verdade.
Não tenho nada, só a revolta afiada dos anos inúteis,
Para entregar ao barqueiro na hora da minha morte, amén.
Enterram-se as unhas metálicas no peito desprotegido,
Bem fundo, até onde mora a gente, até onde se diz que o infinito chega,
Puxa-se tudo cá para fora, deixa-se a pingar, dor, dor brilhante ao sol, vermelha,
Chamando as moscas sádicas de asas de vidro, num postiço de morte acidentada.
Onde está o que está, se ainda está? Sou eu isto? Raios, afinal já não!
O cordão umbilical estica, estica, estica... e nós já de pé, de cabeça erguida,
A caminhar em frente, a caminho dos abismos, trocando passos com mortes,
Partilhando a cama com portas fechadas e becos sem saída,
Agarrando razões erradas, tomando sentidos duvidosos,
Desejando o equivoco e a ilusão, esquecendo a real raiz... e estica,
Sabendo que o limite chegará e não se sabe quando, quanto. Partiu!
Começa sempre, como um acordar e um vidro estilhaçado no meio da noite,
O vento a entrar e as cortinas assustadas aos gritos silenciosos e brancos,
Pálidas no reflexo do medo, onde não moram gatos a estas horas.
Enchem paredes de crânios, enchem paredes de anónimos,
Enchem-nos os crânios de nomes, encostam-nos os olhos à parede,
Passa-se a vida até que partiu, cegos e depois cegos e anónimos,
Numa parede qualquer, confundidos com a multidão... mas eu fui especial,
Dizem as órbitas vazias aos olhos que adiam a escuridão.
Deixa... não vale mesmo a pena abrir a porta e sair.
Mesmo que o sol te chame, é a noite que te espera.
Mesmo que um sorriso te cative, são as lágrimas que se despedem.
Não sei... mais café? O dia ainda está a acordar e já é tão tarde
E eu tão cansado e o mundo tudo o que eu fiz dele ao abrir os olhos
E eu que nem ser mitológico, nem costas largas para aguentar com o peso de tudo.
Morre-se, é isso. Morre-se, aos poucos, convencidos de que vivemos.
Fui morrendo até que morri. Viver só no momento em que dois corpos partiram o vazio,
Rasgaram o lençol negro que se abriu e um pouco de luz, durante tão pouco tempo,
Que se duvida se alguma vez naquelas órbitas vazias o mundo todo.
Albuns de fotografias que se fecham na eternidade,
Memórias que se despejam no pântano do esquecimento, onde moscas de asas de vidro,
Num roçar de rebentar timpanos, numa língua purgante,
Onde se confunde o cheiro do amor com o do sangue, da bílis, da carne queimada,
Da carne necrosada pela isquemia do tempo,
Dos sexos que se confundem num som viscoso, num ritmo que acelera, do esperma,
Da saliva, quando seca na pele salgada e suada ao longo da vida,
Enquanto crescem as rugas que chovem do tempo,
Do cabelo cinzento que surge da terra ao lado da enchada, um arrepio, da doença, do álcool,
Dos joelhos que rezaram para passar o tempo, o tempo que passa sempre,
O cheiro da humanidade despejada, depois do mundo se fechar para dentro, para sempre.
Agora deixo-vos, nas vossas palavras eruditas,
Que a simplicidade absoluta encerrará ao lado das minhas,
No escuro, onde tudo é negro, onde não interessa o brilho que se apagou.

30.06.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

domingo, 27 de junho de 2010




Vindima

1ª edição, 1945

A vinha do meu pai não está em Paris, nem parece um jardim.
A vinha do meu pai não é a Vigne du Clos Montmartre,
Mas podia ser se estivesse rodeada pela capital francesa,
Se tivesse cheirado a invasão alemã e tantos gritos derrotados,
Vencidos pelo silêncio eterno na cidade das luzes,
O mesmo silêncio dos que enchem as catacumbas.
A vinha do meu pai nunca conheceu artistas famosos,
Só artistas que nem eles sabiam que o eram, ou são.
Ainda serão, na sua aldeia pequena, ainda viverão a sua vida de todo tamanho?
Acordeões também a vinha do meu pai ouviu,
Lá do meio do monte, nas noites de romaria, no Verão ou no Inverno,
Quando o pagão se funde com o sagrado e se torna realmente mágico e intemporal.
Acordeões que traziam gentes das terras vizinhas,
Alguns que até tinham estado em Paris, outros que viviam lá o resto do ano.
A vinha do meu pai já ouviu falar da Vigne du Clos Montmartre,
Mas a Vigne du Clos Montmartre, nunca ouviu falar da vinha do meu pai,
Por isso em algo é mais ignorante que a vinha do meu pai.
A vinha do meu pai conhece coelhos, lebres, javalis, raposas, cães, gatos, gente...
Não creio que javalis atravessem Paris ultimamente,
Raposas, só as que enforcam a dignidade de algumas senhoras,
Coelhos só os dos menus onde “lapin”, os que aquecem quem nasceu pelado,
Ou os que são tratados como os cães e os gatos, fechados em caixas ainda mais pequenas,
Com os olhos vermelhos pela escuridão da cidade das luzes.
A vinha do meu pai também é uma sobrevivente,
Do tempo em que Vinhais foi baptizado.
A vinha do meu pai conheceu quem não quis ir para a guerra,
Respondeu-lhe ao gritos solitários e à fome desesperada do esquecimento.
A vinha do meu pai foi comprada pelo meu avô,
O irmão do meu avô era emigrante em França, regressou definitivamente,
Agora está ao lado do meu avô, coberto por uma terra que é a mesma,
A mesma da vinha do meu pai, a mesma da Vigne du Clos Montmartre,
Longe de iluminações, cobertos todos pela terra que cavaram.
A vinha do meu pai já teve o seu vinho em Paris,
A Vigne du Clos Montmartre nunca teve o seu vinho perto de Vinhais,
Nem sabe o que é o rio Tuela, nem conhece as enconstas que em tempos,
Dizem, pareciam as do Douro.
A vinha do meu pai suicidou o meu avô, a Vigne du Clos Montmartre,
Não chega para matar tanta gente.
A vinha do meu pai está rodeada por estevas, urzes, carrascos, giestas, castanheiros, cerejeiras...
A Vigne du Clos Montmartre está rodeada por uma rede verde,
Carros estacionados ao longo da Rue des Saules e da Rue Saint-Vincent
E árvores asfixiadas pelo cinzento.
A Vigne du Clos Montmartre é mais conhecida que a vinha do meu pai,
Mas não é maior, nem produz mais, nem melhor suor,
Apenas se lhe dá mais valor, por ser da Vigne du Clos Montmartre e não do meu pai.

27.06.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

sexta-feira, 18 de junho de 2010


Aquele Homem Que Viu

Não interessa! Não interessa mesmo, agora só infinito
E nada, porque tem que ser e afinal estava certo.
Ele o saberá, ele já o previa, ele já não sabe nada,
Não fosse o papel marcado pelo brilho das suas sinapses,
Que ainda nos ilumina a cegueira.
Aprendemos alguma coisa? Não?
Só nos resta ressuscitar o que ficou escrito, ouvir as palavras mudas,
Chorar lágrimas inúteis, gritar ao deus surdo, cego e mudo,
Aquele que alguém inventou para vendar a dor dos olhos,
Para enganar a humanidade garota, agarrada a tradições de garrafa de refrigerante.
Não interessa, agora nem o branco leitoso, agora só a escuridão que ninguém vê.
Quem dará voz ao mortos, quando deus nunca nos criou?
Quem fará do povo um, pelo oceano fora, quem irá agora fazer a autópsia do povo vivo?
Fecham-se os olhos, não se calam palavras de quem viveu de olhos abertos,
Por isso não interessa. Não interessa! Só a prova de que afinal estava certo,
Por isso não saberá que estava certo.
Dói, dói mesmo, mas isso só aos que cá ficam,
Sujeitos a analgésicos ridículos de almas fracas e finitas,
Com ilusões de eternidade.
A carta lá estava em cima da mesa e neste dia, muita gente morreu,
Muita gente quando uma só se resignou à vontade do coração cansado.
Foi esta a última viagem, mas não interessa,
Foi única e gloriosa. Quem não acordou é porque nunca nasceu de verdade.
Resta ter pena, resta sentir que algo nunca mais,
Algo em nós menos e palavras que ficam, como ecos de uma vida merecida,
Que nem a morte calará, essa filha da puta que tem a mania do silêncio.
O nome?Não interessa! O homem cá esteve, entrou em nós
E tristes dos que só são tocados pelos nomes. Nomes não morrem,
São frios e repetem-se. Não interessa, agora, neste momento,
Sei que a razão disto tudo foi por sonhos de loucos.
A morte não interessa! Espera-nos a todos, mas nem todos vivemos acordados.
Dorme bem, ó Grande! Dorme bem que agora és do tamanho da eternidade
Debaixo da vida que plantaste em folhas verdes.

19.06.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

domingo, 13 de junho de 2010


O Burro De Zaratustra

Se a noite não deixasse cair tanto ao mesmo tempo
Só porque a escuridão lhe permite abusar dos olhos cansados,
Eu até podia respirar e deixar-me ser até à madrugada dos cegos.
O verde diz-me que está tudo para acabar, sempre,
Nunca esteve de outra forma, ou não estaria nada
E eu a duvidar da sua verdade longe da areia.
As leis dão-me vontade de ladrar bem alto,
É verdade, dá-me vontade de ser cão entre estes burros todos,
Que nem me deixam ser dono da terra onde for morrer,
Nem me permitem ser a minha incoerência individual,
Querem que todos orelhas compridas e ruminates de pernas curtas,
Querem que todos os ouçam na sua voz de deus,
Que cortavam o ar das manhãs na aldeia antes do sino dar as sete.
Iiiiiiióóóóóóóó iiiióóóó iióó iióó ió ió íó ió,
Amén e vamos todos para casa fingir que cumprimos com a obrigação,
Apagar a luz e abraçar a escuridão para poder gemer como antes da televisão,
Ou visitar a vizinha se o marido estiver hoje a trabalhar de noite e ela tão só,
Todos tão humanos e sempre tão vazios,
Sempre com vontade de alguém que nos mostre algo novo em nós,
Sempre crianças fartas dos brinquedos que temos, porque os outros sempre melhores
E é verdade, é sempre verdade, não fossem já as duas da manhã,
Com o verde a mostrar a carne de longe que hoje dorme e já não cheira ao meu abuso.
O que não fazem uns lenços de papel para apagar marcas de dois corpos confusos
Numa madrugada indecente e com cheiro a animal na época do cio,
Nós sempre, sempre, sempre e amén.
Hajam arraiais e fogos de artifício para esconder atrás de muros de granito,
Nos limites da terra onde se sente o cu a rasgar na pedra, de olhos nos olhos com as estrelas
A fazer esquecer os copos de plástico lançados no vazio.
“Não te lembrarás disto amanhã”, como se isso fosse bom.
Quero lembrar-me de tudo, quero que a noite deixe cair tudo,
Que me corte a animalidade antes de levantar a pedra onde dorme o escorpião
Escondido do calor da tarde de Agosto que virá, que vem sempre,
Mesmo que já esteja apagado e só puro, mais puro possível.
Quase ouço daqui o iiiiiiióóóóóóóó iiiióóóó iióó iióó ió ió íó ió,
Mas vindo da solidão da noite, atrás, na nuca, onde a mão cai quando vergonha.
“Para que entraste nela?” Porque assim desejei e estava aberta
E é tão difícil querer verdadeiramente algo, quando os sentidos tão saturados e confusos com tudo.
Se forem já quase duas da manhã e as sete tão longe, ainda pior,
Só os dedos ainda cheios de outras, que já arrefeceram,
Tão presentes na memória das órbitas se passos cansados a encurtar o verde.
Quantos pontos finais desde o cemitério de Montmartre,
Depois de ter acabado já a história e ainda um beijo roubado ao esquecimento,
Fugido de um presente eterno, com o roxo a fazer de verde além da meia-noite,
Com a luzes húmidas e mágicas de Abril em Paris.
Iiiiiiióóóóóóóó iiiióóóó iióó iióó ió ió íó ió,
Vestidos de azul-marinho e com ar de algo que não é de verdade,
Parecem os faróis inúteis numa noite de insónia na praia dos dezassete anos,
Quando o mundo parecia estar na palma das mãos ou a caminho dela,
Vazia e forte na esperança, quando o mundo era algo que se queria,
Tudo tão grande e excitante numa noite longe desta, tão cheia no futuro
E esta que é do futuro, tão vazia, grande só nos sonhos cadáveres,
No sotão poeirento onde o verde é cínico e fecha os olhos lentamente,
Como um assassino solidário, que nos deixa cair de joelhos,
Nos acolhe nos braços até que para sempre e uma linha vermelha a crescer de nós,
Brilhante no luar que sempre só, me acompanha.
As pedras lançadas naquela tarde de sol,
Lá no fundo frias e inertes, para nada e eu à espera de ser pedra,
Lá no fundo ao lado dos que saltaram pela água até que não foi possível mais.
Que mais é possível depois de uma vida?

14.06.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

domingo, 6 de junho de 2010


Brinquedos

ao João e ao Rodrigo

Que interessam os brinquedos partidos no sotão de um desconhecido?
As mãos insistem em pegar-lhes, em escrever-lhes uma história no silêncio,
Em inventar um conhecimento do desconhecido, já morto, obviamente morto,
Se os brinquedos estão no sotão, como que esquecidos, tem que estar morto.
Quantos outros se imaginam, perdidos antes da morte chegar,
No mundo onde a vida lhes pode chegar ainda por outras mãos,
Longe da caixa de papelão castanho, onde estão encerrados sorrisos de plástico,
Ecos de tardes ao sol, ou no quarto, se chuva lá fora, até que acalmem as fúrias divinas,
No tempo em que deus um super-herói de um livro antigo.
Realmente não interessa a ninguém este homem-aranha, esta metade de braços abertos,
Como uma peça de arte-sacra, das que não estão à vista,
Das que esperam um restauro, de uma mão que lhe dê a outra metade,
Mesmo que alguém a tenha arrancado e queimado com uma caixa de fósforos roubada.
A ninguém interessa, mesmo que tenha sido o primeiro brinquedo, mesmo que em segunda mão,
Mesmo que partido, entre as folhas debaixo de uma árvore, abandonado.
Onde estará a cabeça do robô japonês feito na china,
Que recebeu no natal de mil novecentos e noventa,
Onde um pedaço de papel redondo, colado com fita-cola, com dois pontos e uma linha curva
A fingir um sorriso que se esqueceu como desenhar?
Deve ter-se partido numa das muitas viagens de mudanças e ficado perdido na infância nómada.
Quantos brinquedos perdidos nessa infância nómada. Só o primeiro nome ficou.
Os brinquedos só têm o primeiro nome, é o suficiente para quando chamamos por eles,
Quando abrimos uma caixa esquecida no sotão de um desconhecido, com a curiosidade da solidão,
No sotão de um morto, porque o pó é já do tamanho de uma vida.
Imagina-se que falta aquele brinquedo favorito, aquele dos onze anos, o que se queria mesmo,
O que se recebeu mesmo não sendo surpresa, como algo conhecido de que se gosta de verdade,
Se pega com gosto, sem a pausa de uma tentativa de fingir um sorriso.
Falta mesmo. Foi para o melhor amigo, no dia dos seus anos, porque assim é a verdadeira amizade.
Afinal não falta todo. Há um pedaço, o único que sobrou depois da amizade se ter quebrado,
Porque os donos morreram. Que interessam os brinquedos velhos de um desconhecido?
Para nada, mas também tivemos os nossos, que se fecharam em caixas,
Que se lançaram na escuridão de um sotão, se cobriram com o pó dos anos,
Se deixaram apodrecer enquanto forçavamos uma cara séria
E esqueciamos como florir um sorriso e inventar um mundo novo.
Que interessam os brinquedos partidos no sotão de um desconhecido?
Não interessam, porque o desconhecido eras tu se estás morto.

07.06.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quarta-feira, 2 de junho de 2010


Regresso Pela Margem

Não deixarei de caminhar, mesmo que os braços pendurados
E o destino uma porta aberta e eu convencido de uma chave no bolso.
A praia nunca mais acaba e a noite já começa a ficar pálida,
Não encontro a minha casa, a destes dias, que casa minha nunca.
Não tenho medo, apenas um vazio à frente onde caminho,
Sempre um passo que no ar incerto, sem saber se será o último,
Mas ainda estou longe, as luzes lá ao longe mais pequenas que estas,
Tudo tão escuro do lado onde os barcos apagam o horizonte,
Tudo tão vazio deste lado onde as ondas rebentam.
Não sei do que estou a fugir, se regresso verdadeiramente,
Ou se procuro um lugar onde não tenha ficado o meu cheiro.
Não sei o que faz o meu fantasma entre aquelas pernas,
Lançando-se sobre a areia num desespero de solitário crónico.
A noite tão vazia, apenas os ecos das gaivotas de um futuro desesperado,
Nas noites que nunca chegam a amadurecer e que acabam
Sem cheiros alheios, tudo desinfectado por um álcool demasiado caro,
Tudo estéril, como um dia de sol que nem deixa abrir os olhos na luz.
Quantas vezes passei aqui noutros lugares, mesmo que seja a segunda vez hoje,
Aqui, mesmo que as ondas fossem só as do vento, são só as do vento,
Ou das crianças durante a tarde, já que o dia fingiu ser quente,
Com as mães à espera de olhares por cima dos óculos de sol,
Inutilmente, já que eu sou dos da noite, dos que esperam até ser demasiado tarde,
Para que na urgência dos últimos segundos, ser obrigado ao mergulho na escuridão,
Seja a escuridão que for. Não, não é coragem, é resignação.
Os passos, onde tantos passos inocentes, onde tantos pecados a fugir da fonte,
Onde mãos dadas como se fosse possível uma unidade daquelas,
Só palmas suadas e a esperança de que seja para sempre,
De que seja até ao próximo avião e depois uma história para contar,
Uma recordação para atravessar noites onde as ondas dormem.
Tenho andado quilómetros em metros, tenho regressado à perdição,
A caminho de casa, tenho saudades das vacas de cortiça, dos aviões de papel,
Dos ovos de chocolate com uma surpresa dentro aos domingos
E toda a semana valia a pena e a desilusão era uma palavra que não servia para nada.
Agora, passam por mim sombras, falam línguas que já esqueci,
Contam-me sonhos que cresceram e se tornaram ridículos,
Quando na verdade o ridículo sou eu a caminhar sozinho,
Numa noite em que tantos orgasmos me esperam onde não estou.
As lágrimas lembram-me que querem sair, mas já me esqueci da combinação,
Tenho bebido o suficiente para manter a tristeza trancada dentro,
Longe do rebentamento das ondas, longe do silêncio das gaivotas, que não dormem,
Apenas noutro lugar, lá fora, onde as crianças brincaram.
Se conseguir chegar a casa, escreverei algo para provar que há momentos inúteis,
Que o regresso é só rebobinar outra partida,
Que as crianças são só presente, mesmo que lhe ponham o peso do futuro às costas.
Tenho vivido o suficiente para saber que agora é só um esperar,
Um esperar por uma porta fechada, para voltar para trás, até que alguém chegue,
Ou então a desilusão de uma cama quente, vazia, já que em mim mora uma multidão.

03.06.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

sexta-feira, 28 de maio de 2010


A Neve Que Fica

onde o Neva entra no Báltico

Ao lado do caviar dígitos que nunca mais acabam,
A carteira gorda de rublos, tantos para tão pouco,
A mulher da mercearia a gritar lentamente as palavras,
Que continuam a não fazer sentido,
Tanto barulho por um sumo de laranja,
Sim, sumo de laranja e só se compreende um indicador
A apontar um pacote entre muitos do mesmo,
Nada mais, um indicador que deve vir do tempo de Babel,
Antes das línguas kalashnikov a disparar no ar frio sem parar.
A campainha avisa os sorrisos, escassos pelas redondezas,
Que se acendam, a custo pelo frio que vem da rua,
Garrafas pelas prateleiras, escondem as paredes,
De todas as cores, de todos os tipos, de todos os sabores,
Um arco-íris para cegar, para enganar o frio,
A escuridão das ruas quase agrestes, lembram mansardas
Apesar de largas, o tamanho comprime os sentidos,
O tamanho do maior país do mundo que sempre esmagou os vizinhos.
As ruas quase vazias no seu tamanho difícil de saturar de gente,
Com gente nas paragens à espera, com um ar amarelo e triste,
Com os seus casacos de acordo com o vazio da sua carteira,
Gente que sai quando a luz arrefeceu e se suspende em cabos,
Vão para o trabalho, regressam do trabalho, desiludidos,
Pelo que se pode ler nestas horas de crepúsculo já apodrecido.
Os travestis perseguem quem passa uns metros
Lançando no ar envolvente a provocação de um cheiro híbrido,
Os Ladas passam, quase latas de sardinhas com rodas,
O gordo feio mais pesado que a carne pelo ouro que carrega,
Leva a sua cadela loira, de casaco de pele, mini-saia e botas de salto alto,
Vinte anos mais nova que ele e eu revolto-me com o amor pelo papel.
As salas de jogos com os seus neons a dizer que dentro calor
E o transsexual, demasiado apetitoso, do qual fugimos, a entrar atrás de nós,
A moeda cai e nós saímos de imediato,
Ninguém a querer admitir que tinha umas nádegas que convenciam o toque a cair-lhe,
Ele a olhar para trás arrependido da moeda que perdeu.
Não se encontra um bar, um café dos que estão habituados os do sul,
Uma provável striper convida-nos a segui-las, ia para o trabalho,
Na esperança de mais uns rublos de reconhecimento pela sua ajuda,
Mas afinal o bar tinha um ar pouco seguro, numa cave, de uma rua ainda mais escura,
Nós não, obrigado, bom trabalho, continuamos à procura,
Cartão de membro, pedem os armários à porta, negros por dentro e na roupa,
Membro por uma noite, para isso o hotel com o cemitério em frente
Onde dorme Dostoievsky, com a escuridão apagada no coração.
Na zona dos elevadores as prostitutas esperam a clientela que desce só,
Para subirem com companhia e há de tudo:
Velhas, jovens, demasiado jovens, demasiado velhas,
Várias gerações no mesmo negócio de descarga de peso, assassinas da solidão,
Loiras, ruivas, as ruivas, aquela ruiva se me sobrassem rublos
E me faltasses escrúpulos, morenas, altas, baixas, gordas, magras, das que só à dentada.
Subimos com a porta automática do elevador a fechar-nos os sorrisos
Depois das negociações para amanhã, quando já lá não estivermos,
O bar à espera e mais duas, com um menú de serviços,
A fingir que vestidas com vestidos transparentes a deixar ver os mamilos
Que se adivinham rosados e quem sabe com hálito do último cliente,
A linha fina na púbis a indicar de onde vem a motivação para quase tudo na vida,
Um belo par aquele, irmãs, quem sabe, parecidas sim
E os escrúpulos e as garrafas de vodka ainda cheias a tornar a noite sem sal,
Sem aquele sal daquela pele pronta a tudo,
Assassinas da solidão, da escuridão, da noite e do frio da antiga capital.
Sabemos que depois haverá festa no nosso andar,
Com americanas, francesas, alemãs, italianas, belgas, suecas...
Os quartos esperam e a vodka espera o convite para desculpar
Um assalto ao corpo alheio, pagando o prazer com o prazer,
Que assim é que deve ser. Os seguranças vêm e acaba tudo mais cedo,
Cada um entra aleatóriamente para uma porta aberta atrás de um cartão magnético
E assim se faz um destino, o de uma noite,
Poucas semanas antes do atentado checheno, os tais vizinhos esmagados,
Tanta arte e tão pouco respeito pelos autores, a humanidade, cansa-me.
A ressaca acompanham a dança de Matisse, tão longe da primeira vez,
No livro de educação visual e tecnológica, tão grande que Síndrome de Stendhal
E eu sem saber se aquilo real, se eu a sonhar há muitos anos,
Tão pequeno lá no país da minha língua.
A carteira emagrece, quero lá saber, não quero sair daqui com um rublo,
Não posso sair daqui com um rublo,
O resto é encher os bolsos de recordações,
Como os bolsos vazios do espanhol que nos veio dizer que alguém lhe tinha pedido a carteira,
Menos mal que foi a carteira,
Podia ter lá ficado ele, numa daquelas ruas geometricamente perfeitas,
Cheias de turistas cegos pela fascinação, quase como estar em Paris
E é verdade, com mais água, canais por todo lado
E a cara arranjada e maquilhada de um império grotesco,
Às portas do outro lado da Europa, olhando o poluído Golfo da Finlândia,
Mesmo de cara para o esgoto dos países bálticos,
Faz-me lembrar uma puta cara num bairro degradado,
Com joias como das grandes actrizes, sem clientes e miserável na sua gigante solidão.
Ao longe do outro lado de uma das muitas pontes
Alguém a fazer flexões no meio da neve,
Um louco, ou não, tudo depende da frequência das loucuras,
Repetem-se e tornam-se hábitos, o povo todo repete e tornam-se tradições.
Louco eu, que acho estranho o que me é estranho,
Gosto com um certo sentido masoquista, aquelas punhaladas
Na minha virgem ignorância de tantas coisas.
Tantos contrastes, mas nem é preciso ir longe,
Basta olhar para o lado, através da janela do autocarro,
Ver os monumentos que se tornam cada vez mais raros,
As torres que se tornam cada vez mais parecidas às que há em todas as cidades grandes,
Como se a verdade por fim a ser revelada,
Um acordar ao lado de uma almofada borratada e uma desconhecida feia, envelhecida pela noite,
Um palhaço grotesco, como as marionetas do teatro de marionetas de Nevsky,
Os Ladas ridículos naqueles trinta graus negativos, ultrapassados pelas limusinas,
Os Hummers negros, americanos, blindados, dos homens do petróleo e das drogas,
Aqueles gordos de cadelas loiras pela mão, vinte anos mais novas que eles
E a sustentar a família toda desde a avó até à filha que tiveram aos catorze anos,
Todos num apartamento pequeno, numa daquelas torres a dizer adeus.
Adeus máscara de teatro, com o teu sorriso cortado pela metade triste,
Deixaste-me dentro o mesmo sorriso torcido, o fascínio desiludido da humaniade.

28.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 27 de maio de 2010


Momento Trazido

de Bragança

Sentado num muro à espera, com o Sabor em frente,
O Eça a fazer-me companhia, na cidade onde nasci,
À espera que venham do médico para regressar.
No meio da rua adormecida pela hora de trabalho,
Com os carros que passam atrasados, sempre atrasados,
Sempre a chegar onde nem vale a pena pensar,
Com o livro, inclinado sobre o papel, quase lá dentro,
Não fosse a brisa primaveril e os passos no passeio.
Será que um dia lhe saberei o nome, a ela que passa?
Deve ser da minha idade, uns quase dezassete,
Também deve andar a ser Eça e pensar que os seus problemas
São tão grandes, enquanto o rio passa e vai para longe
De onde eu nasci.
E o próximo ano será o último, depois, depois tão longe
Do que imagino, perdido em ruas ainda mais desconhecidas
Que estas da cidade onde nasci.
O castelo, sei tão pouco sobre o castelo, sobre o Gungunhana,
Só que deve ter sido alguém muito grande para ter as calças num museu.
Sei que gosto e me faz lembrar tempo que nunca vivi,
Mas que alguém viveu até eu nascer nesta cidade,
Como se toda a história do mundo fosse para eu estar aqui,
A ler Eça, que certamente escreveu este livro para não estar só
Enquanto espero que venham do médico.
Não tarda a avalanche de carne apressada e com fome
A caminho do cheiro das batatas fritas,
A dar-me movimento aos olhos para fora, só para fora.
Não tardo e chego a meio, depois mais umas tardes ao sol
E acabo a outra metade. Hoje não, hoje a hora do almoço está próxima
E ainda temos que atravessar a serra, a terra fria até casa.
A serra, verde, cheia de segredos e de casas vazias.
Um dia irei vasculhar aqueles interiores vazios,
Enquanto faço horas, como se fosse um criador de tempo.
Um dia irei vasculhar interiores vazios na companhia daquelas casas,
Sem me importar dos carros solitários que passam,
A caminho da cidade, ou regressando da cidade onde nasci,
Iluminando por momentos os suspiros e os gemidos nos vidros.
Que nome terá? Era bonita, o nome não interessa,
Mas qual será? Um dia direi que gosto dela: gosto de ti.
Não. Gosto do livro que leio. Nunca pensei, mas nunca o tinha lido,
Gosto desta cidade, que tão poucas vezes visito,
Apesar do cordão umbilical e da gente que passa e nem me faz ser.
A culpa é do cheiro do almoço e das prioridades,
Das pressas que não deixam ver, que não dão tempo à gente de ser gente.
Um dia quero voltar a visitar o castelo, a Domus Minicipalis,
Passar uma noite na serra a fingir amor, para que outra noite venha.
Afinal de contas todos nos sentimos sós, mesmo numa rua cheia de gente,
Onde ninguém dá por ninguém, enquanto esperamos, um olhar, um sorriso,
A esperança de um nome de olhos bonitos,
Uma recordação para levar pelo mundo fora,
Para quando um quarto fechado e estranho, apesar do nosso cheiro nas paredes.
Não estranho nada o tempo do livro, deve ser assim que se vive nas grandes cidades,
Lá longe, na capital, da qual só me lembro da gente esquisita,
Sem olhos, dos autocarros como concertinas, do sono nos barcos do rio largo,
Da forma de falar muito asséptica, dos bancos de jardim onde mora gente,
Das ruas tão grandes e cheias onde custa respirar,
O cheiro a alcatrão quente, os táxis com cheiro a pele e fumo,
O táxista simpático de bigode, como os imaginava,
Os olhares no chão de manhã, os olhares no chão...
Porquê os olhares no chão quando se pode levar o Eça
Para amparar o olhar?
Aqui ainda passam tractores, gente com enxadas às costas,
Um cavalo, ou um burro de vez em quando.
De onde virão os cavalos, ou acabei de ler algo sobre cavalos?
Os burros nem pergunto, vêm de todo lado.
As rãs? Quase as ouço, ou será uma noite de primavera sentado numa manta,
Fora da cidade à beira de um açude, a contemplar os dedos nas estrelas,
Enquanto as minhas ideias humedecem o ar?
O ritmo dos passos aumenta, os passo aumentam,
A gente nasce de todos os lados, na mesma cidade onde eu nasci,
São todos meus irmãos.
Sinto umas pontadas no estômago. Deve ser fome,
Ou saudades do que não poderei levar comigo,
Quando eles chegarem do médico e eu me for.
O velho da boina diz-me bom dia,
Parecia o meu avó, mas com boina, já deve ter almoçado.
Dá-me mais fome por saber que há quem não a tenha,
Sinto-me mal, pela quase inveja, olho o sol no rio para acalmar.
Regresso ao Eça, que se continuar à espera, não passarei da metade.
Eles que venham quando vierem, por enquanto espero,
Já com fome, pela hora do almoço tardio.

28.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Admirável Mundo Novo

não o de Aldous Huxley

Um louco-obrigado atravessa as noites cada vez mais altas,
Vestido de moléculas instáveis, onde se cruzam carros flutuantes
Com gente que será gente depois da gente.
Os vivos-mortos, os mortos-vivos e outros ressuscitados,
Porque já se pode brincar com o que antes definitivo.
As megacorporações com o poder de fabricar deuses,
Novas religiões fundadas na ciência esquecida da ética,
Fabricantes das leis à sua medida.
A velocidade vertiginosa das novas guerras,
Reduzem multidões a pasta fertilizante, sem dar tempo a um grito,
A beleza dos nanoconstructores a tornar entulho em palácios,
Enquanto os habitantes de uma capital se tornam estrume homegéneo,
Quando bio-aviões bombardeiam plasma pelos seus genitais grotescos.
As ruas cheias de ladrões de implantes de crédito,
De punhal em punho prontos para te abrirem as tripas
Por roupa de marca das megacorporações
E as novas drogas sintécticas, mais viciantes que o oxigênio,
Ladrões-assassinos capazes de lágrimas e de pedir clemência
Quando os seguranças corporativos os vão fritar nas horas-vagas depois do trabalho.
O ciberespaço cheio de vida virtual, vigilantes, vírus com ideias de apocalipse
Capazes de instalar o caos no mundo dependente da cibernética.
O amor impossível de um holograma pelo seu patrão,
Incapaz de tocar, de sentir a não ser aquela estranha fusão de informação
Que leva a um erro no sistema, aproximando o que foi criado pelo humano do humano,
Condenado a uma imortalidade informática, enquanto a informação tiver lugar para estar.
Passeiam-se, uns por vaidade, outros por necessidade, os dos implantes cibernéticos,
Já além do humano, um lugar entre a criação e o criador,
Facilitando a vida tão dificultada pelas facilidades modernas.
Os sociopatas sadomasoquistas capazes de usar o sofrimento e a dor para criar arte,
Teatros de gritos, berros e suspiros cansados e resignados,
Com telepatas capazes de trazer de volta os momentos mais dolorosos que já viveste,
A infalibilidade da tortura telepática, quando o corpo já não chega,
Em nome da arte, mas mais em nome dos créditos ganhos por satisfazer os fetiches modernos.
Se tens créditos suficentes, envelhece sem medos, abusa do corpo,
Dá cabo de ti com as sensações mais extremas,
Depois trocas o teu corpo decrépito por o de um jovem são com a familia pobre,
Se tens créditos suficientes compras quem tu quiseres.
Ainda há caça às bruxas, apesar de se ter dissipado há muito a cinza das inocentes,
Caça aos geneticamente diferentes, o novo racismo anti-evolução,
O mesmo medo do que é diferente, num mundo tão diverso, cada vez controlado por menos.
Apesar do cheiro, do tráfico de drogas, das ruínas do século passado, de toda a miséria,
Ainda é no submundo que a humanidade é mais humana, longe dos que vivem nas alturas,
Alheados, esquecidos das suas origens, viciados nas suas drogas legais, marionetas das corporações.
Os novos programas públicos, as execuções ao vivo,
Com os julgamentos feitos nas rodas da sorte, ou do azar,
O entretenimento das massas à custa da dor humana como nos tempos antigos,
Já que a bestialidade dos homens não muda, moderniza-se.
Deuses, os que a ciência quiser criar, por manipulação genética,
Nada está fora do alcance das mãos do mortal,
Desde que a bioética ficou no velhinho início de século, em nome do progresso,
Que para empatar chegaram os séculos de ignorância religiosa.
As cidades flutuantes, para os que são dignos do céu em vida,
Pelo seu implante de crédito de platina, longe dos ladrões, dos mutantes degenerados,
Das misérias da terra, na companhia dos deuses das megacorporações,
Mesmo onde flutuam as estações de controlo meteorológico,
A dar chuva ou sol quando se quer, para quem paga, sempre para quem paga,
Só para quem pode pagar.
Este é o admirável mundo novo, onde a minha criança cresceu,
Não muito diferente do velho mundo do adulto que sou.

26.06.2099

Valhalla

João Bosco da Silva

domingo, 23 de maio de 2010


Ninguém Me Mor(r)a

O fogo que se propaga pelo esófago até cair
Lá no fundo onde também não sou eu
Dentro do corpo, perto de onde moro,
Mas não sou.

Sou esse fogo a atravessar este corpo
Emprestado para a passagem das coisas.

As mãos capazes de tudo,
Capazes de entrar em todos,
Mais profundas que os olhos,
Atrás dos quais não habito.

Sou todos os pecados das mãos inocentes,
Todos os milagres roubados ao vazio.

Aquela imagem cá dentro que os olhos roubaram
Ao momento que não é mais,
Que não é minha, que nem vejo
Apesar dos olhos abertos tão longe de mim.

Sou aquele mundo que se acende
Quando os olhos se fecham mesmo abertos.

Entrar no corpo naturalmente lubrificado
Pelos sussurros da língua nas orelhas e no pescoço,
Mesmo que eu fique sempre de fora
A assistir às conquistas do meu corpo.

Sou a confusão dos dois corpos
Na noite quente e suada, roubada ao verão que passou.

24.05.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva