segunda-feira, 23 de junho de 2014



Grilo Falante

Lembras-te daquela tarde quente, sentado no muro de pedra entre o lameiro
E o souto, enquanto as vacas pastavam, apanhavas grilos, que esmagavas um atrás
Do outro, misturando-os, misturando os corpos pequenos numa massa
Informe de grilo, duas pedras planas, uma maior, uma mais pequena,
E os grilos entre elas, esmagados, polpa de insecto, raspavas tudo para cima de outra
Pedra lisa e misturavas aquilo com uma pauzinho e saliva, saías da sombra, voltavas
Ao lameiro, apanhavas mais uns quantos e continuavas a chacina,
Distraído da crueldade do mundo, calmo como só as crianças conseguem
Quando estão no seu mundo, as pedras a bater uma na outra e menos uma vida,
Tu só querias que todos fossem um, sentias um estranho sentido erótico
Naquilo, algo que não compreendias, um orgia de polpa, patas, antenas,
E eras todo calma enquanto as vacas pastavam, também  distraídas
De tudo, como sempre, todos nascemos vacas e psicopatas, alguns encontram
A culpa, afogam-se em moral, perdem-se, outros fecham o livro que estavam a ler
Porque sentem que um monte de pasta de grilos lhe está para sair pela boca fora,
Como nas noites em que se come pouco e se bebe demasiado, em busca
Da serenidade das tardes quentes em muros de granito, esmagando segundos
Como grilos e vice-versa, fecham o livro e correm para o papel e vomitam
Tudo, não há inspiração, só urgência, não há imaginação, só memórias
Misturadas, rasgadas, uma pasta de memórias, memórias de grilo,
Não te sentes culpado, sentes inveja da liberdade que um dia,
Da perversidade inocente que trocaste pela maldade forçada da experiência,
Agora volta para o livro, onde não estás, esconde-te, és um monstro que cresceu,
Tens a alma amaldiçoada desde que não morreste quando nasceste fora do teu tempo.

Turku


João Bosco da Silva

sábado, 21 de junho de 2014

Caixa De Sapatos

Para quê falar quando está tudo dito, o melhor foi vivido e agora, aos poucos,
Consome-se a sua carcaça com uma desculpa de futuro, a esperança é a cobardia
Dos nostálgicos, é um medo que chamam de amor, quando já a paixão se foi,
Quando o desespero é grande, o dedo desconfia, e toma decisões pela
Fraqueza do cansaço, o chumbo torna-se no infinito ou o cheiro moribundo
E desconhecido de uma doença alheia torna-se na última fuga possível,
Tudo se torna claro perto do fim, e as certezas do engano ofuscam a cegueira
Deixando ver com lucidez os erros cometidos por própria culpa, os pecados
Consentidos por pouco amor próprio, trocado pelo agradecimento da infidelidade
Maior, não há pior prisão que a da loucura, ou ser o objecto de humilhação
De quem se vive mais que o próprio corpo, as madrugadas plantam a semente
Da solidão no dia por nascer, não vale a pena falar, está tudo dito, nada ouvido,
Venha o tempo e traga o esquecimento, a única cura, ou a morte.

Turku

21.06.2014


João Bosco da Silva

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Monólogo Entre Bêbados

Caro mestre, ando há anos a tentar vender barato a minha confusão,
Ninguém se interessa nestes dias, todos estão certos do que os leva à felicidade
E continuam a comprar barato guias para finais felizes, em caixões de pinho
E muitas flores, eu por este lado, continuo a tentar distinguir entre uma
Indian Pale Ale e uma Californian Pale Ale, não é fácil depois de um aperitivo
Difícil sem gengibre para  limpar o palato, seja como for, nada vale a pena,
As cidades têm demasiada gente vazia e uma cabana numa aldeia quase deserta
Leva-nos a uma loucura seca e quase nos afogamos nas multidões em nós mesmos,
Como em Big Sur, lembras-te, claro que não, o papel não lembra, apenas relembra
Nos olhos que ainda se inflamam depois de muitos cigarros, todos procuram
A morte até ela bater à porta, aí todos se cagam e era só a brincar, alguém devia
Escrever isto numa casa de banho de um bar qualquer, é nestas horas que somos
Mais lúcidos, na loucura de uma solidão entre felizes, como é possível, depois de tanto
Horror ao longo da história da humanidade, poder-se dançar perto da felicidade,
Nem nas pale ale se encontra um alívio, o pior da vida é a tolerância que se ganha
Para as fugas, cada vez menos se consegue respirar num momento de liberdade,
E a vida continua, paralelo atrás de paralelo, impedindo pegadas ou levantamento
De poeiras desnecessárias já que a madrugada apaga tudo das noites que fomos,
Por isso te digo, já ninguém quer saber da confusão dos outros, mesmo que, se calhar
Nem me consigo vir, não interessa, querem, ponto final, tudo o resto é um esquecimento
Fácil a caminho da felicidade que no fim de contas, não passa de um caixão barato
Depois de uns dias a plantar miséria numa cama de hospital, a cagar sangue,
A impingir pena a todos os que visitam com ar de enjoados, mas agora sobre ti,
Diz-me, como é ser feliz, por aí, onde não se está?

Turku

11.06.2014


João Bosco da Silva

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Americana 1

Sabes, a planta está a secar,
Põe-se no lugar do negrilho,
Dizem que estão todos para acabar,
Todos os homens, restam os
Que conseguem conservar o poder
E a vontade de submeter
Ao nojo da sua presença,
Os gatos já nem pó são,
Até a terra se esquece dos ossos.
Pediu-me que lhe ejaculasse
Na boca e depois riu-se da
Possibilidade de ir parar ao inferno.




Americana 2

O pó é tão quente que é quase
Dourado, faz falta chuva, as aldeias na
Caixa-aberta de língua à cão, cheios de
Entusiasmo e vontade de mergulhar,
Seja no que for, enfiando-nos
Nos buracos entre as pedras
Dos muros da imaginação,
Enquanto os rios correm,
Sem pressas de ninguém.
Lambem-me todo o comprimento
Do tesão de adolescente com
Uma vontade inesperada
Para quem humedece poucos púbicos.




Americana 3

No café de uma aldeia, peço uma cerveja
E pergunto onde fica o cemitério novo,
Alguém me diz que devo estar enganado,
Que não é a aldeia que estou a pensar,
Os caçadores atiraram na placa com o nome
À entrada e não se tem memória,
Aqui só esvaziamos copos e corpos,
Eu disse-lhe que estava com sede
De novidade, com um toque
Familiar de estranhos,
Ouço que falam da mulher
De quem não está.
A filha, apesar da canícula,
Abre as nádegas peludas do filho
Do patrão e enterra-lhe a língua
No olho suado.




Americana 4

Custava sempre a adormecer,
Havia urgências e fomes
Inexplicáveis, os sonhos acordavam-se
Em sonhos,
Da janela aberta ouviam-se
Os cães a ladrar e o último
Candeeiro da rua, ao lado do beijo
Roubado ao hálito adolescente
A cebola e a última inocência,
A amizade fica a latejar
Como o rumor do carro solitário
Que corta a estrada vazia.
Sem reparar que lhe manchei
O vestido com esperma, agradece-me
E cada um vai para sua casa
Dormir com as mãos sujas.




Americana 5

Deixou secar o livro na corda da roupa,
Naquela casa velha do Verão,
Se a amizade também fosse
Possível livrar da irreversibilidade,
Mas o carro não contou nada
A ninguém, os sentidos esqueceram-se,
A memória tem mais que fazer,
Mesmo assim nunca perdoa,
O pó nunca deixa de cair,
A gente morrerá sempre e
É sempre uma pena, falar mal é
Dos vivos, que ainda sonham
E são traídos por
Quem não merecem.
Depois de lhe impor o cu,
Suplica-lhe, aos secos tomates,
Que se venha na sua boca.




Americana 6

Ando a precisar de pecar,
A vida não merece morte limpa,
No estrangeiro sou mais bonito,
Há olhos mais claros
E interesses menos gananciosos,
Não se cansam tanto com
O peso das aparências e
A diluição das mentiras
Em ilusões e presentes
Ridículos para encher o saco
Que a culpa faz crescer.
Trocou uma volta no carro
Por um broche com a mesma
Boca que recebe hóstias
E diz amo-te a cornos.






“Elephant Gun”

Elefantes e sonhos que
Vamos matando um a um,
A vida,
Esmagando-nos um pouco
Mais com menos
De nós.

Os duros passos
Nem sempre
Os mais pesados,
Todos apagados
Do pó que é
A memória.

Escorrega sem
Medo, as asas
Caem naturalmente.

07.06.2014

Turku

João Bosco da Silva


sexta-feira, 6 de junho de 2014

Calças Brancas

Enquanto houver putas no mundo, o dinheiro terá sempre poder.

Provérbio possível


Os anos luminosos das calças brancas, gloriosos, exagerando na duração de uma horas
Bem fodidas, diferentes calças, no mesmo Verão do ano da graça dos inibidores
De recaptação de felicidade, os orgasmos eram demolidos com vontade de dinamite
E uma boca tão seca que as calças brancas tinham que cuspir nela para ajudar na
Transferência entre os pares de lábios, o melhor mesmo era  ir ao encontro das calças brancas,
Encurtar a distância passo a passo, tornar o calor da carne próximo e possível, real,
Construir lentamente o seu tamanho verdadeiro, a sua textura na proximidade dos olhos
Num dia de Sol, sempre prontas a escorrer pelas pernas abaixo, revelando todos os medos
E segredos óbvios em forma de gemidos e promessas de curta duração, quando o Sol já
Se punha e se desmontava ou a manhã chamava para as obrigações inventadas,
Ou lá ia eu e elas ficavam em cima de uma cadeira, ou esquecidas no chão,
À espera de outro que as libertasse do seu trabalho, o de inventar vontades,
Tela pronta para ser ejaculada, respeito cuspido com todo o poder do desprezo,
Certeza de durabilidade negada pela vontade das sombras interiores nos meses de luz,
Calças brancas e tudo o que revelando, elas escondem e esconderam, ou fingem esquecer.

Turku

05.06.2014


João Bosco da Silva

terça-feira, 3 de junho de 2014

Another Day In Paradise

Os dias que ficam são os que os poemas prendem e muitos dias nem merecem ficar,
Há quem grite que está no seu direito de cuspir  nos direitos dos outros e lá
No fundo, foi a coisa que não se levantou ou uma saudade da próstata como se fosse
O tal terceiro tomate, há quem se julgue melhor só por viver demasiado dentro,
Felizmente, os autocarros levam tudo como a noite e levam barato, mesmo numa
Cidade de cerveja a dez euros debaixo de um Sol de esguelha e corvos engravatados,
Esperando por um bater na porta do quarto de hotel depois das máscaras caírem,
O passado tenta como a incerteza do presente, do futuro já nada se espera, está sempre
A vir, chega e nunca é futuro nenhum, presente e pouco mais do mesmo, desconfia-se
Que a felicidade se esconda no olhar de desconhecidos, talvez se esconda ,
Nos sorrisos anónimos que se confundem com a loucura, comprimido de manhã
Ou um escorrer viscoso pelas coxas abaixo desde a alegria ruborizada, a solidão é tão
Grande quando se está rodeado por um enxame barulhento e confuso, deseja-se
A inocência do cabelo mais claro, deseja-se mesmo a estupidez dos primeiros pêlos
Da vergonha, o egoísmo cego da idade das certezas, mas ninguém espera, a vida é
Excessivamente uma e parece acabar cada vez mais rápido, os primeiros anos
Duravam décadas, agora o Sol põe-se antes de se acordar e passa-se a noite a sonhar
Com copos vazios e roupa interior alheia pelo chão após uma penetração superficial,
Perde-se muito por se sonhar tanto e nunca ninguém viajou sentado se não houverem aviões
A passar ao lado de uma possível companhia, do lado de fora do tédio, do passeio,
Onde se acumulam passos esquecidos como latas de cerveja vazias e só o poema
Fica do dia que se tornou possível contra o vazio de todos os dias que estão por vir.

Turku

02.06.2014


João Bosco da Silva

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Naquele Tempo

Naquele tempo os quartos eram ainda mais escuros e os dias mais vazios,
Mas havia uma força de vontade que rompia a sujidade das ruas e dos olhos
Que as corrompem, até ao autocarro da meia-noite, havia tempo para mais
Uma violência consentida, polvilhar o ar pesado da solidão com o cheiro a sexo e álcool,
Um pouco de fumo dos cigarros fumados na letargia entre a ejaculação
E um novo tesão, assim eram alguns dia naquele tempo, o ar tinha outra massa,
Apesar do mesmo, os pulmões como a alma, habituaram-se, criaram tolerância,
Pode não haver ar pesado o suficiente, um dia, nem o excessivamente doce
Metálico ar africano, carregado de promessas de extinção e tempestades evolutivas,
Não será suficiente para se inspirar até às falanges da alma, já não se trata da inocência,
Já naquele tempo se fossilizava, a religião já se tinha trocado pelo desengano,
Era aquela capacidade de Caeiro, cada vez a primeira vez, tudo novamente outra vez,
Com gosto e entusiasmo, mesmo que o Sol químico, um truque de recaptação inibida
Para afogar o cérebro em felicidade, os orgasmos arrancados à força de lábios abusados
Mas satisfeitos, não estava habituada, a marca do anel ainda no dedo, branca, como as
Calças à espera e as cuecas no chão, molhadas com a latência de uma paixão,
Naquele tempo ainda se aconselhava a evitar as paixões e era o mais inútil a fazer,
Como tudo o que é sincero, as calotes glaciares estão a descongelar ao dobro da velocidade
E o mundo pára para ver um famoso nu, enrolado à namorada, naquele tempo ainda se tinha
Fé na humanidade, o futuro parecia-se com o que se espera do futuro, amava-se com
Um certo desprezo, agora todos os dias sabem a cinzento e pouco interessa, seja o que for,
Talvez um eco no quarto fechado ao se passar ao lado, um eco dentro enquanto se caminha
Em direcção à distância, onde alguém menos quem naquele tempo tinha ainda um par
De sonhos no bolso, agora é demasiado tarde para o que quer que seja, a folha de papel está
Irremediavelmente arruinada, mas como é a única, vai-se escrevinhando, sem cuidado, como
Se toda a vida um papel de rascunho. O futuro não é lado nenhum, é só estar longe daqui.

João Bosco da Silva

Porto


20.05.2014
Roupa A Secar

A farda seca no estendal de parapeito, ela poderá estar em casa,
Ou numa magra folga, se calhar foi à aldeia ver a mãe que não fala com a avó,
Ou está em casa só, deitada na cama, imaginando encontros com quem lhe
Tocou de leve o passado, com um olhar, uma palavra ou outra e pouco mais,
Nada de promessas, ainda sente o gosto daquelas tardes de início de Verão,
Trancada até à noite com aquele corpo que parecia nunca se saciar do dela,
Se calhar é uma daquelas tardes ainda, e ela recebe sedenta o prazer
Que lhe impingem na carne, diz que nunca teve um orgasmo, mas mesmo assim
Gosta de foder como se não houvesse amanhã, na rua veste-se de timidez,
Mas o olhar trai-a sempre, os homens despem-na tantas vezes, se calhar por isso
A farda no estendal, a secar da saliva, como o esperma na sua pele depois
De lavar a alma com a certeza da carne, ela sabe que não passa daquilo,
Por isso abre-lhe os lábios e derrete-se toda, arrisca-se a um futuro comprometido
Apesar de se fingir sem ilusões, lá no fundo deseja uma concepcão que prenda,
Que a livre das calcas da farda, mas para isso tem que encontrar algo mais
Estável que o desejo e o prazer limpo de outros interesses futuros,
Pode estar à beira rio, no aniversário de alguém, a frisar o cabelo com o suor
Enquanto apanham morangos do outro lado, ela toda famas e olhos,
No frigorífico o mínimo para ir enganado a fome, ou entreter entre coitos,
O mais certo é estar a trabalhar, com a vontade de outro lado, pensando
Em férias num lugar que imagina da boca dos outros, ou das fotos que lhe
Obrigaram a engolir, como submissão, deve estar a trabalhar, para acabar
Mais um dia numa casa alugada, com uma renda que lhe leva metade do salário,
Encerrada num quarto quase privado, não fossem as discussões constantes
Dos vizinhos, acentuando mais a sua solidão, mais um dia para menos um dia,
Após dia, todos os sonhos adiados, quem se perdeu longe, quem se dá
Sempre ao lado da vontade, vai-se andando, vai-se quase sendo, lavando a farda,
Sujando a farda, acumulando dias inúteis para nós mesmos, sepultando-nos
Até nada mais restar, do que roupa esquecida no parapeito de uma janela,
Para a curiosidade mórbida de quem ignora a cor dos nossos olhos.

28-05-2014

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 18 de maio de 2014

Espasmos Matinais Nas Circunvoluções Após Sesta

Desenham-te como um pintor cansado dos boulevards pinta uma paisagem bucólica,
Imaginando nas cores a dureza do trabalho e o cansaço dos dias, a inocência que
Se julga por trás daquela gente, fascina-os a tua clareza perante a opacidade da vida,
És apenas uma fera  num circo de cidade, uma besta amansada pelas correntes
Do esperado, alimentam-te com ilusões como se alimentam bois com palácios,
E consomem-te os sonhos na esperança de uma cura para o envelhecimento
Do convencional, cultivam poetam como se treinassem papagaios e usam o teu
Passado como um dicionário de memórias, interpretam-se enquanto dormes
E esperam que a carne te seja limpa, mesmo sabendo que gostas de chafurdar no
Desespero e na solidão das noites alheias, prometem-te um pedaço de betão
Em troca do teu olhar e julgam que possuis uma sabedoria latente, como a dos
Animais, mas sem possibilidade de expressão, ladras à noite porque te sentes menos
Só nas horas dos cães vadios, não te deixes amansar, não lhe cedas a violência,
Vive como quem mergulha ignorando a profundidade, não te deixes pintar
Como um elefante, sê africano, evita as procissões e procura-te menos onde não estás,
Eles apenas te chuparão até ficares seco, vazio, um hipócrita deslumbrado pelo
Espelho do tempo em que ainda eras bruto, um animal com palavras toscas
E puras, não te deixes encontrar, ou acabarás com uma geometria a olho nu, num
Dedo qualquer, quando a tua perfeição e dureza se encontram na tua estrutura molecular,
No sumo primeiro, antes de azedar, és o musgo verde e húmido numa fraga de granito,
Não te deixes apanhar para seres pisado por figurinhas de presépio lascadas,
Bebe vinho e grita-lhes as verdades que eles querem esconder nas evidências.

Turku

18-05-2014


João Bosco da Silva

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Parafilias Bucólicas

Tem-se medo da inocência, de olhar e ver apenas o momento bucólico,
Sem a adição do que se sabe, por trás, por sabe-se lá que dinheiro,
Objectos ou favores ridículos, a abrir as pernas para os velhos ricos de idade e vício,
Prefere-se o burro e as casas arruinadas pelo esquecimento, a distância
Das árvores que secaram ou arderam, do que o ruído que contamina o olhar
De criança, vê-la como antes, com indiferença sem maldade, ver por ver, sem adição
De culpa ou cicatrizações forçadas de segredos abertos para os lados do rio de baixo,
Onde tantas histórias correm e quase tantos tomates se correram,
Desde épocas mitológicas, com o primeiro pó do ano e a água ainda fria de Abril e Maio,
Toda a gente cresceu para se engolir em desejos incompletos, ser para olhos indignos,
Revelar-se na escuridão ou nos favores das velas e nos cantos de que toda a gente fala
E ninguém vê, custam-me tanto os pecados dos outros, especialmente quando tento ser limpo,
Ou sincero aos olhos côncavos dos viciados na tradição hipócrita, em incenso, pão rançoso,
Absolvição e histórias da carochinha para embalar, fazer medo e impor respeito
De luto e lenços na cabeça, o cão à frente dela, o de quatro patas, o de calções atrás,
Sem perceber o cheiro do que acabou de se despegar dela há umas horas,
Não há nada a fazer, tende-se para o lixo, para a porcaria, princesas rasgam os vestidos
A caminho dos sonhos impossíveis, deixam-se penetrar pelas vontades sujas de poder,
Pelos desejos fáceis, por ilusão, fraqueza, também é só corpo e não se gasta,
Só para se sentir, nem que seja nojo, dor, algo diferente, a primeira vez todas as vezes,
Nem que seja um arco-íris com as cores da merda, algo novo, o tédio é o nosso pior
Inimigo, passa-se a vida à procura de primeiras vezes, chega-se perto do fim, ao limite,
Não há almas higiénicas depois dos dentes de leite, tudo se perde com o final da tarde
E a primeira absolvição dos pecados, que nem se confessaram, também a inocência se
Absolve como se fosse o tal pecado original, um banho de alma dado por um hipócrita maior
Resolve todos os problemas de consciência, todas as dúvidas de existência, para sempre,
Até à próxima, no fundo, espera-se que a carne se revele, tão suja quanto possível,
Há algo de erótico na culpa, uma parafilia reciclável, usa-se o sexo como cura para o vazio
Que também aumenta, procura-se calor no impessoal e higiénico, sonhando-se com
Esperma, suor, saliva numa boca familiar, espera-se que o Sol se ponha e o frio chame
Para a hora de jantar, a cura pelos copos e a companhia inócua de garrafas vazias,
Esquecimento como verdadeira salvação da alma, como forma de regresso aos olhos
Dos primeiros poemas, limpos de encontros mascarados e decadência gratuita.

Turku

09.05.2014


João Bosco da Silva

sábado, 3 de maio de 2014



Aparição en Arlequin

Quando estive pela primeira vez frente a frente com o Paul en Arlequin, senti algo como
Se uma aparição, vi-me, não aquele miúdo de cabelo castanho-claro, numa foto, agarrado
A um ramo de uma árvore para os lados de umas termas esquecidas, com o mesmo olhar vago
Do Arlequin, mas vi a idade que tinha, já não era o miúdo que reproduzia em folhas de papel
Cavalinho o quadro do Picasso para o trabalho das aulas de Educação Visual no quinto ano,
Era todos os pecados que acumulei até então, toda a sujidade que lavei das mãos desde então
E senti-me traído, por mim mesmo, traída a minha inocência, ali, em frente ao original,
Senti-me quase envergonhado por não ter dez anos ou menos, porque o que merecia
Aquele reflexo, era o miúdo de cabelo castanho-claro a cobrir-lhe a testa e olhar inocente,
Sem sinal de maldade, solene, mesmo que com roupa de palhaço, senti-me eu o verdadeiro
Palhaço, que trocou a pureza, a inocência, pelo barulho do demasiado a confundir-se com lixo,
Reparo mais uma vez que a sua posição podia ter sido outra, como o encontro podia ter sido noutro
Museu, mas foi ali, no Ateneum de Helsínquia, inesperadamente e fiquei como um pequeno
Alberto Soares ao se ver e não se reconhecer, ao me ver e não reconhecer o que se reflecte
No quadro, naquele quadro tão familiar, pintado noutra vida com lápis de cor e mãos pequeninas.


03.05.2014

Turku


João Bosco da Silva


Distração E Cabelos Brancos

Quando foi que envelheci tanto, nem dei por nada e agora vejo os amigos do meu pai
Na falta de vontade que tenho de continuar a parir cabelos brancos, mais cansaço e uma
Valente desilusão a cada sonho que passa e deixa apenas um enorme vazio, vejo-me
Naquelas fotos, tão seguro, tão homem, jovem, agora jovem, porque eu daquela idade
E eu não posso ser grande como quando via aquelas fotos numa outra vida, profunda,
Enterrada no pó dos dias, na lixeira de tantos momentos, mesmo os gloriosos, hoje composto
Para fertilizar a morte, apestar o envelhecimento, eu que vivi tudo em tão pouco tempo
E nada fiz a não ser gastar sem gasto dar sequer, só os órgãos sofreram, em nada amadureci,
Saltei logo para o apodrecimento, só estraguei, a vida deve comer-se verde ou nunca se terá
Vontade nos dentes, agora isto, o medo a trazer poemas, cada vez mais parecidos entre eles,
Encostados uns aos outros, debaixo de uma ponte num dia de tempestade, querem tomar forma,
Ser vida, algo que se adia por se saber que na verdade impossível, por prazer, ejaculaste nos
Olhos das verdadeiras oportunidades, negaste o amor dentro da espectativa do brilho do ouro
E levaste banhos orgânicos raros em amnésias que não consegues esconder, quase foste o pior
Que podias ser e nunca estiveste tão próximo de ser feliz, mas sempre julgaste que havia tempo,
Que ainda era cedo e agora, ninguém tolera o barulho que fazes dentro de ti mesmo,
Deixaste cozer demasiado, agora não consegues engolir-te, eu digo-te quando foi que
Envelheceste tanto, foi enquanto viveste sem olhar muito para os outros, o espelho que
Eles querem ser de ti, as barrigas dos outros, os cornos dos outros, as traições dos outros,
Os empréstimos dos outros, os divórcios dos outros, os filhos dos outros e os que não são deles,
Os sonhos que os outros já não revelam, porque se tornou ridículo, sonhar, só relembrar é
Permitido, entre umas garrafas de vinho, os direitos que os outros julgam ter, os deveres que
Os outros te querem impor, a forma como querem que te vistas e as máscaras que querem que  uses para
Pareceres bem, apesar de mentira, os erros que querem que cometas porque é o que está certo,
A cor do cabelo dos outros e as suas testas a tomarem conta da imaginação, não vale a pena olhar
E envelhecer a vida, já se morre o suficiente na morte, distrai-te outra vez, eles passam sempre.

01.05.2014

Turku


João Bosco da Silva


A Macieira Dos Insones

Disseram-me que arrancaram a macieira porque secou, também eu sequei e nunca ninguém
Me conseguiu arrancar as raízes, mesmo que tenha sido muitas vezes estrangeiro em casa
E preferir a solidão do granito e o desolamento das ruínas dos verões quando a cinza já
Assentou à força da chuva, o lameiro tem tão pouco do que trago, parece mais pequeno
Apesar de terem derrubado a cerca que o dividia, enterraram um poço, o cão já se tinha
Lá afogado, de certeza também a capacidade de ser feliz com um bocado de pão caseiro
Com tulicreme que a tia preparou, a inocência como o amor, cega, mas uma cegueira por
Ausência, a cegueira de quem tem as mãos vazias e está cheio de sonhos, a cegueira
De quem confia na vida como na mãe e é para sempre e capaz de tudo menos de traição,
Cega para a maldade, com os sentidos livres e limpos para receber a felicidade, ou apenas
Estar e ser, ignorando que se é, aquela macieira em cuja sombra me deitei e senti
A novidade da erva seca nas costas como a primeira vez em que li Walt Whitman, frescura
Viva que mais tarde se transformou no cheiro a mijo cristalizado das folhas amarelecidas
Pela experiência e o tempo, sentir o mesmo de forma inversa ao sentir o aroma azedo
Da cerveja estragada no fundo das garrafas quase vazias e a companhia pouco simpática
De outras barbas, eu quase, sentado a consumir-me em copos de plástico, tremendo com as
Chamas das velas ao vento das saudades e uma quase hipocrisia por falar sozinho com a
Memória de quem, espero, me dê o adiamento e a força inata, já que nasci de pouco
E para quase nada, para acabar numa noite de luar, longe disto tido, no lameiro
Daquela macieira onde me arrancaram, hoje tenho amigos poetas, pouco me conheço,
E tenho dias em que quando acordo, demoro horas a encontrar-me por entre os papéis
Manchados pela chuva e pelo carvão do sofrimento adiado pelo medo de mais um
Momento inútil e perdido, para sempre, ao lado do lugar onde esteve a macieira, para nunca
E até sempre, numa garrafa de vinho bordeaux, lá para os lados de Django Reinhardt e dos tios
De França, porque tantas vezes o que procuras é apenas o inesperado, como o sabor daqueles
Gauloises à beira do rio da aldeia, de madrugada, com os pés cheios de vinho tinto e língua
Destravada, pronta para confissões lançadas para a fogueira purificadora da felicidade.

Turku

30.04.2014


João Bosco da Silva

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Todos Os Gatos

O gato está vivo ou morto, morto e vivo antes de se abrir a caixa, nunca morto-vivo,
Livre arbítrio, dizem, quando a escolha neste universo terá que ser a que foi feita, será feita,
Ou o universo seria outro e não este, o corte no dedo como tinha que ser e não a lâmina
Ao lado da dor e do sangue, os nascimentos e os tiros no escuro assassinos de nadas,
Toda a sorte e o infeliz azar, irmãos prováveis, copo meio cheio e meio vazio e a cicuta a descer,
Sempre tão mal recebidos os infortúnios, só há coisas que merecem um, só a mim, quando
Afinal, tudo a quem tinha que ser, um espelho contra espelho, com infinitos reflexos, todos
Diferentes, um corredor do comprimento que atribuem a deus, no entanto o nada é
Proporcional a tudo e a música é tão maior do que a distância física que de olhos fechados
Por dentro percorremos com pernas de ilusão, uma viagem sem se sair do mesmo crânio,
O gato roça na perna, tem fome, está vivo, aqui, mesmo não estando, o resto são gatos
E não gatos, vivos e mortos, numa dependência de olhos para decidir em que paralelo.

24-04-2014

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Rimjobs E Buracos Negros

Somos tanto o mesmo, a mesma estrada a caminho da aldeia que ficou por visitar
E todas as promessas mentidas, necessárias ao alívio e ao consentimento da carne,
A consanguinidade atormenta tanto quanto atrai e fascina a familiaridade do pecado
Em casa, o trigo pronto para ser ceifado e a curiosidade verde longe do amadurecimento
Podre dos dias em que se é, e o mundo encerra-se num espaço restrito entre suor
Excitado e o muco de segredos que toda a gente confessa e limpa com hóstias
Coladas ao palato, desejando logo voltar a sujar-se com um rimjob peludo,
Só o que passou interessa e é o que somos, o resto é arrastar uma tentativa vã de
Romper com o limite do que se é e ser livre no aprisionamento de um outro,
O futuro é apenas onde não se está, mora ao lado do desejo, num fim de verão eterno,
Regressar à carne que um dia nos abençoou com a libertação de nós próprios
Parece um traição injusta à memória, confrontá-la com as medidas reais do que com
O tempo e a nostalgia tomou a forma de um sonho, mas que fazer quando fechou
Aquele café nas nossas costas e ficou uma insatisfação verde no regresso impossível,
Que fazer quando se torna impossível encontrar pedaços de espelho nos livros que se lê
E tudo aborrece por repetição ou tolerância, que fazer quando ardem as saudades
E se fica hipnotizado pelo fascínio da despersonalização das chamas nas circunvoluções
Onde se escondem os sabores reais do que ficou perdido num tempo por onde se passou,
É obrigatório morrer, como passar, o big bang não trouxe nada de novo a não ser
A possibilidade de uma coisa de cada vez, em vez de tudo no mesmo lugar ao mesmo tempo,
A nossa maldição é aprisionar pedaços de tempo num espaço demasiado pequeno,
Dizem que os neurónios e as suas sinapses se assemelham a um pequeno universo,
Não admira sentir-me tantas vezes perdido em estrelas moribundas e buracos negros.

21-04-2014

Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Montanha-Russa

Depois de tão pouco, o invólucro aberto do preservativo continua onde os olhos o deixaram,
Intocado, há lugares que até o vento despreza, onde as sombras reinam e são memória,
Ou aqueles minutos antes de se adormecer por completo e quando os melhores poemas
Se tecem para ficar esquecidos na primeira mosca da manhã, não interessa e repita-se
Que as caras barbudas dos quadros já mudaram mais que o desespero dos suicidas,
As esculturas dos amigos estão tão cansadas de olhares desconhecidos que desejam
Chuva ácida e a morte eterna no anonimato de um calhau à beira de um rio de aldeia,
Estás perdido, há anos que estás perdido, mas como se pode alguém perder dentro
Disto, a não ser que seja uma perda de tempo, que a vida acaba por provar ser, não interessa,
Há inutilidades que permanecem inalteradas para nos lembrar que a imortalidade nem sempre
Se encontra na arte, na fama, no barulho, em lado nenhum, como mãos mortas em cavernas
Nunca descobertas para os lados de uma país qualquer da idade dos outros todos,
Resta sonhar enquanto se dorme e esquecer o resto dos dias por o que se acabou de parir,
Apostar tudo na incerteza, porque o tudo é tão pouco quando se consideram os fracassos
Desde que se deixa de acreditar que o Sol nasce para aquecer o menino e que o fogo
É para a mãe fazer a comidinha ao menino, um futuro possível impedido, ao lado do rio,
O vestígio de uma mortalidade sem precisar do corte da marcha-atrás, ali, ainda, depois de tão pouco.

Turku

10-04-2014


João Bosco da Silva