segunda-feira, 25 de agosto de 2014
Reminiscências Circadianas
Lembras-te do rio no crepúsculo lento daquela cidade antiga, quando passo perto dele
Nunca sou o que conheces, também esse ficou algures entre as portas do elevador,
Que se fechou atrás de mim e encerrou até o para sempre de hoje, o teu cheiro misturado
Com aquele perfume, que tantas vezes encontrei depois, nunca exactamente o mesmo
Ao Sol, será que hoje me pagavas o jantar antes de me encerrares contigo numas águas
Furtadas com vista para o castelo, ou darias pelos anos no meu cabelo, o que me fez o tempo,
Naquele tempo lia Kierkegaard no comboio e passava horas a tentar equilibrar o humor
Na almofada, levava as fodas contadas e depois era tudo um risco que aceitavas também correr,
Tinha mais medo à falência hepática que hoje, apesar de ter mão para tudo, que me fez o tempo,
Tornei-me demasiado amigo dos sofás vazios e dos dias somados aos sonhos rasgados,
Hoje de certeza que não me pagarias um jantar, nem me deixarias adormecer exausto na tua cama,
Sem saberes dizer bem o meu nome, não me chuparias antes do látex, quase desajeitada,
Tu que rejeitaste o senhor arquitecto e deixaste entrar quem te levou uma garrafa de vinho
Do porto, barato, simples, uma cerveja também, em copo de plástico enchendo-se
De pôr-do-sol, tudo fica a brilhar quando se apaga nos olhos, longe, o que me fez o tempo até aqui,
Não sabias que te escrevia, hoje sabes e continuas a não poder ler-me, é pena,
Tantos que me preferem as entrelinhas e os espaços em branco, o tempo que me gastou
E me afastou dos comboios e das cidades antigas, redescobertas na carne exótica,
Será que pensas em mim de vez em quando, e se tivesse ido pelas escadas, teria passado
O tempo como passou, hoje os meus olhos são cansaço, desilusão e uma fome de quem
Comeu sempre demasiado e ficou sem dentes num mundo cada vez mais farto de confusão.
Turku
24/08/2014
João Bosco da Silva
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
The One Who Never Missed A Plane Yet
Os que a tua mãe te
dá, também não fazem nada, vai perguntar ao homem da boquilha
Eterna e dos pequenos-almoços à base de Bloodymarys, quando
o tédio era grande
Até porrada dos Hells Angels servia, “there you stood on the
edge of your feather,
Expecting to fly”, quando o homem tem dois polegares numa
mão e uma loucura
Tão lúcida, torna-se difícil separar o mito do real, tiveste
que engolir a morte
Para te tornares num homem, até lá, foste uma viagem
alucinante, desbravando
Os limites do sonho e da narrativa que é onde esses moram, “just
another freak in a freak
Kingdom”, senhor doutor da tinta e da raiva, dissecaste o
podre com um bisturi
Ferrugento, até chegares à glândula suprarrenal do corpo
hipócrita da sociedade,
Quantos litros de adenocromo e ficção são precisos nos olhos
para se poder engolir
Este mundo de répteis canibais e chulos de brilho e
aparências, “buy the ticket,
Take the ride”, e esquece, no fim da corrida, se tiveres
sorte, serás uma náusea
De Ralph Steadman num dia de pó e bílis, o mundo todo é dos
morcegos, vampiros,
Não se pode parar, condenados alguns, “too weird to live,
too rare to die”,
À necessidade desesperada de procurar o fim do arco-íris, à
violência libertadora
Do despropósito, ao suicídio sem intensão de uma morte
permanente,
Vives nas noites alucinadas em que te revemos, te relemos,
te imitamos,
E tu sentado, no meio de lagartos e outros alienados, quase
acendes o cigarro
De uma loira qualquer enquanto te vês a ti próprio numa
possibilidade quântica,
Naquele espaço vazio dos sonhos, onde se apanha a U.S. Intersate 15.
01/08/2014
Turku
João Bosco da Silva
quarta-feira, 30 de julho de 2014
Estou muito contente hoje, porque hoje não encontrei nem um
amigo, vi um acidente
E não era eu, estou a acabar mas ainda não foi hoje, ainda, as
palavras cansam-se de mim
E eu canso-me delas, estou farto porque não vale a pena,
como nada, os ecos continuam,
O passado continua a dizer-me que sou e ainda existo, mas
cada vez mais sou menos capaz
De ser eu, vou regressando aos poucos à inocência das
primeiras vezes, à ilusão
Consciente da ilusão, à fome dos dias quentes, à sede desses
mesmos dias, onde me afogo
Pelo simples prazer de me desencontrar de mim mesmo e de
todos os que me refletem,
Páginas e páginas para o vazio dos olhos que rejeitam e
aceitam todos os dejetos
Etiquetados, isto não é um cachimbo, é um cagalhão, Sol, o
lago exausto no futuro
E é onde me agarro a estas horas de canos para a comunidade
do digerido, sabes,
Podia ter sido mais se tivessem havido olhos capazes, mas
também escrevo contra
Tudo, escrevo contra todos, espero apenas o esgar dos
enjoados, a traição
Da minha inocência, a dor gratuita nas demasiadas horas
latentes entre o tédio
E o fim do mundo, cada dia, um buraco negro inelutável, onde
anda o Miguel Torga
A estas horas, que distâncias semeei desde os primeiros
passos neste chiqueiro
A que tantos chamam de poesia e tratam vestidos de senhores
e doutores
E impostores, se ao menos ainda houvesse uma Paris
solidária, com homens violentos
Na vida como nas palavras, irmãos das garrafas e das putas,
dos perdidos e dos desesperados,
Juro que me sento e me deixo ser gárgula esquelética ao Sol
dos dias cinzentos,
Não espero mais a não ser a derrota inevitável do meu
tamanho melindrado pelo nome.
Turku
30/07/14
João Bosco da Silva
A poesia é construída com coisas pequenas como a vida e a
vida é feita do que se prende
À memória e trazemos para sermos o que somos, o esquecimento
é morte, a vida é feita
De cheiros, como de uma t-shirt de marca nova, como aquela
azul, a primeira t-shirt de marca
No dia febril do aniversário dos catorze anos, os amigos à
espera, na sala, à volta das
Batatas fritas, do bolo da mãe e do refrigerante espanhol
barato, os amigos de infância,
Hoje, um a um, absorvidos pelo acaso, abraçando cada um
deles como que por obrigação
Do destino o bom e o mau que a vida lhes trouxe, ao lado dos
sonhos e de tudo o que
Se esperava, sabendo-se no fundo, que não se poderia ir mais
longe do que a vida,
Além do que tinha que ser, porque é a vida, a febre a tentar
ser mais forte que a vontade
De brincadeira, mesmo assim, correr, descer e vê-los juntos
por mim, sempre tão pálido
Nos dias felizes, sei que fui a depressão daquele corpo
tatuado pela dor e pela celebração
Da perda, hoje também casada e feliz ou iludida, que é quase
o mesmo, não há alegria
Que seja lúcida, nem felicidade que veja claramente, e a
melhor poesia é aquela que se despe
Da lucidez e é suja como os joelhos de um garoto, dos de
antes, que se sujavam na terra
E tinham as unhas encardidas e passavam as tardes em
palheiros a bater punhetas
E fumar cigarros de papel, sonhando com o ovo Kinder do
próximo fim-de-semana
E um beijo da prima favorita depois do banho semanal e da
camisola nova do foguetão,
Em segunda mão, claro, mas nova e quase do tamanho certo, a
vida, tudo isto e o resto que
Se tenta imortalizar em palavras, esperando o reconhecimento
dos leigos, dos que vivem com
Os olhos para fora e tornam tudo mais real e mais
importante, esvaziando garrafas de vinho
Em Montmartre numa noite de luzes e paredes de cemitério, o
corpo tatuado em celebração
De uma noite engolida pela medusa e todos os medos, o cheiro
de uma t-shirt nova,
De marca, imaginem, de marca, três vezes mais cara que a dos
catorze anos,
Arrumada entre as outras, à espera de um dia qualquer em que
esteja à mão, a vida é poesia,
Também é merda, é feita de coisas pequenas, porque tudo o
resto é insignificante.
Turku
29/07/2014
João Bosco da Silva
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Não Me Chamo
Não me chamo Artur, se me chamasse assim, estava a
atravessar o Canal da Mancha
Com asas de pau a sonhar com tiros na mão e empurrões por
trás, mal vistos
Pela sociedade da aldeia, contudo sonho com o mar dos olhos
frescos e não invejo
A impossibilidade de dois átomos de hidrogénio e o seu
sucesso, chega-se a um ponto
Em que basta cagar ameixas que o deslumbramento dos
fascinados pela imortalidade
Das rugas persistentes, com algum acto de alquimia,
transformam em ovos de ouro,
Sou a inocência desesperada do gajo que troca a vaca pelos
feijões e o sonho,
No final cresce demasiado , torna-se desilusão, proporcional
ao tamanho da ilusão
Fermentada em sonhos acordados à luz do desencantamento de
poemas
Neorrealistas, enquanto vacas velhas endurecem a carne para
a fome dos dentes
Cada vez mais fracos, vence sempre quem nasceu para
humilhar, berços de ouro
Rodeados da felicidade esforçada que é o estrume da vida da
maioria, não me chamo Artur,
Nem acredito que a salvação esteja numa amputação após
pecados alucinados
Por fadas verdes e africanas, o meu nome é o que me dão e
nenhum é o meu, deixo correr
A vida e o cansaço desvia-me do leite amargo, duro, gasto-me
em pragas e outros gafanhotos,
Desisto de mim todos os dias e é tudo o que posso fazer, é
tudo o que tenho,
Essa possibilidade de desistir e persistir na corrosão do
coração pelo sangue ácido e pelo
Esperma venenoso, continuar a pedir mais um dia após a
inutilidade evidente do último,
Deixo isto escrito para os alquimistas da merda, que com as
suas vidas ocupadas
Encontram sentidos que não percebem na agonia dos
moribundos, a caneta é mais fiel
E real que a própria vida e no entanto está sempre afiada e
pronta para um ponto final.
Turku
15.07.2014
João Bosco da Silva
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Hipocampo
Há perfumes como sorrisos, mas os lábios vermelhos não
bastam, nem o afogamento
Dos dedos num desejo sem sal, há viagens que mais valem
ficar na solidão ou em casa
Que é onde geralmente se dão as maiores voltas, é difícil
viver no meio de tanto,
O corpo, os olhos, ainda não se habituaram a grandes
aglomerados de pedra, carne
E hormonas, há cores que ainda não foram traduzidas no
cérebro, vivem encriptadas
No nosso fascínio ignorante, só os cheiros nunca se estranham,
tudo pronto para receber
E atravessar o etmoide a velocidades primitivas, onde se
ilumina a sinceridade básica
Até lá baixo, até à origem do mundo e o fim de tudo, o Sol
revela tanto quanto as sombras,
É tudo uma questão de olhar e inspirar fundo perto da
virilha, tentar decifrar a magia ou
A química possível, destilar do vento o rumor de uma
possibilidade, alguém Lolita,
No meio de uma confusão de monóxido de carbono e náuseas que
ecoam na ruas
De uma tarde esforçada por vida numa facilidade quente de
revelação e carne fresca.
03.07.2014
Turku
João Bosco da Silva
quarta-feira, 9 de julho de 2014
David Cronenberg E Rãs Transmutantes
Foi preciso um sonho para compreender a tua coisa por sapos,
Panero, apesar
De não ter percebido a transpiração irónica do recalcamento,
depois de ter
Assassinado uma chinesa velha num salão de ópio, e sentir
aquela culpa que é medo
E ao mesmo tempo desejo de ser apanhado, ao estilo de Raskolnikov,
se te dissessem
Que doze anos passavam e tu ficavam quase na mesma, esmagado
por tudo o que
Entretanto deixaste para trás e te faz, mesmo que passado,
não foram sapos,
Mas foram rãs, que não são o mesmo, não repugnam todos, tem
algo de erótico
Na silhueta e na forma como estão húmidas, não fosse o
sangue frio,
À beira de um rio que apesar de não o ser, em Portugal, a
erva alta, mas fresca
Como nos Verões nórdicos, e rãs armadas em gatos pretos,
atravessando um caminho
Sem destino, ao lado do rio, o rio sim, o mesmo onde o velho
e o peixe, há doze anos,
Quando te armavas em Bandini de dezoito anos aos dezasseis,
centenas de rãs,
De todos os tamanhos, de pernas bem torneadas em todo o
comprimento no ar,
Cruzando o teu espaço à distância temporal de um passo, um deslumbramento
quântico,
Num entardecer de floresta com o Sol ainda violento entre as
folhas e a promessa
De uma Lua vermelha, ou amarela, as rãs, verdes, amarelas,
verdes e amarelas, azuis,
Vermelhas, todas apetitosas, estranhamente apetitosas e repugnadas
pela
Minha intromissão no meu próprio sonho, cogumelos venenosos
nos olhos,
Já a velha chinesa esquecida, nunca aconteceu, não nesta
linha electroencefalográfica,
Foi um sonho, isto sim, é, o reflexo demasiado distorcido de
um dia abusado pelo excesso
Dos olhos pela carne, ou da carne pelos olhos, numa
clareira, uma exposição de raras rãs,
Enormes, homúnculos em frascos e redomas de vidro, rãs
transmutantes, subitamente
Todas elas brinquedos antigos, a sorrir para um baú de
sonhos partidos e esquecidos
Debaixo de tanta página arrancada à vida, ao ler a descrição
da espécie, lembrei-me
De uma vez ver num Domingo de manhã, depois dos desenhos
animados, uma ave
Que reproduzia todos os sons que ouvia, mesmo os artificiais, uma máquina fotográfica
Por exemplo, fez-se noite e tudo se tornou dentro, num divã,
num quarto pequeno e escuro
Em Moledo, a tornar-se grande à medida que a escuridão
crescia, e o medo, a morte,
A velha chinesa de volta, o medo tão grande, tão pesado
quanto o vazio, asfixiante,
Tem que se acordar para respirar, inspirar fundo o fumo
tóxico da realidade
Para lavar as cirvunvoluções do excesso de serotonina e da
culpa por defeito.
Turku
09.07.2014
João Bosco da Silva
segunda-feira, 23 de junho de 2014
Lembras-te daquela tarde quente, sentado no muro de pedra
entre o lameiro
E o souto, enquanto as vacas pastavam, apanhavas grilos, que
esmagavas um atrás
Do outro, misturando-os, misturando os corpos pequenos numa
massa
Informe de grilo, duas pedras planas, uma maior, uma mais
pequena,
E os grilos entre elas, esmagados, polpa de insecto,
raspavas tudo para cima de outra
Pedra lisa e misturavas aquilo com uma pauzinho e saliva,
saías da sombra, voltavas
Ao lameiro, apanhavas mais uns quantos e continuavas a
chacina,
Distraído da crueldade do mundo, calmo como só as crianças
conseguem
Quando estão no seu mundo, as pedras a bater uma na outra e
menos uma vida,
Tu só querias que todos fossem um, sentias um estranho
sentido erótico
Naquilo, algo que não compreendias, um orgia de polpa,
patas, antenas,
E eras todo calma enquanto as vacas pastavam, também distraídas
De tudo, como sempre, todos nascemos vacas e psicopatas,
alguns encontram
A culpa, afogam-se em moral, perdem-se, outros fecham o
livro que estavam a ler
Porque sentem que um monte de pasta de grilos lhe está para
sair pela boca fora,
Como nas noites em que se come pouco e se bebe demasiado, em
busca
Da serenidade das tardes quentes em muros de granito,
esmagando segundos
Como grilos e vice-versa, fecham o livro e correm para o
papel e vomitam
Tudo, não há inspiração, só urgência, não há imaginação, só
memórias
Misturadas, rasgadas, uma pasta de memórias, memórias de
grilo,
Não te sentes culpado, sentes inveja da liberdade que um
dia,
Da perversidade inocente que trocaste pela maldade forçada da
experiência,
Agora volta para o livro, onde não estás, esconde-te, és um
monstro que cresceu,
Tens a alma amaldiçoada desde que não morreste quando
nasceste fora do teu tempo.
Turku
João Bosco da Silva
sábado, 21 de junho de 2014
Para quê falar quando está tudo dito, o melhor foi vivido e
agora, aos poucos,
Consome-se a sua carcaça com uma desculpa de futuro, a
esperança é a cobardia
Dos nostálgicos, é um medo que chamam de amor, quando já a
paixão se foi,
Quando o desespero é grande, o dedo desconfia, e toma
decisões pela
Fraqueza do cansaço, o chumbo torna-se no infinito ou o
cheiro moribundo
E desconhecido de uma doença alheia torna-se na última fuga
possível,
Tudo se torna claro perto do fim, e as certezas do engano
ofuscam a cegueira
Deixando ver com lucidez os erros cometidos por própria
culpa, os pecados
Consentidos por pouco amor próprio, trocado pelo agradecimento
da infidelidade
Maior, não há pior prisão que a da loucura, ou ser o objecto
de humilhação
De quem se vive mais que o próprio corpo, as madrugadas
plantam a semente
Da solidão no dia por nascer, não vale a pena falar, está
tudo dito, nada ouvido,
Venha o tempo e traga o esquecimento, a única cura, ou a
morte.
Turku
21.06.2014
João Bosco da Silva
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Monólogo Entre Bêbados
Caro mestre, ando há anos a tentar vender barato a minha
confusão,
Ninguém se interessa nestes dias, todos estão certos do que
os leva à felicidade
E continuam a comprar barato guias para finais felizes, em
caixões de pinho
E muitas flores, eu por este lado, continuo a tentar
distinguir entre uma
Indian Pale Ale e uma Californian Pale Ale, não é fácil
depois de um aperitivo
Difícil sem gengibre para
limpar o palato, seja como for, nada vale a pena,
As cidades têm demasiada gente vazia e uma cabana numa aldeia
quase deserta
Leva-nos a uma loucura seca e quase nos afogamos nas
multidões em nós mesmos,
Como em Big Sur, lembras-te, claro que não, o papel não
lembra, apenas relembra
Nos olhos que ainda se inflamam depois de muitos cigarros,
todos procuram
A morte até ela bater à porta, aí todos se cagam e era só a
brincar, alguém devia
Escrever isto numa casa de banho de um bar qualquer, é
nestas horas que somos
Mais lúcidos, na loucura de uma solidão entre felizes, como
é possível, depois de tanto
Horror ao longo da história da humanidade, poder-se dançar
perto da felicidade,
Nem nas pale ale se encontra um alívio, o pior da vida é a
tolerância que se ganha
Para as fugas, cada vez menos se consegue respirar num
momento de liberdade,
E a vida continua, paralelo atrás de paralelo, impedindo
pegadas ou levantamento
De poeiras desnecessárias já que a madrugada apaga tudo das
noites que fomos,
Por isso te digo, já ninguém quer saber da confusão dos
outros, mesmo que, se calhar
Nem me consigo vir, não interessa, querem, ponto final, tudo
o resto é um esquecimento
Fácil a caminho da felicidade que no fim de contas, não
passa de um caixão barato
Depois de uns dias a plantar miséria numa cama de hospital,
a cagar sangue,
A impingir pena a todos os que visitam com ar de enjoados, mas
agora sobre ti,
Diz-me, como é ser feliz, por aí, onde não se está?
Turku
11.06.2014
João Bosco da Silva
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Americana 1
Sabes, a planta está a secar,
Põe-se no lugar do negrilho,
Dizem que estão todos para acabar,
Todos os homens, restam os
Que conseguem conservar o poder
E a vontade de submeter
Ao nojo da sua presença,
Os gatos já nem pó são,
Até a terra se esquece dos ossos.
Pediu-me que lhe ejaculasse
Na boca e depois riu-se da
Possibilidade de ir parar ao inferno.
Americana 2
O pó é tão quente que é quase
Dourado, faz falta chuva, as aldeias na
Caixa-aberta de língua à cão, cheios de
Entusiasmo e vontade de mergulhar,
Seja no que for, enfiando-nos
Nos buracos entre as pedras
Dos muros da imaginação,
Enquanto os rios correm,
Sem pressas de ninguém.
Lambem-me todo o comprimento
Do tesão de adolescente com
Uma vontade inesperada
Para quem humedece poucos púbicos.
Americana 3
No café de uma aldeia, peço uma cerveja
E pergunto onde fica o cemitério novo,
Alguém me diz que devo estar enganado,
Que não é a aldeia que estou a pensar,
Os caçadores atiraram na placa com o nome
À entrada e não se tem memória,
Aqui só esvaziamos copos e corpos,
Eu disse-lhe que estava com sede
De novidade, com um toque
Familiar de estranhos,
Ouço que falam da mulher
De quem não está.
A filha, apesar da canícula,
Abre as nádegas peludas do filho
Do patrão e enterra-lhe a língua
No olho suado.
Americana 4
Custava sempre a adormecer,
Havia urgências e fomes
Inexplicáveis, os sonhos acordavam-se
Em sonhos,
Da janela aberta ouviam-se
Os cães a ladrar e o último
Candeeiro da rua, ao lado do beijo
Roubado ao hálito adolescente
A cebola e a última inocência,
A amizade fica a latejar
Como o rumor do carro solitário
Que corta a estrada vazia.
Sem reparar que lhe manchei
O vestido com esperma, agradece-me
E cada um vai para sua casa
Dormir com as mãos sujas.
Americana 5
Deixou secar o livro na corda da roupa,
Naquela casa velha do Verão,
Se a amizade também fosse
Possível livrar da irreversibilidade,
Mas o carro não contou nada
A ninguém, os sentidos esqueceram-se,
A memória tem mais que fazer,
Mesmo assim nunca perdoa,
O pó nunca deixa de cair,
A gente morrerá sempre e
É sempre uma pena, falar mal é
Dos vivos, que ainda sonham
E são traídos por
Quem não merecem.
Depois de lhe impor o cu,
Suplica-lhe, aos secos tomates,
Que se venha na sua boca.
Americana 6
Ando a precisar de pecar,
A vida não merece morte limpa,
No estrangeiro sou mais bonito,
Há olhos mais claros
E interesses menos gananciosos,
Não se cansam tanto com
O peso das aparências e
A diluição das mentiras
Em ilusões e presentes
Ridículos para encher o saco
Que a culpa faz crescer.
Trocou uma volta no carro
Por um broche com a mesma
Boca que recebe hóstias
E diz amo-te a cornos.
sexta-feira, 6 de junho de 2014
Calças Brancas
Enquanto houver putas
no mundo, o dinheiro terá sempre poder.
Provérbio possível
Os anos luminosos das calças brancas, gloriosos, exagerando
na duração de uma horas
Bem fodidas, diferentes calças, no mesmo Verão do ano da
graça dos inibidores
De recaptação de felicidade, os orgasmos eram demolidos com
vontade de dinamite
E uma boca tão seca que as calças brancas tinham que cuspir
nela para ajudar na
Transferência entre os pares de lábios, o melhor mesmo era ir ao encontro das calças brancas,
Encurtar a distância passo a passo, tornar o calor da carne
próximo e possível, real,
Construir lentamente o seu tamanho verdadeiro, a sua textura
na proximidade dos olhos
Num dia de Sol, sempre prontas a escorrer pelas pernas
abaixo, revelando todos os medos
E segredos óbvios em forma de gemidos e promessas de curta
duração, quando o Sol já
Se punha e se desmontava ou a manhã chamava para as
obrigações inventadas,
Ou lá ia eu e elas ficavam em cima de uma cadeira, ou
esquecidas no chão,
À espera de outro que as libertasse do seu trabalho, o de
inventar vontades,
Tela pronta para ser ejaculada, respeito cuspido com todo o
poder do desprezo,
Certeza de durabilidade negada pela vontade das sombras
interiores nos meses de luz,
Calças brancas e tudo o que revelando, elas escondem e
esconderam, ou fingem esquecer.
Turku
05.06.2014
João Bosco da Silva
terça-feira, 3 de junho de 2014
Another Day In Paradise
Os dias que ficam são os que os poemas prendem e muitos dias
nem merecem ficar,
Há quem grite que está no seu direito de cuspir nos direitos dos outros e lá
No fundo, foi a coisa que não se levantou ou uma saudade da próstata
como se fosse
O tal terceiro tomate, há quem se julgue melhor só por viver
demasiado dentro,
Felizmente, os autocarros levam tudo como a noite e levam
barato, mesmo numa
Cidade de cerveja a dez euros debaixo de um Sol de esguelha
e corvos engravatados,
Esperando por um bater na porta do quarto de hotel depois
das máscaras caírem,
O passado tenta como a incerteza do presente, do futuro já
nada se espera, está sempre
A vir, chega e nunca é futuro nenhum, presente e pouco mais
do mesmo, desconfia-se
Que a felicidade se esconda no olhar de desconhecidos,
talvez se esconda ,
Nos sorrisos anónimos que se confundem com a loucura,
comprimido de manhã
Ou um escorrer viscoso pelas coxas abaixo desde a alegria
ruborizada, a solidão é tão
Grande quando se está rodeado por um enxame barulhento e
confuso, deseja-se
A inocência do cabelo mais claro, deseja-se mesmo a
estupidez dos primeiros pêlos
Da vergonha, o egoísmo cego da idade das certezas, mas
ninguém espera, a vida é
Excessivamente uma e parece acabar cada vez mais rápido, os
primeiros anos
Duravam décadas, agora o Sol põe-se antes de se acordar e
passa-se a noite a sonhar
Com copos vazios e roupa interior alheia pelo chão após uma
penetração superficial,
Perde-se muito por se sonhar tanto e nunca ninguém viajou
sentado se não houverem aviões
A passar ao lado de uma possível companhia, do lado de fora
do tédio, do passeio,
Onde se acumulam passos esquecidos como latas de cerveja
vazias e só o poema
Fica do dia que se tornou possível contra o vazio de todos
os dias que estão por vir.
Turku
02.06.2014
João Bosco da Silva
quinta-feira, 29 de maio de 2014
Naquele Tempo
Naquele tempo os quartos eram ainda mais escuros e os dias
mais vazios,
Mas havia uma força de vontade que rompia a sujidade das
ruas e dos olhos
Que as corrompem, até ao autocarro da meia-noite, havia
tempo para mais
Uma violência consentida, polvilhar o ar pesado da solidão
com o cheiro a sexo e álcool,
Um pouco de fumo dos cigarros fumados na letargia entre a
ejaculação
E um novo tesão, assim eram alguns dia naquele tempo, o ar
tinha outra massa,
Apesar do mesmo, os pulmões como a alma, habituaram-se,
criaram tolerância,
Pode não haver ar pesado o suficiente, um dia, nem o
excessivamente doce
Metálico ar africano, carregado de promessas de extinção e
tempestades evolutivas,
Não será suficiente para se inspirar até às falanges da
alma, já não se trata da inocência,
Já naquele tempo se fossilizava, a religião já se tinha
trocado pelo desengano,
Era aquela capacidade de Caeiro, cada vez a primeira vez,
tudo novamente outra vez,
Com gosto e entusiasmo, mesmo que o Sol químico, um truque
de recaptação inibida
Para afogar o cérebro em felicidade, os orgasmos arrancados
à força de lábios abusados
Mas satisfeitos, não estava habituada, a marca do anel ainda
no dedo, branca, como as
Calças à espera e as cuecas no chão, molhadas com a latência
de uma paixão,
Naquele tempo ainda se aconselhava a evitar as paixões e era
o mais inútil a fazer,
Como tudo o que é sincero, as calotes glaciares estão a
descongelar ao dobro da velocidade
E o mundo pára para ver um famoso nu, enrolado à namorada,
naquele tempo ainda se tinha
Fé na humanidade, o futuro parecia-se com o que se espera do
futuro, amava-se com
Um certo desprezo, agora todos os dias sabem a cinzento e
pouco interessa, seja o que for,
Talvez um eco no quarto fechado ao se passar ao lado, um eco
dentro enquanto se caminha
Em direcção à distância, onde alguém menos quem naquele tempo
tinha ainda um par
De sonhos no bolso, agora é demasiado tarde para o que quer
que seja, a folha de papel está
Irremediavelmente arruinada, mas como é a única, vai-se
escrevinhando, sem cuidado, como
Se toda a vida um papel de rascunho. O futuro não é lado
nenhum, é só estar longe daqui.
João Bosco da Silva
Porto
20.05.2014
Roupa
A Secar
A
farda seca no estendal de parapeito, ela poderá estar em casa,
Ou
numa magra folga, se calhar foi à aldeia ver a mãe que não fala com a avó,
Ou
está em casa só, deitada na cama, imaginando encontros com quem lhe
Tocou
de leve o passado, com um olhar, uma palavra ou outra e pouco mais,
Nada
de promessas, ainda sente o gosto daquelas tardes de início de Verão,
Trancada
até à noite com aquele corpo que parecia nunca se saciar do dela,
Se
calhar é uma daquelas tardes ainda, e ela recebe sedenta o prazer
Que
lhe impingem na carne, diz que nunca teve um orgasmo, mas mesmo assim
Gosta
de foder como se não houvesse amanhã, na rua veste-se de timidez,
Mas o
olhar trai-a sempre, os homens despem-na tantas vezes, se calhar por isso
A
farda no estendal, a secar da saliva, como o esperma na sua pele depois
De
lavar a alma com a certeza da carne, ela sabe que não passa daquilo,
Por
isso abre-lhe os lábios e derrete-se toda, arrisca-se a um futuro comprometido
Apesar
de se fingir sem ilusões, lá no fundo deseja uma concepcão que prenda,
Que a
livre das calcas da farda, mas para isso tem que encontrar algo mais
Estável
que o desejo e o prazer limpo de outros interesses futuros,
Pode
estar à beira rio, no aniversário de alguém, a frisar o cabelo com o suor
Enquanto
apanham morangos do outro lado, ela toda famas e olhos,
No
frigorífico o mínimo para ir enganado a fome, ou entreter entre coitos,
O
mais certo é estar a trabalhar, com a vontade de outro lado, pensando
Em
férias num lugar que imagina da boca dos outros, ou das fotos que lhe
Obrigaram
a engolir, como submissão, deve estar a trabalhar, para acabar
Mais
um dia numa casa alugada, com uma renda que lhe leva metade do salário,
Encerrada
num quarto quase privado, não fossem as discussões constantes
Dos
vizinhos, acentuando mais a sua solidão, mais um dia para menos um dia,
Após
dia, todos os sonhos adiados, quem se perdeu longe, quem se dá
Sempre
ao lado da vontade, vai-se andando, vai-se quase sendo, lavando a farda,
Sujando
a farda, acumulando dias inúteis para nós mesmos, sepultando-nos
Até
nada mais restar, do que roupa esquecida no parapeito de uma janela,
Para
a curiosidade mórbida de quem ignora a cor dos nossos olhos.
28-05-2014
Turku
João
Bosco da Silva
domingo, 18 de maio de 2014
Espasmos Matinais Nas Circunvoluções Após Sesta
Desenham-te como um pintor cansado dos boulevards pinta uma
paisagem bucólica,
Imaginando nas cores a dureza do trabalho e o cansaço dos
dias, a inocência que
Se julga por trás daquela gente, fascina-os a tua clareza
perante a opacidade da vida,
És apenas uma fera
num circo de cidade, uma besta amansada pelas correntes
Do esperado, alimentam-te com ilusões como se alimentam bois
com palácios,
E consomem-te os sonhos na esperança de uma cura para o
envelhecimento
Do convencional, cultivam poetam como se treinassem
papagaios e usam o teu
Passado como um dicionário de memórias, interpretam-se
enquanto dormes
E esperam que a carne te seja limpa, mesmo sabendo que
gostas de chafurdar no
Desespero e na solidão das noites alheias, prometem-te um
pedaço de betão
Em troca do teu olhar e julgam que possuis uma sabedoria
latente, como a dos
Animais, mas sem possibilidade de expressão, ladras à noite
porque te sentes menos
Só nas horas dos cães vadios, não te deixes amansar, não lhe
cedas a violência,
Vive como quem mergulha ignorando a profundidade, não te
deixes pintar
Como um elefante, sê africano, evita as procissões e
procura-te menos onde não estás,
Eles apenas te chuparão até ficares seco, vazio, um
hipócrita deslumbrado pelo
Espelho do tempo em que ainda eras bruto, um animal com
palavras toscas
E puras, não te deixes encontrar, ou acabarás com uma
geometria a olho nu, num
Dedo qualquer, quando a tua perfeição e dureza se encontram
na tua estrutura molecular,
No sumo primeiro, antes de azedar, és o musgo verde e húmido
numa fraga de granito,
Não te deixes apanhar para seres pisado por figurinhas de
presépio lascadas,
Bebe vinho e grita-lhes as verdades que eles querem esconder
nas evidências.
Turku
18-05-2014
João Bosco da Silva
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