sexta-feira, 26 de setembro de 2014
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
Sonhos E Afogamentos
Tenho tanto para dizer, mas atropelam-se as palavras, tu
sabes, como quando
Te quis beijar e quase te engoli toda com os olhos, disseste
que não me dava o suficiente
E tinhas razão, acredito que tinha cara de quem ia acabar
afogado, olhar para ti
E ver-te tão presente era para mim, à distância que separa o
toque, uma apneia,
Houve qualquer coisa que foi morrendo de hipoxia, enfartou,
deixei de poder sentir
Que me afogava quando os olhos mergulhavam com vontade em
alguém,
Talvez porque não voltei a atirar-me assim, ou aprendi a
nadar demasiado bem,
Tão bem que deixei de sentir a água como lugar estranho,
penetro-a por vingança
A mim mesmo, apesar de já não me convidares para uma cerveja
em salões de chá
Na cidade antiga, ainda me surpreendes em sonhos, mas neles
sorrio-te sem aflição,
Beijo-te e sinto apenas o prazer do teu toque, ou o prazer
que o teu toque
Me daria, e simultaneamente, com a mesma naturalidade com
que se sorri ao ver
Uma borboleta no nariz de alguém, enfio-te devagar um dedo e
sinto-te demasiado
Apertada para seres real, significa outra coisa completamente
distinta, é um sonho,
Ou talvez seja como o cachimbo do outro, o que sinto no meu
dedo, ou no que o cérebro
Diz ser o meu dedo, sem o estímulo externo do teu diâmetro
quente, sinto apenas
O prazer de ti, como naquela noite em que levei o teu cheiro
íntimo e no peito
Nada se movia, só fora latejava a vontade que não cheguei a
verter em ti,
Vingança contra mim mesmo, tantas vezes te encontrei em
ninguém, nenhuma
Voltou a ser tu, quase os teus lábios, um dente parecido ao
teu, a cor do cabelo
Quase quando o Sol num certo ângulo, livros, mas diferentes,
nunca a mesma
Dicção afiada e olhar com a profundidade de milénios, mesmo
que me alivies
Nos sonhos a fome da tua presença com uma não autorizada,
julgo que só a boca
E as mãos e a pele toda, sem palavras, poderão dizer tudo de
uma vez
Quando me voltares a ser de carne e cheiro, não me lembro do
teu cheiro nos sonhos,
Nos sonhos sofro de anosmia, mas lembro-me bem dele quando
te senti fora de mim.
20.09.2014
Turku
João Bosco da Silva
sexta-feira, 19 de setembro de 2014
Um Nela Outro No Tapete
“I think sometimes of
all good
ass
turned over to the
monsters of the
world.”
Charles Bukowski, Burning In Water Drowning In Flame
Era a segunda vez que a via, tinha uns dezanove anos e
parecia ainda fascinada
Pela vida na cidade e ainda se sentia livre, tinha vindo ter
ali porque sabia
Que eu lá estava, as mamas pareciam maiores do que realmente
eram, é o importante,
Tinha bebido, eu mais, disse que não podia demorar porque
tinha um amigo
A dormir no tapete em casa dela à espera, então tinha que me
despachar,
Era difícil falar com a música, melhor, haviam mais olhos,
enquanto a olhava
Nos dela ela desvia o olhar para os meu lábios e leva logo
com o que pediu,
Fingiu-se surpreendida, mas confessou ser o que estava à
espera, sim,
Estava a ver que nunca mais, saímos os dois do club até um
beco escuro
E quase escondido, encosto-a a uma caixa de electricidade,
exploro-lhe a pele,
O tamanho real das maminhas até lhe chegar com o dedo ao
grelo, aí
Ela realmente se sente surpreendida, como que se lhe tivesse
ligado
Um interruptor qualquer, fazes isso tão bem, deixo-a a
escorrer, acredito que
Estivesse a ser sincera, meto-lhe a gaita nas mãos que ela
agarra com voracidade,
Bate com força e a um ritmo perfeito, quase me faz vir
contra o seu púbis
Rapado há uns dias, sei que naquele momento alguém deve
estar a pensar
Em mim, ou não, sei que não tem a minha gaita na mão, também
sei que há
Cães em tapetes e outros sem tanta sorte, sinto perto um
gato a saltar
De um caixote do lixo, sinto o cheiro azedo do mesmo
caixote, misturado
Com o aroma da cona pronta para a foda, custa-me a manter o
leite
Longe dela, no hospital ali perto alguém muito verde agoniza
com uma
Barriga colossal cheia de líquido, posso ser eu daqui a uns
anos, foi alguém
Que me morreu na infância e com ela, aproxima a glande dos
lábios
E esfrega-a neles, deixando-a lubrificada e pronta para a
penetração,
Engulo em seco, lembro-me do cheiro a cera nos cemitérios e
de como
É pecado pisar nas campas, então a gente começa a sair do
club,
Quebrando o transe, vamos até aquele adro foder, temos que
foder,
Não podemos ficar assim, apertamos as calças e então os meus
dois amigos
Vêm ter comigo, bêbados, fica com os teus amigos, eu tenho
que ir,
Agora já não ficas só, tenho o meu amigo em casa à espera,
Não insisti, para alguém esperar no tapete, tem que gostar
mesmo
E é triste, acabei a noite de manhã numa padaria a comer pão
fresco
E beber cerveja com os padeiros e os dois amigos, com os
tomates inchados
E tive pena do que a esperou deitado no tapete, que era
amigo,
Espero que não tenha adormecido com fome, eu nunca mais a
vi.
Turku
19.09.2014
João Bosco da Silva
domingo, 14 de setembro de 2014
Ela escreveu-me a dizer que me lia de bikini, ao Sol do fim
da tarde quente da California
Durante as suas férias da capital, disse que fui a companhia
no crepúsculo dourado,
Os seus olhos nas minhas palavras, nos meus pensamentos
solidificados, transferidos
Para dentro daquele corpo salgado e brilhante ao Sol, as
virilhas deliciosas,
Encontrei-a uma vez na apresentação de um livro de poesia, o
seguinte ao que
Ela andava a ler, reconheci-a ao entrar pela foto que me
tinha enviado, sentada
Num bar conhecido, sorriu-me como se me conhecesse melhor do
que muitos
Amigos de carne e anos, durante a apresentação a presença
dela era vibrante,
Sentia-lhe a vontade à distância, e o gosto dos whiskeys que
tinha emborcado
Antes para coragem, tornavam aquela vibração mais forte,
enquanto assinava
Uns livros ela saiu, nem chegou a vir ter comigo, mas sabia
que a ia encontrar,
Acabo de assinar o último livro e de dar o último gole na
cerveja já quente,
Saio para a festa que se seguia àquilo, para amigos e
conhecidos, ela estava lá,
Vem ter comigo, como é que é, pergunto-lhe, ela ri-se como
se aquilo fosse
A melhor frase de engate que tinha ouvido na vida, o resto da
gente parece ter-se
Tornado em barulho de fundo, apenas isso, ela falava com um
entusiasmo
Típico dos vinte e poucos anos, trazia uma saia curta e as
pernas nuas,
Bebemos tanto quanto falamos, até que me dá vontade de
mijar, e lhe digo,
Vamos mijar, saímos os dois até ao jardim, estava vazio,
saquei a gaita fora
E mijei, depois de a sacudir viro-me para ela enquanto a
meto dentro
Para ela a ver, ela esperava encostada à parede, aproximo-me
dela e digo-lhe,
É assim que vai ser não é, é o que queres, enfio-lhe a
língua na garganta
E um dedo na rata, estava molhada, já devia estar à espera
daquilo
Desde os fins de tarde em bikini, provei o sumo dela e
partilhei na sua língua,
Tinha um sabor e um aroma delicioso, salgado e quente, como
a tinha
Imaginado a ler-me ao Sol, desvio-lhe as cuecas para o lado
e tento entrar nela,
Estava demasiado bêbado para a comer de pé, ela ri-se e
diz-me, não pensavas
Que fosse tão alta, de facto era difícil enfiar-lha assim,
deito-a sobre uma mesa
De pedra, ela tira as cuecas e finalmente escorrego para
dentro dela sem dificuldade,
Estás a ser fodida por um poeta, digo-lhe e vejo-lhe os
dentes a brilhar ao luar,
Tinha uma cona insaciável que me fez vir apesar da
bebedeira, contudo, antes
Pergunto-lhe, posso-me vir, ela entre suspiros pede-me que o
faça e descarrego
Tudo em cima da mesa entre as pernas dela, salpicando-lhe as
nádegas
E as coxas, ela sem se limpar, veste as cuecas e regressamos
para a festa
Como se tivéssemos ido apenas apanhar ar fresco, tantos anos
a escrever
Poesia em quartos bafientos, entre uma solidão esmagadora, tantos
anos
Em multidões e sem uma cara, todas aquelas noites de tesão
seco à janela
A ver as putas a ir para o trabalho, tudo teve que fermentar
para agora
Se poder beber o sumo quente que escorre dos lábios tocados
pelos
Meus versos, penso que depois daquela noite, nunca me voltou
a ler,
Tinha provado o último poema, o poema mais sincero e real,
tinha comido o poeta.
14.09.2014
Turku
João Bosco da Silva
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
Bonecas Em Segunda Mão
Aos montes, umas completamente nuas, com as nádegas bem
firmes a brilhar
Sob a luz artificial, outras com uma bota só, algumas quase
vestidas, nenhuma
Com roupa interior, amontoadas umas em cima das outras como
se numa vala comum,
Ridiculamente baratas, a mais pequenina dez cêntimos, ainda
mentem o sorriso
Que lhe desenharam há anos, em tempos foram o brinquedo
favorito de alguém,
Em tempos tinham uma almofada só para elas, algumas
tiveram-na durante
Anos, outros provavelmente menos de uma semana, até que veio
outra nova
E lhes roubou o lugar e o amor, agora esquecidas à espera de
outras mãos,
Ou o lixo, as donas de algumas também já devem ter sido as
bonecas favoritas
De alguém, alguém que as despiu e também as deixou assim,
com as nádegas
A brilhar, a diferença é que a firmeza destas se perde e
também perdem
A facilidade das almofadas alheias, há as que continuam a
ser favoritas,
Mas não são brinquedos de ninguém, são amadas, são mães,
ninguém as esquece,
Não têm preço, mas não deixa de haver as que esperam quem as
leve
Para casa, por um preço simbólico, resignadas, usadas, em
tempos bonecas com quem
Todos queriam brincar, cobiçadas, sonhos quebrados que se diluíram na
carne.
12.09.2014
Turku
João Bosco da Silva
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
Intersecionismo Com Esperma
“It´s okay, girl, we´ll
make it
Till the sun goes down forever
And untill then what you got
To lose
But losing? We´re fallen
Angels
Who didn´t believe
That nothing means nothing”
Jack Kerouac, Book Of Blues
Numa rua estreita e escura, encostando-a contra a igreja,
num equilíbrio entre
As cuecas para o lado e o vestido levantado o suficiente
para lhe encontrar
A rata humedecida com a vontade e dedos molhados num hálito
de cerveja,
Enquanto tento encontrar-me dentro dela, impingindo-lhe a
minha carne
Em pontas dos pés, ela meditando com a testa contra a parede
sagrada,
Revejo aquela missa do galo em que Alberto Soares ficou
fora, sinto uma revelação
Menos filosófica, mas uma iluminação maior, apesar do local
não ser o melhor
Para grandes reflexões carnais, entro num templo mais
sagrado e real,
Por ser difícil manter um ritmo meditativo capaz de levar
pelo menos um
De nós à aparição, vamos até ao limite da luz eléctrica e
depois de se ter
Ajoelhado no pó em oração, despertando-me de novo para a
possessão,
Tira as cuecas, deito-a sobre uma fraga de granito com a
força de Anteu,
O musgo seco pela canícula das tardes longas e os cristais
de quartzo
Rasgam-me as mãos sob as sua nádegas, e ali fodemos como numa
celebração
Pagã, numa união mística e inocente, ali mesmo apetece-me
escrever um poema
Ao Miguel Torga, fodendo sobre uma fraga de granito, olho
ambos os genitais
À luz da Lua, o meu engolido pelo dela, brilham e
confunde-se nos aromas
Da noite de Verão, não existe qualquer tensão, pertencemos
assim no momento,
A harmonia possível de um ritmo ébrio até à ejaculação, saio
dela e verto
Sobre a fraga entre as suas pernas o esperma quente e
fermentado
Pelo sagrado e o pagão, esperma puro de pecado e liberdade
brindado com
Sorrisos inocentes e últimos beijos sem o peso da despedida
até nunca.
11.09.2014
Turku
João Bosco da Silva
terça-feira, 9 de setembro de 2014
A Origem Do Mundo
Não foi bem o México a imagem que vi, quando o Jack escreve
sobre a cabana de madeira
“Coberta de colmo que se suspendia por cima do precipício do
mundo”, a minha experiência
Criou a imagem do Great Rift Valley e das cabanas à beira da
estrada, em equilíbrio sobre
Estacas de madeira, na encosta do vale, o vale que pariu a
humanidade, a origem do mundo,
Onde me senti um chato num grande lábio do quadro de
Courbet, e a humanidade
Estava ali bem representada naquelas cabanas, naquele
equilíbrio frágil, sobre o abismo
Que a pariu, aquela paisagem assenta-nos os pés na terra,
dá-nos bem a noção do nosso
Tamanho real, no fim de contas, por muito betão que seja
erguido, somos uma cabana tosca
Entre uma estrada e um abismo, uma cabana pintada de
vermelho com Coca-Cola escrito
Numa parede na língua de Babel, no México como no Quénia, a
origem do mundo,
Naquela cabana, “que alias não tinha traseiras, mas só uma
ravina”, vi toda a humanidade.
09.09.2014
Turku
João Bosco da Silva
domingo, 7 de setembro de 2014
Ordinary Madness
“It is a great feeling
to know
That from a window
I can go to books to cans of beer to past loves.
And from these gather
enough dream
to sneak out a back
door.”
Gregory Corso, in The Vestal Lady On Brattle
Será que o consegues imaginar, cansado, envelhecido por mais
um dia a fazer
O mesmo de sempre, a mão a pousar o molho de chaves em cima
da mesa
Onde está um livro que tenta ler, há muito tempo, mas hoje
não que está cansado,
Hoje prefere mergulhar no sofá e deixar-se levar pela
latência hipnótica das imagens
Projectadas por uma cadeia de lavagens cerebrais e
lobotomias, apaga a luz para
A casa parecer menos vazia, há sempre mais possibilidades na
escuridão,
Pelo menos a ilusão tem mais espaço, consegues imaginá-lo a
dormir
Com o braço tombado, mão no chão onde jazem latas vazias de
cerveja,
A cara camaleónica a mudar de cor conforme o que tentam
vender nas televendas,
A boca aberta, a ressonar de barriga para o paraíso, tenta
também imaginar-lhe
Os sonhos, três mulheres deliciosas, nuas, com pedaços de
relva nos joelhos,
A pedir presença lá dentro, a solidão é do tamanho do
apetite e os dias
Dão-lhe tão pouco, imagina o que fazem os quatro, a confusão
de corpos
Num corpo adormecido e só, até que um despertador de metal o
acorda,
Imaginas claro, que pragueja, com o cabelo lambido por todos
os cordeiros do sono
E todas as cabras da vida, os olhos remelosos e o hálito
felizmente sem testemunhas,
Mas podes imaginá-lo no nascimento mágico de mais um dia, um
dia que decerto
Imaginas completamente diferente do teu, ele levanta-se do
sofá, faz café,
Conheces bem o sabor do café, mas a tua boca não é a dele,
os teus dias não são
Os dele e contudo achas que o conheces tão bem, imagina o
espelho a olhar-te
Nos olhos, o que pensará de ti, será que também o consegue
imaginar
A meter a chave na porta e sair, acabaste de passar por ele
na rua,
Será que deste conta que olhou para ti e não te viu.
06.09.2014
Turku
João Bosco da Silva
A Rússia arrefece o mundo e a Europa treme, sente-se a
atmosfera carregada como
Antes de uma tempestade, mas não se quer acreditar muito
nisso, recordam-se
As aulas de história e todos os posteriores bombardeamentos
de guerras passadas
E quase guerras, dizem que o fuinha russo ameaçou o que
ladra, rosnam sanções,
Depois há um criminoso abençoado que divulga os segredos de
uma cambada de
Actrizes, cantoras e modelos, registos dos seus momentos
mais doces, cobertas de chantili,
Com o dedo na tarte, cavalgando todos os crepúsculos
tropicais, escorrendo caramelo
E sumo de maracujá pelos poros das mamas e das nádegas,
obras de deus e do homem,
Que belo Sol neste fim de Verão, o Inverno parece
impossível, o mundo é salvo
Por instantes, ainda existe esperança na humanidade, a carne
pede sonho,
Sacode o medo e tudo se esquece com uma mão no queixo e
outra no deslumbramento.
Turku
João Bosco da Silva
03.09.2014
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
Dentada Numa Noite Perdida
«”It´s okay, girl, we´ll
make it
Till the sun goes down forever
And until then what you got
to lose
But losing? We´re fallen
angels
who didn´t believe
That nothing means nothing.”»
Jack Keroauc, Book of Blues
Podia voltar, enganar a fome a que chamam saudade, aquela
fome do que se comeu,
Do perdido, do que digerimos de forma irreversível e faz
parte de nós, podia voltar,
Mas nunca seria a mesma coisa, eu não teria os mesmos olhos,
a minha língua tomou calo
Com os anos, os meus dedos só sentem na profundidade e mesmo
aí, duvidam se vale
Realmente a pena, podia voltar, mas tu não serias tu e mesmo
que fosses, eu não seria eu,
Ainda que aquela rua exactamente igual, à mesma hora de outro
dia, de outro ano,
Nunca seria tão intenso e real como a memória que ficou dos
teus dentes a rasgar a carne
Da noite e do meu lábio inferior, querias-me levar dentro,
engolir-me, tornar-me saudade,
Teu, hoje somos apenas nós, eu, tu, nunca aqueles que fomos,
esses vivem ao lado do sonho,
O taxista que me levou a casa ainda deve andar farto de
fazer o mesmo, a queixar-se que está
Tudo cada vez pior, deve ter as suas razões, eu digo que
está cada vez tudo a tornar-se nada,
Constantemente e a nossa maldição é trazer o saco de carne
cheio de fantasmas, tão reais
Como a dor que se sente, aquela dor de ausência, uns
chamam-lhe saudade, eu nem sei
Ao certo em que rua foi, nem qual era a cor do táxi, nem se
o taxista tinha bigode,
Mas ainda consigo sentir o teu sabor, a textura da tua
língua e a dor latejante que levei.
03/09/2014
Turku
João Bosco da Silva
segunda-feira, 1 de setembro de 2014
Satori No Aeroporto
Bebi duas cervejas em menos de vinte minutos, em jejum,
espero o embarque,
Bebi porque estava atormentado pela carne e pela
possibilidade, sempre,
De festins nas casas de banho, afogado em olhares, lembro-me
de Céline,
E espero, tento escrever algo, mas a caneta também não tem
coragem, falta a tinta,
Escoa-se com os anos, dizem que ainda têm que limpar o
avião, vinha de Hong Kong,
A violência dos beijos russos ao lado, a promessa de garotos
na lata de sardinhas civilizadas,
Céline, que sossego deve ser a morte, sem os sorrisos
estúpidos de quem está só,
E pede caralho, cu, ou cona, sem o bafo pestilento de quem
insiste em gorgolejar
Um idioma frio, sem fome e sem vontade, tornaste-te num
mestre zen e essa sim,
Foi uma viagem, era capaz de morder alguém, dar-me corpo e
mais olhos, mas não,
Levanto-me fodido com a caneta, ela o mundo todo, vou à casa
de banho,
Retraio o prepúcio ao máximo e mijo, mijo contra um pedaço
de merda agarrado
À sanita, mijo contra o mundo, até a sanita ficar limpa, por
fim, algo imaculado.
Helsinki
07/08/2014
João Bosco da Silva
Viagem Antes De Partir
Devia escrever algo porque não há mais nada, é por isso que
se escreve na solidão e na merda,
Quando o mundo faz tudo menos ser infeliz e só, entre o
barulho que se encontra no silêncio
Absoluto da invisibilidade, não há nada mais a fazer,
espera-se um milagre que se sabe
Impossível, mesmo assim, escreve-se, porque o milagre é
esse, não esperar nada, acreditando
Que ainda é possível ser além do silêncio, um silêncio cheio
da vida dos outros, como ler
Um livro em silêncio cheio de si mesmo, a morte chega sempre
e ninguém a toma como
Libertadora, é isto e é triste como a vida.
João Bosco da Silva
18/07/2014
Turku
segunda-feira, 25 de agosto de 2014
Reminiscências Circadianas
Lembras-te do rio no crepúsculo lento daquela cidade antiga, quando passo perto dele
Nunca sou o que conheces, também esse ficou algures entre as portas do elevador,
Que se fechou atrás de mim e encerrou até o para sempre de hoje, o teu cheiro misturado
Com aquele perfume, que tantas vezes encontrei depois, nunca exactamente o mesmo
Ao Sol, será que hoje me pagavas o jantar antes de me encerrares contigo numas águas
Furtadas com vista para o castelo, ou darias pelos anos no meu cabelo, o que me fez o tempo,
Naquele tempo lia Kierkegaard no comboio e passava horas a tentar equilibrar o humor
Na almofada, levava as fodas contadas e depois era tudo um risco que aceitavas também correr,
Tinha mais medo à falência hepática que hoje, apesar de ter mão para tudo, que me fez o tempo,
Tornei-me demasiado amigo dos sofás vazios e dos dias somados aos sonhos rasgados,
Hoje de certeza que não me pagarias um jantar, nem me deixarias adormecer exausto na tua cama,
Sem saberes dizer bem o meu nome, não me chuparias antes do látex, quase desajeitada,
Tu que rejeitaste o senhor arquitecto e deixaste entrar quem te levou uma garrafa de vinho
Do porto, barato, simples, uma cerveja também, em copo de plástico enchendo-se
De pôr-do-sol, tudo fica a brilhar quando se apaga nos olhos, longe, o que me fez o tempo até aqui,
Não sabias que te escrevia, hoje sabes e continuas a não poder ler-me, é pena,
Tantos que me preferem as entrelinhas e os espaços em branco, o tempo que me gastou
E me afastou dos comboios e das cidades antigas, redescobertas na carne exótica,
Será que pensas em mim de vez em quando, e se tivesse ido pelas escadas, teria passado
O tempo como passou, hoje os meus olhos são cansaço, desilusão e uma fome de quem
Comeu sempre demasiado e ficou sem dentes num mundo cada vez mais farto de confusão.
Turku
24/08/2014
João Bosco da Silva
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
The One Who Never Missed A Plane Yet
Os que a tua mãe te
dá, também não fazem nada, vai perguntar ao homem da boquilha
Eterna e dos pequenos-almoços à base de Bloodymarys, quando
o tédio era grande
Até porrada dos Hells Angels servia, “there you stood on the
edge of your feather,
Expecting to fly”, quando o homem tem dois polegares numa
mão e uma loucura
Tão lúcida, torna-se difícil separar o mito do real, tiveste
que engolir a morte
Para te tornares num homem, até lá, foste uma viagem
alucinante, desbravando
Os limites do sonho e da narrativa que é onde esses moram, “just
another freak in a freak
Kingdom”, senhor doutor da tinta e da raiva, dissecaste o
podre com um bisturi
Ferrugento, até chegares à glândula suprarrenal do corpo
hipócrita da sociedade,
Quantos litros de adenocromo e ficção são precisos nos olhos
para se poder engolir
Este mundo de répteis canibais e chulos de brilho e
aparências, “buy the ticket,
Take the ride”, e esquece, no fim da corrida, se tiveres
sorte, serás uma náusea
De Ralph Steadman num dia de pó e bílis, o mundo todo é dos
morcegos, vampiros,
Não se pode parar, condenados alguns, “too weird to live,
too rare to die”,
À necessidade desesperada de procurar o fim do arco-íris, à
violência libertadora
Do despropósito, ao suicídio sem intensão de uma morte
permanente,
Vives nas noites alucinadas em que te revemos, te relemos,
te imitamos,
E tu sentado, no meio de lagartos e outros alienados, quase
acendes o cigarro
De uma loira qualquer enquanto te vês a ti próprio numa
possibilidade quântica,
Naquele espaço vazio dos sonhos, onde se apanha a U.S. Intersate 15.
01/08/2014
Turku
João Bosco da Silva
quarta-feira, 30 de julho de 2014
Estou muito contente hoje, porque hoje não encontrei nem um
amigo, vi um acidente
E não era eu, estou a acabar mas ainda não foi hoje, ainda, as
palavras cansam-se de mim
E eu canso-me delas, estou farto porque não vale a pena,
como nada, os ecos continuam,
O passado continua a dizer-me que sou e ainda existo, mas
cada vez mais sou menos capaz
De ser eu, vou regressando aos poucos à inocência das
primeiras vezes, à ilusão
Consciente da ilusão, à fome dos dias quentes, à sede desses
mesmos dias, onde me afogo
Pelo simples prazer de me desencontrar de mim mesmo e de
todos os que me refletem,
Páginas e páginas para o vazio dos olhos que rejeitam e
aceitam todos os dejetos
Etiquetados, isto não é um cachimbo, é um cagalhão, Sol, o
lago exausto no futuro
E é onde me agarro a estas horas de canos para a comunidade
do digerido, sabes,
Podia ter sido mais se tivessem havido olhos capazes, mas
também escrevo contra
Tudo, escrevo contra todos, espero apenas o esgar dos
enjoados, a traição
Da minha inocência, a dor gratuita nas demasiadas horas
latentes entre o tédio
E o fim do mundo, cada dia, um buraco negro inelutável, onde
anda o Miguel Torga
A estas horas, que distâncias semeei desde os primeiros
passos neste chiqueiro
A que tantos chamam de poesia e tratam vestidos de senhores
e doutores
E impostores, se ao menos ainda houvesse uma Paris
solidária, com homens violentos
Na vida como nas palavras, irmãos das garrafas e das putas,
dos perdidos e dos desesperados,
Juro que me sento e me deixo ser gárgula esquelética ao Sol
dos dias cinzentos,
Não espero mais a não ser a derrota inevitável do meu
tamanho melindrado pelo nome.
Turku
30/07/14
João Bosco da Silva
A poesia é construída com coisas pequenas como a vida e a
vida é feita do que se prende
À memória e trazemos para sermos o que somos, o esquecimento
é morte, a vida é feita
De cheiros, como de uma t-shirt de marca nova, como aquela
azul, a primeira t-shirt de marca
No dia febril do aniversário dos catorze anos, os amigos à
espera, na sala, à volta das
Batatas fritas, do bolo da mãe e do refrigerante espanhol
barato, os amigos de infância,
Hoje, um a um, absorvidos pelo acaso, abraçando cada um
deles como que por obrigação
Do destino o bom e o mau que a vida lhes trouxe, ao lado dos
sonhos e de tudo o que
Se esperava, sabendo-se no fundo, que não se poderia ir mais
longe do que a vida,
Além do que tinha que ser, porque é a vida, a febre a tentar
ser mais forte que a vontade
De brincadeira, mesmo assim, correr, descer e vê-los juntos
por mim, sempre tão pálido
Nos dias felizes, sei que fui a depressão daquele corpo
tatuado pela dor e pela celebração
Da perda, hoje também casada e feliz ou iludida, que é quase
o mesmo, não há alegria
Que seja lúcida, nem felicidade que veja claramente, e a
melhor poesia é aquela que se despe
Da lucidez e é suja como os joelhos de um garoto, dos de
antes, que se sujavam na terra
E tinham as unhas encardidas e passavam as tardes em
palheiros a bater punhetas
E fumar cigarros de papel, sonhando com o ovo Kinder do
próximo fim-de-semana
E um beijo da prima favorita depois do banho semanal e da
camisola nova do foguetão,
Em segunda mão, claro, mas nova e quase do tamanho certo, a
vida, tudo isto e o resto que
Se tenta imortalizar em palavras, esperando o reconhecimento
dos leigos, dos que vivem com
Os olhos para fora e tornam tudo mais real e mais
importante, esvaziando garrafas de vinho
Em Montmartre numa noite de luzes e paredes de cemitério, o
corpo tatuado em celebração
De uma noite engolida pela medusa e todos os medos, o cheiro
de uma t-shirt nova,
De marca, imaginem, de marca, três vezes mais cara que a dos
catorze anos,
Arrumada entre as outras, à espera de um dia qualquer em que
esteja à mão, a vida é poesia,
Também é merda, é feita de coisas pequenas, porque tudo o
resto é insignificante.
Turku
29/07/2014
João Bosco da Silva
segunda-feira, 21 de julho de 2014
Não Me Chamo
Não me chamo Artur, se me chamasse assim, estava a
atravessar o Canal da Mancha
Com asas de pau a sonhar com tiros na mão e empurrões por
trás, mal vistos
Pela sociedade da aldeia, contudo sonho com o mar dos olhos
frescos e não invejo
A impossibilidade de dois átomos de hidrogénio e o seu
sucesso, chega-se a um ponto
Em que basta cagar ameixas que o deslumbramento dos
fascinados pela imortalidade
Das rugas persistentes, com algum acto de alquimia,
transformam em ovos de ouro,
Sou a inocência desesperada do gajo que troca a vaca pelos
feijões e o sonho,
No final cresce demasiado , torna-se desilusão, proporcional
ao tamanho da ilusão
Fermentada em sonhos acordados à luz do desencantamento de
poemas
Neorrealistas, enquanto vacas velhas endurecem a carne para
a fome dos dentes
Cada vez mais fracos, vence sempre quem nasceu para
humilhar, berços de ouro
Rodeados da felicidade esforçada que é o estrume da vida da
maioria, não me chamo Artur,
Nem acredito que a salvação esteja numa amputação após
pecados alucinados
Por fadas verdes e africanas, o meu nome é o que me dão e
nenhum é o meu, deixo correr
A vida e o cansaço desvia-me do leite amargo, duro, gasto-me
em pragas e outros gafanhotos,
Desisto de mim todos os dias e é tudo o que posso fazer, é
tudo o que tenho,
Essa possibilidade de desistir e persistir na corrosão do
coração pelo sangue ácido e pelo
Esperma venenoso, continuar a pedir mais um dia após a
inutilidade evidente do último,
Deixo isto escrito para os alquimistas da merda, que com as
suas vidas ocupadas
Encontram sentidos que não percebem na agonia dos
moribundos, a caneta é mais fiel
E real que a própria vida e no entanto está sempre afiada e
pronta para um ponto final.
Turku
15.07.2014
João Bosco da Silva
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Hipocampo
Há perfumes como sorrisos, mas os lábios vermelhos não
bastam, nem o afogamento
Dos dedos num desejo sem sal, há viagens que mais valem
ficar na solidão ou em casa
Que é onde geralmente se dão as maiores voltas, é difícil
viver no meio de tanto,
O corpo, os olhos, ainda não se habituaram a grandes
aglomerados de pedra, carne
E hormonas, há cores que ainda não foram traduzidas no
cérebro, vivem encriptadas
No nosso fascínio ignorante, só os cheiros nunca se estranham,
tudo pronto para receber
E atravessar o etmoide a velocidades primitivas, onde se
ilumina a sinceridade básica
Até lá baixo, até à origem do mundo e o fim de tudo, o Sol
revela tanto quanto as sombras,
É tudo uma questão de olhar e inspirar fundo perto da
virilha, tentar decifrar a magia ou
A química possível, destilar do vento o rumor de uma
possibilidade, alguém Lolita,
No meio de uma confusão de monóxido de carbono e náuseas que
ecoam na ruas
De uma tarde esforçada por vida numa facilidade quente de
revelação e carne fresca.
03.07.2014
Turku
João Bosco da Silva
quarta-feira, 9 de julho de 2014
David Cronenberg E Rãs Transmutantes
Foi preciso um sonho para compreender a tua coisa por sapos,
Panero, apesar
De não ter percebido a transpiração irónica do recalcamento,
depois de ter
Assassinado uma chinesa velha num salão de ópio, e sentir
aquela culpa que é medo
E ao mesmo tempo desejo de ser apanhado, ao estilo de Raskolnikov,
se te dissessem
Que doze anos passavam e tu ficavam quase na mesma, esmagado
por tudo o que
Entretanto deixaste para trás e te faz, mesmo que passado,
não foram sapos,
Mas foram rãs, que não são o mesmo, não repugnam todos, tem
algo de erótico
Na silhueta e na forma como estão húmidas, não fosse o
sangue frio,
À beira de um rio que apesar de não o ser, em Portugal, a
erva alta, mas fresca
Como nos Verões nórdicos, e rãs armadas em gatos pretos,
atravessando um caminho
Sem destino, ao lado do rio, o rio sim, o mesmo onde o velho
e o peixe, há doze anos,
Quando te armavas em Bandini de dezoito anos aos dezasseis,
centenas de rãs,
De todos os tamanhos, de pernas bem torneadas em todo o
comprimento no ar,
Cruzando o teu espaço à distância temporal de um passo, um deslumbramento
quântico,
Num entardecer de floresta com o Sol ainda violento entre as
folhas e a promessa
De uma Lua vermelha, ou amarela, as rãs, verdes, amarelas,
verdes e amarelas, azuis,
Vermelhas, todas apetitosas, estranhamente apetitosas e repugnadas
pela
Minha intromissão no meu próprio sonho, cogumelos venenosos
nos olhos,
Já a velha chinesa esquecida, nunca aconteceu, não nesta
linha electroencefalográfica,
Foi um sonho, isto sim, é, o reflexo demasiado distorcido de
um dia abusado pelo excesso
Dos olhos pela carne, ou da carne pelos olhos, numa
clareira, uma exposição de raras rãs,
Enormes, homúnculos em frascos e redomas de vidro, rãs
transmutantes, subitamente
Todas elas brinquedos antigos, a sorrir para um baú de
sonhos partidos e esquecidos
Debaixo de tanta página arrancada à vida, ao ler a descrição
da espécie, lembrei-me
De uma vez ver num Domingo de manhã, depois dos desenhos
animados, uma ave
Que reproduzia todos os sons que ouvia, mesmo os artificiais, uma máquina fotográfica
Por exemplo, fez-se noite e tudo se tornou dentro, num divã,
num quarto pequeno e escuro
Em Moledo, a tornar-se grande à medida que a escuridão
crescia, e o medo, a morte,
A velha chinesa de volta, o medo tão grande, tão pesado
quanto o vazio, asfixiante,
Tem que se acordar para respirar, inspirar fundo o fumo
tóxico da realidade
Para lavar as cirvunvoluções do excesso de serotonina e da
culpa por defeito.
Turku
09.07.2014
João Bosco da Silva
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