segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Burro De Big Sur

“One fast move or I´m gone”, encerrado num Sol de meia-noite eléctrico e uns copos de
Auchentoshan, da terra dos que recusaram a independência depois do actor católico
Ser eviscerado em público, não quero chegar a lado nenhum, não quero encontrar sentido,
Não quero ir além disto, quero apenas ser real e simples e tocar como a solidão,
Quero imortalizar um momento banal, tão precioso e único como qualquer outro,
Quero tornar um burro numa personagem imortal só porque tocou a minha
Existência, pena não ter poder para tornar a morte dos meus em algo histórico,
Custa-me que a morte de um burro seja mais celebrada, acreditem, eles beberam mais
E eu agora tento escrever por eles, tiveram burros, pertenceram-lhes, provavelmente
Comprados em feiras aos ciganos e agora vivem, ou ecoam, em mim, e em sete ou quinze
Que poucas mais décadas durarão, somos umas décadas, décadas, depois fica o que for
Lido, não o que for escrito, há demasiados em mansardas cheios de sonhos, não haveria
Espaço nas bibliotecas nem no mundo para todos os sonhos do mundo de cada um,
Mesmo assim cheira tanto a estrume numa biblioteca quanto numa terra fertilizada
Pelo estrume de equinos, a diferença está apenas na fertilidade, nas livrarias sem alma
O cheiro é diferente, é mais a estrume de suínos, a garrafa desce e eu continuo
No delírio rasgado a preto no branco, acreditando que ainda há possibilidade de um eco
Depois de me calar por obrigação orgânica, agora, puxo a rolha de cortiça da garrafa
De whiskey, verto no copo um pouco mais de lucidez e vou ter com o Jack à desolação
Do Big Sur num extremo igualmente cheio de solidão e outros vazios libertadores.

25.09.2014

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Sonhos E Afogamentos

Tenho tanto para dizer, mas atropelam-se as palavras, tu sabes, como quando
Te quis beijar e quase te engoli toda com os olhos, disseste que não me dava o suficiente
E tinhas razão, acredito que tinha cara de quem ia acabar afogado, olhar para ti
E ver-te tão presente era para mim, à distância que separa o toque, uma apneia,
Houve qualquer coisa que foi morrendo de hipoxia, enfartou, deixei de poder sentir
Que me afogava quando os olhos mergulhavam com vontade em alguém,
Talvez porque não voltei a atirar-me assim, ou aprendi a nadar demasiado bem,
Tão bem que deixei de sentir a água como lugar estranho, penetro-a por vingança
A mim mesmo, apesar de já não me convidares para uma cerveja em salões de chá
Na cidade antiga, ainda me surpreendes em sonhos, mas neles sorrio-te sem aflição,
Beijo-te e sinto apenas o prazer do teu toque, ou o prazer que o teu toque
Me daria, e simultaneamente, com a mesma naturalidade com que se sorri ao ver
Uma borboleta no nariz de alguém, enfio-te devagar um dedo e sinto-te demasiado
Apertada para seres real, significa outra coisa completamente distinta, é um sonho,
Ou talvez seja como o cachimbo do outro, o que sinto no meu dedo, ou no que o cérebro
Diz ser o meu dedo, sem o estímulo externo do teu diâmetro quente, sinto apenas
O prazer de ti, como naquela noite em que levei o teu cheiro íntimo e no peito
Nada se movia, só fora latejava a vontade que não cheguei a verter em ti,
Vingança contra mim mesmo, tantas vezes te encontrei em ninguém, nenhuma
Voltou a ser tu, quase os teus lábios, um dente parecido ao teu, a cor do cabelo
Quase quando o Sol num certo ângulo, livros, mas diferentes, nunca a mesma
Dicção afiada e olhar com a profundidade de milénios, mesmo que me alivies
Nos sonhos a fome da tua presença com uma não autorizada, julgo que só a boca
E as mãos e a pele toda, sem palavras, poderão dizer tudo de uma vez
Quando me voltares a ser de carne e cheiro, não me lembro do teu cheiro nos sonhos,
Nos sonhos sofro de anosmia, mas lembro-me bem dele quando te senti fora de mim.

20.09.2014

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Um Nela Outro No Tapete

“I think sometimes of all good
ass
turned over to the
monsters of the
world.”

Charles Bukowski, Burning In Water Drowning In Flame


Era a segunda vez que a via, tinha uns dezanove anos e parecia ainda fascinada
Pela vida na cidade e ainda se sentia livre, tinha vindo ter ali porque sabia
Que eu lá estava, as mamas pareciam maiores do que realmente eram, é o importante,
Tinha bebido, eu mais, disse que não podia demorar porque tinha um amigo
A dormir no tapete em casa dela à espera, então tinha que me despachar,
Era difícil falar com a música, melhor, haviam mais olhos, enquanto a olhava
Nos dela ela desvia o olhar para os meu lábios e leva logo com o que pediu,
Fingiu-se surpreendida, mas confessou ser o que estava à espera, sim,
Estava a ver que nunca mais, saímos os dois do club até um beco escuro
E quase escondido, encosto-a a uma caixa de electricidade, exploro-lhe a pele,
O tamanho real das maminhas até lhe chegar com o dedo ao grelo, aí
Ela realmente se sente surpreendida, como que se lhe tivesse ligado
Um interruptor qualquer, fazes isso tão bem, deixo-a a escorrer, acredito que
Estivesse a ser sincera, meto-lhe a gaita nas mãos que ela agarra com voracidade,
Bate com força e a um ritmo perfeito, quase me faz vir contra o seu púbis
Rapado há uns dias, sei que naquele momento alguém deve estar a pensar
Em mim, ou não, sei que não tem a minha gaita na mão, também sei que há
Cães em tapetes e outros sem tanta sorte, sinto perto um gato a saltar
De um caixote do lixo, sinto o cheiro azedo do mesmo caixote, misturado
Com o aroma da cona pronta para a foda, custa-me a manter o leite
Longe dela, no hospital ali perto alguém muito verde agoniza com uma
Barriga colossal cheia de líquido, posso ser eu daqui a uns anos, foi alguém
Que me morreu na infância e com ela, aproxima a glande dos lábios
E esfrega-a neles, deixando-a lubrificada e pronta para a penetração,
Engulo em seco, lembro-me do cheiro a cera nos cemitérios e de como
É pecado pisar nas campas, então a gente começa a sair do club,
Quebrando o transe, vamos até aquele adro foder, temos que foder,
Não podemos ficar assim, apertamos as calças e então os meus dois amigos
Vêm ter comigo, bêbados, fica com os teus amigos, eu tenho que ir,
Agora já não ficas só, tenho o meu amigo em casa à espera,
Não insisti, para alguém esperar no tapete, tem que gostar mesmo
E é triste, acabei a noite de manhã numa padaria a comer pão fresco
E beber cerveja com os padeiros e os dois amigos, com os tomates inchados
E tive pena do que a esperou deitado no tapete, que era amigo,
Espero que não tenha adormecido com fome, eu nunca mais a vi.

Turku

19.09.2014


João Bosco da Silva

domingo, 14 de setembro de 2014

Henry Chinaski

Ela escreveu-me a dizer que me lia de bikini, ao Sol do fim da tarde quente da California
Durante as suas férias da capital, disse que fui a companhia no crepúsculo dourado,
Os seus olhos nas minhas palavras, nos meus pensamentos solidificados, transferidos
Para dentro daquele corpo salgado e brilhante ao Sol, as virilhas deliciosas,
Encontrei-a uma vez na apresentação de um livro de poesia, o seguinte ao que
Ela andava a ler, reconheci-a ao entrar pela foto que me tinha enviado, sentada
Num bar conhecido, sorriu-me como se me conhecesse melhor do que muitos
Amigos de carne e anos, durante a apresentação a presença dela era vibrante,
Sentia-lhe a vontade à distância, e o gosto dos whiskeys que tinha emborcado
Antes para coragem, tornavam aquela vibração mais forte, enquanto assinava
Uns livros ela saiu, nem chegou a vir ter comigo, mas sabia que a ia encontrar,
Acabo de assinar o último livro e de dar o último gole na cerveja já quente,
Saio para a festa que se seguia àquilo, para amigos e conhecidos, ela estava lá,
Vem ter comigo, como é que é, pergunto-lhe, ela ri-se como se aquilo fosse
A melhor frase de engate que tinha ouvido na vida, o resto da gente parece ter-se
Tornado em barulho de fundo, apenas isso, ela falava com um entusiasmo
Típico dos vinte e poucos anos, trazia uma saia curta e as pernas nuas,
Bebemos tanto quanto falamos, até que me dá vontade de mijar, e lhe digo,
Vamos mijar, saímos os dois até ao jardim, estava vazio, saquei a gaita fora
E mijei, depois de a sacudir viro-me para ela enquanto a meto dentro
Para ela a ver, ela esperava encostada à parede, aproximo-me dela e digo-lhe,
É assim que vai ser não é, é o que queres, enfio-lhe a língua na garganta
E um dedo na rata, estava molhada, já devia estar à espera daquilo
Desde os fins de tarde em bikini, provei o sumo dela e partilhei na sua língua,
Tinha um sabor e um aroma delicioso, salgado e quente, como a tinha
Imaginado a ler-me ao Sol, desvio-lhe as cuecas para o lado e tento entrar nela,
Estava demasiado bêbado para a comer de pé, ela ri-se e diz-me, não pensavas
Que fosse tão alta, de facto era difícil enfiar-lha assim, deito-a sobre uma mesa
De pedra, ela tira as cuecas e finalmente escorrego para dentro dela sem dificuldade,
Estás a ser fodida por um poeta, digo-lhe e vejo-lhe os dentes a brilhar ao luar,
Tinha uma cona insaciável que me fez vir apesar da bebedeira, contudo, antes
Pergunto-lhe, posso-me vir, ela entre suspiros pede-me que o faça e descarrego
Tudo em cima da mesa entre as pernas dela, salpicando-lhe as nádegas
E as coxas, ela sem se limpar, veste as cuecas e regressamos para a festa
Como se tivéssemos ido apenas apanhar ar fresco, tantos anos a escrever
Poesia em quartos bafientos, entre uma solidão esmagadora, tantos anos
Em multidões e sem uma cara, todas aquelas noites de tesão seco à janela
A ver as putas a ir para o trabalho, tudo teve que fermentar para agora
Se poder beber o sumo quente que escorre dos lábios tocados pelos
Meus versos, penso que depois daquela noite, nunca me voltou a ler,
Tinha provado o último poema, o poema mais sincero e real, tinha comido o poeta.

14.09.2014

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Bonecas Em Segunda Mão

Aos montes, umas completamente nuas, com as nádegas bem firmes a brilhar
Sob a luz artificial, outras com uma bota só, algumas quase vestidas, nenhuma
Com roupa interior, amontoadas umas em cima das outras como se numa vala comum,
Ridiculamente baratas, a mais pequenina dez cêntimos, ainda mentem o sorriso
Que lhe desenharam há anos, em tempos foram o brinquedo favorito de alguém,
Em tempos tinham uma almofada só para elas, algumas tiveram-na durante
Anos, outros provavelmente menos de uma semana, até que veio outra nova
E lhes roubou o lugar e o amor, agora esquecidas à espera de outras mãos,
Ou o lixo, as donas de algumas também já devem ter sido as bonecas favoritas
De alguém, alguém que as despiu e também as deixou assim, com as nádegas
A brilhar, a diferença é que a firmeza destas se perde e também perdem
A facilidade das almofadas alheias, há as que continuam a ser favoritas,
Mas não são brinquedos de ninguém, são amadas, são mães, ninguém as esquece,
Não têm preço, mas não deixa de haver as que esperam quem as leve
Para casa, por um preço simbólico, resignadas, usadas, em tempos bonecas com quem
Todos queriam brincar, cobiçadas, sonhos quebrados que se diluíram na carne.

12.09.2014

Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Intersecionismo Com Esperma

“It´s okay, girl, we´ll
make it
Till the sun goes down forever
And untill then what you got
To lose
But losing? We´re fallen
Angels
Who didn´t believe
That nothing means nothing”

Jack Kerouac, Book Of Blues

Numa rua estreita e escura, encostando-a contra a igreja, num equilíbrio entre
As cuecas para o lado e o vestido levantado o suficiente para lhe encontrar
A rata humedecida com a vontade e dedos molhados num hálito de cerveja,
Enquanto tento encontrar-me dentro dela, impingindo-lhe a minha carne
Em pontas dos pés, ela meditando com a testa contra a parede sagrada,
Revejo aquela missa do galo em que Alberto Soares ficou fora, sinto uma revelação
Menos filosófica, mas uma iluminação maior, apesar do local não ser o melhor
Para grandes reflexões carnais, entro num templo mais sagrado e real,
Por ser difícil manter um ritmo meditativo capaz de levar pelo menos um
De nós à aparição, vamos até ao limite da luz eléctrica e depois de se ter
Ajoelhado no pó em oração, despertando-me de novo para a possessão,
Tira as cuecas, deito-a sobre uma fraga de granito com a força de Anteu,
O musgo seco pela canícula das tardes longas e os cristais de quartzo
Rasgam-me as mãos sob as sua nádegas, e ali fodemos como numa celebração
Pagã, numa união mística e inocente, ali mesmo apetece-me escrever um poema
Ao Miguel Torga, fodendo sobre uma fraga de granito, olho ambos os genitais
À luz da Lua, o meu engolido pelo dela, brilham e confunde-se nos aromas
Da noite de Verão, não existe qualquer tensão, pertencemos assim no momento,
A harmonia possível de um ritmo ébrio até à ejaculação, saio dela e verto
Sobre a fraga entre as suas pernas o esperma quente e fermentado
Pelo sagrado e o pagão, esperma puro de pecado e liberdade brindado com
Sorrisos inocentes e últimos beijos sem o peso da despedida até nunca.

11.09.2014

Turku

João Bosco da Silva


terça-feira, 9 de setembro de 2014

A Origem Do Mundo

Não foi bem o México a imagem que vi, quando o Jack escreve sobre a cabana de madeira
“Coberta de colmo que se suspendia por cima do precipício do mundo”, a minha experiência
Criou a imagem do Great Rift Valley e das cabanas à beira da estrada, em equilíbrio sobre
Estacas de madeira, na encosta do vale, o vale que pariu a humanidade, a origem do mundo,
Onde me senti um chato num grande lábio do quadro de Courbet, e a humanidade
Estava ali bem representada naquelas cabanas, naquele equilíbrio frágil, sobre o abismo
Que a pariu, aquela paisagem assenta-nos os pés na terra, dá-nos bem a noção do nosso
Tamanho real, no fim de contas, por muito betão que seja erguido, somos uma cabana tosca
Entre uma estrada e um abismo, uma cabana pintada de vermelho com Coca-Cola escrito
Numa parede na língua de Babel, no México como no Quénia, a origem do mundo,
Naquela cabana, “que alias não tinha traseiras, mas só uma ravina”, vi toda a humanidade.

09.09.2014

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 7 de setembro de 2014

Ordinary Madness

“It is a great feeling to know
That from a window
I can go to books to cans of beer to past loves.
And from these gather enough dream
to sneak out a back door.”

Gregory Corso, in The Vestal Lady On Brattle

Será que o consegues imaginar, cansado, envelhecido por mais um dia a fazer
O mesmo de sempre, a mão a pousar o molho de chaves em cima da mesa
Onde está um livro que tenta ler, há muito tempo, mas hoje não que está cansado,
Hoje prefere mergulhar no sofá e deixar-se levar pela latência hipnótica das imagens
Projectadas por uma cadeia de lavagens cerebrais e lobotomias, apaga a luz para
A casa parecer menos vazia, há sempre mais possibilidades na escuridão,
Pelo menos a ilusão tem mais espaço, consegues imaginá-lo a dormir
Com o braço tombado, mão no chão onde jazem latas vazias de cerveja,
A cara camaleónica a mudar de cor conforme o que tentam vender nas televendas,
A boca aberta, a ressonar de barriga para o paraíso, tenta também imaginar-lhe
Os sonhos, três mulheres deliciosas, nuas, com pedaços de relva nos joelhos,
A pedir presença lá dentro, a solidão é do tamanho do apetite e os dias
Dão-lhe tão pouco, imagina o que fazem os quatro, a confusão de corpos
Num corpo adormecido e só, até que um despertador de metal o acorda,
Imaginas claro, que pragueja, com o cabelo lambido por todos os cordeiros do sono
E todas as cabras da vida, os olhos remelosos e o hálito felizmente sem testemunhas,
Mas podes imaginá-lo no nascimento mágico de mais um dia, um dia que decerto
Imaginas completamente diferente do teu, ele levanta-se do sofá, faz café,
Conheces bem o sabor do café, mas a tua boca não é a dele, os teus dias não são
Os dele e contudo achas que o conheces tão bem, imagina o espelho a olhar-te
Nos olhos, o que pensará de ti, será que também o consegue imaginar
A meter a chave na porta e sair, acabaste de passar por ele na rua,
Será que deste conta que olhou para ti e não te viu.

06.09.2014

Turku


João Bosco da Silva
Guerra Fria

A Rússia arrefece o mundo e a Europa treme, sente-se a atmosfera carregada como
Antes de uma tempestade, mas não se quer acreditar muito nisso, recordam-se
As aulas de história e todos os posteriores bombardeamentos de guerras passadas
E quase guerras, dizem que o fuinha russo ameaçou o que ladra, rosnam sanções,
Depois há um criminoso abençoado que divulga os segredos de uma cambada de
Actrizes, cantoras e modelos, registos dos seus momentos mais doces, cobertas de chantili,
Com o dedo na tarte, cavalgando todos os crepúsculos tropicais, escorrendo caramelo
E sumo de maracujá pelos poros das mamas e das nádegas, obras de deus e do homem,
Que belo Sol neste fim de Verão, o Inverno parece impossível, o mundo é salvo
Por instantes, ainda existe esperança na humanidade, a carne pede sonho,
Sacode o medo e tudo se esquece com uma mão no queixo e outra no deslumbramento.

Turku

João Bosco da Silva


03.09.2014

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Dentada Numa Noite Perdida

«”It´s okay, girl, we´ll
make it
Till the sun goes down forever
And until then what you got
to lose
But losing?   We´re fallen
angels
who didn´t believe
That nothing means nothing.”»

Jack Keroauc, Book of Blues

Podia voltar, enganar a fome a que chamam saudade, aquela fome do que se comeu,
Do perdido, do que digerimos de forma irreversível e faz parte de nós, podia voltar,
Mas nunca seria a mesma coisa, eu não teria os mesmos olhos, a minha língua tomou calo
Com os anos, os meus dedos só sentem na profundidade e mesmo aí, duvidam se vale
Realmente a pena, podia voltar, mas tu não serias tu e mesmo que fosses, eu não seria eu,
Ainda que aquela rua exactamente igual, à mesma hora de outro dia, de outro ano,
Nunca seria tão intenso e real como a memória que ficou dos teus dentes a rasgar a carne
Da noite e do meu lábio inferior, querias-me levar dentro, engolir-me, tornar-me saudade,
Teu, hoje somos apenas nós, eu, tu, nunca aqueles que fomos, esses vivem ao lado do sonho,
O taxista que me levou a casa ainda deve andar farto de fazer o mesmo, a queixar-se que está
Tudo cada vez pior, deve ter as suas razões, eu digo que está cada vez tudo a tornar-se nada,
Constantemente e a nossa maldição é trazer o saco de carne cheio de fantasmas, tão reais
Como a dor que se sente, aquela dor de ausência, uns chamam-lhe saudade, eu nem sei
Ao certo em que rua foi, nem qual era a cor do táxi, nem se o taxista tinha bigode,
Mas ainda consigo sentir o teu sabor, a textura da tua língua e a dor latejante que levei.

03/09/2014

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Satori No Aeroporto

Bebi duas cervejas em menos de vinte minutos, em jejum, espero o embarque,
Bebi porque estava atormentado pela carne e pela possibilidade, sempre,
De festins nas casas de banho, afogado em olhares, lembro-me de Céline,
E espero, tento escrever algo, mas a caneta também não tem coragem, falta a tinta,
Escoa-se com os anos, dizem que ainda têm que limpar o avião, vinha de Hong Kong,
A violência dos beijos russos ao lado, a promessa de garotos na lata de sardinhas civilizadas,
Céline, que sossego deve ser a morte, sem os sorrisos estúpidos de quem está só,
E pede caralho, cu, ou cona, sem o bafo pestilento de quem insiste em gorgolejar
Um idioma frio, sem fome e sem vontade, tornaste-te num mestre zen e essa sim,
Foi uma viagem, era capaz de morder alguém, dar-me corpo e mais olhos, mas não,
Levanto-me fodido com a caneta, ela o mundo todo, vou à casa de banho,
Retraio o prepúcio ao máximo e mijo, mijo contra um pedaço de merda agarrado
À sanita, mijo contra o mundo, até a sanita ficar limpa, por fim, algo imaculado.

Helsinki

07/08/2014


João Bosco da Silva
Viagem Antes De Partir

Devia escrever algo porque não há mais nada, é por isso que se escreve na solidão e na merda,
Quando o mundo faz tudo menos ser infeliz e só, entre o barulho que se encontra no silêncio
Absoluto da invisibilidade, não há nada mais a fazer, espera-se um milagre que se sabe
Impossível, mesmo assim, escreve-se, porque o milagre é esse, não esperar nada, acreditando
Que ainda é possível ser além do silêncio, um silêncio cheio da vida dos outros, como ler
Um livro em silêncio cheio de si mesmo, a morte chega sempre e ninguém a toma como
Libertadora, é isto e é triste como a vida.

João Bosco da Silva

18/07/2014


Turku

segunda-feira, 25 de agosto de 2014



Reminiscências Circadianas


Lembras-te do rio no crepúsculo lento daquela cidade antiga, quando passo perto dele
Nunca sou o que conheces, também esse ficou algures entre as portas do elevador,
Que se fechou atrás de mim e encerrou até o para sempre de hoje, o teu cheiro misturado
Com aquele perfume, que tantas vezes encontrei depois, nunca exactamente o mesmo
Ao Sol, será que hoje me pagavas o jantar antes de me encerrares contigo numas águas
Furtadas com vista para o castelo, ou darias pelos anos no meu cabelo, o que me fez o tempo,
Naquele tempo lia Kierkegaard no comboio e passava horas a tentar equilibrar o humor
Na almofada, levava as fodas contadas e depois era tudo um risco que aceitavas também correr,
Tinha mais medo à falência hepática que hoje, apesar de ter mão para tudo, que me fez o tempo,
Tornei-me demasiado amigo dos sofás vazios e dos dias somados aos sonhos rasgados,
Hoje de certeza que não me pagarias um jantar, nem me deixarias adormecer exausto na tua cama,
Sem saberes dizer bem o meu nome, não me chuparias antes do látex, quase desajeitada,
Tu que rejeitaste o senhor arquitecto e deixaste entrar quem te levou uma garrafa de vinho
Do porto, barato, simples, uma cerveja também, em copo de plástico enchendo-se
De pôr-do-sol, tudo fica a brilhar quando se apaga nos olhos, longe, o que me fez o tempo até aqui,
Não sabias que te escrevia, hoje sabes e continuas a não poder ler-me, é pena,
Tantos que me preferem as entrelinhas e os espaços em branco, o tempo que me gastou
E me afastou dos comboios e das cidades antigas, redescobertas na carne exótica,
Será que pensas em mim de vez em quando, e se tivesse ido pelas escadas, teria passado
O tempo como passou, hoje os meus olhos são cansaço, desilusão e uma fome de quem
Comeu sempre demasiado e ficou sem dentes num mundo cada vez mais farto de confusão.


Turku 

24/08/2014


João Bosco da Silva

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

The One Who Never Missed A Plane Yet

Os que  a tua mãe te dá, também não fazem nada, vai perguntar ao homem da boquilha
Eterna e dos pequenos-almoços à base de Bloodymarys, quando o tédio era grande
Até porrada dos Hells Angels servia, “there you stood on the edge of your feather,
Expecting to fly”, quando o homem tem dois polegares numa mão e uma loucura
Tão lúcida, torna-se difícil separar o mito do real, tiveste que engolir a morte
Para te tornares num homem, até lá, foste uma viagem alucinante, desbravando
Os limites do sonho e da narrativa que é onde esses moram, “just another freak in a freak
Kingdom”, senhor doutor da tinta e da raiva, dissecaste o podre com um bisturi
Ferrugento, até chegares à glândula suprarrenal do corpo hipócrita da sociedade,
Quantos litros de adenocromo e ficção são precisos nos olhos para se poder engolir
Este mundo de répteis canibais e chulos de brilho e aparências, “buy the ticket,
Take the ride”, e esquece, no fim da corrida, se tiveres sorte, serás uma náusea
De Ralph Steadman num dia de pó e bílis, o mundo todo é dos morcegos, vampiros,
Não se pode parar, condenados alguns, “too weird to live, too rare to die”,
À necessidade desesperada de procurar o fim do arco-íris, à violência libertadora
Do despropósito, ao suicídio sem intensão de uma morte permanente,
Vives nas noites alucinadas em que te revemos, te relemos, te imitamos,
E tu sentado, no meio de lagartos e outros alienados, quase acendes o cigarro
De uma loira qualquer enquanto te vês a ti próprio numa possibilidade quântica,
Naquele espaço vazio dos sonhos, onde se apanha a  U.S. Intersate 15.

01/08/2014

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Testamento

Estou muito contente hoje, porque hoje não encontrei nem um amigo, vi um acidente
E não era eu, estou a acabar mas ainda não foi hoje, ainda, as palavras cansam-se de mim
E eu canso-me delas, estou farto porque não vale a pena, como nada, os ecos continuam,
O passado continua a dizer-me que sou e ainda existo, mas cada vez mais sou menos capaz
De ser eu, vou regressando aos poucos à inocência das primeiras vezes, à ilusão
Consciente da ilusão, à fome dos dias quentes, à sede desses mesmos dias, onde me afogo
Pelo simples prazer de me desencontrar de mim mesmo e de todos os que me refletem,
Páginas e páginas para o vazio dos olhos que rejeitam e aceitam todos os dejetos
Etiquetados, isto não é um cachimbo, é um cagalhão, Sol, o lago exausto no futuro
E é onde me agarro a estas horas de canos para a comunidade do digerido, sabes,
Podia ter sido mais se tivessem havido olhos capazes, mas também escrevo contra
Tudo, escrevo contra todos, espero apenas o esgar dos enjoados, a traição
Da minha inocência, a dor gratuita nas demasiadas horas latentes entre o tédio
E o fim do mundo, cada dia, um buraco negro inelutável, onde anda o Miguel Torga
A estas horas, que distâncias semeei desde os primeiros passos neste chiqueiro
A que tantos chamam de poesia e tratam vestidos de senhores e doutores
E impostores, se ao menos ainda houvesse uma Paris solidária, com homens violentos
Na vida como nas palavras, irmãos das garrafas e das putas, dos perdidos e dos desesperados,
Juro que me sento e me deixo ser gárgula esquelética ao Sol dos dias cinzentos,
Não espero mais a não ser a derrota inevitável do meu tamanho melindrado pelo nome.

Turku

30/07/14


João Bosco da Silva
O Valor Das Coisas Pequenas

A poesia é construída com coisas pequenas como a vida e a vida é feita do que se prende
À memória e trazemos para sermos o que somos, o esquecimento é morte, a vida é feita
De cheiros, como de uma t-shirt de marca nova, como aquela azul, a primeira t-shirt de marca
No dia febril do aniversário dos catorze anos, os amigos à espera, na sala, à volta das
Batatas fritas, do bolo da mãe e do refrigerante espanhol barato, os amigos de infância,
Hoje, um a um, absorvidos pelo acaso, abraçando cada um deles como que por obrigação
Do destino o bom e o mau que a vida lhes trouxe, ao lado dos sonhos e de tudo o que
Se esperava, sabendo-se no fundo, que não se poderia ir mais longe do que a vida,
Além do que tinha que ser, porque é a vida, a febre a tentar ser mais forte que a vontade
De brincadeira, mesmo assim, correr, descer e vê-los juntos por mim, sempre tão pálido
Nos dias felizes, sei que fui a depressão daquele corpo tatuado pela dor e pela celebração
Da perda, hoje também casada e feliz ou iludida, que é quase o mesmo, não há alegria
Que seja lúcida, nem felicidade que veja claramente, e a melhor poesia é aquela que se despe
Da lucidez e é suja como os joelhos de um garoto, dos de antes, que se sujavam na terra
E tinham as unhas encardidas e passavam as tardes em palheiros a bater punhetas
E fumar cigarros de papel, sonhando com o ovo Kinder do próximo fim-de-semana
E um beijo da prima favorita depois do banho semanal e da camisola nova do foguetão,
Em segunda mão, claro, mas nova e quase do tamanho certo, a vida, tudo isto e o resto que
Se tenta imortalizar em palavras, esperando o reconhecimento dos leigos, dos que vivem com
Os olhos para fora e tornam tudo mais real e mais importante, esvaziando garrafas de vinho
Em Montmartre numa noite de luzes e paredes de cemitério, o corpo tatuado em celebração
De uma noite engolida pela medusa e todos os medos, o cheiro de uma t-shirt nova,
De marca, imaginem, de marca, três vezes mais cara que a dos catorze anos,
Arrumada entre as outras, à espera de um dia qualquer em que esteja à mão, a vida é poesia,
Também é merda, é feita de coisas pequenas, porque tudo o resto é insignificante.

Turku

29/07/2014


João Bosco da Silva

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Não Me Chamo

Não me chamo Artur, se me chamasse assim, estava a atravessar o Canal da Mancha
Com asas de pau a sonhar com tiros na mão e empurrões por trás, mal vistos
Pela sociedade da aldeia, contudo sonho com o mar dos olhos frescos e não invejo
A impossibilidade de dois átomos de hidrogénio e o seu sucesso, chega-se a um ponto
Em que basta cagar ameixas que o deslumbramento dos fascinados pela imortalidade
Das rugas persistentes, com algum acto de alquimia, transformam em ovos de ouro,
Sou a inocência desesperada do gajo que troca a vaca pelos feijões e o sonho,
No final cresce demasiado , torna-se desilusão, proporcional ao tamanho da ilusão
Fermentada em sonhos acordados à luz do desencantamento de poemas
Neorrealistas, enquanto vacas velhas endurecem a carne para a fome dos dentes
Cada vez mais fracos, vence sempre quem nasceu para humilhar, berços de ouro
Rodeados da felicidade esforçada que é o estrume da vida da maioria, não me chamo Artur,
Nem acredito que a salvação esteja numa amputação após pecados alucinados
Por fadas verdes e africanas, o meu nome é o que me dão e nenhum é o meu, deixo correr
A vida e o cansaço desvia-me do leite amargo, duro, gasto-me em pragas e outros gafanhotos,
Desisto de mim todos os dias e é tudo o que posso fazer, é tudo o que tenho,
Essa possibilidade de desistir e persistir na corrosão do coração pelo sangue ácido e pelo
Esperma venenoso, continuar a pedir mais um dia após a inutilidade evidente do último,
Deixo isto escrito para os alquimistas da merda, que com as suas vidas ocupadas
Encontram sentidos que não percebem na agonia dos moribundos, a caneta é mais fiel
E real que a própria vida e no entanto está sempre afiada e pronta para um ponto final.

Turku

15.07.2014


João Bosco da Silva

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Hipocampo

Há perfumes como sorrisos, mas os lábios vermelhos não bastam, nem o afogamento
Dos dedos num desejo sem sal, há viagens que mais valem ficar na solidão ou em casa
Que é onde geralmente se dão as maiores voltas, é difícil viver no meio de tanto,
O corpo, os olhos, ainda não se habituaram a grandes aglomerados de pedra, carne
E hormonas, há cores que ainda não foram traduzidas no cérebro, vivem encriptadas
No nosso fascínio ignorante, só os cheiros nunca se estranham, tudo pronto para receber
E atravessar o etmoide a velocidades primitivas, onde se ilumina a sinceridade básica
Até lá baixo, até à origem do mundo e o fim de tudo, o Sol revela tanto quanto as sombras,
É tudo uma questão de olhar e inspirar fundo perto da virilha, tentar decifrar a magia ou
A química possível, destilar do vento o rumor de uma possibilidade, alguém Lolita,
No meio de uma confusão de monóxido de carbono e náuseas que ecoam na ruas
De uma tarde esforçada por vida numa facilidade quente de revelação e carne fresca.

03.07.2014

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 9 de julho de 2014



David Cronenberg E Rãs Transmutantes

Foi preciso um sonho para compreender a tua coisa por sapos, Panero, apesar
De não ter percebido a transpiração irónica do recalcamento, depois de ter
Assassinado uma chinesa velha num salão de ópio, e sentir aquela culpa que é medo
E ao mesmo tempo desejo de ser apanhado, ao estilo de Raskolnikov, se te dissessem
Que doze anos passavam e tu ficavam quase na mesma, esmagado por tudo o que
Entretanto deixaste para trás e te faz, mesmo que passado, não foram sapos,
Mas foram rãs, que não são o mesmo, não repugnam todos, tem algo de erótico
Na silhueta e na forma como estão húmidas, não fosse o sangue frio,
À beira de um rio que apesar de não o ser, em Portugal, a erva alta, mas fresca
Como nos Verões nórdicos, e rãs armadas em gatos pretos, atravessando um caminho
Sem destino, ao lado do rio, o rio sim, o mesmo onde o velho e o peixe, há doze anos,
Quando te armavas em Bandini de dezoito anos aos dezasseis, centenas de rãs,
De todos os tamanhos, de pernas bem torneadas em todo o comprimento no ar,
Cruzando o teu espaço à distância temporal de um passo, um deslumbramento quântico,
Num entardecer de floresta com o Sol ainda violento entre as folhas e a promessa
De uma Lua vermelha, ou amarela, as rãs, verdes, amarelas, verdes e amarelas, azuis,
Vermelhas, todas apetitosas, estranhamente apetitosas e repugnadas pela
Minha intromissão no meu próprio sonho, cogumelos venenosos nos olhos,
Já a velha chinesa esquecida, nunca aconteceu, não nesta linha electroencefalográfica,
Foi um sonho, isto sim, é, o reflexo demasiado distorcido de um dia abusado pelo excesso
Dos olhos pela carne, ou da carne pelos olhos, numa clareira, uma exposição de raras rãs,
Enormes, homúnculos em frascos e redomas de vidro, rãs transmutantes, subitamente
Todas elas brinquedos antigos, a sorrir para um baú de sonhos partidos e esquecidos
Debaixo de tanta página arrancada à vida, ao ler a descrição da espécie, lembrei-me
De uma vez ver num Domingo de manhã, depois dos desenhos animados, uma ave
Que reproduzia todos os sons que ouvia, mesmo  os artificiais, uma máquina fotográfica
Por exemplo, fez-se noite e tudo se tornou dentro, num divã, num quarto pequeno e escuro
Em Moledo, a tornar-se grande à medida que a escuridão crescia, e o medo, a morte,
A velha chinesa de volta, o medo tão grande, tão pesado quanto o vazio, asfixiante,
Tem que se acordar para respirar, inspirar fundo o fumo tóxico da realidade
Para lavar as cirvunvoluções do excesso de serotonina e da culpa por defeito.

Turku

09.07.2014


João Bosco da Silva