quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Cemitério Judeu

A mesa está suja, é branca, mas sinto-a quando lhe passo os dedos,
Antes de escrever, um último pedido aos sentidos, sentir algo recente,
A sujidade da mesa, branca, deve ser cerveja seca, ou açúcar da chávena
De café, ou o resto de um sonho que salpicou para aqui, estava no Brasil
Mas não havia sotaque e a cidade parecia do norte da Europa com
Um clima tropical, uma utopia, como sonhar África num Inverno eterno
Uma distopia, não me interessam os sonhos que me querem contar
Hoje, é a minha vez, sonhei tantas vezes com um cemitério a transbordar
De lápides, a verter ossos das costuras, num estranho crepúsculo
Entre o cinzento e o vermelho agónico de uma estrela moribunda,
Lápides cheias de anjos e santos e esperança na ressurreição,
Afinal, o homem que dava vida ao barro ali, noutro cemitério bem real,
Judeu, em Praga, acordado, num cemitério vazio à espera de almas vivas,
Únicas possíveis, atolado de corpos e lápides, um mar de lembranças desesperadas,
Onde estará o golum, ou o barro que resta dele, a estas horas,
Em que todos os sonhos se revisitam acordado e perdem a doçura
Da impossibilidade, a segurança do sono, a mesa está suja,
Sinto-a com estes dedos despertos, estes dedos fora de qualquer
Corpo, neste momento, olho-os e vejo-os, sinto-os, longe de mim,
As unhas, sempre curtas, a acumular epitélio, secreções, muco,
Sonhos despertos no toque, agora cemitérios, desses corpos,
Mesmo que as almas ainda neles, e este poema uma vala comum,
Como outros poemas têm sido, escavados com estes dedos,
Estes assassinos de sonhos, estes imortalizadores de ilusões,
Estes espadas de anjos a expulsar de paraísos impossíveis,
A mesa é branca e está suja, não me lembro de ter lá escrito nada.

Turku

14.11.2014


João Bosco da Silva
Náusea Apetecível À Sombra Da Sinceridade

No fundo é tudo um canibalismo disfarçado, camuflado, escondido com medo,
Se acabas por ser apanhado com os rins de alguém entre os dentes, a vergonha
Suicida-te, porque não acreditas que os olhos que não comeste por respeito
Aguentem tal petisco, é universal a sede humana pelo leite alheio, hajam
Intolerâncias para revelar o que de melhor há dentro de cada um, líquido
E rápido como uma narrativa ao ritmo da consciência, sem o catalisador
Químico que desculpa a liberdade comportamental, não, há quantos anos
Acordas tranquilo por o sonho ter sido apenas um sonho, cortem as amarras
Que te mantêm agarrado ao esperado e aceite e veremos onde adormeces,
Existe tanta fome além da fome, tanta sede além da sede, o sangue não chega,
Nunca haverão guerras suficientes, nem últimas violações, temos tanta necessidade
De inferno que na dúvida de haver espaço no vazio da morte para ele,
Criamos um bem melhor e possível onde a carne o pode sentir plenamente,
No final, se a coisa correr mal para o indivíduo, há sempre uma corda
Dentro dum guarda-fatos , uma boa vista empurrada pelo peso dos nossos pecados,
O sabor metálico e uma pintura nova na parede até alguém nos encontrar
E culpar o mundo doente, porque a culpa é do mundo estar doente, não da doença
Que somos nós, canibais com trelas feitas de ideias, movido a desejo e loucura.

13.11.2014

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Americana

Os tempos de incendiar peidos e escrever cartas de amor depois de bater
Punhetas à pala de filmes encontrados em cima do guarda-fatos dos pais
Dos amigos em alemão já lá vão, agora esperam filhos para substituir
Sei lá quem, não, nem vai lá com poesia duvidosa, desrespeitando
A, não me lembro, que raio, não interessa, perdeu o gás esta merda toda,
É melhor deixar andar quem tem certificado para poder, mortos
Todos, apodrecendo, porque caralho não arranjais um trabalho decente,
Seja como for, não vou longe garoto, dizem os corvos e outras aves
Sábias, nunca aprendi a tocar outro instrumento além disto e o prepúcio,
Abraças-te envolvida em tatuagens que parcialmente fodi,
Lembras-te, depois de a esfregar na tua excitação, enfiei-ta no cu,
Nem precisei de ter andado pelos montes em busca de restos da minha alma,
E agora estás casada, tens filhos, morres como eu, mas preocupas-te
E não consegues aguentar isso de fingires todos os dias que és feliz,
Cada vez pareces mais cansada, já não partes costelas nas noites de geada
Só porque esperas mamar num elevador duvidoso, faltam aqui figuras
De estilo, mas também, ninguém me toma por poeta, sou só um cabrão
Que verteu esperma na areia de ilhas quase africanas em tempos
De iluminação, agora toda a gente é feliz após muitas fraldas e países,
Eu continuo a destilar álcool em versos, chegando a lado nenhum,
Morrendo a cada poema, como se a alma fosse algo com salvação possível.

Turku

11.11.2014


João Bosco da Silva
Após Cinzano E Evangelhos Segundo Anos 90

Os dedos depois cheiram a azedo e o copo de vinho tinto com as luzes apagadas
Não se vê até se sentirem as meias molhadas se te descalçaste antes de entrar,
Se não, é porque não entraste em casa de botas de elástico ou no norte,
O resto é apenas fascínio ou tendência pelo relativamente mórbido,
Já morreste, perguntar-te-ão, e o teu tamanho dependerá do tamanho do silêncio,
Em vida, houve gente que teve o trabalho de me transcrever, não foi mau,
A maioria morre sem que um pensamento seja transferido seja da forma que for,
Mas há os génios que são inventados por necessidade ou pura propaganda,
A Rússia está a acordar, outra vez e é Inverno, o Napoleão e o amigo não-alemão
Ainda se lembram, só os pequeninos cheios de tomates aguentaram a pastilha
Pesada da massa, no fundo todos procuram apenas uma rima, ou uma cona,
Que não lhes lembre da mãe, precisam de encontrar uma vagina mutagénica,
Bandeira branca, um dia, sentirás deus nas cuécas e o cemitério será
Tão excitante quanto um caixote do lixo ou um saco de estrume,
A tua própria morte será demasiado pesada com o peso do infinitamente
Não tu, depois dos vinte e mais que sete e oito, mais uma punheta será
Uma vitória barata, menos uma nota roxa também não será assim tão mau
Se embalares o míssil em direcção à erudição transcendental da foda
Sem idioma comum, percebes, não, não leias mais, santa pu rificadora
Das tuas frustrações ao lado do autoclismo, engole então os sofismas,
Admira as eulógias de quem sempre conheceu paralelos, continua
A evitar o poder de quem caminhou no sangue e corpo do golem,
Tu que por bruxa, sempre te quiseste freira ou uma merda mórbida qualquer.
A estas horas não acordes, continua a fumar e a escrever para a admiração
Dos hereges, convencidos do seu lugar ao lado de lado nenhum na verdade.

11.11.2014

Turku


João Bosco da Silva
La Bohème

Não se faz de gasolina isto, faz-se de despedidas, de sonhos abandonados
E escondidos sob o falso esquecimento, portanto, prolonga a tua ausência
Até à eternidade, torna-te no combustível que engole todas as ruas de todas
As cidades em todos os anos, à mesa de um hotel, ou de uma cozinha com
As paredes escurecidas pelo fumo, onde se cura o fumeiro e se ouvem galinhas
Quando a madrugada chega, todas as cidades e as suas ruas e os seus anos,
Condensam-se no passos primeiros e regurgita-se uma noite galega,
Para os lados do sétimo dia, quando todos os rios o mesmo, dando voltas
Pelo mundo fora, todas as pedreiras a mesma ferida na terra,
Cavalgando um pastor alemão que entretanto morreu tantas vezes,
Enquanto a dona, vestida de luto, mostrava os dentes de ouro,
Numa gargalhada tão fresca como a água da nascente perto das ameixeiras,
Portanto, se quiseres ter utilidade além da carne, já que a minha saliva
Secou dos teus lábios e a minha língua se esqueceu do sabor do teu batom,
Continua a regar a tua ausência com a disciplina de um freira ou uma viúva,
Não me mostres mais os dentes, deixa fermentar o toque que me deixaste,
Acende mais um cigarro como se uma vela pela minha alma, como se a língua
Nunca mais, nem a promessa silenciosa de um olhar esfíngico de pecado
Libertador na casa de banho, no dia de aniversário e do nascimento do encanto
Por Almada, cordas fumadas apesar de nunca na cozinha ao lado do galinheiro,
Porque o processo é o mesmo, tens que te fossilizar, tornar-te realmente
Pré-histórico, reduzir as ruas às origens, às tribos primeiras, as palavras como mãos
Marcadas nas paredes das cavernas, não são tão facilmente lavadas pelo tempo
Como as pessoas que nos tocam, não se faz de gasolina isto, mas queima,
Consome como se a tinta fosse de cinza, ouvi dizer que a de carne e sangue
Tem mais óleo e parece ser a que resiste mais ao esquecimento e ao tempo,
Quando o dia der em nós, seremos o que restou do pó das estrelas.

06.11.2014

Praga


João Bosco da Silva

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

O Caminho Até Ti

Podias ser salvo se te conseguisses encontrar naquele caminho em direcção aos soutos,
Onde leste em cima de um muro de granito um dos primeiros poemas num livrinho vermelho,
E eras capaz de sonhar com as mãos limpas e capazes de grandes coisas, as limitações
Eram espaço vazio para encher com experiência, imagens palavras, converter a vontade,
Podias encontrar-te se ainda olhasses as montanhas no horizonte carregadas de promessas
E misticismo e visses além de onde te encontras agora, sem velas, num atol estéril
Contaminado pelo exposição progressiva ao tempo, mas não, passas pelos silvados
E ignoras as amoras, mesmo ao fim do dia, não te dás ao trabalho de trazer aquela tarde
No poço apanhando rãs, cansa-te apanhar as flores percursoras da Páscoa para levar à mãe,
Já não te sentas na varanda a disfrutar do passar lento dos dias, passam sem chegares a
Saber-lhes o sabor, na tua boca apenas um gosto amargo do que ficou por fazer,
Não te fascina mais o vermelho dos olhos fechados contra o Sol, uma necessidade apenas,
Poupas a pele à erva seca por conformismo com o entorpecimento e para evitares a dor
Vives como um morto, já não deixas copos meios cheios no cemitério, na noite da festa,
Não te queimam com cigarros no chão do mesmo caminho, depois do banho de estrelas
E de outro corpo ao ritmo dos grilos e da rotação da via-láctea, o muro agora tem cimento,
Podias ser salvo se ainda restasse em ti um pouco de alma, mas foi-se como a infância,
Nem tiveste que a vender ou trocar por algo vão, o tempo é o Diabo e o inferno a relação
Do nosso corpo com ele e tu nunca poderás ser salvo, mesmo que agora já não uses relógio
De pulso, sabes que ainda és tu, que é teu o fantasma que trazes dentro, cheio de memórias
De outra vida, porque nunca soubeste ver as horas em relógios de ponteiros e sabes
Que além, no caminho por trás do souto, encostado ao muro, havia um silvado do teu tamanho,
Onde te abrigaste de uma tempestade entre a tua mãe e a tua avó e tiveste medo, hoje não há
Nada, só pedras descarnadas do muro, agora os teus passos arrastam a única tempestade
E não tens refúgio no deserto que plantaste, a não ser que te encontres naquele caminho
Em direcção aos soutos,  sacudas o pó e tires a tinta com que te foram pintando pelos anos fora,
A não ser que reaprendas a ver daquela forma que o tempo te fez desaprender.

Turku

02.11.2014


João Bosco da Silva

sábado, 1 de novembro de 2014

Análise

O sujeito poético usa, neste caso concreto, uma vasto leque de imagens que, aliadas às aliterações, tentam transcrever em verso, num ritmo alucinado, o seu estado de espírito, ou desconforto mental, recorrendo ainda a outras figuras de estilo, se bem que poucas e ordinárias, devendo-se isto à crise da época e à condição sociocultural do próprio sujeito, como hipérboles em contraste com alguns eufemismos, poupando assim nas antíteses, usando simbologia da sua mitologia pessoal, especialmente da infância, disfarçada de metáforas, é de destacar ainda o recurso a uma poupança na pontuação pelo uso exclusivo de vírgulas de forma a impor um ritmo quase asfixiante, ilustrando bem o estado mental no momento da criação poética, sacrifica então a clareza no discurso, de modo a manter-se fiel à tradução da emoção em palavras, existe um desprezo pelo leitor, e os temas abordados, pela sua extrema natureza confessional e pitoresca, podem colocá-lo perante uma composição surrealista, este desprezo é mais notado comparativamente à dedicação mostrada pela criação anti-poética, está bem patente a consciência de que mais de setenta por cento do universo poderá ser matéria escura, uma lobotomia seria uma alternativa para o impulso, quase necessidade vital, que o sujeito tem em se tornar poético, não é para se mostrar, nem para lhe beijarem o cu, se bem que um broche, será por ele, sempre bem recebido, não é para lhe baixarem as calças em submissão contemplativa, esperando portas abertas, sujeita-se à sujeição poética, simplesmente porque come demasiada merda que a vida lhe atira aos sentidos e o estômago não aguenta tudo, tal como o cérebro quando se dorme, digere, fermenta, destila, absorve e excreta, o sujeito poético, para terminar, está claramente, munindo-se de um par de paradoxos, a cagar-se.

Turku

01.11.2014


João Bosco da Silva
Michael Jackson

Tinhas uns quatro ou cinco anos,
Em frente à televisão,
Punha a mão na braguilha,
Apertava e gritava, AMBÉ,
Contudo, a minha mãe repreendia-me,
Não faças isso que é feio, é porco,
Também devia ser pecado,
Depois de ter enfiado uma boneca
Nas cuecas e de ter apanhado,
És um porco,
Comecei a perceber que
O inferno devia ser por aquela zona,
AMBÉ e agora o Ambé está morto,
Sempre que o ouço lembro-me
Da inocência e das horas em transe
A apanhar anéis dourados
E cair em picos, buracos sem fundo,
Correndo dentro de água
Antes da contagem chegar
A zero na última vida,
O Ambé também lá apesar
De só nomes japoneses,
Agora só visito a IceCap Zone
Por nostalgia, mas continuo a não ver
Como o Ambé era pecado e
Amén não, mistério da fé,
Que se perdeu com o encolher da roupa.

Turku

31.10.2014


João Bosco da Silva
Amadurecimento Branco

Miúda, salva-me do tempo,
Digo-lhe sem mover os lábios,
A colheita de cabelos brancos
Tem-me surpreendido e
Parece que cada vez mais
Me torno transparente,
Enquanto o silêncio me
Rodeia, cada vez mais se
Torna difícil ouvir-me dentro,
Achas-me demasiado velho,
Pergunto à minha fotografia,
Nesse tempo ainda julgávamos
Ser capazes de tudo,
O que tens a perder agora,
Respondo-me, na verdade
Não sei, mas a vida tornou-se
Demasiado fina e dez anos
Agora são uma vida,
Miúda, tu que me lês,
Agora que me tornei num
Animal dócil e escravo
Da memória, traz-me
De volta, podes não saber,
Mas além do pós acumulado,
Se tiveres vontade de me
Soprares os olhos, verás,
Que ainda arde por dentro
A fome que alimenta sonhos,
Nem peço a tua língua
Despertando a minha alma
No meu escroto, mas toca-te
Quando o eco do que fui
Te entrar dentro, até
Julgares que são os teus
Pensamentos a nascer, acorda-me
Deste pesadelo de acumular anos.

Turku

30.10.2014


João Bosco da Silva

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Houve Um Tempo

Houve um tempo de longas viagens para longe do Verão
E da infância, sentia-se algo como um elástico a esticar
E dentro tudo a ficar mais fino, a fronteira era a montanha
Do poeta, a lareira a tornar-se numas brasas que a memória
Sopra para se aquecer um pouco, o autocarro frio,
Cheio de gente invisível e barulhenta, houve um tempo
Em que se vivia dos ecos do Verão nos quartos vazios
No meio de uma cidade doente e prostituída,
Em que o chão mais confortável que a cama fria,
De olhos fechados a relembrar as fragas quentes
Ao fim da tarde com o céu incendiado pela noite
Que acendia no ar o cheiro dos jantares humildes,
Houve um tempo em que se esperava o toque
Para o intervalo daquelas ruas, voltar ao tudo que
Se tinha naquele pouco de ruas familiares,
Houve um tempo em que se dava o futuro
Por se ouvir um cão a ladrar à noite ou
Um galo a quebrar a solidão azul da madrugada,
Os sonhos não mudaram muito, só a importância
Que se lhes atribui, houve um tempo em que
A neve era sinal de liberdade e mais tempo à lareira,
Olhava-se e nela o futuro, página em branco,
Não a distância e a fronteira cada vez mais espessa,
Houve um tempo de longas viagens que duravam
Três horas na eternidade de um purgatório
Nas companhias menos óbvias,
Yasunari Kawabata, descendo a montanha do poeta
Em direcção à cidade dos quartos vazios.

Turku

20.10.2014


João Bosco da Silva

sábado, 18 de outubro de 2014

Regresso Ao Admirável Mundo Novo (Não o de Aldous Huxley)

Ficção paranoide e distopia sem enforcamentos,

Ainda as manhãs de Junho eram possíveis sem despertador, o negrilho estava
Longe de secar, e cada moeda era quase tudo, o quiosque ainda não tinha sido
Arrancado pelo progresso, e no jardim antigo ainda se via gente,
Num bolso as moedas que se juntaram da mesada para o pequeno-almoço
Na escola, é para comeres um bolo, dizia a mãe antes de sair,
No outro bolso um saco de plástico preto para esconder o pecado,
Dentro do quiosque aquele cheiro a papel delicioso como a pão fresco,
Lá fora as revistas penduradas com molas da roupa e os jornais sob
Pedras para não tomarem asas, ignorava os horrores que aquelas
Páginas revelavam diariamente, ao fundo, numa caixa de cartão
Lá estavam, as revistas de banda-desenhada, quinhentos escudos,
Compro duas e sinto-me com uma estranha culpa ou medo,
Terei que me confessar, só pode ser pecado, o dinheiro que era
Para comer, gasto num luxo, num vício, despeço-me do senhor J,
Enfio as revistas no saco preto, não antes de as abrir e inspirar
Fundo aquelas páginas frescas, mostro uma à mãe, a outra
Escondo-a directamente debaixo da cama, junto das outras,
Sei que ela não aprova, mas a sombra do negrilho não se interessa,
Os deuses esperam, o futuro espera, cheio de traficantes de órgãos,
De implante de chipes de crédito, raptos para te transformarem num
Actor do teatro da dor, o futuro que tem chegado tem teatros do ridículo
E teleimplantes de futilidade aumentada, lobotomias por reforços positivos
Que resultam no desenvolvimento do volume do indivídio inversamente
Proporcional à capacidade cognitiva, o uso do endeusamento de figuras
Destituídas de valor para disseminar a alienação usando a receita de Watson,
 A venda pelo medo, do medo, oscilações do mercado de acordo com o pânico
Pandémico, as competências artísticas herdadas geneticamente
Ou injectadas em salões de ópio e casas de putas pedantes e eruditas,
Neste futuro presente, tão pouco de ciberpunk, hoje, aquele outro futuro distópico
Parece-me uma utopia, não se perseguem mutantes porque ainda não surgiram,
Perseguem-se uns aos outros, por pensamentos, actos e omissões,
Por culpa e sem culpa, escravos das ideias de líderes e fanáticos, escravizam,
Séculos depois de Libertatia, este futuro, onde andam os vírus informáticos conscientes,
Discórdias cibernéticas, bites desperdiçados em vez de sangue derramado,
O transplante de cérebro é uma das poucas previsões certas,
Bastante eficiente para erigir exércitos de idiotas consumistas,
Hamsters no moda, correndo numa roda, uma fonte energética
Vital para o funcionamento do movimento de rotação da terra,
O Miguel O´hara tão real quanto o Super-Homem de Nietzsche,
O superação do animal e do humano pelo corporativo, eis o futuro,
Hoje é quase inverno, as revistas acumulam humidade, o papel
Cheira a mofo, se o inspiro fundo arrisco-me a uma pneumonia,
Se vivo muito, arrisco-me a morrer, estava bem melhor além,
Naquele Junho, longe deste futuro, não tão longe assim, apesar de tudo,
Debaixo do negrilho que secou, a ver o futuro aos quadradinhos,
Que apesar de distópico, não se aproxima da palhaçada
Em que isto tudo se tornou, faltam cabines de suicídio para aqueles
Que se julgam eternos e uma indução da ideia para bem e alívio
Dos que são perseguidos por esta geração de inquisição mutante
E transvestida  pelos ares da modernidade e do progresso,
Camuflando-se e confundindo-se com os nossos desejos
E necessidades, somos um mutante híbrido, um apêndice iludido
Com ideias de livre-arbítrio, revejam-se os ensinamentos de Tyler Durden.

18.10.2099

Nova Prospekt


João Bosco da Silva

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Espremer O Sumo

A polpa que sobra, é uma sensibilidade inversamente proporcional
À resistência por motivação à virilha, uma sensibilidade à paranoia
Induzida por sorrisos e outros sinais universais que se tornam cada vez
Menos óbvios e indecifráveis, sabe cada vez melhor comer sozinho,
Beber sozinho, já o aconselhava Jack, é uma golfada de ar fresco
Entrar num bar deserto, num restaurante fora de horas,
Custa cada vez mais respirar profundamente, as noites deixaram
De ser suficientemente escuras, a língua queimou-se demasiadas vezes,
Lamberam-se também algumas lâminas com sangue seco,
A isso obriga quando os beijos se tornam secos, a polpa azedou,
Já não está boa para lhe misturar bolachas maria, o sumo
Já se digeriu há muito e foi esquecido pela sede que matou,
Agora nem sede, nem vontade, só aquele cansaço encostado
À experiência, aquele já estive lá, mas noutro lugar, aquele
Já passei por isto de outra forma, tudo toma uma forma familiar,
Os padrões aumentam com os anos e tudo parece ter uma ordem
Demasiado cruel, impossível fugir à passagem, às omissões
E às escolhas, tu espremido pelo pulso invencível do tempo.

Tallinn

13.10.2014


João Bosco da Silva

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Vejo Gente

“weirdness feeds on itself”

Hunter S. Thompson, Screwjack


“Spilled your fat looks
Smoked out cow pokes
Sequinned mountain ladies
I love you all”

Frank

Vejo gente com hormonas a saltitar, com os filhos dos outros, armados em fofinhos,
Eu coleciono latas vazias, livros lidos, quase novos, quem quiser comprar, levam o
Meu nome e data de compra, tudo literatura de urinol, abre olhos, no pior dos
Casos conjuntivite por clamídia, a gente também podia ser mais limpa, não digo
A nível de moral, mas pelo menos, menos hipócritas, limpos em assumir aquilo que
Querem e são, de cá, parece tudo melhor e pior, quem veste é pago para parecer bem,
Como quem lê para agradar ou espera um lambidela nos tomates ou no grelo,
Eu espero o Inverno e sei que será fodido, como é sempre, mas também o Jim
Era fodido e passou, ainda há ecos, claro, e pés frios, mas nada que a solidão
Não aqueça no desespero dos cabelos brancos e nas lágrimas desperdiçadas
Porque se julgou que era a hora, a última hora e agora é esperar para ver,
Vejo gente com o pito aos saltos, com bebés alheios no colo, esperando piças,
Esperando mamar leitinho quente do amor dos outros, porque sabe sempre tão bem,
Chupar no amor alheio e sair ileso, apenas com a marca de um pecado e uma
Consciência lavável à máquina, até ao micro-ondas pode ir, em caso de alergia
A roupa interior arrefecida na varanda, também escreves poesia, pergunto,
Andaste a aprender demasiado com outros, esquece tudo, compra um tractor
E deixa-o abandonado contra uma acácia numa reserva qualquer para turistas
Lá para os lados do Quénia, alguns verão aquilo como uma lição de surrealismo,
Tu se fores eu, verás aquilo como um dedo no cu, uma lição de decadência,
De vida, se fores eu,  ficará marcado na tua alma como aquela tarde
Pelo Chiado e barracas, quando eras novidade, torga fresca, arrancada do
Gelo nórdico na esperança de olhos e menos subordinação às raízes apodrecidas
Pelo amor ao caruncho e fungos amantes da humidade sem uso,
Isto é isto, e eu amo-vos a todos, como diria eu se fosse cantor e louco,
Mas não posso, tenho vidas todos os dias além da minha e sem saberem,
Agradecem a minha lucidez e a minha sublimação sem arte nenhuma. Amén.

07.10.2014

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Burro De Big Sur

“One fast move or I´m gone”, encerrado num Sol de meia-noite eléctrico e uns copos de
Auchentoshan, da terra dos que recusaram a independência depois do actor católico
Ser eviscerado em público, não quero chegar a lado nenhum, não quero encontrar sentido,
Não quero ir além disto, quero apenas ser real e simples e tocar como a solidão,
Quero imortalizar um momento banal, tão precioso e único como qualquer outro,
Quero tornar um burro numa personagem imortal só porque tocou a minha
Existência, pena não ter poder para tornar a morte dos meus em algo histórico,
Custa-me que a morte de um burro seja mais celebrada, acreditem, eles beberam mais
E eu agora tento escrever por eles, tiveram burros, pertenceram-lhes, provavelmente
Comprados em feiras aos ciganos e agora vivem, ou ecoam, em mim, e em sete ou quinze
Que poucas mais décadas durarão, somos umas décadas, décadas, depois fica o que for
Lido, não o que for escrito, há demasiados em mansardas cheios de sonhos, não haveria
Espaço nas bibliotecas nem no mundo para todos os sonhos do mundo de cada um,
Mesmo assim cheira tanto a estrume numa biblioteca quanto numa terra fertilizada
Pelo estrume de equinos, a diferença está apenas na fertilidade, nas livrarias sem alma
O cheiro é diferente, é mais a estrume de suínos, a garrafa desce e eu continuo
No delírio rasgado a preto no branco, acreditando que ainda há possibilidade de um eco
Depois de me calar por obrigação orgânica, agora, puxo a rolha de cortiça da garrafa
De whiskey, verto no copo um pouco mais de lucidez e vou ter com o Jack à desolação
Do Big Sur num extremo igualmente cheio de solidão e outros vazios libertadores.

25.09.2014

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Sonhos E Afogamentos

Tenho tanto para dizer, mas atropelam-se as palavras, tu sabes, como quando
Te quis beijar e quase te engoli toda com os olhos, disseste que não me dava o suficiente
E tinhas razão, acredito que tinha cara de quem ia acabar afogado, olhar para ti
E ver-te tão presente era para mim, à distância que separa o toque, uma apneia,
Houve qualquer coisa que foi morrendo de hipoxia, enfartou, deixei de poder sentir
Que me afogava quando os olhos mergulhavam com vontade em alguém,
Talvez porque não voltei a atirar-me assim, ou aprendi a nadar demasiado bem,
Tão bem que deixei de sentir a água como lugar estranho, penetro-a por vingança
A mim mesmo, apesar de já não me convidares para uma cerveja em salões de chá
Na cidade antiga, ainda me surpreendes em sonhos, mas neles sorrio-te sem aflição,
Beijo-te e sinto apenas o prazer do teu toque, ou o prazer que o teu toque
Me daria, e simultaneamente, com a mesma naturalidade com que se sorri ao ver
Uma borboleta no nariz de alguém, enfio-te devagar um dedo e sinto-te demasiado
Apertada para seres real, significa outra coisa completamente distinta, é um sonho,
Ou talvez seja como o cachimbo do outro, o que sinto no meu dedo, ou no que o cérebro
Diz ser o meu dedo, sem o estímulo externo do teu diâmetro quente, sinto apenas
O prazer de ti, como naquela noite em que levei o teu cheiro íntimo e no peito
Nada se movia, só fora latejava a vontade que não cheguei a verter em ti,
Vingança contra mim mesmo, tantas vezes te encontrei em ninguém, nenhuma
Voltou a ser tu, quase os teus lábios, um dente parecido ao teu, a cor do cabelo
Quase quando o Sol num certo ângulo, livros, mas diferentes, nunca a mesma
Dicção afiada e olhar com a profundidade de milénios, mesmo que me alivies
Nos sonhos a fome da tua presença com uma não autorizada, julgo que só a boca
E as mãos e a pele toda, sem palavras, poderão dizer tudo de uma vez
Quando me voltares a ser de carne e cheiro, não me lembro do teu cheiro nos sonhos,
Nos sonhos sofro de anosmia, mas lembro-me bem dele quando te senti fora de mim.

20.09.2014

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Um Nela Outro No Tapete

“I think sometimes of all good
ass
turned over to the
monsters of the
world.”

Charles Bukowski, Burning In Water Drowning In Flame


Era a segunda vez que a via, tinha uns dezanove anos e parecia ainda fascinada
Pela vida na cidade e ainda se sentia livre, tinha vindo ter ali porque sabia
Que eu lá estava, as mamas pareciam maiores do que realmente eram, é o importante,
Tinha bebido, eu mais, disse que não podia demorar porque tinha um amigo
A dormir no tapete em casa dela à espera, então tinha que me despachar,
Era difícil falar com a música, melhor, haviam mais olhos, enquanto a olhava
Nos dela ela desvia o olhar para os meu lábios e leva logo com o que pediu,
Fingiu-se surpreendida, mas confessou ser o que estava à espera, sim,
Estava a ver que nunca mais, saímos os dois do club até um beco escuro
E quase escondido, encosto-a a uma caixa de electricidade, exploro-lhe a pele,
O tamanho real das maminhas até lhe chegar com o dedo ao grelo, aí
Ela realmente se sente surpreendida, como que se lhe tivesse ligado
Um interruptor qualquer, fazes isso tão bem, deixo-a a escorrer, acredito que
Estivesse a ser sincera, meto-lhe a gaita nas mãos que ela agarra com voracidade,
Bate com força e a um ritmo perfeito, quase me faz vir contra o seu púbis
Rapado há uns dias, sei que naquele momento alguém deve estar a pensar
Em mim, ou não, sei que não tem a minha gaita na mão, também sei que há
Cães em tapetes e outros sem tanta sorte, sinto perto um gato a saltar
De um caixote do lixo, sinto o cheiro azedo do mesmo caixote, misturado
Com o aroma da cona pronta para a foda, custa-me a manter o leite
Longe dela, no hospital ali perto alguém muito verde agoniza com uma
Barriga colossal cheia de líquido, posso ser eu daqui a uns anos, foi alguém
Que me morreu na infância e com ela, aproxima a glande dos lábios
E esfrega-a neles, deixando-a lubrificada e pronta para a penetração,
Engulo em seco, lembro-me do cheiro a cera nos cemitérios e de como
É pecado pisar nas campas, então a gente começa a sair do club,
Quebrando o transe, vamos até aquele adro foder, temos que foder,
Não podemos ficar assim, apertamos as calças e então os meus dois amigos
Vêm ter comigo, bêbados, fica com os teus amigos, eu tenho que ir,
Agora já não ficas só, tenho o meu amigo em casa à espera,
Não insisti, para alguém esperar no tapete, tem que gostar mesmo
E é triste, acabei a noite de manhã numa padaria a comer pão fresco
E beber cerveja com os padeiros e os dois amigos, com os tomates inchados
E tive pena do que a esperou deitado no tapete, que era amigo,
Espero que não tenha adormecido com fome, eu nunca mais a vi.

Turku

19.09.2014


João Bosco da Silva

domingo, 14 de setembro de 2014

Henry Chinaski

Ela escreveu-me a dizer que me lia de bikini, ao Sol do fim da tarde quente da California
Durante as suas férias da capital, disse que fui a companhia no crepúsculo dourado,
Os seus olhos nas minhas palavras, nos meus pensamentos solidificados, transferidos
Para dentro daquele corpo salgado e brilhante ao Sol, as virilhas deliciosas,
Encontrei-a uma vez na apresentação de um livro de poesia, o seguinte ao que
Ela andava a ler, reconheci-a ao entrar pela foto que me tinha enviado, sentada
Num bar conhecido, sorriu-me como se me conhecesse melhor do que muitos
Amigos de carne e anos, durante a apresentação a presença dela era vibrante,
Sentia-lhe a vontade à distância, e o gosto dos whiskeys que tinha emborcado
Antes para coragem, tornavam aquela vibração mais forte, enquanto assinava
Uns livros ela saiu, nem chegou a vir ter comigo, mas sabia que a ia encontrar,
Acabo de assinar o último livro e de dar o último gole na cerveja já quente,
Saio para a festa que se seguia àquilo, para amigos e conhecidos, ela estava lá,
Vem ter comigo, como é que é, pergunto-lhe, ela ri-se como se aquilo fosse
A melhor frase de engate que tinha ouvido na vida, o resto da gente parece ter-se
Tornado em barulho de fundo, apenas isso, ela falava com um entusiasmo
Típico dos vinte e poucos anos, trazia uma saia curta e as pernas nuas,
Bebemos tanto quanto falamos, até que me dá vontade de mijar, e lhe digo,
Vamos mijar, saímos os dois até ao jardim, estava vazio, saquei a gaita fora
E mijei, depois de a sacudir viro-me para ela enquanto a meto dentro
Para ela a ver, ela esperava encostada à parede, aproximo-me dela e digo-lhe,
É assim que vai ser não é, é o que queres, enfio-lhe a língua na garganta
E um dedo na rata, estava molhada, já devia estar à espera daquilo
Desde os fins de tarde em bikini, provei o sumo dela e partilhei na sua língua,
Tinha um sabor e um aroma delicioso, salgado e quente, como a tinha
Imaginado a ler-me ao Sol, desvio-lhe as cuecas para o lado e tento entrar nela,
Estava demasiado bêbado para a comer de pé, ela ri-se e diz-me, não pensavas
Que fosse tão alta, de facto era difícil enfiar-lha assim, deito-a sobre uma mesa
De pedra, ela tira as cuecas e finalmente escorrego para dentro dela sem dificuldade,
Estás a ser fodida por um poeta, digo-lhe e vejo-lhe os dentes a brilhar ao luar,
Tinha uma cona insaciável que me fez vir apesar da bebedeira, contudo, antes
Pergunto-lhe, posso-me vir, ela entre suspiros pede-me que o faça e descarrego
Tudo em cima da mesa entre as pernas dela, salpicando-lhe as nádegas
E as coxas, ela sem se limpar, veste as cuecas e regressamos para a festa
Como se tivéssemos ido apenas apanhar ar fresco, tantos anos a escrever
Poesia em quartos bafientos, entre uma solidão esmagadora, tantos anos
Em multidões e sem uma cara, todas aquelas noites de tesão seco à janela
A ver as putas a ir para o trabalho, tudo teve que fermentar para agora
Se poder beber o sumo quente que escorre dos lábios tocados pelos
Meus versos, penso que depois daquela noite, nunca me voltou a ler,
Tinha provado o último poema, o poema mais sincero e real, tinha comido o poeta.

14.09.2014

Turku


João Bosco da Silva