domingo, 15 de fevereiro de 2015

Ronco III

“flowers stink beauty rots gods die”

al purdy

Os olhos já não me perguntam, o que te falta fazer, perguntam-me, o que te faltou fazer,
E o cabelo anui, confirmando o que os anos redondos levam, os fantasmas decidem,
Depois de anos de silêncio, abrir os lábios carnudos, para anunciarem a absolvição
Dos seus hábitos canibais, a glória redentora, a passagem da estafeta do pecado tão
Pouco original, como que dizem, não soubeste fazer mais nada a não ser cornos, olha agora
O que os cornudos sabem fazer, de certo não lhes engoliram as probabilidades,
A festa acabou há tanto tempo, já se levantaram muitas feiras e as calças brancas a estas horas
Já nem devem servir, ou não se baixam com a mesma pressa até às coxas e um alívio quase
Dentro, atirado para o silvado ao lado, aqueles lábios a brilhar ao luar, ou se calhar só
A cerveja a fermentar, os mesmos lábios no cemitério, aquela surpresa nos dedos,
Dançando como as chamas das velhas, escorregadios, que beleza haverá nisto tudo,
Que lição e para quê, se no fim se rasgam, se apagam, secam, e até os olhos estranhos,
Como as glórias absolvidoras do canibalismo das calças brancas, a sua sede de joelhos
No chão na hora em que os sonhos morrem e fica apenas o cheiro entranhado no hipocampo.

Riga

14.02.2015


João Bosco da Silva
Impressões Sobre O Vermelho

Tem que se inspirar bem fundo antes de se mergulhar na nata ex-soviética, suster
O olhar, ignorar a decadência, a negligência, o vandalismo típico dos cancros,
Até se passar pela biblioteca, atravessar a ponte e finalmente entrar no esforço
De liftings e reconstruções de maxilares mal tratados por tantos impérios,
Olha-se para o passado com aquela nostalgia impossível e reconstrói-se a destruição
Sofrida na última grande guerra, como se as outras pequenas, e pergunto-me se
A fria não terá degradado mais ao longo das décadas sem morteiros, os porcos
Ainda por todo o lado, nas igrejas de lenço na cabeça perguntam se também,
Não, nada disso, o Neva mais além, agora há fronteiras entre cá e lá, será que sabem,
Nas igrejas adivinha-se explosões lá fora, de um lado com vidros sem com
Enquanto que do outro, ainda alguns vitrais coloridos, ou talvez o vento,
Uma tempestade, há uma estranha simpatia forçada nas mulheres, o mesmo
Amor ao bisonte e aos vidros fumados, o olhar num ponto das calças que não é bem
O que se quer, talvez só o frio, no fim tudo são trocos, o agradecimento nunca
Baixou calças a ninguém, contudo, fica sempre bem, além da ponte fica a cara de manhã,
Fica a cama à espera de quem lava os pratos, fica o pesadelo, o frio, as recordações de medo,
Falar a língua com que se pensa, só em casa, ou talvez não, as ruínas levaram muitas camadas
Nestes últimos anos, parece que a cidade está a levar transfusões desde o coração,
Há cor, o gigante distrai-se com os antigos desastres, há vergonhas que se insistem em reviver
Até se tornarem orgulho, lá longe neva no Neva, aqui estás muito bem sem eles.

Riga

13.02.2015


João Bosco da Silva

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Ronco II

Um gajo esfarrapa-se todo por estes gajos e nada, esta gente toda,
Que vive e pensa e sonha e teme e deseja e fode, engole, fodia mais
Se lhe baixassem as calças por serem todos tão especiais, mas nada,
Um gajo pode ser grande, mesmo muito grande, mas não existe
Enquanto não entrar em alguém, precisámos de olhos como do corpo,
Com o tempo fala-se com árvores, pedras, deus até, a água
Engole-se , mas antes agradecemos-lhe a frescura, é isto, mas um gajo
Esfarrapa-se todo, arma-se em mutante dos nervos, nem um pássaro
Se levante, abre-se a janela, um frio terrível, nem dá vontade de grandes
Gritos, abre-se mais uma garrafa e grita-se ao contrário, engole-se pronto,
Não vale a pena, são todos umas putas armadas em santas,
Uns miseráveis gordos de fome e solidão, querem é beiça
E prepúcio retraído, nem é papel, é mesmo fome de um sovaco azedo
Que os abrace, anda um gajo a esfarrapar-se por isto,
Há fomes piores, o musgo seca, o menino jesus do presépio
Não tem mãos, os olhos parecem que enrugaram e o menino
Que não morreu, parece apodrecer no colo que rejeita
Porque agora é homem, anda um gajo neste negócio de pérolas,
Para os porcos dormirem sossegados nos palácios que os burros admiram.

07.02.2015

Turku


João Bosco da Silva

Poema lido por Marlene Babo: https://soundcloud.com/mar-babo/poema-joao-bosco-da-silva
Fumo E Espelhos

Fujo porque todos sabem sempre tudo e conhecem-se todos
E a mim que me custa tanto equilibrar nas palavras que se me soltam
Dos lábios demasiado finos para levar um murro a sério,
Fujo antes da diarreia tomar conta da minha alma e não conseguir
Nada mais que fulminações de um castanheiro velho num dia
De tempestade, a fazer de conta que faço portas de inferno,
Fujo porque não consigo contar mais os estilhaços do espelho
Onde me verto, para lá do reconhecimento possível após
A transição dimensional em cantos escuros com bruxas receptivas
A insultos em forma de ejaculações, dizem que manchas da cinza,
Fujo porque sei de cor a coreografia dos olhos e a vibração
Dos dentes espantados por ruminâncias desesperadas de colo,
Fujo porque o Kerouac assim aconselhou, provavelmente quando
Já demasiado tarde e longe num delirium tremens loiro,
Fujo porque tenho sede e não se pode escrever com tanto ruído
E também este poema deve valer uma cerveja, fossem os gostos de lúpulo,
Fujo porque estou a mais e sei que estou a mais, porque somos tantos,
Todos desnecessários nos olhos dos muitos que têm o direito de estar,
Fujo porque me esqueci de rapar o pêlo e não gostam de macacos
Dentro de bibliotecas, mesmo que escrevam com a própria merda,
Fujo antes que fujam de mim, porque é pior quando escolhem esquecer,
Ou não esquecem, mas desviam os olhos do espaço que ocupámos,
Fujo porque não é que não goste deles, mas prefiro que estejam quando
Não estou com eles, e há tantos, legiões, fujo porque tenho medo de multidões
E os olhos mudos são avalanches de acusações que esmagam quem os ouve.

06.02.2015

Turku


João Bosco da Silva
Radiação Hawking

Deixai-me os tomates em paz, não ando aqui para cheirar, respiro e vai o
Que se arrasta, não faço disto carreira, só tiro, deixai-me estar a barba,
Bem piores são as unhas e tenho que me preocupar em mantê-las  sempre
Demasiado curtas, incomoda escrever com as unhas compridas,
As palavras rasgam carne suficiente, sem deixar marcas, às vezes,
Quem diz que o órgão maior é a pele, é porque vê muito pouco,
Está dito, que engula quem quiser, no fim ao menos pergunte-se
O que aconteceu ao futuro, engoli, com orgulho, é um gesto de reconhecimento
Perguntar, engoliste, tudo, até o luar pareceu desmaiar durante um momento,
Se há um buraco negro no centro da galáxia, não sei, mas tenho conhecido
Alguns, bem luminosos e de lábios vermelhos, vai tudo, por todo lado,
Os versos são o que sobrevive ao horizonte de eventos, o futuro limpa-se
Do batom, puxa as meias e as cuecas para cima e acende um cigarro,
Supostamente a luz não devia escapar, mas nem os tomates,
Há abismos que os olhos não podem esquecer e com isso
Trazem-se sempre dentro, no fundo, nunca se escapa verdadeiramente,
As unhas continuam a crescer e a incomodar, mesmo que os restos
De epitélio alheio sem perigos de rastreamento, deixai descongelar o inferno,
A vossa hora chegará e a salada estará pronta para quem estiver de dieta,
Ou quiser parecer bem, ou não houver mais nada que escape, aos buracos negros.

06.02.2015

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Ronco

“ – the poem oughta be worth some beer”
al purdy

Enquanto continuarem a dar ouro pela merda dos dentes branqueados
Pela ignorância, enquanto endeusarem a arte de ter sempre razão
Sem saberem nada além de rapar os pêlos entre os olhos,
Enquanto se deixarem hipnotizar por letras de canções que
Podiam ter sido escritas por miúdos da quarta classe que já tocam punhetas,
Enquanto os olhos estupidificarem tudo em que tocam
Por culpa da ligação directa da região occipital aos tomates e à ganância,
Enquanto usarem só o espelho para ignorar a passagem dos anos,
Acreditando que a imortalidade está nos balões que insuflam com agulhas,
Enquanto se achar que a cor da camisola melhor porque minha,
A cor da pele melhor porque minha, o sotaque melhor porque meu,
Enquanto se usar deus como o papão, quando se quer e convém,
Como quem está sempre doente quando têm que se tirar as mãos dos bolsos,
Enquanto houver os que apesar de não terem televisão,
Aparecem mais do que o que escrevem e vendem-se ao holofote mais forte,
Enquanto houver os que estão tão fartos de toda esta merda
Que se deixam afogar em goles intermináveis e rasgam-se pelos dedos,
Enquanto houver os críticos que criticam só porque não sabem
Fazer mais nada e querem sempre ficar por cima, mesmo que capados,
Enquanto houver cegos por opção, porque dentro deles o mundo melhor
E mais vale ficar enterrado numa avalanche que ser coberto de merda,
Enquanto houver os que fodem para se encontrarem dentro, fora deles,
Ou na submissão dos outros e os que são pagos por isso,
Enquanto houver espaço na página e a pastelaria ou o café
Estiverem abertos, enquanto houver tinta, enquanto o sangue não arrefecer,
Enquanto o mundo for mundo, será tudo uma valente merda,
Ao menos não escondam o focinho nem a piça em espiral, ronquemos irmãos.

02.02.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Nada De Ti Ficará Quando Eles Se Forem

Que será da cidade agora que todos se foram, agora que só as recordações
A definem, inseguras, seremos um delírio, em que vida, terás sido tu,
E o rio também na dúvida, já nos tínhamos visto antes, uma ruiva contigo,
Agora não, as janelas fechadas escondem um mundo que aos poucos
Se volta a desconstruir, os bares agora sem palavras, só ruído e a solidão,
A certeza de estares longe do tempo, também um dia deixarás de te pertencer,
A cidade agora é dos que acabam de chegar, dos que ainda têm as malas
Por desfazer com a roupa lavada no fim de semana, a cidade é dos pombos
E dos que os alimentam com cada dia do ano, gastando calçadas,
Gastando quem não ficou e estendendo a mão como se a primeira vez,
Quando tantas vezes à hora do almoço, ou ao fim da tarde antes
Do refúgio de paredes finas a bater nas teclas com força para
Que soubessem que ali alguém, a ser esquecido noutros lugares,
Em qualquer lugar, quando se está só, está-se sempre longe,
Não há dedos suficientes para tapar tanto buraco e não se pode
Ser para sempre em ninguém, só a cidade é eterna, mesmo que
Troque de carne como quem troca de pele, resta a memória, insegura,
Terá sido com ela, ou já teria passado o deslumbramento, as paredes
Não respondem, nunca respondem, e a cidade cresce com o vazio
Que deixa, agora que todos se foram, agora que tu te foste,
Mesmo que julgues cruzar-te contigo mesmo, nas ruas que já te esqueceram.


30.01.2015

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Bucólica Com Latas De Conserva

“Não te deixes invadir por essa ternura delicodoce, fanada, a saudade à portuguesa; endurece ou sucumbes.”

Sebastião Alba

Palmilhavam-se as ruas lamacentas, os amontoados de lixo entre giestas
Ou em pinhais dos vizinhos à procura de latas de conserva vazias,
Roubavam-se pequenos pedaços de tábuas, umas rolhas de cortiça,
Ou cortiça bruta, quem tivesse coragem nos dedos tenros,
Uns pregos baratos, alguns transplantados das mesmas tábuas
E faziam-se carrinhas de caixa aberta, cada lata uma marca,
DQW as melhores latas de sardinhas em molho de tomate,
E depois disso procuravam-se os ossos de um guarda-chuva e das varas
Faziam-se flechas para atirar aos cabos descarnados que cortavam
O céu de um poste ao outro e lá tinham as mulheres que ir de lenço na cabeça,
Porque o frio da serra é gelado, buscar velas porque os garotos
Provocaram um curto circuito que apagou a aldeia,
Tocavam as trindades, e lá íamos comer arroz de tomate
À luz da vela, lá fora as carrinhas de latas de conserva
Estacionadas à espera do amanhã e do resto do futuro, quem
Tinha sorte tinha tractores de cortiça que o tio ou o pai esculpiu,
Os ricos tinham-nos de plástico comprados na feira da vila,
O arroz, lá se comia, porque apesar de não se gostar de tomate,
A luz da vela não era suficiente para se lhe sentir o sabor,
O pior eram os trabalhos de casa, que desencarrilhavam
Naquela curva perigosa entre amieiros a caminho da cidade.


26.01.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

“Allen Ginsberg at Home.”

Abrir um livro de Allen Ginsberg e logo ali, na cara, a impossibilidade do regresso,
A constatação da perdição, “Home I´ll never be”, o poeta sentado à esquerda,
Mão direita na barba e em baixo a descrição impossível, para mim, eu que me sento
Na mesa da cozinha enquanto a minha mãe faz o jantar, tão longe de mim, “Allen
Ginsberg at home.”, com um horizonte que me parece familiar, em casa, como posso
Estar onde não me encontro, inspiro dentro de uma revista de banda-desenhada
De mil novecentos e noventa e quatro e o cheiro agora a velho, húmido, cansado,
Um reflexo da minha testa, têmporas e motivação, só os escorpiões, de patas para o ar,
Se mantêm e eu ainda tenho pesadelos com os pés descalços em fragas cheias deles,
O meu quarto agora impossível de mão esquerda na barba durante horas, a arrefecer,
Tudo a arrefecer em direção à entropia estável dentro, o Ginsberg em casa,
Num descampado qualquer, com um monte no horizonte, podia ser no lameiro do meu avô,
Onde me procuro sempre que tenho oportunidade de fugir e só me encontro
De olhos fechados, por instantes, como um orgasmo que quase quase e dentes a derrubar
Tudo, aquela fotografia é o meu poema favorito do poeta barbudo, a perdição da casa,
A progressão irreversível do afastamento próprio até a memória de nós se perder
No horizonte, casa tornou-se no lugar do regresso impossível.

Torre de Dona Chama

15.01.2015


João Bosco da Silva

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015



Eu Monstro


"Direi da minha vida
não é plena mas contém-me."

Sebastião Alba


Tenho em mim a ressaca de todos os livros que li,
Não culpem a inocente cerveja do arraial,
Não sou má pessoa, mas sei que a gente é ruim,
E lá no fundo só esperam um aberta para te foderem,
Dizem-me paranoico, eu digo que tenho memória,
Vão perguntar ao Kurt enquanto engole toda a dor
Na eternidade, em forma de chumbo derretido,
Nada melhor para as cãimbras da madrugada do que
Uma violência dirigida ao alvo de toda a realidade,
O corpo que a constrói e que se gasta no processo,
O Rimbaud escrevia entre galinhas, outros escrevem na
Companhia dos figos e das recordação agarradas aos muros
Cansados das longas ausências, nunca te vendas
Ao ponto de deixares de te poder dar sem interesse,
Evita a missa e ri-te dos hipócritas das procissões,
Hoje não é a lucidez que fala, mas o pó acumulado
Ao longo dos anos que se levanta, ganha formas no ar,
Espadas, reis, outros homens de barba, fantasmas,
Delírios de aldeia, quantos pecados devem ter alguns
Devotos, para se verem na necessidade de levarem
Um golden shower de um padre pestilento e hipócrita
Como as fundações da moral cristã, que sujos
Se devem sentir para se levarem no esperma
Amaldiçoado do homem de deus dos homens mascarados,
O deus das figueiras e das galinhas não perdoa,
Nem chega a condenar, limita-se a não existir
Na certeza de que o amanhã não será geral,
Tal como a ressaca e os suores nocturnos dos perdidos.

Torre de Dona Chama

09.08.2014


João Bosco da Silva

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Fuck You All – Happy New Year

como te percebo Sebastião,

Deixa lá, ao menos estiveste bem para ti, já foste demasiadas vezes
Nos outros e agora, nem um contágio de ti neles, deixa-te morrer para o mundo,
Mesmo enquanto te olhas no espelho, não te merece, mantem-te nesse teu
Universo, dorme muito, sonha mais, o resto é ruído e fome e medo e carne,
Não dês mais oportunidades a comparações, és irrepetível, até o padrão
Estrela do teu cu é único, querem é foder-te com os olhos e fingir-te invisível,
Não te dês mais, escreve sobre os tempos em que eras capaz de te interessar
Pela podridão e davas dentadas em maçãs demasiado maduras para a época,
Deixa lá, a cama é o teu trono, os teus dedos a tua memória mais fiel,
O copo o teu melhor amigo, mesmo que te mate aos poucos,
Também a vida sem copo te mata aos poucos, sonha, acorda tarde se puderes,
Pode ser que lá encontres os teus amigos, te encontres a ti, a caminho da escola,
E possas roubar umas uvas ou uma sombra ao lado de um silvado,
Morreste há tanto tempo que nem deste conta que agora,
Estás só a apodrecer, nada em ti resta além da saudade e Agosto ainda tarda
E não é mais o mesmo, podias muito bem ser os ossos do teu cão morto,
O caixão do familiar que nunca encontraram, mas ainda incomodas,
Ainda invertes o copo cheio e tornas a página vazia numa circunvolução
Enquanto a consomes no esquecimento, em cuecas, porque nada mais.

01.01.2015

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014


R.I.P. Joãozinho

Que interessa o que o mundo,
Quando o teu mundo só teu?
Cumpriste como só tu podias cumprir,
O que esperavam de ti era só o que eles esperavam.
Só porque um caminho menos escolhido, errado?
Putos idiotas, todos, porque tu da idade do tempo.
Quantas gerações se tornaram aborrecidas,
Enquanto tu ainda a festejar, bêbedo mas a festejar.
Putos parvos quando crescem e se tornam sérios,
Sérios amargos cheios de ressentimento porque o tempo os obrigou
A ser adultos sérios e responsáveis.
Sérios são os mortos quando não morrem a sorrir.
Amanhã não quero morrer que é festa,
Haverá a festa, mas tu já não estarás,
Porque a tua festa, que foi a vida, acabou.
Puto, diz-me ele, vós é que estais todos mortos.

13.02.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

É O Que Se Arranja

Quando há demasiado vazio, aquele que nos empurra para a inconsciência
Do sono, os vidros das janelas demasiado silenciosos, nem embalam
O ritmo dos versos que dentro a fazer de ovelhinhas a adiar a queda,
É o que acontece, quando a chávena quase vazia e a garrafa a ser só ecos
Dentro, enquanto se espera uma resposta ou um olhar a reconhecer
Que estamos vivos, durante um lenço de papel e um esquecimento
De bolso ou a necessidade maior, na espera de uma partida, como
Se a própria espera não fosse já ter partido, quando os passos
São tudo o que nos acompanham e o ranger é a certeza que ainda somos
Um peso qualquer neste planeta de voltas e mais voltas, sincronizadas
Pelo relógio adaptado às necessidades da solidão universal,
Daí isto não precisar de ritmo, os segundos esticam e encolhem
De acordo com a velocidade dos dedos ou da ausência de gente
À volta deles, isto é o que acontece quando matam aquele que nunca morre
E nem se quer ver, porque no fundo é só para que hajam mais olhos
Na direcção do vazio, quando o vazio tudo o que empurra isto
Para onde a luz que tudo revela, isto, que é apenas o que há, quando
Nada mais parece haver, a não ser segundos que passam por nós,
E só o eco das células que morreram a deixar o vazio que inquieta
A nossa sensibilidade de inútil testemunha do desperdício próprio,
O que esperas, a estas horas é tudo o que se pode arranjar, um poema.

26.12.2014

Turku


João Bosco da Silva
Reminiscências Natalícias Em Toalha Azul

Que tal vai por aí o tempo, ainda há tempestades vindas de África,
E morrões de areia e esperma na praia dos encontros súbitos das noites anteriores,
E esse Natal, como se passou sem a toalha azul a limpar a barriguinha que ao contrário
Do esperado pela entropia e a natural fome humana, encolheu, não pela contínua
Digestão de futuros esquecidos em pequenas mortes, o meu digo-te,
Já foi pior, com duas formas de cozinhar bacalhau em forma de solidão vingada
No degelo ao pé do aeródromo quase escondido do Google map,
A vida tornou-se em algo muito estranho para quem não fez mais nada
Dela a não ser vivê-la, as certezas agora muito menos que há uns dez,
Cinco anos atrás, a areia parece que acelera e deixei quase tudo o que faz mal,
Agora quase que sou um exemplo, num canto, onde ninguém quer pecar,
Que boa pessoa se é quando a felicidade não se nota na noite curta da existência
Dos outros, passar silenciosamente, uma raposa sem rabo a enlouquecer
Entre uma rede e outra, devias lembrar-te de mim, ao menos no Natal,
Afinal de contas estavas armada em Pai Natal e perguntavas-me o que queria,
Eu como sempre, isso ainda não perdi, estava bem com o que de ti me envolvia,
Nunca me queixei muito, em vez disso poesia, que incomoda só aqueles
Que em vez de fazerem poesia da vida querem fazer vida da poesia,
Deviam acreditar em quem raramente faz a barba e passa fome por
Ou sem obrigação, apesar de a neve ter substituído a areia e a possibilidade
Do contágio ter sido substituído pelo contágio confirmado dos outros,
Isto continua a ser um poema sobre o Natal, os universos sobem e descem neste
Mesmo, e deve haver um onde o tempo, tempo, tempo, o mesmo,
Com vinte e cinco graus ressacados na manhã de Natal, com os tomates
Vazios, ou menos cheios, em direcção ao futuro, a este poema longínquo.

Turku

25.12.2014


João Bosco da Silva

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Encher Chouriças

Enquanto o sangue pinga para o chão da garagem, já tenho as tripas lavadas
Com a água fumegante do rio numa manhã de geada, é o que isto é,
Um poema nos olhos dos outros, as palavras não perderam a cor com os anos,
Continuam as mesmas a gozar com as têmporas nevadas pelos desgostos,
Ou nem por isso, só a vida, os dias somados a fazer anos e aqui se está,
A engolir segundos atrás de segundos sem gelo, porque chega o frio que está
Fora a reflectir a distância glaciar do que dentro se esgota, ambos sabemos
Que não há salvação, por isso continuamos, olhamos o rio num dia de Verão
E somos nós, tentamos ignorar os sacos no fundo que foram arrastados
Desde a ponte e agora só ossos de cães e gatos mal nascidos, nós aquilo tudo,
Aqueles cadáveres inocentes e indesejados, frascos de herbicida, pneus,
Uma pá enferrujada, peixes asfixiados pelas oscilações dos vizinhos,
Gota a gota, o caudal engrossa à necessidade de pontes, de abraços,
Ou apenas a vontade deles, porque a distância, sempre a distância
E somos todos uma cambada de hipócritas, porque quando perto,
Todos cheios de espécies e cerimónias, bichos brutos com talheres de prata,
Às vezes é preciso parar na ponte romana para respirar um Kentucky,
Ou esperar pela noite para revelar a amizade sincera, é o que nos salva
Do ruído, tanto ruído, cada vez mais ruído, nem se consegue fazer barulho
Nos ouvidos dos outros, dos que merecem ouvir, dos que precisam ouvir,
Mas não conseguem, tal é a saturação da diarreia bem sustentada
Por nomeações de direitos entre eles, a estas horas devem estar
A banhar a carne em vinho, tu conheces bem o meu hálito, apesar
De lavar os dentes com a cinza dos anos e ela ser sempre fiel ao irrepetível,
Ambos gostamos à nossa maneira dos grilos no Verão e dos urinóis
Em horas de aperto, apesar de o cheiro a ureia me fazer lembrar
Grades de snappy e de tupperwares quentes envolvidos por panos
Da cozinha, em postos da guarda-fiscal em mil novecentos e noventa,
E da boleia do padeiro a quem dava um Fernando Pessoa por pão
Quando a mãe me dizia que já era um menino grande,
E as geadas sempre foram tão grandes nas mãos pequeninas,
Mesmo com luvas que esticam, e sangue que pinga, uma última gota,
Confunde-se com a cor do vinho, seja como for, agora é cortar,
Curar, seja à força do sal, da distância ou do fumo da memória,
Nós sabemos o segredo, só ainda não o conseguimos trazer à consciência,
Traduzi-lo em palavras, mas estamos mais perto, hajam pulmões
Para deixar anéis de sangue nos lábios dos brutos, as tripas das chouriças
Estiveram em vida, cheias de merda, existe algo de delicioso nisto tudo,
Tudo é, morte e vida, engolir e deixar passar, até cair, como tudo em nós.

19.12.2014

Turku


João Bosco da Silva
Entrelaçamento Quântico Das Saudades

Enquanto aperto a cafeteira alguém diz, não queres fazer um café, longe,
Depois do jantar, com o crepitar do lume, as brasas a saltarem para o sofá
E as pantufas, quando a lareira ainda era aberta, ainda o é, mas não aqui,
Neste caminho, a minha mãe aperta a cafeteira e eu tenho saudades
Quando o cheiro do café começa a despertar-me o hipocampo do processador
Quântico de tempo, a memória tudo, o que se consegue evocar no momento
O que somos, ou seremos um reflexo distante e distorcido, inverso ou paralelo,
De uma mão a segurar uma chávena, e a levá-la aos lábios, despertando
Nos lábios distantes uma saudade de calor específico,
Defina-se inspiração, vontade, epifania com uma colher cheia de incerteza
Numa chávena de café, sem pires para ajudar na viagem independente
De todas a leis realistas, da saudade, não queres café, algo move a vontade,
Nas faces do dodecaedro, a mesma, de forma diferente, a infinita mesma,
Também a saudade não é prevista pela mecânica que faz subir o café.

19.12.2014

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 14 de dezembro de 2014

Férias De Natal Revisitadas

À espera estava a geada nas couves e nos ramos descarnados do marmeleiro,
O cão escondido do nevoeiro dentro de um bidão, hoje o bidão vazio,
Sem companhia no dia da festa à hora dos foguetes da tarde,
À espera a lareira, com a dança hipnótica das chamas, na sala
A um canto o chão coberto de musgo e palha e figuras de barro
Pintadas à pressa com o rigor devoto a um deus dependente do tempo,
Ao lado os embrulhos do costume, cada vez mais transparentes,
No quarto transferia-se a roupa do saco para o guarda-fatos,
Agora, abre-se a mala, tiram-se os livros para acompanhar
A lareira e deixa-se aberta, chegar começou a confundir-se com partir,
Agora nem se chega a tempo de ouvir a música, soldada
Algures numa fábrica escura da China, das luzinhas de Natal,
Que se guardavam sempre para o próximo e nunca aguentavam
A sua inutilidade no resto do ano, à espera estavam os serões
De roupão, os dias inteiros de pijama, o leite com chocolate
Quando se toleravam infantilidades mamíferas, à espera
Estava o ainda ter o futuro pela frente, o ainda não é para já,
Ainda se acreditava no nunca mais e no potencial de uma caixa vazia,
Escreviam-se poemas iluminados pelo crepúsculo incendiado
Na mesa da cozinha em folhas A4 roubadas da velha impressora,
Antes da mãe fazer o jantar e ainda havia aquela sensação
De ser algo especial, aquilo, aquela folha que era nada
Tornada poema, aquela emoção que era muda, um grito,
O cheiro das rabanadas salpicadas com canela e Enya do rádio
Que foi a prenda da irmã uns natais atrás, os caixotes do lixo
Temendo a avalanche que lhes cairá no dia de Natal,
O avô que não se julgava ser o último e afinal, os lábios roxos
Do vinho nunca mais se mostrarão contentes por estarmos
Todos juntos, nunca mais estaremos todos juntos, tudo se rasga
Como um embrulho, para se revelar o amanhã, e a surpresa
Perde-se para sempre e é impossível voltar a embrulhar o amanhã
E torná-lo no lugar onde tudo é possível, o gato deixa de estar vivo e morto,
E se está morto nunca poderá estar vivo, nunca mais, na vida ao menos
Sempre se têm duas hipóteses, mesmo que não hajam certezas,
Antes de se entrar, a lareira estará sempre acesa, o gato estará a fazer de cão,
E o jantar não tardará, por isso tenho que acabar esta geada nas couves
E nos ramos do marmeleiro, lá longe, onde me mora o Natal.

14.12.2014

Turku

João Bosco da Silva


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Coprologia Poética

Ando há semanas para escrever este poema, misturei tanta uva que nem sei,
Até enfiei umas amoras à mistura, era para ser algo sobre fazer pão de madrugada
Numa aldeia francesa, ou a rua deserta da noite povoada por cães vadios
De uma vila portuguesa onde restam poucos burros sob um luar de vinho tinto,
Era para ser destilado, entretanto decidiu-se deixar fermentar, pensou-se
Em usar um copo de whisky japonês, não whiskey, atenção que aqui não há brutos,
Hibiki, envolvido com uma manta Maasai enquanto a neve lá fora quase a crepitar
E dentro a companhia dos poetas irlandeses, mas não, ficou-se pelo material
Fermentável e pelo vento que varre a infelicidade das memórias e torna o passado
Num paraíso sem retorno possível, decidi beber antes de começar a esmagar tudo
Sob os meus pés sensíveis de croprologista, esmagando cada segundo com
A violência que me empurra os olhos contra o cérebro, é a vida, e é,
O estômago já aguenta tanto que passo semanas sem vomitar, e há cada vez mais
Santos, mais deuses, mais poetas e ainda mais críticos apaixonados pelas pinceladas
Do próprio cu no papel higiénico demasiado fino, pena não cheirarem os dedos,
Entretanto, fermenta, este poema não é o resultado, é o processo, não é poema sequer,
Claro que não, é uma merda, e têm toda a razão, mas é necessária e inevitável,
A diferença é que eu cheiro os dedos e lavo as mãos, o tempo dá outra forma ao açúcar,
Mas não sem ajuda, e é isto, não se vê, mas está lá, fermenta, a merda num poema.

11.12.2014

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

Equilíbrio

Aqui estou, naquele momento , antes de encontrar o equilíbrio na bicicleta,
A um segundo iluminado, do vento e do movimento, a rolar finalmente,
À volta deste planeta, sem rodinhas, sem a mão no selim a amparar,
Pelo caminho de terra, os castanheiros como testemunhas, sem deus,
Aqui estou eu, depois,  com a revista de banda-desenhada no banco
De trás da carrinha do meu pai, enquanto o Sol se põe, no rio
Da aldeia, a cuspir água após ter finalmente encontrando
O equilíbrio na água, naquele momento entre o balanço harmonioso,
Quase como se tivesse encontrado um sentido sem palavras,
Flutuando no corpo líquido, o meu corpo, a revelação,
Aqui estou eu, na missa de Domingo, segurando a cruz em direção
Ao altar, entre aquele momento em que havia Deus e deixou de haver,
Encontrando mais uma vez um equilíbrio, sem palavras,
Aqui estou eu, no limiar da aparição, da angústia e da solidão
Eterna até à falência multiorgânica que lava o mundo da nossa
Presença quase inócua, entre a inocência e a revelação,
Aqui estou eu, quase três décadas e ainda mal me equilibro
Nisto, na vida, neste mundo onde  tudo é permitido e possível,
Entre o impossível e o possível, sentindo os segundos marcados
Pelas estrelas, haja ou não luar, entre o olhar e o ver, condenado,
Abençoado, com os dedos a testemunhar outras vidas
E a deixar testemunho de um momento, entre o estar e o deixar.

04.12.2014

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 30 de novembro de 2014

Teoria Da Perdição Unificada

catalizada pelos Dire Straits,

Perder, é do que tudo depende, de perder, o cheiro a pólvora nos dias de festa
No Verão e aquela cerveja tolerada da grade, aquele sabor nunca mais encontrado,
Depois de milhares, tantas vezes umas atrás das outras, como se desespero,
Aquele sabor registado no limite do universo, o seu reflexo infinito e eterno,
Onde todos os sonhos esquecidos tomam a forma do fim dos tempos e aguentam tudo
Com a leveza de uma bola de sabão, o primeiro livro de banda-desenhada perdido
Sabe-se lá onde, também lá onde tudo, a ser brilho azul e rosa na membrana infinita
De sabão, onde tudo se reflete ao mesmo tempo eternamente, também o beijo
Atrás da carrinha do padeiro, depois das festas, já quando o Verão arrefecia,
Onde o universo mais frio, onde quase toca o vizinho e mais uma génesis
De cortinas, tudo por um emaranhado de filamentos, cordas em circunvoluções,
Um universo pequenino dentro de um volume insignificante à escala do futuro
Cada vez mais próximo, também aquela canção um universo criado de cordas
E as suas vibrações, nos dedos de um deus menor, envelhecendo ainda,
Tão longe de mim o que me trouxe a mim, o que me fez e me é, sou apenas
A memória de todos os beijos, o aroma entranhado nos dedos, os grãos de areia
Há muito lavados, os olhares e os pedidos de olhos, quero que me olhes
Nos olhos enquanto te vens, e parecia que ali, naquelas pupilas o limite do universo,
A membrana da bola de sabão, onde tudo o que se perdeu, onde tudo e até este poema,
Longe do transpirar lento do nosso desejo, onde a nossa pele também o sofá,
E as almofadas no chão e o latex que acabou e promessas de futuros pequeninos
À beira dos beijos à beira rio, com o universo possível a ser estrelas nos nossos olhos,
Tão longe de ti, tão longe de mim, tudo o que perdi, nunca perdido, eterno,
A ser sempre, de infinitas formas, na membrana da bola de sabão onde cabe o universo.

30.11.2014

Turku


João Bosco da Silva