quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Festa Dos Bombos (Ronco VIII)

Os bombos tentam calar-me, mas já não consigo ter paciência para o ritmo dos dedos,
As chamas aquecem apenas o olhar e os poetas todos, aposto que a estas horas
Bebem, cheiram-se todos e sãos os melhores amigos uns dos outros,
Vêm-se depois confessar aos padres miseráveis da periferia, afogados no tédio,
Em sofás esburacados pelo frio dos invernos demasiado inesperados todos os anos,
E é isto, peço desculpa pelos agradecimentos aos poetas, desculpem que não
Seja apenas carvão, ainda brasas, porra e isto nem queima, soprem cabrões,
Ao ritmo dos bombos, nas palhas, no Minho, na matança do porco, ou na Galiza,
É igual, não se usava gás, abria-se também o porco de outra forma,
Daí eu escrever tão aberto, o rasgo vai de cima até aos colhões do animal,
Era quase sempre porca, contudo, os anos oitenta ainda espreitavam
Nas farmácias e os iogurtes tinham uma forma de engate ultrapassado
Com bonecos unicolores, meu deus, que pretendo com isto,
Ultrapassar o Hércules pela Grécia fora, hoje não sei se venceria
Tanta cabeça de Hidra, os bombos não conseguem a ressonância
Precisa com as cinzas, então morre-se um pouco, a geada recebe de braços abertos.

19.02.2015

Turku


João Bosco da Silva
Rabo Enrolado (Ronco VII)

Um anti-Bandini, porque sempre preferi evitar a confissão,
Na casa dela, no Verão, com uma merenda de música da moda,
No quarto dela, um álbum atrás do outro, gostava de tudo
Com a mesma sinceridade da fome de um Bandini,
Mas ninguém se lançou às nádegas dela, hoje nem
As imagino, chupadas por um marido, uma filha,
Décadas, ficava a dormir naquelas manhãs de Verão
E não tinha dinheiro, nem idade para a piscina municipal,
Fiquei com o brinde dos livros grossos do Verão passado,
Ah, que bem, que gosta de Hemingway, até leu O Príncipe,
Agora está a levar os de Nietzsche um atrás do outro,
O sabor daquele grelo, mas só carne, este tesão,
Só carne, aquele amor, só desilusão, anti-Bandini
A caminho da bruskowskidão, tinha os dedos secos,
Tinha os lábios secos, olha, acabou a música.

19.02.2015

Turku


João Bosco da Silva
Heavy Machine Gun (Ronco VI)

Ò pá, lembras-te de quando o destino do mundo estava nas nossas mãos,
Nos nossos dedos, e entretanto, fazíamos uma pausa para arrancar um pouco
De musgo às fragas, lembras-te quão leve era a responsabilidade,
E que fácil era fugir dos caixotes do lixo em chamas e dos balões de água
Lançados pelas chaminés abaixo, não fossem os amigos traidores,
Sempre os amigos traidores, os amigos traidores, os amigos traidores,
Esses cabões, perdoámos todas as mulheres, todos os beijos perdidos
Onde não estávamos, quase os filhos que não tivemos, nunca os amigos
Traidores, que nos sujam os versos com explicações, aqui ele estava
A falar duma vez em que foi com uma namorada para o rio da terra
E não lhe tocou, nem um pentelho, e é uma afronta tão grande a verdade,
Nem um pentelho, não como o da terra vizinha, que aproveitou bem o Verão,
Verão, verão que foi muita frustração acumulada, depois nem sei,
Houve demolição de castelos, degelos, guerras santas, terrorismo biológico,
Overdoses de serotonina, não podes competir com um gajo feliz,
Ò pá, nem sei, isto é uma explicação, uma confissão ou mais um ronco.

18.02.2015

Turku


João Bosco da Silva



Ronco V

Enquanto a minha cara incha pelo tédio, pela derrota dos anos, pelas submissão
Ao álcool por nunca ter conseguido ter a vida que me ensinaram a viver
Na televisão e nos livros, relembro a glória que foram os anos em que
Supostamente ainda não era tempo de ser, fosse o que fosse, naquele aniversário
Do primo dela, no carro da minha mãe, com o cabelo a acumular humidade
E ondas proporcionais às penetrações, o meu aniversário também,
No rio onde afogaram gerações de cães e de sonhos, onde lançámos
Mais tarde a cinza dos cigarros dos avôs, resgatados da ditadura e das colónias,
A caminho da posta mal passada e do vinho tinto capaz de aguentar geadas
Nos pipos das adegas eternas, hajam brasas e um amigo dos que nos viram
De luvas nas primeiras aulas da manhã, porque ao menos luvas,
Dos que nos viram plantar uma miopia que foi crescendo para
A vergonha da líbido dos dezoito anos e daqueles dedos esfomeados
Por carnavais e máscaras em sofás nos futuros postos da GNR que ainda hoje
Promessas de presidentes da junta de esquerda e direita, ping-pong
De países vestidos de democracia para o carnaval que têm sido as últimas décadas,
E é isto, que mais se espera de um indivíduo que trocou a missa de Domingo
Pela ressaca das manhãs indiscriminadas, deixou os acólitos porque a fórmula um, afinal,
Algo aborrecidíssimo, coisa de nórdicos ou alemães e padres que pelas
Línguas estéreis foram fodidos de lá para fora antes das voltas terem sido todas dadas.

Turku

18.02.2015


João Bosco da Silva
Ronco IV

Que foi, nunca viste as redes pelas costuras, o teu avô no cemitério, as tuas mãos
Vazias e as costas nuas penetradas pelo futuro que os passos vão formando,
Que foi, esqueceste-te do sabor do sangue nos pulmões arrancados à geada,
Já não te lembras dos amigos que sustentaram as tuas punhetas com baralhos
De cartas da loja dos trezentos e os vídeos resgatados dos píncaros dos guarda-fatos,
Que foi agora, os anos tornaram-te ingrato, hipócrita, senil, a idade não te desculpa,
Faltou-te foder alguém famoso para teres seiva suficiente no ego, murchaste precocemente,
Que foi, faltam-te os tomates agora, depois de teres fodido a rececionista
Num quarto do seu próprio hotel aos vinte e um anos de idade e latitude ártica,
Não há um poema que te valha, nem um copo que seja suficientemente cheio,
Que foi, vais gritar agora o desespero todo, vais engolir tudo o que a avalanche
Te guardou, deixa os sorrisos e as esperas desencontradas, já te passou a hora,
Valete fratres, nem um valete de paus, tu, que nunca aprendeste a jogar
Ao chincalhão nos intervalos, quando ainda tinhas espaço nas mãos para ser alguém,
Que foi, agora, alguns têm-te medo, não sabem que sacrificas a fome pelo ócio,
E que os versos são consequências da vida, da dor, da morte, reflexos do prazer,
No tempo dos assassinos, que engoliam, cuspiam, passavam lenços de papel,
Tomavam comprimidos comprados logo de manhã ao senhor da farmácia,
Que foi, o elevador não te afastou da senhora arquiteta, que planeava fazer
De ti um renascimento glorioso de uma ruína imperial qualquer que ninguém lembra,
Foi o vinho do porto, naquela noite de São João, que foi agora, tiveste a inveja de
Professores na cidade berço, tiveste a miúda do café na ressaca, a olhar para ti
Como se esperasse não haver papel para secar as mãos na casa de banho,
Que foi, já viveste demasiado em menos de três décadas, nunca pensaste chegar
A desfrutar de um whisky de dez anos sem o consentimento dos que valorizam
Tudo pelos números, se eles soubessem que na Skye céu de tenra idade,
Que foi, não esperes que nos impérios arruinados se assuma a ignorância,
Chega, vai mijar versos a outro lado, ou ejacula com a janela do carro aberta
Numa geada leve, com o harmonioso aroma de fundo da pocilga, enquanto
Os alunos esperam, a oportunidade de recusar, aprender ao menos, mais uma merda.

18.02.2015

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Ronco III

“flowers stink beauty rots gods die”

al purdy

Os olhos já não me perguntam, o que te falta fazer, perguntam-me, o que te faltou fazer,
E o cabelo anui, confirmando o que os anos redondos levam, os fantasmas decidem,
Depois de anos de silêncio, abrir os lábios carnudos, para anunciarem a absolvição
Dos seus hábitos canibais, a glória redentora, a passagem da estafeta do pecado tão
Pouco original, como que dizem, não soubeste fazer mais nada a não ser cornos, olha agora
O que os cornudos sabem fazer, de certo não lhes engoliram as probabilidades,
A festa acabou há tanto tempo, já se levantaram muitas feiras e as calças brancas a estas horas
Já nem devem servir, ou não se baixam com a mesma pressa até às coxas e um alívio quase
Dentro, atirado para o silvado ao lado, aqueles lábios a brilhar ao luar, ou se calhar só
A cerveja a fermentar, os mesmos lábios no cemitério, aquela surpresa nos dedos,
Dançando como as chamas das velhas, escorregadios, que beleza haverá nisto tudo,
Que lição e para quê, se no fim se rasgam, se apagam, secam, e até os olhos estranhos,
Como as glórias absolvidoras do canibalismo das calças brancas, a sua sede de joelhos
No chão na hora em que os sonhos morrem e fica apenas o cheiro entranhado no hipocampo.

Riga

14.02.2015


João Bosco da Silva
Impressões Sobre O Vermelho

Tem que se inspirar bem fundo antes de se mergulhar na nata ex-soviética, suster
O olhar, ignorar a decadência, a negligência, o vandalismo típico dos cancros,
Até se passar pela biblioteca, atravessar a ponte e finalmente entrar no esforço
De liftings e reconstruções de maxilares mal tratados por tantos impérios,
Olha-se para o passado com aquela nostalgia impossível e reconstrói-se a destruição
Sofrida na última grande guerra, como se as outras pequenas, e pergunto-me se
A fria não terá degradado mais ao longo das décadas sem morteiros, os porcos
Ainda por todo o lado, nas igrejas de lenço na cabeça perguntam se também,
Não, nada disso, o Neva mais além, agora há fronteiras entre cá e lá, será que sabem,
Nas igrejas adivinha-se explosões lá fora, de um lado com vidros sem com
Enquanto que do outro, ainda alguns vitrais coloridos, ou talvez o vento,
Uma tempestade, há uma estranha simpatia forçada nas mulheres, o mesmo
Amor ao bisonte e aos vidros fumados, o olhar num ponto das calças que não é bem
O que se quer, talvez só o frio, no fim tudo são trocos, o agradecimento nunca
Baixou calças a ninguém, contudo, fica sempre bem, além da ponte fica a cara de manhã,
Fica a cama à espera de quem lava os pratos, fica o pesadelo, o frio, as recordações de medo,
Falar a língua com que se pensa, só em casa, ou talvez não, as ruínas levaram muitas camadas
Nestes últimos anos, parece que a cidade está a levar transfusões desde o coração,
Há cor, o gigante distrai-se com os antigos desastres, há vergonhas que se insistem em reviver
Até se tornarem orgulho, lá longe neva no Neva, aqui estás muito bem sem eles.

Riga

13.02.2015


João Bosco da Silva

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Ronco II

Um gajo esfarrapa-se todo por estes gajos e nada, esta gente toda,
Que vive e pensa e sonha e teme e deseja e fode, engole, fodia mais
Se lhe baixassem as calças por serem todos tão especiais, mas nada,
Um gajo pode ser grande, mesmo muito grande, mas não existe
Enquanto não entrar em alguém, precisámos de olhos como do corpo,
Com o tempo fala-se com árvores, pedras, deus até, a água
Engole-se , mas antes agradecemos-lhe a frescura, é isto, mas um gajo
Esfarrapa-se todo, arma-se em mutante dos nervos, nem um pássaro
Se levante, abre-se a janela, um frio terrível, nem dá vontade de grandes
Gritos, abre-se mais uma garrafa e grita-se ao contrário, engole-se pronto,
Não vale a pena, são todos umas putas armadas em santas,
Uns miseráveis gordos de fome e solidão, querem é beiça
E prepúcio retraído, nem é papel, é mesmo fome de um sovaco azedo
Que os abrace, anda um gajo a esfarrapar-se por isto,
Há fomes piores, o musgo seca, o menino jesus do presépio
Não tem mãos, os olhos parecem que enrugaram e o menino
Que não morreu, parece apodrecer no colo que rejeita
Porque agora é homem, anda um gajo neste negócio de pérolas,
Para os porcos dormirem sossegados nos palácios que os burros admiram.

07.02.2015

Turku


João Bosco da Silva

Poema lido por Marlene Babo: https://soundcloud.com/mar-babo/poema-joao-bosco-da-silva
Fumo E Espelhos

Fujo porque todos sabem sempre tudo e conhecem-se todos
E a mim que me custa tanto equilibrar nas palavras que se me soltam
Dos lábios demasiado finos para levar um murro a sério,
Fujo antes da diarreia tomar conta da minha alma e não conseguir
Nada mais que fulminações de um castanheiro velho num dia
De tempestade, a fazer de conta que faço portas de inferno,
Fujo porque não consigo contar mais os estilhaços do espelho
Onde me verto, para lá do reconhecimento possível após
A transição dimensional em cantos escuros com bruxas receptivas
A insultos em forma de ejaculações, dizem que manchas da cinza,
Fujo porque sei de cor a coreografia dos olhos e a vibração
Dos dentes espantados por ruminâncias desesperadas de colo,
Fujo porque o Kerouac assim aconselhou, provavelmente quando
Já demasiado tarde e longe num delirium tremens loiro,
Fujo porque tenho sede e não se pode escrever com tanto ruído
E também este poema deve valer uma cerveja, fossem os gostos de lúpulo,
Fujo porque estou a mais e sei que estou a mais, porque somos tantos,
Todos desnecessários nos olhos dos muitos que têm o direito de estar,
Fujo porque me esqueci de rapar o pêlo e não gostam de macacos
Dentro de bibliotecas, mesmo que escrevam com a própria merda,
Fujo antes que fujam de mim, porque é pior quando escolhem esquecer,
Ou não esquecem, mas desviam os olhos do espaço que ocupámos,
Fujo porque não é que não goste deles, mas prefiro que estejam quando
Não estou com eles, e há tantos, legiões, fujo porque tenho medo de multidões
E os olhos mudos são avalanches de acusações que esmagam quem os ouve.

06.02.2015

Turku


João Bosco da Silva
Radiação Hawking

Deixai-me os tomates em paz, não ando aqui para cheirar, respiro e vai o
Que se arrasta, não faço disto carreira, só tiro, deixai-me estar a barba,
Bem piores são as unhas e tenho que me preocupar em mantê-las  sempre
Demasiado curtas, incomoda escrever com as unhas compridas,
As palavras rasgam carne suficiente, sem deixar marcas, às vezes,
Quem diz que o órgão maior é a pele, é porque vê muito pouco,
Está dito, que engula quem quiser, no fim ao menos pergunte-se
O que aconteceu ao futuro, engoli, com orgulho, é um gesto de reconhecimento
Perguntar, engoliste, tudo, até o luar pareceu desmaiar durante um momento,
Se há um buraco negro no centro da galáxia, não sei, mas tenho conhecido
Alguns, bem luminosos e de lábios vermelhos, vai tudo, por todo lado,
Os versos são o que sobrevive ao horizonte de eventos, o futuro limpa-se
Do batom, puxa as meias e as cuecas para cima e acende um cigarro,
Supostamente a luz não devia escapar, mas nem os tomates,
Há abismos que os olhos não podem esquecer e com isso
Trazem-se sempre dentro, no fundo, nunca se escapa verdadeiramente,
As unhas continuam a crescer e a incomodar, mesmo que os restos
De epitélio alheio sem perigos de rastreamento, deixai descongelar o inferno,
A vossa hora chegará e a salada estará pronta para quem estiver de dieta,
Ou quiser parecer bem, ou não houver mais nada que escape, aos buracos negros.

06.02.2015

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Ronco

“ – the poem oughta be worth some beer”
al purdy

Enquanto continuarem a dar ouro pela merda dos dentes branqueados
Pela ignorância, enquanto endeusarem a arte de ter sempre razão
Sem saberem nada além de rapar os pêlos entre os olhos,
Enquanto se deixarem hipnotizar por letras de canções que
Podiam ter sido escritas por miúdos da quarta classe que já tocam punhetas,
Enquanto os olhos estupidificarem tudo em que tocam
Por culpa da ligação directa da região occipital aos tomates e à ganância,
Enquanto usarem só o espelho para ignorar a passagem dos anos,
Acreditando que a imortalidade está nos balões que insuflam com agulhas,
Enquanto se achar que a cor da camisola melhor porque minha,
A cor da pele melhor porque minha, o sotaque melhor porque meu,
Enquanto se usar deus como o papão, quando se quer e convém,
Como quem está sempre doente quando têm que se tirar as mãos dos bolsos,
Enquanto houver os que apesar de não terem televisão,
Aparecem mais do que o que escrevem e vendem-se ao holofote mais forte,
Enquanto houver os que estão tão fartos de toda esta merda
Que se deixam afogar em goles intermináveis e rasgam-se pelos dedos,
Enquanto houver os críticos que criticam só porque não sabem
Fazer mais nada e querem sempre ficar por cima, mesmo que capados,
Enquanto houver cegos por opção, porque dentro deles o mundo melhor
E mais vale ficar enterrado numa avalanche que ser coberto de merda,
Enquanto houver os que fodem para se encontrarem dentro, fora deles,
Ou na submissão dos outros e os que são pagos por isso,
Enquanto houver espaço na página e a pastelaria ou o café
Estiverem abertos, enquanto houver tinta, enquanto o sangue não arrefecer,
Enquanto o mundo for mundo, será tudo uma valente merda,
Ao menos não escondam o focinho nem a piça em espiral, ronquemos irmãos.

02.02.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Nada De Ti Ficará Quando Eles Se Forem

Que será da cidade agora que todos se foram, agora que só as recordações
A definem, inseguras, seremos um delírio, em que vida, terás sido tu,
E o rio também na dúvida, já nos tínhamos visto antes, uma ruiva contigo,
Agora não, as janelas fechadas escondem um mundo que aos poucos
Se volta a desconstruir, os bares agora sem palavras, só ruído e a solidão,
A certeza de estares longe do tempo, também um dia deixarás de te pertencer,
A cidade agora é dos que acabam de chegar, dos que ainda têm as malas
Por desfazer com a roupa lavada no fim de semana, a cidade é dos pombos
E dos que os alimentam com cada dia do ano, gastando calçadas,
Gastando quem não ficou e estendendo a mão como se a primeira vez,
Quando tantas vezes à hora do almoço, ou ao fim da tarde antes
Do refúgio de paredes finas a bater nas teclas com força para
Que soubessem que ali alguém, a ser esquecido noutros lugares,
Em qualquer lugar, quando se está só, está-se sempre longe,
Não há dedos suficientes para tapar tanto buraco e não se pode
Ser para sempre em ninguém, só a cidade é eterna, mesmo que
Troque de carne como quem troca de pele, resta a memória, insegura,
Terá sido com ela, ou já teria passado o deslumbramento, as paredes
Não respondem, nunca respondem, e a cidade cresce com o vazio
Que deixa, agora que todos se foram, agora que tu te foste,
Mesmo que julgues cruzar-te contigo mesmo, nas ruas que já te esqueceram.


30.01.2015

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Bucólica Com Latas De Conserva

“Não te deixes invadir por essa ternura delicodoce, fanada, a saudade à portuguesa; endurece ou sucumbes.”

Sebastião Alba

Palmilhavam-se as ruas lamacentas, os amontoados de lixo entre giestas
Ou em pinhais dos vizinhos à procura de latas de conserva vazias,
Roubavam-se pequenos pedaços de tábuas, umas rolhas de cortiça,
Ou cortiça bruta, quem tivesse coragem nos dedos tenros,
Uns pregos baratos, alguns transplantados das mesmas tábuas
E faziam-se carrinhas de caixa aberta, cada lata uma marca,
DQW as melhores latas de sardinhas em molho de tomate,
E depois disso procuravam-se os ossos de um guarda-chuva e das varas
Faziam-se flechas para atirar aos cabos descarnados que cortavam
O céu de um poste ao outro e lá tinham as mulheres que ir de lenço na cabeça,
Porque o frio da serra é gelado, buscar velas porque os garotos
Provocaram um curto circuito que apagou a aldeia,
Tocavam as trindades, e lá íamos comer arroz de tomate
À luz da vela, lá fora as carrinhas de latas de conserva
Estacionadas à espera do amanhã e do resto do futuro, quem
Tinha sorte tinha tractores de cortiça que o tio ou o pai esculpiu,
Os ricos tinham-nos de plástico comprados na feira da vila,
O arroz, lá se comia, porque apesar de não se gostar de tomate,
A luz da vela não era suficiente para se lhe sentir o sabor,
O pior eram os trabalhos de casa, que desencarrilhavam
Naquela curva perigosa entre amieiros a caminho da cidade.


26.01.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

“Allen Ginsberg at Home.”

Abrir um livro de Allen Ginsberg e logo ali, na cara, a impossibilidade do regresso,
A constatação da perdição, “Home I´ll never be”, o poeta sentado à esquerda,
Mão direita na barba e em baixo a descrição impossível, para mim, eu que me sento
Na mesa da cozinha enquanto a minha mãe faz o jantar, tão longe de mim, “Allen
Ginsberg at home.”, com um horizonte que me parece familiar, em casa, como posso
Estar onde não me encontro, inspiro dentro de uma revista de banda-desenhada
De mil novecentos e noventa e quatro e o cheiro agora a velho, húmido, cansado,
Um reflexo da minha testa, têmporas e motivação, só os escorpiões, de patas para o ar,
Se mantêm e eu ainda tenho pesadelos com os pés descalços em fragas cheias deles,
O meu quarto agora impossível de mão esquerda na barba durante horas, a arrefecer,
Tudo a arrefecer em direção à entropia estável dentro, o Ginsberg em casa,
Num descampado qualquer, com um monte no horizonte, podia ser no lameiro do meu avô,
Onde me procuro sempre que tenho oportunidade de fugir e só me encontro
De olhos fechados, por instantes, como um orgasmo que quase quase e dentes a derrubar
Tudo, aquela fotografia é o meu poema favorito do poeta barbudo, a perdição da casa,
A progressão irreversível do afastamento próprio até a memória de nós se perder
No horizonte, casa tornou-se no lugar do regresso impossível.

Torre de Dona Chama

15.01.2015


João Bosco da Silva

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015



Eu Monstro


"Direi da minha vida
não é plena mas contém-me."

Sebastião Alba


Tenho em mim a ressaca de todos os livros que li,
Não culpem a inocente cerveja do arraial,
Não sou má pessoa, mas sei que a gente é ruim,
E lá no fundo só esperam um aberta para te foderem,
Dizem-me paranoico, eu digo que tenho memória,
Vão perguntar ao Kurt enquanto engole toda a dor
Na eternidade, em forma de chumbo derretido,
Nada melhor para as cãimbras da madrugada do que
Uma violência dirigida ao alvo de toda a realidade,
O corpo que a constrói e que se gasta no processo,
O Rimbaud escrevia entre galinhas, outros escrevem na
Companhia dos figos e das recordação agarradas aos muros
Cansados das longas ausências, nunca te vendas
Ao ponto de deixares de te poder dar sem interesse,
Evita a missa e ri-te dos hipócritas das procissões,
Hoje não é a lucidez que fala, mas o pó acumulado
Ao longo dos anos que se levanta, ganha formas no ar,
Espadas, reis, outros homens de barba, fantasmas,
Delírios de aldeia, quantos pecados devem ter alguns
Devotos, para se verem na necessidade de levarem
Um golden shower de um padre pestilento e hipócrita
Como as fundações da moral cristã, que sujos
Se devem sentir para se levarem no esperma
Amaldiçoado do homem de deus dos homens mascarados,
O deus das figueiras e das galinhas não perdoa,
Nem chega a condenar, limita-se a não existir
Na certeza de que o amanhã não será geral,
Tal como a ressaca e os suores nocturnos dos perdidos.

Torre de Dona Chama

09.08.2014


João Bosco da Silva

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Fuck You All – Happy New Year

como te percebo Sebastião,

Deixa lá, ao menos estiveste bem para ti, já foste demasiadas vezes
Nos outros e agora, nem um contágio de ti neles, deixa-te morrer para o mundo,
Mesmo enquanto te olhas no espelho, não te merece, mantem-te nesse teu
Universo, dorme muito, sonha mais, o resto é ruído e fome e medo e carne,
Não dês mais oportunidades a comparações, és irrepetível, até o padrão
Estrela do teu cu é único, querem é foder-te com os olhos e fingir-te invisível,
Não te dês mais, escreve sobre os tempos em que eras capaz de te interessar
Pela podridão e davas dentadas em maçãs demasiado maduras para a época,
Deixa lá, a cama é o teu trono, os teus dedos a tua memória mais fiel,
O copo o teu melhor amigo, mesmo que te mate aos poucos,
Também a vida sem copo te mata aos poucos, sonha, acorda tarde se puderes,
Pode ser que lá encontres os teus amigos, te encontres a ti, a caminho da escola,
E possas roubar umas uvas ou uma sombra ao lado de um silvado,
Morreste há tanto tempo que nem deste conta que agora,
Estás só a apodrecer, nada em ti resta além da saudade e Agosto ainda tarda
E não é mais o mesmo, podias muito bem ser os ossos do teu cão morto,
O caixão do familiar que nunca encontraram, mas ainda incomodas,
Ainda invertes o copo cheio e tornas a página vazia numa circunvolução
Enquanto a consomes no esquecimento, em cuecas, porque nada mais.

01.01.2015

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014


R.I.P. Joãozinho

Que interessa o que o mundo,
Quando o teu mundo só teu?
Cumpriste como só tu podias cumprir,
O que esperavam de ti era só o que eles esperavam.
Só porque um caminho menos escolhido, errado?
Putos idiotas, todos, porque tu da idade do tempo.
Quantas gerações se tornaram aborrecidas,
Enquanto tu ainda a festejar, bêbedo mas a festejar.
Putos parvos quando crescem e se tornam sérios,
Sérios amargos cheios de ressentimento porque o tempo os obrigou
A ser adultos sérios e responsáveis.
Sérios são os mortos quando não morrem a sorrir.
Amanhã não quero morrer que é festa,
Haverá a festa, mas tu já não estarás,
Porque a tua festa, que foi a vida, acabou.
Puto, diz-me ele, vós é que estais todos mortos.

13.02.2010

Savonlinna

João Bosco da Silva

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

É O Que Se Arranja

Quando há demasiado vazio, aquele que nos empurra para a inconsciência
Do sono, os vidros das janelas demasiado silenciosos, nem embalam
O ritmo dos versos que dentro a fazer de ovelhinhas a adiar a queda,
É o que acontece, quando a chávena quase vazia e a garrafa a ser só ecos
Dentro, enquanto se espera uma resposta ou um olhar a reconhecer
Que estamos vivos, durante um lenço de papel e um esquecimento
De bolso ou a necessidade maior, na espera de uma partida, como
Se a própria espera não fosse já ter partido, quando os passos
São tudo o que nos acompanham e o ranger é a certeza que ainda somos
Um peso qualquer neste planeta de voltas e mais voltas, sincronizadas
Pelo relógio adaptado às necessidades da solidão universal,
Daí isto não precisar de ritmo, os segundos esticam e encolhem
De acordo com a velocidade dos dedos ou da ausência de gente
À volta deles, isto é o que acontece quando matam aquele que nunca morre
E nem se quer ver, porque no fundo é só para que hajam mais olhos
Na direcção do vazio, quando o vazio tudo o que empurra isto
Para onde a luz que tudo revela, isto, que é apenas o que há, quando
Nada mais parece haver, a não ser segundos que passam por nós,
E só o eco das células que morreram a deixar o vazio que inquieta
A nossa sensibilidade de inútil testemunha do desperdício próprio,
O que esperas, a estas horas é tudo o que se pode arranjar, um poema.

26.12.2014

Turku


João Bosco da Silva
Reminiscências Natalícias Em Toalha Azul

Que tal vai por aí o tempo, ainda há tempestades vindas de África,
E morrões de areia e esperma na praia dos encontros súbitos das noites anteriores,
E esse Natal, como se passou sem a toalha azul a limpar a barriguinha que ao contrário
Do esperado pela entropia e a natural fome humana, encolheu, não pela contínua
Digestão de futuros esquecidos em pequenas mortes, o meu digo-te,
Já foi pior, com duas formas de cozinhar bacalhau em forma de solidão vingada
No degelo ao pé do aeródromo quase escondido do Google map,
A vida tornou-se em algo muito estranho para quem não fez mais nada
Dela a não ser vivê-la, as certezas agora muito menos que há uns dez,
Cinco anos atrás, a areia parece que acelera e deixei quase tudo o que faz mal,
Agora quase que sou um exemplo, num canto, onde ninguém quer pecar,
Que boa pessoa se é quando a felicidade não se nota na noite curta da existência
Dos outros, passar silenciosamente, uma raposa sem rabo a enlouquecer
Entre uma rede e outra, devias lembrar-te de mim, ao menos no Natal,
Afinal de contas estavas armada em Pai Natal e perguntavas-me o que queria,
Eu como sempre, isso ainda não perdi, estava bem com o que de ti me envolvia,
Nunca me queixei muito, em vez disso poesia, que incomoda só aqueles
Que em vez de fazerem poesia da vida querem fazer vida da poesia,
Deviam acreditar em quem raramente faz a barba e passa fome por
Ou sem obrigação, apesar de a neve ter substituído a areia e a possibilidade
Do contágio ter sido substituído pelo contágio confirmado dos outros,
Isto continua a ser um poema sobre o Natal, os universos sobem e descem neste
Mesmo, e deve haver um onde o tempo, tempo, tempo, o mesmo,
Com vinte e cinco graus ressacados na manhã de Natal, com os tomates
Vazios, ou menos cheios, em direcção ao futuro, a este poema longínquo.

Turku

25.12.2014


João Bosco da Silva

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Encher Chouriças

Enquanto o sangue pinga para o chão da garagem, já tenho as tripas lavadas
Com a água fumegante do rio numa manhã de geada, é o que isto é,
Um poema nos olhos dos outros, as palavras não perderam a cor com os anos,
Continuam as mesmas a gozar com as têmporas nevadas pelos desgostos,
Ou nem por isso, só a vida, os dias somados a fazer anos e aqui se está,
A engolir segundos atrás de segundos sem gelo, porque chega o frio que está
Fora a reflectir a distância glaciar do que dentro se esgota, ambos sabemos
Que não há salvação, por isso continuamos, olhamos o rio num dia de Verão
E somos nós, tentamos ignorar os sacos no fundo que foram arrastados
Desde a ponte e agora só ossos de cães e gatos mal nascidos, nós aquilo tudo,
Aqueles cadáveres inocentes e indesejados, frascos de herbicida, pneus,
Uma pá enferrujada, peixes asfixiados pelas oscilações dos vizinhos,
Gota a gota, o caudal engrossa à necessidade de pontes, de abraços,
Ou apenas a vontade deles, porque a distância, sempre a distância
E somos todos uma cambada de hipócritas, porque quando perto,
Todos cheios de espécies e cerimónias, bichos brutos com talheres de prata,
Às vezes é preciso parar na ponte romana para respirar um Kentucky,
Ou esperar pela noite para revelar a amizade sincera, é o que nos salva
Do ruído, tanto ruído, cada vez mais ruído, nem se consegue fazer barulho
Nos ouvidos dos outros, dos que merecem ouvir, dos que precisam ouvir,
Mas não conseguem, tal é a saturação da diarreia bem sustentada
Por nomeações de direitos entre eles, a estas horas devem estar
A banhar a carne em vinho, tu conheces bem o meu hálito, apesar
De lavar os dentes com a cinza dos anos e ela ser sempre fiel ao irrepetível,
Ambos gostamos à nossa maneira dos grilos no Verão e dos urinóis
Em horas de aperto, apesar de o cheiro a ureia me fazer lembrar
Grades de snappy e de tupperwares quentes envolvidos por panos
Da cozinha, em postos da guarda-fiscal em mil novecentos e noventa,
E da boleia do padeiro a quem dava um Fernando Pessoa por pão
Quando a mãe me dizia que já era um menino grande,
E as geadas sempre foram tão grandes nas mãos pequeninas,
Mesmo com luvas que esticam, e sangue que pinga, uma última gota,
Confunde-se com a cor do vinho, seja como for, agora é cortar,
Curar, seja à força do sal, da distância ou do fumo da memória,
Nós sabemos o segredo, só ainda não o conseguimos trazer à consciência,
Traduzi-lo em palavras, mas estamos mais perto, hajam pulmões
Para deixar anéis de sangue nos lábios dos brutos, as tripas das chouriças
Estiveram em vida, cheias de merda, existe algo de delicioso nisto tudo,
Tudo é, morte e vida, engolir e deixar passar, até cair, como tudo em nós.

19.12.2014

Turku


João Bosco da Silva