domingo, 1 de março de 2015
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Boa Noite
aos velhos amigos,
Realmente, ficamos bem aquém daquilo que esperamos de nós
mesmos,
Ao menos ainda esperamos mais que ter alguém que se
interesse por nos fotografar
As mamas, esperamos viver de nada e não ser reconhecidos por
nada,
Houve um tempo em que uma cabana, numa vinha, onde o Sol
permanente,
Com as paredes recheadas de todos os livros, que não se teve
tempo de ler,
Hoje espalhados entre a falta de vagar e as horas de
pirataria e salivação
Condicionada, hoje a cabana vazia nos sonhos arquivados nas
resignações,
A vida é assim, sim, alguns tiveram que ir para longe,
outros para mais longe
Ainda, e tudo passou a valer a pena uma ou duas vezes no
ano,
No tasco da terra, quando se bebem umas cervejas até
aguentar o Sol
Da manhã durante umas horas, jogando ao xino com uma das
últimas figuras mitológicas
Da vila, por isso, és um borracho, não dos que mostram
orgulhosamente
O vazio da sua caixa óssea nos bares e discotecas da
periferia, e são pagos por isso,
Ainda houve quem criou uma possível metade numa sueca,
O que pior sabia jogar nos intervalos, enquanto uns semeavam
sonhos menores,
Sem contar com os medos da descendência gerada em pântanos
nórdicos,
Ficámos por aqui, entre filhos, casamentos porque teve que
ser,
E até se é feliz, entre cornos, e filhos, melhor nos
casamentos dos amigos,
Até se vai andando bem na língua dos outros, também é o que
é,
A vida, trabalhamos oito horas por dia, muitas vezes não se
sabe bem
Para quem, nem onde tantos segundos são transformados em
riqueza,
Não a nossa, não, ninguém sabia cantar, houve ilusões de
câmara na mão,
Mas de actores, nem de gaita na mão de madrugada a fingir
medo
E fodas em tendas na mira da foice de um psicopata
serial-killer,
Que nem sempre o são, nós nem uma coisa, nem outra,
Morreremos e seremos apagados em menos de cinco décadas
De cinco cérebros no máximo, tudo o resto foram cinzas de
sonhos
Levadas pelo vento do tempo, ficámos aquém, mesmo assim,
Nunca ninguém esperou que fizéssemos aquela curva na estrada
de província.
24.02.2015
Turku
João Bosco da Silva
A Relatividade Dos Passos
Ponho-me uma vez mais a caminho, saio da festa, levo um copo
de plástico,
Foi um tio de França que mo deu, dentro vão uns litros, em
nenhum gole
Consegui encontrar o sabor daquela cerveja bebida às
escondidas
Em casa da avó, quando não estava ninguém em casa, em mil
novecentos e noventa
E um, mais uma vez, ponho-me a caminho, em direção à Lua, os
castanheiros
Gigantes prateados,
árvores mitológicas da infância e baldes de plástico
Na época das castanhas, o lameiro do avô já não está longe,
que estranho,
Como as distâncias encurtam e a gente se torna cada vez mais
distante,
Os grilos denuncia-me com o silêncio que a minha presença
irradia,
Há uma palavra para isto, a saudade não chega, há algo
parecido
Ao caminhar num lago gelado no norte, só, ao regressar a um
lar cansado,
Onde ninguém, mas agora é Agosto, estão cá todos, cada vez
menos,
Nota-se o peso da ausência nos olhos, é a tristeza que nos
envelhece,
O azul foi-se, as estrelas esperam no lameiro, algumas no poço
Onde caí de cabeça quando me inclinei para beber, põe assim
as mãos,
Em concha, ele que nunca viu uma concha na praia, põe assim
As mãos, não quero pensar nas mãos dele agora, as eternas,
nodosas,
Esculpidas de uma cepa centenária, a erva mesmo nestas
noites
Quentes é fresca, fecho os olhos e lembro-me de um deus
grego,
Anteu, lembro-me do Miguel Torga, eu também já devo ter
morrido,
Pelo menos uns quantos em mim, nunca nos encontraremos numas
Águas-furtadas em Paris, cada vez me lembras menos,
desculpa,
Hoje é só porque luar e as rãs coaxam no poço, mas pronto, a
vida
Este caminho onde vamos caindo e nunca é o mesmo quem se
levanta,
Só quem levamos dentro, as mãos em concha, o sabor da
cerveja às escondidas,
Chega-se, mas já não se está lá, há muito tempo, e o copo
também ele vazio.
23.02.2015
Turku
João Bosco da Silva
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015
Os bombos tentam calar-me, mas já não consigo ter paciência
para o ritmo dos dedos,
As chamas aquecem apenas o olhar e os poetas todos, aposto
que a estas horas
Bebem, cheiram-se todos e sãos os melhores amigos uns dos
outros,
Vêm-se depois confessar aos padres miseráveis da periferia,
afogados no tédio,
Em sofás esburacados pelo frio dos invernos demasiado
inesperados todos os anos,
E é isto, peço desculpa pelos agradecimentos aos poetas,
desculpem que não
Seja apenas carvão, ainda brasas, porra e isto nem queima,
soprem cabrões,
Ao ritmo dos bombos, nas palhas, no Minho, na matança do
porco, ou na Galiza,
É igual, não se usava gás, abria-se também o porco de outra
forma,
Daí eu escrever tão aberto, o rasgo vai de cima até aos
colhões do animal,
Era quase sempre porca, contudo, os anos oitenta ainda
espreitavam
Nas farmácias e os iogurtes tinham uma forma de engate
ultrapassado
Com bonecos unicolores, meu deus, que pretendo com isto,
Ultrapassar o Hércules pela Grécia fora, hoje não sei se
venceria
Tanta cabeça de Hidra, os bombos não conseguem a ressonância
Precisa com as cinzas, então morre-se um pouco, a geada
recebe de braços abertos.
19.02.2015
Turku
João Bosco da Silva
Rabo Enrolado (Ronco VII)
Um anti-Bandini, porque sempre preferi evitar a confissão,
Na casa dela, no Verão, com uma merenda de música da moda,
No quarto dela, um álbum atrás do outro, gostava de tudo
Com a mesma sinceridade da fome de um Bandini,
Mas ninguém se lançou às nádegas dela, hoje nem
As imagino, chupadas por um marido, uma filha,
Décadas, ficava a dormir naquelas manhãs de Verão
E não tinha dinheiro, nem idade para a piscina municipal,
Fiquei com o brinde dos livros grossos do Verão passado,
Ah, que bem, que gosta de Hemingway, até leu O Príncipe,
Agora está a levar os de Nietzsche um atrás do outro,
O sabor daquele grelo, mas só carne, este tesão,
Só carne, aquele amor, só desilusão, anti-Bandini
A caminho da bruskowskidão, tinha os dedos secos,
Tinha os lábios secos, olha, acabou a música.
19.02.2015
Turku
João Bosco da Silva
Heavy Machine Gun (Ronco VI)
Ò pá, lembras-te de quando o destino do mundo estava nas
nossas mãos,
Nos nossos dedos, e entretanto, fazíamos uma pausa para
arrancar um pouco
De musgo às fragas, lembras-te quão leve era a
responsabilidade,
E que fácil era fugir dos caixotes do lixo em chamas e dos
balões de água
Lançados pelas chaminés abaixo, não fossem os amigos
traidores,
Sempre os amigos traidores, os amigos traidores, os amigos
traidores,
Esses cabões, perdoámos todas as mulheres, todos os beijos
perdidos
Onde não estávamos, quase os filhos que não tivemos, nunca
os amigos
Traidores, que nos sujam os versos com explicações, aqui ele
estava
A falar duma vez em que foi com uma namorada para o rio da
terra
E não lhe tocou, nem um pentelho, e é uma afronta tão grande
a verdade,
Nem um pentelho, não como o da terra vizinha, que aproveitou
bem o Verão,
Verão, verão que foi muita frustração acumulada, depois nem
sei,
Houve demolição de castelos, degelos, guerras santas,
terrorismo biológico,
Overdoses de serotonina, não podes competir com um gajo
feliz,
Ò pá, nem sei, isto é uma explicação, uma confissão ou mais
um ronco.
18.02.2015
Turku
João Bosco da Silva
Ronco V
Enquanto a minha cara incha pelo tédio, pela derrota dos anos, pelas submissão
Enquanto a minha cara incha pelo tédio, pela derrota dos anos, pelas submissão
Ao álcool por nunca ter conseguido ter a vida que me
ensinaram a viver
Na televisão e nos livros, relembro a glória que foram os
anos em que
Supostamente ainda não era tempo de ser, fosse o que fosse, naquele
aniversário
Do primo dela, no carro da minha mãe, com o cabelo a
acumular humidade
E ondas proporcionais às penetrações, o meu aniversário
também,
No rio onde afogaram gerações de cães e de sonhos, onde
lançámos
Mais tarde a cinza dos cigarros dos avôs, resgatados da
ditadura e das colónias,
A caminho da posta mal passada e do vinho tinto capaz de
aguentar geadas
Nos pipos das adegas eternas, hajam brasas e um amigo dos
que nos viram
De luvas nas primeiras aulas da manhã, porque ao menos
luvas,
Dos que nos viram plantar uma miopia que foi crescendo para
A vergonha da líbido dos dezoito anos e daqueles dedos
esfomeados
Por carnavais e máscaras em sofás nos futuros postos da GNR
que ainda hoje
Promessas de presidentes da junta de esquerda e direita,
ping-pong
De países vestidos de democracia para o carnaval que têm
sido as últimas décadas,
E é isto, que mais se espera de um indivíduo que trocou a
missa de Domingo
Pela ressaca das manhãs indiscriminadas, deixou os acólitos
porque a fórmula um, afinal,
Algo aborrecidíssimo, coisa de nórdicos ou alemães e padres
que pelas
Línguas estéreis foram fodidos de lá para fora antes das
voltas terem sido todas dadas.
Turku
18.02.2015
João Bosco da Silva
Ronco IV
Que foi, nunca viste as redes pelas costuras, o teu avô no
cemitério, as tuas mãos
Vazias e as costas nuas penetradas pelo futuro que os passos
vão formando,
Que foi, esqueceste-te do sabor do sangue nos pulmões
arrancados à geada,
Já não te lembras dos amigos que sustentaram as tuas
punhetas com baralhos
De cartas da loja dos trezentos e os vídeos resgatados dos
píncaros dos guarda-fatos,
Que foi agora, os anos tornaram-te ingrato, hipócrita,
senil, a idade não te desculpa,
Faltou-te foder alguém famoso para teres seiva suficiente no
ego, murchaste precocemente,
Que foi, faltam-te os tomates agora, depois de teres fodido
a rececionista
Num quarto do seu próprio hotel aos vinte e um anos de idade
e latitude ártica,
Não há um poema que te valha, nem um copo que seja suficientemente
cheio,
Que foi, vais gritar agora o desespero todo, vais engolir
tudo o que a avalanche
Te guardou, deixa os sorrisos e as esperas desencontradas,
já te passou a hora,
Valete fratres, nem um valete de paus, tu, que nunca
aprendeste a jogar
Ao chincalhão nos intervalos, quando ainda tinhas espaço nas
mãos para ser alguém,
Que foi, agora, alguns têm-te medo, não sabem que sacrificas
a fome pelo ócio,
E que os versos são consequências da vida, da dor, da morte,
reflexos do prazer,
No tempo dos assassinos, que engoliam, cuspiam, passavam
lenços de papel,
Tomavam comprimidos comprados logo de manhã ao senhor da
farmácia,
Que foi, o elevador não te afastou da senhora arquiteta, que
planeava fazer
De ti um renascimento glorioso de uma ruína imperial
qualquer que ninguém lembra,
Foi o vinho do porto, naquela noite de São João, que foi
agora, tiveste a inveja de
Professores na cidade berço, tiveste a miúda do café na
ressaca, a olhar para ti
Como se esperasse não haver papel para secar as mãos na casa
de banho,
Que foi, já viveste demasiado em menos de três décadas,
nunca pensaste chegar
A desfrutar de um whisky de dez anos sem o consentimento dos
que valorizam
Tudo pelos números, se eles soubessem que na Skye céu de
tenra idade,
Que foi, não esperes que nos impérios arruinados se assuma a
ignorância,
Chega, vai mijar versos a outro lado, ou ejacula com a
janela do carro aberta
Numa geada leve, com o harmonioso aroma de fundo da pocilga,
enquanto
Os alunos esperam, a oportunidade de recusar, aprender ao
menos, mais uma merda.
18.02.2015
Turku
João Bosco da Silva
domingo, 15 de fevereiro de 2015
Ronco III
“flowers stink beauty
rots gods die”
al purdy
Os olhos já não me perguntam, o que te falta fazer, perguntam-me,
o que te faltou fazer,
E o cabelo anui, confirmando o que os anos redondos levam,
os fantasmas decidem,
Depois de anos de silêncio, abrir os lábios carnudos, para
anunciarem a absolvição
Dos seus hábitos canibais, a glória redentora, a passagem da
estafeta do pecado tão
Pouco original, como que dizem, não soubeste fazer mais nada
a não ser cornos, olha agora
O que os cornudos sabem fazer, de certo não lhes engoliram
as probabilidades,
A festa acabou há tanto tempo, já se levantaram muitas
feiras e as calças brancas a estas horas
Já nem devem servir, ou não se baixam com a mesma pressa até
às coxas e um alívio quase
Dentro, atirado para o silvado ao lado, aqueles lábios a
brilhar ao luar, ou se calhar só
A cerveja a fermentar, os mesmos lábios no cemitério, aquela
surpresa nos dedos,
Dançando como as chamas das velhas, escorregadios, que
beleza haverá nisto tudo,
Que lição e para quê, se no fim se rasgam, se apagam, secam,
e até os olhos estranhos,
Como as glórias absolvidoras do canibalismo das calças
brancas, a sua sede de joelhos
No chão na hora em que os sonhos morrem e fica apenas o
cheiro entranhado no hipocampo.
Riga
14.02.2015
João Bosco da Silva
Impressões Sobre O Vermelho
Tem que se inspirar bem fundo antes de se mergulhar na nata
ex-soviética, suster
O olhar, ignorar a decadência, a negligência, o vandalismo
típico dos cancros,
Até se passar pela biblioteca, atravessar a ponte e finalmente
entrar no esforço
De liftings e reconstruções de maxilares mal tratados por
tantos impérios,
Olha-se para o passado com aquela nostalgia impossível e
reconstrói-se a destruição
Sofrida na última grande guerra, como se as outras pequenas,
e pergunto-me se
A fria não terá degradado mais ao longo das décadas sem
morteiros, os porcos
Ainda por todo o lado, nas igrejas de lenço na cabeça perguntam
se também,
Não, nada disso, o Neva mais além, agora há fronteiras entre
cá e lá, será que sabem,
Nas igrejas adivinha-se explosões lá fora, de um lado com
vidros sem com
Enquanto que do outro, ainda alguns vitrais coloridos, ou
talvez o vento,
Uma tempestade, há uma estranha simpatia forçada nas
mulheres, o mesmo
Amor ao bisonte e aos vidros fumados, o olhar num ponto das
calças que não é bem
O que se quer, talvez só o frio, no fim tudo são trocos, o
agradecimento nunca
Baixou calças a ninguém, contudo, fica sempre bem, além da
ponte fica a cara de manhã,
Fica a cama à espera de quem lava os pratos, fica o
pesadelo, o frio, as recordações de medo,
Falar a língua com que se pensa, só em casa, ou talvez não,
as ruínas levaram muitas camadas
Nestes últimos anos, parece que a cidade está a levar
transfusões desde o coração,
Há cor, o gigante distrai-se com os antigos desastres, há
vergonhas que se insistem em reviver
Até se tornarem orgulho, lá longe neva no Neva, aqui estás
muito bem sem eles.
Riga
13.02.2015
João Bosco da Silva
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015
Ronco II
Um gajo esfarrapa-se todo por estes gajos e nada, esta gente
toda,
Que vive e pensa e sonha e teme e deseja e fode, engole,
fodia mais
Se lhe baixassem as calças por serem todos tão especiais,
mas nada,
Um gajo pode ser grande, mesmo muito grande, mas não existe
Enquanto não entrar em alguém, precisámos de olhos como do
corpo,
Com o tempo fala-se com árvores, pedras, deus até, a água
Engole-se , mas antes agradecemos-lhe a frescura, é isto,
mas um gajo
Esfarrapa-se todo, arma-se em mutante dos nervos, nem um
pássaro
Se levante, abre-se a janela, um frio terrível, nem dá
vontade de grandes
Gritos, abre-se mais uma garrafa e grita-se ao contrário,
engole-se pronto,
Não vale a pena, são todos umas putas armadas em santas,
Uns miseráveis gordos de fome e solidão, querem é beiça
E prepúcio retraído, nem é papel, é mesmo fome de um sovaco
azedo
Que os abrace, anda um gajo a esfarrapar-se por isto,
Há fomes piores, o musgo seca, o menino jesus do presépio
Não tem mãos, os olhos parecem que enrugaram e o menino
Que não morreu, parece apodrecer no colo que rejeita
Porque agora é homem, anda um gajo neste negócio de pérolas,
Para os porcos dormirem sossegados nos palácios que os
burros admiram.
07.02.2015
Turku
João Bosco da Silva
Poema lido por Marlene Babo: https://soundcloud.com/mar-babo/poema-joao-bosco-da-silva
Poema lido por Marlene Babo: https://soundcloud.com/mar-babo/poema-joao-bosco-da-silva
Fumo E Espelhos
Fujo porque todos sabem sempre tudo e conhecem-se todos
E a mim que me custa tanto equilibrar nas palavras que se me
soltam
Dos lábios demasiado finos para levar um murro a sério,
Fujo antes da diarreia tomar conta da minha alma e não conseguir
Nada mais que fulminações de um castanheiro velho num dia
De tempestade, a fazer de conta que faço portas de inferno,
Fujo porque não consigo contar mais os estilhaços do espelho
Onde me verto, para lá do reconhecimento possível após
A transição dimensional em cantos escuros com bruxas
receptivas
A insultos em forma de ejaculações, dizem que manchas da
cinza,
Fujo porque sei de cor a coreografia dos olhos e a vibração
Dos dentes espantados por ruminâncias desesperadas de colo,
Fujo porque o Kerouac assim aconselhou, provavelmente quando
Já demasiado tarde e longe num delirium tremens loiro,
Fujo porque tenho sede e não se pode escrever com tanto
ruído
E também este poema deve valer uma cerveja, fossem os gostos
de lúpulo,
Fujo porque estou a mais e sei que estou a mais, porque
somos tantos,
Todos desnecessários nos olhos dos muitos que têm o direito
de estar,
Fujo porque me esqueci de rapar o pêlo e não gostam de
macacos
Dentro de bibliotecas, mesmo que escrevam com a própria
merda,
Fujo antes que fujam de mim, porque é pior quando escolhem
esquecer,
Ou não esquecem, mas desviam os olhos do espaço que ocupámos,
Fujo porque não é que não goste deles, mas prefiro que
estejam quando
Não estou com eles, e há tantos, legiões, fujo porque tenho
medo de multidões
E os olhos mudos são avalanches de acusações que esmagam
quem os ouve.
06.02.2015
Turku
João Bosco da Silva
Radiação Hawking
Deixai-me os tomates em paz, não ando aqui para cheirar,
respiro e vai o
Que se arrasta, não faço disto carreira, só tiro, deixai-me
estar a barba,
Bem piores são as unhas e tenho que me preocupar em
mantê-las sempre
Demasiado curtas, incomoda escrever com as unhas compridas,
As palavras rasgam carne suficiente, sem deixar marcas, às
vezes,
Quem diz que o órgão maior é a pele, é porque vê muito
pouco,
Está dito, que engula quem quiser, no fim ao menos
pergunte-se
O que aconteceu ao futuro, engoli, com orgulho, é um gesto
de reconhecimento
Perguntar, engoliste, tudo, até o luar pareceu desmaiar
durante um momento,
Se há um buraco negro no centro da galáxia, não sei, mas
tenho conhecido
Alguns, bem luminosos e de lábios vermelhos, vai tudo, por
todo lado,
Os versos são o que sobrevive ao horizonte de eventos, o
futuro limpa-se
Do batom, puxa as meias e as cuecas para cima e acende um
cigarro,
Supostamente a luz não devia escapar, mas nem os tomates,
Há abismos que os olhos não podem esquecer e com isso
Trazem-se sempre dentro, no fundo, nunca se escapa
verdadeiramente,
As unhas continuam a crescer e a incomodar, mesmo que os
restos
De epitélio alheio sem perigos de rastreamento, deixai
descongelar o inferno,
A vossa hora chegará e a salada estará pronta para quem
estiver de dieta,
Ou quiser parecer bem, ou não houver mais nada que escape, aos
buracos negros.
06.02.2015
Turku
João Bosco da Silva
segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015
Ronco
“ – the poem oughta be
worth some beer”
al purdy
Enquanto continuarem a dar ouro pela merda dos dentes
branqueados
Pela ignorância, enquanto endeusarem a arte de ter sempre
razão
Sem saberem nada além de rapar os pêlos entre os olhos,
Enquanto se deixarem hipnotizar por letras de canções que
Podiam ter sido escritas por miúdos da quarta classe que já
tocam punhetas,
Enquanto os olhos estupidificarem tudo em que tocam
Por culpa da ligação directa da região occipital aos tomates
e à ganância,
Enquanto usarem só o espelho para ignorar a passagem dos
anos,
Acreditando que a imortalidade está nos balões que insuflam
com agulhas,
Enquanto se achar que a cor da camisola melhor porque minha,
A cor da pele melhor porque minha, o sotaque melhor porque
meu,
Enquanto se usar deus como o papão, quando se quer e convém,
Como quem está sempre doente quando têm que se tirar as mãos
dos bolsos,
Enquanto houver os que apesar de não terem televisão,
Aparecem mais do que o que escrevem e vendem-se ao holofote
mais forte,
Enquanto houver os que estão tão fartos de toda esta merda
Que se deixam afogar em goles intermináveis e rasgam-se
pelos dedos,
Enquanto houver os críticos que criticam só porque não
sabem
Fazer mais nada e querem sempre ficar por cima, mesmo que
capados,
Enquanto houver cegos por opção, porque dentro deles o
mundo melhor
E mais vale ficar enterrado numa avalanche que ser coberto
de merda,
Enquanto houver os que fodem para se encontrarem dentro,
fora deles,
Ou na submissão dos outros e os que são pagos por isso,
Enquanto houver espaço na página e a pastelaria ou o café
Estiverem abertos, enquanto houver tinta, enquanto o sangue
não arrefecer,
Enquanto o mundo for mundo, será tudo uma valente merda,
Ao menos não escondam o focinho nem a piça em espiral,
ronquemos irmãos.
02.02.2015
Turku
João Bosco da Silva
sexta-feira, 30 de janeiro de 2015
Nada De Ti Ficará Quando Eles Se Forem
Que será da cidade agora que todos se foram, agora que só as recordações
A definem, inseguras, seremos um delírio, em que vida, terás sido tu,
E o rio também na dúvida, já nos tínhamos visto antes, uma ruiva contigo,
Agora não, as janelas fechadas escondem um mundo que aos poucos
Se volta a desconstruir, os bares agora sem palavras, só ruído e a solidão,
A certeza de estares longe do tempo, também um dia deixarás de te pertencer,
A cidade agora é dos que acabam de chegar, dos que ainda têm as malas
Por desfazer com a roupa lavada no fim de semana, a cidade é dos pombos
E dos que os alimentam com cada dia do ano, gastando calçadas,
Gastando quem não ficou e estendendo a mão como se a primeira vez,
Quando tantas vezes à hora do almoço, ou ao fim da tarde antes
Do refúgio de paredes finas a bater nas teclas com força para
Que soubessem que ali alguém, a ser esquecido noutros lugares,
Em qualquer lugar, quando se está só, está-se sempre longe,
Não há dedos suficientes para tapar tanto buraco e não se pode
Ser para sempre em ninguém, só a cidade é eterna, mesmo que
Troque de carne como quem troca de pele, resta a memória, insegura,
Terá sido com ela, ou já teria passado o deslumbramento, as paredes
Não respondem, nunca respondem, e a cidade cresce com o vazio
Que deixa, agora que todos se foram, agora que tu te foste,
Mesmo que julgues cruzar-te contigo mesmo, nas ruas que já te esqueceram.
Que será da cidade agora que todos se foram, agora que só as recordações
A definem, inseguras, seremos um delírio, em que vida, terás sido tu,
E o rio também na dúvida, já nos tínhamos visto antes, uma ruiva contigo,
Agora não, as janelas fechadas escondem um mundo que aos poucos
Se volta a desconstruir, os bares agora sem palavras, só ruído e a solidão,
A certeza de estares longe do tempo, também um dia deixarás de te pertencer,
A cidade agora é dos que acabam de chegar, dos que ainda têm as malas
Por desfazer com a roupa lavada no fim de semana, a cidade é dos pombos
E dos que os alimentam com cada dia do ano, gastando calçadas,
Gastando quem não ficou e estendendo a mão como se a primeira vez,
Quando tantas vezes à hora do almoço, ou ao fim da tarde antes
Do refúgio de paredes finas a bater nas teclas com força para
Que soubessem que ali alguém, a ser esquecido noutros lugares,
Em qualquer lugar, quando se está só, está-se sempre longe,
Não há dedos suficientes para tapar tanto buraco e não se pode
Ser para sempre em ninguém, só a cidade é eterna, mesmo que
Troque de carne como quem troca de pele, resta a memória, insegura,
Terá sido com ela, ou já teria passado o deslumbramento, as paredes
Não respondem, nunca respondem, e a cidade cresce com o vazio
Que deixa, agora que todos se foram, agora que tu te foste,
Mesmo que julgues cruzar-te contigo mesmo, nas ruas que já te esqueceram.
30.01.2015
Turku
João Bosco da Silva
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
Bucólica Com Latas De Conserva
“Não te deixes invadir
por essa ternura delicodoce, fanada, a saudade à portuguesa; endurece ou
sucumbes.”
Sebastião Alba
Palmilhavam-se as ruas lamacentas, os amontoados de lixo
entre giestas
Ou em pinhais dos vizinhos à procura de latas de conserva vazias,
Roubavam-se pequenos pedaços de tábuas, umas rolhas de cortiça,
Ou cortiça bruta, quem tivesse coragem nos dedos tenros,
Uns pregos baratos, alguns transplantados das mesmas tábuas
E faziam-se carrinhas de caixa aberta, cada lata uma marca,
DQW as melhores latas de sardinhas em molho de tomate,
E depois disso procuravam-se os ossos de um guarda-chuva e
das varas
Faziam-se flechas para atirar aos cabos descarnados que
cortavam
O céu de um poste ao outro e lá tinham as mulheres que ir de
lenço na cabeça,
Porque o frio da serra é gelado, buscar velas porque os
garotos
Provocaram um curto circuito que apagou a aldeia,
Tocavam as trindades, e lá íamos comer arroz de tomate
À luz da vela, lá fora as carrinhas de latas de conserva
Estacionadas à espera do amanhã e do resto do futuro, quem
Tinha sorte tinha tractores de cortiça que o tio ou o pai
esculpiu,
Os ricos tinham-nos de plástico comprados na feira da vila,
O arroz, lá se comia, porque apesar de não se gostar de
tomate,
A luz da vela não era suficiente para se lhe sentir o sabor,
O pior eram os trabalhos de casa, que desencarrilhavam
Naquela curva perigosa entre amieiros a caminho da cidade.
26.01.2015
Turku
João Bosco da Silva
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
“Allen Ginsberg at Home.”
Abrir um livro de Allen Ginsberg e logo ali, na cara, a
impossibilidade do regresso,
A constatação da perdição, “Home I´ll never be”, o poeta
sentado à esquerda,
Mão direita na barba e em baixo a descrição impossível, para
mim, eu que me sento
Na mesa da cozinha enquanto a minha mãe faz o jantar, tão
longe de mim, “Allen
Ginsberg at home.”, com um horizonte que me parece familiar,
em casa, como posso
Estar onde não me encontro, inspiro dentro de uma revista de
banda-desenhada
De mil novecentos e noventa e quatro e o cheiro agora a
velho, húmido, cansado,
Um reflexo da minha testa, têmporas e motivação, só os
escorpiões, de patas para o ar,
Se mantêm e eu ainda tenho pesadelos com os pés descalços em
fragas cheias deles,
O meu quarto agora impossível de mão esquerda na barba
durante horas, a arrefecer,
Tudo a arrefecer em direção à entropia estável dentro, o
Ginsberg em casa,
Num descampado qualquer, com um monte no horizonte, podia
ser no lameiro do meu avô,
Onde me procuro sempre que tenho oportunidade de fugir e só me
encontro
De olhos fechados, por instantes, como um orgasmo que quase
quase e dentes a derrubar
Tudo, aquela fotografia é o meu poema favorito do poeta
barbudo, a perdição da casa,
A progressão irreversível do afastamento próprio até a
memória de nós se perder
No horizonte, casa tornou-se no lugar do regresso impossível.
Torre de Dona Chama
15.01.2015
João Bosco da Silva
segunda-feira, 12 de janeiro de 2015
Eu Monstro
"Direi da minha vida
não é plena mas contém-me."
Sebastião Alba
Tenho em mim a ressaca de todos os livros que li,
Não culpem a inocente cerveja do arraial,
Não sou má pessoa, mas sei que a gente é ruim,
E lá no fundo só esperam um aberta para te foderem,
Dizem-me paranoico, eu digo que tenho memória,
Vão perguntar ao Kurt enquanto engole toda a dor
Na eternidade, em forma de chumbo derretido,
Nada melhor para as cãimbras da madrugada do que
Uma violência dirigida ao alvo de toda a realidade,
O corpo que a constrói e que se gasta no processo,
O Rimbaud escrevia entre galinhas, outros escrevem na
Companhia dos figos e das recordação agarradas aos muros
Cansados das longas ausências, nunca te vendas
Ao ponto de deixares de te poder dar sem interesse,
Evita a missa e ri-te dos hipócritas das procissões,
Hoje não é a lucidez que fala, mas o pó acumulado
Ao longo dos anos que se levanta, ganha formas no ar,
Espadas, reis, outros homens de barba, fantasmas,
Delírios de aldeia, quantos pecados devem ter alguns
Devotos, para se verem na necessidade de levarem
Um golden shower de um padre pestilento e hipócrita
Como as fundações da moral cristã, que sujos
Se devem sentir para se levarem no esperma
Amaldiçoado do homem de deus dos homens mascarados,
O deus das figueiras e das galinhas não perdoa,
Nem chega a condenar, limita-se a não existir
Na certeza de que o amanhã não será geral,
Tal como a ressaca e os suores nocturnos dos perdidos.
Torre de Dona Chama
09.08.2014
João Bosco da Silva
quarta-feira, 31 de dezembro de 2014
como te percebo Sebastião,
Deixa lá, ao menos estiveste bem para ti, já foste
demasiadas vezes
Nos outros e agora, nem um contágio de ti neles, deixa-te
morrer para o mundo,
Mesmo enquanto te olhas no espelho, não te merece, mantem-te
nesse teu
Universo, dorme muito, sonha mais, o resto é ruído e fome e
medo e carne,
Não dês mais oportunidades a comparações, és irrepetível,
até o padrão
Estrela do teu cu é único, querem é foder-te com os olhos e
fingir-te invisível,
Não te dês mais, escreve sobre os tempos em que eras capaz
de te interessar
Pela podridão e davas dentadas em maçãs demasiado maduras
para a época,
Deixa lá, a cama é o teu trono, os teus dedos a tua memória
mais fiel,
O copo o teu melhor amigo, mesmo que te mate aos poucos,
Também a vida sem copo te mata aos poucos, sonha, acorda
tarde se puderes,
Pode ser que lá encontres os teus amigos, te encontres a ti,
a caminho da escola,
E possas roubar umas uvas ou uma sombra ao lado de um
silvado,
Morreste há tanto tempo que nem deste conta que agora,
Estás só a apodrecer, nada em ti resta além da saudade e
Agosto ainda tarda
E não é mais o mesmo, podias muito bem ser os ossos do teu
cão morto,
O caixão do familiar que nunca encontraram, mas ainda
incomodas,
Ainda invertes o copo cheio e tornas a página vazia numa
circunvolução
Enquanto a consomes no esquecimento, em cuecas, porque nada
mais.
01.01.2015
Turku
João Bosco da Silva
segunda-feira, 29 de dezembro de 2014
Quando o teu mundo só teu?
Cumpriste como só tu podias cumprir,
O que esperavam de ti era só o que eles esperavam.
Só porque um caminho menos escolhido, errado?
Putos idiotas, todos, porque tu da idade do tempo.
Quantas gerações se tornaram aborrecidas,
Enquanto tu ainda a festejar, bêbedo mas a festejar.
Putos parvos quando crescem e se tornam sérios,
Sérios amargos cheios de ressentimento porque o tempo os obrigou
A ser adultos sérios e responsáveis.
Sérios são os mortos quando não morrem a sorrir.
Amanhã não quero morrer que é festa,
Haverá a festa, mas tu já não estarás,
Porque a tua festa, que foi a vida, acabou.
Puto, diz-me ele, vós é que estais todos mortos.
13.02.2010
Savonlinna
João Bosco da Silva
quinta-feira, 25 de dezembro de 2014
É O Que Se Arranja
Quando há demasiado vazio, aquele que nos empurra para a
inconsciência
Do sono, os vidros das janelas demasiado silenciosos, nem
embalam
O ritmo dos versos que dentro a fazer de ovelhinhas a adiar
a queda,
É o que acontece, quando a chávena quase vazia e a garrafa a
ser só ecos
Dentro, enquanto se espera uma resposta ou um olhar a
reconhecer
Que estamos vivos, durante um lenço de papel e um
esquecimento
De bolso ou a necessidade maior, na espera de uma partida,
como
Se a própria espera não fosse já ter partido, quando os
passos
São tudo o que nos acompanham e o ranger é a certeza que
ainda somos
Um peso qualquer neste planeta de voltas e mais voltas,
sincronizadas
Pelo relógio adaptado às necessidades da solidão universal,
Daí isto não precisar de ritmo, os segundos esticam e
encolhem
De acordo com a velocidade dos dedos ou da ausência de gente
À volta deles, isto é o que acontece quando matam aquele que
nunca morre
E nem se quer ver, porque no fundo é só para que hajam mais
olhos
Na direcção do vazio, quando o vazio tudo o que empurra isto
Para onde a luz que tudo revela, isto, que é apenas o que
há, quando
Nada mais parece haver, a não ser segundos que passam por
nós,
E só o eco das células que morreram a deixar o vazio que
inquieta
A nossa sensibilidade de inútil testemunha do desperdício
próprio,
O que esperas, a estas horas é tudo o que se pode arranjar,
um poema.
26.12.2014
Turku
João Bosco da Silva
Subscrever:
Mensagens (Atom)





Mus%C3%A9eD'Orsay.jpg)



