sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011



Who will be the last one?


Who will be the last one,

The last to cry,

The last to laugh,

Crazy,

The last eyes on Mona Lisa,

Before it´s erased forever,

The last knowing the word Love,

The last not understanding it,

The last language,

The last broken dream,

The last sigh before the last?


Who will finally kill god,

Taking Him to infinity,

The last to believe, or not,

That this had no meaning?


Who will be the last face

Touched by the Sun,

Before it hits the ground,

And won´t have the chance

To be buried?



I won´t,

Even so I will

Die alone.



B.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011




This is a sad crowded world


This is a sad crowded world

With sad crowded people

Scared, lonely, suspicious,

Desiring a hand,

With a closed hand full of nothing,

Running to get nowhere,

Where everybody goes.


And then it´s to late

For receiving a hug,

Open arms, open hearts,

Clear of fear, killing loneliness,

Because death

Is cold enough.



B.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011



Confissão De Um Viciado Em Melancolia


Desisti de ti, sem saber, quando lhe abri a porta, quando ela entrou,

Quando te vi longe, distante e impossível nas noites quase frias,

Além das brumas cinzentas de um futuro incerto, um esquecimento adiado,

Uma quase derrota, uma resignação por um mal menor

E ela entrou e a noite engoliu-nos aos dois e é triste ter pensado em ti,

Como uma despedida de tudo o que poderia ter sido, se tivesse encontrado o teu olhar,

Aquele que me cativou, aquele que te ofereceu a mim.

Nunca deixei de ser sincero, mesmo quando a pele me falava mais alto

Que a razão, nunca deixei de olhar até ao fundo de ti, nunca deixei de te procurar,

Nos sonhos, nas ruas desertas, nos quartos vazios, nas noites frias e escuras.

Queria lembrar-me do teu perfume no meu corpo, sentir a irresistível força

Que em ti me atrai, sem eu perceber porquê, uma fome animal,

Uma sede vampírica da tua carne nos meus lábios, de uma marca minha em ti.

Sabes que a vida não é feita só de derrotas, de desilusões, de medos e sonhos,

Sabes que a vida não é um filme, os filmes é que são partes de vidas

E no final, todas são dramas, todas acabam em lágrimas,

Algumas porque só restam aqueles momentos que as fizeram valer a pena,

Longe e impossíveis do lado do agora para sempre,

Todas valeram a pena, todos os sorrisos, os olhares, as carícias, a dor, a dor.

Porque eu sei, eu sei que fui eu quem lhe abriu a porta,

Só porque a tua estava encostada, e tu lá dentro, com medo ou vergonha,

Um cansaço que foi culpa da minha fome incontrolável,

Esquecido de que tu não eras ainda fruta madura, apesar da aparência apetitosa,

E na boca levo um gosto ácido. Sempre gostei da acidez e do sabor das lágrimas.

Desisti de ti quando te vi tão longe ao meu lado, quando te tentei tocar

E te dissipaste como uma bruma, um sonho no fim, que a luz da manhã sopra para o esquecimento,

Umas costas sem rosto, um riso que não conhecia, uma força contraditória,

Um ódio sem destino, uma cor que se esqueceu e era vermelha a chama.

E agora… agora, somos menos do que fomos antes de sermos juntos,

Desaparecendo aos poucos, ficando uma mão de recordações, um nome,

Um aperto no peito desde longe, uma distância mais longa que o espaço,

De tempo e ao passado não se poderá regressar nunca mais.



Turku



08.02.2011



João Bosco da Silva

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011



Dentro De Fora


Tantos, perdidos dentro dos seus sonhos e medos, com os seus horários

A marcar o passo, sem tempo, sem vontade que os leve, só uma obrigação,

Só um porque sim, porque tem que ser, que na verdade nem tem que ser

E o filme continua, com tantos actores principais, cada um por si, todos sós

No papel que desempenham pelas ruas desertas, cheias de olhos que se cruzam,

Uns quase se tocam, quase se falam, não fosse o peso de tantos outros.

Um café, expresso, espero, esperam que seja assim que espero, mas não,

Demasiado intenso, demasiado amargo o sabor que fica na boca,

Preço demasiado elevado para algo que quase não se sentiu,

Perna direita sobre a esquerda, casaco na cadeira ao lado e algo melhor que o expresso,

Um momento onde, no fundo da sala, o centro, silencioso, um mundo pequeno,

Paz e olhos para fora, uns minutos fora com um gosto amargo dentro, o de sempre.

Alguém bebe chá com a sua mochila, com o seu olhar cansado de quem andou muito

E viu demasiado depressa e o chá é o mais barato que se pode beber num dia tão caro,

Quase que se lhe adivinha a idade mesmo de costas, desde sempre para ela.

Ao fundo a cara fina de nariz comprido de um francês que me olha, como se encontrasse

Num estranho um conhecido, também eu, mas afinal nem eu, nem ele francês,

Quando passa com a sua ruiva de alemão na boca, e desaparece para um mundo desconhecido.

A morena, com olhos rasgados e olhares entre cruzar e entrecruzar de meias pretas,

Que apertam a sua essência e a vontade do seu olhar, que procura o meu

Tão longe que a olho quase distraidamente, quase vinte, ainda cheia de sonhos,

De risinhos altos e despreocupados, tão longe, a três mesas de distância, a vidas de inferno,

Paraíso, cansaço, excessos e tédio, lucidez insuportável, embriaguez suicida,

Morena com uma melhor amiga de sempre até ao fim do ano, se chegar a tanto, loira,

Desinteressante se não se pode encontrar o olhar, muito pálida, excessivamente pálida,

Um fantasma como os que me acompanham sempre, mulheres que foram empalidecendo

Enquanto eu me tornei amarelo, quase verde, um dia verde, um dia invisível.

Quatro vezes dez sentadas com gestos sofisticados e mecânicos, perderam a naturalidade,

Mesmo quando levam a chávena gigantesca aos lábios, não sabem florir, não mais,

E escondem o olhar de tenros anos atrás de óculos com armações grossas de cores berrantes,

Que memórias lhe restarão depois de tudo, depois de tanta dor, tanta felicidade que nunca dura,

Tantos anos que passaram (passariam elas por todos), filhos que lhes roubaram a vida que tiveram?

Sentadas todas senhoras, agradecem-lhes as filhas os filhos e os filhos as filhas

E a vida continua enquanto houver vontade de entrar e que se lhe entre,

Mesmo num café de arte, onde tudo é o início longo de um filme pornográfico abreviado no cerne.

Os quadros tornam o ambiente quase vivo, não fosse o piano silencioso do outro lado,

Os quadros sentados, cheios de cores, vivas, frias, quentes, apagadas, cansadas, cheias, vazias, esquecidas…

Podem viver-se vidas, sentado num café de paredes brancas às quatro e meia da tarde,

Com o rio Aura a passar por baixo dos olhos, lá fora, trazendo memórias de dias verdes e quentes.

Mas a vida passa-se entre os passos até chegar além, seja lá onde for, não interessa,

Chegar além é o que nos leva, o além já lá está, parado, à espera ou não.

Não muito longe, constrói-se uma ponte, mais uma ponte e sabe bem ouvir a vida,

A música mecânica, simples, que nos passa por dentro e se complica, sobe e desce.

Quase que não se existe, quase que não se sente o cheiro nauseabundo dos alcoólicos

À porta da mercearia, quase que não se lê nada nos passeios, quando os olhos tão longe,

Lá no fundo, escondido dos olhares azuis, verdes, frescos, jovens e aparentemente felizes,

Escondido do Sol que nos querem oferecer, para depois nos deixarem a dormir na rua,

Enquanto o frio entra sem nos bater à porta e é mais uma, mais um risco, menos espaço na parede.

Tantos perdidos dentro dos seus sonhos e medos, dentro de cada um que passa,

Passo a passo, pela vida, pelas vidas que vão, para o mesmo lugar, sempre, sempre.



Turku



07.02.2011



João Bosco da Silva

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011



O Jogo


O jogo perdeu a piada,

Já não puxa,

A vitória final não satisfaz,

Já não tem interesse

Quando não se pode ser melhor

Do que o melhor

Que já se foi.


Mais uma vez,

Noutro lugar,

Noutro dia,

Noutro corpo

E no fim um aroma ligeiramente

Diferente, que se tenta

Lavar dos dedos,

Das virilhas, da memória

Que já se esqueceu.


Ville Sillanpää


02.02.2011


No Ar

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011



Esperar


Só porque às vezes apetece, só porque sabe bem esperar,

E deixar cair letra a letra as palavras, palavra a palavra as ideias,

Escreve-se mais um poema, mais um momento que se esquecerá,

Que tenta perdurar na inutilidade dos versos irregulares,

De uma cabeça que olha o horizonte muito séria,

Com o som do vento dentro, com as memórias que o verde lhe traz

E nada mais, porque ainda não são horas, nem o relógio se sente,

Só o Sol que se despede e aquece com a despedida, ao contrário do resto.

Não vale a pena imaginar o que não é ainda, não vale a pena ter medo,

Não enquanto se espera, sentado, que as palavras acabem,

Que as ideias se aclarem para se poder deslocar

Em direcção às emoções verdadeiras, livres de sonhos pequenos,

Livres das vidas em calhas, que seguem com o fim traçado,

Em direcção a uma vida de engano, não vale a pena agora.

Agora deixa-se cair, gota a gota o que resta da ilusão que se rompeu,

Para ir vazio, limpo, de braços abertos para o que vier,

Seja mais do mesmo, pior, melhor, ou o que nem se imagina,

E o futuro é sempre um que nem se imagina,

Por isso todas as decisões foram em vão, todo o medo, toda a incerteza,

Porque o controlo é este, agora, sentado, à espera da última gota,

Para me erguer uma vez mais e conquistar mais um mundo,

Mais uma vida que nasce. O cemitério das outras fica no silêncio

Dos muros além dos meus olhos, não valeram o suficiente,

Não tiveram força, por isso esta nasce e segue

E eu sigo com ela, enquanto espero, só porque me apetece,

Deixando cair letra a letra as palavras, palavra a palavra as ideias,

Enquanto crio mais um esquecimento, para deixar num banco,

Até chegar a hora e nunca mais, nunca mais no mesmo lugar no mesmo tempo.



31.01.2011



João Bosco da Silva

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011



Putas e Cães


Se doer… vai ser pior


Que dizias tu Charles, sobre os homens que amam as “suas” mulheres?

Coitados! Só as mulheres desprezadas nos serão fiéis, só elas nos chuparão com vontade

E sinceridade e medo, porque não há nada mais sincero que o medo e tudo o resto

É uma mentira que tentaremos tornar mais aceitável, tornando tudo o resto mais baixo,

Arrancando a traição em mil noites desesperadas, sem amor em que cães se prendem

Na falta de esperança naquilo em que crescemos a acreditar: mentiras!

Somos apenas, basicamente, reduzidamente, verdadeiramente dois objectos,

Mórbidos, promíscuos e ninguém é pior do que ninguém, porque não há limite,

Para o amo-te com um pedaço de carne de um desconhecido entre os lábios

Que irão acariciar o filho da puta que um dia nascerá, que terá culpa,

Que terá uns cornos piores que o diabo, porque só o diabo estará livre da dor,

Com o seu coração em chamas, constantemente, a apagar o vazio eterno das putas,

Enquanto os cães ladram, enquanto os cães mordem a carne podre de todos,

Até que o amanhã nasça com a ilusão de se ter digerido mais uma mentira.

Venham elas, venham todas que eu farei tudo para merecer o inferno dos católicos,

Que eu farei tudo para te cuspir na cara com um sorriso, para te ejacular na amizade loira,

Para trazer comigo os aromas de quem mais odeias, ou desconheces, porque assim queres,

Assim cultivaste desde o início, desde que me olhaste com os teus olhos verdes,

Mentirosos, mas longe dos meus, longínquos, frios e sem medo de descer até ao fim,

Até ao limite de mim mesmo, trazendo comigo a peste e a perdição,

Para te oferecer, enquanto te digo que te amo e tenho pena da possibilidade

Dos nossos filhos, bastardos sem escolha, sejam quem for o pai, a mãe, a vida,

Sempre miserável, sempre solitária se não se ignorarem as mentiras das putas

E dos cães a ladrar, que nos dizem a verdade das noites sóbrias, das noites ébrias,

Longínquas, sempre perto, a sangrar, num coração negro que não deixa escorrer mais nada.

Esses dentes que não foram os meus, que não foram os que deixaram sair um amo-te rasgado,

Mas que te marcaram, te deixaram um nojo adiado que me viria a visitar, um nojo de ti,

Dos cães que me diziam a verdade, mas realmente, a carne nos meus dentes nem sei de quem é.

Mesmo assim prepara-te, prepara-te para o inferno que trago dentro de mim,

Prepara-te para os demónios que querem liberdade, que te querem devorar,

Que te querem cuspir no corpo nojento de pega dissimulada, daquelas que são pagas

Com a dor do atraiçoado. Não me conheces? Não, não trago a luz da manhã,

Trago o fogo da noite e tu irás arder com todos os pecados que conquistei, até a hora da tua morte,

Nem que os cães ladrem e as putas sejam perdoadas pelas escolhas que tomaram na vida.

Ámen.



28.01.2011



João Bosco da Silva

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011



Do Inferno, Sem Amor


Mais uma vez o carro passou e não parou, mal se viu, só se sentiu o ar que empurrou

Contra quem quer que estivesse por perto, indiscriminadamente e só os cães correm atrás.

Tem que se seguir em frente, tem que se chegar ao fim antes que ele chegue

Até aqui, não pára, não se pode ficar agarrado aos passos dados, se os seguirmos

Andamos para trás e se não ficamos no passado, é porque não valia a pena.

Há vidas que herdam os pecados das vidas antes das delas, há vidas com a vida limitada

Porque assim escolhem, porque não imaginaram escolher outra coisa, porque é fácil

E seguro. Há vidas que não têm fogo próprio, nem coragem, nem fé no que interessa.

Há vidas que não chegam a rasgar a membrana amniótica e vivem sem nunca terem

Inspirado um ar que seja deles, que os faça chorar por sentirem o poder de umas mãos vazias

E um mundo tão grande e frio, tão cheio de possibilidades se o medo não for o leme da vida.

Passa-se e fica apenas a ideia, algumas cores sem forma, um cheiro, no melhor dos casos um nome,

A temperatura esquece-se quando muda e parece que sempre esteve frio, parece impossível

Haver um Verão num mundo que congela aos poucos, em tons frios e melodiosos,

Numa voz quase nórdica, a quilómetros de distância da felicidade. Todo o caminho é feito de ilusão,

Só quando se chega se tem a certeza e a consciência do erro que foi a viagem, mas a vida é isso.

Dói como o fogo, o carro vermelho que passa, o olhar que não se imagina na cor dos olhos

Improvável de uma majestade infernal, só o cheiro a enxofre, a ideia do aroma dos mortos,

Da cor das velas que derretem, dos corpos cheios de pregas que acordam cedo ao domingo

Para encontrarem a salvação onde mora o vazio, a esterilidade, a falsidade e a hipocrisia concentrada

Pelos séculos dos séculos, até à hora da morte mais que merecida e o esquecimento antes

Do último suspiro, Ámen. O pregador cala-se e a verdade começa a escorrer pelas paredes húmidas,

Até ao vazio, de um almoço entre mais mentiras e hipocrisia e cornos, qual majestade infernal,

Porque o inferno somos nós, uns para os outros, para nós mesmos e os cães correm atrás.

Mais uma vez o carro passou e já nem se viu, nem se notou, ainda bem, já que o condutor

Tem mais almas para roubar, mais corpos vazios para deixar no caminho por onde passou,

Cheios dele, cheios do calor infernal que dói como o fogo e atrai como a condenação da alma,

Mas na verdade purifica a mentira onde se nasceu, faz ver por momentos, até a cegueira regressar.



24.01.2011



João Bosco da Silva

domingo, 23 de janeiro de 2011



Degelo


Não me pediste nada e eu

Deixei tudo, entreguei

O meu futuro visível

Até me fazeres

Desaparecer.

Devias saber que,

Enquanto o meu corpo

Sentir o frio

Da manhã branca,

Ainda há tempo

Para renascer na

Primavera.

O verde regressará e tu

Irás com a neve

Para longe das memórias

Felizes.



Ville Sillanpää (João Bosco da Silva)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011



A Minha Namorada Belga


Colocava os chás e as infusões em cima da mesa pequena e branca, com um sorriso sincero

E iluminado e um beijo quase tímido nascia na minha cara rapada de manhã,

Porque ainda me interessava, apesar do frio estranho lá fora, trazia o calor nos seus olhos

Azuis com traços púrpura, com o seu inglês afrancesado, doce e irresistível.

Qual queres, perguntava-me e eu já quente por dentro, dizia-lhe, de frutos vermelhos,

Que ela preparava com os lábios alegres, com o olhar aceso, sentava-se do outro lado da mesa

E simplesmente trocávamos olhares até um sorriso os romper, enquanto se difundia o aroma

Dos saquinhos na água quente e apesar do silêncio, ouvia-se uma certa melodia no ar.

Para acompanhar punha umas pipari kakku e tudo a ficar ainda mais doce, quase inocente.

Quase todos os dias o mesmo ritual, às vezes uma carta debaixo da porta, quando se falhava uma vez,

Com uma ilha paradisíaca desenhada e o texto a acompanhar, vejo-te aqui esta noite,

E senti-a ali aquela noite, a sua presença quente, alegre, suave, brilhante, aromática,

A sua voz deliciosa e hipnótica, as suas mãos finas e brancas, o seu cabelo perfumado,

Na página branca e quase podia ver o seu gesto quando colocou a carta debaixo da porta,

Naquela manhã, sabendo que me esperava em baixo, para seguirmos caminho pela neve fora.

Mas um homem não vive de chás e carinho, um homem quer carne, violência consentida,

Quer possuir corpo e alma, mas o corpo é o único real, o único possível de ver ser submetido.

Uma noite quase ébria, mais próximos que nunca, os olhos, os beijos e as carícias nas mãos

Até ao limite, não em casa, não no nosso templo, mas na promiscuidade de um bar,

Um beijo desesperado, adiado a chás e sorrisos, cartas e olhares, o consumar do inadiável.

Houve uma ilha, gelada, uma casaco sobre a neve e dois corpos com o máximo de roupa possível,

Mãos ávidas, bocas com fome, corpos sedentos um do outro e muito frio que se ignorou,

Porque estava fora e o que está fora nunca interessou quando se encontra o que se procurava,

Até se encontrar. Uma semana passou, uma semana quase mágica, com chá, carne e pipari kakku,

Com gelo nas ruas, trabalhos a roubar-nos tempo, franceses e americanas, loiras, ruivas,

Olhares iluminados a cerveja, a desejo do já e agora, hotéis logo ao virar da esquina,

Presas, troféus, uma fome de carne, de outros sabores, de mais números

E a magia do chá, difundiu-se pelo ar seco e frio da cidade congelada nos seus quase trinta negativos.

Tudo estava bem, aparentemente e uma noite chorou-se no seu quarto, abraçados, sem chá,

Sem olhares acesos, só a dor de uma despedida precoce, uma paixão sacrificada em nome

Da fome, da efemeridade, do súbito, do vício ancestral de ejacular em várias mulheres

E sinceramente, foi bom assim, noites sem chegar a aparecer em casa, cheio de mim

Pelas manhãs, apesar de mais leve, sem nomes a pesar na consciência, tudo tem um fim,

Mas a vida não tem finalidade nenhuma, por isso, tudo deve acabar antes de começar algo.

Fomos à Rússia, quase uma semana, eu estava curado dos chás há muito, a carne, suor e gemidos,

Os franceses avançaram e a fronteira limitou o início e o fim, enquanto eu só me importava

Com a vodka, as prostitutas da recepção, as finlandesas bêbadas, os seguranças furiosos,

O Hermitage, o rio congelado, os ladas, as ruas escuras e sem fim, as lojas onde ninguém

Percebe o que queremos, o amigo italiano, o catalão medroso, o medo de ficar doente

E ter que ser internado num daqueles hospitais de há cinquenta anos atrás,

O pacote de filipinos com inscrições em português e espanhol, esfinges roubadas,

Arquitectura emprestada, fumos no horizonte gelado, tão estranhos e distantes,

As prostitutas no bar do hotel Moscovo com o seu menu sexual que me fez rir na cara delas,

Magras, deliciosas, modelos que nunca venceram ou bailarinas que perderam a graça,

Com o seu vestido de rede e o seu vestido transparente, com o púbis careca,

Não fosse a cerveja na mão e os escassos rublos trazidos, tantos e tão poucos

E as outras gratuitas no mesmo andar, a uns passos e uns goles de vodka.

Ela nem sempre viu, nem sempre foi feliz e o seu olhar quando estava por perto era triste

E o seu sorriso forçado, a sua presença contrariada, com o francês ao lado,

Com o mesmo sotaque, mas demasiado efeminado, irónico, quase ridículo apesar da beleza,

A americana a tentar vingar-se directamente do seu europeu emprestado por umas noites,

Que afinal poucas e eu fascinado por aquilo tudo, como uma criança a ver desenhos animados.

Não voltou a haver chá, trouxe-se muita vodka, rum, tequilla e cerveja, quase o equivalente

Para apagar as memórias que se criaram por lá e eu continuei com a minha vida, a multiplicar-me

Em nadas, em noites e fluídos que se espalham em corpos alheios e se limpam e se esquecem

E tudo era perfeito na sua imperfeição natural, uma promiscuidade natural, com nada mórbido,

Apenas a curiosidade inocente de querer um brinquedo novo, de descobrir alguém novo, de foder mais uma,

Estava livre e quem é livre não peca, não tinha nada e quem não tem nada, nada pode perder.

Abri as mãos dela, mas ela estava presa, tanto que teve noites perto do coma alcoólico,

Que só foi apaziguado com um beijo misericordioso, um último beijo consentido,

O conhecimento do último beijo para redimir a alma atormentada que não encontrou paz

Na mesma língua, noutra língua, sem chá, sem pipari kakku, sem cartas debaixo de portas,

Sem braços dados pelas ruas geladas, sem sorrisos sinceros e inocentes, sem um beijo de boa noite,

Nozes dos dedos a bater à porta à noite, de manhã, um olhar verde que sente e não sente,

Que quer tudo e nada e a melhor forma de abraçar tudo é ver-se com nada nas mãos.

Acabaste por seguir o teu sonho, o que já tinhas, foste para a Austrália e tornaste-te

Naquilo que eu queria que tivesses sido para mim, mas foste demais, eu não queria tanto,

Minha colega, minha amiga, meu alívio, minha cura, a minha namorada belga.



21.01.2011



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva

terça-feira, 18 de janeiro de 2011



Poema De Prazer


Com Bukowski no colo, a televisão a tagarelar numa língua que não reconheço,

Um daqueles programas para perder tempo, como se o tempo fosse excessivo,

Quando nunca chega, quando se aproxima do fim e deixa-se andar, deixa-se passar,

Porque amanhã é que vai ser, acabo amanhã, começo amanhã, não me apetece agora,

A vida passa e o livro a fazer-me peso para além das pupilas, que nunca mataram ninguém,

Mas já ajudaram, tiraram valor ao tempo, tiraram-me valor, mas sempre me senti melhor

Sendo um completo animal, sem tretas, sem palavras inúteis quando há dedos, desejo,

Excitação, erecção, um momento possível, um jogo de carne e fogo, mudo, gritado e gemido.

Com Bukowski no colo e um barulho de fundo quase hipnótico, perco-me deste tempo

E olho para o vazio, onde alguém me passa à frente, sem reparar, continuo, longe, de agora,

Em quartos estranhos, com cheiro a sexo e perfumes desconhecidos, abraçado por ritual,

Antes do pequeno-almoço acompanhado de um diálogo estranho entre duas mulheres

E uma delas ainda nos meus dedos que levam a chávena de café às mãos,

Devem estar a falar de mim, mas não interessa, direi que nos vemos na próxima semana

E esse será o meu último adeus, o karma apresentará a conta quando quiser,

Sempre dei o que podia dar de mim e por vezes nem uma ejaculação na pele suada.

Com o Bukowski tão morto e tão presente, tão real e tão cru, sabe-me a vida,

Sabe-me a sofás e gente nua, olhando a porta aberta enquanto se geme a medo, trincando

As almofadas sujas (de que outros encontros?), a boca seca que tenta fazer brotar

A fonte ruiva e deliciosa para a conquista de mais um corpo, pela madrugada fora

Até que de manhã, com fome e ressacado, a deixo ir para a esquerda, com o vestido sujo

Da minha imundice, a boca com o sabor da minha vontade, tão linda e loira e caracóis,

Um anjo que passei a noite a conspurcar, a explorar, ela sorri-me, agradece-me

E eu vou dormir para o lado de quem não merece um hálito daqueles à hora de almoço.

Com o Bukowski morto, velho para sempre, bêbado e sincero, aqui à frente,

Um diabo qualquer a falar longe (na televisão?), um carro de um namorado, que num mês

Um noivo, que em dez meses um pai e um suspiro de alívio e de desilusão, apesar de ter sido

Só mais uma descarga consentida, uma fome saciada, mais por ela, com aquela carne fogosa,

Pálida e de encher a boca e as duas mãos, com o dono do carro longe com os amigos,

Tudo o resultado de um desejo descoberto por uma frase simples como,

Quero fazer amor contigo, num caminho abandonado, numa folga de trabalho, contra o tempo.

Com o Bukowski nas mãos, tudo o que restou dele, como tudo o que restou de todas,

Uma memória, umas memórias, que se lembram com a mesma emoção com que se ouve

A televisão que se vê para passar o tempo, enquanto não chega a hora, a próxima,

O karma a pôr um travão, ou não, que no fundo tudo é natural, como não ter moral,

Tudo é passageiro, tudo nos deixa se não formos nós a deixar, só nós ficamos,

Nem vale a pena deixar marcas, a não ser umas palavras, para alguém que se aborrece com a vida,

Alguém que acha que ser poeta, ou ser libertino é ter uma vida cheia e feliz,

Alguém que é feliz e não o sabe, com a sua mulherzinha no colo, envelhecida,

Invejando outra vida além daquela que chegou ali, quando há tantas que ficam tão longe,

Gastam tanto tempo, com programas de televisão ridículos, porque o tédio aperta

E não se aguenta ver as horas a passar, sem passar por cima de alguém, dentro de alguém,

Sem ouvir alguém gemer a nossa presença e implorar a nossa existência dentro.



18.01.2011



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva



Fui Eu Que O Matei


Fui eu que premi o gatilho,

Fui a bala que espalhou sangue e miolos pela parede,

Fui eu que tornei a ponte demasiado alta,

Fui eu o banco que lhe falhou os pés e a corda à volta do pescoço,

Fui eu que tornei a curva demasiado fechada,

Fui eu que o obriguei a beber mais naquela noite,

Fui eu quem o fez foder aquela puta desprotegido,

Fui eu o cinto de segurança que não se colocou,

Fui eu o vírus,

Fui eu quem pôs o dedo no botão,

Fui eu a faca que se enterrou no fígado, se rodou e se retirou,

Fui eu que pus o carro a trabalhar dentro da garagem fechada,

Fui eu quem tornou o piso escorregadio,

Fui eu quem fez mutar as suas células,

Fui eu a bactéria fulminante,

Fui eu todos os maços de tabaco durante quarenta anos,

Fui eu quem lhe abriu o cu para um desconhecido,

Fui eu quem lhe tirou a vontade de viver,

Fui eu quem lhe deu demasiada fome de viver,

Fui eu quem o fez atravessar sem cuidado,

Fui eu quem lhe pôs a cabeça no forno e fui o forno,

Fui a electricidade que o paralisou até ao infinito,

Fui eu quem gritou algo sobre deus e um grande silêncio,

Fui a altura e a gravidade, o seu peso e o chão duro,

Fui eu quem gaseou os seus nervos,

Fui eu a tempestade, as ondas, todo o mar,

Fui eu quem deixou a terra solta para o enterrar vivo,

Fui eu o cão, o lobo, a raiva,

Fui eu o excesso de gorduras, fui eu a falta delas,

Fui eu quem lhe bloqueou o vaso,

Fui eu quem soprou contra ele o fim,

Fui eu a carne crua e o sangue contaminado,

Fui eu quem lhe deu uma dose excessiva e final,

Fui o pó, os cristais, o líquido, o fumo, a agulha, a sujidade,

Fui eu quem lhe cansou o coração, quem o fez desistir,

Fui o cianeto e os dentes que o trincaram,

Fui o ódio, o desespero, a guerra, a catástrofe,

Fui o dia, a noite, a má hora,

Fui eu que o matei.



18.01.2011



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011



Pés Frios


Enquanto os pés arrefecem, tudo se torna mais claro, com o silêncio

A acompanhar convulsões inertes, eléctricas, químicas e dedos que tentam

Ser sinceros ao pó que se levanta nas memórias que aparentemente

Deixaram de valer a pena e são as que suportam todas as outras,

Que por serem recentes, parecem mais importantes, estando longe disso,

Onde as galáxias morrem e não onde universos foram criados.

No fim, tudo são uns pés que arrefeceram, desejos que se perderam,

Amores que passaram e se odiaram e passaram mais e se tornaram ridículos

E ficam a tornar-nos lúcidos de que o coração erra tanto e não vale a pena

Dar-lhe ouvidos, também ele arrefece, também ele perde o ritmo

E ignora sombras ridículas de que já não somos.

Só as fotografias que ainda nos querem, depois de tantos anos,

Tanta erosão, tanta desilusão, distância, que nos esperam depois de tanto silêncio,

Que nos aquecem quando os pés já arrefeceram há horas,

Só essas merecem o respeito dos sorrisos sinceros, dos olhares com desejo,

Com remorso ou com tristeza, só essas merecem os dedos que as tocam

E os lábios que as beijam sem pudor, sem medo, mesmo que ainda não haja silêncio

Num quarto vazio, pois ainda vibram as fibras de algo sem corpo que morre

Para ressuscitar algo melhor, mais real, mais sólido, que resistiu à sua morte possível.

As madrugadas ainda adormecem, as lareiras arrefecem, o vinho deixa de se sentir

E só uma dor de cabeça e uma náusea ficam da euforia da noite anterior

Que o dia seguinte apagará para sempre até haver uma próxima, mais uma,

Uma que dure toda a eternidade a que um mortal tem direito,

Até não haver forma de aquecer os pés que se deixaram arrefecer.



17.01.2011



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva



Em Defesa Dos Vampiros


Aos vampiros, quem os torna vampiros, são as vítimas

Que os empalidecem com o seu calor, o seu pulsar de vida,

O seu cheiro a sonhos por um futuro limitado.

São as vítimas que lhes roubam a alma, lhes cegam

Todas as outras vontades e lhes limitam a vida

À sede de um outro sangue, para continuar pela eternidade,

Vazios, buracos negros esfomeados de outros dentro,

Desejosos de dentes dentro, de gritos, de dor ou um prazer

Que não se explica por quem tem fome à noite e os olhos

Fechados pela eternidade.

Os vampiros, pobres vampiros, abdicam do descanso eterno

Porque a isso alguém os obrigou, alguém os bebeu,

Os esgotou até à última gota de calor no coração,

Até ao último suspiro da alma.

Há dentes chamados beijos, sedes chamadas desejos

E no fim todos são torturados, os que são para sempre

E os que lhes matam a sede que nunca se apagará.



17.01.2011



Torre de Dona Chama



João Bosco da Silva