sexta-feira, 20 de março de 2015

Chupa Teresa

Lembras-te da Teresa, dizia que não chupava e tinha nojo que lhe levassem
A língua aos outros lábios, que coisa as calças brancas, e a música a contrariar,
Gelado gostoso com sabor a framboesa, mesmo assim, limitou-se a derreter
A vontade toda nas calças, mesmo assim levaste-a a casa da tua avó,
O teu avô já estava no quinto litro de sono, a Teresa lá uns truques
E estava para estrear outra vez, fazer inveja no banco público,
Se eles soubessem que a Teresa não gostava de gelado com sabor a fome,
Anos mais tarde, em cima de um muro desses das aldeias,
No arraial, a estrangeira degustava o fellatio gostoso, pagou os gelados todos,
À pressa, que as rãs quase nem se ouviam por causa da música,
O Panero não estava longe em distância fronteiriça, lembras-te,
O paraquedista quase que aterrou no alvo no recinto da escola primária,
Com o tempo deixaste-te de gelados, a cerveja torna a língua mais ágil,
E depois de uma noite a engolir Elliott Smith, nem sabes o que são as saudades,
Quando tens uma língua no cu pela madrugada fora, só porque
Estás tão triste que adormeces no sofá quando pensavas
Que estavas num bar a desejar aos muros de granito que façam bom proveito
Dos vinte centímetros de framboesa, a Teresa, qual Teresa,
A tatuagem parece que serpenteia nas vibrações do Jim,
Sim, prometo que de manhã, antes de ir mijar, há gelado gostoso.

21.03.2015

Turku


João Bosco da Silva
Quantum Entanglement

para SFC,
 

Andava eu a tentar comer literatura francesa, existencialismo em duas frentes,
Fazer de mim um aldeão culto, que não sabe sequer quando se plantam batatas,
Desafiando professores com experiências comprovadas na cabana,
Onde ainda se podia encontrar a curiosidade dos alquimistas e o cheiro
A enxofre entranhava-se nas raízes do cabelo, e nos ossos dos animais
Encontrados mortos no monte, desistia já de encontrar a teoria de tudo,
Tinha embirrado com a matemática e via que das minhas mãos nunca
Sairia nada melhor que as punhetas que batia abençoadas pelas senhoras
Do baralho de cartas da loja dos trezentos, e tu, tu já mais poeta que eu
Alguma vez serei, tu que já sabias tocar as cordas da perversão dos
Animais que são todos os homens, eu ainda acreditava que cada batida
Me aproximava mais do inferno, recolhia dinheiro na missa,
Lia Nietzsche às escondidas em casa do padre, onde havia imensos álbuns
De música clássica e televisão por cabo, e tu a incendiar vontades
À distância, eu quanto muito, escrevia mensagens quando os meus
Amigos queriam mostrar-se românticos a quem queriam foder,
Contudo, apesar das longas tardes à beira do rio no Verão,
Na companhia do Hemingway, à noite sentava-me nas escadas
Do avô morto com os primórdios da barba molhados pelo primeiro grelo
E tu, apenas com palavras, a marcar mais fundo, que aquelas primeiras
Cuecas que despi, ainda hoje me fascina mais aquele movimento
Que a morte, a revelação, a aparição, tu, longe, latente,
Gloriosa em toda a tua inocência perversa, enfant terrible,
Ainda nos dedos o cheiro da professora da mesma escola
E nós lado a lado, com uma fome adiada, lembras-te.

21.03.2015

Turku


João Bosco da Silva
Lição De Religião E Moral

Não te basta seres loira, tirar fotos com uma guitarra entre as pernas,
Que não sabes tocar, ao contrário de cordas presas a bolas,
Daquelas que hipnotizam um tipo, ler livros que emagrecem o cérebro
Também não conta, e se é por beber, ao menos bebe algo que
Não precise de coca-cola para se engolir, louve-se ao menos
A resistência da tua garganta, ainda consegues cantar cera nos meus ouvidos,
Não te basta seres loira e não teres provas lá em baixo,
Deves ter facilitado a presença de alguém entre os joelhos
Para te baldares ao frio, loiras como tu só geladas e bem fodidas,
Com experiência suficiente para perceberem que o mundo
Não gira à volta do pito, só os caralhos giram, e há mais no mundo que isso,
Questões de gravidade, evitaste bem, quando ias para casa, as farmácias
Já estavam abertas, aprende a sensibilidade dos espelhos,
Eles não têm caralhos, aprende a fidelidade das raízes do cabelo.

20.03.2015

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 19 de março de 2015

Sapataria

RIP

Vou deixar a pastelaria em paz, a estas horas já não deve ter um bolo sequer,
Nem o café, não suportaria filosofias de balcão, para isso leio mais um aborrecimento,
Convenço-me que não faço ideia do que realmente ando a fazer,
Contudo, não vou deixar em paz a sapataria, nunca deixarei, aquele
Bálsamo das canículas de Agosto, recheada de sonhos, um fato-treino
Novo no Natal, com sorte, ou então ia-se cantar os reis para a camisola
Igual à do amigo, na sapataria, sonhava-se lá dentro, olhava-se mais
Para os próprios pés, faz tanta falta isso, aborrecia-se menos gente,
Mas neste país de vampiros, parasitas de missa ao Domingo, onde o Sol
Parece eterno e é de pouca dura, os fungos dos pés escondem-se
Com o dívidas e quem paga é quem acredita, é quem confia,
Porque quem acredita é parvo, quem confia é burro, louvam-se
Os filhos da puta, promovem-se os ladrões, admiram-se os aldrabões,
Prefiro sentar-me, descalçar as sapatilhas que já apertam, revelar
O hálux longe da gota e da meia e calçar os passos do fim do Verão,
Haverá sempre arraial, não para os que o merecem, mas a vida é isto,
Uma visita à sapataria com ar condicionado, numa tarde infernal
De Agosto, um sorriso que recebe, bolsos vazios e vontade de pés
Por tudo adentro, a vida isto, um passo que ficará sempre por dar.

19.03.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 13 de março de 2015

Barco Abandonado Em Savonlinna

Segue pela linha de comboio em direção ao limite, paralelo ao lago,
Eu estarei entre umas árvores à tua espera, assim começou,
E lá estava ele, numa madrugada nórdica sem estrelas,
Uma madrugada longa e cheia de promessas douradas,
O Sol não tarda, abençoado, ninguém espera reis em dias cinzentos,
Temos cerveja, vamos aquecer a sauna, perfeito meu,
Temos câmaras, vamos gravar, ninguém me disse que ia
Passar no museu Kiasma em Helsínquia, tudo bem, bebo,
Sou o que sou, num barco encalhado e abandonado
E ferrugento, tudo é permitido, duas estudantes de arte,
Perfeito, uma fica cá fora comigo enquanto um tipo desmaia
Ao sair da sauna, elevo-lhe as pernas, fica tudo bem,
Salto para o lago com a tocadora de kantele, depois
De a beijar após a mesma conversa de cabelos brancos,
Toco-lhe os lábios frios, porra, o lago não perdoa, a púbis
Ruiva dela a prometer um encontro de preto e branco
Num sofá qualquer, tudo bem, o barco perfeito, a ferrugem
Toda no lugar, a cerveja no ponto, ela tão fascinada
Que eu até me julgava de verdade, ela no videoclip
De uma música, num cemitério, anos mais tarde,
Epá, estive dentro daquele som, numa confissão depois
De jantar numas férias da resignação no lar, antes escrevias com
O cheiro delas nos dedos, agora parece que nem consegues fazer
Vibrar as cordas vocais, que aconteceu, algum vírus te
Intimidou a garganta depois de lamberes tanta cona,
Lembra-te do barco, da gente nua a bater com folhas uns nos outros,
Da viola a tocar e a invejar a tua timidez de tudo menos de dedo na cona,
Será que te afogaste antes da ford transit te vir salvar do paraíso.

14.03.2015

Turku


João Bosco da Silva
Da Inocência

O pôr-do-sol parecia algo tão natural como a bola da nivea ou aquela
Imagem nos pacotes de batatas fritas, aquilo era amor então,
Um banco de jardim e duas pessoas, mais tarde, milhões de vidas
Depois, vi uma chupar outra num banco de jardim por um pedaço
De algo, num saco pequeno, não havia Sol, era de madrugada,
O mar estava perto, as minhas mãos estavam secas,
Alguém me chupou depois de me ter pago uma pizza,
Ao menos eu tinha a bola da nivea na memória e aquele
Pôr-do-sol no pacote de batatas fritas dos anos oitenta,
Se ela me tivesse visto com aquele fato branco e sapatos brancos
Enquanto se festejava o aniversário da menina dos vizinhos de cima,
Até os sapatos brancos, sem cordões, faltava-me o testarossa
Numa escala que coubesse nas minhas mãos,
Já nem sei se pacote de batatas fritas, ou uma caixa qualquer,
Daquelas coisas estranhas que os adultos usavam para nos evitarem,
Seria mais isso, a bola dizem que a tiraram, alguém pagou mais ou menos,
A areia cada vez menos, o café ainda vende pastéis de nata,
A filha da peixeira não se lembra sequer do meu fascínio pelas
Cerejas nas orelhas dela, o meu melhor amigo, hoje, alguém importante
E este poema algo que nem tem pegas por onde se acabe.

14.03.2015

Turku


João Bosco da Silva
De Um Poema Sobre Lentes De Contacto No Metro De Londres

Porra, pensava que vinha de um país decente, apesar das ruas vesgas
E do lixo esquecido nos fins de semana, tinha um certo orgulho na cor dos olhos
E na genética estrangulada por montanhas, parecia-me ser tão natural ser puta
Como engolir hóstias e confissões de Domingo, nem estranhava que
Os trabalhadores que andavam a restaurar a casa dos meus pais
Falassem mais depois do almoço, imaginava como seria possível
Burros e carros de vacas com meio metro de neve mas ruas sem paralelos,
Mentir parecia-me ser uma qualidade dos políticos, os mais aldrabões,
Os melhores, porra, pensava que se podia ficar doente e que se era
Gente independentemente da carteira, até pensava que era normal
Nascer-se em hospitais da periferia e ser-se da terra, afinal um gajo
Tem que nascer na estrada, devem ser coisas do rei da beat,
Não sei, a pobreza parecia-me ser uma coisa normal e essencial,
Uma questão de referência, mesmo que andasse com roupa
Em segunda ou terceira mão, ainda havia gente que pedia nas ruas,
Achava que era rico, a minha mãe é que não encontrava os brinquedos que
Eu pedia, mas encontrava sempre algo parecido que durava pouco
Mas eu restaurava com cabeças de papel e membros de cortiça,
Achava normal não se consumir como era esperado, porra,
Como eu estava certo na altura, com aquela miopia infantil,
Agora de longe vejo melhor, porra de lentes de contacto,
Que me destruíram o paraíso, mas voltarei sim, claro que voltarei,
Quem quer ser enterrado onde o Sol não chega aos ossos.

14.03.2015

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 9 de março de 2015

Zé Cabra In Da House

Deixei tudo por ela, naquele quarto de hotel, deixei-lhe o dedo
A humedecer, apenas o dedo, até enrugar, por ela, com os Hell´s Angels,
Do outro lado da rua, eu com o dedo cheio de óleo e sono,
Deixei tudo por ela na esplanada da praia, para lhe escrever um poema,
Vai sair agora num livro, talvez, a água das pedras ajudou como
Um placebo que se sabe placebo, o pastel de nata velho,
Tudo por ela, parti a garrafa contra a parede, fumei cigarrilhas de pêssego,
Encostaste-me ao motor ainda quente, eu deixei, deixei,
Engoli o teu drama anterior, enquanto me emprestavas a língua,
Sim, o teu namorado era mesmo um gajo com testa para eles,
Ainda digeria a bifana e não sei como ignoraste o hálito a cerveja,
Haja plástico, recipiente e outro, contudo, deixei tudo,
O olhar, o luar, foi-se pela textura dela, deixei, enquanto esperava
Que o tempo me aproximasse dela, o meu amigo no carro
Aquecia a amiga, deixei o que só havia um, e não rima,
A minha sorte tem sido deixar-me vir cá fora, lenços de papel
Melhores que água quente, cerveja barata melhor que whiskey
De ilhas escocesas, com cachorro quente, batata-frita palha
Como pastéis de bacalhau, deixei tudo, por ela, pena ela não saber,
Já nem deve dormir com a minha camisa vermelha, antes isso
Que partilhá-la com outro fadista, deixei tudo por ela, deixei, deixei.

Turku

09.03.2015

João Bosco da Silva

quarta-feira, 4 de março de 2015

Da Passagem Da Sede

aos avôs,


As videiras superam-nos em longevidade, enrolam-nos os sonhos,
Espremem-nos o suor, extraem de nós toda a violência adiada,
Coram-nos pelos invernos fora e sobrepuseram a sede à fome maior,
Alguns muros caíram, as cerejeiras cansaram-se e foram engolidas pelo monte
E pelo fascínio dos pastores pela Lua vermelha e o Sol cinzento de Agosto,
Na base das garrafas verdes cria-se depósito com o que sobrou  das memórias,
A história não reza, há missas para isso e as videiras ignoram isto tudo,
Esperam que alguém lhes areje os alvéolos duros carregados de xisto,
A terra que irá cobrir todos os esforços e sacrifícios, até a infância
Deve ter ficado debaixo de uma videira, à sombra, a comer um cacho
De uvas americanas, rodeada de vespas e escorpiões, com medo da noite
E das latas que batem ao vento para espantar os javalis, as videiras
Continuam a estrangular com a sua inocência vegetal os herdeiros
Do mosto da última vindima, espera-se que o vinagre não chegue
Antes de Setembro, entretanto, vai-se acordando, verde,
Todos os dias, até sermos uma vez mais, superados pelas videiras.

Turku

04.03.2015


João Bosco da Silva

terça-feira, 3 de março de 2015

Antologia "Voo Rasante", Mariposa Azual na SIC Notícias

VOO RASANTE é um livro coletivo de poesia. 67 poetas num livro de  poemas, na sua maioria inéditos.
VOO RASANTEA. Dasilva O. – António Albata – Amadeu Baptista – Andreia C. Faria – António Cabrita – António Poppe – António Quadros Ferro – Carlos Leite – Catarina Barros – Catarina Nunes de Almeida – Cláudia R. Sampaio – Daniel Jonas – Diana V. Almeida – Elisabete Marques – Érica Zíngano – Fernando Guerreiro – Filipa Leal – Frederico Pedreira – Henrique Manuel Bento Fialho – Hugo Milhanas Machado – Inês Dias – Inês Fonseca Santos – Inês Lourenço – Ismar Tirelli Neto – Jaime Rocha – João Bosco da Silva – João Paulo Esteves da Silva – Joana Koehler – José Luís Costa – José Mário Silva – José Miguel Silva – Júlia de Carvalho Hansen – Leonardo Gandolfi – Luis Maffei – Manuel A. Domingos – Manuel Margarido – Margarida Ferra – Margarida Vale de Gato – Maria Sousa – Marília Garcia – Marta Bernardes – Marta Navarro – Matilde Campilho – Miguel Cardoso – Miguel Castro Caldas – Miguel-Manso – Nuno Moura – Patrícia Baltazar – Pedro Eiras – Pedro S. Martins – Raquel Nobre Guerra – Regina Guimarães – Ricardo Domeneck – Ricardo Gil Soeiro – Ricardo Marques – Rosa Alice Branco – Rosa Oliveira – Rosalina Marshall – Rui Almeida – Rui Costa – Rui Pires Cabral – Rute Castro – Sónia Baptista – Susana Araújo – Tatiana Bessa – Tatiana Faia – Tiago Gomes – Valério Romão – Vasco Macedo.
Registamos neste documento a escrita de muitos escritores que publicam em pequenas editoras, com pequenas tiragens, por vezes. São poetas, na sua maior parte, pouco conhecidos ou mesmo desconhecidos da maioria dos leitores.
São de Lisboa, do Porto, de Coimbra, das Caldas da Rainha, de Coimbra, de Setúbal; alguns vivem na Grécia, na Finlândia, em Londres ou outras cidades da Europa. Também convidámos autores brasileiros, da actual geração de poetas: de São Paulo, do Rio, de Minas, do Ceará: alguns vivem em Paris, em Berlim, em Portugal.  Todos escrevem poesia em português.
Procuramos com esta edição o efeito da multiplicação. De autores e de leitores.
Uma ponte entre espaços, entre linguagens, entre tradições, entre invenções.
Um VOO RASANTE sobre uma realidade extensa, e que não se esgota nestas páginas.
Que abre as asas para ela.
Canção De Embalar Chouriças

Se não fosse o sono, pousava o copo e ia ter contigo ao acaso,
Não tivesse esgotado já aquilo que leva alguém a correr até
À estação de caminho de ferro, contando chegar a tempo,
Como nos filmes e ela desiludida na cidade berço à espera,
Quando era a daquela semana, já não tenho olhos para
Olhar para carruagens que se afastam, nem dentes para levar
Com portas fechadas, desculpa o cansaço, mas é que tenho
Tanto tédio para aturar amanhã, sabes como os anos
São leveduras e a carne onde estiveste incha, esquecida
Do cheiro do teu nome, e não compreendes como a morte
É possível, mesmo que te tenha passado ao lado durante
Toda a vida, ainda acreditas em beijos roubados, ainda acreditas
Nas madrugadas da Primavera, que Primavera, esquece,
As rãs morreram todas esmagadas pela inocência,
Os grilos todos pipocas em Setembro, não restou nada
Dos silvados, agora queres amoras, deixa-me pousar o copo,
Acho que ainda consigo picar com a língua, deixa-me ver,
Acho que ainda sou capaz de cinco minutos em queda-livre,
Espera, acho que ainda me sinto bater, a pulsar, queres-me sentir
Afinal, o pulso, com a palma da mão, aperta, estou cansado
Do conforto analgésico da responsabilidade dos dias,
Não deixes a porta fechar, entra, vamos até ao último andar disto,
Para dormir temos todo o tempo que não será nosso.

03.03.2015

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Boa Noite

aos velhos amigos,


Realmente, ficamos bem aquém daquilo que esperamos de nós mesmos,
Ao menos ainda esperamos mais que ter alguém que se interesse por nos fotografar
As mamas, esperamos viver de nada e não ser reconhecidos por nada,
Houve um tempo em que uma cabana, numa vinha, onde o Sol permanente,
Com as paredes recheadas de todos os livros, que não se teve tempo de ler,
Hoje espalhados entre a falta de vagar e as horas de pirataria e salivação
Condicionada, hoje a cabana vazia nos sonhos arquivados nas resignações,
A vida é assim, sim, alguns tiveram que ir para longe, outros para mais longe
Ainda, e tudo passou a valer a pena uma ou duas vezes no ano,
No tasco da terra, quando se bebem umas cervejas até aguentar o Sol
Da manhã durante umas horas, jogando ao xino com uma das últimas figuras mitológicas
Da vila, por isso, és um borracho, não dos que mostram orgulhosamente
O vazio da sua caixa óssea nos bares e discotecas da periferia, e são pagos por isso,
Ainda houve quem criou uma possível metade numa sueca,
O que pior sabia jogar nos intervalos, enquanto uns semeavam sonhos menores,
Sem contar com os medos da descendência gerada em pântanos nórdicos,
Ficámos por aqui, entre filhos, casamentos porque teve que ser,
E até se é feliz, entre cornos, e filhos, melhor nos casamentos dos amigos,
Até se vai andando bem na língua dos outros, também é o que é,
A vida, trabalhamos oito horas por dia, muitas vezes não se sabe bem
Para quem, nem onde tantos segundos são transformados em riqueza,
Não a nossa, não, ninguém sabia cantar, houve ilusões de câmara na mão,
Mas de actores, nem de gaita na mão de madrugada a fingir medo
E fodas em tendas na mira da foice de um psicopata serial-killer,
Que nem sempre o são, nós nem uma coisa, nem outra,
Morreremos e seremos apagados em menos de cinco décadas
De cinco cérebros no máximo, tudo o resto foram cinzas de sonhos
Levadas pelo vento do tempo, ficámos aquém, mesmo assim,
Nunca ninguém esperou que fizéssemos aquela curva na estrada de província.

24.02.2015

Turku


João Bosco da Silva
A Relatividade Dos Passos

Ponho-me uma vez mais a caminho, saio da festa, levo um copo de plástico,
Foi um tio de França que mo deu, dentro vão uns litros, em nenhum gole
Consegui encontrar o sabor daquela cerveja bebida às escondidas
Em casa da avó, quando não estava ninguém em casa, em mil novecentos e noventa
E um, mais uma vez, ponho-me a caminho, em direção à Lua, os castanheiros
Gigantes  prateados, árvores mitológicas da infância e baldes de plástico
Na época das castanhas, o lameiro do avô já não está longe, que estranho,
Como as distâncias encurtam e a gente se torna cada vez mais distante,
Os grilos denuncia-me com o silêncio que a minha presença irradia,
Há uma palavra para isto, a saudade não chega, há algo parecido
Ao caminhar num lago gelado no norte, só, ao regressar a um lar cansado,
Onde ninguém, mas agora é Agosto, estão cá todos, cada vez menos,
Nota-se o peso da ausência nos olhos, é a tristeza que nos envelhece,
O azul foi-se, as estrelas esperam no lameiro, algumas no poço
Onde caí de cabeça quando me inclinei para beber, põe assim as mãos,
Em concha, ele que nunca viu uma concha na praia, põe assim
As mãos, não quero pensar nas mãos dele agora, as eternas, nodosas,
Esculpidas de uma cepa centenária, a erva mesmo nestas noites
Quentes é fresca, fecho os olhos e lembro-me de um deus grego,
Anteu, lembro-me do Miguel Torga, eu também já devo ter morrido,
Pelo menos uns quantos em mim, nunca nos encontraremos numas
Águas-furtadas em Paris, cada vez me lembras menos, desculpa,
Hoje é só porque luar e as rãs coaxam no poço, mas pronto, a vida
Este caminho onde vamos caindo e nunca é o mesmo quem se levanta,
Só quem levamos dentro, as mãos em concha, o sabor da cerveja às escondidas,
Chega-se, mas já não se está lá, há muito tempo, e o copo também ele vazio.

23.02.2015

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Festa Dos Bombos (Ronco VIII)

Os bombos tentam calar-me, mas já não consigo ter paciência para o ritmo dos dedos,
As chamas aquecem apenas o olhar e os poetas todos, aposto que a estas horas
Bebem, cheiram-se todos e sãos os melhores amigos uns dos outros,
Vêm-se depois confessar aos padres miseráveis da periferia, afogados no tédio,
Em sofás esburacados pelo frio dos invernos demasiado inesperados todos os anos,
E é isto, peço desculpa pelos agradecimentos aos poetas, desculpem que não
Seja apenas carvão, ainda brasas, porra e isto nem queima, soprem cabrões,
Ao ritmo dos bombos, nas palhas, no Minho, na matança do porco, ou na Galiza,
É igual, não se usava gás, abria-se também o porco de outra forma,
Daí eu escrever tão aberto, o rasgo vai de cima até aos colhões do animal,
Era quase sempre porca, contudo, os anos oitenta ainda espreitavam
Nas farmácias e os iogurtes tinham uma forma de engate ultrapassado
Com bonecos unicolores, meu deus, que pretendo com isto,
Ultrapassar o Hércules pela Grécia fora, hoje não sei se venceria
Tanta cabeça de Hidra, os bombos não conseguem a ressonância
Precisa com as cinzas, então morre-se um pouco, a geada recebe de braços abertos.

19.02.2015

Turku


João Bosco da Silva
Rabo Enrolado (Ronco VII)

Um anti-Bandini, porque sempre preferi evitar a confissão,
Na casa dela, no Verão, com uma merenda de música da moda,
No quarto dela, um álbum atrás do outro, gostava de tudo
Com a mesma sinceridade da fome de um Bandini,
Mas ninguém se lançou às nádegas dela, hoje nem
As imagino, chupadas por um marido, uma filha,
Décadas, ficava a dormir naquelas manhãs de Verão
E não tinha dinheiro, nem idade para a piscina municipal,
Fiquei com o brinde dos livros grossos do Verão passado,
Ah, que bem, que gosta de Hemingway, até leu O Príncipe,
Agora está a levar os de Nietzsche um atrás do outro,
O sabor daquele grelo, mas só carne, este tesão,
Só carne, aquele amor, só desilusão, anti-Bandini
A caminho da bruskowskidão, tinha os dedos secos,
Tinha os lábios secos, olha, acabou a música.

19.02.2015

Turku


João Bosco da Silva
Heavy Machine Gun (Ronco VI)

Ò pá, lembras-te de quando o destino do mundo estava nas nossas mãos,
Nos nossos dedos, e entretanto, fazíamos uma pausa para arrancar um pouco
De musgo às fragas, lembras-te quão leve era a responsabilidade,
E que fácil era fugir dos caixotes do lixo em chamas e dos balões de água
Lançados pelas chaminés abaixo, não fossem os amigos traidores,
Sempre os amigos traidores, os amigos traidores, os amigos traidores,
Esses cabões, perdoámos todas as mulheres, todos os beijos perdidos
Onde não estávamos, quase os filhos que não tivemos, nunca os amigos
Traidores, que nos sujam os versos com explicações, aqui ele estava
A falar duma vez em que foi com uma namorada para o rio da terra
E não lhe tocou, nem um pentelho, e é uma afronta tão grande a verdade,
Nem um pentelho, não como o da terra vizinha, que aproveitou bem o Verão,
Verão, verão que foi muita frustração acumulada, depois nem sei,
Houve demolição de castelos, degelos, guerras santas, terrorismo biológico,
Overdoses de serotonina, não podes competir com um gajo feliz,
Ò pá, nem sei, isto é uma explicação, uma confissão ou mais um ronco.

18.02.2015

Turku


João Bosco da Silva



Ronco V

Enquanto a minha cara incha pelo tédio, pela derrota dos anos, pelas submissão
Ao álcool por nunca ter conseguido ter a vida que me ensinaram a viver
Na televisão e nos livros, relembro a glória que foram os anos em que
Supostamente ainda não era tempo de ser, fosse o que fosse, naquele aniversário
Do primo dela, no carro da minha mãe, com o cabelo a acumular humidade
E ondas proporcionais às penetrações, o meu aniversário também,
No rio onde afogaram gerações de cães e de sonhos, onde lançámos
Mais tarde a cinza dos cigarros dos avôs, resgatados da ditadura e das colónias,
A caminho da posta mal passada e do vinho tinto capaz de aguentar geadas
Nos pipos das adegas eternas, hajam brasas e um amigo dos que nos viram
De luvas nas primeiras aulas da manhã, porque ao menos luvas,
Dos que nos viram plantar uma miopia que foi crescendo para
A vergonha da líbido dos dezoito anos e daqueles dedos esfomeados
Por carnavais e máscaras em sofás nos futuros postos da GNR que ainda hoje
Promessas de presidentes da junta de esquerda e direita, ping-pong
De países vestidos de democracia para o carnaval que têm sido as últimas décadas,
E é isto, que mais se espera de um indivíduo que trocou a missa de Domingo
Pela ressaca das manhãs indiscriminadas, deixou os acólitos porque a fórmula um, afinal,
Algo aborrecidíssimo, coisa de nórdicos ou alemães e padres que pelas
Línguas estéreis foram fodidos de lá para fora antes das voltas terem sido todas dadas.

Turku

18.02.2015


João Bosco da Silva
Ronco IV

Que foi, nunca viste as redes pelas costuras, o teu avô no cemitério, as tuas mãos
Vazias e as costas nuas penetradas pelo futuro que os passos vão formando,
Que foi, esqueceste-te do sabor do sangue nos pulmões arrancados à geada,
Já não te lembras dos amigos que sustentaram as tuas punhetas com baralhos
De cartas da loja dos trezentos e os vídeos resgatados dos píncaros dos guarda-fatos,
Que foi agora, os anos tornaram-te ingrato, hipócrita, senil, a idade não te desculpa,
Faltou-te foder alguém famoso para teres seiva suficiente no ego, murchaste precocemente,
Que foi, faltam-te os tomates agora, depois de teres fodido a rececionista
Num quarto do seu próprio hotel aos vinte e um anos de idade e latitude ártica,
Não há um poema que te valha, nem um copo que seja suficientemente cheio,
Que foi, vais gritar agora o desespero todo, vais engolir tudo o que a avalanche
Te guardou, deixa os sorrisos e as esperas desencontradas, já te passou a hora,
Valete fratres, nem um valete de paus, tu, que nunca aprendeste a jogar
Ao chincalhão nos intervalos, quando ainda tinhas espaço nas mãos para ser alguém,
Que foi, agora, alguns têm-te medo, não sabem que sacrificas a fome pelo ócio,
E que os versos são consequências da vida, da dor, da morte, reflexos do prazer,
No tempo dos assassinos, que engoliam, cuspiam, passavam lenços de papel,
Tomavam comprimidos comprados logo de manhã ao senhor da farmácia,
Que foi, o elevador não te afastou da senhora arquiteta, que planeava fazer
De ti um renascimento glorioso de uma ruína imperial qualquer que ninguém lembra,
Foi o vinho do porto, naquela noite de São João, que foi agora, tiveste a inveja de
Professores na cidade berço, tiveste a miúda do café na ressaca, a olhar para ti
Como se esperasse não haver papel para secar as mãos na casa de banho,
Que foi, já viveste demasiado em menos de três décadas, nunca pensaste chegar
A desfrutar de um whisky de dez anos sem o consentimento dos que valorizam
Tudo pelos números, se eles soubessem que na Skye céu de tenra idade,
Que foi, não esperes que nos impérios arruinados se assuma a ignorância,
Chega, vai mijar versos a outro lado, ou ejacula com a janela do carro aberta
Numa geada leve, com o harmonioso aroma de fundo da pocilga, enquanto
Os alunos esperam, a oportunidade de recusar, aprender ao menos, mais uma merda.

18.02.2015

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Ronco III

“flowers stink beauty rots gods die”

al purdy

Os olhos já não me perguntam, o que te falta fazer, perguntam-me, o que te faltou fazer,
E o cabelo anui, confirmando o que os anos redondos levam, os fantasmas decidem,
Depois de anos de silêncio, abrir os lábios carnudos, para anunciarem a absolvição
Dos seus hábitos canibais, a glória redentora, a passagem da estafeta do pecado tão
Pouco original, como que dizem, não soubeste fazer mais nada a não ser cornos, olha agora
O que os cornudos sabem fazer, de certo não lhes engoliram as probabilidades,
A festa acabou há tanto tempo, já se levantaram muitas feiras e as calças brancas a estas horas
Já nem devem servir, ou não se baixam com a mesma pressa até às coxas e um alívio quase
Dentro, atirado para o silvado ao lado, aqueles lábios a brilhar ao luar, ou se calhar só
A cerveja a fermentar, os mesmos lábios no cemitério, aquela surpresa nos dedos,
Dançando como as chamas das velhas, escorregadios, que beleza haverá nisto tudo,
Que lição e para quê, se no fim se rasgam, se apagam, secam, e até os olhos estranhos,
Como as glórias absolvidoras do canibalismo das calças brancas, a sua sede de joelhos
No chão na hora em que os sonhos morrem e fica apenas o cheiro entranhado no hipocampo.

Riga

14.02.2015


João Bosco da Silva