sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011



The fear


I had a good job,

A decent car,

A place to live,

Money, friends,

A nice girl,

But then I threw it all

Away,

I ran from it,

I got scared.


I saw all my old friends

Getting married,

Having children…

Holy shit,

They are having children!

When did we get so old?

I saw all this sad smiles

While they were pushing

The baby stroller.

I noticed a shy light

When they start to get

Drunk and sincere.

They were tamed

And that scared

The hell out of me.


I ran from it all,

I ran away, I stop caring,

Just walking without a direction,

Just living as I always did,

But the years keep passing by,

I can´t stop getting old at all,

I can´t really run from it…

Can I?



B.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011



Expresso no Museu


Duas da tarde e um expresso na mesa a deixar de ser, a tornar-se eu,

O museu a ser memória e três ou quatro quadros que ficaram com um nome,

Outros nem isso, uma ideia vaga, retratos de gente que foi importante,

Gente morta e feia (mesmo que favorecida) encerrada em salões,

Uns dias cheios e outros dias vazios, com mais gente, que vive

Sem se dar conta da beleza viva à sua volta, fascinada pela obra

Que é quase imortal, quando o seu criador, um nome se tanto.

Duas da tarde e o sol cheio de ironia na rua gelada, na rua antiga,

Renovada a carne e sangue até ao fim dos tempos, cheia de cores

Que passam e desaparecem além das janelas, enquanto o expresso

Se perde dentro do abismo que não é tão fundo quanto parece, visto daqui.

Entra de olhos no chão, com um livro de arte num saco de plástico

Transparente, comprado na loja do museu, entra só com os seus cinquenta anos,

Entra como escolheu ser, um espectro grande do que foi, sem companhia,

Já foi bonita, vê-se nos olhos azuis escondidos pela fome da solidão,

Já foi desejada, mas aparentemente era demasiado boa para o mundo

E por isso ainda se senta ao fundo, num canto, com os seus anos a pesar,

Enquanto pede algo para o almoço às duas da tarde.

Deve ter cães, ou gatos, ou uma casa grande e vazia de gente,

Deve ter recusado muitos corações, porque não eram os certos,

Porque esperava alguém tão bom ou melhor que ela, usou para o que queria,

Esperou até ser demasiado tarde e agora é uma velha gorda e solitária,

Quase verde num canto enquanto espera que lhe tragam a comida,

Com o livro de arte aberto no colo e o saco de plástico vazio na cadeira ao lado.

Por alguma razão, dá-me impressão que ainda não saí do museu

E continuo a observar em silêncio, apreciando o gosto amargo do expresso

Que se dispersa lentamente, sem pressa, que são só duas da tarde

E o mundo é demasiado bom para mim, por isso abro as mãos ao que me oferece,

Sem medo, que nem todos serão telas pintadas num museu de uma cidade qualquer.



23.02.2011



Turku



João Bosco da Silva



Too real (blindness and fear)


Go away, she told him

From the start,

Right after their first

Kiss, outside the bar.

Go away, she said

Even when desire

Was melting her inside.


Stop, stop, she told him

Right after they started

Their first time together

On the kitchen table,

With the door open.

Stop, stop, she said,

While moaning,

Pushing him deeper

Inside of her.

Fuck me, she told him

When she was lost

But sincere,

Wet and tight but true.

Three times more,

Fuck me, fuck me,

Fuck me,

And in the end

She was scared,

Afraid of herself.


He should have known

That she was trouble.

He shouldn´t have gave

Her what she wanted,

Because she would

Refuse it (as she did),

Even when she wanted it.

She was afraid

Of desires and he

Was just one,

Too real for her.



B.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011



Lista de Compras


Uma frustração de caneta sem tinta,

Um grito mudo num pesadelo acordado,

Uma dor que não se sente, mas está,

Pesa e gasta,

Uma saudade impossível do fim do mundo,

Uma voz que diz que nos ama

Atrás de um muro intransponível,

Um sorriso constante de plástico

Com o desespero dentro,

Uma recordação que se esconde

Atrás de uma cortina fina,

Um nome disfarçado na pele tatuada,

Uma impossibilidade de solidão,

Um desejo inelutável de calar uma multidão

Que nos ignora,

Um vazio debaixo dos pés do corpo que grita,

Um amigo a quem confiámos o coração,

A quem confessámos todos os pecados

Que se afasta na escuridão de punhal na mão,

Uma vela que se apaga quando o silêncio

Deixou o quarto vazio,

Um apelo silencioso de quem não esqueceu

E só quis a nossa morte na sua vida,

Um olhar impossível nas costas de uma face insuportável,

Um cansaço que não vence os sonhos

Apesar de todos os poemas serem

Uma frustração de uma caneta sem tinta,

Uma dor inconfessável,

Uma fraqueza tornada visível,

Um fim que não acaba…



22.02.2011



Turku



João Bosco da Silva


Before it´s too late


If everything seems

Too perfect,

If the road looks

The right one,

If you feel like

You finally got it…

Jump immediately from

That before it´s too late.


Perfection is just

A short illusion

And when it´s gone

It leaves inside of you

A burning hole

That will never heal

Completely.


There isn´t a right road,

Only easier and harder,

And the right ones

Usually guide you

To a dead end,

Or an endless cliff.


You will never got it

Until the end

And if you feel like it

Is because the end

Is near.


So jump immediately

Before is too late.



B.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011



Saco de Plástico


A busca da felicidade e não sei quê,

Que nunca se encontra

E se passa a vida à procura de algo,

De alguém, da epifania: a felicidade é isto!

Quando se é criança, é fácil encontrá-la,

Não exige muito esforço,

Não pede sacrifícios,

Não necessita de grandes manobras.

Estava ali, à espera onde

Menos se esperava.


Não há uma receita para a felicidade,

Há várias e nunca é preparada da mesma forma.

Uma delas é tão simples quanto isto:

Uma colina nevada, um saco de plástico

E aquele que nunca nos morre realmente,

Sem medo, sem vergonha, livremente

Até não se aguentar mais do traseiro,

Até não se sentirem as pontas dos dedos.



(Ville Sillanpää)


21.02.2011


Turku


João Bosco da Silva



The world is falling apart


I wake up, turn

On the radio,

Make some coffee,

Open the window blinds

And outside is

A wonderfully

Beautiful sunny day.


I hear the news

From the radio:

Handicap children

Died on a fire

In their orphanage

In Estonia,

Libya is boiling,

Murders…

A wonderfully

Beautiful sunny day.


I look to myself

In the bathroom mirror

And I find a new grey hair:

Damn, my world

Is falling apart.



B.

domingo, 20 de fevereiro de 2011



Pig Slaughter


Some have names

And are treated

Like pets, big pets,

Closed in some shitty hole.

If they could have it,

Some of them would

Have hope,

Some of them would

Believe.


But there is tradition,

And tradition tells

How things were,

How things should

And will be.


Some had names,

Some had a beating

Heart,

Now drained from blood,

On a wooden bench

In a cold winter morning

With all this strangers,

All this friends,

Watching it dying.


Love is a pig getting fat

For slaughter.



B.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011



Resumo Resumido de “Une Season En Enfer”


Longe de nada, no centro do que poderá ser, se for,

Com os carros estacionados lá fora, o café a fazer companhia,

A banda sonora de um filme qualquer, que já gostei mais,

Só porque lá fora estava um dia cinzento e hoje até faz Sol,

Uma lucidez de quem dorme bem, de quem não perde a noção do que bebeu,

Nem bebeu, de alguém que já não tem o indicador amarelo,

Nem sente dor e nojo só de pensar no passado, porque foi

E foi o que tinha que ter sido e já cá não está, só um pêlo no café,

Que rapidamente se remove com um dedo rápido.

Tudo parece uma avalanche em câmara lenta, de onde se pode

Retirar momento a momento, o que valeu a pena:

Aquelas gargalhadas, as lágrimas inúteis, as mãos nas costas,

As unhas, os abraços de há muito tempo, os suspiros,

Os bocejos, os beijos, os meios beijos e os que quase, as rapidinhas apressadas na rua,

As esquecidas no carro, os jantares até o vinho acabar e depois mais vinho,

As conquistas dos bares e das discotecas, o nosso nome dito com alegria,

O nosso nome dito com ódio, com tristeza, com indiferença,

As saudades antes da partida, a despedida de semanas,

As cervejas à geada, os serões até abrir o primeiro café da terra,

As caminhadas no Sol quase quente das manhãs frias do regresso,

A lareira e o crepitar da amizade à sua volta, os beijos roubados,

Os beijos recusados, a braguilha que não se quis abrir,

As festas incontáveis, os litros incontáveis de fino, os cigarros partilhados

Nos momentos mais difíceis, afinal tão simples, tão necessários,

Os murros nas paredes sem culpa, os gritos a quem não merecia,

Os olhares perdidos no ar, os olhares que começam o fim, os que comem,

Os que matam, os que pedem desculpa quando o orgulho não permite palavras,

As viagens quase fugas pela noite bêbada, os quase acidentes, os acidentes e a sorte

De não ter sido um fim pior do que o que podia ter sido,

O desespero, a esperança, o esquecimento, as derrotas e as vitórias,

As mentiras, as mentiras das mentiras e as verdades nas mentiras,

A sinceridade, a frontalidade e a falta dela, as conversas paralelas,

As que passam atrás e não interessam, as realidades alternativas, a desilusão,

Os montes e o Sol que nasce atrás deles e esse sim interessa,

O Outeiro, uma amostra de Nirvana, a Galiza como uma fuga,

As fogueiras pela noite fora, as garrafas vazias que fizeram as manhãs longas,

Acordar só, acordar quase só, adormecer sempre em má companhia,

O Johnnie Walker a descer pelos paralelos em direcção à igreja e mais além,

Um cão que espera sempre, o Verão que dura pouco e custa a aquecer,

A vizinha querida e as birras de quarta classe, o arrependimento único,

Os jogos, os jogos a sério, o amor e as coisas a sério, os amigos verdadeiros

Nos maus momentos, os maus momentos a tornarem-se lições,

Ler poesia com cerveja no Verão, ler poesia com vodka e vinho do Porto no Inverno,

O rio a tornar-se impróprio para consumo, as silvas que não deixaram marca,

As noites como tantas outras que não se esqueceram tanto quanto se acreditava,

As corridas pelos montes, a liberdade de estar sozinho no meio de uma tempestade,

O tempo que se tinha e as mãos agora vazias, longe de nada,

No centro do que poderá ser, se for, o tempo tornado momentos,

Os momentos tornados recordações, as recordações a fazer de nós aquilo que somos.



18.02.2011



Turku



João Bosco da Silva



A scared dog from 1:20 a.m. to 1:45 a.m.

It was 1.20 a.m.
And I was closed
Inside the bathroom
Reading poetry,
Away from all
The sounds that
Take control of my
Small rented studio
At night:
The refrigerator, the furniture,
The clock,
Strings from I have
No idea…

I was sited on the
Toilet with my pants on,
Just reading the night
When my up neighbors
Started to fuck.

She sounded like
A scared dog,
Sometimes more,
Sometimes less,
Almost monotonous
As I kept reading.
I don´t even know
If I heard the guy
Or if there was a guy,
But after five poems
Came some silence.
Then somebody pissing,
Toilet flush, somewhere
Around me water
Throgh pipes inside
The walls
And then silence again.

It was 1:45 a.m.
And I realized that I had
To read the poems again,
Because I was paying
No attention.
I think I like sex
More than poetry.


B.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011



The sewer


The sweet childhood

And all the moments

That made us

As we are now,

More or less.


Like that time

When I stayed

Inside the classroom

The whole morning break

In second grade,

Because I was afraid

Of been beaten again.


I was afraid of

Those two kids

From the six grade

That once spanked me

On the way home

And tried to throw

Me in this open sewer,

On a rainy day.

Some old lady,

Who I´m sure

Is dead by now,

Made them run away,

Before I was thrown.


I wanted to pee so badly,

But I was scared

And so, I just did it,

Slowly, silently, painfully,

In my pants,

While I pretended

To be reading something

From a book.


So now, when I´m afraid,

I don´t give a shit anymore

And I just go for it,

Because in the end

The result will be

The same.



B.


"Também Há Macieiras No Inferno" (excerto)

O relógio parado na parede da gente abandonada pela gente e pelo tempo, naquele andar na cidade grande, antiga, velha, não me dói nem metade nos olhos de dentro do que doeu o cão abandonado nesta aldeia há muitas vidas atrás, com um olhar a pedir morte, com chumbo no corpo escanzelado até não poder mais com o peso por causa do sangue que perdeu, até aquele palheiro escuro, sempre de portas abertas para quem quiser ir morrer ou fazer pela vida. Agonia em olhos castanhos que se tornavam líquidos nos meus, agonia em olhos castanhos de cão a sentir-se além dos meus feios de gente, ainda gente, esforçando-me por manter dentro o estado que dentro, líquido, como o que a vesícula biliar reserva, como se nos olhos, como se os olhos a engolir em seco, com uma garganta mais seca que o pó do caminho, hoje. Deus não sabe o que chorei naquela noite, porque deus não sabe merda nenhuma, se soubesse existia e poupava pelo menos os cães à crueldade dos homens, dos que vem com a enxada para acabar com o trabalho.

Ide para casa garotos que eu trato disto.

Como se disto em vez de dele. Filho da puta, que lhe quis matar os cães todos, sem culpa eles, mas também eu humano porque nisso me tornaram. Filho da puta que não me poupou à enxada a entrar pelo palheiro e eu criança, conhecendo a morte das moscas, das galinhas a caminhar degoladas, do sino quando tocava e era menos uma pessoa que se via pela rua, não me poupou a um ganir sem vontade, um crânio a estalar e um cão morto, mais um isto. Hoje coitado, o filho da puta que nem com o cão aos pés dele lhe acertaria, tão velho e com os seus cães mortos da tinha, os filhos longe, a mulher que tem engordado tanto que já não lhe chega, nem mesmo se a enxada se levantasse e um crânio de cão que não faz mal a nada, quanto mais a ninguém. Não me pouparam às misérias, por isso nunca me senti especial: especiais são os ignorantes que cresceram dentro de paredes de algodão doce, sem janelas para a miséria, às costas de um nome, de um esforço que nunca tiveram que fazer, quase irreais. Pode não lhe vir uma enxada aos cornos, depois de uma caçadeira lhe crivar a carne de manias, mas a gadanha é para todos. A bilirrubina sérica a pôr amarelo nos olhos da gente. Não choro: já passou.

João Bosco da Silva


Palavras Num Quarto Vazio



a quem me quis morrer,



E o fim, pouco mais é que isto, que o agora, mas que dura inconscientemente,

Sem se sentir, como um cadáver levado pelas águas de um rio infinito,

Um rio chamado fim, eterno, escuro em linha recta até ao fim dos tempos.

Se soubesse antes de poder saber coisa alguma que isto seria assim,

Que eu seria um monte de palavras dentro, com um homem pequenino

Na cabeça, no coração (dizem alguns), a tentar dar-lhes um sentido,

Dar-lhes um significado, uma justificação além de hormonas e neurotransmissores,

Neurónios cansados das noites até à noite e do álcool até tudo deixar de fazer sentido

E não me importar com isso, preferia ser uma pedra desde o princípio,

E passar a eternidade até a erosão se cansar e perceber que não passo de uma pedra.

Tantos sorrisos perdidos nos sonhos frios, tantas palavras não ditas no silêncio

Da distância, tanta carne evitada sem razão, só porque uma ideia a ser mais importante.

Que ideia pode ser mais importante do que algo que nos cabe num punho fechado?

Não se acredita no que se procura, por isso nunca se encontrará, passa-se

E nem se vê, às vezes porque parece demasiado fácil, outras porque não vale a pena

Se é tão difícil e a vida continua sem um sentido, sempre em frente até ao rio fim.

Se os cães ao menos três cabeças quando chegar a minha hora, ou algo pior,

Mas algo, pelo menos algo, porque isto soube-me a tão pouco, soube-me a quase,

E saber a quase é pior do que saber a nada. A vida parece uma amostra

De algo que não existe além da vida, uma provocação do acaso, um beijo que fica

No canto da boca a latejar durante anos, um quase orgasmo, pequenino, apressado.

Tanta alma perdida, sem alma, corpos convencidos de que uma salvação qualquer,

De uma forma qualquer, sempre sós, sempre com medo, sempre em busca de outro,

De alguém para partilhar um momento no crepúsculo, um pedaço do que têm,

O corpo, uma pausa na dor, a própria dor, porque no fim irá sempre doer,

Alguém irá sempre sofrer, quem vai pode ter sofrido, pode continuar a sofrer,

Quem fica sofre, ou não quer sofrer, ou não consegue porque está vazio.

E o fim, será pouco mais que isto, ou pouco menos que isto, menos uns olhos abertos,

Um corpo que se move, uns sonhos que aborrecem o presente quando trazem o passado,

Ou um passado que podia ter sido, mas não foi e agora não vale a pena nem sonhar,

Uma ligeira dor de cabeça, os sons da escuridão no quarto silencioso, o som da água a correr

Algures, ou o sangue a fazer eco na almofada da insónia, pouco menos, pouco mais.



17.02.2011



Turku



João Bosco da Silva

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011



Sex lies


Someday, just another day,

I was with this girl

Who I used to fuck

And I was a bit tired of her.

We were doing it.

She had her eyes blindfolded

With a black stripe.

I love you, she said,

So I turned her backside to me,

And I did her doggy style.

My friend silently

Opened the door,

Came inside

And then we switched.

I love you, she said,

My friend winked his eye,

Smiled and fucked her harder.

We switched again and he left

The room,

I finished the job

Somewhere inside of her

And she never noticed

The switch.

She uncovered her eyes

And looking at mine

She said again, I love you.

No you don´t,

You love cock,

And she slapped my face.

Never trust the words

You hear when you fuck.



B.