quarta-feira, 24 de junho de 2015

Da Nossa Morte Nos Outros

Ainda me fala de boca cheia, a pedir futuro, agora, quando me diz olá e me pergunta
Como estou depois de tantos anos, apetece-me dizer-lhe que estou igual apesar
Do cansaço e que não lhe invejo nada que não seja meu, tento lembrar-me do sabor
Que tinha nos lábios, sei que não era a tabaco, não me lembro do que a língua me disse,
O beijo de manhã a sono, alguns sentem-se como um sonho muito quente que seca antes
De se acordar, ainda te lembras, pergunto-lhe na pausa de um silêncio, com os dedos
Pendentes e nos dentes os seu pescoço branco em forma de memória, não me esqueci,
Só tudo confuso, espalhado pelos anos onde não pertence, eu a fingir que também,
Apesar dos números, uma festa, aquela vez, a última vez esta e aquela, se calhar nem Lua,
Ou nuvens em vez de estrelas, mas o teu cabelo a enrolar-se na língua que procurava
Apagar-se no fogo da outra, quando te despedes, sei que fica por dizer que nunca acabaria
A fome entre nós e que estava tudo condenado à distância e à saudade envergonhada
Pela luz da idade agora, sempre estivemos bem um para o outro no excesso em doses
Moderadas, sem intimidades caseiras, só fogo e carne, onde calhava, porque o mundo
Só nós quando nós, não faz mal que te esqueças um bocadinho, sabes que a carne se lembra.

Lahti

23.06.2015


João Bosco da Silva
(A)Parições

“a quantidade de criaturas que a nossa destruição vai destruindo uma a uma”
António Lobo Antunes

Nascemos em tantos lugares, de tantas formas, para morrer apenas uma definitiva vez,
Num último lugar, nascemos num primeiro beijo, de um olhar espelhado,
Nascemos quando entramos pela primeira vez no desejo de alguém, nascemos na mão
Que aperta a nossa pela primeira vez, nascemos num mergulho no espelho,
Num garfo cheio e estranho que nos explode na língua, nascemos nas asas de uma gaivota
De água doce que nos persegue até de madrugada numa noite branca, nascemos na timidez
Que se ultrapassa num salto e numa gargalhada quase louca, nascemos na queda da pele
Queimada por um Sol equatorial ou nas gotas inesperadas do suor Árctico de uma pele dourada,
Nascemos no gole lento e na sua descida apressada, no calor que se dissipa em nós,
Nascemos no céu de Verão à noite, entre as estrelas no espaço vazio entre a ilusão e o sonho,
Nascemos a cada momento que esquecemos, a cada palavra que nos salva e poderá ser
Sempre a última, este é o útero que nos gera, onde fermentamos, amadurecemos
E amargámos, é o teu berço e todas as faces são a tua, todas as camas a tua,
Todas as portas são apenas um nome, outro nome e outra história, o mesmo fim.

Savonlinna

22.06.2015


João Bosco da Silva

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Solstício

Não vale a pena, para quê, já está tudo cheio de donos do direito, tudo ocupado por vazios
Diluídos, um volume imenso de nada, o Sol falhará sempre os dias cinzentos e o Inverno
Regressará para engolir as folhas das videiras, até o vinho ficará azedo como o amor
Que não se bebeu todo quando havia sede naquelas noites quentes, agora pousa a caneta,
Mete as mãos nos bolsos, esconde o ridículo, aperta as calças, deixa o interior da solidão
Em paz, olha para outro lado, deixa as pupilas dos outros sossegadas, as suas dilatações
Não merecem os silêncios  que lhes semeias nos lábios, tira os óculos ou arranja uns se não
Precisares, não vale a pena, para quê, vais dizer o que foi dito ou o que se sabe
E só espera um meio de se transmitir de uma forma menos universal, sacudir o pó
Ou pintar por cima do óbvio, deixa mas é as folhas caírem, deita-te na erva, fecha os olhos
E não vejas além do verde, não vale a pena, não te dês nem te vendas, muito menos
Te imponhas, deixa o esquecimento levar todos os sonhos e dores, lavar a poluição
Em que te tornaste, no fim uma pedra com um nome gasto de uma vida apagada
Antes do seu fim, não vale a pena, apaga a luz e espera pelo fim da noite.

19.06.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Pastilhas Elásticas E Latas De Açúcar

“Poetry a fornication against fate.”
Lawrence Ferlinghetti

Quando as pastilhas elásticas perdiam o sabor, já éramos grandes e não as engolíamos,
Estávamos sós em casa da avó, íamos à lata do açúcar e tentávamos trazer o sabor de volta
Às pastilhas, um pecado de certeza, ressuscitar os mortos, e os cristais de açúcar
Quebravam-se nos dentes de leite, como será possível restituir a doçura, o sabor a uma
Pastilha usada, aquilo só sabia a açúcar e parecia areia numa bola de algodão humedecida,
Nada mais a não ser aquele sabor a pouco do que já acabou quando se estava a gostar,
O açúcar resultava melhor na cerveja, mas fazia muita espuma e o copo era pequeno
Para tanta festa, como fazer agora que é tão difícil estar só, agora que a lata do açúcar da avó
Está tão longe, agora que se continua a mastigar a vida com a mesma vontade com que se
Chupa o caroço de uma cereja e não tem onde se cuspir, o que fazer agora que a cerveja
Já não precisa de açúcar e é das poucas coisas que, quanto muito, adoça um pouco mais
Isto tudo, ou torna ao menos tudo menos amargo, já na altura se sabia que nada trazia
De volta aquele sabor original da pastilha elástica, mais valia tirá-la da boca e esperar que um
Tio nos comprasse outra, parar os queixos um pouco e colá-la debaixo da mesa, ou na sola
De um sapato que descolou no dia da festa ou na boca daquela vizinha de França,
O que está perdido está perdido, não vale a pena mastigar o vazio que ficou.

Turku

12.06.2015


João Bosco da Silva

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Sinos, Tascos E O Que Passa

“You are fucked up, fucked up
This is fucked up, fucked up
Be your black swan, black swan
I´m for spare parts, broken up”
Thom Yorke

Estranhamente, quem deixou a marca, foram os paralelos em mim, descendo o caminho
Da igreja, em direcção ao esquecimento, até de manhã alguém me pedir, pedir,
Para descer e ir almoçar, na televisão nada, nem o Garfield enquanto os que comiam
Na escola jogavam ao sete e meio ou à bola, por isso a minha personalidade
Se tornou mais parecida à de um gato cor de laranja em vez de um típico amante da bola,
O sino, já são as seis e tu agora a multiplicar paralelos a caminho das mantas e da humidade,
Dos fungos nas bandas desenhadas, dos livros lidos uma e outra vez na esperança de uma
Iluminação depois de se apagar a luz inventada pelo homem, vai tudo com o caralho,
Eis o além, já nem na tasca me suportam, tenho coleccionado demasiadas garrafas
Vazias, mas mesmo assim, não compensa a sombra escura da minha alma nos bebedores
De vinho encornados com os bolsos leves pelas putas, pego no carro e atiro-me contra
O último lugar onde fui puro, e mesmo ali, onde foi lido aquele poema número dez,
Aquele que me fez poeta, bêbado, com uma grade de cervejas para acabar,
Despi as calças enquanto a professora trancava a porta, e entre a apneia
De língua em lábios e eu algures na fome, batendo à porta alternando ângulos,
Lá me vim na pureza, na geada que caia lá fora, assinando o regresso à perdição
Sem retorno, hoje restam-me as cerejas, em cima das cerejeiras herdadas pela
Gula aldeã que separa os irmãos, hoje resta-me, nada,  que se foda,
Apesar de ter mergulhado em merda, tenho as mãos vazias, venha ela, o sino tocará sempre.

28.05.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Ensaio Sobre O Ridículo De Durar

Que vais fazer agora que todas dormem nos braços de alguém com alguém novo nos braços,
Se és do tamanho de tudo o que perdeste, és enorme, agora numa mão, seguras apenas
O esquecimento, na outra tudo o que poderias ter conquistado, rei do agora e já,
De ti mesmo, só, cansado, cheio do vazio dos outros, lutando contra as memórias que se vão,
Incapaz de impedir o amarelecimento dos dentes e o empalidecer do cabelo, aprisionado
Entre folhas de papel e tinta preta o pouco que te ficou de quem fez de ti quem és e mais
Do que isso, o que és, agora aperta com força o esquecimento antes que arrefeça, o vazio,
Pode ser que consigas sangrar na lembrança de alguém, pode ser que ressuscites nos sonhos
De alguém, ou à beira do rio num dia de aniversário, ou num grão de areia num lábio irritado,
Ou numa almofada numa manhã de Natal quente, quanto muito no sabor de uma tosta-mista
Com os vidros do carro embaciados, que vais fazer agora que todos os sonhos cresceram
E se tornaram ou ridículos ou impossíveis, agora que engoles o esquecimento e naufragas.

Turku
20.05.2015

João Bosco da Silva

quarta-feira, 20 de maio de 2015

No Tempo Das Cerejas Quando Chove

O cheiro da serradura, da erva cortada ao Sol, uma folha a passar no rio,
O Verão de Vivaldi, o sabor daquelas primeiras cervejas num dia de sede e cansaço,
Tudo o que nos faz fechar os olhos e nos arranca do agora por um segundo que seja,
E nos leva de volta à inocência, à leveza, a uma tenda atravessada no caminho dos
Sapos pequenos, aos sonhos antes de se apagarem, antes das velas pelos avôs,
Ao tempo dos olhos da avó nas paredes, como os de deus que seguem nos quadros
De Jesus com o peito aberto e um coração no esterno, e as primas um enigma
Irresistível, assim como as cerejas um baú de pirata em cima de uma árvore
Altíssima, as vacas um exemplo de paciência e estupidez, o sabor doce do feno mastigado
Numa torre de fardos num palheiro, nas mãos o cheiro a masturbação seca,
O cheiro a monte no cabelo, o cheiro a monte na pele, o cheiro das saudades a monte,
Inspirar fundo a terra quente quando as primeiras gotas se apagam no primeiro alcatrão
Da aldeia, no último dia de aulas, o relógio lento na lareira em casa da tia, enquanto
O primo acabava o pão com manteiga, os dedos besuntados, e agora os olhos azuis
Da nova geração, o meu corpo de dezasseis anos na fita magnética das câmaras
Dos tios de França, antes de provar pela primeira vez cona e Hemingway,
Deus levado pela corrente, como a inocência, como o exemplo das vacas que pastam,
O sabor do vinho quando o avô dorme, o sabor da aguardente quando o alambique
Foi vendido, o sabor dos salpicões quando se deixou de poder criar porcos, os foguetes
Da festa quando o bidão a fazer de casota de cão vazio, as revistas do homem-aranha
Em vez de gelados com o dinheiro para a festa, a manhã depois da festa no tasco
Ao lado do quiosque das bandas desenhadas e dos gelados que ficaram,
Com os dedos segurando uma chávena de café cheia de aguardente e a lubrificação
De quem dorme comigo dentro, os estrelas e os satélites nas noites que encolhiam
Tudo o resto, os livros que ficaram na lista e aqueles que se intrometeram,
Os que se engoliram só para perspectivar, as batatas que se apanharam da terra fria,
Se comeram, os dedos que se tiraram da carne quente e se chuparam,
Os sonhos que morreram e assombram os sonhos do sono, com beijos no pescoço
E unhas nas costas, e seixos e rãs e medos que se ultrapassaram quando acordado,
O Inverno de Vivaldi, a dor de frio na ponta do nariz, o cheiro da cera das velas no cemitério,
A cebola que fica no prato, o sabor metálico do peixe do rio vivo, quase como do sangue
Das feridas nos joelhos das quedas de bicicleta, o quartzo e a mica dos paralelos de granito,
Tudo o que nos faz fechar os olhos e nos arranca do agora por uma eternidade que seja,
Aprender a ser areia numa ampulheta e esperar que cada grão valha sempre a pena.

20.05.2015

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 12 de maio de 2015

Licor De Morango Silvestre

De Cidões

O rio, lentamente, aquece, os peixes renovam-se, os que engoli, querem esquecer-me,
A cara depois de escurecer, empalidece com o que teve que levar, quem diria, que a língua
Bruta capaz de obrigar à mudança dos lençóis e da cama para o sofá, os tios já não podem
Comigo para atravessar o rio, nem eu com eles, ficamos do lado de cá, espero que por muitos
Anos e bebemos as garrafas de vinho que o meu avô deixou para o meu pai engarrafar,
Armamos uma tenda entre os medos ancestrais e os gritos histéricos, porque os lobos
Algures entre o nosso medo e a sua extinção, meu tio, aguarde agora, tenho que falar
De uns gajos que ninguém realmente conhece, o Hunter chega com as meias das raquetes
E o copo cheio, pede gelo, dizemos claro, que não há, estamos no rio, o Hemingway
Pergunta de onde vieram os cartuchos, o meu avô inocente, já não enche cartucheiras,
O único que tem razão a esta hora antes de cairmos nas tendas é o Jim, quando somos
Estranhos arrancamos amieiros para fazer café, confessamos o gosto por cu fresco,
E encontramos adeptos da estrela do mar de chocolate, umas semanas nisto e acordava
Tão iluminado numa manhã de garrafas vazias quanto o Jack, a mula venderam-na,
Ou então foi para o mesmo lugar dos cães de caça do avô, chumbo, veneno,
Só enforcam quem usa botas, é triste, contudo, o rio não parece tão fundo
Antes do entardecer, nem o céu parece tão longe, nem o infinito aguenta a dúvida,
E agora, que fazer, quando ninguém pode comigo para me levar às costas para o outro lado do rio.

Turku

13.05.2015


João Bosco da Silva
“Love Will Tear Us Apart”

Quando o amor arrefece, abre a porta e sai, deixa-te levar chuveiro da cona mais
Nojenta que encontrares, desde que não te lembres do seu nome, mas sai,
Quando o amor arrefece, foge, salta pela janela, descola-te da almofada,
Esquece o teu calor nos lençóis, corre, o inferno aquece inversamente proporcional
Ao arrefecimento do amor, e é verdade, há coisas piores que a morte,
Uma delas é seres apanhado pela resignação, seres mordido por um amor morto,
Frio, tornares-te um zombie embalado pelo furor do rastilho, mais vale
Engolires uma corda que te fica presa na garganta que o fígado, constantemente
Comido pelas aves que sabem que a paciência morreu há muito, mas também a alma,
Foge do amor que arrefece, não queiras saber do frio que só existe em equações.

12.05.2015

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 11 de maio de 2015

“Waiting For The Sun”

“This is the strangest life I´ve ever known.”
Jim Morrisson

Sai de casa, bebe mais, mas paga pelo que bebes com o que trocaste pelo teu tempo e esforço,
Beija menos cus, lambe-os em vez disso, lê os mortos, esses sobreviveram ao esquecimento,
Passaram o teste, não esperes nada de ninguém, muito menos do futuro, o mais certo é o
Teu nome não durar na memória por mais de duas gerações, dorme muito quando possível,
Sabe-se lá quando será a última vez em que acordas para o último dia, nunca te esqueças
Dos joelhos manchados com erva, das unhas sujas de terra, do sal da pele no Verão,
Dos dentes de leite, dos peixinhos do rio, dos castelos de areia e das histórias que a tua mãe
Te contava antes de dormires, a barba nunca te esconderá os olhos, nem os cabelos brancos
Poderão encobrir-te o sorriso sincero, os dentes podem escurecer, os amigos podem
Tornar-se nomes distantes, mas nada te substituirá, não tenhas vergonha de esperar,
Mas não te sentes nem te submetas, faz da tua vontade a corrente, passa porque te levas.

11.05.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 8 de maio de 2015


Air Strip

Já ninguém me espera com toalhas frescas e um refresco depois de quilómetros de pó
Dentro da virgindade próxima, ninguém me respeita o silêncio da caneta a sujar o papel
Com pecados que fermentaram em versos, nem uma aranha desconhecida a tornar
O papel higiénico um luxo necessário embalado por um milhão de diamantes e
Elefantes curiosos inocentes do medo a que a escuridão obriga, no bolso do casaco
Um postal em branco com uma morada, mas como dizer a um amigo que nos conheceu
O brilho da loucura nos olhos, que a terra já não incomoda mais e que o nome estará
Enquanto ele quiser nas suas saudades, se tanto, ele tão orgulhoso do meu requerimento
Para ser poeta, quando tinha dezasseis anos era sem ter pedido reconhecimento de ninguém,
Lé terei que depilar o cu e perder o nojo na língua, admiro a indiferença das hienas e dos leões
Saciados, tenho mais medo dos hipopótamos, sempre enfiados com os cornos na água,
Sim cornos, entre amigos, todos territoriais, mas é o medo das manchas de um leopardo
Que se esconde antes de focarem os canhões, sem desculpas, que está frio
E não estava preparado, eu atravesso pedantes em cima de um tractor com quilos de merda
Fundida pronta a sair-me dos poros, temos que aguentar a própria vida, mais nada,
Cada um que engula os seus dias como quiser, que trate da digestão como dos amigos
Se quiser, o pó não pára de se fazer quilos nos quilómetros e a toalha seca, áspera, ao lado
De um copo de água-ardente numa manhã de ressaca de vinho tinto em Agosto,
Longe das andorinhas em Fevereiro, antes da despedida da lareira solitária,
Das pinhas que nunca se queimaram, das noites de ausência e cemitérios cada vez mais apertados.

Gdansk

04.05.2015


João Bosco da Silva

quinta-feira, 7 de maio de 2015

No Restauracja Goldwasser

À beira do rio, podia começar assim, outra vez vez, ser o título de mais um poema,
Longe, sempre longe a aproximação do entranhado nos poros das sinapses
Onde se escondem as almas, shots de gold strike na pizzaria da terra no dia da festa
Da fogueira eterna, o antigo melhor amigo a dormir com a cabeça sobre a mesa,
Em cima da caixa da pizza para levar e comer no jardim ao pé do quiosque
Das primeiras literaturas de cyberpunk distópico, o futuro uma desilusão,
Tudo isto entre os escombros de mais uma cidade violada pelos russos
Antes da vitória, a vitória é sempre uma questão de destruição na casa dos outros,
A destruição das memórias, o gosto amargo na boca na manhã ressacada,
A resignação aos cabelos brancos, o elogio das rugas, os pecados que já não se sentem
E a vida um aborrecimento sem aquele peso que se aliviava no senhor padre, umas omissões,
A confissão de uma língua suja, sem lamber cricas contagiosas, e fui mau senhor padre,
Até bebi ouro, dizem que ouro, mas tão bom, sabe, deve ter ficado preso à alma,
Não o vi quando caguei, sabe, às escondidas, como você com as divorciadas, as novinhas
E as mulheres dos outros que estão fartos delas e passam a vida nas putas ou no café,
Hoje a mão já nem se deixa fascinar pelos centímetros encontrados na carne dos outros,
Leva mais um copo de goldwasser aos lábios cansados de tanta secura, tanto ar frio e vento,
Tanta solidão húmida e mal aparada, tanto fumo em segunda mão, tanta fome alheia
E anónima, engulo, sinto a ilusão quente descer até mim, mais verdadeiro e purificador
Que qualquer hóstia, sinto a distância diluir-se entre mim e o líquido, contudo
O meu estômago ainda conserva alguma sensibilidade antiga, acho que não escrevo
Com o coração, é o estômago que me guia a mão, a fome que me inspira,
Por hoje, à beira do rio, é tudo o que o papel merece de um estômago dourado.

04.05.2015

Gdansk


João Bosco da Silva

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Buraco De Verme

Sento-me, espero, olho a parede e passado algum tempo, vejo-me,
A olhar outra parede, com outro vazio nas mãos, outros caminhos
Com a poeira ainda assente, mais chaves no bolso, que nunca cheguei
A saber o que abriam, no quarto ao lado a estudante polaca parou de gemer,
Agora fala com o seu amigo espanhol, disse uma noite que eu não a conseguiria
Acompanhar a beber, se calhar agora não teria razão, entre uma foda e outra,
Escrevo mais um poema, é tão difícil rimar enquanto os outros vivem,
É ridículo o amor sem carne, sem cheiro a mijo, a cu, é como acordar
De um sonho e olhar para a mesa de cabeceira e lá em vez de umas cuecas,
O mesmo livro de sempre, nem uma carta a confirmar que sim, só um sonho,
Volta a dormir que ainda me apanhas, enquanto sobe a rua com o namorado barbudo,
Tanta fome e o frigorífico cheio de comida estragada trazida no fim de semana,
A amiga da polaca queria ver o meu quarto naquela noite em que acompanhei como pude,
Mas tive vergonha dos desenhos que tinha colados nas paredes, a minha fome revelada,
Ela com uma sede azul nos olhos de olhos verdes, soubesse eu ler, mas dá o destino olhos
A quem não sabe ler, ficou a parede a olhar para mim, amarela, e a estudante polaca
Recomeça naquela celebração universal ao ritmo da cabeça na parede,
Olho-me do outro lado da parede e digo-me, deixa, se não tivesses deixado de viver tanto,
Nunca lhe pegarias com a fome nos dentes e o inferno nos olhos, um anjo do apocalipse,
Deixa, apaga a luz, terás amanhãs em que mal reconhecerás o teu cheiro na pele da manhã,
Terás olhos que tornarão impossível acreditar que tu o menino da tua mãe,
Beberás o sumo do agradecimento anónimo e sentirás a alma tão suja que te sentirás
Maior neste mundo de promessas esterilizadas entre paredes de quartos pequenos
Em cidades decadentes, deixa, ganharás tão bem o inferno que até os santos terão inveja.

04.05.2015

Gdansk


João Bosco da Silva

domingo, 26 de abril de 2015

No Café Banquete

Podia estar a escrever isto no Café Banquete no Conde de Redondo,
Mas é Domingo e o café está fechado, então escrevo neste quarto de fundo
De corredor, ao lado do quarto de arrumações das mulheres das limpezas,
Onde o papel higiénico ainda embalado limpará cus de todos os credos,
Embalado pelo ritmo dos carros que descem a rua, mais abaixo, um travesti
Espera o pai de outros filhos, com uma cabeleira demasiado loira e falsa,
O essencial para noites da capital, aqui, não é suficiente ter luz, quer-se barulho,
É preciso entrar até ao centro de tractor, continuar em sentido inverso
Ao tsunami e lançar o tractor com o motor quente no Rio Tejo, mesmo onde
As rainhas levantavam ligeiramente os vestidos antes de pisarem a terra
Da sagrada pátria quando regressavam de províncias tropicais do reino,
Deixar o vapor envolver a cidade com uma neblina a condizer com o espírito geral
E sair do rio como um salvador que toda a gente finge esperar,
Depois de ter ido muito além da resignação absoluta, o escritor a estas horas
Deve dormir, é rijo, mas a vida foi dura, tratou-o mal, contudo muito melhor
Que à maioria, há quem se deite e nem uma maçã no estômago, nem uma sopinha,
Outros levam o sumo azedo das virilhas frustradas, e sonham com uma consciência
Tranquila, na mesa de cabeceira o dinheiro para matar mais um dia,
Eu, cansado, desligo o tractor, isto não tem cavalos que mereçam o esforço.

Conde de Redondo (Lisboa)

19/04/2015


João Bosco da Silva

sábado, 25 de abril de 2015

Na Recepção Do Hotel

Este país cansa-me até aos ossos, esfarela-me a paciência, eu que esperava
De ti um país limpo e honesto, com menos promessas e mais respeito,
Menos barulho e mais coragem, em vez de demasiado joelho no chão
E nariz empinado cirurgicamente, tanta fartura e tanta fome na pele,
Falam sozinhos, ou com os paralelos, olham bolsos, depois virilhas,
Às vezes só mesmo os pés, só há olhos no umbigo, há sempre um mal estar,
Ou um calor fora de época, ou um frio húmido que cria bolor na alma,
Esta gente sem espelhos sempre tão convencida da importância da sua opinião,
Tanto pombo à espera de migalhas e gaivotas prontas a roubar-te a comida do prato,
A boa vontade é um fraqueza nesta terra de chicos espertos, parasitas,
Não há sossego sequer num banco de jardim à sombra, nem um sorriso gratuito,
Nem uma mão aberta que não espera algo em troca, o punho sempre pronto,
Este país com a sua guerra civil fria, servida com sorrisos amarelos
E camuflada com boas maneiras à moda colonialista para inglês ver.

Lisboa (Conde de Redondo)

17.04.2015


João Bosco da Silva 

terça-feira, 14 de abril de 2015

Arrancar Batatas (Variação de um poema de Billy Collins)

Quando ia às batatas, de manhã cedo, com o ribeiro como som de fundo,
O suspirar da égua velha, mais tarde do motor constipado de ferrugem do motocultivador,
Cuspindo fumo espesso na manhã virgem, e encontrava um caco ao lado de uma batata,
O caco de uma malga azul por fora, deixava por instantes o frio na ponta dos dedos,
Imaginava outras gentes, o campo cheio, a malga inteira e cheia de vinho para matar
Uma sede barulhenta, mais alta que o motor velho, imaginava outro tempo,
O mais certo, é que aquela malga fosse do meu avô, esquecida quando o meu pai
Era eu, outro tempo não tão diferente quanto a neblina que subia do rio me fazia imaginar,
Os mortos mais jovens, os vivos à espera, agora a aldeia quase fantasma no Inverno
E no Verão uma ilusão holográfica, deixa esse lixo, vamos acabar de apanhar isto
Antes que aqueça, depois já brincas, então deixo cair o caco, dizem que a gravidade
Não é uma força, é uma manifestação holográfica qualquer, uma ilusão, contudo cai,
E o mais certo é voltar a encontra-lo numa manhã mais tarde, mais gasto, eu, quebrado, eu,
A cabeça em cacos, o cemitério cada vez mais cheio, de memórias, de certezas

14.04.2015

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Trepanação de Jerónimo Bosch

 

Poemas de João Bosco da Silva
Apresentação de Ricardo Marques
Leituras de Sara F. Costa
 
 
 
 
 

domingo, 12 de abril de 2015

Confissão De Um Pecado

No Quénia,

Um grupo de miúdos aproximou-se da carrinha e um deles perguntou,
Tens canetas, na verdade tinha apenas uma caneta japonesa, preta,
Ultra leve, de gel, ponta fina, para mim um canivete suíço naquelas
Aventura, que nem sempre se engole tudo de memória,
Disse ao miúdo que não, em vez da caneta, dei-lhe um dólar,
Senti-me pecar como quando era garoto, um peso a crescer no peito,
Como mentir a deus, mentir àquele miúdo, que pedia uma caneta,
Como negar pão a quem tem fome, água a quem tem sede,
E que diferença lhe faria a ele aquela caneta, a mim, menos uns poemas,
Que não salvariam nada nem ninguém, só me dariam a ilusão de ter importância,
Mas esta mania de ser poeta, esta insegurança toda, que obriga
A registar a presença num pedaço de papel, uma data, o local, o nome,
Esta tendência primitiva de deixar as marcas das mãos nas paredes da caverna,
Mais tarde no equador, numa barraca feita de tábuas poeirentas
À beira da estrada, um vendedor queria trocar-me uma leoa de madeira
Por algo, pela caneta, dizia-me que seria o próximo presidente do país,
Que precisava de uma caneta como aquela, ou uma coisa do país de onde vim,
Acabei por lhe dar dez euros e ainda recebi como bónus colheres
Com zebras pintadas e um sorriso, o peso contudo, crescia,
A caneta à medida que a tinta ia diminuindo, tornava-se cada vez mais pesada,
No bolso da camisa, do lado esquerdo do peito, no aeroporto quando
Me revistaram, perguntaram-me o que levava no bolso, quase lhe disse,
Que eram um pecado, lá o arrastei, até que o peso se tornou quase
Impossível para o pulso, e na apresentação do livro, onde alguns poemas
Tinham saído daquela mesma caneta, depois de mais uma vez deixar
A palma da mão na parede da caverna, para você, que não faz ideia
Do tamanho dos meus medos e sonhos, entreguei a caneta,
A uma menina pequenina, que olhava para mim e pensava
Que eu era alguém importante, não sabia ela que eu minúsculo,
Gasto, mas por fim, tinha confessado o pecado, em silêncio,
Absolvido pelos olhos daquela criança que recebeu a caneta.

12.04.2015

Turku


João Bosco da Silva

sábado, 4 de abril de 2015

No Tempo Em Que Se Ia Às Pinhas

Quem é que irá agora às pinhas, antes parava-se perto de um pinhal,
Parecia longíssimo, tudo, ali entre as árvores, as pinhas enormes,
Algumas pinhões que os dentes de leite mal conseguiam abrir,
Eram para o Inverno, para acender o lume, o Verão parecia
Que há anos, como o Sol a esconder-se atrás dos montes,
E lá se levavam umas sacas de adubo, cheias de pinhas,
Havia sempre uma brisa, os ramos pareciam dizer adeus
Ao calor, como o mundo era diferente, e tudo parecia
Tão longe no silêncio, o pinhal logo além, depois da ponte romana,
Do rio, o pinhal agora tão distante, numa tarde quente em que o Sol
Nem se mostrou, tudo cinza, as mãos pequenas que apanhavam
As pinhas, pó, agora só estas, enormes, de velho, com cicatrizes
Das facas do pão e das noites desesperadas, estas mãos
Que só a morte lavará por completo, e agora, ninguém
Ouve as pinhas a cair, quem as apanhará, ainda há
Lareiras, mas a chama é uma desconhecida, cada vez mais estranha,
Contudo, ainda procuro nas brasas um crepitar familiar,
Que me torne pequenino a fazer argolas com as agulhas dos pinheiros,
Enquanto a minha mãe me dizia, apanha essa aí tão bonita,
E eu apanhava-a, levava-a ao saco, sem pensar que seria
Queimada numa manhã fria, antes de eu acordar para ir para a escola.

04.04.2015

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Roncos

Ronco

“ – the poem oughta be worth some beer”
al purdy

Enquanto continuarem a dar ouro pela merda dos dentes branqueados
Pela ignorância, enquanto endeusarem a arte de ter sempre razão
Sem saberem nada além de rapar os pêlos entre os olhos,
Enquanto se deixarem hipnotizar por letras de canções que
Podiam ter sido escritas por miúdos da quarta classe que já tocam punhetas,
Enquanto os olhos estupidificarem tudo em que tocam
Por culpa da ligação directa da região occipital aos tomates e à ganância,
Enquanto usarem só o espelho para ignorar a passagem dos anos,
Acreditando que a imortalidade está nos balões que insuflam com agulhas,
Enquanto se achar que a cor da camisola melhor porque minha,
A cor da pele melhor porque minha, o sotaque melhor porque meu,
Enquanto se usar deus como o papão, quando se quer e convém,
Como quem está sempre doente quando têm que se tirar as mãos dos bolsos,
Enquanto houver os que apesar de não terem televisão,
Aparecem mais do que o que escrevem e vendem-se ao holofote mais forte,
Enquanto houver os que estão tão fartos de toda esta merda
Que se deixam afogar em goles intermináveis e rasgam-se pelos dedos,
Enquanto houver os críticos que criticam só porque não sabem
Fazer mais nada e querem sempre ficar por cima, mesmo que capados,
Enquanto houver cegos por opção, porque dentro deles o mundo melhor
E mais vale ficar enterrado numa avalanche que ser coberto de merda,
Enquanto houver os que fodem para se encontrarem dentro, fora deles,
Ou na submissão dos outros e os que são pagos por isso,
Enquanto houver espaço na página e a pastelaria ou o café
Estiverem abertos, enquanto houver tinta, enquanto o sangue não arrefecer,
Enquanto o mundo for mundo, será tudo uma valente merda,
Ao menos não escondam o focinho nem a piça em espiral, ronquemos irmãos.




Ronco II

Um gajo esfarrapa-se todo por estes gajos e nada, esta gente toda,
Que vive e pensa e sonha e teme e deseja e fode, engole, fodia mais
Se lhe baixassem as calças por serem todos tão especiais, mas nada,
Um gajo pode ser grande, mesmo muito grande, mas não existe
Enquanto não entrar em alguém, precisámos de olhos como do corpo,
Com o tempo fala-se com árvores, pedras, deus até, a água
Engole-se , mas antes agradecemos-lhe a frescura, é isto, mas um gajo
Esfarrapa-se todo, arma-se em mutante dos nervos, nem um pássaro
Se levante, abre-se a janela, um frio terrível, nem dá vontade de grandes
Gritos, abre-se mais uma garrafa e grita-se ao contrário, engole-se pronto,
Não vale a pena, são todos umas putas armadas em santas,
Uns miseráveis gordos de fome e solidão, querem é beiça
E prepúcio retraído, nem é papel, é mesmo fome de um sovaco azedo
Que os abrace, anda um gajo a esfarrapar-se por isto,
Há fomes piores, o musgo seca, o menino jesus do presépio
Não tem mãos, os olhos parecem que enrugaram e o menino
Que não morreu, parece apodrecer no colo que rejeita
Porque agora é homem, anda um gajo neste negócio de pérolas,
Para os porcos dormirem sossegados nos palácios que os burros admiram.



Ronco III

“flowers stink beauty rots gods die”

al purdy

Os olhos já não me perguntam, o que te falta fazer, perguntam-me, o que te faltou fazer,
E o cabelo anui, confirmando o que os anos redondos levam, os fantasmas decidem,
Depois de anos de silêncio, abrir os lábios carnudos, para anunciarem a absolvição
Dos seus hábitos canibais, a glória redentora, a passagem da estafeta do pecado tão
Pouco original, como que dizem, não soubeste fazer mais nada a não ser cornos, olha agora
O que os cornudos sabem fazer, de certo não lhes engoliram as probabilidades,
A festa acabou há tanto tempo, já se levantaram muitas feiras e as calças brancas a estas horas
Já nem devem servir, ou não se baixam com a mesma pressa até às coxas e um alívio quase
Dentro, atirado para o silvado ao lado, aqueles lábios a brilhar ao luar, ou se calhar só
A cerveja a fermentar, os mesmos lábios no cemitério, aquela surpresa nos dedos,
Dançando como as chamas das velhas, escorregadios, que beleza haverá nisto tudo,
Que lição e para quê, se no fim se rasgam, se apagam, secam, e até os olhos estranhos,
Como as glórias absolvidoras do canibalismo das calças brancas, a sua sede de joelhos
No chão na hora em que os sonhos morrem e fica apenas o cheiro entranhado no hipocampo.



Ronco IV

Que foi, nunca viste as redes pelas costuras, o teu avô no cemitério, as tuas mãos
Vazias e as costas nuas penetradas pelo futuro que os passos vão formando,
Que foi, esqueceste-te do sabor do sangue nos pulmões arrancados à geada,
Já não te lembras dos amigos que sustentaram as tuas punhetas com baralhos
De cartas da loja dos trezentos e os vídeos resgatados dos píncaros dos guarda-fatos,
Que foi agora, os anos tornaram-te ingrato, hipócrita, senil, a idade não te desculpa,
Faltou-te foder alguém famoso para teres seiva suficiente no ego, murchaste precocemente,
Que foi, faltam-te os tomates agora, depois de teres fodido a rececionista
Num quarto do seu próprio hotel aos vinte e um anos de idade e latitude ártica,
Não há um poema que te valha, nem um copo que seja suficientemente cheio,
Que foi, vais gritar agora o desespero todo, vais engolir tudo o que a avalanche
Te guardou, deixa os sorrisos e as esperas desencontradas, já te passou a hora,
Valete fratres, nem um valete de paus, tu, que nunca aprendeste a jogar
Ao chincalhão nos intervalos, quando ainda tinhas espaço nas mãos para ser alguém,
Que foi, agora, alguns têm-te medo, não sabem que sacrificas a fome pelo ócio,
E que os versos são consequências da vida, da dor, da morte, reflexos do prazer,
No tempo dos assassinos, que engoliam, cuspiam, passavam lenços de papel,
Tomavam comprimidos comprados logo de manhã ao senhor da farmácia,
Que foi, o elevador não te afastou da senhora arquiteta, que planeava fazer
De ti um renascimento glorioso de uma ruína imperial qualquer que ninguém lembra,
Foi o vinho do porto, naquela noite de São João, que foi agora, tiveste a inveja de
Professores na cidade berço, tiveste a miúda do café na ressaca, a olhar para ti
Como se esperasse não haver papel para secar as mãos na casa de banho,
Que foi, já viveste demasiado em menos de três décadas, nunca pensaste chegar
A desfrutar de um whisky de dez anos sem o consentimento dos que valorizam
Tudo pelos números, se eles soubessem que na Skye céu de tenra idade,
Que foi, não esperes que nos impérios arruinados se assuma a ignorância,
Chega, vai mijar versos a outro lado, ou ejacula com a janela do carro aberta
Numa geada leve, com o harmonioso aroma de fundo da pocilga, enquanto
Os alunos esperam, a oportunidade de recusar, aprender ao menos, mais uma merda.



Ronco V

Enquanto a minha cara incha pelo tédio, pela derrota dos anos, pelas submissão
Ao álcool por nunca ter conseguido ter a vida que me ensinaram a viver
Na televisão e nos livros, relembro a glória que foram os anos em que
Supostamente ainda não era tempo de ser, fosse o que fosse, naquele aniversário
Do primo dela, no carro da minha mãe, com o cabelo a acumular humidade
E ondas proporcionais às penetrações, o meu aniversário também,
No rio onde afogaram gerações de cães e de sonhos, onde lançámos
Mais tarde a cinza dos cigarros dos avôs, resgatados da ditadura e das colónias,
A caminho da posta mal passada e do vinho tinto capaz de aguentar geadas
Nos pipos das adegas eternas, hajam brasas e um amigo dos que nos viram
De luvas nas primeiras aulas da manhã, porque ao menos luvas,
Dos que nos viram plantar uma miopia que foi crescendo para
A vergonha da líbido dos dezoito anos e daqueles dedos esfomeados
Por carnavais e máscaras em sofás nos futuros postos da GNR que ainda hoje
Promessas de presidentes da junta de esquerda e direita, ping-pong
De países vestidos de democracia para o carnaval que têm sido as últimas décadas,
E é isto, que mais se espera de um indivíduo que trocou a missa de Domingo
Pela ressaca das manhãs indiscriminadas, deixou os acólitos porque a fórmula um, afinal,
Algo aborrecidíssimo, coisa de nórdicos ou alemães e padres que pelas
Línguas estéreis foram fodidos de lá para fora antes das voltas terem sido todas dadas.



Ronco VI (Heavy Machine Gun)

Ò pá, lembras-te de quando o destino do mundo estava nas nossas mãos,
Nos nossos dedos, e entretanto, fazíamos uma pausa para arrancar um pouco
De musgo às fragas, lembras-te quão leve era a responsabilidade,
E que fácil era fugir dos caixotes do lixo em chamas e dos balões de água
Lançados pelas chaminés abaixo, não fossem os amigos traidores,
Sempre os amigos traidores, os amigos traidores, os amigos traidores,
Esses cabões, perdoámos todas as mulheres, todos os beijos perdidos
Onde não estávamos, quase os filhos que não tivemos, nunca os amigos
Traidores, que nos sujam os versos com explicações, aqui ele estava
A falar duma vez em que foi com uma namorada para o rio da terra
E não lhe tocou, nem um pentelho, e é uma afronta tão grande a verdade,
Nem um pentelho, não como o da terra vizinha, que aproveitou bem o Verão,
Verão, verão que foi muita frustração acumulada, depois nem sei,
Houve demolição de castelos, degelos, guerras santas, terrorismo biológico,
Overdoses de serotonina, não podes competir com um gajo feliz,
Ò pá, nem sei, isto é uma explicação, uma confissão ou mais um ronco.



Ronco VII (Rabo Enrolado)

Um anti-Bandini, porque sempre preferi evitar a confissão,
Na casa dela, no Verão, com uma merenda de música da moda,
No quarto dela, um álbum atrás do outro, gostava de tudo
Com a mesma sinceridade da fome de um Bandini,
Mas ninguém se lançou às nádegas dela, hoje nem
As imagino, chupadas por um marido, uma filha,
Décadas, ficava a dormir naquelas manhãs de Verão
E não tinha dinheiro, nem idade para a piscina municipal,
Fiquei com o brinde dos livros grossos do Verão passado,
Ah, que bem, que gosta de Hemingway, até leu O Príncipe,
Agora está a levar os de Niestzsche um atrás do outro,
O sabor daquele grelo, mas só carne, este tesão,
Só carne, aquele amor, só desilusão, anti-Bandini
A caminho da bruskowskidão, tinha os dedos secos,
Tinha os lábios secos, olha, acabou a música.




Ronco VIII (Festa Dos Bombos)

Os bombos tentam calar-me, mas já não consigo ter paciência para o ritmo dos dedos,
As chamas aquecem apenas o olhar e os poetas todos, aposto que a estas horas
Bebem, cheiram-se todos e sãos os melhores amigos uns dos outros,
Vêm-se depois confessar aos padres miseráveis da periferia, afogados no tédio,
Em sofás esburacados pelo frio dos invernos demasiado inesperados todos os anos,
E é isto, peço desculpa pelos agradecimentos aos poetas, desculpem que não
Seja apenas carvão, ainda brasas, porra e isto nem queima, soprem cabrões,
Ao ritmo dos bombos, nas palhas, no Minho, na matança do porco, ou na Galiza,
É igual, não se usava gás, abria-se também o porco de outra forma,
Daí eu escrever tão aberto, o rasgo vai de cima até aos colhões do animal,
Era quase sempre porca, contudo, os anos oitenta ainda espreitavam
Nas farmácias e os iogurtes tinham uma forma de engate ultrapassado
Com bonecos unicolores, meu deus, que pretendo com isto,
Ultrapassar o Hércules pela Grécia fora, hoje não sei se venceria
Tanta cabeça de Hidra, os bombos não conseguem a ressonância
Precisa com as cinzas, então morre-se um pouco, a geada recebe de braços abertos.