
Turkish lips
Her mouth was
The best cigarette
I ever had,
Lusty wet,
Warm, smooth,
With her excited
Eyes eating me.
I felt burned
In danger
And that
Turned me on
Like I was about
To nail Death
In her perfect
Pale ass.
B.

XXIX
Há dias que trazem dor de cabeça
Quando se aproximam do fim,
Por se ter visto demasiado,
Mas também trazem o silêncio da noite
E o repouso numa cama quente
Para descansar os olhos do mundo.
Tenho pena daqueles
Que não querem ver,
Porque têm medo da dor de cabeça
(Não se devem lembrar que há noite).
16.03.2011
Turku
(António Montes)
João Bosco da Silva

XXVIII
É tão natural perder como ganhar,
No fim, não haverá mãos vazias,
Nem mãos cheias: não haverá mãos.
A vida ganha-se e no fim perde-se.
Entre o nascimento e a morte,
Tudo foi teu, tudo passou por ti,
Mas nada é eterno nas mãos finitas,
Nada é invencível na luta contra o tempo.
Tudo passa e a vida
É a consciência da passagem.
16.03.2011
Turku
(António Montes)
João Bosco da Silva

XXVII
Hoje, na taberna da aldeia,
Voltei a ouvir a mesma conversa
De gente com desejos, que continua
A não fazer qualquer sentido.
Falam de querer isto e aquilo,
Que não têm, nem conhecem,
Mas desejam.
Falam de estarem fartos disto e daquilo
Que têm, com eles ou em casa,
Que conhecem, que vive com eles
E já faz parte do que são
(Devem estar fartos deles próprios).
Desejam o vazio, o inexistente,
O chão antes do passo dado
(Que poderá nunca lá estar)
E queixam-se do que têm: da vida.
O mal deles é ter mãos
Demasiado cheias e pouco sensíveis.
Faz-lhes falta uma miopia geral nos sentidos
Ou alguém que lhes dê um empurrão
E lhe deite tudo das mãos no chão
(Assim poderão ver o que têm, tinham e perderam).
16.03.2011
Turku
(António Montes)
João Bosco da Silva
XXVI
Quando estiveres cansado do calor,
Do vermelho dos olhos fechados,
Do corpo suado e do ar parado
Do meio da tarde, não desesperes.
Quando o horizonte parecer
Não conseguir encontrar nitidez
E a cabeça estiver para desistir
Do sol violento, não desesperes.
As primeiras chuvas não demoram
E quando as primeiras gotas começarem a cair,
Não virão sozinhas e trarão frescura,
Farão regressar o verde,
Darão vida ao ar,
Esculpirão novos horizontes
E tu irás esquecer-te do desespero
Que quase te enlouqueceu
E com algum tempo
Voltarás a desejar tudo
O que a chuva levou.
Turku
15.03.2011
(António Montes)
João Bosco da Silva

I must be a monster
I turn on the TV
And I see all my problems
In a different perspective,
All my worries sweep away,
I feel like stunned with apathy
While houses, cars,
Trains, trees, animals,
People,
Like toys in
A puddle of mud,
So surreal.
It´s hard to believe,
It´s hard to feel the size
Of it, when
People are used
To make a big drama
About a look,
A touch, about life´s
Simple things.
I must be a monster,
Because my heart
Is more easily touched
With a slap in the face
Than with the sight
Of the end of the world.
B.

Poema de Embalar
Perceberás que nada do que sentes interessa porque nem o verão
Te acompanhará nesses dias vermelhos de noites púrpura
E tudo o resto serão imagens e palavras que deixaram de significar
O valor que tiveram.
Desiste e não queiras tornar sólido o que te corre pelo corpo
E mal te toca, com sorte os lábios ou a marca de uns dentes agora desconhecidos,
Um leve sabor metálico a cru com o suor de uma excitação aquecida
Pela madeira das noites frias de Novembro.
Tudo o que te pareceu ou parecer luz, irá consumir o combustível
E só tens que agradecer à escuridão por te ter permitido ver
E gravar esse aparente erro que nunca poderias ter feito de outra forma.
Nada apagará o passado, já que o passado nunca foi escrito
E é tinta nas tuas veias, é o teu corpo quente há um instante,
Os sonhos que trouxeste dos tempos em que tudo parecia simples
E era fascinante cada segundo mais de vida,
Livre das limitações dos objectivos e dos desejos que tomaste
Como prioridades, agora que és os anos que tens e não os olhos
Que abres para dentro quando há paredes e nada mais interessa
Além de ser e deixar correr livremente o líquido que não pertence a ninguém
E é um prazer sem orgasmos e ilusões.
Desiste e deixa-te viver sem pressas por comboios que já partiram,
Entra nas portas abertas sem medo de alguém lá dentro,
Estarás sempre só se tiveres medo e a morte que tanto temes
Não passa de uma solidão irreversível, uma única porta de sentido único
Para um quarto vazio e silencioso.
Deixa-te abraçar pela dor da ausência e sente o calor do que nunca morrerá em ti,
Sente-me nos teus seios que o tempo desiludirá e não te preocupes
Com a confusão do teu cabelo na luz dos meus dedos para sempre perdidos
No futuro impossível de eternidade.
Já deves ter percebido que a vida é uma paixão demasiado breve
Para se levar tão a sério, mas é o que tu és e não há nada mais importante
Neste universo que lê estas palavras, já que os lábios nunca serão suficientes
Para nós, nem uns ponteiros de relógio parados e esquecidos numa casa abandonada,
Nem um adeus nunca dito e mastigado na inevitabilidade da partida,
Na partida constante que é viver, porque nunca se chegará a lado nenhum
E só existe na realidade a partida.
Percebes agora que nunca chegaste a sentir e só ficou nos teus olhos,
Alguém que se afasta, de costas, em direcção a mais um vazio que nunca será completo,
Mesmo que os pratos cheios para uma fome invencível,
Mesmo que uma cama fechada de madeira de pinho depois de todas as dores abandonarem
O cozinheiro de sonhos.
Acredita que quando os rios se cansarem e as mãos secas e velhas se recusarem à esperança da tua pele,
O meu nome será apenas o que serei em poucos momentos de amargura,
Mas não tenhas medo, até eu fui vida
Em ti.
Turku
09.03.2011
João Bosco da Silva

A transcendência de π
Um mundo que morre é sempre um nascimento de um novo,
Doloroso, silencioso, já que o universo não suporta o vazio
E afinal sou todas as cartas de um baralho infinito com consciência
De um número, único e repetível pelas possibilidades quânticas.
Posso ser já um pedaço de matéria orgânica, pronto a ceder os meus
Átomos de carbono a outra forma qualquer de vida,
Posso nunca ter tido oportunidade de mostrar a cara, posso
Estar errado e certo e ambas as coisas até alguém provar o contrário
Ou estar de acordo com o facto de não existirem paradoxos.
Um mundo extingue-se, ou apenas muda de nome, acaba
Ou renova-se, eu e um espelho partido aos meus pés,
Reflectindo o peso de biliões de possibilidades, dando à fragilidade
Humana a responsabilidade de mil Atlas, confiando o trabalho de titãs
A vermes sensíveis, cheios de equações e deuses que expõem a sua ignorância.
Crio um multiverso a cada passo dado neste universo, com tantos passos
Possíveis que não dou e todos aqueles que dou e encerram ali algo mais
Para a minha definição enquanto indivíduo, quando sou uma raiz infernal
Em direcção ao impossível, para sempre, até que a eternidade congele,
Até o universo se cansar de fazer existir e desaparecer e se apague de vez,
Um por um, como as infinitas janelas de um prédio na noite eterna…
Mas se as janelas do prédio são infinitas, nunca se apagarão todas,
Haverá sempre luz e o fim estará sempre à mesma distância
E nunca chegará realmente, mesmo que os meus olhos se fechem,
Haverá sempre alguém que crie um universo, algo, alguém,
Alguém que resolva o problema da quadratura do círculo.
07.03.2011
Turku
João Bosco da Silva

Zen mode on
The shower,
All the elements together,
Touching my naked body,
Water, heated by fire,
Washing the dirt
From flesh,
Breathing flesh
Just feeling,
Just thinking
The water away.
Nothing more than
Warm water
Falling down
My body,
Illuminating
The skin receptors
Until the brain,
Wordless,
Just feeling,
Feeling together
With the universe.
Such a simple way
To be Zen,
Washing your body
And your mind away.
B.

O Prazer Da Dor
Enquanto o saquê se instala e os pés descalços caminham pela neve,
As palavras surgem aos gritos do vazio de onde não havia nada.
A verdade é o frio, a noite que nos rasga com todas as surpresas,
Os sorrisos ébrios e as pernas que se abrem para nos receberem
Num inferno gelado, onde as músicas da nossa felicidade serão
Acompanhantes dos pesadelos mais vazios e dolorosos.
A luz é apenas mais uma testemunha do que jaz apagado
Nos sótãos encerrados por medos e mentiras e todos os actos e escolhas
Não passam de mais umas cordas que nos puxam a vontade,
Os desejos e nos afastam dos sonhos.
Correr nu e quente do corpo acabado de comer, correr juntos
De encontro à escuridão, em busca de nada, só frio e a nudez crua
Da vida depois da ejaculação livre na tatuagem da serpente de cabelos negros,
Longe das rosas, abraçando o verdadeiramente venenoso,
Porque não vale a pena correr riscos pequenos.
Não deixem cair o pouco que dou da louça do meu possível amor,
Não deixem … e já está no chão a ser muito lixo
E é esse lixo que te ama, esse lixo que me faz humano e não me deixa
Cair no cansaço eterno que há tantos anos me tem seduzido
Com a sua pureza redutora, como os passos que marcam a neve
Que irá derreter e dos passos nada.
Não faz mal, já não dói onde os animais não sentem
E os meu filhos serão as minhas palavras desprezadas,
Os meus sonhos incompletos, os meus amores desfeitos
E as mulheres onde entrei e de onde saí mais pequeno, cada vez menos
Até ao infinito, até ao fogo do fim dos tempos pelos meus olhos dentro,
Já que me obrigaram a fugir de tudo o que quis fazer valer a pena
E a vida assim pouco vale.
Tão longe do Nirvana quando não sinto o aroma que me obriga à erecção
E ao estupro contra um muro no meio de uma rua de uma terra qualquer,
Tão longe daquilo que dizem ter sido, tão fundo na caverna
Da minha falsa verdade por esta rua gelada fora, cheio de pouco meu,
Cheio de saquê e de uma solidão a que muitos chamam felicidade.
Turku
05.03.2011
João Bosco da Silva

Emptying cups
While the coffee
Gets cold, the world
Keeps moving
To the end of all,
Rushing to the endless
Moment.
Everybody
Is so sure of tomorrow
That makes me sick.
I´m just sure
This coffee
Will be cold soon
So I drink it
Before that,
Enjoying each single
Drop of it.
I don´t like empty
Cups, especially
When they´re dirty.
The Sun is shinning
Upon everybody
And everybody
Is like running from it,
Getting inside places,
Getting inside darkness,
Dry darkness, cold darkness
Full of tic-tac eyes
Without time to smile.
Ok, the coffee is over,
The cup is empty
And dirty, with this
Sugar memories
On the bottom
That I will have to wash
So I go out,
The Sun can´t wait
But memories are forever.
B.

Erro de Ser
«in the words of Goethe or Blake
Or whichever it was “The pathway to wisdom
Lies through excess”»
Jack Keroauc, in Big Sur
desculpem-me
Agora pergunto-me o que correu mal e tenho medo da resposta que encerro
Nos meus lábios cerrados, nos meus olhos que procuram uma distracção
Na paisagem, nos meus dedos que agarram desesperados uma salvação de carne.
Só não sei o que me salvou, já que eu vazio de sonhos e quando caminhava
Ia distraído olhando os pés, sem interesse pelo horizonte em frente.
Se houve culpa no mundo, foi apenas a culpa do meu mundo,
Do que eu criei, mas muito dele foi criado como um deus cria um mundo: sem consciência.
O que correu mal… perder algures o interesse pelo que fosse, porque tudo parecia
A eterna repetição de algo que perdeu a magia na primeira vez;
Dar-me conta, de que não vale a pena regressar quando quem regressa é um desconhecido;
Deixar de me importar por cada novo dia, sempre o mesmo;
Deixar de acreditar nas ideias vazias que me impuseram e me arrastaram,
Nas emoções, que dissecadas, não passam de fome, sede e cio;
Agarrar-me a momentos com todo o meu tempo possível e ficar de mãos vazias e só na escuridão;
Ter a consciência de tudo ao mesmo tempo, sabendo que não há salvação
E que quanto mais se quer ou mais se ama, maior será a dor, porque tudo é vida e a vida acaba.
Agora pergunto-me, se fechar os olhos depois de ter visto realmente e saltar
Para a perdição inevitável, agarrando tudo o que é possível agarrar na queda, é realmente um erro.
O que correu mal, foi não ter tido medo, nem durante um segundo,
Foi sentir que está tudo feito antes de chegar o fim e perguntar, E Agora.
O erro de ser foi quando cansado perguntei, Para Quê.
Deixei-me cair, gota a gota, desleixado, negligenciando tudo e todos,
Até o charco de sangue repugnar quem se manteve inocente,
Apesar da infelicidade que os anos acumulam no cabelo da gente.
Afastei o meu corpo de alma moribunda para longe do meu cemitério
E agora espero que o fim venha do seu atraso, para pôr um ponto final
A todo este ser sem mais fim.
Turku
01.03.2011
João Bosco da Silva

I wish you turn bad, my good friend
I have very few friends,
Very good people
All of them
And I wish
They´ll keep that way,
Less one.
I hope he´ll
Learn to be
An asshole
Some day near
In the future.
He isn´t getting
Younger and
The world isn´t
Getting better
Or easier
For people too good
Like him.
I wish he´ll snap
And kick all
His sucking parasites
In the balls
Real soon.
It´s his time to bite
The world,
Because I know
That karma
Doesn´t work
On good people.
I wish you turn bad,
My good friend.
B.

Sonhos A Preto E Branco
Que cor levam dentro, estes que passam sem olhar, que dor
Escondem, que desejos os consomem, que fantasmas vivem neles?
Para onde levam os sonhos, se caminham de encontro à realização?
Que cor é a dos seus olhos, que se escondem dos olhares?
Não me dou conta e o sinal está novamente vermelho,
Não me apercebo e já outros ocupam o lugar dos que partiram,
Com outros tons das mesmas cores, longe dentro.
Alguém me sorri, mas não sei para onde me sorri,
Quase adivinhando a vontade de matar um momento
Neste mundo de solidão e medo, na dor consentida de mais uma derrota.
Quantos fartos deles mesmos, esperando a chegada da noite
Para se refugiarem em aromas alheios, em quartos de rumores húmidos,
Em desconhecidos infernos, em torturas familiares e reconfortantes…
Surpreende-me a forma como me diz Olá, a caixa do supermercado,
Conheço-lhe bem a cor, o tom do seu desespero,
Ainda sinto o perfume da mesma cor nos dedos
Que a noite me deixou, mas hoje só lhe posso oferecer indiferença,
Hoje não quero tocar ninguém, só quero olhar e passar
Até chegar a hora de encerrar o dia, fechar a porta e ter sonhos a preto e branco.
Turku
27.02.2011
João Bosco da Silva

The fear
I had a good job,
A decent car,
A place to live,
Money, friends,
A nice girl,
But then I threw it all
Away,
I ran from it,
I got scared.
I saw all my old friends
Getting married,
Having children…
Holy shit,
They are having children!
When did we get so old?
I saw all this sad smiles
While they were pushing
The baby stroller.
I noticed a shy light
When they start to get
Drunk and sincere.
They were tamed
And that scared
The hell out of me.
I ran from it all,
I ran away, I stop caring,
Just walking without a direction,
Just living as I always did,
But the years keep passing by,
I can´t stop getting old at all,
I can´t really run from it…
Can I?
B.