quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Rio Tuela Revisitado

Ao longe através das giestas ouvem-se carros a passar numa estrada para uma aldeia
Quase deserta, os peixes bicam-me os pés, as cobras sem medo aproximam-se
E uma apoia-se-me no hálux, faz-me saltar como se alguém de repente apagasse
As luzes e eu ficasse novamente criança, como quando atravessava o rio nas costas
Dos tios e à noitinha se iam buscar as redes para jantar peixe frito e na rede uma cobra
E bastante água engolida, perdoo-vos tudo, perdoai-me não vos evocar todos os dias,
Torna-se cada vez mais difícil manter o universo todo consciente, quase nem se dá
Pela cobra apoiada no dedo do pé, não fosse um toque mais frio e o salto,
Porquê se inofensiva, a morte em tantos outros lados, será que o meu avô saltava
Ao ver um copo de vinho, não, mas o copo voava e vazio, umas pingas no chão
E envergonhado pelo garoto não saber nadar, agora sei, e quero lá saber das cobras,
Coexistimos com tantas de sangue quente, que se apoiam calorosas sem pingo
De inocência, pode ser que um pouco de curiosidade, a cobra toda ela um risco curioso
Serpenteando a água até ao fundo do rio, escondendo-se do medo de sangue quente,
Subo a fraga do outro lado do rio e seco ao sol, a pele sente-se cada vez mais,
Como conseguiu tão pouca pele esticar tanto, a cona da irene do outro lado
À sombra, a única companhia silenciosa além dos gritos e risos de outros verões
Levados por mil brisas atrás, mil sonhos esquecidos em almofadas alheias,
Sou agora a testemunha do rio que corre, sou um salto de medo, só ele permanecerá.

17.09.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Não Sei Para Quê

avô Jorge,

E agora, agora falamos de ti como se fosses alguém que não pôde vir este ano,
Ou estivesse de férias noutro lado qualquer, custa-me aguentar quem se senta no teu lugar,
Não me importava de estar a noite toda a apertar-te a mão, a eternidade se fosse possível,
Agora és apenas dentro de nós, cada um à sua maneira, nenhuma tu, raios partam a morte,
A lareira e o vinho tinto já meio vinagre sem ti sabem a desespero, a saudade, ao mar que
Atravessaste mas nunca provaste, agora parado, nas fotos, eterno, se o papel o fosse,
Eterno se as memórias em segunda mão levassem alguém ao fim dos tempos,
A cada gole que dou no sofrimento é um segundo em que te recupero, deixei
Crescer a barba e sabes, não é ruiva como a tua da minha idade, os pulsos
Continuam a aguentar mortes e o peso do mundo que carrego, e a vingança é um prato
Que não consigo deixar arrefecer, tenho que lho espetar logo no focinho,
Agora falamos de ti nos lugares comuns, onde faltam árvores, onde se plantaram outras
No que a memória falhou, uns bois de cortiça ali, umas maçãs além, tu em todo lado,
Enquanto houver quem te semeie, não te envergonhes de mim, nem naquilo
Que sou mais forte, sou o mais forte, a aldeia onde vivo é demasiado grande,
Desculpa-me, nunca te quis fazer memória, sei que emigraste para longe e não voltarás,
Acredita que todos os dias também eu me perco um pouco mais para sempre.

12.09.2015

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Choosing The Red (Wine) Pill

Podia estar a escrever uma merda qualquer com a ilusão de salvar o mundo,
Ou ao menos abrir umas pernas, um olho, no melhor dos casos, dois,
Mas para quê, já há barbudos que cheguem neste mundo de covardes do copo,
Eu bebo porque é mais fácil fundir-me com a mobília, porque é mais fácil
Suportar o ruído dos cérebros alheios, numa diarreia convencida do peso da sua inutilidade,
Mais vale ir ver bonecos preguiçosos, ou fingir que percebo certas ironias de outros,
Mais vale não tentar muito e aceitar a almofada como a eternidade possível,
Tentar para quê, se os fígados inchados não percebem a raiva que lhe contamina
E obstrui os ductos biliares, lia Céline, mas o continente está em crise, mais vale poupar
Energia para as desculpas da guerra futura, o resto são ilusões tomadas a sério,
Agora vou poupar os dedos para salvar a humanidade num outro universo com menos dígitos.

10.09.2015

Turku


João Bosco da Silva
Hipercubo

Nos teus lábios todos os verões que não vivi, noutras décadas, noutros lugares,
Em tons pastel com garrafas de água verdes e outras sedes que nunca apaguei,
A tua voz muda nos ouvidos como nos sonhos, o teu cheiro a promessa de uma tempestade,
Eu sei, mesmo que os receptores opioides intocados pela tua pele dourada,
Um dia serão todos e tudo, a mancha de café sobre o poema que te escrevo de todas
As formas possíveis e nunca mancha, como eu todos os outros que se poderiam
Aproximar de ti, viver em ti, desaparecerem por ti, nesses verões que não vivi,
Nessas praias que quase visitei numa escala medida com sonhos e memórias primordiais,
O universo realmente não se joga aos dados, mas ao cara ou coroa, até ao infinito
E o resultado já estava decidido antes da mão, que nunca nos teus lábios quentes,
Da cor do algodão doce que toca na língua húmida de mais olhos que barriga,
Nos teus lábios todos os verões que não vivi, todas as promessas que não quebrei.

09.09.2015

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Foste Agosto

para Rui Pires Cabral,


Foste Agosto, passei os teus Novembros debaixo de uma figueira, não longe da tua aldeia,
Visitei as cidades onde nunca estive, e aquelas em que tu não estiveste, revisitei as outras,
Somos estrangeiros para esta gente, só os canteiros nos vêem além da camada
Do pó estrangeiro, durante o agonizar lento da canícula a tua morada foi refúgio,
Por entre a incessante pestilência dos programas da tarde, foste o reencontro
Com  as fotografias onde reconheço sempre alguém nos teus, foste os morangos
Que não consegui comer naquela manhã de Domingo já depois da procissão da tarde
Na ressaca da romaria, nas tuas páginas reli as cartas que depois de outros verões
Trocava com quem não ficava na vila, cresci de partidas, agora sou eu quem nunca permanece,
Fizeste-me procurar no espelho algo além das marcas que me afastam dos verões
Em que dava tempo ao cabelo de ficar mais claro, ninguém sentiu o cheiro,
Mas deitado na rede, fumei contigo um charro e não senti medo, o coração
Manteve-se ao ritmo do balançar lento, separam-nos umas décadas,
Mas como faziam com a arte sacra, visto os teus poemas com a minha época perdida,
Também já não digo que tenho a vida inteira pela frente, só o horizonte que me viu passar,
A figueira, a tua morada e mais uns quantos poemas que espero que também sejam a morada
Do Agosto de alguém que se encontra cada vez mais fora do lugar, perdido de si para sempre.

25.08.2015

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Enquanto O Sono Não Vem

“de que serve o passado, não temos a certeza se existiu ou nos deram imagens que amontoamos na esperança de conseguir o que se chama vida.”
António Lobo Antunes

Já quase nada me comove, as mortes passam por mim e fica apenas um nome a latejar
E um esforço em focar uma cara, confio que trago comigo o essencial daqueles que são
Em mim e não me desiludirão mais, já quase nada me faz engolir sem excesso de saliva
Na boca, uma criança que chora é apenas um aborrecimento, os anos fazem disto,
O uso e abuso tornam tudo duro, deixam calo, no entanto uma lata onde uma garrafa
De whisky há muito bebida morou, comove, bebi dela às escondidas com o amigo
Dos olhos azuis quando ainda garoto, e dentro daquela lata agora os tesouros da minha avó,
Que apesar de não reconhecer muita gente, me viu por trás da barba e dos cabelos brancos,
E tu como é que andas com essa barba, não acreditando que eu já trinta, naquela lata,
Cheia de amolgadelas e com ferrugem onde lascou a tinta, tudo o que restou de uma vida
Modesta em posses, um crucifixo onde se lê, terra de Fátima, numa capsula pequena,
Um rosário dado pela amiga que não pode ser ela porque velha, um lápis amarelo staedtler
Mal afiado, usado para escrever o nome nos espaços em branco dos jornais da região,
De onde me lê alto o título de notícias antigas, um jornal mais que informação efêmera,
Conserva-os para treinar uma capacidade adquirida com quase oitenta anos,
Na lata ainda, dois carrilhos de linhas, um preto e outro vermelho e uma agulha que se perdeu,
Um molho de medalhas de santos que se tornou demasiado pesada para andar ao peito,
Travessas para o cabelo, algumas sem dentes, um cartão com a imagem da Senhora da Serra
E uma oração por trás com letra miudinha, dois elásticos brancos que servem de ligas
Para as meias de vidro, e a família toda, fotos de gente que ainda não era gente
E da que já não é, todos felizes, onde se esconderá a tristeza e a miséria nas fotos de família,
O meu avô ainda não bêbado, ninguém doente, ninguém morto, a vida ainda não cansada
De ninguém e ninguém cansado da vida, já quase nada me comove, mas depois abre-se
Uma lata contra a dureza dos anos e aquele tão pouco, sendo tudo, mostrando-me
O último esforço da memória em se agarrar aos objectos que restaram, quando a vida
Uma paisagem longínqua por trás das costas, e naquele lápis o mundo todo enquanto o sono não vem.

Turku

20/08/2015


João Bosco da Silva
Princípio De Entropia

“Hoje à noite pertencemos à terra arrefecida
às pedras que não nos mentem”

Rui Pires Cabral

O bairro tem agora dificuldade em nos reconhecer, nasceu tanto vazio naquelas casas que
Se transformam em ruínas e esquecimento, a lareira acabou por ceder ao frio no tempo dele,
Agora só do luar a sua luz possível, também os cães se cansaram de tombar os caixotes do lixo,
As crianças cresceram e deixaram de se ouvir risos no ar quente do crepúsculo de Agosto,
À hora de jantar os talheres não se ouvem mais, enferrujam em gavetas que poderão estar
Para sempre vazias, só à noite, quando saem os escorpiões e os gatos para a expansão
Da sombra, se procura na sinfonia dos insectos um eco de reconhecimento e no céu estrelado
Um reflexo onde no vemos como sempre nos vimos, olhos para fora, se calhar menos
Uma estrela, um avião que nos leva noutro tempo para outro tempo, dizem que é o futuro
Que influência o passado, às vezes parece que é mesmo assim, custa, o bairro vai-se
Esquecendo de nós, os bancos vazios emudecem, nem bom dia, nem boa noite,
E nós também a caminhar, uns passos atrás do bairro, em direção à ruína e cabelos brancos.

Caminha

15/08/2015


João Bosco da Silva
Nós O Mundo Todo

“Já colhemos as amoras todas
no verão desses caminhos”

Rui Pires Cabral

Lembras-te de quando nós o mundo todo, como naquela vez na pastelaria da vila,
Saímos depois de pagar, íamos pelo passeio fora doces no estômago e ainda mais no coração,
Ríamos alto como crianças e os telemóveis em cima da mesa da pastelaria, esquecidos,
Do mundo todo, nós tudo naquela rua vazia, o resto do mundo abandonado na mesa suja
Com açúcar e outros restos de dois corações que se riem da prova inconsciente da
Inutilidade de tudo o que não é amor.

Moledo

12/08/2015


João Bosco da Silva

domingo, 26 de julho de 2015

Arte De Ser Fodido


Já me foderam vezes que cheguem, tu sabes, acreditar na amizade de certa gente,
Acreditar na cona crua cheia de fominha, acreditar nos dentes desconfiados da confiança,
Nos copos cheios dos amigos vazios, nas manhãs de Sol que prometem dias longos,
Nos bagaços antes de dormir com o cheiro nos dedos por lavar, no estômago,
O meu e dos outros, nos olhos e na experiência, que nos diz sempre que não sabemos
Um caralho e é verdade, nem o caralho sabe bem a quantas anda depois de certa andança,
A pele apesar de cada vez mais enrugada, manchada, seca, habituando-se a eternidades
De terra nos olhos, cada vez mais à prova de dedos no cu com sorrisos amarelos nas beiças
E pior, nos olhos, aprende-se a ignorar a íris e a ler a pupila como quem olha a bóia enquanto
Pesca de cana, os olhos já não se enrugam por tudo e por nada, não se rasgam em cegueiras
Sinceras, não, chegaram as madrugadas infelizes a tentar roer raízes nos tascos da terra,
Nunca desças ao nível dos tristes que se alimentam da promessa de um ridículo maior,
Engole, engole, a garganta habitua-se depois de todas as fodas, de todos os ácidos
E venenos que engole, os piores são os dos melhores, mas a pele endurece,
Os anos não se esquecem, os dias prometem cada vez menos, cada vez pior,
Já me foderam vezes que cheguem, contudo, continuo vivo , não me falte saliva para aguentar.

27.07.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Na Sauna

Na sauna um encontra-se com ele mesmo, como numa câmara de energia orgone,
Sente-se a energia universal a subir, a tomar conta do corpo e nada melhor para
O desmame da vida pesada, está-se em comunhão com a própria gaita,
Em mais nenhuma ocasião se está tanto tempo a olhar para ela,
Sente-se orgulho e vergonha dependendo da companhia, sente-se até inveja,
Já esteve em países que nunca visitei, entrou em carne cujas almas nunca conheci
Realmente, nem compreendi, foi mais tantas vezes, fez gemer, fez perder universos,
Ameaçou a criança de uns quantos, há sempre um lugar para todos, e o tamanho
De uns não influência o dos outros, não há que se sentir ameaçado, só o ego
É susceptível a ameaças territoriais, há galhos para todos se o ego não for muito pesado,
Na sauna com William Burroughs com a colher de madeira na mão a contar como o mundo
É mais estranho que qualquer capítulo que lhe saiu dos dedos, as rugas sentem-se
Vir, quantas vezes nos vimos numa vida e quantas fazemos vir, retrai-se o prepúcio
Como na primeira vez, com a mesma inocência curiosa, e os dedos outros viajantes
De almas e carnes, os dedos que provam tudo, sangue que estranhamente espesso
E gorduroso, merda que às vezes granulosa, e se os olhos fechados aqueles lábios
Enormes, impossíveis, um desfolhar infinito em busca do centro de tudo, da resposta
De boca aberta e olhos perdidos, os dedos que entram tanto dentro como fora,
Que abrem sem tocar, que traduzem as loucuras que os olhos só prometem,
Que seguram a colher e atiram água nas pedras rojas, o ar torna-se quase insuportável,
Como quando o orgasmo se aproxima e nos diz, que se foda, vem-te, e sobe,
Respira-se o vapor quente a penetrar até aos alvéolos mais profundos, roça com a alma,
Sente-se no cu ensaboado, um quase desconhecido que se torna tão presente e familiar,
Na sauna aliviamos aquela saudade primordial, reencontramos a nossa primeira companhia
Num útero de madeira, pedras escaldantes, humidade quente e a nossa carne nua.


Turku

24.07.2015


João Bosco da Silva

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Plantação Nocturna

Surge assim com uma vontade

Não sai, que esperas, não fodes, usas os dedos para compensar o tesão que se te afoga
Em sonhos, agora não sai nada, é mau sinal, não para ti, a senhora doutora
Exibindo o diamante do enforcamento recente procura a tua opinião desnecessária,
Há cada vez mais poetas, cada vez mais fome, cada vez mais ateus assumidos nas sombras
Da bebedeira e dos lábios abençoados que se abrem num sorriso perfumado e libertador,
Sei mais eu da Grécia na ponta da língua que o vosso amor de cu apertado,
Não sai, não puxes, nem vás abrir nenhum livro para espremer o abcesso
E chamar o pus teu, também para beber muito é preciso um cérebro cansado do mundo,
Capaz de enfiar a moral no bolso mais sujo das calças e continuar a batida arrítmica
Dos dedos que pulsam poesia, não sai, deixa, há quem salpique o desconhecido
Com futuros impossíveis, não sai, vai dormir, pousa o copo, não te trará nada,
Deixa de cheirar os dedos à procura de velhas glórias, és apenas do tamanho
Das pupilas que te engolem por favor, não sai, melhor, já há muita noite semeada.

diarreica, o poema de merda.

24.07.2015

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 14 de julho de 2015

Limpar As Unhas Recém Cortadas

Enquanto limpo as unhas recém cortadas encontro o sangue seco dos dias que se me
Tornaram alheios, vejo quem beba o mijo julgando que ouro nos olhos, nádegas
Beijadas à procura do favor de um cu demasiado umbigo, tenho gente nas unhas,
Não há sabão que cure tanto génio, não há espaço suficiente para os sonhos,
Já pouco cabe na possibilidade, dá-se um pouco de ar aos pulmões por caridade,
O resto é olhar fotografias com outra cor e o mesmo olhar, mas com vida,
O que resta é o que certas músicas enterradas despertam na língua e nos cílios
Que nos envergonham as narinas, dizem que o nariz e as orelhas não param de crescer,
Digo que é o que nos afasta de nós mesmos, como a mandíbula alargando o ângulo,
As manhãs frias no recreio ao sol, um ângulo quase impossível, o beijo atrás do carro
Do padeiro, um ângulo impossível, a felicidade, impossível, de vez em quando,
Lá se encontra um sorriso limpo de cores quando se limpa uma unha suja de terra,
Mas os dias são o pó que nos torna a carne bíblica, somos a desilusão dos deuses
Que inventamos, demasiado fracos, demasiado pobres, demasiado mortais,
Com a vontade para o futuro roído pela fome que nos é sempre presente,
Enquanto limpo as unhas, olho-me ao espelho, vejo-nos, cansados, batidos por tudo,
Por todos, todos tão bons e premiados, com amigos de mãos cheias e olhos
Bem abertos, quanto existimos, quanto somos, sangue seco nas unhas desiludidas
E cortadas à noite na esperança de uns espigões que façam sangrar um pouco
O tédio dos dias limpos, das palavras demasiadas, desenterrando o cadáver
Da inocência aos bocados, apodrecido como as línguas que me passaram nos tomates
Um dia, o sangue seco das unhas, vai-se pelo ralo abaixo, de nós pouco fica.

14.04.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Acto De Contrição

As latências do passado regressam de madrugada para manifestarem universos paralelos
E outros, e ses, o saco mais cheio, as mãos mais vazias, porque o vazio das mãos mede-se
Pelo que passou por elas, há quem se enforque de mãos cheias em romances de província,
Vale também a pena o que não foi, à medida que os anos passam é cada vez mais
O que se deixa passar e ao contrário de nos tornarmos o que nos toca, somos o
Vácuo da nossa cobardia, o passado envelhecido, coberto por anos a esticar números,
Com a felicidade mais recente e desta também para sempre , a ressonar ao lado,
Com a cabeça de vinho branco num Verão que se arrasta entre promessas e adiamentos,
A arte de se tornar um cadáver ressentido está no cansaço das mãos, na aversão
Às taquicardias consentidas, perde-se um universo a cada decisão que não se sente tomar,
O passado quer ensinar um fóssil inocente que habita uma gaveta qualquer no sótão
Da alma, quer ensinar-lhe o afogamento da carne em vontades e submissões ilícitas,
Quer ensinar como a felicidade é fazer malabarismo com o coração à beira de abismos,
Mas o anjo do apocalipse olhou demasiadas vezes para trás, tornou-se pedra de sal,
Faltaram-lhe muitas vezes lágrimas e a força para despedidas, deixou-se ir e vir
Demasiadas vezes como se uma vingança passiva e mal dirigida, agora dorme como
Quem foge, as ruas tornaram-se em pastelarias quando os bolsos vazios e os olhos
Uma fome maior que o estômago pode imaginar, ao lado a sua felicidade dorme
E ressona sossegada, ignorando o que à almofada se acrescenta por omissão.

10.07.2015

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 30 de junho de 2015

Fim De Festa

Enquanto Junho se embrulha nos jornais manchados pela gordura das festas populares,
Com estas mãos manchadas de saudades e um gosto de nostalgia na ponta da língua,
Ataco as páginas em branco com uma força que não encontro para atacar a vida,
Sento-me e espero por algum cheiro familiar, erva cortada ao Sol, um perfume confuso
Nos dedos, o ritmo dos passos no passeio, alguém que espera alguém com calças brancas
E as palmas das mãos inquietas, um número que me levante, algo que chegue por mim
E para mim, a mim que nada chega, tudo passa e na espera tudo o que temos fica,
Entre a vontade e o acto nascem e morrem eternidades, não valeria a pena outra vida,
Não consegui perceber como isto funciona, vejo nos rostos que passam que também
Não sabem para onde vão, nadas com as mãos cheias de momentos sem saberem
O que fazer com eles, e tanta carne, tanta fome na carne, tanta sede, tanto sono
E tanto sonho em tão pouca vida, as gaivotas parecem mais certas do que andam aqui
A fazer, em voos rasantes a roubarem do chão mais uns dias de ar, Junho embrulha-se
Num texto esmagado numa língua estranha e só a gordura familiar, a ausência conhecida,
Tudo se leva nos passos seguros para mais um dia incerto, até ao fim da festa.

30.06.2015

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Noutro Comboio

Cá estamos nós outra vez, no tal comboio, que tantas vezes se perdeu,
Fecharam várias estações, agora, como alguns fazem com as memórias
E os velhos amigos, nostalgia engolida pela ruína e pelo monte, inúteis,
A ingratidão pelo que já não se precisa, passou, engoliu, limpou-se,
A estação é outra, a terra ainda espera o teu nome na pedra
E devo dizer que tenho vergonha do meu egoísmo inocente, mas lá está,
Apesar de tudo, sou do país dos vampiros azeiteiros, dos doutores mamões,
Dos umbigos imensos, supermassivos, a cerveja baixa como sempre,
A cada gole sake à sombra de uma cerejeira, na língua algo como aquela vez
Em que ela me disse à beira da estrada na serra, já não aguento com a segunda,
E eu a sentir aqueles anéis apertados, cada vez mais longe, o preço ignora-se,
Esconde-se o recibo da morte, a vida é melhor pagá-la de uma vez,
Pode não se viver para a pagar toda e a eternidade é muito tempo para
Passar vergonha de caloteiro, mesmo que se viva às prestações,
Fica tudo ruínas e curva apertada, espalhado por fragas e oliveiras,
Será que me perdoas o cansaço, juro que tentei levar a vida na linha,
Mas aborrece-me passar o dia a olhar o mundo que passa pela janela,
Ela agora deve dizer ao segundo marido que hoje foi um dia difícil na loja
E que não pode com a cabeça, imagino os anéis e os dedos, o meu
Cheio de mim e dela a brilhar ao luar, a pingar numa dúvida de aquilo ainda nós,
Eu a preocupar-me com os estofos do carro, agora tudo tão longe neste comboio
E tu ainda anónimo para quem te conheceu, ainda verde no monte das minhas saudades.

Inkoo

23.06.2015


João Bosco da Silva

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Da Nossa Morte Nos Outros

Ainda me fala de boca cheia, a pedir futuro, agora, quando me diz olá e me pergunta
Como estou depois de tantos anos, apetece-me dizer-lhe que estou igual apesar
Do cansaço e que não lhe invejo nada que não seja meu, tento lembrar-me do sabor
Que tinha nos lábios, sei que não era a tabaco, não me lembro do que a língua me disse,
O beijo de manhã a sono, alguns sentem-se como um sonho muito quente que seca antes
De se acordar, ainda te lembras, pergunto-lhe na pausa de um silêncio, com os dedos
Pendentes e nos dentes os seu pescoço branco em forma de memória, não me esqueci,
Só tudo confuso, espalhado pelos anos onde não pertence, eu a fingir que também,
Apesar dos números, uma festa, aquela vez, a última vez esta e aquela, se calhar nem Lua,
Ou nuvens em vez de estrelas, mas o teu cabelo a enrolar-se na língua que procurava
Apagar-se no fogo da outra, quando te despedes, sei que fica por dizer que nunca acabaria
A fome entre nós e que estava tudo condenado à distância e à saudade envergonhada
Pela luz da idade agora, sempre estivemos bem um para o outro no excesso em doses
Moderadas, sem intimidades caseiras, só fogo e carne, onde calhava, porque o mundo
Só nós quando nós, não faz mal que te esqueças um bocadinho, sabes que a carne se lembra.

Lahti

23.06.2015


João Bosco da Silva
(A)Parições

“a quantidade de criaturas que a nossa destruição vai destruindo uma a uma”
António Lobo Antunes

Nascemos em tantos lugares, de tantas formas, para morrer apenas uma definitiva vez,
Num último lugar, nascemos num primeiro beijo, de um olhar espelhado,
Nascemos quando entramos pela primeira vez no desejo de alguém, nascemos na mão
Que aperta a nossa pela primeira vez, nascemos num mergulho no espelho,
Num garfo cheio e estranho que nos explode na língua, nascemos nas asas de uma gaivota
De água doce que nos persegue até de madrugada numa noite branca, nascemos na timidez
Que se ultrapassa num salto e numa gargalhada quase louca, nascemos na queda da pele
Queimada por um Sol equatorial ou nas gotas inesperadas do suor Árctico de uma pele dourada,
Nascemos no gole lento e na sua descida apressada, no calor que se dissipa em nós,
Nascemos no céu de Verão à noite, entre as estrelas no espaço vazio entre a ilusão e o sonho,
Nascemos a cada momento que esquecemos, a cada palavra que nos salva e poderá ser
Sempre a última, este é o útero que nos gera, onde fermentamos, amadurecemos
E amargámos, é o teu berço e todas as faces são a tua, todas as camas a tua,
Todas as portas são apenas um nome, outro nome e outra história, o mesmo fim.

Savonlinna

22.06.2015


João Bosco da Silva

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Solstício

Não vale a pena, para quê, já está tudo cheio de donos do direito, tudo ocupado por vazios
Diluídos, um volume imenso de nada, o Sol falhará sempre os dias cinzentos e o Inverno
Regressará para engolir as folhas das videiras, até o vinho ficará azedo como o amor
Que não se bebeu todo quando havia sede naquelas noites quentes, agora pousa a caneta,
Mete as mãos nos bolsos, esconde o ridículo, aperta as calças, deixa o interior da solidão
Em paz, olha para outro lado, deixa as pupilas dos outros sossegadas, as suas dilatações
Não merecem os silêncios  que lhes semeias nos lábios, tira os óculos ou arranja uns se não
Precisares, não vale a pena, para quê, vais dizer o que foi dito ou o que se sabe
E só espera um meio de se transmitir de uma forma menos universal, sacudir o pó
Ou pintar por cima do óbvio, deixa mas é as folhas caírem, deita-te na erva, fecha os olhos
E não vejas além do verde, não vale a pena, não te dês nem te vendas, muito menos
Te imponhas, deixa o esquecimento levar todos os sonhos e dores, lavar a poluição
Em que te tornaste, no fim uma pedra com um nome gasto de uma vida apagada
Antes do seu fim, não vale a pena, apaga a luz e espera pelo fim da noite.

19.06.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Pastilhas Elásticas E Latas De Açúcar

“Poetry a fornication against fate.”
Lawrence Ferlinghetti

Quando as pastilhas elásticas perdiam o sabor, já éramos grandes e não as engolíamos,
Estávamos sós em casa da avó, íamos à lata do açúcar e tentávamos trazer o sabor de volta
Às pastilhas, um pecado de certeza, ressuscitar os mortos, e os cristais de açúcar
Quebravam-se nos dentes de leite, como será possível restituir a doçura, o sabor a uma
Pastilha usada, aquilo só sabia a açúcar e parecia areia numa bola de algodão humedecida,
Nada mais a não ser aquele sabor a pouco do que já acabou quando se estava a gostar,
O açúcar resultava melhor na cerveja, mas fazia muita espuma e o copo era pequeno
Para tanta festa, como fazer agora que é tão difícil estar só, agora que a lata do açúcar da avó
Está tão longe, agora que se continua a mastigar a vida com a mesma vontade com que se
Chupa o caroço de uma cereja e não tem onde se cuspir, o que fazer agora que a cerveja
Já não precisa de açúcar e é das poucas coisas que, quanto muito, adoça um pouco mais
Isto tudo, ou torna ao menos tudo menos amargo, já na altura se sabia que nada trazia
De volta aquele sabor original da pastilha elástica, mais valia tirá-la da boca e esperar que um
Tio nos comprasse outra, parar os queixos um pouco e colá-la debaixo da mesa, ou na sola
De um sapato que descolou no dia da festa ou na boca daquela vizinha de França,
O que está perdido está perdido, não vale a pena mastigar o vazio que ficou.

Turku

12.06.2015


João Bosco da Silva

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Sinos, Tascos E O Que Passa

“You are fucked up, fucked up
This is fucked up, fucked up
Be your black swan, black swan
I´m for spare parts, broken up”
Thom Yorke

Estranhamente, quem deixou a marca, foram os paralelos em mim, descendo o caminho
Da igreja, em direcção ao esquecimento, até de manhã alguém me pedir, pedir,
Para descer e ir almoçar, na televisão nada, nem o Garfield enquanto os que comiam
Na escola jogavam ao sete e meio ou à bola, por isso a minha personalidade
Se tornou mais parecida à de um gato cor de laranja em vez de um típico amante da bola,
O sino, já são as seis e tu agora a multiplicar paralelos a caminho das mantas e da humidade,
Dos fungos nas bandas desenhadas, dos livros lidos uma e outra vez na esperança de uma
Iluminação depois de se apagar a luz inventada pelo homem, vai tudo com o caralho,
Eis o além, já nem na tasca me suportam, tenho coleccionado demasiadas garrafas
Vazias, mas mesmo assim, não compensa a sombra escura da minha alma nos bebedores
De vinho encornados com os bolsos leves pelas putas, pego no carro e atiro-me contra
O último lugar onde fui puro, e mesmo ali, onde foi lido aquele poema número dez,
Aquele que me fez poeta, bêbado, com uma grade de cervejas para acabar,
Despi as calças enquanto a professora trancava a porta, e entre a apneia
De língua em lábios e eu algures na fome, batendo à porta alternando ângulos,
Lá me vim na pureza, na geada que caia lá fora, assinando o regresso à perdição
Sem retorno, hoje restam-me as cerejas, em cima das cerejeiras herdadas pela
Gula aldeã que separa os irmãos, hoje resta-me, nada,  que se foda,
Apesar de ter mergulhado em merda, tenho as mãos vazias, venha ela, o sino tocará sempre.

28.05.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Ensaio Sobre O Ridículo De Durar

Que vais fazer agora que todas dormem nos braços de alguém com alguém novo nos braços,
Se és do tamanho de tudo o que perdeste, és enorme, agora numa mão, seguras apenas
O esquecimento, na outra tudo o que poderias ter conquistado, rei do agora e já,
De ti mesmo, só, cansado, cheio do vazio dos outros, lutando contra as memórias que se vão,
Incapaz de impedir o amarelecimento dos dentes e o empalidecer do cabelo, aprisionado
Entre folhas de papel e tinta preta o pouco que te ficou de quem fez de ti quem és e mais
Do que isso, o que és, agora aperta com força o esquecimento antes que arrefeça, o vazio,
Pode ser que consigas sangrar na lembrança de alguém, pode ser que ressuscites nos sonhos
De alguém, ou à beira do rio num dia de aniversário, ou num grão de areia num lábio irritado,
Ou numa almofada numa manhã de Natal quente, quanto muito no sabor de uma tosta-mista
Com os vidros do carro embaciados, que vais fazer agora que todos os sonhos cresceram
E se tornaram ou ridículos ou impossíveis, agora que engoles o esquecimento e naufragas.

Turku
20.05.2015

João Bosco da Silva

quarta-feira, 20 de maio de 2015

No Tempo Das Cerejas Quando Chove

O cheiro da serradura, da erva cortada ao Sol, uma folha a passar no rio,
O Verão de Vivaldi, o sabor daquelas primeiras cervejas num dia de sede e cansaço,
Tudo o que nos faz fechar os olhos e nos arranca do agora por um segundo que seja,
E nos leva de volta à inocência, à leveza, a uma tenda atravessada no caminho dos
Sapos pequenos, aos sonhos antes de se apagarem, antes das velas pelos avôs,
Ao tempo dos olhos da avó nas paredes, como os de deus que seguem nos quadros
De Jesus com o peito aberto e um coração no esterno, e as primas um enigma
Irresistível, assim como as cerejas um baú de pirata em cima de uma árvore
Altíssima, as vacas um exemplo de paciência e estupidez, o sabor doce do feno mastigado
Numa torre de fardos num palheiro, nas mãos o cheiro a masturbação seca,
O cheiro a monte no cabelo, o cheiro a monte na pele, o cheiro das saudades a monte,
Inspirar fundo a terra quente quando as primeiras gotas se apagam no primeiro alcatrão
Da aldeia, no último dia de aulas, o relógio lento na lareira em casa da tia, enquanto
O primo acabava o pão com manteiga, os dedos besuntados, e agora os olhos azuis
Da nova geração, o meu corpo de dezasseis anos na fita magnética das câmaras
Dos tios de França, antes de provar pela primeira vez cona e Hemingway,
Deus levado pela corrente, como a inocência, como o exemplo das vacas que pastam,
O sabor do vinho quando o avô dorme, o sabor da aguardente quando o alambique
Foi vendido, o sabor dos salpicões quando se deixou de poder criar porcos, os foguetes
Da festa quando o bidão a fazer de casota de cão vazio, as revistas do homem-aranha
Em vez de gelados com o dinheiro para a festa, a manhã depois da festa no tasco
Ao lado do quiosque das bandas desenhadas e dos gelados que ficaram,
Com os dedos segurando uma chávena de café cheia de aguardente e a lubrificação
De quem dorme comigo dentro, os estrelas e os satélites nas noites que encolhiam
Tudo o resto, os livros que ficaram na lista e aqueles que se intrometeram,
Os que se engoliram só para perspectivar, as batatas que se apanharam da terra fria,
Se comeram, os dedos que se tiraram da carne quente e se chuparam,
Os sonhos que morreram e assombram os sonhos do sono, com beijos no pescoço
E unhas nas costas, e seixos e rãs e medos que se ultrapassaram quando acordado,
O Inverno de Vivaldi, a dor de frio na ponta do nariz, o cheiro da cera das velas no cemitério,
A cebola que fica no prato, o sabor metálico do peixe do rio vivo, quase como do sangue
Das feridas nos joelhos das quedas de bicicleta, o quartzo e a mica dos paralelos de granito,
Tudo o que nos faz fechar os olhos e nos arranca do agora por uma eternidade que seja,
Aprender a ser areia numa ampulheta e esperar que cada grão valha sempre a pena.

20.05.2015

Turku


João Bosco da Silva