segunda-feira, 21 de março de 2011



Christmas Eve


I came from work

I cooked the codfish

Two different ways,

I had refused two

Invitations

For that night

(I´m too dangerous

When I feel

Lonely)

And I was all by myself.


I ate the codfish,

I drunk wine,

A bottle

Of champagne

With chocolates,

While I listened

Christmas songs.

At 9 p.m.

I was drunk,

Numbed and strangely

Not sad,

Even thou it was

Christmas Eve

And I was about

5000 km from my family,

All alone.

I felt somehow

Light and far.


Next day I had

To wake up at 4 a.m.

Because I was needed

At work earlier:

It was Christmas.



At least, something

Was new

In that same old night.



B.

domingo, 20 de março de 2011



Sábado à Noite


Depois de quatro já se pode mergulhar nos corpos confusos da noite,

Já se podem plantar sorrisos, colher um próprio se a vida o permitir

Nascer com sinceridade, tentar lembrar o nome de quem se senta ao lado

No comboio pela escuridão fora, em direcção à definitiva,

Ver árvores embriagadas, escondidas de desconhecidas dores solitárias,

Desejar mais tempo até recomeçar num mundo novo, noutra manhã.

O sentido perde-se, o sentido que nunca existiu, ilusão de frágil linha

Presa à luz do dia e das responsabilidades que não se pediram,

Sempre em frente, acompanhados por quem estiver, livre dos que desejam

A morte dos outros dentro deles, leves como quem ama tudo, sem exclusividades,

Sem preferências já que a vida é tudo o que nos é possível sentir.

A fome tem tempo, a sede não pode esperar, as pernas um dia fecham-se,

Os olhos precisam de dedos para as pálpebras os empurrarem para a eternidade

E é tão mais fácil ter nada do que ter um pouco, tão mais fácil o infinito que algo,

Não depois das quatro pelas ruas de uma cidade possuída por pobres diabos,

Com uma dor no estômago parecida à solidão, um desejo que é mais forte

E o sono não parece chegar antes de se fazer alguém enrugar o queixo

E apertar os olhos com força com o lençol nos punhos fechados.

Os vampiros não deixam os esquecidos pela luz abandonados

Num sábado à noite e acolhem a fome com a sua sede, mãos frias,

A promessa de uma morte pequena, uma pausa na vida, um momento na eternidade.



20.03.2011



Turku



João Bosco da Silva

sábado, 19 de março de 2011



Neurofisiologia De Um Poema


“everyday is in eternity”

Allen Ginsberg


Deixar cair, gota a gota negra, a mancha tomará forma,

Alguém a irá ler da maneira que a irá ler, cada um com o seu egoísmo,

Cada um com a sua área de Wernicke a dar corpo visível de olhos fechados,

Pequenas luzes, “small-bangs” do nada que são as palavras,

Quentes e metálicas, solitárias, nunca compreendidas realmente

E por isso umas putas, miserável cão vadio, lixo, lábios rasgados

Num apressado roubo para o vazio de menos um segundo que não se levará.

Deixar cair, deixar correr, sem medo, sem grandes dedos apertados,

Sem grandes olhos no horizonte, tão longe quanto impossível,

Corvos que entram pelas janelas fechadas e se fazem coloridos,

Pintam, água fresca na pele ondulada debaixo da dura mater,

Como se fosse possível tocar-se alguém de verdade,

Como se tudo não passasse de uma masturbação assistida,

Ao lado, enquanto os olhos se fecham e nem se vê o som da boca

Que auxilia, tudo parte de dentro para dentro e há quem diga,

Sou um pedaço de merda, mas eu quero três mais três mais três,

E isto faz sentido num mundo que ninguém saberá ler,

Não como os que iludem com a aparente semelhança, linguagem universal,

Só aquela que ensinam os sonhos, vestido azul-turquesa e o cabelo loiro

Da pele artificialmente morena pelo Sol deslocado da Tailândia,

Com fome límbica e um salto para outro estado de consciência

Quando o cabelo ruivo incomoda na almofada,

Alguém puxa o autoclismo e esquecem-se os desejos do momento.

Deixar cair, oxitocina e nada mais que um excesso dela ou sensibilidade

E no fundo tudo o que se quer evitar é o que mais atrai, cérebros primitivos

Engolem tudo numa simplicidade objectiva, estar dentro, ser penetrada,

Expelir, comer, dormir, palavras e mais palavras e quem quiser,

Quem conseguir, quem acreditar que as torne em deus, amor e espírito,

Verdade de sumo quente a explodir dentro como se fosse uma vida nova,

Uma estrela que morre, um buraco negro que atalha até ao outro lado,

Enquanto tudo um instrumento musical num quarto vazio, onde dizem

Que dorme deus ou uma consciência de arquitecto, como se tudo

Não fosse apenas um acaso possível dentro do infinito de possibilidades

Até se deixar de ver a linha como um ponto um ponto um ponto,

Deixar correr, livremente, sangue de outra cor, a cor que se quiser,

Quem quiser querer seja o que for, até chegar a hora que é sempre a mesma

E só a consciência do relógio viscoso torna o tempo possível

Em direcção, em direcção e isso é tudo.



19.03.2011



Turku



João Bosco da Silva

sexta-feira, 18 de março de 2011



American woman


I knew she wanted me

To hurt her old buddy,

They always want

Me for another reason

Than myself,

But I don´t care,

As long as I do them.


He had this party

At his flat

And it went out

Of vodka,

She wanted it

And we were already

Wasted with

Laughs, alcohol,

Kisses from random people,

Excited,

She was really horny,

I could tell by her

Huge pupils in

Those purple blue

Eyes.


I said I had vodka

At my flat,

So we went there

For it.

No vodka,

I forgot I had drunk it

Some other night,

With some other girl,

I had only port wine.

She tried it,

First time

And she liked it

(It doesn´t happen

All the first times).

Soon the bottle

Was empty

And the kitchen

Was warm,

Then

We started kissing

With fury, almost biting,

Fleshy hot lips,

Nham nham.

You´re a whore,

She told me

And grabbed me

Like a horny cat,

I pushed her

With my body

Against he wall:

Sparks from

Her face

Around the kitchen floor,

Big tits, huge beautiful

Tits on my mouth,

Hands full of her juice

That I had to taste,

Bold like baby´s skin…

Jesus,

It was my first American!


It was her goodbye party.

Next day

She was gone,

I would never see her

And I´ll never forget her,

Even that I was

Just a whore for her.



B.


Haikus à Portuguesa


Seis euros e vinte cêntimos,

Diz o caixa do supermercado:

É contabilista.


Trinta e dois anos à mesa,

A mãe parece a avô

Quando era pequeno.


Uma aliança de ouro

Tudo continua igual.

Quanto tempo?


Um diploma na mão

De quem deixou de saber

O que fazer.


Um cigarro apagado no

Cinzeiro do café:

E agora?


Os segundos passam e

O que trazem não

É o esperado.


Mais um dia que passa.

Não foi desta, mas amanhã

É que vai ser.


Conta da farmácia paga.

Mais uns dias de vida

Com fome.


O viaduto é uma casa grande,

Para quem não tem uma

Casa pequena.


Onde estão os seus filhos,

Alguém pergunta.

“No estrangeiro.”


“Temos” que fazer sacrifícios,

E mais uma mentira é dita

Sem custos.


As andorinhas regressam

Sempre, seja quem for

O presidente.




17/18.03.2011



Turku



João Bosco da Silva



Mãe


Ela não foi feita à medida deste tempo e o seu olhar nunca perdeu

A fragilidade infantil da inocência do século passado.

Não consigo imaginar o esforço de cada passo dado, muitas vezes

Comigo às costas e eu a pensar que caminhava sozinho.

Como eu gostava que as suas verdades fossem as minhas

E as suas certezas fossem ainda respostas suficientes ao meu negro

Ponto de interrogação sobre o papel branco que me deu e fui sujando com o tempo.

Se me lembrasse, sei que as maiores saudades seriam do tempo em que éramos um,

Do tempo em que a sua temperatura me abraçava constantemente

E o seu coração me embalava a vida, antes dos olhos abertos,

Da luz, do vento e do desejo de regressar.

Nunca lhe perguntei que sonhos lhe comi para estar aqui,

Nunca lhe pedi desculpa por ter encontrado uma voz própria,

Afiada, metálica, longe da que ela me queria oferecer.

Tenho medo por ela, neste mundo que ainda vê com os mesmos olhos

Que um dia foram também os meus.



Turku



08.03.2011



João Bosco da Silva



Na Biblioteca



“After all I am alive only by accident”


Sylvia Plath


Ele come enquanto lê o jornal de hoje, com o cantil (de água?) sobre a mesa,

Sacos de plástico debaixo, entre livros de poesia na biblioteca de Turku.

Um piano algures enquanto tento ler mais um poema para fora.

Não tem cabelo e a barba tem muitos dias. O jornal é russo e não consigo engolir

Os versos com o barulho das grandes páginas de jornal a passar nos dedos

Com cheiro a comida. De que tamanho será a sua solidão?

Terá uma casa quente à espera, um sorriso, um abraço, uma cadeira e uma mesa?

A mão regressa ao saco da comida e eu como mais um verso, incrédulo.

Às vezes não sei como é possível um poema com o vento gelado do Báltico lá fora,

Além das paredes da biblioteca de Turku.



Turku



18.03.2011



João Bosco da Silva



Dog´s world


Free dogs at night,

Barking at late drunks,

Barking at

Their own echoes

In the empty

Streets.

Their masters

Aren´t at home,

Not both,

Not all,

The doors are

Closed,

Kids are trying

To get killed

Or getting pregnant.

Only dogs

Seem real

Searching for a last

(Lost)

Remain of humanity

In garbage canes.



B.



Art student who loved vespas


There we were

Near the big lake

While something

Like flashing fishes

Amazed the night.

It was a cold

Night in the

Beginning of spring

And she was

Natural blonde

And orthodox.

Water always

Made my dates

Memorable but

I just couldn´t

Stop thinking

About her juicy

Sweet

Eighteen years old

Pussy.



B.



Turkish lips


Her mouth was

The best cigarette

I ever had,

Lusty wet,

Warm, smooth,

With her excited

Eyes eating me.

I felt burned

In danger

And that

Turned me on

Like I was about

To nail Death

In her perfect

Pale ass.



B.

quarta-feira, 16 de março de 2011



XXIX


Há dias que trazem dor de cabeça

Quando se aproximam do fim,

Por se ter visto demasiado,

Mas também trazem o silêncio da noite

E o repouso numa cama quente

Para descansar os olhos do mundo.

Tenho pena daqueles

Que não querem ver,

Porque têm medo da dor de cabeça

(Não se devem lembrar que há noite).



16.03.2011



Turku



(António Montes)


João Bosco da Silva



XXVIII


É tão natural perder como ganhar,

No fim, não haverá mãos vazias,

Nem mãos cheias: não haverá mãos.


A vida ganha-se e no fim perde-se.


Entre o nascimento e a morte,

Tudo foi teu, tudo passou por ti,

Mas nada é eterno nas mãos finitas,

Nada é invencível na luta contra o tempo.


Tudo passa e a vida

É a consciência da passagem.



16.03.2011



Turku



(António Montes)


João Bosco da Silva

terça-feira, 15 de março de 2011



XXVII



Hoje, na taberna da aldeia,

Voltei a ouvir a mesma conversa

De gente com desejos, que continua

A não fazer qualquer sentido.


Falam de querer isto e aquilo,

Que não têm, nem conhecem,

Mas desejam.


Falam de estarem fartos disto e daquilo

Que têm, com eles ou em casa,

Que conhecem, que vive com eles

E já faz parte do que são

(Devem estar fartos deles próprios).


Desejam o vazio, o inexistente,

O chão antes do passo dado

(Que poderá nunca lá estar)

E queixam-se do que têm: da vida.


O mal deles é ter mãos

Demasiado cheias e pouco sensíveis.

Faz-lhes falta uma miopia geral nos sentidos

Ou alguém que lhes dê um empurrão

E lhe deite tudo das mãos no chão

(Assim poderão ver o que têm, tinham e perderam).



16.03.2011



Turku



(António Montes)


João Bosco da Silva



XXVI


Quando estiveres cansado do calor,

Do vermelho dos olhos fechados,

Do corpo suado e do ar parado

Do meio da tarde, não desesperes.


Quando o horizonte parecer

Não conseguir encontrar nitidez

E a cabeça estiver para desistir

Do sol violento, não desesperes.


As primeiras chuvas não demoram

E quando as primeiras gotas começarem a cair,

Não virão sozinhas e trarão frescura,

Farão regressar o verde,

Darão vida ao ar,

Esculpirão novos horizontes

E tu irás esquecer-te do desespero

Que quase te enlouqueceu

E com algum tempo

Voltarás a desejar tudo

O que a chuva levou.



Turku



15.03.2011


(António Montes)

João Bosco da Silva

sábado, 12 de março de 2011


I must be a monster


I turn on the TV

And I see all my problems

In a different perspective,

All my worries sweep away,

I feel like stunned with apathy

While houses, cars,

Trains, trees, animals,

People,

Like toys in

A puddle of mud,

So surreal.

It´s hard to believe,

It´s hard to feel the size

Of it, when

People are used

To make a big drama

About a look,

A touch, about life´s

Simple things.

I must be a monster,

Because my heart

Is more easily touched

With a slap in the face

Than with the sight

Of the end of the world.



B.



quarta-feira, 9 de março de 2011



Poema de Embalar


Perceberás que nada do que sentes interessa porque nem o verão

Te acompanhará nesses dias vermelhos de noites púrpura

E tudo o resto serão imagens e palavras que deixaram de significar

O valor que tiveram.

Desiste e não queiras tornar sólido o que te corre pelo corpo

E mal te toca, com sorte os lábios ou a marca de uns dentes agora desconhecidos,

Um leve sabor metálico a cru com o suor de uma excitação aquecida

Pela madeira das noites frias de Novembro.

Tudo o que te pareceu ou parecer luz, irá consumir o combustível

E só tens que agradecer à escuridão por te ter permitido ver

E gravar esse aparente erro que nunca poderias ter feito de outra forma.

Nada apagará o passado, já que o passado nunca foi escrito

E é tinta nas tuas veias, é o teu corpo quente há um instante,

Os sonhos que trouxeste dos tempos em que tudo parecia simples

E era fascinante cada segundo mais de vida,

Livre das limitações dos objectivos e dos desejos que tomaste

Como prioridades, agora que és os anos que tens e não os olhos

Que abres para dentro quando há paredes e nada mais interessa

Além de ser e deixar correr livremente o líquido que não pertence a ninguém

E é um prazer sem orgasmos e ilusões.

Desiste e deixa-te viver sem pressas por comboios que já partiram,

Entra nas portas abertas sem medo de alguém lá dentro,

Estarás sempre só se tiveres medo e a morte que tanto temes

Não passa de uma solidão irreversível, uma única porta de sentido único

Para um quarto vazio e silencioso.

Deixa-te abraçar pela dor da ausência e sente o calor do que nunca morrerá em ti,

Sente-me nos teus seios que o tempo desiludirá e não te preocupes

Com a confusão do teu cabelo na luz dos meus dedos para sempre perdidos

No futuro impossível de eternidade.

Já deves ter percebido que a vida é uma paixão demasiado breve

Para se levar tão a sério, mas é o que tu és e não há nada mais importante

Neste universo que lê estas palavras, já que os lábios nunca serão suficientes

Para nós, nem uns ponteiros de relógio parados e esquecidos numa casa abandonada,

Nem um adeus nunca dito e mastigado na inevitabilidade da partida,

Na partida constante que é viver, porque nunca se chegará a lado nenhum

E só existe na realidade a partida.

Percebes agora que nunca chegaste a sentir e só ficou nos teus olhos,

Alguém que se afasta, de costas, em direcção a mais um vazio que nunca será completo,

Mesmo que os pratos cheios para uma fome invencível,

Mesmo que uma cama fechada de madeira de pinho depois de todas as dores abandonarem

O cozinheiro de sonhos.

Acredita que quando os rios se cansarem e as mãos secas e velhas se recusarem à esperança da tua pele,

O meu nome será apenas o que serei em poucos momentos de amargura,

Mas não tenhas medo, até eu fui vida

Em ti.



Turku



09.03.2011



João Bosco da Silva

terça-feira, 8 de março de 2011



A transcendência de π


Um mundo que morre é sempre um nascimento de um novo,

Doloroso, silencioso, já que o universo não suporta o vazio

E afinal sou todas as cartas de um baralho infinito com consciência

De um número, único e repetível pelas possibilidades quânticas.

Posso ser já um pedaço de matéria orgânica, pronto a ceder os meus

Átomos de carbono a outra forma qualquer de vida,

Posso nunca ter tido oportunidade de mostrar a cara, posso

Estar errado e certo e ambas as coisas até alguém provar o contrário

Ou estar de acordo com o facto de não existirem paradoxos.

Um mundo extingue-se, ou apenas muda de nome, acaba

Ou renova-se, eu e um espelho partido aos meus pés,

Reflectindo o peso de biliões de possibilidades, dando à fragilidade

Humana a responsabilidade de mil Atlas, confiando o trabalho de titãs

A vermes sensíveis, cheios de equações e deuses que expõem a sua ignorância.

Crio um multiverso a cada passo dado neste universo, com tantos passos

Possíveis que não dou e todos aqueles que dou e encerram ali algo mais

Para a minha definição enquanto indivíduo, quando sou uma raiz infernal

Em direcção ao impossível, para sempre, até que a eternidade congele,

Até o universo se cansar de fazer existir e desaparecer e se apague de vez,

Um por um, como as infinitas janelas de um prédio na noite eterna…

Mas se as janelas do prédio são infinitas, nunca se apagarão todas,

Haverá sempre luz e o fim estará sempre à mesma distância

E nunca chegará realmente, mesmo que os meus olhos se fechem,

Haverá sempre alguém que crie um universo, algo, alguém,

Alguém que resolva o problema da quadratura do círculo.



07.03.2011



Turku



João Bosco da Silva