terça-feira, 13 de outubro de 2015

Nojo E Vergonha Na Primeira Classe

Uma vez na primeira classe, saímos mais cedo, já a aldeia estava toda acordada,
O nevoeiro tinha levantado, aquilo parecia-me um crime, pela rua, aquelas horas,
Eu e o Zé Pequeno, perto da mercearia onde a mãe uma vez comprou cereais
Muito bons mas caros, de chocolate, com um urso na caixa, uma rapariga grande
De uns doze já, ou quinze, mais do dobro da nossa idade de certeza, chamou o Zé,
Tinha um bolo na mão, cravou-lhe uma dentada e deu ao Zé o resto, ele aceitou
Todo contente e ofereceu-me, eu recusei repugnado e ele atacou o bolo,
Provavelmente a primeira coisa que comia em todo o dia, senti vergonha por ele,
Nojo do bolo e ódio pela rapariga, aquilo pareceu-me uma afronta, aquela dentada
Antes da esmola, como cuspir na comida antes de a dar a quem tem fome,
Como afastar as nádegas de uma pobre para pagar a ilusão do favor que se lhe fez,
Como dar um tiro num cão vadio, porque coitadinho, não tem quem tome conta dele,
Só mais tarde perdi nojo ao que as raparigas grandes tocavam com a boca e davam como esmola.

13.10.2015

Turku


João Bosco da Silva

poema pela voz de Marlene Babo

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

os poetas negros

os poetas negros
jovens
vêm à minha porta –
“és o Bukowski?”
“sim. entra.”

eles sentam-se e olham em volta do
quarto destruído
e para
mim.

entregam-me seu poemas.
leio-
-os.

“não,” digo eu e entrego-os de
volta.

“não gostas
deles?”

“não.”

“’roi Jones veio ver-nos ao nosso
atelier . . . “

“detesto,” disse,
“ateliers.”

“ . . . Leroi Jones, Ray Bradbury, muitos gajos
grandes . . . eles disseram que isto era
bom . . . “

“ é má poesia, meu. estão a beijar-te o
cu.”

“ há um grande escritor de cinema também. Ele teve a
ideia: Watts Writers’ Atelier.”

“ oh meu deus, não percebes? eles estão a acariciar-vos os
cus! devíeis ter incendiado a cidade
toda! estou farto!”

“tu não compreendes
os poemas . . . “

“percebo sim, rimam, cheios de
vulgaridades. escreves má
poesia.”

“olha cabrão, já estive ao rádio, fui publicado no L.A.
Times!”

“oh?”

“bem, já fizeste
isso?”

“não.”

“o.k., cabrão, ainda não viste tudo o que posso
fazer!”

deduzo que não. e é inútil dizer-te que não tenho nada contra os
negros
porque aí
de alguma forma
é quando o tema se torna

doentio.

Charles Bukowski, in Mockingbird Wish Me Luck (Blacksparrowpress, 1972)

Tradução: João Bosco da Silva
os poetas brancos

os poetas brancos geralmente batem bem cedo
e continuam a bater e a tocar
a tocar e a bater
mesmo que as persianas estejam fechadas;
finalmente ergo-me com a minha ressaca
julgando que tal persistência
deve trazer felicidade, um prémio
qualquer – feminino ou monetário,
“já vai! já vai!” grito eu
procurando algo para cobrir o meu corpo
feio e nu. às vezes tenho que vomitar primeiro,
depois gargarejar; o gargarejo só me faz vomitar outra vez.
esqueço-me disso – vou até à porta –
“sim?”
“és o Bukowski?”
“sim. entra.”

sentámo-nos e olhámos um para o outro –
ele muito vigoroso e jovem –
roupa último grito da moda –
toda cores e seda –
“lembras-te de mim?” ele
pergunta.
“não.”
“eu estive aqui antes. tu foste bastante seco. não gostaste dos meus
poemas.”
“existem bastantes razões para não gostar de
poemas.”
“lê estes.”
põe-mos à frente. eram mais lisos que o papel onde estavam
escritos. não tinham nem carraça nem
chama. nem um som, nunca li tão
pouco.

“hum”, disse, “hum-hum”

“queres dizer que não GOSTASTE
deles?”

“não há nada aqui – é como um pote de mijo evaporado.”

Ele pegou nos papéis, ergueu-se e andou
às voltas. “olha, Bukowski. eu arranjo-te umas gajas de Malibu,
gajas como nunca
viste.”

“ai sim, querido? Perguntei.

“sim, sim”, diz
ele.

e saiu porta
fora.

suas gajas de Malibu eram como os seus
poemas: elas
nunca chegaram.

Charles Bukowski, in Mokingbird Wish Me Luck (Blacksparrowpress, 1972)

Tradução: João Bosco da Silva

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Síndrome de Wernicke

Sigo-te depois das aulas, ou das obrigações do dia, ou lá o que era,
Atravessámos um túnel como aqueles em miniatura que se faziam na areia
Da praia, aparecemos do outro lado da montanha, havia nevoeiro e eu seguia-te,
Na berma dois miúdos tocavam-se, tu deste-me a mão e eu comecei a tocar-te
Também, sorriste, aceitaste, levaste-me até casa, à entrada no portão dizes-me
Que o homem que regava as couves era teu pai cego, regava-as nu,
Eu disse que se calhar era melhor não, ela disse anda e olá ao pai,
A casa era como as casas típicas da minha terra, de pedra, com uma escada para uma varanda
De entrada, debruçada na montanha, coberta de nevoeiro, vinha e fetos,
Aquilo eram as minhas terras, a minha infância, deixo-te entrar e fico
A respirar aquilo tudo, nunca haverá suficiente verde nos olhos,
Quem te terá posto neste lugar, a ti e ao teu pai cego, tenho tomado
As vitaminas b, não será disso, chamas-me e entro no ranger de madeira do soalho,
Beijas-me e arrancas a roupa apressadamente, provo-te as aréolas rosadas,
A tua pele pálida, deixas-me as calças que apertadas e risinhos por ficarem
Presas nas ancas, lá se arrancam e tu a tremer, os teus lábios da cor das aréolas,
Tu transparente como a tua vontade, ou um espelho da minha,
Tanta que não sei que te fazer, eu de calções no fundo dos joelhos,
Mergulho em ti e levo-te aos lábios o teu sabor, procuro-me e entro
Em ti quando vejo passar na janela o teu pai e mais dois homens,
Continua ele não vê, e eu a pensar nos cheiros a gritar naquela casa,
Não vem só e saio, encosto-me a um canto e vejo-te a ti, a recebê-los, nua,
O teu pai não dá por nada, os outros parecem imitá-lo, é o meu tio e o meu
Primo, e eu encolhido no canto, com as nádegas nuas encostadas à parede fria,
Acabo de puxar os calções para cima, tu deitas-te num colchão que estava encostado
Na parede enquanto eles falam, nua, de barriga, finges dormir, e o teu primo
Curioso, deixa a conversa dos homens e começa a acariciar-te as belas nádegas,
Como as primeiras nádegas, vejo que sorris de olhos fechados, então ele
Penetra-te com um dedo, sinto o som de pregas húmidas no ar, mordes o lábio inferior,
Abres os olhos e sorris-me, saio e engulo o nevoeiro na varanda como se tivesse estado
Em longa apneia, desço as escadas para o vazio, e não, não acordo.

07.10.2015

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Fim do Verão - Haikus

A água da chuva
Evapora da rocha quente,
Eu também estou aqui.

Também se passa fome
Para se chegar
A um museu.

Queremos ser sagrados
Por isso vestimos
Palavras.

Enquanto o mundo passa
Nas minhas costas
Como-o um pouco mais.

Bebe, bebe amigo,
Que a sede é coisa
Da vida.

Enquanto o poeta não
Chega a Edo,
Constrói-se dentro.

Deitado na erva seca
A macieira arrancada
Permanece.

As pétalas rosadas
Escondem o fruto
Do suspiro.

O tamanho não corta
A intensidade, a faca
Corta tudo.

Sabes que a cerveja
Arrefece, como tudo bom,
Que esperas?

Na janela da casa abandonada
A teia de aranha
Espera um olhar.

No rio da infância, só
Na companhia das
Cobras curiosas.

08-10/2015

Finlândia

João Bosco da Silva

sábado, 3 de outubro de 2015

Na Vadiagem

Depois da escola fui pela aldeia, por ruas que nunca tinha visitado antes, um mundo novo,
Tão grande o lugar onde vivemos, cheio de ruas e casa diferentes, o sol
Quase se punha lá do alto, por trás dos eucaliptos, devia apagar-se no rio,
Ia atrás do meu colega que conhecia toda a gente, quem é o teu amigo,
Anda comigo na escola respondia, eu branquinho e envergonhado, uma florzinha
De estufa num canteiro de couves- galegas, distraído das horas, com a lata numa mão
Decidido a salvar o mundo, ignorando qualquer consequência,
Quando já arrefecia lá me levou a uma rua conhecida e de lá fui até casa,
Passando pelo cão mau e atravessando a estrada dos contrabandistas,
Cheguei a casa e a mãe ralhou-me, que por onde tinha andado até tão tarde,
Que meninos da primeira classe não podiam andar a vadiar por aí até tarde,
Eu estendi-lhe a lata e disse-lhe, andei a salvar gente leprosa, dás-me uma moeda.

03.10.2015

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Eminem

É uma questão de definição meu, nós iguais, é o tempo que nos esquece,
Envelhece, perde a definição, enruga-nos, é um problema de visão do tempo,
Porque nós iguais, menos no espelho, mas esse é vassalo do cegueta, nós iguais.

30.09.2015

Turku


João Bosco da Silva
Long Gone Motherfuckers

A vida fode-nos tantas vezes, mas depois de engolirmos muita lama,
Lá regurgitamos tudo, desculpa, se calhar nunca o cheiraste, não sabes o que perdes,
Contudo, hoje deram um nome ao óbvio, a esses microcosmos de imitação,
Os ditadorzinhos ad infinitum, mas a minha sensibilidade social é
A de foder as empregadas dos ditadores em casa deles, sem pagar nada,
É que nem aprendi nada mais além de que para a próxima não devo trazer
Comigo aldeões esfomeados por mexilhões, que comam salpicão
No convencimento de que são os melhores caçadores de gambozinos da terra deles,
Que morram felizes contra uma oliveira qualquer como qualquer um que era bom rapaz,
Ui, mas aquele caralho, não gostava da gente, era um renegado, sim, é verdade,
A cada gole apagava-vos um pouco mais, é demasiado difícil trazer tanta gente contrariada
No coração, convencida que eu uma outra coisa qualquer que não aquela merda
Que me apresentei, descarnado, a alma à vista, juro, e o espanto do meu próprio erro,
Mas que fazer, quando engolem mais do que aquilo que podem sentir, não por fome,
Para mostrarem o estômago cheio de ar e de ridículo quando se vê desde uma distância
Segura e sim, ridículo, endurecimento, a arte de se tornarem pedras, para não dizer cepos,
Por minha culpa minha tão grande culpa, orgasmos nos erros cedidos de boa vontade.

30.09.2015

Turku


João Bosco da Silva
Slim Shady

No muro da casa velha, quase perto da hora de ir para casa, isto é às dez,
O toque das tuas mãos nas minhas sabia-me a todos os lábios que um dia
Iria sentir, ou quase, dependendo do estado, nem sempre o cérebro esteve lá,
Mas tu não fazes ideia, apaixonaste-te por uma ideia, eu demasiado pobre
Para uma ideia, mesmo que tenha começado a escrever poesia por ti,
Por causa daquele poema que tu escreveste sobre as torres gémeas,
Mas vês, eu comecei a escrever por amor e tu pela catástrofe,
Não sei se ainda escreves, mas eu agora escrevo também pela mesma razão.

30.09.2015

Turku



João Bosco da Silva
Jurassic Park

Agora é só Grécia e lábios fartos e, fogo, nunca me tinham feito vir assim
E o meu grelo tem saudades, e . . . poemas e nádegas fartas à espera
De um caralho bem lubrificado na rata, uma cuspidela, um polegar a orientar
E ai que é quase lá mas ao lado, mais um bocadinho que está quase, pára que,
Já tiro e toma, uma infecção urinária provelvelmente, não, menos mal, podem matar,
Ai que morro mais uma noite pequena, ai que estes franceses, ai que os filmes
Fizeram tantos estragos com vestidos distraídos com o vento nas bicicletas
E as cuecas e os selins infestados de febre de tesão, no feno, onde fosse,
A vida deliciosa no gosto amargo a cinza dos cigarros de papel enterrados nas paredes.

30.09.2015

Turku

João Bosco da Silva
Mega-Drive II

Sempre chegaste lá primeiro, lembro-me daquele tempo no natal, na missa do galo,
Quando eu julgava que nunca ninguém tinha chegado tão longe e que era impossível
Bater aquele boss, e tu me falavas que estavas dois níveis à frente e que o final
Era assim e assado e eu desiludido com a minha conquista medíocre,
Mas tu mais velho, tu maior, como daquela vez em que na festa da cidade
Em casa do nerd fracês dos computadores, engatei com o meu tijolo Ericsson a1018s
Uma das primas da capital com conversas obscenas aliviadas com muita punheta
Enquanto os foguetes iluminavam o céu do fim de junho e eu os lençóis alheios,
E ela convencida que era o teu número e mortinha para que lhe abrisses a boca da fome,
Quanta diferença faziam três ou quatro anos na altura, mas como, se eu sempre tive
O inferno cá dentro, apesar da destreza de dedos só mais tarde, venci tudo,
Salvei o mundo umas vezes valentes, salvei a minha filha, matei tudo o que tinha que ser
Eliminado, fodi mais do que tu no auge dos teus remorsos, contudo, morrerei
E ninguém ficará comigo como os que te levarão, não bem tu, mas mais do que
O que tento deixar em livros que ninguém lê, onde tu também estás, já te encontraste,
Existes mais do que aquilo que os que te odeiam sem razão, a vida tão estranha,
Não basta cima, baixo, esquerda, direita, a, start, e vamos para onde quisermos,
Estamos onde quisermos, voltámos para onde quisermos, nada disso, sempre em frente,
Fracassámos e não reiniciámos, continuámos, tudo só com uma vida,
Eu bem sei que seria atrás da garagem o reaparecer depois de morrer, agarrados à gaita.

29.09.2015

Turku


João Bosco da Silva
Fumo E Espelhos

Noutro tempo nem o caralho da braguilha conseguirias abrir, agora, os dedos voam,
A língua parece um puto dum boxista a mandar ritmo no saco até trocar os olhos
Dum mortal quase lá, agora desenterras o trigo podre, ainda antes da segada,
O tractor a passar mesmo antes de ela enfiar as mamas na t-shirt, mas o dedo,
Mais lento, ainda lá dentro a olhar para o castanheiro a fingir que, este ano
Muita castanha, Nietzsche estaria orgulhoso, com o fusíveis queimados,
A mim não me fodem mais estando ocupadas com futuros pais de filhos
Que amigos ou colegas e as escadas rolantes a subirem, a levarem sapos na boca
E a descerem de volta ao autocarro de carreira, de volta às invictas onde
Se lhe encheu o depósito e anos mais tarde a filha não é tua, como se,
Querias que fosse, não, não queria, mas em vez de num olho, nos dois
E rires-te depois com o azedo triste da recaptação de serotonina a rebentar-te
Nas horas do descanso de dobrar camisolas e calças e ajoelhares-te
Para levantares caixas de roupa, baixares a roupa para levares com a carne,
Remédio para o aborrecimento das cidades de província, nunca mais me pagaste
Um pastel de nata com um café, nem ao menos um iogurte no frigorífico
Quando a boca seca dos teus lábios alcalinos desembrulhados pelo álbum fora
Dum cantor que já nem te lembras, mas lembras-te que rãs e o aniversário
Do teu primo nos motores de rega que te frisavam o cabelo, não é,
E as rãs a coaxarem com ela a dizer que sangrava na manta do piquenique
De fome, mas depois com as calças brancas na invicta achou que demorava,
Quando regressou de dar duas chapas de água nas beiças no bidé avariado,
Meu deus, quanta pizza já comi nesta vida, tenho compensado com whisky decente
As fodas à confiança a ver se me desinfectam a alma e a frigideira com a omelete
Esquecida entre foda e fumo quando quase a vir-me, foda-se que morremos aqui
Uma morte nada pequena, mas nada, fumo, muito fumo nesta vida, mais nada,
E guardo estes pedaços de fotografias numa caixa de whisky numa ilusão de imortalidade.

29.09.2015

Turku


João Bosco da Silva

Ilha Em Fomes Alheias

A noite estava a queimar nos lençóis o excesso de álcool e cafeína,
No fim de contas só se estavam a justificar o coração a uns
120bpm, numa madrugada só a enrolar lençóis e confrontar paredes que aclaram,
Torna-se muito mais difícil passar o tempo, mas com uma gaja que está há mês
E meio à procura de trabalho para o noivo na ilha, o tempo voa,
Contam-se os orgasmos, é uma batalha, ainda não, pá, que queres, é a vodka,
Ou o rum, que se misturava com a areia e tornava os encontrões nas paredes
Duros, eu vou contigo até casa, abençoada, outra, sevilhana, ficou para o Natal,
De manhã era, como caralho estou aqui, nesta cama quase familiar, com lençóis
De semanas, sabe-se lá que variedade genética se poderia lá encontrar,
A luz negra neles seria um crime, e por fim, depois de o jogo estar perdido
Por muitos, sujaste-me toda, nas nádegas, pois foi, que a gaja era uma esquisita
E chupava como quem sopra numa ferida infectada e porque o grelo lhe exigia
Retribuição das avalanches que lhe derrubavam os joelhos,
O colega urso dormia, de boca cheia ou barriga juntinha às nádegas peludas de alguém,
Isto é um poema, não, é esperma seco na areia da praia ao amanhecer.

Turku

29.09.2015


João Bosco da Silva

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Lições De Música Nos Bancos De Trás

Um gajo sentado nos bancos de trás do carro da mamã,
Aprende a esquecer o gosto pela música clássica e até toma gosto
Pelo que a rádio lhe vai impingindo nos ouvidos ao ritmo abanado
Da excitação híbrida, no fim de contas, é o teu aniversário
E a vida imita o rio, e os vidros imitam-te a cada expiração,
Nem queres saber que os pescadores estejam distraídos da boia,
Ou que o motor de rega do outro lado do rio fique sem gasóleo,
Nem que Nietzsche dizia isto e aquilo das gajas e que provaste
O primeiro grelo e a primeira foda dentro embalado por Hemingway
E a guerra civil espanhola, e no rádio tudo soa ao mesmo,
Para cima e para baixo, a abrasão nas coxas a aparecer,
Parabéns, estás a vir-te num recinto fechado, é inútil,
Mas no teu cérebro embaciado, uma conquista do caralho,
Mais uma, o maior, o maior até que no vazio do espaço
Para tal tamanho, de regresso à aniquilação do útero
Depois de se roçarem numas quantas promessas de vida e morte,
Mete a punch-line nos tomates, levanta-te mas é.

Turku

23.09.2015


João Bosco da Silva
Janelas Fechadas

Parece que ainda sinto as janelas fechadas daqueles tempos frios, antes
Das danças na chuva e dos cigarros molhados no chuveiro, das manhãs
Exaustas entre desconhecidos desesperados por um pouco mais de luz
Antes de irem dormir em camas frias de abandono e traição,
Parece que ainda ouço o bater ritmado dos vizinhos até aos passos
E as descargas na casa de banho, enquanto lia páginas e páginas
De poesia que apagava com os olhos, porque dentro um salto das janelas
Fechadas, a cada passo nas ruas uma dentada do tamanho da vida,
Parece que ainda sinto a textura amarelecida daquelas páginas
Que cobria de passado e de resignação, dos sonhos inúteis que trouxe
Emprestados de quem não me reconhece mais, azedos como os últimos
Raios de sol já frios do fim dos curtos dias, nas unhas o cheiro de todos
Os pecados misturado com o tédio dos copos vazios da noite anterior,
Parece que ainda sinto as janelas fechadas neste quarto sem janelas,
Onde me alimento do que foi digerido vezes sem conta,
Porque às vezes morre-se tão antes de se morrer, dura-se, ou pouco mais,
Com o pão que os fantasmas trazem por piedade ao cemitério de carne.

22.09.2015

Turku


João Bosco da Silva
Anos Noventa, Raquetes De Ténis, Gin E New Order

Em 1990 uma velhota emigrante de uns 40 ou cinquenta anos ofereceu-me uma
Raquete de ténis da adidas, enorme, parece que naquele tempo, em Portugal,
Era moda como agora o gin, aquela raquete um copo de gin obsoleto, enquanto
Que nos campos de ténis se acumulavam folhas podres e ferrugem,
Que ia fazer com aquilo, aquele tesouro cujo valor nunca consegui calcular
Até mais tarde saber que ninguém dá nada de real valor a garotos
Sem nada em troca, está bem que parecia uma menina na altura,
Quanto à raquete, com ela perdi a única bola de ténis de um amigo meu,
Ao primeiro servir, atrás da minha garagem em Trás-os-Montes, a bola voou
Até ao monte e provavelmente foi levada por um javali a pensar que era uma meloa
Peluda e rija, acabou por ali o ténis, a raquete deve ter apodrecido na garagem
Entre escorpiões, contudo ao ouvir Blue Monday, lembro-me sempre da raquete
De ténis, da emigrante francesa, que na altura me pareciam seres vindos do futuro,
Dos campos de ténis abandonados e do cheiro a eucalipto do Minho,
Lembro-me que mesmo que me tenham dado hipótese, nunca a tive.

Turku

22.09.2015

João Bosco da Silva


Térmitas da página

o problema que eu encontrei com
a maioria dos poetas que conheci é que
eles nunca tiveram um trabalho de 8 horas
e não há nada
que ponha uma pessoa
mais em contacto
com a realidade
que
um trabalho de 8 horas.

a maioria destes poetas
que eu conheci
têm
aparentemente existido só do ar
mas
não tem sido verdadeiramente
assim:
por trás deles tem estado
um membro da família
normalmente uma esposa ou  mãe
apoiando estas almas
e
então não é de estranhar
que eles tenham escrito tão
pobremente:
eles têm sido protegidos
contra todas as realidades
desde o
início
e eles
não entendem nada
além da ponta das suas
unhas
e
dos seus delicados
fios de cabelo
e dos seus nódulos
linfáticos.

as suas palavras não
têm vida, são vazias, fal-
sas, e o pior- tão
elegantemente
enfadonhas.

compassivos e discretos
 eles reúnem-se para
conspirar, odiar,
fofocar, a maioria destes
poetas Americanos
forçando e empurrando seus
talentos
brincando à
grandeza.

poeta (?):
essa palavra precisa de re-
definição.

quando ouço essa
palavra
fico com uma revolta nas
tripas
como se estivesse para
vomitar.

eles que fiquem com o
palco
desde que
eu não tenha que estar
na
audiência.

Charles Bukowski, in You Get So Alone At Times That It Just Makes Sense (Blacksparrowpress, 1986)

Tradução: João Bosco da Silva

poema lido por Marlene Babo

sábado, 19 de setembro de 2015

Lapidação Dos Paralelos Da Rua Da Igreja

Nos meus dedos a urina contaminada das décadas entranha-se nas unhas
Que tudo prometeram e deixaram uma marca fina e breve,
Nos meus sonhos o esperma ingrato de todos os dias de almofada a almofada,
Agora esperam o reconhecimento nos reflexos das pupilas,
Esperam que cegos e mudos sejam o espelho da sua fome e não haverão cus
Suficientes para tanto talento, dos amigos, dos amigos, dos amigos,
Os dentes filtram os dejectos lentos das palavras que não se mostram,
Sorri-se num desespero de amanhecer, tudo gelado no fundo de cada inspiração,
As unhas, as unhas esquecidas de todas as profundidades inesperadas,
Inocentes de todos os pecados dos dedos, tecendo poemas em corpos
Monossilábicos, vertiginosos nos ângulos sinuosos das almas húmidas,
Que esperas da noite vazia, se não lhe dás oportunidade de arrefecer,
Nos meus olhos a desilusão prévia daquele corpo antes da palavra.

19.09.2015

Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Rio Tuela Revisitado

Ao longe através das giestas ouvem-se carros a passar numa estrada para uma aldeia
Quase deserta, os peixes bicam-me os pés, as cobras sem medo aproximam-se
E uma apoia-se-me no hálux, faz-me saltar como se alguém de repente apagasse
As luzes e eu ficasse novamente criança, como quando atravessava o rio nas costas
Dos tios e à noitinha se iam buscar as redes para jantar peixe frito e na rede uma cobra
E bastante água engolida, perdoo-vos tudo, perdoai-me não vos evocar todos os dias,
Torna-se cada vez mais difícil manter o universo todo consciente, quase nem se dá
Pela cobra apoiada no dedo do pé, não fosse um toque mais frio e o salto,
Porquê se inofensiva, a morte em tantos outros lados, será que o meu avô saltava
Ao ver um copo de vinho, não, mas o copo voava e vazio, umas pingas no chão
E envergonhado pelo garoto não saber nadar, agora sei, e quero lá saber das cobras,
Coexistimos com tantas de sangue quente, que se apoiam calorosas sem pingo
De inocência, pode ser que um pouco de curiosidade, a cobra toda ela um risco curioso
Serpenteando a água até ao fundo do rio, escondendo-se do medo de sangue quente,
Subo a fraga do outro lado do rio e seco ao sol, a pele sente-se cada vez mais,
Como conseguiu tão pouca pele esticar tanto, a cona da irene do outro lado
À sombra, a única companhia silenciosa além dos gritos e risos de outros verões
Levados por mil brisas atrás, mil sonhos esquecidos em almofadas alheias,
Sou agora a testemunha do rio que corre, sou um salto de medo, só ele permanecerá.

17.09.2015

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Não Sei Para Quê

avô Jorge,

E agora, agora falamos de ti como se fosses alguém que não pôde vir este ano,
Ou estivesse de férias noutro lado qualquer, custa-me aguentar quem se senta no teu lugar,
Não me importava de estar a noite toda a apertar-te a mão, a eternidade se fosse possível,
Agora és apenas dentro de nós, cada um à sua maneira, nenhuma tu, raios partam a morte,
A lareira e o vinho tinto já meio vinagre sem ti sabem a desespero, a saudade, ao mar que
Atravessaste mas nunca provaste, agora parado, nas fotos, eterno, se o papel o fosse,
Eterno se as memórias em segunda mão levassem alguém ao fim dos tempos,
A cada gole que dou no sofrimento é um segundo em que te recupero, deixei
Crescer a barba e sabes, não é ruiva como a tua da minha idade, os pulsos
Continuam a aguentar mortes e o peso do mundo que carrego, e a vingança é um prato
Que não consigo deixar arrefecer, tenho que lho espetar logo no focinho,
Agora falamos de ti nos lugares comuns, onde faltam árvores, onde se plantaram outras
No que a memória falhou, uns bois de cortiça ali, umas maçãs além, tu em todo lado,
Enquanto houver quem te semeie, não te envergonhes de mim, nem naquilo
Que sou mais forte, sou o mais forte, a aldeia onde vivo é demasiado grande,
Desculpa-me, nunca te quis fazer memória, sei que emigraste para longe e não voltarás,
Acredita que todos os dias também eu me perco um pouco mais para sempre.

12.09.2015

Turku


João Bosco da Silva