sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A Confirmação Da Derrota

Não foram necessários
Raios cósmicos,
Bastaram uns anos.


Aqui estou eu, mais uma vez no limite, entre uma cerveja de muitas, entre o pecado
Insuficiente e o passado glorioso purificado pelos anos engolidos fora do sacrário,
E agora, que fazer quando já não é a juventude que arde na caldeira, quando não se
Chegou a lado nenhum e o peso do nome incomoda como a necessidade de suportar
Mais um entre muitos, longe das mansardas, longe das águas furtadas em Paris,
Aqui estás tu, no limite de um sonho que se tornou corda e agora os teus pés
A centímetros do chão, tu tão morto que nem reparas, e agora fazem cálculos,
E se calhar com sorte, se for mais conveniente, lá terás mais uma amostra de glória,
És a maior desilusão que o que foste alguma vez poderia ter tido, rasgou com tudo,
Para acabares branco, velho, cansado e invisível, bebe mais uma cerveja e apaga-te,
Deixa a lâmpada iluminar o espaço que tu foste.

Turku (Brewdog)

13.11.2015


João Bosco da Silva

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Carta Da Sibéria

Avô, são muitos os rios que desaguam no lago Baikal,
Sim, o mesmo nome que a tua caçadeira soviética,
Terror dos coelhos e lebres dos montes trasmontanos,
Essa mesma que me tombou aos cinco com o coice,
Quando disparava contra o silvado desde a varanda,
Até a mula se deve ter assustado com a choradeira,
Agora não choro tanto, pelo menos não se vê, ou é seco,
Mas às vezes estou muito calado a olhar pela janela e tu não estás,
Ou estás, num lago coberto de nuvens para onde todos os rios
Convergem, e é aí que disparo e caio, mas só a tinta corre
E congela, mas por baixo a água continua a correr
Até ao lago Baikal, que uma vez uns poucos fugidos
De um campo siberiano, contornaram, alguns ficaram por lá,
Um dia o nosso sangue voltará a ser a mesma água,
Até lá, enquanto se foge da noite, escrevo-te estas palavras.

Sibéria

11/11/2015

João Bosco da Silva
Cinzentos São Os Outros

Os dias cinzentos não são tristes, triste é a cor da solidão rodeada por
Multidões de ilhas, afogando-se nas suas amarguras e medos,
Engasgando-se em sonhos inúteis e segundos estéreis tornados
Em avalanches de vazios, os dias cinzentos não são tristes e se
O inferno é cinzento, não é das nuvens, da neblina eterna,
Mas das caras que esperam, como num purgatório,
Que lhes acendam um sorriso ou a cor dos olhos,
O inferno não pode ser um lugar isolado, frio, para onde te enviam
Como castigo, é preciso alguém, muita gente para se fazer um inferno.

Aldan (sobre)

11.11.2015


João Bosco da Silva
Uma Estrada Para Khabarovsk

Quem terá construído aquela estrada para Khabarovsk, nevada,
Longa e deserta, quem a percorre e que sonhos leva, em direcção
A que pesadelos caminha, terá uma fogueira à espera, algum sorriso,
Uma língua familiar que lhe traga o lar a casa, tudo tão longe
E sempre do mesmo tamanho humano, do mesmo comprimento
Serpenteado até ao mar do esquecimento, que triste será o último
A lembrar, levará com ele todas as mortes para a morte absoluta,
Ainda há muito para andar, muito nome para dar, um longo inverno
Para trazer o próximo verão no coração, entretanto, engulo mais um gole
De café quente e regresso à distância real dos olhos próximos
E procuro nas nuvens uma mensagem que dê sentido a todos os caminhos.

Khabarovsk (sobre)

11/11/2015


João Bosco da Silva
Sakuradamon

Do cheiro a sangue no metal assassino só ficou uma placa
Em memória do incidente, hoje a presença é toda dos pinheiros
Que os turistas ignoram, voltando os olhos para a imagem em
Segunda mão de écrans, onde um portão em miniatura
Para o centro de uma história tantas vezes reconstruída,
Onde os vencidos são sempre os maus da fita, para as agulhas
Tudo isto é menos que a brisa que as move ou as patas
Da ave que as toca, o mundo, aquele que dizemos ser nosso,
Continua às voltas, enlatado, movido a morte antiga e futura,
O cisne passa e quase parece seguir-nos com os olhos,
Ao menos isso, olhos humanos pouco mais compreenderão.

Tóquio

05/11/2015

João Bosco da Silva
A Companhia Das Sirenes

Terás sempre a companhia das sirenes nas insónias de uma madrugada
Longe de ti mesmo e que bom é caminhar em direcção ao sono
Por entre sonhos adiados e bêbados, rasgados, alcatrão fora, até ao
Isolamento impossível das paredes que vibram a vida vizinha e alheia,
A noite nem se sentiu levantar e a sua queda foi tão suave e tímida,
Como os olhos que realmente ouvem, sem outro interesse além da tua visita,
Porque se mostra tão pouca gente na cidade gigante, onde não há um minuto
Sem a companhia dos que se despedem, tão estranhos quanto tu.

Tóquio

05/11/2015


João Bosco da Silva

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Haikus de Café

A estas horas, no mundo
Todas as minhas vitórias
São vencidas.

Viver de verdade
É incomodar
Alguém.

Nas viagens até à
Montanha, o frio
À chegada.

O pagão ama sem
Qualquer pingo de
Água-benta.

A cerveja no bigode
E todos os sonhos
Que se esqueceram.

O Sol que não se
Trouxe, apodrecerá
As uvas.

Não tenhas medo de
Cair, a neve
Espera-te.


O valor que dás
À amizade, torna-te
Indigno dela.

Como as folhas do outono,
Regressam e nunca
São as mesmas.

Enquanto o empregado
Limpa as mesas
Penso no caminho.

Será a última, mas
Nunca será a
Última vez.

A vida quando
Abranda, passa
Mais rápido.

Yasunary Kawabata
Marão abaixo:
Neva.

Matsuo Basho nos
Ouvidos de um ganzado
No Porto.

Abraçam-se como se
Fosse a última vez.
É sempre.

Turku


11/2015

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Além Da Cerveja

Porto E Outras Cidades De Algibeira

Quando se escreve a olhar para uma parede branca, ou um bando de abutres,
Têm que se fechar os olhos e regurgitar um pouco dos passos que a chuva já lavou,
Têm que se ressuscitar a cor do batom e o sabor da pastilha elástica daquele beijo
De dentes nos lábios, até o taxista tem que ressuscitar, ele e o bigode mal humorado
A levar estudantada até cemitérios de periferia, têm que se acender outras noites,
Com menos ainda do que uma parede branca, uma parede suja e barulhenta
De um quarto alugado numa cidade com calçadas gastas pela fome dos saltos
Das prostitutas, e dos ladrões viciados em agulhas e os outros viciados no vício,
Não se pode esperar muito, ou nada dos dias que correm, parece que só a água
Que correu é que marca, a que corre só molha, incomoda, como andar à chuva,
Dizia o outro, lá do ombro, e nada vale 15 segundos de vida, nada traz quinze segundos
De vida, mas fazem tantas vezes falta, para iluminarem a parede branca,
Ou os olhos fechados num dia que se quer no fim já já, e que arrependimento,
Tocar-se-ia por tantos outros bem piores, venham aqueles dias perdidos
Entre a areia e o sol, a cerveja baptizada pela saliva escocesa, venha o banco de jardim
À beira do rio de madrugada, e a mão de olhos azuis a acordar e dizer, andei à tua procura,
As mãos em cima da mesa, sem se tocarem e uma fome imensa de grãos de açúcar
Sobre a mesa, ou aquela cerveja horrível e quente com a melhor companhia daquele mundo,
Tem que se trazer isso tudo, até as promessas que se ouviram sabendo que seriam mais
Bolsos rotos de mão bem apertadas, igrejas estéreis no centro de uma cidade
Ao lado de uma clínica de engana tomates e carteiras fartas da absolvição de domingo,
E dos beijinhos na testa do cheiro da almofada ao lado, dando décadas por
Quinze segundos no banco de trás do carro, com a cadeirinha a incomodar as pestanas
Postiças de um travesti, tem que se trazer tudo, até a pasta de papel higiénico
Nas tardes a cheirar a alcatrão com o abcesso a latejar na visita à ETAR e nem um,
Estás bem, nem um, não dizes nada, nem merda nenhuma com merda à farta por todo lado,
Só o medo à pila do estudante francês, quando fora, quando dentro, ai que filme francês,
E depois o açúcar na mesa e o batom, só lábios e a pastilha debaixo da mesa,
E o taxista a estas horas a levar mais um onde o esquecimento se fossiliza
Nas revelações das paredes brancas em noites cheias de abutres e dedos.

29.10.2015

Turku

João Bosco da Silva
“3:16 e …” Versão De Um Poema De Bukowski

Aquelas músicas que não chegam lá, já não chegam lá, como se o caminho
Se tivesse tornado mais longo, até às cordas, ou a parede ficou mais espessa,
E não tenho sono de tarde, não é sono o que tenho sempre,
E não é que esteja melhor a dormir, ou com a luz apagada concentrado
Apenas no som que não chega lá, já não, mas acaba-se mais
Facilmente, parece que o que vibrava dentro está
Agora como as asas das moscas presas entre os vidros das janelas,
Agora que o verão se foi e já se varreram os copos de plástico
E o fígado cicatrizou de todas as madrugadas que se engoliram
Em músicas que já não chegam lá, perdem a força pelo caminho
Que se percorreu em direção à aniquilação, ainda não se chegou,
Engulo o sol possível de um copo nórdico fabricado na França
E lembro-me da morte lenta de Bukowski e na sorte que ele teve no azar,
Para quem não tentava, trabalhou bem o seu caminho até à imortalidade,
Agora, 03:16 e nem mais um segundo, sem sono, ouço mais uma vez
A mesma música na esperança de acordar as moscas de outros verões.

29.10.2015

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

O Esquecimento Entre Dois Sonos

“Existence – well, what does it matter?
I´ve existed for the best use I can
The past is now part of my future
The presente is well out of hand.”

Ian Curtis

Quem levou os teus verdadeiros sonhos, foram os anos que somaste
E não os vês em mais nenhum lado a não ser no espelho e nos calendários inúteis,
Os outros foram-te injectando novos sonhos, não enquanto dormias,
Hoje a casa debruçada sobre a vinha íngreme no monte, longe, vazia,
As portas escancaradas, as janelas sem vidros, as cortinas bandeiras de um país
Conquistado pelo esquecimento ao vento, e todos os livros que se queriam
Ter lido, por ler, também esses foram sido substituídos por adiamentos
Intermináveis, por interrupções de tropeço, a casa uma ruína antes de ser construída
Fora da fábrica dos dias, agora comes os sonhos estranhos, vestes-te de ilusão
E invejam as conquistas pelas quais não lutaste nos dias vazios, os dias vieram
E trouxeram o que quiseram, todas as victórias postiças, aceitaste-as como
Uma medalha que não mereceste, enquanto os sonhos originais e pequenos
Amareleceram, caíram e foram levados pelo esquecimento, ou porque cresceste,
Hoje, longe, desejas tudo menos aquele olhar que te matava e se tornou inócuo,
Invisível, como tu, desejas o mundo nas mãos cheias que se diluem no excesso
De perdição, sobes alto, cada vez mais alto, mas lá em cima há cada vez menos,
E não está lá ninguém, ninguém que interesse e é só altura, como tempo somado,
E os olhos são cada vez mais insuficientes para lembrar os sonhos originais,
Ela também te esqueceu e a sombra do castanheiro centenário só te toca nas
Pálpebras nos dias mais pesados e saturados de todas as vozes que nunca convidaste
A entrar e te convencem que queres, que deves, que és e cada vez menos és tu.

28.10.2015

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 27 de outubro de 2015

o pintor 

ele veio até ao alpendre 
com um tipo anormal sorridente 
e lá ficaram 
bêbados de vinho. 
o pintor tinha algo embrulhado no seu casaco, 
então tirou o casaco –  
era um capacete de polícia 
completo com distintivo. 
“dá-me 20 dólares por isto,” diz ele. 
“desaparece, meu,” disse eu, “para que quero eu um 
capacete de polícia?” 
“dez dólares,” disse ele. 
“mataste-o?” 
“5 dólares . . .” 
“que fizeste àqueles 6 mil que ganhaste 
na tua exposição o mês passado?” 
bebi-os. tudo no mesmo bar.” 
“e eu nunca bebo uma cerveja,” disse eu. 
“2 dólares . . .” 
“mataste-o?” 
“encurralámo-lo, socámo-lo um pouco . . .” 
“isso é treta. não quero o capacete.” 
“faltam-nos 18 centavos para a garrafa, meu . . .” 

dei ao pintor 35 centavos 
mantendo a corrente na porta, entregando-lhos 
com os dedos. ele vivia com a mãe, 
batia regularmente na namorada 
e na verdade não pintava assim tão 
bem. mas suponho que muitos dos personagens obnóxios 
trabalham o seu caminho até à 
imortalidade. 

eu próprio estou a trabalhar nisso. 

Charles Bukowski, in Mockingbird Wish Me Luck (Blacksparrowpress, 1972)

Tradução: João Bosco da Silva

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Nojo E Vergonha Na Primeira Classe

Uma vez na primeira classe, saímos mais cedo, já a aldeia estava toda acordada,
O nevoeiro tinha levantado, aquilo parecia-me um crime, pela rua, aquelas horas,
Eu e o Zé Pequeno, perto da mercearia onde a mãe uma vez comprou cereais
Muito bons mas caros, de chocolate, com um urso na caixa, uma rapariga grande
De uns doze já, ou quinze, mais do dobro da nossa idade de certeza, chamou o Zé,
Tinha um bolo na mão, cravou-lhe uma dentada e deu ao Zé o resto, ele aceitou
Todo contente e ofereceu-me, eu recusei repugnado e ele atacou o bolo,
Provavelmente a primeira coisa que comia em todo o dia, senti vergonha por ele,
Nojo do bolo e ódio pela rapariga, aquilo pareceu-me uma afronta, aquela dentada
Antes da esmola, como cuspir na comida antes de a dar a quem tem fome,
Como afastar as nádegas de uma pobre para pagar a ilusão do favor que se lhe fez,
Como dar um tiro num cão vadio, porque coitadinho, não tem quem tome conta dele,
Só mais tarde perdi nojo ao que as raparigas grandes tocavam com a boca e davam como esmola.

13.10.2015

Turku


João Bosco da Silva

poema pela voz de Marlene Babo

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

os poetas negros

os poetas negros
jovens
vêm à minha porta –
“és o Bukowski?”
“sim. entra.”

eles sentam-se e olham em volta do
quarto destruído
e para
mim.

entregam-me seu poemas.
leio-
-os.

“não,” digo eu e entrego-os de
volta.

“não gostas
deles?”

“não.”

“’roi Jones veio ver-nos ao nosso
atelier . . . “

“detesto,” disse,
“ateliers.”

“ . . . Leroi Jones, Ray Bradbury, muitos gajos
grandes . . . eles disseram que isto era
bom . . . “

“ é má poesia, meu. estão a beijar-te o
cu.”

“ há um grande escritor de cinema também. Ele teve a
ideia: Watts Writers’ Atelier.”

“ oh meu deus, não percebes? eles estão a acariciar-vos os
cus! devíeis ter incendiado a cidade
toda! estou farto!”

“tu não compreendes
os poemas . . . “

“percebo sim, rimam, cheios de
vulgaridades. escreves má
poesia.”

“olha cabrão, já estive ao rádio, fui publicado no L.A.
Times!”

“oh?”

“bem, já fizeste
isso?”

“não.”

“o.k., cabrão, ainda não viste tudo o que posso
fazer!”

deduzo que não. e é inútil dizer-te que não tenho nada contra os
negros
porque aí
de alguma forma
é quando o tema se torna

doentio.

Charles Bukowski, in Mockingbird Wish Me Luck (Blacksparrowpress, 1972)

Tradução: João Bosco da Silva
os poetas brancos

os poetas brancos geralmente batem bem cedo
e continuam a bater e a tocar
a tocar e a bater
mesmo que as persianas estejam fechadas;
finalmente ergo-me com a minha ressaca
julgando que tal persistência
deve trazer felicidade, um prémio
qualquer – feminino ou monetário,
“já vai! já vai!” grito eu
procurando algo para cobrir o meu corpo
feio e nu. às vezes tenho que vomitar primeiro,
depois gargarejar; o gargarejo só me faz vomitar outra vez.
esqueço-me disso – vou até à porta –
“sim?”
“és o Bukowski?”
“sim. entra.”

sentámo-nos e olhámos um para o outro –
ele muito vigoroso e jovem –
roupa último grito da moda –
toda cores e seda –
“lembras-te de mim?” ele
pergunta.
“não.”
“eu estive aqui antes. tu foste bastante seco. não gostaste dos meus
poemas.”
“existem bastantes razões para não gostar de
poemas.”
“lê estes.”
põe-mos à frente. eram mais lisos que o papel onde estavam
escritos. não tinham nem carraça nem
chama. nem um som, nunca li tão
pouco.

“hum”, disse, “hum-hum”

“queres dizer que não GOSTASTE
deles?”

“não há nada aqui – é como um pote de mijo evaporado.”

Ele pegou nos papéis, ergueu-se e andou
às voltas. “olha, Bukowski. eu arranjo-te umas gajas de Malibu,
gajas como nunca
viste.”

“ai sim, querido? Perguntei.

“sim, sim”, diz
ele.

e saiu porta
fora.

suas gajas de Malibu eram como os seus
poemas: elas
nunca chegaram.

Charles Bukowski, in Mokingbird Wish Me Luck (Blacksparrowpress, 1972)

Tradução: João Bosco da Silva

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Síndrome de Wernicke

Sigo-te depois das aulas, ou das obrigações do dia, ou lá o que era,
Atravessámos um túnel como aqueles em miniatura que se faziam na areia
Da praia, aparecemos do outro lado da montanha, havia nevoeiro e eu seguia-te,
Na berma dois miúdos tocavam-se, tu deste-me a mão e eu comecei a tocar-te
Também, sorriste, aceitaste, levaste-me até casa, à entrada no portão dizes-me
Que o homem que regava as couves era teu pai cego, regava-as nu,
Eu disse que se calhar era melhor não, ela disse anda e olá ao pai,
A casa era como as casas típicas da minha terra, de pedra, com uma escada para uma varanda
De entrada, debruçada na montanha, coberta de nevoeiro, vinha e fetos,
Aquilo eram as minhas terras, a minha infância, deixo-te entrar e fico
A respirar aquilo tudo, nunca haverá suficiente verde nos olhos,
Quem te terá posto neste lugar, a ti e ao teu pai cego, tenho tomado
As vitaminas b, não será disso, chamas-me e entro no ranger de madeira do soalho,
Beijas-me e arrancas a roupa apressadamente, provo-te as aréolas rosadas,
A tua pele pálida, deixas-me as calças que apertadas e risinhos por ficarem
Presas nas ancas, lá se arrancam e tu a tremer, os teus lábios da cor das aréolas,
Tu transparente como a tua vontade, ou um espelho da minha,
Tanta que não sei que te fazer, eu de calções no fundo dos joelhos,
Mergulho em ti e levo-te aos lábios o teu sabor, procuro-me e entro
Em ti quando vejo passar na janela o teu pai e mais dois homens,
Continua ele não vê, e eu a pensar nos cheiros a gritar naquela casa,
Não vem só e saio, encosto-me a um canto e vejo-te a ti, a recebê-los, nua,
O teu pai não dá por nada, os outros parecem imitá-lo, é o meu tio e o meu
Primo, e eu encolhido no canto, com as nádegas nuas encostadas à parede fria,
Acabo de puxar os calções para cima, tu deitas-te num colchão que estava encostado
Na parede enquanto eles falam, nua, de barriga, finges dormir, e o teu primo
Curioso, deixa a conversa dos homens e começa a acariciar-te as belas nádegas,
Como as primeiras nádegas, vejo que sorris de olhos fechados, então ele
Penetra-te com um dedo, sinto o som de pregas húmidas no ar, mordes o lábio inferior,
Abres os olhos e sorris-me, saio e engulo o nevoeiro na varanda como se tivesse estado
Em longa apneia, desço as escadas para o vazio, e não, não acordo.

07.10.2015

Turku


João Bosco da Silva