terça-feira, 17 de maio de 2011


Um Ponto Final


As inofensivas uvas entre urzes e giestas, lá longe, a fermentar na memória

Que mata o cemitério de todos os mortos, até mais um, dentro de um reflexo

Até ao infinito e só o nada é do tamanho do tudo, dura a eternidade e nunca começou

De verdade, mais uns pés pequenos a esmagar ouriços debaixo de um castanheiro,

Que parece eterno, que parece mais real que todos os poetas juntos,

Um pico que se leva para casa, as mãos de uma mãe a procurar na caixa

Da costura uma agulha e um bocadinho de medo, quase como quando

Se abrem as pernas pela primeira vez, mais ao contrário e o sol dura pouco,

Logo começa a chover, a pele arrefece como se nunca houvesse verão,

Ainda com a pele nova a nascer, a areia longínqua a cair de lugares escondidos,

Menos a memória que fica, a sinceridade que se deixou em tendas de campismo verdes,

Onde a inocência não deixou que se fosse o maior, primeiro, sem interesse,

Melhor o último, melhor nada de todo, pára, não pára, abre não convida,

A inutilidade de todas as bandeiras como o excesso ao pé da fome,

Milhões em areia num deserto que ninguém conhece, mas todos sabem que existe,

E uma uva é tão pequena entre o polegar e o indicador, quase transparente

Quando se tenta ver o sol através dela, dourado o fio de azeite, alto, um raio de sol,

Sem o cheiro a musgo na sala, nunca mais foi Natal desde a última vez há tantos anos,

Tudo perde o interesse e cada aniversário é uma celebração do durar,

Como se isto tudo um concurso estúpido a ver, a ver, mas sem saber o que se está a ver,

Uma noite cansada, bebida para deixar o que se é na casa da casa, na almofada impossível,

Sem defuntos às costas, dos que partiram, dos que nos partiram, dos que possuímos

E nos possuem sem razão ou remorsos depois de se arrancarem da alma, ou algo

Que dói como tudo o que se é ao mesmo tempo, cortado por uma daquelas espadas

Dos anjos na bíblia ilustrada, com fogo e sabe-se lá que metal,

Sem interesse, porque no fim, já se sabe, depois de tanta vírgula, lá terá que vir um.



17.05.2011



Turku



João Bosco da Silva

sábado, 14 de maio de 2011


Uma Heineken no Infinito

para o meu tio Maurício,


Porra! Olho à minha volta e parece que ainda me cheira a medo de sueca

A dizer, outra vez e agora és tu e não consigo ser mais que um, quase que me asfixio

Com a ideia, há mil e muitos anos pequenos atrás, dos que são possíveis numa vida,

Com uma caneta emprestada de um hotel qualquer numa cidade que tento inventar

Todos os dias e amanhã (e, e, e) estarei só, sempre, desde que deixei de acordar

Naquela terra pequenina e tão grande, com o mestre a acreditar no amor de dezoito anos

Aos vinte e oito e eu também ou quase. Mais um golo de cerveja às tantas das tantas de tantas

E eu (e, e, e) só um, mesmo que as promessas me chovam como gotas frias das primeiras

Chuvas de Setembro. Não se pode fumar, não se pode viver, não se pode olhar, nem ser

E custa a estas horas de um dia que não será o último com quase certeza, quando amanhã

A puta da definitiva me andará a dar quase dores de cabeça, mesmo que seja a de um jovem

Da idade do meu pai (tenho saudades tuas homem das mãos de homem de verdade),

O meu avô, sempre o meu avô, fumou, bebeu e a vida tão boa quando se gasta, se usa

E que se lixe, é só uma, ninguém quer verdadeiramente perdurar sem sentir, para isso

Já há a morte. Ninguém sabe, nem eu, ó, eu que tenho a puta da mania de ser o maior

Ignorante deste mundo para o fim, como todos, sem universos paralelos, nem cigarros

De anos proibidos, nem beijos perdidos, nem cervejas roubadas, nem horas escondidas,

Nem mulheres molhadas e nem, e nem, sei lá, quem saberá. Ninguém me fascina, ninguém

Que me foi os meus dedos, a minha carne e à minha volta. O mundo não interessa

Quando se está à beira de um rio, de uma biblioteca, uma mesa de blackjack e nem

Um filho da puta que seja capaz de dizer o meu nome.

O mundo merece olhos fechados, sem vontade de amanhã.



11.02.2011



Turku



João Bosco da Silva

sexta-feira, 13 de maio de 2011


Hate is reasonable


I hate smiley people

When not everybody smiles.

I hate beautiful people

When some aren´t even completed.

I love to come on

Perfection,

Make it like melted wax,

Grotesque sculpture

Of my delusion,

My fists against

The blind eyes

Of universal justice.

Somebody throw up excess

As others would kill to eat

The warm gastric fluids from

Hot blonds, diseased by choice.


Sincerely world,

You don´t even deserve to

Lick my fat balls,

Just fuck you!



B.



Não Importa


para os meus afilhados,


Não importa, algo virá, mantém as mãos vazias, não deixes que as tuas nádegas

Se tornem raízes, não te esqueças das pernas, sempre em busca, seja do que for,

Mesmo que seja de algo para se buscar, algo virá, não te sentes,

O purgatório é uma sala de espera e tu ainda estás vivo e baptizado

E se é de inferno que gostas, muito fogo, muito pecado, daquele que se sente na carne

E não deixa dúvidas para a vida, longe da mentira asséptica de paraíso e tédio eterno.

Gasta a vida como se fosse tua, apesar de tudo é o único que é quase teu, que és quase tu,

Sem nome, tantos iguais, perdidos, em lápides, em descampados cobertos por esquecimento,

Heróis de antes dos tempos e cada dia é um novo começo para o fim, não importa.

Há quem agradeça, obrigado por me terem dado a vida de volta, será ironia (?)

Ou apenas estupidez, porque deus não existe e deus é teravidadevolta, não importa.

Sabes que os amigos não estão onde é impossível encontrá-los, mas que sabes tu

De impossíveis quando já chegaste onde te sentas agora, no topo da fronteira

Com o infinito, a um passo constante da eternidade, um fio de cabelo do comprimento

De um universo, onde dentro lhe corre o tempo, onde por fora lhe brilha o espaço

E entretanto contra as probabilidades pequenas tu és e realmente, não importa,

Segue, de pé, sempre em pé, em frente que tu já és o que atrás,

És a esperança dos segundos que foram engolidos pelo nada, és o resultado de muitos fins

Por isso não importa, mais um fim, só te tornará mais, maior,

E já devias saber que mãos vazias têm mais espaço para agarrar o universo, não importa.



13.05.2011



Turku



João Bosco da Silva




10 000 fingers

I´ve fingered so many girls
In so many places:
I´ve fingered two in the same day
Without washing my hands,
I´ve fingered in dark corner
In city streets,
I´ve fingered in the middle of
A crowded dancing floor,
I´ve fingered in the middle of
A roman bridge,
I´ve fingered inside a cab,
In a two seat car as my friend
Was driving without imagining
My hands in that sweet shaved heaven,
I´ve fingered in movies, in public bathrooms,
With their sister on the other side
Of the room, in my sister´s bed
At an early age (same age I started writing
Poetry), her sweet fresh friends,
I´ve fingered in the bus,
I´ve fingered in the swimming pool,
And abandoned ships, river, beach,
Student parties surrounded by drunks,
I´ve fingered in my friend´s couch,
When he went to the toilet,
I´ve fingered in the school backyard
And the school teacher and in my mother´s car,
I´ve fingered hairy, red, shaved, dry, springs, nitro, teens, mothers, shy,
I´ve fingered engaged until the ring was lost,
I´ve fingered in the cemetery even if sounds weird
And dark it melted around my fingers like the candles,
I´ve fingered so many girls in so many places,
As much as I´ve written poems in so many ways and many places.
I´ve written much more poems (it is easier to be alone),
But at least they last longer and I hope, they´ll stay alive
Longer than the fingers that wrote them.
The reason is the same, I write, I finger them, I´m alive.

B.

Candy Shop


It´s hard to stand

The suns

Without cleaning

The RayBans

Before going outside.


Too many dull hours,

Heavy machinery

And clockwork

Meat and

Blood and

Shit and

Come to come.


Damned all the

Colors so painful

In my dressed soul,

All the rules imprisoned

In wet sweat panties

And skin too skin

And I have liters

Of words to spread

All over smiley

Pale faces, like

My uncle´s best schrimp

In the world,

Impossible at this time,

Somewhere in Paris

Creating art with pipes

As I finish this fast

To stand up

And talk with

The sun that

Was smiling at me.


We all have the same

In different cities,

Towns,

Villages:

Welcome to

The candy shop!



B.

terça-feira, 10 de maio de 2011


Saudações a Leopoldo María Panero


“eu que prostituo tudo, ainda posso

prostituir a minha morte e fazer

do meu cadáver o último poema”


Leopoldo María Panero


Leopoldo, sento-me nesta erva, uma árvore ao lado, outra ruiva que vale por

Todos os clones demasiado perfeitos, a ser deus com os olhos abertos e

Inconscientemente, faço o sol pôr-se com um sorriso irónico.

María, eles não sabem o que é ser tudo, mesmo o cheiro a ferrugem e pastilha de morango

Me faz perfume e gente e se fecho os olhos, um silêncio que não se vê,

Pés que nunca terminarão o passo começado, todos os joelhos em todas as igrejas do mundo

Por a razão errada e as orações não passam de gemidos invertidos

Antes do clímax enquanto se teme o fogo eterno.

Se houver fogo eterno, Panero, espero que haja (estando convencido que não, ardeu,

Arde tudo e no fim um carvão frio), espero encontrar-te lá, já que me parece que Espanha

Está demasiado longe e os manicómios são locais de trabalho para mim, que encerro o poeta

No cacifo sempre que me visto de anjo e agulhas e agradecimentos me chovem à beira do abismo

E o abismo é a ruiva que me escreve nas costas e acende estrelas verdes num deus que guarda

A loucura para os sonhos e as noites de papel, seios, púbicos, amnésia e cheiros estranhos de manhã,

Quando se acorda só, numa multidão barulhenta que crio em três inspirações desiludidas.

Às vezes não se consegue parar ou simplesmente exagera-se para que não notem

Que trememos ao sol, os deuses não podem tremer ou são esquecidos

Ou trancados onde a memória não chega ou tenta ignorar que se existiu.

Alguém me mete a alma num saco enquanto sinto aquela dor de Keroauc

Nas manhãs febris em cidades inventadas na ressaca de mais um dia.



10.05.2011



Turku



João Bosco da Silva


Aura, Bicycles and others



A blue dress among God, (I want to fuck God) and all His glory

Like a catwalk at four in the afternoon on an impossible sunny day

Two years ago a virgin, she sings what a half dozen beers and ciders

Oblige her to, and someone photographs the water, as if life goes beyond

A window of a houseful of photographs, where no one lives anymore to remember,

So nothing. And the teenager almost irritates me, but the silence sometimes (if someone panics

And cries softly) allows her an image of dessert, when life seems to be at its end.

The sun runs on, but it isn’t more than clouds, or people. Still, they run on.

And they become fat hornets, with raucous laughter between their wings, the moment

They walk away waving an open hand—before a closed one, and a mouth busy with other notes.

Bikes pass in other directions, more gods. All my flesh is credent,

And every thought is a prayer dictated directly by fact.

Green eyes, old flags of rich babies turning the existing wind,

A slight pain like those who breathe, or feel the weight under their feet, the weight and

The impossibility of becoming eternal (and sometimes legs are crossed open and infinitely.)

The Museum of Contemporary Art waits for the Sun to get tired, or for the grey to come in climax

And bring visitors to the inert colors inside, trapped between four walls with a possible humidity,

The kind that molds, not the kind that gives headaches and drains life

Whilst you read for a resolution. All this harmony, the sound of pages leaved by fingers

Slightly perspired, in the shade of a tree that awakens, dogs walking owners,

Books providing inspiration for dreams of undeserved naps, the whole balance,

With a strand of hair blown away by the wind, damaged:

“Whenever you want, wherever you want it,”

Usually, I rather life force me… or maybe not.



09.05.2011



Turku



João Bosco Silva, translated from portuguese by Sónia Oliveira

segunda-feira, 9 de maio de 2011


By the river


I sit on the grass

By the river

Doing what I love most:

Watching the beauty

Of nature, masterpieces

Of someone that once

Fucked and then

Milk,

Dippers,

Sleepless nights.


Library is on my back,

The sun higher

And burning my

Vampire skin,

The eternal motion

All around (some

Red haired girl

Just sat by my side

And I could love her

But is most probable

To just fuck her).


I light my cigar

As some drunk (not

My kind of drunk)

Walks by and barks

Some crap in awful

Language and waits

For my answer

Standing (hardly).

FUCK OFF, I thought

And the guy

Walked away with his

Plastic bag full

With cheap beer

And loneliness.

He must have some telepathic

Powers, mind reader,

But he´ll never know

About this poem

And I wish I didn´t either.

(The red haired girl

Is now doing the same

As me, but not quite,

She has a pink pen

And a green notebook,

I´m all black and yesterday

I came inside a girl´s mouth).


I barely think about

The life I extended

Today, all morning,

Just about the drunk

Bastard in front of me

As I try to eat

All the pussy

With my eyes

And my mind.


(Damn, pink flowers also,

That kind of fuck,

Just to release a bit more

The pain of being).



B.


Aura, Bicicletas e Outras


Enquanto um vestido azul com deus (quero foder deus) e toda a sua glória

Como uma passarela às quatro da tarde num dia de sol impossível,

Uma virgem há uns dois anos atrás, canta o que meia dúzia de cervejas, ou cidras,

Lhe obrigam e alguém fotografa a água como se a vida fosse além

De uma janela, uma casa cheia de fotografias, onde não mora ninguém para recordar,

Então nada e a adolescente quase me irrita, mas o silêncio, que às vezes (alguém se assusta

E grita, docemente), permite-lhe uma imagem de sobremesa quando a vida parecer estar no fim.

O sol parece fugir, mas não passam de nuvens ou gente, mas passam

E tornam-se em besouros gordos, com gargalhadas estridentes entre asas, num momento

Que se afasta com um abanar de mão aberta, antes uma fechada e a boca ocupada com outras notas,

Outras direcções as bicicletas que passam, mais deuses, toda a minha carne é crente

E cada pensamento é uma oração ditada directamente pela verdade.

Olhos verdes, bandeiras antigas de bebés ricos a tornar o vento existente,

Uma leve dor como quem respira, ou sente o peso debaixo dos pés, o peso e a sua

Impossibilidade de ser eterno (às vezes as pernas que se cruzam abertas e infinito).

O museu de arte contemporânea, espera que o sol se canse, ou que o cinzento se venha

E traga visitas às cores inertes, encerradas em quatro paredes com uma humidade possível,

Daquela que deixa grelado, não da que dá dores de cabeça e a vida toda a escoar-se

Enquanto se lê um resultado. Toda esta harmonia, som de páginas folheadas por dedos

Ligeiramente suados à sombra de uma árvore que acorda, cães que passeiam donos,

Livros a servirem de inspiração a sonhos de sestas poucos merecidas, todo este equilíbrio,

No fio de um cabelo levado pelo vento, estragado: “quando quiseres e onde quiseres”, eu

Que gosto que a vida me obrigue… ou nem por isso.



09.05.2011



Turku



João Bosco da Silva

domingo, 8 de maio de 2011


Mulheres


Não há muito mais do que aquela pele que brilha ao sol, enquanto a erva cresce debaixo,

Onde moram todos os sonhos sinceros, a única razão real e o verdadeiro desejo de morte

É um desejo de regressar, não propriamente à escuridão, mas à eternidade num momento

Húmido e quente, com outro coração, expirações contra o nosso corpo suado,

Enquanto o mundo envelhece, cansa, tomba as árvores como impérios,

Mas ainda há sombra, ainda há olhos azuis além daqueles óculos de sol

Que me sorriem, que sorriem com os lábios do mundo e dão sentido a esta parvoíce toda,

A esta falsidade de regras nunca escritas, quando a única regra é fazer pela vida

E isso só quer dizer uma coisa, com o rio a penetrar a cidade durante séculos

E antes da cidade a penetrar o que a suporta durante milénios, até ao momento

Em que estrelas ruivas, com uma chama a crescer da púbis, loiras e morenas

A explodir vontade, a violentar com desejo que nasce da sinceridade inocente

De uma erecção sem vergonha e uma resposta: claro que gosto de olhar para mulheres,

Não há nada mais bonito no mundo. São a razão disto tudo e aquelas pernas não

São só para serem bonitas e caminharem, aquele brilho, aquele excesso nunca suficiente,

São poemas e os poetas apenas tentam encontrar uma mulher perfeita na solidão.

As pontes não passam de uma forma de encontrar outra humidade,

Aproximar, nada de amor, cansa-me a palavra a exigência e a falsidade,

A excitação, o calor, o que não suporta palavras e apenas permite jorros quentes,

Gemidos e unhas a roubar pedaços de pele enquanto a alma se esquece

No catecismo esquecido de outros tempos e se é verdadeiramente humano.

Vestidos levados por bicicletas e um arco-íris de perfume doce que chama

Pelo nome original, adiados dedos perdidos em suspiros antes de se engolir o fim

Do mundo, a origem da tragédia, o pecado original, um golo de vinho tinto

E uma dentada na maçã vermelha antes do mamilo que nos aponta a língua

Como se a vontade fosse um poema por escrever a dois, a três, a quatro,

Porque até o infinito parece pequeno na primavera de todas as mulheres.



08.05.2011



Turku



João Bosco da Silva


Só Mais Um


E cá vamos nós, mais uma vez, obrigado, em português e nada me dá

Mais orgulho do que a morte. Um dia vou ser mais um monte pequenino de terra e

Cuidado, não pises que é pecado, com castanheiros velhos e desenhos animados

Da década de oitenta com amigos em sofrimento, porque todos sabem que nunca

Devia ter vindo à, cem olhos excitados que dizem o mesmo

Que a minha santa mãe, és tão bonito meu filho e eu uma merda do inferno

E a vida ainda me corre nas veias sem vergonha, não interessa, sempre fui

Demasiado pequeno e é sempre difícil ejacular depois de tanta vida à minha volta

Sem me sentirem verdadeiramente. Tenho pena, podia ter sido, nunca fui e pronto,

Só o amigo morto que me mata, me acompanha e o mundo acaba todos os dias

Sem mãos atrás do pescoço como vergonha e línguas a serem vergonha

Nos meus tomates nunca suficientemente vazios.



07.05.2011



Turku



João Bosco da Silva




Isto É A Vida




“time


Is made to be wasted”



Charles Bukowski



Meu rei, já estive no inferno e não há nada pior que hoje, agora, aqui,


Mesmo que pareça ter a felicidade na palma da mão, uma faca perto, à espera


Da coragem que os dias trarão. A fome e as italianas que sem fome, eu morro


Todos os dias sem a minha mãe saber e amanhece tão perto do clube de striptease


À beira do infinito, morre um dia para trazer o mesmo, sem esperança


E não ter esperança é ser rude e não acreditar é ser anti-social e eu


Sem me dar conta que não estou a ser o que esperavam e ninguém me conhece,


Apesar dos cinco minutos, não é possível haver tantos deuses com a morte à porta


Quando tento salvar o mundo, um inútil de cada vez e eu o maior inútil para sempre


Quando o cansaço me disser: ninguém te amou de verdade.


Revelações enquanto o mundo se torna azul e o verde dorme nos meus braços


Depois de um loira fria às quatro da manhã com a amizade a bocejar um até amanhã demorado.




06.05.2001




Turku




João Bosco da Silva

sexta-feira, 6 de maio de 2011





Pallor of a Black Label

Not even Johnnie Walker Black Label can save me from the awareness of this,
The place where I sit, has not the slightest sense, the slightest reason to remain.
I awake, and it is just one more day to carry to the end, defeated.
I do not even feel the cobblestone, broken by time, by my feet of other times,
Knocking, the knocking on windows that are half-open, and people snoring in their two in the morning slumber.

Two in the morning slumber, come two in the morning, and still they won’t wake up.
Coffins close. Slumber goes on, and only the snoring ceases.
Damn, that only the dogs have a voice at this hour! Only the cobblestone responds answers to questions I did not ask.
Only the stars with their faraway light, give me another shy and unwilling step.
It hurts me, it hurts, this weight of everything I’ve left for an illusion,

That I knew beforehand was a mistake, and a brave blindness of nostalgia, and in the end…
An insomnia that is paid with years of living every minute that passes,
That is palpable, in echoes that drive crowds mad, with every tic of the black Swatch purchased in Zurich on the wake of farewell. Farewell!
This will never be real, not this conscious life. Come what may, it may affect the body as well,
But let it come! I could have seasoned nights at the end of the world, in a life of hell, that isn’t even headed for that either,
And nobody will see. Nobody will feel. Only I walk on, bag over back, so heavy that,
Even the wine has not yet fermented. They want to sleep, but they are already asleep,
Since they woke up in this world. Open eyes, who has them?
Black, and not even this can give me fondness for life, at this hour, after the dogs that only bark at me,
After the empty houses stocked with slumber of those of whom I don’t know their names.
Come on, they tell me. We’re going somewhere or have you not realized it? I don’t say. For what?
C'mon already, because by now, I feel what led the ancestors, which I did not meet.
Come, the time calls, and I do not know how much I have left. I just want to go while I still can.
So many great people at this hour, yet I am alone, I am less than what I thought I was when I awoke without a will.
Without a will, how could I have one on a cold and overcast September dawn?
With only Nothing waiting for me, but I know that then, I'll be grand, mute, but grand:
Those who didn’t listen, are dead and shall never live again. It's after two in the morning, and time isn’t waiting
For those who run on and don’t want to listen, or take time to listen, in a never-ending hurry towards the end.
Then follow them! May the cobblestone guide you to their stone-like rhythm all the way to the grave of angels that make family’s cry.
Poor thing, such a good person, and not one of them lived you, really.
The cellos call me from so far away, that I do not want to believe what I was,
But I was, and no one believes that beyond the truth, only known
much later in the world, life, through flesh that rips—and is so sweet,
That drips and sips with ease and pleasure that is felt through groans, so sincere, so helpless.
One can only be sincere when the hope of nothing takes you by the hand and leads you through the darkness.
Smiles that touch me, like flies on a hot morning that is long bygone,
After a sleepless night, beyond the two in the morning of my life:
Today I see that the sun won't be long dawning yet another day I did not ask for.
The streets of Savonlinna used to accompany me with the creaking of my weight over the snow,
The streets of the world groan with the weightlessness of my footsteps throughout time.
And everything is kitsch, and everything is life beyond good and evil. The art stays home, fast asleep.
Between two edges and what comes from above, with or without sea, with wind or smell
In the expectation of sex, be it stale words, or extreme meat, beyond impossible dreams that weigh.
Amsterdam calls me with dragging screams, with a will of ash and tulips that I've never seen,
When I don’t even want to know about the heathers that make my bones so rustic of this country.
I don’t care, not tonight, at two in the morning, when the sun has already begun to tell me I won't sleep yet another night.
When the Black Label calls out to me: Read another poem of José Agostinho Baptista.
No, not tonight. Enough of being away from myself, enough of not finding me within you,
Ever so far, you, neighbor of my heart, always faraway in the childish evenings.
Today, not even an attempt at Hunter S. Thompson, so far from reality
That one can only be found farther within, than thought possible.
Piles of granite cobblestone that speak to me directly for the dogs
That I am this, I am when people snore, and this isn’t human, this is but dreams:
Art is what you do when Black Label tells you that life is not so little, cannot be so little,
But it is, and slumber says: Hang tight, for the morning has already brought the flies, and you're still breathing.

24.09.2010

Torre de Dona Chama

Joao Bosco Silva, translated from portuguese by Sónia Oliveira