terça-feira, 7 de junho de 2011


O Meu Avô e Bukowski


O Bukowski podia ser meu avô (ter sido), mas o meu avô só bebia e em vez de escrever

Caçava, trazia fardos de contrabando de Espanha e tratava da sua vinha: circunstâncias,

Necessidades e países diferentes. Tenho pena por não ter escrito enquanto ele recitava,

Algo mais que poesia, vida e amigos da guerra civil espanhola, ironia e seu irmão da polícia secreta,

Meio-irmão e outro em França com uma vida que levou com ele, três irmãos de três pais diferentes,

Nenhum deles Bukowski. O meu avô sabia ler e escrever numa aldeia esquecida por todos,

Menos pela fome e pela guerra, num país analfabeto, governado por um hipócrita de voz esganiçada

E sem força, o meu avô ia buscar ao monte carne fresca e sabia mil e uma maneiras de evitar

A fome, mesmo no Inverno com a água do rio tão gelada e peixes fritos em azeite das suas oliveiras

Pequenas. Como Bukowski, o meu avô tinha a língua solta, o pavio curto e mesmo assim tinha amigos

Num raio de quinhentos quilómetros, aos quais tratava por “azeiteiro” ou “paniscas” ou “meu filho (da puta)”

Quando não “mandicante” e agradeço-lhe a falta de travão na gola e nos dedos,

Neste mundo cheio de merdas, de rodeios para perder tempo, enquanto se morre sem se contar.

Muitas vezes vejo o meu avô em Bukowski, como se em vez de ter aparecido no mundo em Cidões,

Em Los Angeles, nascido em Andernach, mas morreu numa cama de hospital, amarelo,

Deixando no mundo, ao mundo as palavras: Aniceto Estêvão da Silva.



Turku



07.06.2011



João Bosco da Silva

domingo, 5 de junho de 2011




Às Três Pancadas





"Dai-me uma mulher tão nova como a resina

e o cheiro da terra."

Herberto Helder



O teu cabelo cheira a terra molhada naqueles dias de verão de olhares castanhos a demorarem-se,

Como quem arrisca um pecado dentro, uma corrupção pequena e quase inocente e um medo

A sinceridade do corpo que floresce, e a barba cola-se a ti com a mesma vontade dos cães,

Sem artificialismo, só a pureza da tua barriga em prega logo ali, enquanto me perco dentro do teu sabor,

A carne fresca, animal jovem que grita, que geme numa dor que antecipa, na escuridão de uma noite

Que irá arrefecer até ao final forçado, por falta de força de um sonho que se extingue de manhã,

Como a lareira fria na casa dos avós, como a cera inútil de uma vela espalhada pela mesa,

O esperma e o esforço cobrindo a inutilidade de uma pele docemente pálida e fria,

Mesmo debaixo de tantas mantas poeirentas, antes da geada da manhã da terra pequena,

Repousando a machada da noite anterior ao lado da mudez dos cães cansados das estrelas,

Dos olhos e da ilusão que se mata depois de tantas vezes dentro das vísceras, sem nunca se ter tocado,

Ter deixado tocar o interior impossível, só palavras foram tentadas e são sempre demasiadas

E ridículas, tão grandes e tantas, insignificantes à sombra da carne que arrefece

No medo do calor verdadeiro, desconfiando das mãos vazias cheias de força para arrancar

As amarras da tristeza, do tédio, mesmo de quem espera nada do purgatório de seis meses,

Antes de um ponto final que é seguido de mais dois pontos, uma última vez que ficou suspensa

No infinito de até à morte, por uma razão que não interessa nem ao diabo, cansado de saltos em fogueiras,

Saltos em adolescentes estúpidas e abertas, convencidas da sua originalidade no pecado original,

Enquanto os calos crescem e as cicatrizes encolhem e deixam dentro uma pedra pequena,

Umas areias, o pouco que da infância, o pouco que ainda puro e um sorriso nasce quando se pensa

Na malícia ridícula das mamas adolescentes que a gravidade torna velhas, a tentativa de unhas pequenas,

Frágeis por uma alimentação pobre em liberdade de espírito, em arranhar quem além do bem e do mal,

Quem além, desde antes de ser, desde antes da vontade de vontade ou a noção que nunca despertará

Nessas mãos como almofadas alvas que me envolvem o desejo que fiz crescer com música e coincidências baratas,

Fascínios inventados no sinal do teus olhos, que vidro, culpo o inverno e o seu gelo imparcial,

Culpo a saudade do que deixei por cansaço, culpo as linhas que envolvem a minha nacionalidade,

Culpo a tua idade, a minha morte sempre a provocar-me com o chumbo do meu avô,

Sempre a contar-me a bilirrubina séria, a tosse seca e os preservativos que se esqueceram em casa,

Numa noite de duas ou três dentadas nas maçãs vermelhas que me pintam a roupa negra

De traças por dentro, como na época das masturbações em becos escuros,

Enquanto as mães desapertam o cinto dos amantes e se ajoelham, até Domingo de manhã,

A cura para toda a hipocrisia, toda a gordura e musgo seco, longe dos dias de Agosto,

Antes dos beijos secos no ar humedecido pelo teu desejo, a tua fonte segura de entrada livre,

Sem cuspir nas mãos, à porta do brilho dos teus olhos naquela noite fria do último beijo para sempre

Suspenso no arrependimento do primeiro luar, nosso, de todo o mundo, escondidos

Na evidência de mais um mexerico, mas os meus espelhos partidos e os olhos para dentro,

Escondidos dos tamanhos fora da minha divisão simbólica, quando a paixão é maior

Que todas as mãos pequenas que tentam parar a avalanche de magma, a explosão no teu colo

Do útero, jovem, certamente com sede de fertilização, ao mesmo tempo tu um gato

Que se enrosca na aparente segurança do sofá, do pai e da mãe, do amante, dos segredos

Que todos sabem e os importantes ignoram para poderem manter a cabeça erguida,

Procissão de madeira apodrecida e carunchosa, com grelado, por isso tu tão fresca nos meus olhos

Foste, quase uma Lolita, o teu doce perfume de rebuçado misturado nos dedos cheios do teu sumo

Na tua boca, os teus dentes pequeninos de leite, do meu, na tua timidez forçada, fingida, pela qual me apaixonei.






Turku



05.06.2011




João Bosco da Silva

sábado, 4 de junho de 2011






Na Praia Com Nietzsche




para os irmãos Diamantino, o Macedo, o Pereira, o Ferreira e o Pires,




Numa casa de férias em Esposende com dezasseis anos a ser tanto, tão fresco,

Tanto espaço nestas mesmas mãos, golpeadas pelo tempo, pela morte dos sonhos

Mil e muitos poemas depois com outras tantas masturbações,

Na varanda, enquanto a camisa azul do dragão branco seca, um livro de Nietzsche

A tornar especial o momento, os amigos a ver televisão, outros na casa de banho,

Outros deitados a curar ressacas pequenas e na casa em frente um aniversário

Onde entram belas adolescentes que me descolam do interesse ridículo por filosofia

Aos dezasseis anos, ainda a latejar as últimas palavras da Crónica de Uma Morte Anunciada.

Nunca serei maior do que isto, nunca terei melhores amigos e nunca ninguém me conhecerá

Tão bem como eles, sem palavras necessárias, sem a confissão dos primeiros poemas,

Escritos quase às escondidas na mesa da cozinha, com muitas pausas e olhos

Fixos no horizonte que a janela permite, tão longe hoje, tão longe a varanda e a brisa do mar,

O farol e a insónia de uma liberdade de Abril, ainda com o sal na pele de um assalto à praia,

Com sede de uma primeira cerveja alemã que ficará para sempre, para o sempre que se tem,

Mitologia pessoal, marcos históricos que morrerão com o último cansaço,

Quando o corpo desistir de nós, e deixar as revistas pornográficas à beira do chafariz

Enquanto gente que não era do nosso mundo passava, com uma revista do Homem Aranha

Ao lado do Além do Bem e do Mal, que acabarei na vinha do meu pai,

Enquanto à volta tudo cheira a enxofre e primavera. Que monstro é este que me escreve,

Como se fosse dono das minhas memórias, dos meus momentos pequenos

Que me tornam o que sou? São os pequenos momentos que nos tornam grandes e diferentes,

As saudades secretas, os sonhos que aos olhos do mundo grande são pequenos e por isso não

Se mostram, mas trocava-se Paris, Londres, Estocolmo, Helsínquia, Amesterdão, Zurique…

Trocava-se tudo, tão estranho ao coração, por aquele Porto, aquela primeira vez, só nós,

Tão longe e tão perto, e lá fora o mundo nunca será o mesmo aqui dentro,

Não quando o candeeiro de rua às quatro e meia a iluminar a bola no parque de estacionamento,

Longe, perto da piscina, Nietzsche no bolso do casaco, o telemóvel cheio de mensagens de amor

Enviadas ao vazio, à desilusão por uma ilusão insuficiente que marcará por dez anos

E os que virão, se houver só mais uma vez, uma última vez, aquela varanda,

A brisa húmida do mar, melhor que qualquer cheiro íntimo, imaginando eu aquelas adolescentes,

Que hoje sei que não estarão tão convencidas do seu poder, deixei de guardar as palavras

E elas são muitas vezes o que os sonhos são, mas sem medo, que a morte está além de tudo

E virá quando vier, da forma que for, longe ou perto de Esposende,

Longe ou perto da memória quando ainda a entrar nos olhos, no nariz, na boca, na pele

Sempre pálida, adolescente, encobrindo uma alma de dezasseis anos até ao fim.

No próximo ano conhecerei Pessoa, o conterrâneo Torga e nunca imaginarei que eu também

Uma belga, o Vergílio Ferreira e nada será o mesmo, pois não estou só, nunca estive só, nunca estarei só.





Turku





04.06.2011





João Bosco da Silva






Não Um Poema de Amor




O rio parece quase frio e a noite nem permitiu escuridão, o azul quase desmaia,

Mas os seus olhos continuam a procurar o meu sorriso, sorri e o rio passa,

Enquanto a arte se tornou em algo para agradar, exprimir o que se espera que se espere,

Flutuando em águas cansadas e castanhas, enquanto as cinco da manhã se aproximam

E o banco de jardim se torna pequeno, enquanto imagens tão parecidas com outros nomes,

Outro perfume, outros rios, outro amanhecer invertido: a vida é uma sucessão

De momentos que se repetem sempre de forma diferente, agradeço a miopia,

Olhos para coisas pequenas, próximas, que além os braços não chegam.

Não interessa quem passa quando as horas se escoam pela minha uretra

E as paredes da biblioteca impedem-me de ser dentro, sempre excessivamente dentro,

Mesmo quando os lábios se encontram e as portas do táxi se fecham e levam a noite,

Levam a memória, deixam o cansaço, o peso da possibilidade, a responsabilidade

Da oportunidade a latejar nos lábios e tem havido noites sem estrelas,

Um frio que não se sente e sem saberem, todos regressam a casa sós e mais pequenos,

Tentarão florir, mas perceberão que às quase cinco da manhã ainda é tarde para começar,

Leva-se a companhia do aroma do interior de alguém, o aroma doce de mais uma derrota conquistada,

Mais um nome que será olhos azuis, o tamanho dos seios nas mãos, a cor do cabelo espalhada

Pela carne salpicada de orvalho, ou suor, não interessa, já é tarde, a casa aspira todos ao vazio.





Turku





04.06.2011





João Bosco da Silva

sexta-feira, 3 de junho de 2011






O Amigo e o Meu Pai



para o senhor Fernandes e o amigo dele,



Já não se plantam amigos como aqueles dois, juntos no Natal, nos aniversários dos filhos,

Já não há quem partilhe o vinho, o vinho da colheita, já não há quem leve legumes frescos

Ainda com a terra a tornar-se pó na roupa, já não há quem guarde o javali para um dia

E o dia realmente chega, ou mata-se hoje um porco e a festa é em casa de um

E há sangue, merda, geada nas mãos, piadas que nunca se gastam e alegria que mesmo cansada

Dos anos, persiste, apesar de o cabelo abandonar as duas cabeças aos poucos,

De as rugas os visitarem todas as manhãs, de os filhos andarem por longe, nas suas guerras,

Tão diferentes da que eles lutaram pela mesma razão: pelo país, ou por causa do país.

Não há mão tão feliz no mundo como a que segura a pata do coelho bravo

Cozinhado pela mulher do amigo, não há copo mais refrescante que um dia de Agosto

A desmaiar aos poucos no dia do arraial da terra, tinto, pisado a quatro pés, sorrisos

E olhos verdes, com o futuro ali, a ser aquelas horas de patrulha, aqueles segredos que só

Eles sabem, enquanto rasgam a terra como foram ensinados nas suas aldeias frias de pedra

E esquecimento, recordando a cada semente atirada à terra a dureza e a crueldade

Da necessidade em tempos que aos de hoje, parecem filmes sobre a idade média,

Há uns cinquenta anos atrás. São tão família, como família pode ser, quase vinte anos de

Cumplicidade, açúcar do contrabando, fome a carne, ainda essa, com um brilho nos olhos

Quando uma loira passa, quando uma flor desabrocha, quando a terra se abre

E os filhos a casarem-se, os filhos a torna-los velhos, eles que sempre foram,

Sempre estiveram, eles que terão sempre o cheiro da terra na pele, como se amizade.

Impossível imaginar que eles um dia tão quietos como aquele perdido que encontraram no rio,

Inchado e o meu pai amarelo ao chegar a casa, mesmo quando andava sem beber,

Impossível eles como aquele que se esqueceu do capacete em casa e da cabeça numa valeta:

São eternos como o granito que lhes aborrece a enxada e não há manhã fria

Que lhe atravesse as ceroulas de algodão que as madrugadas lhes ensinaram,

Enquanto alguém tentava abrir o suor de alguém e roubar-lhe o sangue,

Com eles a tentar aquecer as mãos com a expiração em concha na boca,

Fechados num jipe de latas de sardinhas recicladas, enquanto alguém assina o nome

Por baixo, sem olhar as faces geladas daqueles dois amigos, que nunca esquecerão,

Porque não são de pó, são de granito, desde a pedra dos três reinos à pia templária do mosteiro esquecido.




03.06.2011




Turku




João Bosco da Silva

sábado, 28 de maio de 2011


Reminiscências de Sexta-feira


Noite com mãos como bocas, lá no fundo, sem aprovação, tornando-me perdido

E no fim é sempre a mesma desculpa dos corpos tatuados, a curiosidade do interior impossível,

As marcas que são breves e vão-se com um duche demorado na esperança de pecados

Também, pelo ralo até ao inferno que nos espera, sem existir depois do corpo eléctrico,

Depois da desistência da unidade das sinapses, como se um universo que se apaga subitamente,

E afinal a vida uma luz pequenina, uma noite perdida aos bocados, com um gosto na boca

Que é de alguém, quase uma memória, mamilos que se mostram com vontade de uma liberdade

De outro, um abraço sem unhas, uma humilhação de língua atrás da orelha enquanto se empurra

Mais um golo de suicídio, sabendo que o meu avô por lá, o meu tio por outra razão e então…

Então, que se lixe, há tanto mundo no mundo, tanta forma de sair, uma única de entrar

E há tantos anos que me parece que desde sempre e ninguém me convencerá do resto

Enquanto não apagarem as luzes e não me tirarem as mãos de dentro das calças

Com uma multidão de vazios com pés inquietos e luzes que cegam os olhos fechados.

São três, quatro e quase as cinco, tão cansado, tanto cansaço que só me apetece

Atirar pedras à janela do quarto dela, aquela janela que nunca soube qual era, por isso

Mãos cheias de pedras e alguma será, se for, entre pernas nas minhas, disse que ia desistir

Mas não me deixam, agarram-me, deixo-me levar, no fundo falta-me interesse

E o meu desprezo por quase tudo torna-me tão interessante, uma luz solitária

Numa casa abandonada, das últimas no fim de uma aldeia, onde os mosquitos e as traças

Se reúnem para o banquete das repelentes osgas com olhos inocentes de medo,

O meu desprezo é o meu amor pelo mundo e queria tanto poder odiar algo, alguém,

Como se a culpa pudesse ser de mais alguém, além dos dedos do cansaço que se arrastam

E tentam dar significado e alguma dignidade a uma ressaca crónica: a eternidade foi longa

Mas espera-se uma do mesmo comprimento, ao menos não estarei só quando a noite acabar,

Não estarei só como quando alguém me incomoda com a expiração no meu ombro,

Não me incomoda quando o que me faz tentar está vazio, verti-me na noite e a secura

Tornou-se no meu único sentimento por quem não me quis, agradeço mais as mãos que me empurram

Para longe, do que às que me envolvem na loucura de mais uma vez para nunca mais, até ver,

Até ver se um rosto se solidifica na minha memória diluída pela sede de vida por muito menos.



28.05.2005



Turku



João Bosco da Silva

quinta-feira, 26 de maio de 2011


Ejaculação Na Consciência



“So, that´s what they wanted: lies. Beautiful lies. That´s what they needed. People were fools”


Charles Bukowski


Se me venho na tua boca e me engoles com promessas de amor,

Que significa quando tudo cinza, novos braços e bocas que me enojam,

Sentindo-se partido na partida, aquilo que se sente entre o estômago e o aneurisma.

Não se fecham portas, são paredes que aumentam, ou nós que crescemos

E tudo deixa de ter um tamanho proporcional, enquanto os sonhos se reservam

Aos olhos fechados e noites quentes e os desejos resumem-se a deixar de se ser

Por uns instantes numa paz pequena no meio de uma guerra infernal pela sobrevivência

Do inútil. Todos os vermes nas memórias dos bancos traseiros, derretidos, cansados,

Esquecidos com o ar que deixa o vapor, o suor, a dor transferida numa ejaculação perdida

Entre dentes mentirosos, ou somente dos que estão para cair a cada segundo que passa.

Não acreditas se te disser que trocava os teus mil lábios, por sessenta e quatro páginas

De uma revista de banda desenhada de mil novecentos e noventa e quatro

Enquanto o sofá me chama para a segurança do meu interior pequeno,

Tão cansado dos olhos antes de, dos olhos que e no fim só a falta de coragem

É que mantém o mundo mundo e a gente em mortais filhos híbridos de deuses

Da infância da humanidade, quando se vivia até antes da inocência se perder.

Algo quererão dizer as formigas de asa em pleno ar no fim de Maio,

Mas eu conheço de cor os impossíveis, os meus, os dos outros tenho assassinado alguns,

Basta ter, ter e saber e usar, sempre fácil quando do lado de cá e sinceramente,

Nunca conheci outro lado, depois de tanta cabeçada em colos de útero,

Não conheci outro lado e ironicamente, sou eu o extraterrestre neste mundo

Que me engoles com promessas verdadeiras até me digerires o futuro.

Não feches a porta quando saíres, não vale a pena, o nada está por aí em todo lado

E dentro do carro negro sinto-me tão só quando os gemidos cessam,

Sinto-me esmagado pela paz, pelos ecos dos vermes que me chupam a última gota

Para se perderam numa eternidade que não será de ninguém, se ao menos olhos,

Nos meus, aí em baixo, onde me é tão difícil deixar de ser, mas nunca saberei

Quem te fui quando te fui, nem tu saberás quem és, do lado de cá, enquanto bebes o meu sumo quente.



26.05.2011


Turku


João Bosco da Silva

domingo, 22 de maio de 2011


Vomitar Com Sinceridade


Não há ninguém capaz de falar nos olhos neste mundo de aparências,

Tão difícil dizer, não, não é, é horrível, mas deixa crescer, ainda não,

Ou pelo menos silêncio, já há muito barulho no convés da hipocrisia,

Já há suficiente vazio enquanto as turbinas começam a varrer as ilusões

Deixando a descoberto tudo aquilo que somos e somos tudo menos o pouco

Nada que se leva em duas malas cirurgicamente pesadas, comprimidas

Como a saudade que se vai expandindo com o esticar dos segundos pelo ar pesado.

As noites deixam-se cair, escuridão em avalanche, mesmo que o dia persista,

Encontros de uma noite, para o nada, como a vida, uma luz na escuridão,

Tão repetidamente questionada a razão, quando é apenas uma: vivê-la,

Não esperar, porque se tem a eternidade e a eternidade não é de ninguém,

A não ser que mártir ou o anti-cristo e eu prefiro o anonimato dos meu inferno pessoal.

Mesmo que venha um colapso no meio de uma multidão, olhos cegos,

Longe da sífilis de Nietzsche, sem o chumbo a espalhar sumo de laranja, escritor e chumbo

Numa parede em Idaho e o peru já está pronto Sylvia, tira daí as ideias,

Serei mais uma luz invisível que se apaga e com sorte ficarão umas palavras

Que não serão o que quiseram ser, emoções que pingam dos dedos

Para olhos secos, que só vêem o que dentro, não se podem condenar,

Somos animais para dentro, por isso sabe tão bem entrar dentro dos outros

E não há nada melhor, poesia mais directa que ver a transformação

De um sorriso num gemido, uma boca silenciosa numa gata assanhada,

Uma santa hipócrita numa puta sincera, abre-se o abismo e tem-se por minutos

A noção do infinito, que se perde, enquanto o suor ainda escorre e futuros nadam

Em direcção às possibilidades infinitas que se perdem na descarga do autoclismo.




22.05.2011



Turku



João Bosco da Silva

quinta-feira, 19 de maio de 2011


Nights of End



There are nights that are eternal and there are nights that are unreal,

That stick to the skin, that insist on existing albeit against the will of the moonlight,

Even if the boats have been swallowed by the tempest
And the sea is empty. Even though the river has died and such death gave birth to a swamp,
The precise instant the water flow ceased.

There are nights that brand like an unwanted tattoo

And it stays, present in the brain, in the eyes of others, blindsided by the light of tedium.
There are nights that should be stopped, that should let us sleep,
That should crush and wring the pillow into our dreams, to put them to sleep too.

Have the eyes stop, the eyes that also deliver, shut, imagery for the inside,
Waste, garbage, everything is garbage, garbage that always ends in an abyss, the ultimate garbage of all.
If only I could still heed the warm breeze conveying the yellowish flavors
Tonight, on a night almost the same, almost the same numbers,
Were it not for the weight and burden of the dust, the dust that was brought from faraway, that is brought since forever.
Stockholm’s rain did not discourage the hunger for eternal nights,
The wind did not take away the want of open flesh, sweet Nordic flesh,

Only rabid foxes that'll cling to your legs for a mere glance, live in the hours of darkness
Unreal in the world where the seed was planted, so full of garbage,of soil and lands, of lives and deaths,

Of flesh that did not stay on, today only a few scars on tissue that refuses to regenerate.
Drink up, Drink up, and void the tedium with the annihilation of all senses

Any fiber of will, any given desire within walking distance, yet I stay on…
Stay in the unreal night that sticks to the skin, skin-tight, a black leech fattening on inebriated blood,

Where wolves starve to death, without a single sparkle in their dull eyes, and without a moon worthy of their howls.

The boats sink in the shadows, into the black and low waters of the river that leisurely dies,
Dreams cannot be seen with so much moonlight overshadowing, drowning out the stars.
There are nights that are not worth it, that should be spent on a bus
Crossing mountains, houses in ruins, moribund lands, and neglected bridges,
Heading towards the dawn of a new world.


25.08.2010


Torre de Dona Chama


João Bosco Silva, translated from portuguese by Sónia Oliveira

quarta-feira, 18 de maio de 2011


Aos Colegas


para a Sónia Oliveira,


Tenho entrado em veias diariamente e isto literalmente, não é poesia,

Se for é do tipo Bukowski: é vida, dói, mas é o que temos.

Têm-me sorrido com um ar agradecido, mas triste, no fundo triste

Como se, desculpa por a minha vida uma luta na tua,

Mas eu é que agradeço, não sei que valor lhe dão, espero que mais

Do que eu dou à minha. Se amanhã não acordar, haverá alguém

E o mundo continuará como se eu nunca e isto não é triste,

Tem é uma beleza real que olhos demasiado olhos vêem como triste.

A minha mãe escreve odes à minha roupa branca, umas vezes sangue,

Outras urina, saliva, outras merda mesmo, melhor que a desilusão

De uma linha recta que persiste, mesmo depois de trezentos joules

E incontáveis ampolas daquilo que as suprarenais deviam, mas o cansaço

É sempre tanto e a vontade, no fundo, é algo que nem sempre é suficiente

Para nos manter nós, por isso os outros, sempre os outros a ter

Um papel nas nossas vidas, mesmo que um indivíduo qualquer,

Vindo do sul e com os bolsos cheios de boa vontade de fazer o impossível

Para que possível. Gostava de poder dizer que tenho oito horas por dia

Sem ser poeta, mas na verdade os melhores poemas são os que escrevo

Nos monitores dos vitais e lembro-me de Miguel Torga, um pouco

António Lobo Antunes, a vida tem outro sentido, outro significado

E a poesia tem muito pouco a ver com palavras, mas devo ser dos poucos

Que estão enganados quando o polegar empurra o êmbolo e a vida regressa,

Outra vez, em cima de um cabelo frágil, cheio de si mesmo, até um dia.

Tenho pena que o infinito e a eternidade não sejam meus amigos, mas tento,

Sem necessitar de sorrisos com ar agradecido, mas tristes, mas mesmo assim

Obrigado pela vontade de amanhã.



18.05.2011



Turku



João Bosco da Silva



End of the World



It can’t be. I don’t want it. Leave it alone. Even if I am no longer breathing,

Leave the zipper wide open and my pallid face between the black plastic,

I must awaken in the meantime — don’t close it before I wake!

It’s impossible. I, the reason of the universe. I, that can open my eyes and create with them the city,

Cities beyond this one, by means of endless plans.

I invent the future with my dreams, the route with my desires,

Lying down and incapable to move? Impossible!

Who will chase the dog? Who will awaken to the scent of coffee at daybreak?

Who will embrace my love? Who will have the children I didn’t?

It can’t be. It's obviously a night terror.
I can’t shout, cannot budge a centimeter of my body,
There is no rhythmical movement of a respiration, nor can I feel any warmth over my temples,

I do not feel anything at all, just a half gray sky and a raindrop here or there that bothers

When it finally dawns on me. What am I doing on the streets, so far below them?

I should be asleep on the thirteenth floor, passed out drunk,

I should be slumbering in the bathroom, swamped in despair,

Because my problems are the worst in the whole world.

To die? I? Never has such conception been feasible!
And now, without a god, how will that go? This is, thus, a zipper that closes,
A darkness that swallows me whole, and then tomorrow, they’ll talk about me at work,

As if I was any another. I am not just another. I am Me,

The others… let it all happen to the others! Not to me. Never. It can’t.

I’m the center of it all. Who did this to me? Was it I? Who is weeping beside me?
I cannot move my eyes, I do not know who she is, but she says yes,
That it’s me. Can’t be me, I’m alive, I’m alive:
This is how it’s supposed to be, this is how I recognize me.
And now nothing? I wish to awaken! This is not for me, but for all others,
My time is not this one, it’s in a hundred years or more!

Because I know that one day, people won’t even die anymore.
And I’ll be lucky to live in those times. Will I have such luck?

Who awakens me? How can the rain still provoke my eyes?
Who cries for me? I refuse to consent that this may be my death,
She is not part of my plans, not true death.

In such wise, this solves nothing, I cannot even refuse.

Entomb me not in cold darkness, cry not for me!

Remember, as if this could keep me alive.

Can someone create me a god this instant? I’d like to ask if he could look away this time,Tell him I was just joking. I was kidding. This really isn’t wat I craved for.

If I didn’t know what this was, how could’ve I craved it truly?

The slide fastener ascends and comes close to my face,

I wish to shout, but there isn’t even an inner-scream within me, it’s useless.

With the last spec of light, just before the bag is completely shut,
I know my eyes will open. Flutter. Will they? Is this the end of the world?
A lonely end? While the others stay on, without staying really,
When someone dies, all those who stay behind die too, don’t they?
But what do I know about death? I am not dead. I cannot be dead.

I shall be the very last to die, without me, the world won’t be.



28.10.2010



Torre de Dona Chama



João Bosco Silva, translated from portuguese by Sónia Oliveira



terça-feira, 17 de maio de 2011


Um Ponto Final


As inofensivas uvas entre urzes e giestas, lá longe, a fermentar na memória

Que mata o cemitério de todos os mortos, até mais um, dentro de um reflexo

Até ao infinito e só o nada é do tamanho do tudo, dura a eternidade e nunca começou

De verdade, mais uns pés pequenos a esmagar ouriços debaixo de um castanheiro,

Que parece eterno, que parece mais real que todos os poetas juntos,

Um pico que se leva para casa, as mãos de uma mãe a procurar na caixa

Da costura uma agulha e um bocadinho de medo, quase como quando

Se abrem as pernas pela primeira vez, mais ao contrário e o sol dura pouco,

Logo começa a chover, a pele arrefece como se nunca houvesse verão,

Ainda com a pele nova a nascer, a areia longínqua a cair de lugares escondidos,

Menos a memória que fica, a sinceridade que se deixou em tendas de campismo verdes,

Onde a inocência não deixou que se fosse o maior, primeiro, sem interesse,

Melhor o último, melhor nada de todo, pára, não pára, abre não convida,

A inutilidade de todas as bandeiras como o excesso ao pé da fome,

Milhões em areia num deserto que ninguém conhece, mas todos sabem que existe,

E uma uva é tão pequena entre o polegar e o indicador, quase transparente

Quando se tenta ver o sol através dela, dourado o fio de azeite, alto, um raio de sol,

Sem o cheiro a musgo na sala, nunca mais foi Natal desde a última vez há tantos anos,

Tudo perde o interesse e cada aniversário é uma celebração do durar,

Como se isto tudo um concurso estúpido a ver, a ver, mas sem saber o que se está a ver,

Uma noite cansada, bebida para deixar o que se é na casa da casa, na almofada impossível,

Sem defuntos às costas, dos que partiram, dos que nos partiram, dos que possuímos

E nos possuem sem razão ou remorsos depois de se arrancarem da alma, ou algo

Que dói como tudo o que se é ao mesmo tempo, cortado por uma daquelas espadas

Dos anjos na bíblia ilustrada, com fogo e sabe-se lá que metal,

Sem interesse, porque no fim, já se sabe, depois de tanta vírgula, lá terá que vir um.



17.05.2011



Turku



João Bosco da Silva

sábado, 14 de maio de 2011


Uma Heineken no Infinito

para o meu tio Maurício,


Porra! Olho à minha volta e parece que ainda me cheira a medo de sueca

A dizer, outra vez e agora és tu e não consigo ser mais que um, quase que me asfixio

Com a ideia, há mil e muitos anos pequenos atrás, dos que são possíveis numa vida,

Com uma caneta emprestada de um hotel qualquer numa cidade que tento inventar

Todos os dias e amanhã (e, e, e) estarei só, sempre, desde que deixei de acordar

Naquela terra pequenina e tão grande, com o mestre a acreditar no amor de dezoito anos

Aos vinte e oito e eu também ou quase. Mais um golo de cerveja às tantas das tantas de tantas

E eu (e, e, e) só um, mesmo que as promessas me chovam como gotas frias das primeiras

Chuvas de Setembro. Não se pode fumar, não se pode viver, não se pode olhar, nem ser

E custa a estas horas de um dia que não será o último com quase certeza, quando amanhã

A puta da definitiva me andará a dar quase dores de cabeça, mesmo que seja a de um jovem

Da idade do meu pai (tenho saudades tuas homem das mãos de homem de verdade),

O meu avô, sempre o meu avô, fumou, bebeu e a vida tão boa quando se gasta, se usa

E que se lixe, é só uma, ninguém quer verdadeiramente perdurar sem sentir, para isso

Já há a morte. Ninguém sabe, nem eu, ó, eu que tenho a puta da mania de ser o maior

Ignorante deste mundo para o fim, como todos, sem universos paralelos, nem cigarros

De anos proibidos, nem beijos perdidos, nem cervejas roubadas, nem horas escondidas,

Nem mulheres molhadas e nem, e nem, sei lá, quem saberá. Ninguém me fascina, ninguém

Que me foi os meus dedos, a minha carne e à minha volta. O mundo não interessa

Quando se está à beira de um rio, de uma biblioteca, uma mesa de blackjack e nem

Um filho da puta que seja capaz de dizer o meu nome.

O mundo merece olhos fechados, sem vontade de amanhã.



11.02.2011



Turku



João Bosco da Silva