sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Postal Cansado Que Perdeu Todas As Cores Pelo Caminho

Penso que fiquei naquele dia em Julho, numa tasca vindo do Palácio do Freixo,
Senti que a cada ilustração, um pouco de mim lá ficava, nas manchas dos teus olhos,
Cada vez mais monocromático, debaixo das folhas de videira na esplanada
Ainda sentia o verde, das folhas, dos nossos olhos, do futuro que tão longe
E ali perto as mil cores de Dali e o rio, tão imprevisíveis como o horizonte
Com a distância subtraída, na manhã seguinte ainda vi a cor do pão,
Comprado na mercearia do lado, e o cemitério de Paranhos ainda tinha flores
Coloridas e chamas vermelhas apesar da tristeza que se levava para casa,
Devo ter ficado todo no cheiro do café, à noite já tive que te perseguir rua acima,
Não sei bem onde querias ir por aquela rua escura daquela cidade que não conhecias,
Daí marcares cada passo com lágrimas que te enxuguei nos lençóis,
Fiquei por lá de certeza, mas ainda há madrugadas em que recebo um amanhecer azul,
Como um postal cansado que perdeu todas as cores pelo caminho até mim.

22.01.2016

Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Shibuya

Foi numa das ruas que desagua na passadeira de Shibuya, estava encostado a uma montra
Enquanto acendias os olhos com mil brilhos artificiais em direção a mais uma loja,
Aquela gente passava com os seus pecados, os seus medos, os seus sonhos, as suas crenças,
Cada um com o seu próprio cansaço no olhar, olhando tudo menos os olhos que passavam,
Senti-me na berma de um deslizamento de carne que passa e leva a vida pelo caminho,
Procurei o refúgio de uma estrela, mas as luzes artificiais tinham apagado o céu,
Restou-me olhar para os próprios pés, como quem procura uma raiz onde se agarrar,
Aí tu regressaste com um saco novo, eu larguei a raiz, deixei-me ir e lá fomos os dois
Desaguar na estação de metro, onde quem não dormia, cabeceava escondido
Atrás de uma solidão imensa que cabe na palma de uma mão iludida e vazia.

20.01.2016

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Foste a suavidade
do granito na minha
pele bêbada
de luar nos
teus olhos.

20.01.2016

Turku


João Bosco da Silva
Não sei o que seria pior:
esquecer o teu nome
ou o teu cheiro
numa manhã
de Primavera.

Não sei o que seria pior:
esquecer o teu nome
ou o murmúrio
do meu nos teus
lábios de sonho.

20.01.2016

Turku


João Bosco da Silva
Depois, gostava de
Me encontrar em ti
Com os dedos e
Sentir neles o
Calor do teu brilho.

20.01.2016

Turku


João Bosco da SIva

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Não sei se escurecia
Ou era o desejo em nós
Que aos poucos cedia
Ao cansaço inevitável
Da fome violenta.

20.01.2016

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Foste o primeiro pedaço de metal
Que senti nos lábios
Contra os lábios e ao luar.
Hoje és tu quem parece
Uma lua prestes a ser nova.

19.01.2016

Turku

João Bosco da Silva
Lembro-me do sabor da tua
boca depois de me engolires.
Não demoraste em
comer uma banana,
tal era a tua fome.

18.01.2015

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 17 de janeiro de 2016

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

37 graus

Setembro depois do Dia do Trabalhador,
37 graus em Burbank, Calif.
estou a olhar para uma mosca
uma pequena mosca castanha numa cortina amarela;
os Mexicanos  seriam espertos o suficiente e dormiriam debaixo de árvores
num dia como este
mas os Americanos são dominados pela ambição
eles sobreviverão como poderosos e infelizes
neuróticos,
agora mesmo o dinheiro dos meus impostos está a largar bombas
em pessoas famintas na Ásia
enquanto eu me debato com a pequena mosca que voou da
cortina até perto do meu ombro;
tento acertar-lhe mas falho a mosca,
neurótico Americano eu,
os rapazes que pilotam aqueles aviões são bons rapazes, gentis,
eles matam apaticamente
com honra e graça,
sem ódio.
eu conheço um, ele é agora um prof que ensina Literatura
Americana na universidade de Oregon ,
já me embebedei com ele e a sua mulher, várias vezes,
então ele ensina-me,
o que é bom.
37 graus em Burbank
e enquanto me sento aqui
inúmeras coisas estão a acontecer,
a maioria coisas tristes
como mecânicos asneirentos com ressacas enfiando-se debaixo de carros
e dentistas bêbados arrancando dentes e praguejando
e cirurgiões carecas fazendo uma grande trapalhada,
e o editor da revista Time saindo com  o carro de marcha atrás
da entrada da garagem
depois de uma discussão com a sua mulher;
estão 37 graus em Burbank
e está um jacto lá no alto,
não acho que me irá bombardear,
aqueles Asiáticos não têm suficiente dinheiro de impostos,
os únicos Asiáticos espertos são aqueles que alegam ser
Supremamente Abençoados, falam bom Inglês,
deixam crescer espessas barbas cinzentas mais um sorriso celestial encimado por
olhos brilhantes e
cobram $4 por entrada no Santuário para
ensinar serenidade e não-ambição
e fodem metade das raparigas intelectuais da cidade.
estão 37 graus em Burbank
e aqueles que vão sobreviver sobreviverão
e aqueles que vão morrer morrerão,
e a maioria secará e parecerão sapos comendo hambúrgueres
ao meio-dia,
eu não sei que fazer –
enviem o dinheiro e mostrem o caminho,
sejam bons para mim,
eu gosto assim
sem esforço, fácil e agradável , lembrem-se,
eu nunca bombardeei
ninguém, eu
nem consigo matar esta

mosca.

Charles Bukowski, Mockingbird Wish Me Luck (Blacksparrowpress, 1972)

Translation: João Bosco da Silva
Nas paredes do meu quarto vazio
o teu nome persiste,
após anos sem olhos ou palavras
sou eu quem te faz existir
neste universo moribundo.

16.01.2016

Turku


João Bosco da Silva
O Sabor Do Mijo

Enquanto retraia o prepúcio numa mija no bar, lembrei-me da primeira vez
Em que mijei na minha boca, com um jacto forte, quente, jovem, limpo,
De uma gaita imberbe, nas traseiras da escola da aldeia na quarta-classe,
Que rebeldia, e a gaita tesa pela hóstia de Domingo desconsagrada no sangue,
Era pecado de certeza, como pecado era abrir as beiças das coleguinhas
E beijar-lhes o grelo mal lavado e grelado nas casas de banho e o esfreganço
Com ou sem roupa, dependendo da estação e dos irmãos delas,
Um gajo vinha-se em seco, uma espuma tímida quanto muito, seminal,
Provavelmente inócua, mas cheia de vício original, nada se sentiu romper,
Só aquela dor depois do gosto e ela e dizer que se não continuasse
Não voltava a pinar com ela no mini abandonado na eira do avô,
Era gosto, orgasmo primordial, depois eram as punhetas debaixo da carteira
Que a professora tolerava com muitos descruzares de pernas, diziam que gostava
Mais de foda que acordar cedo para dar aulas a garotos à geada na aldeia,
Agora o jacto em frente, expulsando o excesso de cerveja enquanto se procura
Em cada cerveja o sabor da primeira, comprada a meias com os primos
Na tasca da aldeia e bebida no curral das vacas enquanto as bostas
Caíam como sonhos esquecidos à força no chão sem palha que a água e o mijo lavaram.

Turku – Brewdog

12.01.2016


João Bosco da Silva
Se tivesse esperado pelo amor
nunca teria tomado azitromicina
e agora seria um esqueleto
sem pele à geada no muro
daquela casa abandonada.

16.01.2016

Turku


João Bosco da Silva
Um Tropeço Nos Dias Quentes

Tantas vezes me sento e espero que seja aquele banco à geada,
Com o cabelo recém cortado e as orelhas geladas, com uma mensagem
Da pessoa errada no telemóvel que mal me cabia no bolso,
Lá na terrinha, antes do restauro dos muros e do esquecimento das fronteiras
De outros, espero que seja a cadeira com a esponja a sair de um buraco
No barbeiro com hálito a cebola, com o calendário de há dois anos
A mostrar umas mamas que gravava para a punheta na cama que encolhia
E me esmagava com tantas mantas rodeadas por paredes manchadas com
Fungos moribundos com o frio, espero que na manhã seguinte ninguém me acorde
Para me encher com o cheiro a porco agonizando na lâmina do coveiro da terra,
Contudo, seguro no futuro presunto convulsivo e arranco as vísceras
Com mãos finas que os anos tornaram mais certeiras, sem sentir os dedos
Gelados pela manhã geada, com as cuecas no estendal, mais tesas que
A consequência daquela silhueta à porta, através do vestido azul em Agosto,
Enquanto os dióspiros acumulavam doçura encostados aos muros de granito,
Sento-me, abro mais uma cerveja, engulo-a e espero que valha a pena o passado
Que trouxer, o cabelo cai, queimado pelo sol, contudo escurece, também
O coração cairá, queimado pelo frio, pelos dias demasiado longos no Inverno,
Quando me rasgo, metro a metro, e nos intestinos ou circunvoluções,
Procuro uma recordação que me aqueça, que me faça não precisar das mantas
Na manhã alargada pela falta de vontade de continuar a envelhecer,
Mais um cabelo branco, a barba que parece um camaleão preguiçoso na cara pálida,
Tantas vezes me sento e procuro aquele frio das pedras de granito dos muros da aldeia,
Onde me sentava a ler Caeiro e tudo parecia tão simples e certo e cada derrota
Uma estação que tinha que se aguentar, há anos que não abro o livro,
Sempre na mesa de cabeceira, como um crucifixo à cabeceira da cama,
As geadas tornaram-se numa memória quente, enquanto o copo aquece,
Longe, perdido, onde só o cabelo e as unhas crescem, sem caixa e pena
E flores secas, velas por favor, missas, até o nome se tornar um tropeço nos dias quentes.

Turku

16.01.2015


João Bosco da Silva

domingo, 10 de janeiro de 2016

Foi a fome que te fez
esquecer o isqueiro
em minha casa.
Todos souberam que
incendiamos a madrugada.

11/01/2015

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Um Cheiro Entranhado Nos Dedos

“a poesia repete
o instante da sua criação, muito para além dos poemas
e do poeta”
Nuno Júdice

Não suporto este cheiro nos dedos, já lavei as mãos sete vezes, se calhar,
Isto agora só lá vai com um poema, mas os olhos hoje estão fartos da textura
Do papel desperdiçado em tanto génio, tanta verdade a ser dita,
É verdade o que se ouve nos cafés sobre a verdade ser como a poesia,
Ninguém gosta de a ouvir, terei que limpar os dedos nuns versos,
Como naquela visita à capital, aos 16 anos para o torneio de basquetebol,
A viagem toda a ler o Gatsby, desde Trás-os-Montes, escondido das miúdas
Que me queriam tirar fotos com as máquinas descartáveis, atrás das cortinas
E eu cobria-as de punhetas nos beliches do quartel da tropa, enquanto uns ressonavam
E outros não se calavam porque a mãe não estava e na verdade tinham medo
E queriam mostrar-se homens, tenho a certeza que uma futura poeta
Me piscou o olho no refeitório da faculdade, pisei o Pessoa sem saber quem era,
Distraído como estava com um par de lésbicas, os dedos gordurosos
Do hambúrguer, das primeiras, e um livro de poesia a ajudar na multinacional antes
De ir ver quem trocou a fome pelo kartódromo, na verdade não escrevi lá nada,
Andei ocupado em aprender a jogar xadrez e a fotografar o túmulo do Camões,
E as salsichas cozidas com o chocolate quente nas malgas de lata no quartel,
Não me pareceu uma refeição de poeta, faltava bagaço na coisa,
Já têm outro cheiro, à água do rio, entre o fato de banho à sombra
Dos salgueiros, já cheira à pele salgada a desabrochar em broche,
Já cheira aos anos perdidos e somados ao fracasso que agora simplesmente
Se aceita, como um cheiro entranhado nos dedos, que passa, mas persiste.

Turku

João Bosco da Silva


06.01.2016

domingo, 3 de janeiro de 2016

A Menina No Santuário Meiji

Enquanto a chuva cai entre casamentos no Santuário Meiji, os votos já se esquecem
Na caixa de madeira protegida pela irmã sagrada, um rapaz não consegue tirar os olhos
Das pernas de uma ganguro, os noivos são felicitados e assediados por objectivas
Anónimas e estrangeiras, à volta do canforeiro forma-se um anel mais claro
Onde a água não chega, mesmo que esquecidas, as promessas, estão secas,
Limpa de todas as promessas secas no esquecimento, uma menina, dança à chuva,
Salta sobre pequenos charcos que se formam, não quer saber da paz do mundo,
Acha engraçado atirar uma moeda pequena ao ofertório e que toquem no sino,
Mas prefere sentir a chuva cair e dançar para os estrangeiros que se protegem da chuva,
Ainda tem em si a salvação do céu cinzento no horizonte futuro, não se interessa
Com a chuva, porque dentro dela ainda brilha uma estrela que a protege,
Ela a irmã mais próxima do canforeiro que protege os votos perdidos dos adultos
Que em vez de aproveitarem a dádiva dos céus, se escondem na sombra
A invejar a inocência e a tentar aprisiona-la em três versos num papel seco.

04.01.2015

Turku


João Bosco da Silva

sábado, 2 de janeiro de 2016

Cemitério De Yanaka

Entre milhares de silêncios desconhecidos, debaixo de uma chuva miúda
Que humedece os ossos até à alma, rodeado de nomes gravados em pedras,
Cobertas pelo verde do esquecimento e pela mudez improvável do coração
De um monstro, sinto-me em casa, como naquelas tardes de tempestade
No fim do verão, em cima de fragas sem nome, vendo no horizonte
O acender súbito dos relâmpagos anónimos, as lanternas de pedra,
Tão apagadas quanto os meus olhos naqueles dias cinzentos, em casa,
Mergulhado em silêncios asfixiantes, como portões de pedra que encerram
A eternidade de quem perdeu a sua amostra de infinito,
No cemitério de Yanaka, longe de todos os que antes de mim,
Encontro-me com o destino comum e estrangeiro, a casa de todos, o silêncio
De pedra, entre árvores que esperam o Sol que a chuva lhes promete.

02.01.2016

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

A Convergência Do Esquecimento

De um salto no mar do norte de queixo para a ferida definitiva na carne tenra,
Fui desaguar no teu rio na companhia das constelações de beatas que te têm
Poupado os suspiros e o batom dos lábios, que se lambeu entre uma sobremesa e um café
Numa tasca invadida por poetas num baile de máscaras qualquer, onde quem mais
Fala e mais alto, assegura o ritmo cardíaco nas pupilas enganadas,
Pergunto-me se algum dia acendeste algum tipo de saudade fina com o isqueiro
Que me roubaste ao desejo, sei-o sepultado numa gaveta na companhia de moedas
Inúteis de outros países, estrangeiros como eu, fui realmente um miúdo em Tóquio,
Não nessa da tua cidade onde não voltei a encontrar olhares púrpura por cima
De uma sede a fuga, e sem ter acendido sequer um cigarro, trouxe-te até mim,
Entre um sake e outro, e foste a certeza da queda no ar, a porta aberta na casa de banho
Naquela festa à luz das velas, à sombra da eternidade que se ficou para trás.

Turku


30.12.2015

João Bosco da Silva

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Derrotadas Ilusões

“sou uma nódoa de sangue e esperma manchando a noite alheia”
al berto

Quis ver nela aqueles pedaços que ficavam dos sonhos, aquela mágica incerteza de realidade,
Os seus lábios de um filme sobre perdição e tudo demasiado tarde sempre, os seus olhos
A incarnação possível de uma personagem adoptada do mesmo filme, a sua presença
Na música da moda que se deixou de ouvir como certos sonhos se deixaram de esperar,
Uma noite em que morria pela esmola de um sorriso catalisada pelas primeiras cervejas
Da madrugada, dei-lhe a Lua e vesti-me de clichés, armado em poeta escrevi-lhe um poema
Cheio de olhos e fome e enviei-lhe o livro da pior doença, de tempos malditos e fossilizados,
Que ridículo nos lábios dela à amiga, dá-se demais, eu que nem o tropeço de um beijo,
E se calhar dava, agora saio como quem sacode o cansaço, beijo como quem paga um café
Para despachar os trocos, levo comigo apenas o necessário para mais uns versos sujos.

08/12/2015
20/12/2015

Turku – Ar


João Bosco da Silva

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

A Fogueira Que A Distância Apaga

“pensar em ti é ter seguro
outro universo inteiro onde não estou”
António Franco Alexandre

Ainda me fascina a proximidade das distâncias, o rei morto que ainda impele os gritos
Contra as portas geadas, acendendo fogueiras de tradição que apesar do atropelo dos anos
E do esquecimento definitivo dos velhos, continua, sobrevivente a extinções maiores,
A incendiar corações maltratados pela saudade, os nossos olhos foram treinados
Para distâncias, contar monte atrás de monte, galgar encosta atrás de encosta,
Nunca esquecer, levar toda a gente, a terra inteira para onde quer que se vá,
Sempre com a máscara que é mais nós do que a sorte que nos deram, foi a que escolhemos,
Além naquelas montanhas onde o Sol se põe, vejo ainda aquelas onde treinei o olhar,
Onde o Sol se porá mais tarde e a minha mãe dirá da varanda, com o ar carregado
Com o fumo das lareiras, olhando o céu vermelho, meu filho, como gostarias de ver este céu,
Imaginando-me mais longe, ignorando que ela também aqui, do meu lado,
Vendo o dia a ser consumido pela fogueira que a distância apaga.

Zurique

27.12.2015

João Bosco da Silva
Regurgitações 3

“E no entanto és gente, sangue e terra
corpo vulgar crescendo para a morte”
António Franco Alexandre

A vida tornou-se nesta longa despedida, ao Sol, com uma sede na pele como
Se fosse o último, no ar os ecos das chegadas, os sonhos fossilizados na seiva
Do passado que escorreu das nossas feridas, a noite sempre a mais familiar das estações,
Na companhia dos cães que ladram contra a solidão e nunca se viram,
A Lua despreza o nosso olhar nostálgico e encara-nos indiferente com a sua luz fria de pedra,
O verde brilha mais que a vontade de mais um dia, as crianças completos desconhecidos
Que se perderão como velhos amigos, sentem-se os apertos de mão mas não se
Reconhecem os olhares, tudo escorre ao ritmo viscoso de uma despedida,
Que se engole e se sente até desaparecer algures no peito, como uma chama
Que se extingue de cansaço, deixa-te ficar ao Sol na única forma possível à ilusão,
Uma nota esquecida, entre um olá e um adeus.

26.12.2015

Torre de Dona Chama


João Bosco da Silva
Fragamentações - Haikus Trasmontanos

Atrás do Gary Snyder
Em direcção ao monte
De São Brás.

Cheira à geada
Antes do
Verbo.

Encontras um amigo
No acaso e amanhece
No crepúsculo.

Será que não percebem
Que o dinheiro não comprará
Uma nova Terra?

As raposas, selvagens,
Gostam de cagar
No alto.

A motosserra subjuga
O cantar dos
Pássaros

A gasolina um dia
Acaba e as aves
Serão ouvidas.

Nesta fraga escrevi
Um poema, hoje
Num livro na capital.

Gary Snyder, hoje
O nosso Jack
Está comigo.

Tudo arde, contudo
O verde regressa
Além do fim.

As hastes dos óculos
Atrás da orelhas,
Os carros que passam.

Obrigado pelo silêncio
Da solidão
Possível.

Rodeado de Montes
A eternidade parece
Segura.

Ouço as folhas cair
E lembro-me da
Infância.

Ao Sol o orvalho
Das couves, breves
Diamantes.

Tantas vezes me
Quis perder
No regresso.

As telhas que cobriam
Hoje esmagadas
Sob os pés.

Anoitece e cai nos
Olhos de uma mãe
A saudade.


Dezembro 2015, Torre de Dona Chama

sábado, 19 de dezembro de 2015

American Dream

Conheceram-se no exército americano, eu na cozinha naquela festa de estudantes,
Não sei se o futuro brilhante, mas andei a cuspir brilhantes durante uns dias,
Tiraram fotografias na praia no dia do casamento, faltava um cavalo,
Eu parecia um a montar à pressa antes que alguém viesse buscar um copo
Ou à procura de quem os tinha ido buscar, a filha ruiva e ambos com dentes
Que facilitam o reconhecimento de cadáveres quanto à proveniência,
Tudo tão longe, os óculos chocados da velha quando abriu a porta
E viu a amante de franceses a chamar puta a um portuga, entretanto
Mundos acabaram, outras guerras foram inventadas para desculpar mais umas
Linhas imaginárias, justificadas com outros frutos da imaginação,
Se calhar entre as hemácias ainda me corre uma purpurina daquela noite,
Aquelas beiças imaculadas, tão lisas como a inocência, as mãos cheias de orgulho
Texano, longe, dedica-te à pesca, dizem-me em relação a escrever poesia,
Tenho apanhado belas tempestades, é só um deixar-se afogar mais uma vez
E esperar que no fim os destroços sejam lidos por alguém que também
Acredite que o passado é influenciado pelo futuro.

19.12.2015

Turku

João Bosco da Silva
2ª gm

uma vez que os factos são artifícios da ficção
vamos chamar a isto ficção   para como todos os bons meninos e meninas
podermos relaxar

                                estava em frisco   um lugar dândi com lagos e assim
podia ver a ponte de ouro e não era um dente   da minha janela
bebida suficiente   quase sempre bebida suficiente

escrevi ao velho lá em l.a.   podes bem arranjar uma história
para o raio dos teus vizinhos   porque não vou para a tua
guerra

                se não fosse pela guerra   a última guerra   não estarias aqui
eu não teria conhecido a tua mãe e tu não terias nascido
                               FILHO, O TEU PAÍS ESTÁ EM GUERRA ! ! ! !

o facto de eu ter nascido por causa de circunstâncias de guerra
não me pareceu um argumento válido para criar circunstâncias adicionais

                saí e embebedei-me   como deve ser

na manhã seguinte fui até à junta de recrutamento

um rapaz desmaiou quando lhe tiraram sangue do braço e eu olhei para a
agulha espetada na minha veia e vi o vermelho em mim a correr para o tubo
e senti-me duro

                               eles olharam-me o cu
                               e então fui ver o psicólogo

tens os calções às avessas disse-me ele
levantei-me e virei-os
                                               ele sentou-se ali a olhar para mim
O QUE É QUE ACHAS DO PICASSO?
                                                               primeiro  disse eu   bom  agora nem tanto
escreves ou pintas?
                                      sim
e?
    e quê?   EU PERGUNTEI SE ESCREVIAS OU PINTAVAS.   deixa-me em paz
disse-lhe

ONDE É QUE FOSTE PUBLICADO? QUADROS EXPOSTOS?
                                                                                                              nada aceite
                                                                                              nada aceite   em nenhum lado
acreditas na guerra? Perguntou ele   não   disse eu
ESTÁS DISPOSTO A IR PARA A GUERRA? perguntou-me   não   disse eu
PORQUE NÃO ÉS UM OBJECTOR DE CONSCIÊNCIA? porque disse eu
não estou certo de que haja um Deus
NA PRÓXIMA QUARTA À NOITE TEMOS UMA REUNIÃO, UMA FESTA
PARA MÉDICOS, ESCRITORES E ARTISTAS   QUERO-TE LÁ
ESTOU A CONVIDAR-TE    QUERES IR?

                                               não

está bem   disse ele   não tens que ir
queres dizer   perguntei   à festa ou à guerra?

nenhuma de ambas   disse ele   não pensavas que íamos perceber   pois não?

não

ele escreveu algo num pedaço de papel e dobrou-o e enfiou-o no meu cartão
com um clip   entrega-lhes isto,   para a fila

ele escreveu como o diabo no papel   enquanto caminhava consegui
puxar a ponta do papel mas tudo o que consegui ver foi
                                                                                                              ESCONDE UMA EXTREMA,
SENSIBILIDADE DEBAIXO DE UMA POKER FACE
                                                                                              o que era novidade para mim
e então um gajo de uniforme gritou-me
MUITO BEM   FILHO   O TIO SAM NÃO TE QUER
                                                                                              e eu sai para o
ar limpo e belo

vais para a guerra   perguntou-me a senhoria   não   disse   mau coração
que mau   sinto muito   disse ela   e eu subi lá para cima e servi-me
dum valente

mau coração mau coração mau coração   fizeste algo mal
se calhar devias ir   se calhar devias ir e meter-te lá

que diabo,   amigo   não te quiseram   o tio sam não te quer
és louco
                eu sorri e servi-me de mais um

não sei quanto tempo mais tarde mas um pouco mais tarde estou sentado noutro
quarto barato   philly   estou a beber uma garrafa de porto   tenho um gira
discos e estou a ouvir o 2º movimento da 2ª sinfonia de Brahms
                                               quando alguém bate à porta
                                               com um bater muito educado

e como eu não conhecia   bem ninguém   pensei que era ou
uma da putas da esquina apaixonada por mim
                               ou alguém para me dar o prémio nobel

e abri a porta e 2 homens grandes lá estavam e um deles disse
F.B.I.   e o outro disse   estás preso

fui tirar a agulha do braço do Brahms
queremos interrogá-lo   disseram eles   no centro
tudo bem
é melhor vestires um casaco    podes  estar fora algum tempo

descemos as escadas e saímos para a rua e entrámos no carro
parecia que em cada janela tinha uma cara lá pendurada
e estava outro gajo nos bancos de trás e disse   mantem uma mão
em cada joelho e não as movas
                                                               dirigiram algum tempo e então
tento chegar ao nariz para o coçar
                                                               OLHA ESSA MÃO!   grita um deles
este gajo é bastante descontraído   disse outro
acho que apanhamos um dos bons   sim   acho que apanhamos um dos bons

oh senhor oh cristo   pensei   que terei eu feito
que terei eu feito

eles levaram-me para uma sala quase vazia não fossem as
fotografias nas paredes

                vês estes   um deles apontou   voz toda misteriosa
                sim   disse eu
estes são homens que morreram ao serviço do fbi

                               eles levaram-me para outra sala onde um homem
se sentou à secretária com as mangas da camisa remangadas

                BUKOWSKI?
                                               sim
                                                               HENRY C. JR.?
                                                                                              sim
                                                                                                              ONDE RAIOS ESTÁ O TEU TIO JOHN?
o meu quê?
                               ONDE RAIOS ESTÁ O TEU TIO JOHN?
                                                                                              eu pensei que ele quis dizer que eu tinha algum
tipo de coisa secreta com a qual andava a assassinar gente
                O TEU TIO: JOHN BUKOWSKI!
                                                                              oh diabo   john   ele está morto
NÃO ADMIRA não termos conseguido encontrar o cabrão!
PORQUE TE ESCAPASTE DO RECRUTAMENTO?
                                                                                              sou um 4f
4f   hein?
                sim louco
                                               porque te mudaste sem notificares a tua junta recrutamento?
não me interessei   jesus   pensei que estava resolvido
                               porque te mudaste?
                                                                              fui expulso por estar sempre bêbado
a senhoria disse que tinha sangue nos lençóis

PORQUE NÃO NOTIFICASTE A TUA JUNTA DE RECRUTAMENTO?

olhem   vocês estão loucos   só me mudei  para o virar da esquina   70 metros
de distância   dei aos correios a minha morada   se eu me quisesse
esconder podia fazer melhor    que isso

NÓS TAMBÉM NÃO TE BATEMOS, OU BATEMOS?
                                                                                                              não
E NÃO TE COLOCAMOS AS ALGEMAS, OU COLOCAMOS?
                                                                                                                             não
VAMOS TER QUE TE DETER PARA INVESTIGAÇÃO ADICIONAL . . . .

                eles levaram-me para uma cela pequena com uma sanita e um lavatório
 sem beliche   sem cadeira   fiquei em pé junto à janela e olhei através das grades
era Domingo de manhã e era uma das principais ruas da baixa
e estava sol   olhei bem lá para fora   gente
caminhando   sossegadamente   calmamente   uma loja de discos emitia a sua
música para as ruas    não me sentia bem    tu só começas a
sentir falta da vida simples depois de ta tirarem   depois de ires
para um hospital e estares numa cama   para se calhar morrer ou regressar
ou para a prisão   sem saber quando ou se irás sair
é então que pensas   é então que a luz do sol te parece bela
é então que o simples caminhar até à esquina para comprar o jornal
é algo como a 9ª de Beethoven

fui transferido para uma prisão   uma prisão muito maior no dia seguinte
meteram-me numa cela com um pequeno homem gordo que parecia
um homem de negócios

                ele estende a mão:   sou o Courtney Taylor
                inimigo público número um
                                                                              aperto-lhe a mão
porque estás dentro?   perguntou
                                                               ele disseram que era um desertor
ouve   disse ele   só há uma coisa que não gostamos por aqui
um tipo que não nos é útil de todo   e esse tipo é   o desertor
                honra entre ladrões
                                                               hã?
                                                                              que queres dizer?
                                                                                                              quero dizer   seu cabrão,
deixa-me em paz
deixa-me em paz

se te queres matar eu digo-te como   ele disse
                                                               não quero saber   disse eu
tudo o que tens a fazer é trazer o balde até aqui   enchê-lo de água
tiras o sapato   colocas lá o pé   mas primeiro baixas
a lâmpada   eu seguro-te às cavalitas e podemos desapertar
os parafusos do tubo   depois dobra-lo   tiras
a lâmpada   enfias o dedo no buraco    o teu pé no balde
e estás fora daqui

                               soou-me bem mas havia algo grotesco e
embaraçoso naquilo   de algum modo   então decidi não o fazer

                estiquei-me no beliche e logo senti coisas
a picarem-me   percevejos
                                               ouve   disse eu   tu jogas?
                                                                                              que queres dizer?
quero dizer   disse eu   vamos apostar cinco centavos por percevejo   aposto que consigo
apanhar mais que tu
                               eles não saem enquanto não apagarem as luzes   diz ele
                                                               queres dizer que ainda piora   perguntei
                                                                                                                             multiplica por 30,
já disseste ao guarda?
                               o carcereiro?   vou dizer-lhe de novo
EI CARCEREIRO   CARCEREIRO ! ! !   TEMOS PERCEVEJOS AQUI ! TIRA-ME
A MERDA DESTES PERCEVEJOS DAQUI   EI CARCEREIRO !
                                                                                                              ninguém apareceu
começamos a jogar ao 21   blackjack   e 5 minutos depois o carcereiro
aparece
                vamos ver se não gritamos tanto   e fostes vós desgraçados que provavelmente
trouxestes essas coisas para aqui convosco
                                                                                              tive sorte num jogo de dados no pátio
de exercícios e continuei com sorte   3, 4, 5 dias e comecei a sentir-me melhor   estava a
ganhar mais dinheiro do que alguma vez ganhei lá fora   estávamos sempre
com fome ali mas depois de apagarem as luzes o cozinheiro vinha com
gelatina e chantilly e café e pedaços de lombo e eu passava-lhe
um dólar ou 2 e o meu amigo inimigo público deixou de falar sobre
os malefícios de viver com um 4f   e logo quando estávamos a começar a
desfrutar das nossas apostas de cinco centavos por percevejo   Taylor   sendo um vigarista de
primeira ordem   não conseguiu resistir em partir alguns dos dele ao meio   mas sendo eu
poetastro e um contador de lápides   sentindo a lâmina contra o meu
cérebro soluçante   eu   eu fui mais ágil . . .   e então o psicopata e o inimigo público
número um arrancaram fora as almas dos percevejos   enquanto o mundo
apertava os tomates e mais agonia: 2ªgm
e esquecemo-nos no nosso pequeno morrer de reconhecer a pequena nobreza
de o que quer que seja
                                               MASSS   como estava a dizer
                                                                                              logo quando estávamos a começar a
desfrutar os nosso percevejos   eles tiraram-nos da cela
                                                                                              5 ou 6 dias depois
da primeira queixa   para fumigar
                                                               e eles puseram-me com um polaco
ou algo
                velho   velho   velho
                                               ele rasgou-me o lençol da cama a primeira vez
que fui para o pátio de exercícios   para fazer com ele um estendal
                e eu tenho uma pele muito sensível apesar da minha poker face
e os cobertores de lã   só aqueles que não conseguem aguentar lã áspera irão
entender o que quero dizer   então digo ao velhote
                                                                                                              ele estava sempre na cagadeira
soprando num tubo vazio   e todo aquele improviso de merda
do estendal a pingar com as meias e trapos do polaco
                (esquece o meu nome   sou um nobre Prussiano)   (isto é ficção)
(não é)   (estou a ficar um pouco farto disto e já marchava
um belo naco de cu   que homem o recusaria?)
                                                                                              ele estava sempre na cagadeira
bufando   dizendo
                                               TARA BUBU COME   TARA BUBU CAGA
                                               TARA BUBU COME   TARA BUBU CAGA
                                                                                                                             repetidamente
                                                                                                              então ele ria-se
ele estava a ensinar-me sobre os factos da vida mas tudo o que conseguia sentir
enquanto os pássaros azuis eram afastados dos penhascos brancos de dover
era aquele cobertor de lã contra mim e por todo lado

OUVE   SEU VELHO DO CARALHO   disse-lhe   EU JÁ MATEI DOIS
HOMENS   E MATO-TE TÃO RÁPIDO QUANTO COÇO
O MEU CU ! ! !

                e o velho idiota só se riu de mim   e por um momento vi
vi que era possível   porque não   as minhas mãos à volta daquela carne enrugada
de morgue   quem diz que não podes matar o que já está morto   os olhos saltam-lhe
a língua   os pulmões procuram ar como gatinhos atrás de um novelo
mas era demasiado horrível   não acho que o que meteu o Dos no
Crime e Castigo tenha sido que um único homem não pode julgar o que
erradicar   mas que ele PODIA e SABIA-O   e era mais fácil deixá-lo
para Deus   porque tu irias finalmente erradicar
tudo incluindo-te a ti mesmo   (embora normalmente comeces contigo mesmo e
erradicando-te a ti mesmo, erradicas o resto)   e isso faria de Deus
um fracasso e não serviria   porque se eliminares Deus
terás que te resumir a ti próprio   e um Indivíduo construindo em 20 ou 30 ou 60 anos
não pode igualar e 2000 anos de raízes e tradição acumulados   e então Dos
fez a coisa mais inteligente em admitir que ele podia estar errado mesmo que sentisse
o contrário   e eu deixo o velhote cagar e expelir tara bubu e dormir
nos cobertores de lã
                               eles acabaram-nos com o jogo de dados desde a torre
                               o guarda apontou-nos a metralhadora
o gajo com o dado estava a levar um bom bocado de cada
monte e os vencidos estavam a ficar chateados   acho que o devia ter
dito assim ao velhote   mas um gajo disse ao fornecedor
do dado   NÃO VOLTES A PÔR AÍ A MÃO SEM EU TE DIZER PARA O
FAZERES
                               e assim foi   até o guarda se dar ao trabalho    apontando o seu
nariz de aço

                ele vieram buscar-me e enfiaram-me numa sala qualquer
estavam a escrever um relatório
                                                               eles perguntaram-me como se escreviam algumas palavras
como Andernach e por aí fora
                                                               já tinha uma longa barba ruiva por aquela altura
e eles perguntaram-me porquê
                                                               e eu disse
                                                                              já alguma vez estiveram na última cela onde passam
a única lâmina de barbear aos da primeira cela e essa mesma lâmina é usada
até ao último homem na última cela, e já estiveram presos com um
velhote cujo único prazer na vida é comer e cagar e barbear-se   e
tiravam-lhe 1/3 do seu prazer tirando-lhe a lâmina para se barbearem PRIMEIRO?
além disso eu uso esta barba para lutar com os cobertores de lã

                               acho que o miúdo é maluco   diz um deles

de qualquer forma   3 ou 4 dias depois
                                                                              eles libertaram-me
só que antes tive que passar por outro exame físico para o exercito
mas uma vez mais
                não consegui passar do psicólogo
e nesse mesmo dia
                               quando me libertaram
                                                                              mesmo antes de ter tentado encontrar
um quarto   deitei-me no parque ao lado da biblioteca da filadélfia
                                                                                                                                             deito-me
de costas e sinto os pequenos insectos da erva subirem por mim acima e deixo-os
subir   eles eram imaculados
                                                               e deixo as nuvens descerem
sobre a minha cabeça   mas o céu tinha má cor   aleijava-me os olhos   nada estava
bem   comecei a encher-me de tristeza
                                                                              e então ouço umas raparigas que passavam
a falar e a rir   e uma delas tropeçou no meu tornozelo
e ela disse   OOOh   OOOH   e depois riu-se
                                                                                              e eu lancei-lhes
um olhar   desde a minha vermelha barba lanuda  e uma delas disse
OOOOH   EU   QUERO-O ! ! !
                                               então deito-me novamente e volto para as nuvens
                                                                                                                                             até depois
arrastando-me para fora da miséria do túmulo
sento-me num banco do parque a olhar para o transito a passar
e então chega   uma longa caravana de camiões
cheios de bons jovens soldados que só queriam viver
e eu era jovem e via   e por um momento amei-os   a multidão
mas uma vez mais viraram-se contra mim   e desde o primeiro camião
veio um assobio e um insulto e então vaias   uma algazarra de ódio vil
eles queria-me com eles   e toda a avenida se encheu de barulho quente
e mais camiões chegavam lentamente   e era uma opera   era uma
opera de condenação, mas eu não teria querido a guerra   nunca e
os deuses   os deuses os dados têm sido bons   e eu aceno-lhes
e sorrio   alguém grita   SEU CABRÃO   LEVANTA ESSE CU
MORTO !

                mas não levantei   vi-os ir   para onde iam
eu imaginei que o que desmaiou   ele também estava lá

                                                                                                              eramos todos
muito jovens   eu era jovem   eles eram jovens
                                                                                              mas eu imagino
sendo a guerra uma besta   a multidão uma besta

que eu não era tão jovem quanto eles


Charles Bukowski, in Mockingbird Wish Me Luck (Blacksparrowpress, 1972)

Tradução: João Bosco da Silva