quarta-feira, 20 de julho de 2011


Sem Coisas Profundas Também Sai Poema (desnecessário)


Lembras-te daquela noite no Carnaval, um baile de finalistas, um de muitos, do sofá ao fundo,

Lembras-te dos meus dedos na tua pele, da minha língua bêbeda com quatro ou cinco cervejas,

Do meu amigo no sofá em frente, agora casado, com a mesma, mas agora mulher e o que terá

Corrido mal para a resignação ter sido tão precoce, ou bem para… não me fodam!

O meu mestre comeu-a, as adolescentes são demasiado fáceis e é injusto e a vida morre-se

E não passa de uma adolescente e é injusto. Serei o único a levar as noites ao limite do estômago,

Ou serei o único que não leva a sério isto que é a brincar antes da eternidade, têm-me faltado

Pontos de interrogação, mas não é por falta de dúvidas, é mais por orgulho, falta de humildade

Nos dedos cansados de humidade e tenho dito tantas vezes não, que tornam as vitórias dos heróis

Pequenos em cervejas quentes e apressadas, como uma masturbação de uma semana sem carne fresca.

Meus filhos, eu conheci Ginsberg e nem Kerouac me disse nada acerca do que estou a fazer,

Por isso continuo, porque não há mais nada que seguir em frente, siga, que o abismo lá espera,

Hajam ratas e adolescentes idiotas e mães esfomeadas por um pedaço de carne e um sorriso,

Um elogio que lhes ressuscite a beleza (a juventude é contagiosa mas não dura na realidade),

Haja ilusão e amor e outras ilusões que se sentem mais que a dor, paixões, ejaculações porque:

Ai que me venho e o resto que se lixe e o resto depois a possibilidade de um universo, de mais uma morte,

Tenho tido colegas a engravidar, tenho afilhados, tento adiar a sorte, bebo com pressa, não venha

Algo sem a minha vontade bater-me à porta e dizer: lembras-te do joelho de Rimbaud

E eu respondo, haja sangue como Kerouac, mas dentro, sem chumbo, que o velho Hemingway

Devia ter esperado pela morte, mas quis ser mais fraco, ou forte, ou não sei, porque

Os meus amigos insistem em levar a mal as minhas quase tentativas: e eu com isso? Venham antes,

Não se armem em corvos, mas não me faz falta, a sério que não, hajam tios e copos para encher de vazios.

Lembras-te? Quase foste uma paixão de adolescente, quase que vivias para o meu sempre possível,

Quase que te fazia musa de demasiados poemas (maus), sempre maus quando escritos com “amor”,

Ou o caralho que isso for, mas lembras-te? As tuas nádegas duras nas minhas mãos esqueléticas,

O meu tesão (sei como te domar agora cabrão), quase a rebentar-me nas calças e uma bebedeira

De pouco mais do que quatro ou cinco cervejas. Dava o dia todo de hoje, a meter vida em veias,

A recordar conquistas que muitos invejam, só porque pensam que é muito melhor do que o que é realmente,

A recusar o convite para uma orgia (pronto, a três) numa cabana em Perniö, só porque o cansaço

E também a falta de bolsos para mais memórias desse tipo, e haja cerveja e uma

Descendente sueca à minha espera no bar irlandês: isto não é poesia? Então? Matem o gajo que só tem um poema.

Fartinho de o ouvir, lembras-te, afinal és grande nos pequenos, eu não chego a existir

Nem nesses, nem noutros, sou e chega-me (não, não falta nenhum ponto final)



20.07.2011



Turku



João Bosco da Silva

terça-feira, 19 de julho de 2011

BATER PALMAS E SETE PALMOS DE TERRA NOS OLHOS




Apresentação dia 26 de Agosto pelas 21:30, na Galeria-Posto de Turismo de Torre de Dona Chama.

domingo, 10 de julho de 2011


Ensaio Sobre O Cansaço Ou Mais Um Poema Desnecessário


Às vezes é algo como cansaço, uma ausência viscosa que se sente dentro e só

A solidificação em palavras, só a regurgitação de um sentido, alivia a acidez do fascínio

Doloroso que é um segundo a menos a cada segundo que passa, por cima de tudo

E a época das cerejas já acabou e este ano não existiram cerejas, nem tardes em cima

De cerejeiras até o estômago doer, só a dor no estômago que se propaga como

Um magma, mas afinal só bebida a mais numa noite tão pouco noite, e sucos gástricos

Que são tão pouco, tão mais nossos que quaisquer palavras que nos possam sair dos dedos,

Porque são de todos e todos querem ser donos exclusivos, mas não há uma forma,

Nunca houve uma forma, só o fim é comum e a eternidade é demasiado grande para as mãos,

Sejam elas quais forem e até a hipocrisia dos padres se apaga na hora da morte, Ámen.

Um ponto final tem muitas vezes o tamanho do infinito até que Um cai e recomeça

A sinfonia monótona das sílabas, da tentativa de dar vida ao silêncio, dar uma razão aos olhos

Para se moverem, para moverem o interior e o levarem a lugares que sempre lá estiveram

À espera da sugestão dos outros, ou do tempo para correr no tempo, fecham-se os olhos

E vê-se o cansaço, mais que uma palavra, mais que gotas de metal quente, que pingam

Na carne que todos somos, sem almas além dos gritos enquanto se dorme e se sonha

Com aldeias pequenas e bruxas e antigas paixões que nunca chegaram a perder-se,

Simplesmente se deixaram passar, porque às vezes não se deve tentar preencher o vazio

De um desejo, porque vale mais que o tamanho insuflado da desilusão resignada de se ter cumprido.

O cansaço em forma de cristal, de fragilidade que não se suporta mais, só por ser

Demasiado fachada e no fim o que se quer é brutalidade, o sabor do sangue nos lábios,

Dois dedos dentro enquanto se dilata para mandar a moral às urtigas e a missa de Domingo

Para o inferno, porque o que interessa são as palavras nas mãos, não as mãos nas palavras

E nasce um sorriso triste, dos que reflectem o ridículo alheio abençoado pela cegueira

Dos espelhos mentirosos, tem que se acreditar no que se quer, tem que se morrer enganado

Para viver para sempre, tem que se tentar para no fim acabar debaixo de um cansaço

E de uma vitória com o mesmo peso da derrota, no fim só haverá cansaço e todas as palavras

Serão inúteis na eternidade, todas as palavras são pedaços impossíveis de infinito

E o infinito não é amigo da memória, nem dos muros dos caminhos em direcção

Aos soutos e até a bicicleta daquelas voltas foi comida pela ferrugem, apesar das cicatrizes

Persistirem numa dor esquecida, de tempos frescos, livres, antes da corrida começar a sério.



10.04.2011



Turku



João Bosco da Silva

quinta-feira, 7 de julho de 2011


A Caminho De



Naquele autocarro, em direcção à capital com dezasseis anos, o Sol escaldante do asfalto

E as horas mais compridas do que agora, com os amigos eternos, a equipa cheia de esperança,

Sem grandes ambições além de chegar e tentar o melhor, ver Portugal jogar

E regressar cheios de histórias e algumas fotografias na máquina fotográfica descartável

Para mostrar aos pais e aos colegas que passarão o fim-de-semana nas suas terras quentes e saudáveis.

Naquele autocarro com dezasseis anos tão grandes, as mãos cheias de vontade e de oportunidades,

As mãos vazias e prontas para agarrar a sorte que nunca chegou realmente a aparecer,

Foi-se andando, por essas estradas da vida, até ao momento longínquo destas saudades

Em forma de dedos que escrevinham algo que tenta ser um poema, que tenta ter algum interesse,

Que luta pela atenção dos olhos alheios como se disso dependesse a sua existência,

Com os olhos fascinados pela paisagem, que se altera a cada quilómetro, em direcção ao Sul,

O Portugal real e o resto, nós, não sei bem o quê, quase esquecidos no próprio reino esquecido,

Com O Grande Gatsby aberto, a tentar entrar e eu sem pressa, porque também eu regressarei um dia,

Até que esse dia chegou e eu regressei mais pobre, mais cansado, mais desconhecido para aqueles

Que me conhecem tão bem, não fossem eles partes daquele que digo ser, muito mais que o nome,

Eu com o F.Scott Fitzgerald nas mãos, enquanto uma miúda tagarela de catorze ou quinze anos

(Gostava bem de passar a viagem a beijá-la) me tenta tirar uma foto e eu sem perceber porquê,

Nunca percebi bem porquê, mas sorrio, sorri, escondi-me atrás da cortina do autocarro

E ela sentou-se no lugar ocupado por F. Scott Fitzgerald e quase sobre mim, roubou-me um pouco

Do pouco que era, ainda menos hoje e ter-me-ia levado todo se lhe tivesse provado os lábios

(Antes de aprenderes a atrair, aprende a afastar), mas eu com ilusões de palavras e escritores

E que ainda há tempo, até o tempo chegar, dez anos passarem e os poemas cada vez menos meus,

Cada vez mais longos e com menos significado, a fruta cresce mas torna-se seca e o sumo

Não depende do tamanho, deu-me a sede e o refrigerante patrocinador do torneio em todo lado,

Naquele autocarro em direcção ao Mosteiro dos Jerónimos, onde os meus pés virgens

Pisaram o túmulo de Pessoa e o meu ar sério ao lado de Camões com Vasco da Gama

Sem perceber que fazia eu ali, de fato treino verde, queimado do sol no nariz,

E eu agora sem perceber nada do que até agora e com a sensação que nem vale a pena

Tentar, porque cada segundo que se passa a tentar é tempo perdido numa derrota que se espera inevitável.



06.07.2011



Tampere – Turku (comboio)



João Bosco da Silva


Regurgitações II



Ter os olhos abertos num dia em que o Sol nem descansou, em que cada segundo é um orgasmo

Primordial e inocente entre as muralhas erguidas pelos deuses asgardianos mais reais do que os

Crucificados, porque nunca nasceram, nunca morreram e apesar de terem perdido a fé

Dos seus seguidores, não foram esquecidos. Se aqui for o céu dos católicos tornar-me-ei crente,

Se não (ainda estou vivo, apesar de tudo demasiado belo) continuarei ateu, mas contente e só terei

Pena por a morte me tirar todas as imagens que tentei tornar eternas dentro de um corpo insignificante

Que criou isto tudo em miniatura enquanto lia Trold num quarto pequeno na baixa do Porto,

Porque é impossível imaginar o tamanho real das montanhas mitológicas encerrado entre ruas escuras.

Aves cujos nomes desconheço cantam-me sinfonias que os olhos ouvem com imagens, ao longe

A neve eterna salpicada nas rochas forjadas nas lutas entre titãs, o meu coração também

E uma criança grita palavras que já não consigo traduzir, mas compreendo, lá no fundo

Onde me moram os sonhos, um jovem corvo, enviado por Loki, olha-me com uma profundidade

Negra e segue caminho lentamente, à esquerda Onsogssenter, lê-se na placa e quem sabe noutra vida,

Tromsø finalmente ao alcance real dos olhos e alguém me chama para jantar, baleia,

E o sabor faz-me lembrar os javalis do meu avô, enquanto o Sol ainda alto, luminoso

E maior acima das montanhas da minha segurança infantil. A vida vale a pena e até três

Pequenas ovelhas me parecem dizer mais verdades com o seu olhar curioso do que mil

Poemas escritos à beira de um abismo interior, na segurança de um regresso perdido à casa que nunca mais.



04.07.2011


Hatteng (Noruega)


João Bosco da Silva

sábado, 2 de julho de 2011


Conversa No Trabalho


Falam fascinados da sua casa nova, o armário que tem três prateleiras e a

Primeira é para escorrer a loiça, o sofá azul e a inesquecível visita à loja de móveis,

Com design sueco e fabricados na China ou em Portugal, onde nascem desejos de

Mais cadeiras (sempre vazias), mais almofadas (que serão só para estar e ocupar espaço),

As janelas, quantas são e a luz que deixam entrar, falam com uma excitação infantil,

Quase me assustam, mas fico na mesma (não me movo por dentro), a olhar para os seus

Gestos exagerados sobre quadrados, acenando que sim com a cabeça como quem ouve e

Compreende, mas não, não compreendo a excitação deles e eles nunca compreenderão

O meu fascínio por outras inutilidades eternas, que me pertencem, mesmo que não as

Possua, mas não hesitam em chamar-me de poeta ou maluco, quando lhes falo do

Aroma delicioso a verde quente das manhãs de Julho(antes de começarem os incêndios),

Ou quando gesticulo como quem pinta numa tela gigantesca com os dedos, apontando o

Crepúsculo pintado a cor-de-rosa, púrpura, cor de laranja e felicidade melancólica de mais um

Dia para mais um dia, ou quando conto como é aquela festa no Inverno com uma fogueira

Enorme e o ar cheio de ancestralidade e paganismo inocente, ou quando lhes explico

Tudo o que aconteceu antes do fumeiro na mesa e me olham chocados, com olhos enjoados

Enquanto os meus brilham com o sangue ainda quente, sem gota do sadismo que eles lêem.

Falam fascinados do seu mundo quadrado, mas eu não consigo vê-lo de outra forma que não

A dele e pergunto-me enquanto falam: anda a gente a trabalhar para encher a vida de vazios?



02.06.2011



Tampere



João Bosco da Silva

quinta-feira, 30 de junho de 2011


Senhora Professora Eu Confesso


Numa esplanada na companhia de uma checa, loira, de Bukowski no colo e o perfume

De há dois verões que passa à minha frente como um fantasma, com o Bukowski

Numa esplanada, invariavelmente o Bukowski no fim de mais um dos seus livros de poesia

(Crónicas curtas) e não há melhor arte que a verdade, melhor poema que uma confissão:

Lembro-me de ti, daquela noite sem esperança, na terra pequena cheia de sonhos demasiado

Possíveis quando te conheci, chovia e eu seco, chovia e tu não te calavas e eu já adivinhava

Que me ias espremer o leite, difícil depois de tanta cerveja, tanto whiskey e resignação

Ao Inverno inevitável, a primeira noite adiada e lembro-me da última em que mais do que

Entrar dentro de ti, perdi-me entre os aromas do nosso corpo, esqueci-me do sabor

Do meu suor e decorei a sinfonia da tua excitação quase em forma de chuva,

Outros bebiam as cervejas já quentes na sala, querendo acreditar que nós perdidos

Nos corredores quando eu perdido em números invertidos, a minha língua a manter o ritmo

Do teu clítoris e depois de muitas páginas não me conseguirei vir, mas cheguei e no dia seguinte

(Dali a umas horas) o baptizado da filha de um dos meus melhores amigos (dos que dão passos

Reais na vida) e à noite o beijo já sem sabor da adolescente, mas eu já incapaz de amores

E outras tretas, ainda com o sabor da tua excitação morena nos meus lábios, já no meu estado

Anormal (tido como normal por quem me conhece “realmente”), a tentar jogar dardos

Com um pescador, um polícia reformado e o pai da criança baptizada, fazer o que sei melhor,

Perder, mesmo entrando, mesmo espetando, ferindo e tendo deixado marca,

Tu sentada a querer mais, eu a sentir que tu a querer mais, mas eu tão pouco e tudo o que dou nunca suficiente, mesmo que todo.

Acredites ou não, pararam duas Lindqvist, irmãs com cabelo de cobre e olhos absorventes de pilas

Na boca e eu sei disso porque uma fez de mim Cristo no deserto a evitar milagres, iam jantar,

Ficaram de pé à espera de um convite e eu limitei-me a matar a conversa, lentamente, dando

Mais atenção à cerveja que a elas, até a sua fome se tornar mais dolorosa no estômago

Que nos outros vazios, até se irem e me deixarem acabar este poema tão desnecessário

Como tantos outros poemas, lidos e relidos, até à exaustão e a morte algo tão pequeno

Quando lá fora, um medo, uma possibilidade, como aquela noite em que te conheci

Senhora Professora e não penses que não me lembro de ti.



30.06.2011



Turku



João Bosco da Silva






Pedra Na Mão


A cerveja gelada cai

No estômago vazio

Como o toque esponjoso

Do colo do útero

Na glande,

Um gajo sente-se vivo,

Algo além do universo

Mas parte,

Alguém,

Acolhido e acolhedor.

Cada mulher é um mundo

Estranho e fascinante,

Golo refrescante

Que se perde

Na familiaridade

Da nossa

Temperatura corporal.




30.06.2011




Turku




João Bosco da Silva

segunda-feira, 27 de junho de 2011






Antes De Zaratustra


No cimo de uma montanha, num Agosto tão quente que cinzento o horizonte,

Longe dos anos que não se conseguirão evitar e cairão sobre os olhos da esperança

Como uma avalanche de magma e escuridão, filósofo do sem pensamento

E o que virá virá, a miséria não passa de histórias à hora do jantar, ou nos jornais

Que se evitam porque deixam os dedos sujos e escuros, a dor é uma manhã geada

De Janeiro e a riqueza maior é a lareira ao chegar da escola, um leite com chocolate quente

Até o pai chegar para jantar, um gelado quando a sorte de duzentos escudos nas tardes de verão

E a felicidade torna-se cada vez mais difícil com os anos, o sorriso de uma rapariga torna-se

Insuficiente e nem as violências no seu colo do útero ajudam ao vazio, a dor deixa de poder

Chorar-se e só a ejaculação a leva por momentos, longe no cimo da ermida, Nossa Senhora da Saúde

E os ossos sem nunca terem entrado num hospital, as mãos sem saberem que às vezes se morre

E não há muito mais a fazer a não ser ver a desilusão final de um corpo que não foi suficiente.

No cimo de uma montanha, com o mundo desenrolado montes abaixo, cheio de beleza,

Algumas casas, aldeias inofensivas, onde palheiros, machados ensanguentados e também

Horrores em menor escala, mas longe, longe aqueles joelhos na rua de Estocolmo

Com as mãos erguidas ao céu como uma prece ao novo deus, para que ele caia, frio e metálico

Nos dedos da fome, fome de tantas fomes diferentes, as agulhas a cegar a alma até à dor do despertar

No Porto, onde homens e mulheres vendem o acesso aos orifícios por deus, enquanto uns

Resignados dormem debaixo de pontes e viadutos, longe das mãos que procuram, que se procuram,

Em caixotes do lixo nas ruas castanhas de Londres, enquanto alguém te tenta vender droga

Nas ruas de Montmartre, quase vazio, quase no fim e o cemitério ali ao lado, à espera do mundo todo,

Longe das prostitutas russas, incrivelmente magras, com os braços cruzados, escondendo

As marcas do seu apodrecimento, à espera de um turista, de um Hummer negro, na noite fria

E escura de São Petersburgo, à espera do desespero de alguém só, alguém cansado de se ouvir

No silêncio de um quarto pequeno, as prostitutas brasileiras em Espanha, com as suas lengalengas de sempre

Só porque os filhos longe à espera do dinheiro dos trolhas, turistas decapitadas em praias

Marcianas nas ilhas Canárias, longe, longe deste monte de onde o mundo parece verde.

Deus ainda parece um homem, como o pai natal, mas que veste de branco e não bebe Coca-Cola,

Um homem estranho que deixou matar o filho para provar algo acerca do amor, o filho também deus

E eu já com dúvidas do sentido daquilo tudo para fazer com que isto tudo um sentido,

Por aqueles montes abaixo, onde quem sabe, me encontrarei pelo caminho com Zaratustra

Ou Keroauc, iluminado, mas não de todo, o avô igual, mas sem escrever, amarelo e morto,

Não acredito que me encontre com crucificados, mas muitos levam a sua cruz, arrastam-na

Monte abaixo, pelas urzes, giestas, cardos em direcção a um abismo redentor onde a lançam e se deixam cair.

No cimo daquele monte, com as mãos vazias ainda cheias de possibilidades, outras páginas para virar,

Magníficos capítulos, revolucionários, novos, ainda acreditando nos olhos como nas palavras,

O mundo um privilégio que se dá ao vazio para ser algo, voz ao silêncio para ser cantada a eternidade

E só a dor dura, só a vida dura, pouco, a expiação é eterna, mas longe, longe do cimo desta montanha

Onde se senta a minha memória a segregar saudades e a reconhecer a absoluta derrota

Dos meus anos em busca de nada, quando tudo aqui em cima, tudo aqui longe,

Porque a proximidade nunca foi amiga dos olhos e a perfeição está sempre a uma distância qualquer.



Turku



27.06.2011



João Bosco da Silva

domingo, 26 de junho de 2011






Última Noite De São João



Sentado na minha última alma, a ceder às evidências do despertar existencialista, dois anos

Depois da morte de deus, na varanda do quarto da minha irmã, com gatos que atravessam o caminho

Iluminado pelo último candeeiro da vila, como se pequenas alegorias peludas, respostas simples

E mais verdadeiras que mil bíblias, mas por aquela altura, já a cabeça de São João tinha deixado de fazer sentido.

A música popular a entristecer-me com a possibilidade de caras sorridentes enquanto insisto

Em sobrepor-lhe o meu gosto por música celta, para acalmar a mente atormentada pelas ideias

Dos outros em papéis que tinham que se comer com os olhos, enquanto a vida lá fora,

Insistindo em que eu a aprendesse antes de vida e a minha mãe contente por eu estar a cumprir,

Sei lá com que expectativas, mas nunca as minhas. Uma das últimas noites frescas da minha vida,

Longe, sempre longe quando se passou, a felicidade simples dos verdes anos com respostas sem perguntas

E poucas cervejas necessárias para se conquistar o mundo, ou aquela miúda da outra turma

Atrás da barraca dos cachorros a encher o peito e o mundo tão grande quando nós pequenos

E a noite tão curta quando nós conscientes do tamanho da vida, do tamanho do tempo,

Do tamanho da distância daquelas noites quase perdidas, não fosse o que nos torna eu e tu,

Nunca nós, de São João, enquanto a vida anoitece, o orvalho visita a esperança em velhos milagres,

A janela fecha-se, a música popular cala-se e afinal a casa vazia onde me desenrolo em rimas

E me asfixio acreditando que é necessário, que eu necessário e que ser alguém depende de alguém.





Isokyrö





26.06.2011





João Bosco da Silva






Aquele Professor De Português No Quinto Ano






Deve estar bem na vida, com o seu BMW no parque de estacionamento de uma escola qualquer,

Ainda casado com a sua mulherzinha com pais ricos (não acredito que se tivesse casado

Com o fascínio pela primeira foda), a estrear as estagiarias com o seu sorrisinho cabrão,

Ele e o sorriso, com ambos os joelhos perfeitos (nunca se deve ter esforçado muito à baliza),

Provavelmente um filho para ter uma âncora caso o apanhem de calças nos joelhos perfeitos

E dentro de uma estúpida estudante de enfermagem com necessidade de aulas de apoio

A anatomia, com uma fominha ridícula de adolescente acabadinha de sair da sua aldeia,

Deve estar bem na vida a fazer aquilo que nunca deveria fazer, além de viver uma vida

Que não merece, mas deve ter sido um escaravelho do estrume noutra vida, talvez

Para lá regresse quando expirar uma última vez através daqueles dentinhos merecedores de um punho.

Costumam ter sorte, os filhos da puta, mas o meu professor de português do quinto ano…

O primeiro (e basta ser o primeiro) a abalar a minha infalibilidade com o meu primeiro satisfaz,

Eu um génio ao longo da escola primária, mesmo mudando de escola duas vezes por ano lectivo,


Mesmo que abrisse mãos dos melhores amigos antes de eles chegarem a memorizar o meu apelido (é Silva),

O primeiro satisfaz, não Satisfaz, mas satisfaz, eu medíocre, eu atormentado com as aulas de português,

Eu sem perceber porque levar tão a sério o que nem é vida, sem perceber que diferença faz um

Erro ortográfico quando supostamente se está a aprender e estaladas, pontapés quando no quadro com toda a gente a ver,

Eu com sorte por ter aprendido que o que eles querem é que as suas ideias lhes sejam repetidas,

Ou as de outros já mortos, nunca as nossas, porque a escola ensina-nos a não pensar por nós,

Eu calado, menos seguro das minhas ideias, mas que interessa, se ele perguntar: tens razão, estás certo, és deus,

Um deus a impor a sua frustração de pila pequena, ou algo que o cigarrinho se calhar lhe trouxe cedo,

Sobre almas verdes, esponjas sedentas, não de vinagre – meu grande filho da puta!

Fala-se em aproveitamento escolar e família e meio e família, fala-se pouco em professores

E medo, e crianças que tentam ler, mas não conseguem quando têm uma mão atrás da nuca,

Um sorrisinho à espera de um erro, de um pequeno gaguejo e uma frustração (não era meu cabrão?),

Por isso eu longe, não te dava o prazer do erro muitas vezes, mas ainda me dói

A forma como conseguiste atrofiar o percurso escolar do meu melhor amigo e do meu vizinho,

Mas não te deves lembrar do sangue, o sangue esquece-se quando é dos outros:

Por azar, ambos à frente da tua secretária, ou trono de ditador sádico, ao alcance da tua mão enorme

Branca e suave, boa para punhetas (se calhar era isso que querias, pilas de meninos entre os teus dedos),

Mas bater é mais de homem. O meu vizinho começou a ler a sua resposta, com um olho na capa arquivadora

E outro à espera de que o medo fizesse sentido, com razão, até que se engasgou com algo na sua língua seca

E logo sentiu cair sobre a nuca aquela mão pesada e pronta à humilhação e à dor, os dentes

Contra as argolas de metal da capa arquivadora (porque nos era mais barato e ninguém

Tinha pais ricos e é fácil abusar nos filhos dos pobres) e as folhas manchadas com sangue de criança.

Nem todos perceberão a necessidade de um poema tão mau, mas há coisas piores que também

Não têm necessidade, nem razão de existir, como aquele professor no quinto ano, que nos marcou

A todos, a uns por dentro a outros por dentro e por fora, mas todos continuamos aqui, maiores.





26.06.2011






Turku






João Bosco da Silva

quarta-feira, 22 de junho de 2011


Adeus Mais Uma Vez


“Dirigi-me à casota do cão e encontrei o velho Bob a tremer e a arfar no ar cortante. Ganiu contente por me ver.” Jack Kerouac


É muito mais fácil o regresso, com um cansaço agarrado à pele da alma,

Com a pele abusada e abusivamente pesada, de outras cores, diferente da partida,

Quando ao aproximar do portão, um focinho peludo e conhecido, com reconhecimento

Nos olhos infinitos, gritantes de um ser mudo de palavras, um simples cão, que te conhece,

Mas não sabe o teu nome, é muito mais fácil o regresso e dá tempo à mãe de enxugar as mãos

Da água de lavar a loiça, dá tempo do Sol se lembrar de afastar uma nuvem, dá tempo ao pai

De deixar a enxada, levantar um pouco o boné e gritar “ou”, é muito mais fácil lavar o cansaço

Quando uma língua te refresca as mãos, como se um abraço mais sincero.

Agora não sei como será, agora que a casa me parece cada vez mais longe,

Que a gente me parece mais repugnante, a minha gente e até o meu sangue me mete nojo,

Só de pensar num possível parentesco com monstros ignorantes, com a consciência do

Tamanho de uma bolota que nem merece os dentes de um porco faminto.

Não será fácil, agora que os pessegueiros são só um e o negrilho secou e a sombra

É cada vez mais escassa e o sol mais violento contra a pele cansada, abusada e abusivamente pesada,

O nascente secou e o Inverno é cada vez menos inverno, menos branco, agora, mais frio, mais afiado,

Com um fumo doentio, longe daquele de outros anos, que iluminava as ruas como um cobertor

Familiar, quente e aconchegante. Os vizinhos deixaram de ser bonsdiasnosdêdeus,

Os olhos cansados de culpa, que culpa (não sei), os passos cheios de medo do sino da igreja

E da sua vez e cada vez menos os que se lembram do teu nome, cada vez menos dos que

Sabem o teu nome a reconhecerem-te nos teus actos, agora que é tão mais difícil regressar a casa,

Agora que casa não é casa, mas umas paredes onde cresceste, onde poucas vezes foste infeliz,

Onde ainda vivem as tuas raízes, tão distantes dos frutos tristes que te pingam dos dedos,

Os mesmos que um dia passaram pelo pêlo do teu cão, verdes do musgo, rasgados das fragas,

Fugindo de tempestades inofensivas, entrando em virgindades recuperadas, longe, longe…



22.06.2011



Turku



João Bosco da Silva

terça-feira, 21 de junho de 2011






Um Trasmontano Em Estocolmo




Estávamos nós a conhecer as praias brasileiras e estes de machados em punho a regressar

Do novo mundo,

E hoje sinto-me mais feio que nunca, um cão rafeiro rodeado por bonecas e bonecos de carne

E boa estrutura óssea, como se fossem um acidente feliz da engenharia genética, com a sua sociedade

Que mais parece um filme de ficção científica sobre um futuro optimista. Chove, chove muito

E até por dentro, a água corre por mim e quase me torno menos tosco a uma distância segura,

Se ao menos uma máquina de barbear ou menos cabelos brancos entre a cor da terra, outra postura

Que a de batido pela vida (cão com rabo entre as pernas), mesmo que ela me sorria tantas vezes.

Fui feito para viver num castro, dormir entre granito com musgo verde a crescer por fora,

Comer pão de bolota e armar emboscadas aos romanos que tornaram as distâncias tão curtas

E o mundo tão pequeno (e nós ajudamos), com as suas estradas, as suas pontes, as suas sandálias...

Estes vikings irritam-me, incomodam-me como o sol de Agosto às três da tarde contra a minha pele

Ironicamente pálida, sensível, revestindo uma alma de granito, raízes de Torga e geada das manhãs de Janeiro.

Apetece-me demolir estas casas de bonecas e nas ruínas acender uma fogueira que torne a noite

Numa eternidade pequena, das que trazem alma à gente de hoje. Inveja das três coroas,

Do império nórdico, eu que finalmente trouxe os meus olhos verdes além das montanhas,

Depois de antes de tanta glória e terramoto, tanto inimigo diferente, só as fogueiras permaneceram,

As antas com os ossos esquecidos dos meus prováveis antepassados, inveja da casa que nunca tive.



19.06.2011



Estocolmo



João Bosco da Silva




À Psiquiatra Loira



A psiquiatra, se não fosse dos que querem o mundo impossivelmente seguro,

Medicando loucos, loucos medicando loucos e a loira a desejar uma loucura

Com a minha cara selvagem a ser chuva quente e afiada na dela,

Até lhe arriscava os lábios, assim só os certeiros que nem todas merecem a paciência de um beijo.

Algo me diz que Alberto Caeiro era um doente de Alzheimer e esquecer tem uma

Certa tristeza bela e libertadora, uma novidade que a memória tantas vezes insiste

Em chamar “outra vez”, como se a vida não fosse momentos, mas um momento

Aborrecidamente longo e repetitivo, com déjà vu atrás de déjà vu

(Tão curto quando o fim nos aperta com o que nos resta para existir contra a eternidade).

Espero nunca cair no ridículo de perguntar a quem me estiver a morrer (um dia talvez alguém):

Ainda me amas – que interessa saber se luz, quando o interruptor já vai longe a abrir

O circuito para a escuridão. Desculpa-me, desculpa-me por te perdoar, porque eu nunca

Me perdoarei as vezes em que disse não, que engoli a felicidade como se algo prescrito por uma

Psiquiatra loira, com perguntas às quais ela sabe a resposta, só para meter conversa

Dentro da “sanidade” permitida e esperada de um louco que medica loucos e só a morte é justa

Porque tem um mesmo saco para todos: o último fim é sempre o início da eternidade.



21.06.2011



Turku



João Bosco da Silva

sexta-feira, 17 de junho de 2011


Juncos No Lameiro Do Meu Avô E Outras Interjeições Sem Tentar Ser Estrume De Betão


Não há nada como o cheiro verde dos juncos no lameiro do meu avô numa tarde do fim do verão,

Impossivelmente fresca, a vida, o sangue não parece e é, raízes que desenham o calor que tentamos,

Enquanto o sino da igreja de outros séculos ainda nos diz que são horas de regressar com as vacas,

Com o estômago reconfortado com o pão tosco e as fatias grossas de queijo, porque o Tulicreme

Acabou e é domingo, daqueles domingos de uma sexta-feira à noite a milhares de quilómetros da felicidade

Em quilómetros de tempo, só comparáveis àqueles que atravessavam o Marão, nas segundas

De sono mal dormido entre curvas e cheiro a suor ao lado, ou uma velha chata que insiste em conversas

Segunda-feira pela manhã, quando o ódio pela vida começa ligeiro como um bebé de noites pesadas,

Pelo amor de deus, ainda falta muito para o inferno, ou acordei com esta dor sem dor, já a descer

E nem se nota a diferença de pressão, de pressão verde dos últimos anos a preto e branco

E cheiro a entre pernas, de amanhã ou horas de ontem, o que se quiser, o que se puder evitar

Como um ponto final, daqueles que se agradecem como mulheres das que nos matam e ainda bem,

Só assim se pode renascer de novo, estender as asas flamejantes e continuar a fazer merda pela vida fora,

Porque não há outro sentido, além do sentido único, entra: sai e tem que ser, viva o kitsch

E o Milan Kundera, que me vem com tretas de balanças, mas o que interessa é que me chupou como

Se o amor fosse algo verdadeiro, mas resulta, mais a ilusão, a promessa muda, que a palavra,

Evite-se ou ser-se-á evitado, tal o ridículo das vacas que nem dão leite se leite engolem,

Nem bifes, porque a igreja diz que é pecado e as leis dizem que vais dentro e na verdade mete nojo,

Porque a carne não se quer doce, sendo tão amarga enquanto se move pela vida a fingir que vida,

Mas não há nada, nada como o cheiro dos juncos, junto daquele poço onde se afogou o cão do meu avô,

Naquele lameiro da mitologia pessoal, onde o início do inferno tem consciência em forma de uma ressaca,

De dedos mal lavados e candeeiros loiros que pingaram luz e ainda bem que a barba ainda escassa na altura,

Ou resíduos colados à esperança da continuidade, antes, antes de antes e do sem sentido

Que é a vida vida… nunca saberei o que é a vida e morrerei e serei esquecido e será como se nunca,

Por isso agora, portar-me-ei como se nunca e já é nunca, o que acabou de ser, esquece-se tão rápido

Uma estrela, que a luz persiste, depois, depois e quanto mais distante do nosso mundinho,

Mais tempo a luz tardará a chegar, mas chega, para nunca mais, para mais um orgasmo

E até nunca mais, que o nosso filho nunca será e se for, nunca nosso, um estranho familiar, o mais estranho

De todos, o mais próximo, a ser pedaços de nós, mesmo não fazendo ideia que os juncos

Cheiram a verde e a chuva em Agosto enche as veias e há festas e adros de igrejas, escuros,

Onde o pecado sabe melhor, sente-se pouco por causa dos finos e da música reles,

Cheira tão bem ser chamado de Amigo por um amigo, daqueles que nem é preciso falar muito

Para saber muito sobre, mas sabe tão bem, quase tão bem como mijar dezenas de cervejas de uma ponte

Romana para um rio que seca cada vez mais, todos os anos, por culpa dos espanhóis, dos portugueses

Sem tomates, porque todos devem ter morrido depois do Brasil e da Índia e se restam alguns,

Acordam demasiado cedo de manhã para cozerem o pão, ou para curarem os mais doentes,

Ou para levarem os doutores a lugar nenhum onde fazem tudo menos alguma coisa,

Ai o cansaço disto tudo, a estas horas de gotas lentas e chatas, sem juncos, sem aqueles juncos

Ao pé do poço, naquele lameiro verde, vale em miniatura, onde o meu avô me esculpiu a felicidade

Em forma de bois de cortiça, hoje tão perdidos quanto o camponês que tenta ser poeta,

Num mundo onde só idiotas de betão com cheiro a estrume nas ideias, são reconhecidos como poetas

E lá no fundo próximo da sua alma, corpo, querem encher a boca não de palavras, mas da minha carne tosca.



17.06.2011



Turku



João Bosco da Silva

quinta-feira, 9 de junho de 2011


Enquanto Se Dorme A Realidade Fermenta


Não pode ser, ainda é cedo, mas alguém anuncia o fim do mundo,

Em forma de mulher histérica prestes a explodir em milhões de aborrecimentos fatais,

Só resta fugir para o bunker de luxo com os amigos inesperados e o luxo

Publicidade enganosa, mas que mais pedir da sobrevivência num mundo de brincar

Às probabilidades pequenas? Cimento, um divã sem colchão, latas vazias de cerveja,

Se ao menos cerveja para esperar a morte e que se lixe, se for para morrer

Que seja com os olhos postos no Sol, atravesso um buraco na parede

Em direcção à luz do pecado e da morte e finalmente luxo, uma casa com cortinas de veludo

Vermelho, colunas de mármore branco, sofá de pele branco, uma cama gigante

Em forma de Lua à espera, uma temperatura perfeita com o Sol a ameaçar um fim do mundo.

A perfeição não se pode sentir sem companhia, e pela janela agarro uma morena

De vinte e dois, vinte e cinco anos, com o cabelo à francesa, olhos portugueses

E lábios desesperados por abuso. É o fim do mundo, o dia tem já a cor do crepúsculo

E de uma forma mais natural do que um cumprimento cordial, começamos a procurar

Os limites da carne e ela gosta que lhe explore as vísceras com violência,

Não lhe vejo a cara nesta posição, mas sinto-a a ser toda à minha volta,

Ela sabe que aquela casa não é minha, que eu não sou de ninguém, mas sente

Que me dou como se fosse a última vez para sempre, num eco pela eternidade,

Ejaculo-lhe como se a vida se escoasse toda para dentro dela, um excesso impossível

De mim, e apercebo-me que não trocamos uma única palavra.

Os meus lábios abrem-se e o frio da madrugada acorda-me com a pele colada

A um sofá castanho, uma dor de cabeça a ser gente ao meu lado

Com as calças ainda desapertadas, com um gosto gástrico na boca

E com a sensação de que se fumar um cigarro agora, o fumo levará todos os pecados

Que a noite insiste em manter quase como se uma recordação legítima.



09.06.2011



Turku



João Bosco da Silva






Acordo de manhã,

Olho-me ao espelho:

Desculpe, foi engano.


Turku


09.06.2011


João Bosco da Silva

terça-feira, 7 de junho de 2011


O Meu Avô e Bukowski


O Bukowski podia ser meu avô (ter sido), mas o meu avô só bebia e em vez de escrever

Caçava, trazia fardos de contrabando de Espanha e tratava da sua vinha: circunstâncias,

Necessidades e países diferentes. Tenho pena por não ter escrito enquanto ele recitava,

Algo mais que poesia, vida e amigos da guerra civil espanhola, ironia e seu irmão da polícia secreta,

Meio-irmão e outro em França com uma vida que levou com ele, três irmãos de três pais diferentes,

Nenhum deles Bukowski. O meu avô sabia ler e escrever numa aldeia esquecida por todos,

Menos pela fome e pela guerra, num país analfabeto, governado por um hipócrita de voz esganiçada

E sem força, o meu avô ia buscar ao monte carne fresca e sabia mil e uma maneiras de evitar

A fome, mesmo no Inverno com a água do rio tão gelada e peixes fritos em azeite das suas oliveiras

Pequenas. Como Bukowski, o meu avô tinha a língua solta, o pavio curto e mesmo assim tinha amigos

Num raio de quinhentos quilómetros, aos quais tratava por “azeiteiro” ou “paniscas” ou “meu filho (da puta)”

Quando não “mandicante” e agradeço-lhe a falta de travão na gola e nos dedos,

Neste mundo cheio de merdas, de rodeios para perder tempo, enquanto se morre sem se contar.

Muitas vezes vejo o meu avô em Bukowski, como se em vez de ter aparecido no mundo em Cidões,

Em Los Angeles, nascido em Andernach, mas morreu numa cama de hospital, amarelo,

Deixando no mundo, ao mundo as palavras: Aniceto Estêvão da Silva.



Turku



07.06.2011



João Bosco da Silva