quinta-feira, 17 de março de 2016
terça-feira, 15 de março de 2016
Dissecação Do Perfume
Há uma mistura de cheiros que me faz lembrar de ti
Naquelas noites frescas de Junho na tua varanda
Com vista para o castelo, laca Elnett, o sorriso
De uma empregada de mesa num café vazio de manhã,
O vento que passou por pinheiros ainda quentes,
Cigarros de mentol, pastilhas de morango mastigadas
Por uma miúda de pele dourada com gotículas de suor,
Lábios lubrificados e púbis depilada num par de cuecas
Acabadas de vestir, o mesmo vento que passou pelos
pinheiros
A tornar a tua saia numa bandeira de um país a
conquistar,
Unhas lavadas e o cheiro a cobre por onde passam,
Uma língua manchada com vinho do Porto e
Lábios humedecidos à beira de um rio num crepúsculo de
verão,
O fumo de um charro inalado dos pulmões de alguém
Numas águas-furtadas, um elástico de cabelo pouco
usado
À volta de um pulso pálido e fino, o movimento de um
lagarto
À sombra e a sombra de um escorpião sob a luz
De um candeeiro de rua, a porta de um elevador
Que se abre num sábado à noite e ninguém,
Segredos a roçar no lóbulo da orelha em inglês,
O que poderia ser o cheiro do pó das asas de uma
borboleta,
A transpiração silenciosa das vertigens ou de alguém
Que espera sentado em granito à entrada da Estação de
São Bento,
Tudo isto com um pouco de morangos silvestres comidos
Pela primeira vez antes de se saber ler
E um comprimido de paroxetina empurrado com uma
páginas
De Kierkegaard antes de uma viagem de comboio
Com vinte euros no bolso em direcção à tua varanda
Onde esperavas o colo do meu hipocampo.
Turku
14.03.2016
João Bosco da Silva
domingo, 13 de março de 2016
Dissecação Dos Ecos
Em cada nova boca encontrava um eco cada vez mais
diluído
Da verdade que foram os teus lábios de sonho
E vinha-me com a certeza e a vontade do vazio
E sentia que me engoliam sem qualquer magia,
Como se fosse um reflexo esculpido pelo hábito
Da obrigação, os batons rodeavam-me, anónimos e
diversos,
Contudo sinceros no toque e com um brilho parecido ao
desejo
No olhar, mas um desejo que se pede, mais do que rói
por dentro
E no fim cede-se a um convite para tomar chá, já que o
vinho
Perdeu
o sabor, a vodka se enjoou há anos numa ilha
Que acabou por se tornar no modelo do purgatório
E não é sede, não há sede, só uma solidão que apaga
Aos poucos com os ecos diluídos que se encontram nas
bocas
Que te sucederam, todos aqueles verões de saliva
E uma ordem de marfim forçado, cada vez mais pálidos
perante
O esquecimento.
Turku
14.03.2016
João Bosco da Silva
Que fazer quando já não sobrou nada para cuspir
E se espera pela Primavera
como pela próxima vida
Num beco sem saída entre muitos anos e outros tantos
Arrependimentos, cada verso é apenas um pedaço de
saudade
Em segunda ou terceira mão, gasto e esquecido do
cheiro original
Daquelas primeiras noites de Primavera, mais vale
atirar
O desejo como uma toalha já seca do esforço vazio por
sonhos
Com o mesmo recheio, se não se tiver pena, podem
rasgar-se
As saudades até ao osso só para sentir brevemente o
aroma
Das camélias no olival vizinho, e lá vai aquele cheiro
Ser encaixado entre três versos, como se fosse
possível guardar
Nas palavras o que as papilas nos pedem,
desconhecedoras
Da mortalidade de todos os momentos e sempre tão
certas
De que o que nos revelam é o verdadeiro sentido da
vida.
Turku
14.03.2016
João Bosco da Silva
quinta-feira, 10 de março de 2016
sábado, 5 de março de 2016
Estado Quântico Do Perfume
“Knowledge kills action
Action requires the
veil of illusion”
Nicanor Parra
Se te voltasse a encontrar, o perfume seria outro, não
conheceria o que ficou de mim
Nos teus lábios e no teu sabor adivinharia as razões do meu
esquecimento,
Se por acaso cedesse à vontade, contrariando os anos, não
reconheceria os teus dentes
Contados à força da língua, mas também tu, que procurarias
aquele fogo verde
Nos meu olhos, só encontrarias um carvão da cor do vazio,
mesmo num pôr-do-sol
À beira rio, haveriam suspiros ao ver jovens que nós fomos
passar com um mundo
Inteiro nas mãos dadas, as arestas dos teus sorrisos seriam
mais calculadas,
As minhas esquecidas e improvisadas com o auxílio de uma
memória qualquer,
Antes da certeza de nunca mais apesar de tantos uns dias, a
tornarem-se anos
E cada vez mais ses, mas o perfume será outro, como outro
tem sido quando o reconheço
Em alguém que não tu, porque é impossível voltar a passar,
repetir a felicidade.
04.03.2016
Turku
João Bosco Silva
quinta-feira, 3 de março de 2016
Luzes Que Se Apagam Enquanto Billie Holiday Canta
Da janela do bar vejo as luzes acesas dos prédios do outro
lado da estrada, os carros passam,
Poucos a estas horas de Domingo de madrugada, a neve nem
aquece nem arrefece,
Espera o Sol, alguém morto canta e ainda se sente vida
naquelas palavras definitivas,
A máquina de escrever enferruja em toda a sua beleza
obsoleta, o relógio de corda
Luta contra o esquecimento inevitável, salta cada vez mais
segundos, no fim da rua,
Uma noite chovia nos meus dedos húmidos e quentes e à janela
de um prédio,
Alguém fumava um cigarro e assistia, encostados à árvore,
apetecia-me levá-la
Ao prédio em construção e fodê-la sobre uns plásticos e umas
ripas, agora, no prédio
Terminado, luz acesa e sonolência, mais um dia fotocopiado,
nada acrescentado a não
Ser a proximidade ao que foi acrescentado, eu longe, de
tudo, entre um encalhado
E um naufrago, acendo as luzes no quarto impossível, vou com
uma estrela que passa,
Terei sido naqueles lábios, para que se morre tantas vezes
em tanta gente,
Antes da música acabar, antes de se apagarem as luzes, em
frente apagam-nas,
Já acabaram de foder, não querem esperar pela consagração de
mais um abençoado,
Levanto-me e peço uma última cerveja, a caneta jura estar no
fim, esta noite espero não sonhar.
“Y POR FAVOR destruye
este papel
la poesia te sigue los
pasos
a mi también
a todos nosotros”
Nicanor Parra
28-02-2016
Turku
João Bosco da Silva
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016
Quantum
Às vezes quando passo pela minha antiga janela, daquela casa
de madeira perto da catedral,
Evito olhar para dentro, ainda posso lá estar a olhar para o
monitor ou por cima dele,
Para os ramos da árvore em frente, nus, à espera da
Primavera como eu espero o próximo
Verso, o próximo Verão, só no Verão vivo realmente, o resto
é congelar ou descongelar,
Às vezes olho e afinal as cortinas diferentes, outro
monitor, nunca alguém, parece impossível
Alguém, depois de tantas horas a consumir vazio ou a tornar
a vida em nada, a não ser numas
Palavras e um horizonte sempre longínquo, um dia pode ser
que passe por lá
Ao mesmo tempo de uma dessas ondas de Einstein, ou na hora
da sesta de deus,
Aí olharei para mim e sorrirei como quem quer mostrar que
está tudo bem, tudo melhor,
Mesmo que não esteja, sorrirei para os olhos que procuram o
verso e a eternidade
E continuarei em direcção ao esquecimento ou o próximo bar.
Turku
24.02.2016
João Bosco da Silva
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016
A Viúva Finlandesa
“Há quanto tempo não
dizes o meu nome? Apagaste-me de vez? Nunca pensei que me apagasses de vez,
tive esperança de ser, ao menos, uma luzinha vacilante mas teimosa em qualquer
ponto da tua memória, que se pode ignorar mas não se esquece, uma silhueta,
mesmo difusa, um fragmento de cara(…)”
António Lobo Antunes
Ela disse-me que tinha ficado viúva aos 30 anos
Com dois filhos pequenos e que teve durante 10 anos
Um namorado português que passava os Invernos em Portugal,
Morreu há sete anos, e nos olhos uma humidade onde
Se adivinha o sabor a saudade, mesmo que na língua dela
Não exista tal palavra, imagino o português, como
Alguns portugueses que conheço e que tiveram uma
Amiga finlandesa, a falar da viúva com os olhos
Secos e a malícia nos lábios, muito depois
Do tesão se tornar numa saudosa memória,
O amor das mulheres será sempre o mais real.
31.01.2016-08.02.2016
Turku
João Bosco da Silva
segunda-feira, 25 de janeiro de 2016
Amigo E Cigarros
“É breve a vida; mal
sabemos
fiar um fio, e conceber
a seda,
já se gastou a areia na
ampulheta;”
António Franco
Alexandre
para o Rui Macedo,
Preciso desesperadamente de um cigarro, com um amigo,
soprando confissões de fumo
Na noite e sacudindo a cinza do tempo que consumimos como
verões,
Preciso de um cigarro e de um amigo, numa ponte romana, numa
regresso,
Num de muitos, agora menos que as partidas, ou em direção ao
luar, areal fora,
Com a maresia a testemunhar que ainda temos pulmões para a
vida,
Preciso de sujar um cinzeiro imaculado, como um sorriso
inesperado num dia cinzento,
Acendido por aquela mão que um dia me fez sangrar a carne
tenra,
E me amparou enquanto a alma e tudo se atiravam borda fora
para a geada,
Preciso de uma chama nos olhos familiares a dizer-me que foi
verdade tudo o que foi,
Até as mentiras que nos trouxeram aqui e agora, onde estamos,
Apesar do filtro onde tudo se apaga, cada vez mais próximo,
ainda somos nós,
Menos sonhos, mais pesadelos, menos ilusões, mais confusão,
No reflexo um estranho quase familiar, o luar mais perto, a
água do rio mais alta
E no peito uma incerteza perigosa que aperta e pede pelo
menos mais um cigarro com um amigo.
25.01.2016
Turku
João Bosco da Silva
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
Postal Cansado Que Perdeu Todas As Cores Pelo Caminho
Penso que fiquei naquele dia em Julho, numa tasca vindo do
Palácio do Freixo,
Senti que a cada ilustração, um pouco de mim lá ficava, nas
manchas dos teus olhos,
Cada vez mais monocromático, debaixo das folhas de videira
na esplanada
Ainda sentia o verde, das folhas, dos nossos olhos, do
futuro que tão longe
E ali perto as mil cores de Dali e o rio, tão imprevisíveis
como o horizonte
Com a distância subtraída, na manhã seguinte ainda vi a cor
do pão,
Comprado na mercearia do lado, e o cemitério de Paranhos
ainda tinha flores
Coloridas e chamas vermelhas apesar da tristeza que se levava
para casa,
Devo ter ficado todo no cheiro do café, à noite já tive que
te perseguir rua acima,
Não sei bem onde querias ir por aquela rua escura daquela
cidade que não conhecias,
Daí marcares cada passo com lágrimas que te enxuguei nos
lençóis,
Fiquei por lá de certeza, mas ainda há madrugadas em que
recebo um amanhecer azul,
Como um postal cansado que perdeu todas as cores pelo
caminho até mim.
22.01.2016
Turku
João Bosco da Silva
quinta-feira, 21 de janeiro de 2016
Shibuya
Foi numa das ruas que desagua na passadeira de Shibuya,
estava encostado a uma montra
Enquanto acendias os olhos com mil brilhos artificiais em
direção a mais uma loja,
Aquela gente passava com os seus pecados, os seus medos, os seus
sonhos, as suas crenças,
Cada um com o seu próprio cansaço no olhar, olhando tudo
menos os olhos que passavam,
Senti-me na berma de um deslizamento de carne que passa e
leva a vida pelo caminho,
Procurei o refúgio de uma estrela, mas as luzes artificiais
tinham apagado o céu,
Restou-me olhar para os próprios pés, como quem procura uma
raiz onde se agarrar,
Aí tu regressaste com um saco novo, eu larguei a raiz,
deixei-me ir e lá fomos os dois
Desaguar na estação de metro, onde quem não dormia,
cabeceava escondido
Atrás de uma solidão imensa que cabe na palma de uma mão
iludida e vazia.
20.01.2016
Turku
João Bosco da Silva
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
segunda-feira, 18 de janeiro de 2016
domingo, 17 de janeiro de 2016
sexta-feira, 15 de janeiro de 2016
37 graus
Setembro depois do Dia do Trabalhador,
37 graus em Burbank, Calif.
estou a olhar para uma mosca
uma pequena mosca castanha numa cortina amarela;
os Mexicanos seriam
espertos o suficiente e dormiriam debaixo de árvores
num dia como este
mas os Americanos são dominados pela ambição
eles sobreviverão como poderosos e infelizes
neuróticos,
agora mesmo o dinheiro dos meus impostos está a largar
bombas
em pessoas famintas na Ásia
enquanto eu me debato com a pequena mosca que voou da
cortina até perto do meu ombro;
tento acertar-lhe mas falho a mosca,
neurótico Americano eu,
os rapazes que pilotam aqueles aviões são bons rapazes,
gentis,
eles matam apaticamente
com honra e graça,
sem ódio.
eu conheço um, ele é agora um prof que ensina Literatura
Americana na universidade de Oregon ,
já me embebedei com ele e a sua mulher, várias vezes,
então ele ensina-me,
o que é bom.
37 graus em Burbank
e enquanto me sento aqui
inúmeras coisas estão a acontecer,
a maioria coisas tristes
como mecânicos asneirentos com ressacas enfiando-se debaixo
de carros
e dentistas bêbados arrancando dentes e praguejando
e cirurgiões carecas fazendo uma grande trapalhada,
e o editor da revista Time
saindo com o carro de marcha atrás
da entrada da garagem
depois de uma discussão com a sua mulher;
estão 37 graus em Burbank
e está um jacto lá no alto,
não acho que me irá bombardear,
aqueles Asiáticos não têm suficiente dinheiro de impostos,
os únicos Asiáticos espertos são aqueles que alegam ser
Supremamente Abençoados, falam bom Inglês,
deixam crescer espessas barbas cinzentas mais um sorriso
celestial encimado por
olhos brilhantes e
cobram $4 por entrada no Santuário para
ensinar serenidade e não-ambição
e fodem metade das raparigas intelectuais da cidade.
estão 37 graus em Burbank
e aqueles que vão sobreviver sobreviverão
e aqueles que vão morrer morrerão,
e a maioria secará e parecerão sapos comendo hambúrgueres
ao meio-dia,
eu não sei que fazer –
enviem o dinheiro e mostrem o caminho,
sejam bons para mim,
eu gosto assim
sem esforço, fácil e agradável , lembrem-se,
eu nunca bombardeei
ninguém, eu
nem consigo matar esta
mosca.
Charles Bukowski, Mockingbird Wish Me Luck (Blacksparrowpress, 1972)
Translation: João Bosco da Silva
Subscrever:
Mensagens (Atom)






















