quarta-feira, 31 de agosto de 2011


Clint Eastwood



Não sei bem se o vazio ou aqueles anos em que ainda cheio de força e o cabelo de outra cor,

Da cor dos netos todos juntos com uma altura média de um metro e oitenta e dois,

Mas não é fácil ler aqueles olhos azuis entre aquela pele cansada e rosada pelos anos de vinho,

Todo ele resignado ao silêncio para dentro que os anos lhe trouxeram como um zumbido

E onde andará a prima à janela a dizer olá à mãe que na horta, enquanto ele lhe metia o pincel por trás.

Será que aqueles olhos o medo da tia nas couves a desconfiar a cada puxão ou o homem

Aos saltos aterrorizado pelo touro sem touro atrás do buraco da porta nodosa ou a bala

Que aquele homem careca e sem sangue te meteu na barriga por causa das armadilhas para os pássaros?

É fácil perder-me em oitenta anos de olhos fixos num ponto entre mim e o infinito, no lado de cá,

Enquanto tento manter postura, bêbado, olhando o meu avô na primeira fila, bem vestido como

Se estivesse na missa de Domingo, surdo, na apresentação do meu terceiro livro, ele, que não sabe ler.

Lembro-me dele noutros serões, com um olhar mais aceso e dirigido às cartas no banco de madeira

Enquanto a lenha crepitava contra as geadas da serra, sem a surdez a deixá-lo no canto da casa cheia

Naquelas tardes de Agosto, o homem mais duro, mais valente do mundo e hoje…

Dou-me conta de que nem ele é eterno, mesmo que aqueles olhos fixos num infinito.



31.08.2011



Turku



João Bosco da Silva



O Tamanho Da Solidão Não Se Mede Com Números


Um sabor qualquer que quase permanece, perdido algures na infância ou naquele estranho medo que só nos sonhos medo

De chegar tarde, demasiado tarde à festa da aldeia que nunca mais porque lá longe no passado, onde moram

Os avós de toda a gente, sorridentes e mais altos que nós, maiores que o tamanho de fim da festa

E com olhos mais sinceros do que os que olham as mãos vazias no fim de mais um dia, como se

A passagem do dia necessariamente nas mãos, mas muitas vezes nos olhos que os pés levam.

Antes nunca me sentia só, ainda a juventude da aldeia passava os serões a jogar matraquilhos na adega do meu avô,

Ainda o meu tio não tinha ido para o Brasil e agora só um resiste à força da rejeição do meu país,

Mesmo na aldeia pequena e rodeado de pessoas novas que me conhecem melhor que eu me conheço, porque

Com quatro anos eu só olhos, curiosidade e aquela fome que se perde com os anos e com a vinda

Da solidão que é impossível de saciar, mesmo que ainda esteja entranhado nos poros o cheiro

Roubado à beira do desmaio no jardim público de uma cidade longe de tudo o que se é,

Quando já pouco se reconhece no espelho, só os olhos, quando se olha até ao fundo e se esquece

O peso dos dias e se abraça aquele sabor que quase permanece como na primeira vez, como a

Primeira pastilha elástica que se engoliu, o primeiro e original gole de cerveja num verão sem

Necessidade de Agosto para que a família toda junta e agora tenho milhares de amigos e conhecidos em todo mundo

E afinal o mundo mais pequeno que a aldeia dos meus avós.



11.08.2011



Turku



João Bosco da Silva



O Crescer Das Unhas



para Sara F. Costa,



As unhas crescem e não interessa a pele que lá ficou, no esquecimento, nunca ninguém se lembra

Do último cigarro, mas será sempre o último e a primeira gota de água não ajuda mas começa

A transformação desconfortável numa corrida desnecessária, porque o que nos vai cair já vem a caminho

E as unhas crescem, ou dão a ilusão que crescem, a carne que morta, desiste e se retrai, como um

Último beijo que se sabe último beijo e às vezes mais vale encolher no meio de um rio frio,

Lá no fundo escuro, sem olhos cá em cima, sem ponte, só o silêncio e a eternidade que todos ganham,

O fim das tardes depois do toque da trindade, só os cães fiéis companheiros até da solidão dos homens,

Os paralelos vibram e as unhas crescem, enquanto os lençóis se puxam para cima, alguns

Além do último cabelo desalinhado, os olhos desviam-se, mas quando há, há e acabou, mais vale

A resignação de um olhar verde de ódio, porque tu te mataste e nunca mais serás quem te criei,

Quando estrelas e geada fria à lareira, o poeta esquecido na vila desconhecida jaz numa campa sem nome

E a Lua diz que as unhas ainda lhe crescem, já não levam epiteliais rasgadas num suspiro pedido

A beijos violentos até que sabor a sangue também e só os dentes têm a profundidade necessária

Quando as palavras têm o peso de uma pluma, mesmo quando profundas, mesmo quando

Parecem eternas e cheias de promessas no infinito que o vento leva como se dois dias a eternidade,

Por isso os dentes fundos, mais uma semana, a durar durante o verde, o nojo, a impossibilidade

De matar com o esquecimento, nem o Sol se vai quando se põe e a Lua diz que as unhas crescem,

Diz também que o amor cresce da ilusão e se torna ódio pelas evidências, os olhos fecham-se

Mas sentem-se abrir lá no fundo, escuro, frio, do rio que na infância quente e hajam silvados

Para a gente ver se ainda sente e um Ventil para partilhar com os amigos, enquanto se espera

A hora de partir para outra partida, o amanhã tarda, os pontos finais evitam-se como as despedidas,

Porque enquanto houver mais uma vírgula, as unhas crescem e até lá ainda se espera que aquela

Morenita espere, lá mais à frente, no caminho dos caminhos que se cruzam, mas sem ilusões

Que Agosto foi há muitos anos e o rio sabe hoje a saudades porque a carne que se veste tão longe

E o céu mais baixo, mesmo que as unhas cresçam, mesmo que não parem de crescer.



31.08.2011



Turku



João Bosco da Silva


segunda-feira, 29 de agosto de 2011



Reminiscências Decadentes



A decadência de um império deprimido e convencido de que a memória latejante de glórias

Improváveis imunes à erosão do futuro a vir, constantemente, uma avalanche invencível,

Contra um insecto com o coração (Ego) desproporcional enquanto um insignificante poeta

Se senta à sombra de dois mil quilómetros a beber uma cerveja, quase sangrenta à beira

Do colapso (outra vez) pela confrontação com a sua alma suposta, nunca à medida da luva,

Enquanto os olhos flamejam com um quase ódiovergonha por um enxame de aborrecidos

Portadores de asas sem utilidade no ar real.



19.18.2011



Lisboa



João Bosco da Silva




domingo, 7 de agosto de 2011


Aquela Miúda Das Limpezas



Não é loira, se fosse loira não interessava, é um branco prata e eu, afinal um lobo fascinado

Pela luz da Lua naquela cabeça de lagos profundamente azuis, onde quero mergulhar,

Enquanto sinto aquele corpo pequeno a derreter-se à volta do meu desejo doentio.

Temo o seu cheiro e mantenho o sorriso à distância para que não se note que não sou

Grande domador de leões. As suas ancas são mais que água fresca, fluidas, numa montanha

De verão abrasador para a sede que o sal da sua pele morena, brilhante, e todo eu uma traça

Em direcção à sua presença de sorriso tímido e olhar provocador que procura sarilhos

E sei que tem unhas, têm sempre húmidas unhas e mesmo tendo eu sido amestrador de

Hienas no circo de feras infernal, sinto uma vontade de medo quando ela passa, de azul,

Pequenina, do tamanho de um abraço para a perdição, quase ilegal, voltando a cabeça,

Tentando ser espelho do meu fascínio velado, a caminho da mais uma casa de banho,

Arrastando o carro de limpeza, o que resta da minha alma algures no caixote de lixo,

Empurrando mais fundo a consciência dos meus anos e nasce uma revolta em forma de pergunta:

Por onde andaste, quando eu ridículo e da tua idade? Agora velho e ainda mais ridículo.

Passa, passa e leva tudo e o teu nome e a tua voz que ainda vibra e parece que é na caneta,

Mais fundo onde se tem pena das gotas de esperma desperdiçadas nas gargantas desesperadas

Por um abraço que me custou, quase como ver-te passar tão vazia de mim, tão vazia da vontade

Da minha vontade. Passa, passa, vai lavar a casa de banho, pode ser que me encontres por lá,

Noutros tempos, à espera da descarga do autoclismo, ou nos sonhos coincidentes de quem

Já não tem sonhos e deixa passar por respeito à frágil beleza da ilusão de uma inocência

Capaz de um orgasmo com o toque quente com o brilho lunar nas aréolas rosadas.



07.08.2011



Turku



João Bosco da Silva

quarta-feira, 3 de agosto de 2011


Vai-te Deitar Que Eu Vou Dormir


Sorri-me nesse abismo, tão cerca de um pestanejar aflito no limiar do fim da infância,

Mas não tenhas medo, a excitação dos dedos apagou o calor do teu interior e no resto

A calma de um acordeão eterno, um morto que afinal encontras numa rua demasiado familiar

E tudo mais eterno do que aquilo que tu pensavas, arrependes-te, porque a morte mais longe,

Estupidamente esperavas que fosses especial, sem música e outras drogas, ainda cá, tu,

Vai-te deitar rapaz, que o teu mal é sono, garota. Abre bem esses braços, são a tua vida, o que vale

A pena, se um dia viveres até lá e tiveres saudades. Vou-te contar um segredo: o melhor poema

São aquelas palavras que vêm da saudade impossível pela distância, mais pelo tempo,

Porque não há sonhos como o desejo de outros tempos outra vez, não há sonho mais impossível.

Humedece um lenço de papel com a felicidade quase salgada daquela visita à aldeia

Que não és tu, cada vez menos tu, mas algo se move longe, além das montanhas que nunca conheceste,

Perguntaste porque será, os filhos dos teus amigos respondem-te com um sorriso que temes,

Mas é a verdade e nunca saberás, porque amanhã serás apenas a possibilidade do que serás amanhã,

Nunca tu, cheia de esperança na eterna cama daquele quarto que deixaste ainda com vinte e poucos,

Em Guimarães, Porto, Bragança, Tenerife, Londres… a sério que Paris também(?),

Pergunto-me se estas cidades, desde as grandes às maiores, te provocarão maiores dores de dentes,

Por palavras, omissões de actos cessados, no futuro apenas presente, aborrecimento e humidade

Da que espera, da que seca, da que morreu e agora a máquina de escrever de Borroughs,

À espera de Keroauc, Corso e o cu de Ginsberg a julgar-se melhor que Pessoa, com Pessoa a ser o infinito.



03.08.2011



Turku



João Bosco da Silva

sexta-feira, 29 de julho de 2011


Mensagem A Um Amigo



Meu amigo, és feliz? Quem te pôs esse peso todo em cima, foram os anos?

Já nem os teus dentes reconheço e não acredito que a tua incrível resistência

Te acompanhe agora nos teus passos apressados, empurrados pela responsabilidade

Que não se pediu, mas foi tudo o que nos ofereceram. Essa gente toda, essa nova

Família, conhece o cheiro quente das tardes no campo de futebol da escola?

Há muito tempo que ninguém me conhece e agora tenho tantos nomes e cada vez menos

Anos são meus. Mas meu amigo, se és feliz além do teu olhar apertado pelo peso do medo,

Da incerteza, é tudo o que preciso para te abraçar na distância, que nos ilude a vontade.



28.07.2011



Turku



João Bosco da Silva

terça-feira, 26 de julho de 2011


Dizem Que O Que Interessa É O Conteúdo


O primeiro Möet & Chandon no último segundo do ano, em Helsínquia, anos depois das aulas de francês

Onde aprendi o nome da marca e nunca mais a esqueci por me parecer impossível, não se compara

Às primeiras Snappy no bar do posto da Guarda Fiscal em S. Gregório, quando ia visitar o meu pai

Nos dias em que estava de plantão. A casa de banho cheirava a urina, mas lá fora a relva irregular

Fazia esquecer todo o futuro que viria a tornar-me em algo longe e o gás saía-me pelo nariz e eu

Pensava que aquilo era o tal “chorar de felicidade”, nunca estive tão perto tão certo, mesmo com

As mãos sujas com óleo dos matraquilhos quando ainda me era permitido fazer roleta com os bonecos,

Quando entrava nos carros ferrugentos e cheios de vespas, apreendidos por contrabando e tudo

Me parecia natural como os meus avôs estarem vivos e com algumas rugas, longe longe, atrás dos montes.

Queres um craque, perguntava o meu pai e hoje não sei se era uma barra de chocolate extinto com esse nome

Ou um queque, lembro-me que ambos me tornavam os olhos maiores do que aquelas ostras em Londres

Ou a mísera colher de caviar em São Petersburgo. Dizem que o que interessa é o conteúdo, não a garrafa,

Mas a mim sabe-me muito melhor a Coca-Cola das garrafas de vidro, se calhar porque me lembram

O meu pai, fardado, tão grande, aquele homem que eu queria ser quando fosse grande, mas não consegui.

Enquanto eu viver ele será eterno na minha limitada passagem e nunca um deus me perguntou: queres uma Snappy?



25.07.2011



Turku



João Bosco da Silva

segunda-feira, 25 de julho de 2011


Nos Anos Em Que O Cheiro A Pólvora Era Sinal De Felicidade


Houve anos em que o cheiro a pólvora era sinal de festa e felicidade, ou de época de caça

E cães mortos pelos cantos do bairro, gatos com as vidas todas levadas de uma vez,

O medo era pouco, de pequenas coisas, o mundo era de Mirandela a Bragança, era grande

E dois polícias mortos dentro de um carro (corruptos), na serra, era como um genocídio.

A vida não pedia álcool, não tinha sido infectada pelo horror, pelo tamanho do mundo,

Minúsculo, homúnculo de almas torturadas pelo demónio da humanidade, a própria humanidade,

Bastava uma cerveja para não se controlar a felicidade, bastava uma noite “hoje é festa, podes ficar até à meia-noite”,

Bastava o desejo de roubar um beijo para a noite valer a pena, com os lençóis aquecidos pelas

Noites quentes de Agosto e nada mais, amanhã é que vai ser, aquela, a outra, tão fácil a paixão,

Tão fácil o esquecimento, que aparentemente nunca se instalou e os castanheiros à espera da companhia

Anual, com os martinis a afogar a ressaca dos grandes, nos anos em que ressaca era uma palavra estranha

Que não se via, não se imaginava sentir, o mundo parece ter crescido, mas afinal foram só passos dados,

Passos perdidos em direcção a cada vez menos passos, ou em direcção à propriedade de um parente

E a ferida de umas partilhas injustas a tornar o chumbo em algo que corta a continuidade precocemente,

Antes o meu irmão que um filho da puta de um cabrão. Afinal não se trata de um peluche peludinho,

O mundo, é um monstro peludo que nos comerá a todos, não interessa onde, nem como, é inútil fugir,

Algo virá, uma bala louca, um cancro inesperado, ou a sede que afinal deu frutos e mais um como o avô,

E nunca se terá aprendido a escrever poesia, nenhum poema terá sido suficiente e todos juntos

Parecem ter o sentido da vida. Às vezes perguntam: é sobre o quê? Nada, é sobre nada,

Tem pequenos momentos, bons maus, perguntas, muitas perguntas, respostas que valem

Só para quem as encontrou, sejam as certas ou as erradas, tem o cheiro da terra e tem o cheiro

Que tem a terra quando não se pode cheirar, tem olhos para quem lhos empresta,

Tem mãos para quem arrisca fazer parte, é uma vida, às vezes a tua também, outras não, nada.

O que farão os filhos que nunca tive num mundo que encolhe à medida que lhe cresce nos olhos,

Tenho pena, tenho medo de mais uma vida nesta vida, tenho medo e não é o mesmo medo

Do tempo em que o cheiro a pólvora era sinal de felicidade, do tempo em que o sangue era

Resultado de uma tarde com a cabeça ao sol e as unhas cheias de terra, um punho amigo

A ensinar que a vida é às vezes fodida, o mesmo punho que te apresenta uma cerveja gelada,

Um aperto de mão quente e forte, eterno, crepitam os ossos, toda a gente sabe,

Como o som de cinquenta escudos dados pelo tio João pela arcade dentro, numa vida que hoje parece

Um sonho, o paraíso verdadeiro e a vida no fim de contas corre ao contrário do que nos ensinaram,

Daqui só para o inferno, o paraíso perdeu-se e a inocência ficou nos anos em que o cheiro a pólvora era sinal de felicidade.



25.07.2011



Turku



João Bosco da Silva

quarta-feira, 20 de julho de 2011


Sem Coisas Profundas Também Sai Poema (desnecessário)


Lembras-te daquela noite no Carnaval, um baile de finalistas, um de muitos, do sofá ao fundo,

Lembras-te dos meus dedos na tua pele, da minha língua bêbeda com quatro ou cinco cervejas,

Do meu amigo no sofá em frente, agora casado, com a mesma, mas agora mulher e o que terá

Corrido mal para a resignação ter sido tão precoce, ou bem para… não me fodam!

O meu mestre comeu-a, as adolescentes são demasiado fáceis e é injusto e a vida morre-se

E não passa de uma adolescente e é injusto. Serei o único a levar as noites ao limite do estômago,

Ou serei o único que não leva a sério isto que é a brincar antes da eternidade, têm-me faltado

Pontos de interrogação, mas não é por falta de dúvidas, é mais por orgulho, falta de humildade

Nos dedos cansados de humidade e tenho dito tantas vezes não, que tornam as vitórias dos heróis

Pequenos em cervejas quentes e apressadas, como uma masturbação de uma semana sem carne fresca.

Meus filhos, eu conheci Ginsberg e nem Kerouac me disse nada acerca do que estou a fazer,

Por isso continuo, porque não há mais nada que seguir em frente, siga, que o abismo lá espera,

Hajam ratas e adolescentes idiotas e mães esfomeadas por um pedaço de carne e um sorriso,

Um elogio que lhes ressuscite a beleza (a juventude é contagiosa mas não dura na realidade),

Haja ilusão e amor e outras ilusões que se sentem mais que a dor, paixões, ejaculações porque:

Ai que me venho e o resto que se lixe e o resto depois a possibilidade de um universo, de mais uma morte,

Tenho tido colegas a engravidar, tenho afilhados, tento adiar a sorte, bebo com pressa, não venha

Algo sem a minha vontade bater-me à porta e dizer: lembras-te do joelho de Rimbaud

E eu respondo, haja sangue como Kerouac, mas dentro, sem chumbo, que o velho Hemingway

Devia ter esperado pela morte, mas quis ser mais fraco, ou forte, ou não sei, porque

Os meus amigos insistem em levar a mal as minhas quase tentativas: e eu com isso? Venham antes,

Não se armem em corvos, mas não me faz falta, a sério que não, hajam tios e copos para encher de vazios.

Lembras-te? Quase foste uma paixão de adolescente, quase que vivias para o meu sempre possível,

Quase que te fazia musa de demasiados poemas (maus), sempre maus quando escritos com “amor”,

Ou o caralho que isso for, mas lembras-te? As tuas nádegas duras nas minhas mãos esqueléticas,

O meu tesão (sei como te domar agora cabrão), quase a rebentar-me nas calças e uma bebedeira

De pouco mais do que quatro ou cinco cervejas. Dava o dia todo de hoje, a meter vida em veias,

A recordar conquistas que muitos invejam, só porque pensam que é muito melhor do que o que é realmente,

A recusar o convite para uma orgia (pronto, a três) numa cabana em Perniö, só porque o cansaço

E também a falta de bolsos para mais memórias desse tipo, e haja cerveja e uma

Descendente sueca à minha espera no bar irlandês: isto não é poesia? Então? Matem o gajo que só tem um poema.

Fartinho de o ouvir, lembras-te, afinal és grande nos pequenos, eu não chego a existir

Nem nesses, nem noutros, sou e chega-me (não, não falta nenhum ponto final)



20.07.2011



Turku



João Bosco da Silva

terça-feira, 19 de julho de 2011

BATER PALMAS E SETE PALMOS DE TERRA NOS OLHOS




Apresentação dia 26 de Agosto pelas 21:30, na Galeria-Posto de Turismo de Torre de Dona Chama.

domingo, 10 de julho de 2011


Ensaio Sobre O Cansaço Ou Mais Um Poema Desnecessário


Às vezes é algo como cansaço, uma ausência viscosa que se sente dentro e só

A solidificação em palavras, só a regurgitação de um sentido, alivia a acidez do fascínio

Doloroso que é um segundo a menos a cada segundo que passa, por cima de tudo

E a época das cerejas já acabou e este ano não existiram cerejas, nem tardes em cima

De cerejeiras até o estômago doer, só a dor no estômago que se propaga como

Um magma, mas afinal só bebida a mais numa noite tão pouco noite, e sucos gástricos

Que são tão pouco, tão mais nossos que quaisquer palavras que nos possam sair dos dedos,

Porque são de todos e todos querem ser donos exclusivos, mas não há uma forma,

Nunca houve uma forma, só o fim é comum e a eternidade é demasiado grande para as mãos,

Sejam elas quais forem e até a hipocrisia dos padres se apaga na hora da morte, Ámen.

Um ponto final tem muitas vezes o tamanho do infinito até que Um cai e recomeça

A sinfonia monótona das sílabas, da tentativa de dar vida ao silêncio, dar uma razão aos olhos

Para se moverem, para moverem o interior e o levarem a lugares que sempre lá estiveram

À espera da sugestão dos outros, ou do tempo para correr no tempo, fecham-se os olhos

E vê-se o cansaço, mais que uma palavra, mais que gotas de metal quente, que pingam

Na carne que todos somos, sem almas além dos gritos enquanto se dorme e se sonha

Com aldeias pequenas e bruxas e antigas paixões que nunca chegaram a perder-se,

Simplesmente se deixaram passar, porque às vezes não se deve tentar preencher o vazio

De um desejo, porque vale mais que o tamanho insuflado da desilusão resignada de se ter cumprido.

O cansaço em forma de cristal, de fragilidade que não se suporta mais, só por ser

Demasiado fachada e no fim o que se quer é brutalidade, o sabor do sangue nos lábios,

Dois dedos dentro enquanto se dilata para mandar a moral às urtigas e a missa de Domingo

Para o inferno, porque o que interessa são as palavras nas mãos, não as mãos nas palavras

E nasce um sorriso triste, dos que reflectem o ridículo alheio abençoado pela cegueira

Dos espelhos mentirosos, tem que se acreditar no que se quer, tem que se morrer enganado

Para viver para sempre, tem que se tentar para no fim acabar debaixo de um cansaço

E de uma vitória com o mesmo peso da derrota, no fim só haverá cansaço e todas as palavras

Serão inúteis na eternidade, todas as palavras são pedaços impossíveis de infinito

E o infinito não é amigo da memória, nem dos muros dos caminhos em direcção

Aos soutos e até a bicicleta daquelas voltas foi comida pela ferrugem, apesar das cicatrizes

Persistirem numa dor esquecida, de tempos frescos, livres, antes da corrida começar a sério.



10.04.2011



Turku



João Bosco da Silva

quinta-feira, 7 de julho de 2011


A Caminho De



Naquele autocarro, em direcção à capital com dezasseis anos, o Sol escaldante do asfalto

E as horas mais compridas do que agora, com os amigos eternos, a equipa cheia de esperança,

Sem grandes ambições além de chegar e tentar o melhor, ver Portugal jogar

E regressar cheios de histórias e algumas fotografias na máquina fotográfica descartável

Para mostrar aos pais e aos colegas que passarão o fim-de-semana nas suas terras quentes e saudáveis.

Naquele autocarro com dezasseis anos tão grandes, as mãos cheias de vontade e de oportunidades,

As mãos vazias e prontas para agarrar a sorte que nunca chegou realmente a aparecer,

Foi-se andando, por essas estradas da vida, até ao momento longínquo destas saudades

Em forma de dedos que escrevinham algo que tenta ser um poema, que tenta ter algum interesse,

Que luta pela atenção dos olhos alheios como se disso dependesse a sua existência,

Com os olhos fascinados pela paisagem, que se altera a cada quilómetro, em direcção ao Sul,

O Portugal real e o resto, nós, não sei bem o quê, quase esquecidos no próprio reino esquecido,

Com O Grande Gatsby aberto, a tentar entrar e eu sem pressa, porque também eu regressarei um dia,

Até que esse dia chegou e eu regressei mais pobre, mais cansado, mais desconhecido para aqueles

Que me conhecem tão bem, não fossem eles partes daquele que digo ser, muito mais que o nome,

Eu com o F.Scott Fitzgerald nas mãos, enquanto uma miúda tagarela de catorze ou quinze anos

(Gostava bem de passar a viagem a beijá-la) me tenta tirar uma foto e eu sem perceber porquê,

Nunca percebi bem porquê, mas sorrio, sorri, escondi-me atrás da cortina do autocarro

E ela sentou-se no lugar ocupado por F. Scott Fitzgerald e quase sobre mim, roubou-me um pouco

Do pouco que era, ainda menos hoje e ter-me-ia levado todo se lhe tivesse provado os lábios

(Antes de aprenderes a atrair, aprende a afastar), mas eu com ilusões de palavras e escritores

E que ainda há tempo, até o tempo chegar, dez anos passarem e os poemas cada vez menos meus,

Cada vez mais longos e com menos significado, a fruta cresce mas torna-se seca e o sumo

Não depende do tamanho, deu-me a sede e o refrigerante patrocinador do torneio em todo lado,

Naquele autocarro em direcção ao Mosteiro dos Jerónimos, onde os meus pés virgens

Pisaram o túmulo de Pessoa e o meu ar sério ao lado de Camões com Vasco da Gama

Sem perceber que fazia eu ali, de fato treino verde, queimado do sol no nariz,

E eu agora sem perceber nada do que até agora e com a sensação que nem vale a pena

Tentar, porque cada segundo que se passa a tentar é tempo perdido numa derrota que se espera inevitável.



06.07.2011



Tampere – Turku (comboio)



João Bosco da Silva


Regurgitações II



Ter os olhos abertos num dia em que o Sol nem descansou, em que cada segundo é um orgasmo

Primordial e inocente entre as muralhas erguidas pelos deuses asgardianos mais reais do que os

Crucificados, porque nunca nasceram, nunca morreram e apesar de terem perdido a fé

Dos seus seguidores, não foram esquecidos. Se aqui for o céu dos católicos tornar-me-ei crente,

Se não (ainda estou vivo, apesar de tudo demasiado belo) continuarei ateu, mas contente e só terei

Pena por a morte me tirar todas as imagens que tentei tornar eternas dentro de um corpo insignificante

Que criou isto tudo em miniatura enquanto lia Trold num quarto pequeno na baixa do Porto,

Porque é impossível imaginar o tamanho real das montanhas mitológicas encerrado entre ruas escuras.

Aves cujos nomes desconheço cantam-me sinfonias que os olhos ouvem com imagens, ao longe

A neve eterna salpicada nas rochas forjadas nas lutas entre titãs, o meu coração também

E uma criança grita palavras que já não consigo traduzir, mas compreendo, lá no fundo

Onde me moram os sonhos, um jovem corvo, enviado por Loki, olha-me com uma profundidade

Negra e segue caminho lentamente, à esquerda Onsogssenter, lê-se na placa e quem sabe noutra vida,

Tromsø finalmente ao alcance real dos olhos e alguém me chama para jantar, baleia,

E o sabor faz-me lembrar os javalis do meu avô, enquanto o Sol ainda alto, luminoso

E maior acima das montanhas da minha segurança infantil. A vida vale a pena e até três

Pequenas ovelhas me parecem dizer mais verdades com o seu olhar curioso do que mil

Poemas escritos à beira de um abismo interior, na segurança de um regresso perdido à casa que nunca mais.



04.07.2011


Hatteng (Noruega)


João Bosco da Silva

sábado, 2 de julho de 2011


Conversa No Trabalho


Falam fascinados da sua casa nova, o armário que tem três prateleiras e a

Primeira é para escorrer a loiça, o sofá azul e a inesquecível visita à loja de móveis,

Com design sueco e fabricados na China ou em Portugal, onde nascem desejos de

Mais cadeiras (sempre vazias), mais almofadas (que serão só para estar e ocupar espaço),

As janelas, quantas são e a luz que deixam entrar, falam com uma excitação infantil,

Quase me assustam, mas fico na mesma (não me movo por dentro), a olhar para os seus

Gestos exagerados sobre quadrados, acenando que sim com a cabeça como quem ouve e

Compreende, mas não, não compreendo a excitação deles e eles nunca compreenderão

O meu fascínio por outras inutilidades eternas, que me pertencem, mesmo que não as

Possua, mas não hesitam em chamar-me de poeta ou maluco, quando lhes falo do

Aroma delicioso a verde quente das manhãs de Julho(antes de começarem os incêndios),

Ou quando gesticulo como quem pinta numa tela gigantesca com os dedos, apontando o

Crepúsculo pintado a cor-de-rosa, púrpura, cor de laranja e felicidade melancólica de mais um

Dia para mais um dia, ou quando conto como é aquela festa no Inverno com uma fogueira

Enorme e o ar cheio de ancestralidade e paganismo inocente, ou quando lhes explico

Tudo o que aconteceu antes do fumeiro na mesa e me olham chocados, com olhos enjoados

Enquanto os meus brilham com o sangue ainda quente, sem gota do sadismo que eles lêem.

Falam fascinados do seu mundo quadrado, mas eu não consigo vê-lo de outra forma que não

A dele e pergunto-me enquanto falam: anda a gente a trabalhar para encher a vida de vazios?



02.06.2011



Tampere



João Bosco da Silva

quinta-feira, 30 de junho de 2011


Senhora Professora Eu Confesso


Numa esplanada na companhia de uma checa, loira, de Bukowski no colo e o perfume

De há dois verões que passa à minha frente como um fantasma, com o Bukowski

Numa esplanada, invariavelmente o Bukowski no fim de mais um dos seus livros de poesia

(Crónicas curtas) e não há melhor arte que a verdade, melhor poema que uma confissão:

Lembro-me de ti, daquela noite sem esperança, na terra pequena cheia de sonhos demasiado

Possíveis quando te conheci, chovia e eu seco, chovia e tu não te calavas e eu já adivinhava

Que me ias espremer o leite, difícil depois de tanta cerveja, tanto whiskey e resignação

Ao Inverno inevitável, a primeira noite adiada e lembro-me da última em que mais do que

Entrar dentro de ti, perdi-me entre os aromas do nosso corpo, esqueci-me do sabor

Do meu suor e decorei a sinfonia da tua excitação quase em forma de chuva,

Outros bebiam as cervejas já quentes na sala, querendo acreditar que nós perdidos

Nos corredores quando eu perdido em números invertidos, a minha língua a manter o ritmo

Do teu clítoris e depois de muitas páginas não me conseguirei vir, mas cheguei e no dia seguinte

(Dali a umas horas) o baptizado da filha de um dos meus melhores amigos (dos que dão passos

Reais na vida) e à noite o beijo já sem sabor da adolescente, mas eu já incapaz de amores

E outras tretas, ainda com o sabor da tua excitação morena nos meus lábios, já no meu estado

Anormal (tido como normal por quem me conhece “realmente”), a tentar jogar dardos

Com um pescador, um polícia reformado e o pai da criança baptizada, fazer o que sei melhor,

Perder, mesmo entrando, mesmo espetando, ferindo e tendo deixado marca,

Tu sentada a querer mais, eu a sentir que tu a querer mais, mas eu tão pouco e tudo o que dou nunca suficiente, mesmo que todo.

Acredites ou não, pararam duas Lindqvist, irmãs com cabelo de cobre e olhos absorventes de pilas

Na boca e eu sei disso porque uma fez de mim Cristo no deserto a evitar milagres, iam jantar,

Ficaram de pé à espera de um convite e eu limitei-me a matar a conversa, lentamente, dando

Mais atenção à cerveja que a elas, até a sua fome se tornar mais dolorosa no estômago

Que nos outros vazios, até se irem e me deixarem acabar este poema tão desnecessário

Como tantos outros poemas, lidos e relidos, até à exaustão e a morte algo tão pequeno

Quando lá fora, um medo, uma possibilidade, como aquela noite em que te conheci

Senhora Professora e não penses que não me lembro de ti.



30.06.2011



Turku



João Bosco da Silva






Pedra Na Mão


A cerveja gelada cai

No estômago vazio

Como o toque esponjoso

Do colo do útero

Na glande,

Um gajo sente-se vivo,

Algo além do universo

Mas parte,

Alguém,

Acolhido e acolhedor.

Cada mulher é um mundo

Estranho e fascinante,

Golo refrescante

Que se perde

Na familiaridade

Da nossa

Temperatura corporal.




30.06.2011




Turku




João Bosco da Silva

segunda-feira, 27 de junho de 2011






Antes De Zaratustra


No cimo de uma montanha, num Agosto tão quente que cinzento o horizonte,

Longe dos anos que não se conseguirão evitar e cairão sobre os olhos da esperança

Como uma avalanche de magma e escuridão, filósofo do sem pensamento

E o que virá virá, a miséria não passa de histórias à hora do jantar, ou nos jornais

Que se evitam porque deixam os dedos sujos e escuros, a dor é uma manhã geada

De Janeiro e a riqueza maior é a lareira ao chegar da escola, um leite com chocolate quente

Até o pai chegar para jantar, um gelado quando a sorte de duzentos escudos nas tardes de verão

E a felicidade torna-se cada vez mais difícil com os anos, o sorriso de uma rapariga torna-se

Insuficiente e nem as violências no seu colo do útero ajudam ao vazio, a dor deixa de poder

Chorar-se e só a ejaculação a leva por momentos, longe no cimo da ermida, Nossa Senhora da Saúde

E os ossos sem nunca terem entrado num hospital, as mãos sem saberem que às vezes se morre

E não há muito mais a fazer a não ser ver a desilusão final de um corpo que não foi suficiente.

No cimo de uma montanha, com o mundo desenrolado montes abaixo, cheio de beleza,

Algumas casas, aldeias inofensivas, onde palheiros, machados ensanguentados e também

Horrores em menor escala, mas longe, longe aqueles joelhos na rua de Estocolmo

Com as mãos erguidas ao céu como uma prece ao novo deus, para que ele caia, frio e metálico

Nos dedos da fome, fome de tantas fomes diferentes, as agulhas a cegar a alma até à dor do despertar

No Porto, onde homens e mulheres vendem o acesso aos orifícios por deus, enquanto uns

Resignados dormem debaixo de pontes e viadutos, longe das mãos que procuram, que se procuram,

Em caixotes do lixo nas ruas castanhas de Londres, enquanto alguém te tenta vender droga

Nas ruas de Montmartre, quase vazio, quase no fim e o cemitério ali ao lado, à espera do mundo todo,

Longe das prostitutas russas, incrivelmente magras, com os braços cruzados, escondendo

As marcas do seu apodrecimento, à espera de um turista, de um Hummer negro, na noite fria

E escura de São Petersburgo, à espera do desespero de alguém só, alguém cansado de se ouvir

No silêncio de um quarto pequeno, as prostitutas brasileiras em Espanha, com as suas lengalengas de sempre

Só porque os filhos longe à espera do dinheiro dos trolhas, turistas decapitadas em praias

Marcianas nas ilhas Canárias, longe, longe deste monte de onde o mundo parece verde.

Deus ainda parece um homem, como o pai natal, mas que veste de branco e não bebe Coca-Cola,

Um homem estranho que deixou matar o filho para provar algo acerca do amor, o filho também deus

E eu já com dúvidas do sentido daquilo tudo para fazer com que isto tudo um sentido,

Por aqueles montes abaixo, onde quem sabe, me encontrarei pelo caminho com Zaratustra

Ou Keroauc, iluminado, mas não de todo, o avô igual, mas sem escrever, amarelo e morto,

Não acredito que me encontre com crucificados, mas muitos levam a sua cruz, arrastam-na

Monte abaixo, pelas urzes, giestas, cardos em direcção a um abismo redentor onde a lançam e se deixam cair.

No cimo daquele monte, com as mãos vazias ainda cheias de possibilidades, outras páginas para virar,

Magníficos capítulos, revolucionários, novos, ainda acreditando nos olhos como nas palavras,

O mundo um privilégio que se dá ao vazio para ser algo, voz ao silêncio para ser cantada a eternidade

E só a dor dura, só a vida dura, pouco, a expiação é eterna, mas longe, longe do cimo desta montanha

Onde se senta a minha memória a segregar saudades e a reconhecer a absoluta derrota

Dos meus anos em busca de nada, quando tudo aqui em cima, tudo aqui longe,

Porque a proximidade nunca foi amiga dos olhos e a perfeição está sempre a uma distância qualquer.



Turku



27.06.2011



João Bosco da Silva