segunda-feira, 4 de abril de 2016

Segredo Esmeralda

Podia falar-te daquelas manhãs à beira da última cerveja da noite,
A apagar cigarros à chuva com uns desconhecidos apaixonados pela insónia,
Podia contar-te da aspereza dos sofás alheios nas nádegas brancas
E daquelas púbis arruivadas que não contavam com o mergulho de barba,
Podia revelar-te ainda a idade em que os anos deixam de passar e passam a desabar,
Mas eu sei o que queres realmente saber, o segredo do meu olhar,
O brilho por trás do dente canino pronto à perdição da carne,
Pois bem, enquanto o Sol se punha, sentava-me na mesa da cozinha
E escrevia poemas ao ritmo das trindades, enquanto olhava o horizonte
Pela janela com a luz a bater-me nos olhos e da porta aberta
Sentia o cheiro da terra a arrefecer, o meu pai rachava lenha
E pelo alvoroço a minha mãe escolhia uma galinha para o jantar
E dos dedos saíam-me versos sobre saudades futuras e amanheceres
Longe dos olhos que à noite se fechariam,
Adormecendo depois do ladrar do último cão vadio.

04.04.2016

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 28 de março de 2016

Escorpião Esmagado Na Calçada

Não sei como te explicar a surpresa de um escorpião debaixo de uma pedra
À distância de uma calçada tão gasta como ignorada, se te pudesse
Justificar o peso do meu sotaque com a densidade daquelas manhãs
Afogadas em nevoeiro, por trás de cada giesta um reino inteiro à espera
De ser reconhecido como real, e nós acendíamos cigarros às escondidas
Com uma crueldade infantil, mas como te fazer ver que os ramos dos castanheiros
Se moviam por algo mais que o vento, o medo inocente que brotava das
Histórias contadas envolvidas por lenços de luto e falta de dentes,
Um olhar verde é só um olhar verde numa tasca da capital, numa rua com nome
Azedo e de vergonha às glórias passadas, e as palavras que correm
São apenas água de um ribeiro desconhecido e só com nome lá na terra
Onde usam a água para regar os feijões, nos cemitérios apodrecem sem nome,
Só na memória se espreme a muito custo a imagem daquele cansaço último,
Mas como poderás entender o desespero da última cerveja entre solidões
Cansadas de tantos dias, a resignação do bagaço nas manhãs varridas pela vassoura
Contrariada do náufrago envolvido por um avental manchado,
Podia dizer-te que tento, que tentei, mas não é verdade, já é tão difícil ser,
Não interessa o interesse das pupilas saturadas pela ausência de carne e de luz,
O escorpião com o seu poder concentrado de dor, debate-se contra um pau
Inocente empunhado por uma morte certa, é duro e no entanto tão frágil
Sob os olhos curiosos de um mundo por fazer, calçada abaixo até aos olhos de frasco,
Habituados ao museu de história natural que estranham a vida num escorpião.

28.03.2016

 Turku

João Bosco da Silva



quinta-feira, 24 de março de 2016

A Cor Do Mar

aos 7,

Não me lembro o que esperávamos, mas lembro-me da cor do mar,
Da textura do muro de pedra contra a pele tão cheia de certezas,
Tão certa das boas intensões do futuro, e aquela cor fria apesar do Sol,
Aquele vento contra a vontade de um Verão precoce em Abril,
Lembro-me do livro que tinha comigo sobre uma morte anunciada,
Só não me lembro por que estávamos sentados em cima do muro à beira-mar,
Da cor do mar não me esqueci, nem daquela ausência de sombra nos olhos,
Cheios de tempo, tão virgens e inocentes, ignorando todos os longos Invernos
E as noites sem fim, a escuridão de tanta gente que o futuro semeará
No caminho a percorrer, tantas vezes sem uma montanha sequer
Onde descansar o olhar, mas que fazíamos nós ali a acumular areia no vazio
Que o tempo deixa, chega então o autocarro para a cidade cinzenta,
Era isso, e quando arranca, leva-nos a nós e à cor do mar.

Turku

23.03.2016

João Bosco da Silva


O Apodrecer Das Uvas

No canelho perto da igreja da terra, onde em tempos leitoras
Comiam carne regada a fino, alguém diz, este é aquele do livro,
Perguntam-me pelo deste ano e eu digo que capital, já não espero
Milagres de que não espera nada do santo que nunca fui,
Sinto-me mais em casa debaixo da figueira, com Moledo nas páginas
De um livro de digestão difícil, e se ninguém estiver a ver
Bebo uma lata de coca-cola e fecho os olhos enquanto engulo anos
E devolvo centímetro e desilusões e as crostas dos lábios
Contaminados pelos verões em que se gastou a inocência,
Só mais um bocadinho, só mais uma última vez e deixam de nos reconhecer
À primeira, os olhos procuram um lugar comum no rosto coberto pela
Vergonha que nos quiseram impingir como hóstias secas em manhãs de sede,
Se soubessem que apesar do tempo, dos anos multiplicados aos
Quilómetros, quando me sento no cimo daquela fraga, sou todo eu,
Eu como se os joelhos esfolados do granito, eu como se as unhas
Ainda sujas de brincar na terra a construir cidades do futuro
Com as telhas meias podres de uma casa abandonada,
É aquele do livro, quando já seis e outro à espera de um ano imprevisto,
Eu quase que a dizer que não, que eu o garoto de cabelo queimado
Pelo Sol, que mora além, onde toda a gente se encontra quando fecho
Os olhos numa tarde quente de Agosto, ignorando o apodrecer das uvas.

Torre de Dona Chama

05.08.2015


João Bosco da Silva

quinta-feira, 17 de março de 2016

Mulher Duplicada

Hoje vi-te, estavas ao balcão a pedir uma cerveja, acompanhada
E eras tu, a forma como olhavas para ele era com me olhavas a mim,
Não era eu, os braços paralelos aos corpo com as luvas ainda calçadas,
Como quando tu esperavas, a bolsa do lado esquerdo, usadíssima
Como tu, mas não gasta, não sei se sorrias, imagino que sim, já que eras tu,
O cabelo de ferrugem, a pele de neve sempre com fome de verão,
Eras toda tu, então entregaram-te a cerveja, voltaste-te, olhaste para mim,
Através de mim e nos teus olhos não era eu, afinal tu, também não eras tu
E a tua sósia lá se foi sentar com o teu nariz, levando a cerveja toda séria,
Não suspeitando que o gajo de barba que olhou para ela como se a conhecesse,
Escrevia um poema sobre quem ela não era.

Turku

16.03.2016


João Bosco da Silva


Deitado de costas nuas
Sobre a erva seca
De um lameiro, ressacado,
O sol através das pálpebras:
Eis o vermelho.

Turku

16/03/2016


João Bosco da Silva

terça-feira, 15 de março de 2016

Dissecação Do Perfume


Há uma mistura de cheiros que me faz lembrar de ti
Naquelas noites frescas de Junho na tua varanda
Com vista para o castelo, laca Elnett, o sorriso
De uma empregada de mesa num café vazio de manhã,
O vento que passou por pinheiros ainda quentes,
Cigarros de mentol, pastilhas de morango mastigadas
Por uma miúda de pele dourada com gotículas de suor,
Lábios lubrificados e púbis depilada num par de cuecas
Acabadas de vestir, o mesmo vento que passou pelos pinheiros
A tornar a tua saia numa bandeira de um país a conquistar,
Unhas lavadas e o cheiro a cobre por onde passam,
Uma língua manchada com vinho do Porto e
Lábios humedecidos à beira de um rio num crepúsculo de verão,
O fumo de um charro inalado dos pulmões de alguém
Numas águas-furtadas, um elástico de cabelo pouco usado
À volta de um pulso pálido e fino, o movimento de um lagarto
À sombra e a sombra de um escorpião sob a luz
De um candeeiro de rua, a porta de um elevador
Que se abre num sábado à noite e ninguém,
Segredos a roçar no lóbulo da orelha em inglês,
O que poderia ser o cheiro do pó das asas de uma borboleta,
A transpiração silenciosa das vertigens ou de alguém
Que espera sentado em granito à entrada da Estação de São Bento,
Tudo isto com um pouco de morangos silvestres comidos
Pela primeira vez antes de se saber ler
E um comprimido de paroxetina empurrado com uma páginas
De Kierkegaard antes de uma viagem de comboio
Com vinte euros no bolso em direcção à tua varanda
Onde esperavas o colo do meu hipocampo.



Turku


14.03.2016



João Bosco da Silva

domingo, 13 de março de 2016

Dissecação Dos Ecos

Em cada nova boca encontrava um eco cada vez mais diluído
Da verdade que foram os teus lábios de sonho
E vinha-me com a certeza e a vontade do vazio
E sentia que me engoliam sem qualquer magia,
Como se fosse um reflexo esculpido pelo hábito
Da obrigação, os batons rodeavam-me, anónimos e diversos,
Contudo sinceros no toque e com um brilho parecido ao desejo
No olhar, mas um desejo que se pede, mais do que rói por dentro
E no fim cede-se a um convite para tomar chá, já que o vinho
Perdeu o sabor, a vodka se enjoou há anos numa ilha
Que acabou por se tornar no modelo do purgatório
E não é sede, não há sede, só uma solidão que apaga
Aos poucos com os ecos diluídos que se encontram nas bocas
Que te sucederam, todos aqueles verões de saliva
E uma ordem de marfim forçado, cada vez mais pálidos perante
O esquecimento.

Turku

14.03.2016


João Bosco da Silva


Scavenger


Que fazer quando já não sobrou nada para cuspir
E se espera pela Primavera como pela próxima vida
Num beco sem saída entre muitos anos e outros tantos
Arrependimentos, cada verso é apenas um pedaço de saudade
Em segunda ou terceira mão, gasto e esquecido do cheiro original
Daquelas primeiras noites de Primavera, mais vale atirar
O desejo como uma toalha já seca do esforço vazio por sonhos
Com o mesmo recheio, se não se tiver pena, podem rasgar-se
As saudades até ao osso só para sentir brevemente o aroma
Das camélias no olival vizinho, e lá vai aquele cheiro
Ser encaixado entre três versos, como se fosse possível guardar
Nas palavras o que as papilas nos pedem, desconhecedoras
Da mortalidade de todos os momentos e sempre tão certas
De que o que nos revelam é o verdadeiro sentido da vida.


Turku


14.03.2016



João Bosco da Silva

quinta-feira, 10 de março de 2016

No Benten-do
fiz um pedido –
reencontrar-te
quando ambos
formos gatos.

09.03.2016


João Bosco da Silva

sábado, 5 de março de 2016

Estado Quântico Do Perfume

“Knowledge kills action

Action requires the veil of illusion”
Nicanor Parra

Se te voltasse a encontrar, o perfume seria outro, não conheceria o que ficou de mim
Nos teus lábios e no teu sabor adivinharia as razões do meu esquecimento,
Se por acaso cedesse à vontade, contrariando os anos, não reconheceria os teus dentes
Contados à força da língua, mas também tu, que procurarias aquele fogo verde
Nos meu olhos, só encontrarias um carvão da cor do vazio, mesmo num pôr-do-sol
À beira rio, haveriam suspiros ao ver jovens que nós fomos passar com um mundo
Inteiro nas mãos dadas, as arestas dos teus sorrisos seriam mais calculadas,
As minhas esquecidas e improvisadas com o auxílio de uma memória qualquer,
Antes da certeza de nunca mais apesar de tantos uns dias, a tornarem-se anos
E cada vez mais ses, mas o perfume será outro, como outro tem sido quando o reconheço
Em alguém que não tu, porque é impossível voltar a passar, repetir a felicidade.

04.03.2016

Turku


João Bosco Silva

quinta-feira, 3 de março de 2016

Luzes Que Se Apagam Enquanto Billie Holiday Canta

Da janela do bar vejo as luzes acesas dos prédios do outro lado da estrada, os carros passam,
Poucos a estas horas de Domingo de madrugada, a neve nem aquece nem arrefece,
Espera o Sol, alguém morto canta e ainda se sente vida naquelas palavras definitivas,
A máquina de escrever enferruja em toda a sua beleza obsoleta, o relógio de corda
Luta contra o esquecimento inevitável, salta cada vez mais segundos, no fim da rua,
Uma noite chovia nos meus dedos húmidos e quentes e à janela de um prédio,
Alguém fumava um cigarro e assistia, encostados à árvore, apetecia-me levá-la
Ao prédio em construção e fodê-la sobre uns plásticos e umas ripas, agora, no prédio
Terminado, luz acesa e sonolência, mais um dia fotocopiado, nada acrescentado a não
Ser a proximidade ao que foi acrescentado, eu longe, de tudo, entre um encalhado
E um naufrago, acendo as luzes no quarto impossível, vou com uma estrela que passa,
Terei sido naqueles lábios, para que se morre tantas vezes em tanta gente,
Antes da música acabar, antes de se apagarem as luzes, em frente apagam-nas,
Já acabaram de foder, não querem esperar pela consagração de mais um abençoado,
Levanto-me e peço uma última cerveja, a caneta jura estar no fim, esta noite espero não sonhar.

“Y POR FAVOR destruye este papel
la poesia te sigue los pasos
a mi también
a todos nosotros”
Nicanor Parra

28-02-2016

Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Quantum

Às vezes quando passo pela minha antiga janela, daquela casa de madeira perto da catedral,
Evito olhar para dentro, ainda posso lá estar a olhar para o monitor ou por cima dele,
Para os ramos da árvore em frente, nus, à espera da Primavera como eu espero o próximo
Verso, o próximo Verão, só no Verão vivo realmente, o resto é congelar ou descongelar,
Às vezes olho e afinal as cortinas diferentes, outro monitor, nunca alguém, parece impossível
Alguém, depois de tantas horas a consumir vazio ou a tornar a vida em nada, a não ser numas
Palavras e um horizonte sempre longínquo, um dia pode ser que passe por lá
Ao mesmo tempo de uma dessas ondas de Einstein, ou na hora da sesta de deus,
Aí olharei para mim e sorrirei como quem quer mostrar que está tudo bem, tudo melhor,
Mesmo que não esteja, sorrirei para os olhos que procuram o verso e a eternidade
E continuarei em direcção ao esquecimento ou o próximo bar.

Turku

24.02.2016


João Bosco da Silva

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Quando a vida é
Apenas uma sucessão
De desencontros,
Que bom é dormir e
Ver-te à espera no sonho.

24.02.2016

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016



O Poeta, Andreia Pires. 16.02.16
(A2 - grafite, guache)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

O sabor dos teus lábios
também se tornou
na cinza fria daqueles
cigarros apagados
na certeza da eternidade.


Ainda vês no luar
o brilho dos nossos
corpos perdidos
na fome infinita
dos momentos extintos?

10.02.2016

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Compensação Escatológica

Lembras-te da puberdade no cimo daquela fraga
Com as hormonas a roer-nos tanto que até
Nos serviam as ligas pretas da velha viúva
Que passava com um feixe de lenha?

08.02.2016

Turku


João Bosco da Silva
A Viúva Finlandesa

“Há quanto tempo não dizes o meu nome? Apagaste-me de vez? Nunca pensei que me apagasses de vez, tive esperança de ser, ao menos, uma luzinha vacilante mas teimosa em qualquer ponto da tua memória, que se pode ignorar mas não se esquece, uma silhueta, mesmo difusa, um fragmento de cara(…)”
António Lobo Antunes

Ela disse-me que tinha ficado viúva aos 30 anos
Com dois filhos pequenos e que teve durante 10 anos
Um namorado português que passava os Invernos em Portugal,
Morreu há sete anos, e nos olhos uma humidade onde
Se adivinha o sabor a saudade, mesmo que na língua dela
Não exista tal palavra, imagino o português, como
Alguns portugueses que conheço e que tiveram uma
Amiga finlandesa, a falar da viúva com os olhos
Secos e a malícia nos lábios, muito depois
Do tesão se tornar numa saudosa memória,
O amor das mulheres será sempre o mais real.

31.01.2016-08.02.2016

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Amigo E Cigarros

“É breve a vida; mal sabemos
fiar um fio, e conceber a seda,
já se gastou a areia na ampulheta;”
António Franco Alexandre

para o Rui Macedo,

Preciso desesperadamente de um cigarro, com um amigo, soprando confissões de fumo
Na noite e sacudindo a cinza do tempo que consumimos como verões,
Preciso de um cigarro e de um amigo, numa ponte romana, numa regresso,
Num de muitos, agora menos que as partidas, ou em direção ao luar, areal fora,
Com a maresia a testemunhar que ainda temos pulmões para a vida,
Preciso de sujar um cinzeiro imaculado, como um sorriso inesperado num dia cinzento,
Acendido por aquela mão que um dia me fez sangrar a carne tenra,
E me amparou enquanto a alma e tudo se atiravam borda fora para a geada,
Preciso de uma chama nos olhos familiares a dizer-me que foi verdade tudo o que foi,
Até as mentiras que nos trouxeram aqui e agora, onde estamos,
Apesar do filtro onde tudo se apaga, cada vez mais próximo, ainda somos nós,
Menos sonhos, mais pesadelos, menos ilusões, mais confusão,
No reflexo um estranho quase familiar, o luar mais perto, a água do rio mais alta
E no peito uma incerteza perigosa que aperta e pede pelo menos mais um cigarro com um amigo.

25.01.2016

Turku


João Bosco da Silva