segunda-feira, 18 de abril de 2016

marina :

majestosa, mágica
infinita
a minha menina é
sol
no relvado –
lá fora
colhendo uma
flor, ah!,
um velho homem,
naufrago de guerra,
emerge da sua
cadeira
e ela olha para mim
e só vê
amor,
ah!, e eu acordo
para a vida
e amo de volta
como fui destinado
a fazer.

Charles Bukowski, in Mockingbird Wish Me Luck (Blacksparrow Press, 1972)

Tradução: João Bosco da Silva

domingo, 17 de abril de 2016

Chuva, Papel e Outras Fronteiras

“a escrita seria, ouça,
silenciosa,
como os passos claros da neve,
o frio

aroma dos sentidos.”
António Franco Alexandre

Enquanto leio um livro velho, com cheiros de décadas impregnados no
Papel, a chuva cai lá fora e nos versos cinzentos das páginas amarelecidas,
Então ouço uma motosserra distante, rasgando a carne de um eucalipto,
O serrim torna-se numa polpa húmida aos pés do meu pai abrigado
Dentro do baixo da casa, quando a corrente pára o vento traz as vozes
Dos vizinhos espanhóis, o poema termina e no ar que a página empurra
Surge antes do primeiro verso aquele casaco de bombazina castanho
Que cheirava a outono, atrás da porta do quarto onde dormia,
Então também nos olhos cai a chuva e nas mãos que sentem no papel fino
A vida toda, com ou sem palavras, a motosserra continua até o cepo cair,
Vencido como os olhos que sentem o que não veem e aceitam
A derrota do tempo como a chuva que nunca mais cessará.

Turku

17-04-2016


João Bosco da Silva

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Abril

Abril sempre foi um mês difícil, dedos à procura de carne nos cemitérios à noite,
Ela a dizer que sangue, enquanto noutras noites, ainda com o cheiro fresco,
Carros partem para o anal com gosto e um fica a ler mensagens a dizer que
Preferia que fosses tu, em Abril procura-se nas madrugadas o perfume que partiu
Naquela bicicleta com o ondular do vestido em despedida, mais cinzento que
Qualquer mar em Novembro, o Sol brilha mas não aquece, a água está fria,
Contudo às quartas-feiras à tarde vai-se até ao rio na esperança de umas cuecas molhadas
E uns soutiens de Domingo, Abril sempre obrigou à poesia, os poemas florescidos
E outras revoluções menos violentas, o gelo é perigoso na despedida em Abril
E a sede de carne torna-se pesada no ar poeirento, cada música é uma exumação
No coração, há um moribundo a cada batida, um morto com cara de saudade incurável,
Abril é um mês fodido como a certeza da última foda com quem se amou sem se saber,
É quando a neve revela o que Inverno escondia na escuridão fria, as saudades.

Turku

13-04-2046


João Bosco da Silva

sábado, 9 de abril de 2016

Estátuas De Berlim

Já reparaste bem nas estátuas de Berlim, crivadas de buracos de bala, apontando
Com o coto de um braço ou uma mão sem dedos, decapitadas algumas,
Alguns buracos à altura da cabeça de um homem, enormes pedaços de pedra
Arrancados pela violência, não me impressionou tanto a majestosidade
Daquelas colunas com pequenos quadrados de pedra mais clara, por todo lado,
Nem o fascínio dos conterrâneos pelos supercarros ao passar pela galeria
Onde estava o Mural de Jackson Pollock, a ideia de uma cidade dividida
Em dois por esquerda e direita, custou-me, mas não tanto quanto aquelas estátuas,
Aquelas famílias de carne, cujas marcas nunca sararão, as mãos serão dores fantasma
Na memória colectiva, tanta violência contra a inocência, que culpa teriam as estátuas
Para merecerem aquelas balas, aquele desejo de morte, aquele ódio contra a pedra,
Contra os nomes, no fim, quando já não há sangue para alimentar os impérios
E por fome eles caem, o que fica são as pedras e foram tantos e foram todos,
O sangue secou, a chuva lavou-o, só as marcas ficaram nas estátuas, nos muros,
E na memória dos que não tombaram, mesmo que sem um braço, tantas vezes
Sem cabeça, à sombra das árvores de um parque que floresce no meio da cidade,
Quando lá voltares, olha-as bem de perto, olha-as nos olhos e vê, as marcas das balas.

09.04.2016

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Segredo Esmeralda

Podia falar-te daquelas manhãs à beira da última cerveja da noite,
A apagar cigarros à chuva com uns desconhecidos apaixonados pela insónia,
Podia contar-te da aspereza dos sofás alheios nas nádegas brancas
E daquelas púbis arruivadas que não contavam com o mergulho de barba,
Podia revelar-te ainda a idade em que os anos deixam de passar e passam a desabar,
Mas eu sei o que queres realmente saber, o segredo do meu olhar,
O brilho por trás do dente canino pronto à perdição da carne,
Pois bem, enquanto o Sol se punha, sentava-me na mesa da cozinha
E escrevia poemas ao ritmo das trindades, enquanto olhava o horizonte
Pela janela com a luz a bater-me nos olhos e da porta aberta
Sentia o cheiro da terra a arrefecer, o meu pai rachava lenha
E pelo alvoroço a minha mãe escolhia uma galinha para o jantar
E dos dedos saíam-me versos sobre saudades futuras e amanheceres
Longe dos olhos que à noite se fechariam,
Adormecendo depois do ladrar do último cão vadio.

04.04.2016

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 28 de março de 2016

Escorpião Esmagado Na Calçada

Não sei como te explicar a surpresa de um escorpião debaixo de uma pedra
À distância de uma calçada tão gasta como ignorada, se te pudesse
Justificar o peso do meu sotaque com a densidade daquelas manhãs
Afogadas em nevoeiro, por trás de cada giesta um reino inteiro à espera
De ser reconhecido como real, e nós acendíamos cigarros às escondidas
Com uma crueldade infantil, mas como te fazer ver que os ramos dos castanheiros
Se moviam por algo mais que o vento, o medo inocente que brotava das
Histórias contadas envolvidas por lenços de luto e falta de dentes,
Um olhar verde é só um olhar verde numa tasca da capital, numa rua com nome
Azedo e de vergonha às glórias passadas, e as palavras que correm
São apenas água de um ribeiro desconhecido e só com nome lá na terra
Onde usam a água para regar os feijões, nos cemitérios apodrecem sem nome,
Só na memória se espreme a muito custo a imagem daquele cansaço último,
Mas como poderás entender o desespero da última cerveja entre solidões
Cansadas de tantos dias, a resignação do bagaço nas manhãs varridas pela vassoura
Contrariada do náufrago envolvido por um avental manchado,
Podia dizer-te que tento, que tentei, mas não é verdade, já é tão difícil ser,
Não interessa o interesse das pupilas saturadas pela ausência de carne e de luz,
O escorpião com o seu poder concentrado de dor, debate-se contra um pau
Inocente empunhado por uma morte certa, é duro e no entanto tão frágil
Sob os olhos curiosos de um mundo por fazer, calçada abaixo até aos olhos de frasco,
Habituados ao museu de história natural que estranham a vida num escorpião.

28.03.2016

 Turku

João Bosco da Silva



quinta-feira, 24 de março de 2016

A Cor Do Mar

aos 7,

Não me lembro o que esperávamos, mas lembro-me da cor do mar,
Da textura do muro de pedra contra a pele tão cheia de certezas,
Tão certa das boas intensões do futuro, e aquela cor fria apesar do Sol,
Aquele vento contra a vontade de um Verão precoce em Abril,
Lembro-me do livro que tinha comigo sobre uma morte anunciada,
Só não me lembro por que estávamos sentados em cima do muro à beira-mar,
Da cor do mar não me esqueci, nem daquela ausência de sombra nos olhos,
Cheios de tempo, tão virgens e inocentes, ignorando todos os longos Invernos
E as noites sem fim, a escuridão de tanta gente que o futuro semeará
No caminho a percorrer, tantas vezes sem uma montanha sequer
Onde descansar o olhar, mas que fazíamos nós ali a acumular areia no vazio
Que o tempo deixa, chega então o autocarro para a cidade cinzenta,
Era isso, e quando arranca, leva-nos a nós e à cor do mar.

Turku

23.03.2016

João Bosco da Silva


O Apodrecer Das Uvas

No canelho perto da igreja da terra, onde em tempos leitoras
Comiam carne regada a fino, alguém diz, este é aquele do livro,
Perguntam-me pelo deste ano e eu digo que capital, já não espero
Milagres de que não espera nada do santo que nunca fui,
Sinto-me mais em casa debaixo da figueira, com Moledo nas páginas
De um livro de digestão difícil, e se ninguém estiver a ver
Bebo uma lata de coca-cola e fecho os olhos enquanto engulo anos
E devolvo centímetro e desilusões e as crostas dos lábios
Contaminados pelos verões em que se gastou a inocência,
Só mais um bocadinho, só mais uma última vez e deixam de nos reconhecer
À primeira, os olhos procuram um lugar comum no rosto coberto pela
Vergonha que nos quiseram impingir como hóstias secas em manhãs de sede,
Se soubessem que apesar do tempo, dos anos multiplicados aos
Quilómetros, quando me sento no cimo daquela fraga, sou todo eu,
Eu como se os joelhos esfolados do granito, eu como se as unhas
Ainda sujas de brincar na terra a construir cidades do futuro
Com as telhas meias podres de uma casa abandonada,
É aquele do livro, quando já seis e outro à espera de um ano imprevisto,
Eu quase que a dizer que não, que eu o garoto de cabelo queimado
Pelo Sol, que mora além, onde toda a gente se encontra quando fecho
Os olhos numa tarde quente de Agosto, ignorando o apodrecer das uvas.

Torre de Dona Chama

05.08.2015


João Bosco da Silva

quinta-feira, 17 de março de 2016

Mulher Duplicada

Hoje vi-te, estavas ao balcão a pedir uma cerveja, acompanhada
E eras tu, a forma como olhavas para ele era com me olhavas a mim,
Não era eu, os braços paralelos aos corpo com as luvas ainda calçadas,
Como quando tu esperavas, a bolsa do lado esquerdo, usadíssima
Como tu, mas não gasta, não sei se sorrias, imagino que sim, já que eras tu,
O cabelo de ferrugem, a pele de neve sempre com fome de verão,
Eras toda tu, então entregaram-te a cerveja, voltaste-te, olhaste para mim,
Através de mim e nos teus olhos não era eu, afinal tu, também não eras tu
E a tua sósia lá se foi sentar com o teu nariz, levando a cerveja toda séria,
Não suspeitando que o gajo de barba que olhou para ela como se a conhecesse,
Escrevia um poema sobre quem ela não era.

Turku

16.03.2016


João Bosco da Silva


Deitado de costas nuas
Sobre a erva seca
De um lameiro, ressacado,
O sol através das pálpebras:
Eis o vermelho.

Turku

16/03/2016


João Bosco da Silva

terça-feira, 15 de março de 2016

Dissecação Do Perfume


Há uma mistura de cheiros que me faz lembrar de ti
Naquelas noites frescas de Junho na tua varanda
Com vista para o castelo, laca Elnett, o sorriso
De uma empregada de mesa num café vazio de manhã,
O vento que passou por pinheiros ainda quentes,
Cigarros de mentol, pastilhas de morango mastigadas
Por uma miúda de pele dourada com gotículas de suor,
Lábios lubrificados e púbis depilada num par de cuecas
Acabadas de vestir, o mesmo vento que passou pelos pinheiros
A tornar a tua saia numa bandeira de um país a conquistar,
Unhas lavadas e o cheiro a cobre por onde passam,
Uma língua manchada com vinho do Porto e
Lábios humedecidos à beira de um rio num crepúsculo de verão,
O fumo de um charro inalado dos pulmões de alguém
Numas águas-furtadas, um elástico de cabelo pouco usado
À volta de um pulso pálido e fino, o movimento de um lagarto
À sombra e a sombra de um escorpião sob a luz
De um candeeiro de rua, a porta de um elevador
Que se abre num sábado à noite e ninguém,
Segredos a roçar no lóbulo da orelha em inglês,
O que poderia ser o cheiro do pó das asas de uma borboleta,
A transpiração silenciosa das vertigens ou de alguém
Que espera sentado em granito à entrada da Estação de São Bento,
Tudo isto com um pouco de morangos silvestres comidos
Pela primeira vez antes de se saber ler
E um comprimido de paroxetina empurrado com uma páginas
De Kierkegaard antes de uma viagem de comboio
Com vinte euros no bolso em direcção à tua varanda
Onde esperavas o colo do meu hipocampo.



Turku


14.03.2016



João Bosco da Silva

domingo, 13 de março de 2016

Dissecação Dos Ecos

Em cada nova boca encontrava um eco cada vez mais diluído
Da verdade que foram os teus lábios de sonho
E vinha-me com a certeza e a vontade do vazio
E sentia que me engoliam sem qualquer magia,
Como se fosse um reflexo esculpido pelo hábito
Da obrigação, os batons rodeavam-me, anónimos e diversos,
Contudo sinceros no toque e com um brilho parecido ao desejo
No olhar, mas um desejo que se pede, mais do que rói por dentro
E no fim cede-se a um convite para tomar chá, já que o vinho
Perdeu o sabor, a vodka se enjoou há anos numa ilha
Que acabou por se tornar no modelo do purgatório
E não é sede, não há sede, só uma solidão que apaga
Aos poucos com os ecos diluídos que se encontram nas bocas
Que te sucederam, todos aqueles verões de saliva
E uma ordem de marfim forçado, cada vez mais pálidos perante
O esquecimento.

Turku

14.03.2016


João Bosco da Silva


Scavenger


Que fazer quando já não sobrou nada para cuspir
E se espera pela Primavera como pela próxima vida
Num beco sem saída entre muitos anos e outros tantos
Arrependimentos, cada verso é apenas um pedaço de saudade
Em segunda ou terceira mão, gasto e esquecido do cheiro original
Daquelas primeiras noites de Primavera, mais vale atirar
O desejo como uma toalha já seca do esforço vazio por sonhos
Com o mesmo recheio, se não se tiver pena, podem rasgar-se
As saudades até ao osso só para sentir brevemente o aroma
Das camélias no olival vizinho, e lá vai aquele cheiro
Ser encaixado entre três versos, como se fosse possível guardar
Nas palavras o que as papilas nos pedem, desconhecedoras
Da mortalidade de todos os momentos e sempre tão certas
De que o que nos revelam é o verdadeiro sentido da vida.


Turku


14.03.2016



João Bosco da Silva

quinta-feira, 10 de março de 2016

No Benten-do
fiz um pedido –
reencontrar-te
quando ambos
formos gatos.

09.03.2016


João Bosco da Silva

sábado, 5 de março de 2016

Estado Quântico Do Perfume

“Knowledge kills action

Action requires the veil of illusion”
Nicanor Parra

Se te voltasse a encontrar, o perfume seria outro, não conheceria o que ficou de mim
Nos teus lábios e no teu sabor adivinharia as razões do meu esquecimento,
Se por acaso cedesse à vontade, contrariando os anos, não reconheceria os teus dentes
Contados à força da língua, mas também tu, que procurarias aquele fogo verde
Nos meu olhos, só encontrarias um carvão da cor do vazio, mesmo num pôr-do-sol
À beira rio, haveriam suspiros ao ver jovens que nós fomos passar com um mundo
Inteiro nas mãos dadas, as arestas dos teus sorrisos seriam mais calculadas,
As minhas esquecidas e improvisadas com o auxílio de uma memória qualquer,
Antes da certeza de nunca mais apesar de tantos uns dias, a tornarem-se anos
E cada vez mais ses, mas o perfume será outro, como outro tem sido quando o reconheço
Em alguém que não tu, porque é impossível voltar a passar, repetir a felicidade.

04.03.2016

Turku


João Bosco Silva

quinta-feira, 3 de março de 2016

Luzes Que Se Apagam Enquanto Billie Holiday Canta

Da janela do bar vejo as luzes acesas dos prédios do outro lado da estrada, os carros passam,
Poucos a estas horas de Domingo de madrugada, a neve nem aquece nem arrefece,
Espera o Sol, alguém morto canta e ainda se sente vida naquelas palavras definitivas,
A máquina de escrever enferruja em toda a sua beleza obsoleta, o relógio de corda
Luta contra o esquecimento inevitável, salta cada vez mais segundos, no fim da rua,
Uma noite chovia nos meus dedos húmidos e quentes e à janela de um prédio,
Alguém fumava um cigarro e assistia, encostados à árvore, apetecia-me levá-la
Ao prédio em construção e fodê-la sobre uns plásticos e umas ripas, agora, no prédio
Terminado, luz acesa e sonolência, mais um dia fotocopiado, nada acrescentado a não
Ser a proximidade ao que foi acrescentado, eu longe, de tudo, entre um encalhado
E um naufrago, acendo as luzes no quarto impossível, vou com uma estrela que passa,
Terei sido naqueles lábios, para que se morre tantas vezes em tanta gente,
Antes da música acabar, antes de se apagarem as luzes, em frente apagam-nas,
Já acabaram de foder, não querem esperar pela consagração de mais um abençoado,
Levanto-me e peço uma última cerveja, a caneta jura estar no fim, esta noite espero não sonhar.

“Y POR FAVOR destruye este papel
la poesia te sigue los pasos
a mi también
a todos nosotros”
Nicanor Parra

28-02-2016

Turku


João Bosco da Silva