sábado, 23 de abril de 2016

Quanto De Ti É Já Defunto

Quanto de ti é já defunto ou rua escura numa aldeia quase deserta do interior,
Quanto de ti te deixou e já não és senão o esquecimento da tua voz nos outros,
Procuram-te no degrau que falham nas escadas de um prédio sem luz,
Quanto de ti ficou nas páginas que visitaste sem o toque da saliva
E dos dedos engordurados pelos dias, a quem te deste, diz-me e dir-te-ei quem és,
Não te procures nos espelhos partidos dos outros, leva antes umas flores de plástico
Que duram mais e com os olhos fechados contra o Sol de Agosto,
Revisita o som do teu nome nos lábios que já secaram de ti,
Quanto de ti é já defunto, o suor na testa do pai e terra revolvida no quintal
E te dizem que agora ali o teu gato, o teu cão e todos os sonhos que não levaste.

Turku

23-04-2016


João Bosco da Silva

sexta-feira, 22 de abril de 2016

A Morte De Um Mestre

“oh bela morte num dia seguro em qualquer parte
de gente em volta atenta à espera de nada,
um nó de sangue na garganta
um nó penas duro”

Herberto Helder

Sei que chovia, digam o que disserem, chovia e anoitecia em todo lado,
Isto da terra ser esférica não é para todos os casos, até o coração
Se estende e fica fino como um mapa para lado nenhum
Quando morre um mestre, os amores esses duram sempre enquanto
A carne não arrefece do pecado ou a promessa que se arrasta tiver olhos,
Também chovia naquele fim de tarde escuro debaixo da tua varanda
Enquanto degustavas mais um cigarro e me contavas que a vida
Nem sempre cheirou a uma carpintaria num dia húmido,
Sempre que podias, mostravas-me o segredo do teu cabelo branco
E sentia-me mais cheio, com tempo, coisa que afinal tu não tinhas,
Naquele dia, sei que chovia, sei que ainda chove, cá dentro onde moras.

22.04.2016

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Sobre Poesia

Mais uma folha
que cai – mal
começou a Primavera.

Comecei a escrever poesia quando me apercebi que vinha uma avalanche
De nada contra mim, quando cai sobre nós algo assim, não há nada a fazer,
Ou há a poesia, escrever poesia é tentar engolir a água toda do mar
Quando se leva com a maior onda do mundo nos olhos,
Um poema é uma necrologia, de um momento, de um beijo, de um amigo,
São as palavras escritas nas lápides do cemitério interminável que somos,
Sem vida não existiria poesia, sem mortalidade também não,
Não acredito que os deuses tenham escrito um verso sequer,
Para mim a poesia é muito mais que uma desculpa para ir
Ter com uns quantos poetas e ser visto, geralmente acontece quando
Já quase nem eu me vejo a mim próprio no quarto vazio,
É mais que vento no ego de um nome qualquer que tenta, tenta,
É mais que uma justificação às pestanas queimadas em nome das palavras
Ou dos caralhos engolidos em nome do nome,
Para mim a poesia é a única forma de estar vivo realmente,
De manter vivos em quem está vivo os que perderam todas as palavras,
É o meu martelo possível contra a invencibilidade da morte.

20.04.2016

Turku


João Bosco da Silva
Adeus Amigo

ao senhor Tomé,

Que posso eu fazer agora que o teu corpo já arrefece da partida,
Os teus olhos tratavam a morte por tu, sei que não te assustou quando chegou,
Desculpa a minha memória, tentarei guardar todas as histórias que me contaste
Da guerra, sei que muito de ti ficou por lá, ao lado dos teus amigos caídos,
Finalmente a paz absoluta, já não tens que ter medo das emboscadas,
Já não tens que caminhar descalço pelas ruas geadas, com os pés pequeninos,
Já não tens que te lembrar da fome e da miséria daqueles tempos de ditadura
Na região esquecida do império por que lutaste, agora são os meus miolos que ardem
Com a pólvora de uma granada, o hálito sabe-me a enxofre, metal,
E deito-me na cama armadilhada, nem quero saber, bebemos mais uma das verdes,
Que sempre tinhas em casa porque pensavas que eu gostava mais delas,
E as francesas, nunca se esquecerão do teu sorriso malandro, tu da minha idade,
Dizias e eu já com 30 anos, fazias-me sentir um garoto sempre, fazias-me sentir
Que ainda havia tempo, que ainda estava a tempo, e com a tua tosse por perto
Não me lembro de haver sequer um segundo em que me sentisse triste,
Não sei como pode falhar o coração a quem o coração nunca falhou,
E agora, que posso eu fazer a não ser encontrar-te em cada pedaço de madeira,
Em cada cigarro que fume e que se lixe, vamos todos, em cada copo de vinho
Para empurrar o presunto, que tu preferias grosso, em cada rapariga nova
Quando o meu cabelo for todo branco, e eu da tua idade a tornar os outros jovens
Mais uns anos, eu da tua idade, eu da tua idade, agora serás sempre da tua idade,
E não te preocupes, levar-te-ei comigo enquanto cá andar, meu velho amigo.

Palavras . . . queria era beber um copo de vinho contigo, só mais um.

20.04.2016

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 18 de abril de 2016

marina :

majestosa, mágica
infinita
a minha menina é
sol
no relvado –
lá fora
colhendo uma
flor, ah!,
um velho homem,
naufrago de guerra,
emerge da sua
cadeira
e ela olha para mim
e só vê
amor,
ah!, e eu acordo
para a vida
e amo de volta
como fui destinado
a fazer.

Charles Bukowski, in Mockingbird Wish Me Luck (Blacksparrow Press, 1972)

Tradução: João Bosco da Silva

domingo, 17 de abril de 2016

Chuva, Papel e Outras Fronteiras

“a escrita seria, ouça,
silenciosa,
como os passos claros da neve,
o frio

aroma dos sentidos.”
António Franco Alexandre

Enquanto leio um livro velho, com cheiros de décadas impregnados no
Papel, a chuva cai lá fora e nos versos cinzentos das páginas amarelecidas,
Então ouço uma motosserra distante, rasgando a carne de um eucalipto,
O serrim torna-se numa polpa húmida aos pés do meu pai abrigado
Dentro do baixo da casa, quando a corrente pára o vento traz as vozes
Dos vizinhos espanhóis, o poema termina e no ar que a página empurra
Surge antes do primeiro verso aquele casaco de bombazina castanho
Que cheirava a outono, atrás da porta do quarto onde dormia,
Então também nos olhos cai a chuva e nas mãos que sentem no papel fino
A vida toda, com ou sem palavras, a motosserra continua até o cepo cair,
Vencido como os olhos que sentem o que não veem e aceitam
A derrota do tempo como a chuva que nunca mais cessará.

Turku

17-04-2016


João Bosco da Silva

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Abril

Abril sempre foi um mês difícil, dedos à procura de carne nos cemitérios à noite,
Ela a dizer que sangue, enquanto noutras noites, ainda com o cheiro fresco,
Carros partem para o anal com gosto e um fica a ler mensagens a dizer que
Preferia que fosses tu, em Abril procura-se nas madrugadas o perfume que partiu
Naquela bicicleta com o ondular do vestido em despedida, mais cinzento que
Qualquer mar em Novembro, o Sol brilha mas não aquece, a água está fria,
Contudo às quartas-feiras à tarde vai-se até ao rio na esperança de umas cuecas molhadas
E uns soutiens de Domingo, Abril sempre obrigou à poesia, os poemas florescidos
E outras revoluções menos violentas, o gelo é perigoso na despedida em Abril
E a sede de carne torna-se pesada no ar poeirento, cada música é uma exumação
No coração, há um moribundo a cada batida, um morto com cara de saudade incurável,
Abril é um mês fodido como a certeza da última foda com quem se amou sem se saber,
É quando a neve revela o que Inverno escondia na escuridão fria, as saudades.

Turku

13-04-2046


João Bosco da Silva

sábado, 9 de abril de 2016

Estátuas De Berlim

Já reparaste bem nas estátuas de Berlim, crivadas de buracos de bala, apontando
Com o coto de um braço ou uma mão sem dedos, decapitadas algumas,
Alguns buracos à altura da cabeça de um homem, enormes pedaços de pedra
Arrancados pela violência, não me impressionou tanto a majestosidade
Daquelas colunas com pequenos quadrados de pedra mais clara, por todo lado,
Nem o fascínio dos conterrâneos pelos supercarros ao passar pela galeria
Onde estava o Mural de Jackson Pollock, a ideia de uma cidade dividida
Em dois por esquerda e direita, custou-me, mas não tanto quanto aquelas estátuas,
Aquelas famílias de carne, cujas marcas nunca sararão, as mãos serão dores fantasma
Na memória colectiva, tanta violência contra a inocência, que culpa teriam as estátuas
Para merecerem aquelas balas, aquele desejo de morte, aquele ódio contra a pedra,
Contra os nomes, no fim, quando já não há sangue para alimentar os impérios
E por fome eles caem, o que fica são as pedras e foram tantos e foram todos,
O sangue secou, a chuva lavou-o, só as marcas ficaram nas estátuas, nos muros,
E na memória dos que não tombaram, mesmo que sem um braço, tantas vezes
Sem cabeça, à sombra das árvores de um parque que floresce no meio da cidade,
Quando lá voltares, olha-as bem de perto, olha-as nos olhos e vê, as marcas das balas.

09.04.2016

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Segredo Esmeralda

Podia falar-te daquelas manhãs à beira da última cerveja da noite,
A apagar cigarros à chuva com uns desconhecidos apaixonados pela insónia,
Podia contar-te da aspereza dos sofás alheios nas nádegas brancas
E daquelas púbis arruivadas que não contavam com o mergulho de barba,
Podia revelar-te ainda a idade em que os anos deixam de passar e passam a desabar,
Mas eu sei o que queres realmente saber, o segredo do meu olhar,
O brilho por trás do dente canino pronto à perdição da carne,
Pois bem, enquanto o Sol se punha, sentava-me na mesa da cozinha
E escrevia poemas ao ritmo das trindades, enquanto olhava o horizonte
Pela janela com a luz a bater-me nos olhos e da porta aberta
Sentia o cheiro da terra a arrefecer, o meu pai rachava lenha
E pelo alvoroço a minha mãe escolhia uma galinha para o jantar
E dos dedos saíam-me versos sobre saudades futuras e amanheceres
Longe dos olhos que à noite se fechariam,
Adormecendo depois do ladrar do último cão vadio.

04.04.2016

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 28 de março de 2016

Escorpião Esmagado Na Calçada

Não sei como te explicar a surpresa de um escorpião debaixo de uma pedra
À distância de uma calçada tão gasta como ignorada, se te pudesse
Justificar o peso do meu sotaque com a densidade daquelas manhãs
Afogadas em nevoeiro, por trás de cada giesta um reino inteiro à espera
De ser reconhecido como real, e nós acendíamos cigarros às escondidas
Com uma crueldade infantil, mas como te fazer ver que os ramos dos castanheiros
Se moviam por algo mais que o vento, o medo inocente que brotava das
Histórias contadas envolvidas por lenços de luto e falta de dentes,
Um olhar verde é só um olhar verde numa tasca da capital, numa rua com nome
Azedo e de vergonha às glórias passadas, e as palavras que correm
São apenas água de um ribeiro desconhecido e só com nome lá na terra
Onde usam a água para regar os feijões, nos cemitérios apodrecem sem nome,
Só na memória se espreme a muito custo a imagem daquele cansaço último,
Mas como poderás entender o desespero da última cerveja entre solidões
Cansadas de tantos dias, a resignação do bagaço nas manhãs varridas pela vassoura
Contrariada do náufrago envolvido por um avental manchado,
Podia dizer-te que tento, que tentei, mas não é verdade, já é tão difícil ser,
Não interessa o interesse das pupilas saturadas pela ausência de carne e de luz,
O escorpião com o seu poder concentrado de dor, debate-se contra um pau
Inocente empunhado por uma morte certa, é duro e no entanto tão frágil
Sob os olhos curiosos de um mundo por fazer, calçada abaixo até aos olhos de frasco,
Habituados ao museu de história natural que estranham a vida num escorpião.

28.03.2016

 Turku

João Bosco da Silva



quinta-feira, 24 de março de 2016

A Cor Do Mar

aos 7,

Não me lembro o que esperávamos, mas lembro-me da cor do mar,
Da textura do muro de pedra contra a pele tão cheia de certezas,
Tão certa das boas intensões do futuro, e aquela cor fria apesar do Sol,
Aquele vento contra a vontade de um Verão precoce em Abril,
Lembro-me do livro que tinha comigo sobre uma morte anunciada,
Só não me lembro por que estávamos sentados em cima do muro à beira-mar,
Da cor do mar não me esqueci, nem daquela ausência de sombra nos olhos,
Cheios de tempo, tão virgens e inocentes, ignorando todos os longos Invernos
E as noites sem fim, a escuridão de tanta gente que o futuro semeará
No caminho a percorrer, tantas vezes sem uma montanha sequer
Onde descansar o olhar, mas que fazíamos nós ali a acumular areia no vazio
Que o tempo deixa, chega então o autocarro para a cidade cinzenta,
Era isso, e quando arranca, leva-nos a nós e à cor do mar.

Turku

23.03.2016

João Bosco da Silva


O Apodrecer Das Uvas

No canelho perto da igreja da terra, onde em tempos leitoras
Comiam carne regada a fino, alguém diz, este é aquele do livro,
Perguntam-me pelo deste ano e eu digo que capital, já não espero
Milagres de que não espera nada do santo que nunca fui,
Sinto-me mais em casa debaixo da figueira, com Moledo nas páginas
De um livro de digestão difícil, e se ninguém estiver a ver
Bebo uma lata de coca-cola e fecho os olhos enquanto engulo anos
E devolvo centímetro e desilusões e as crostas dos lábios
Contaminados pelos verões em que se gastou a inocência,
Só mais um bocadinho, só mais uma última vez e deixam de nos reconhecer
À primeira, os olhos procuram um lugar comum no rosto coberto pela
Vergonha que nos quiseram impingir como hóstias secas em manhãs de sede,
Se soubessem que apesar do tempo, dos anos multiplicados aos
Quilómetros, quando me sento no cimo daquela fraga, sou todo eu,
Eu como se os joelhos esfolados do granito, eu como se as unhas
Ainda sujas de brincar na terra a construir cidades do futuro
Com as telhas meias podres de uma casa abandonada,
É aquele do livro, quando já seis e outro à espera de um ano imprevisto,
Eu quase que a dizer que não, que eu o garoto de cabelo queimado
Pelo Sol, que mora além, onde toda a gente se encontra quando fecho
Os olhos numa tarde quente de Agosto, ignorando o apodrecer das uvas.

Torre de Dona Chama

05.08.2015


João Bosco da Silva

quinta-feira, 17 de março de 2016

Mulher Duplicada

Hoje vi-te, estavas ao balcão a pedir uma cerveja, acompanhada
E eras tu, a forma como olhavas para ele era com me olhavas a mim,
Não era eu, os braços paralelos aos corpo com as luvas ainda calçadas,
Como quando tu esperavas, a bolsa do lado esquerdo, usadíssima
Como tu, mas não gasta, não sei se sorrias, imagino que sim, já que eras tu,
O cabelo de ferrugem, a pele de neve sempre com fome de verão,
Eras toda tu, então entregaram-te a cerveja, voltaste-te, olhaste para mim,
Através de mim e nos teus olhos não era eu, afinal tu, também não eras tu
E a tua sósia lá se foi sentar com o teu nariz, levando a cerveja toda séria,
Não suspeitando que o gajo de barba que olhou para ela como se a conhecesse,
Escrevia um poema sobre quem ela não era.

Turku

16.03.2016


João Bosco da Silva


Deitado de costas nuas
Sobre a erva seca
De um lameiro, ressacado,
O sol através das pálpebras:
Eis o vermelho.

Turku

16/03/2016


João Bosco da Silva

terça-feira, 15 de março de 2016

Dissecação Do Perfume


Há uma mistura de cheiros que me faz lembrar de ti
Naquelas noites frescas de Junho na tua varanda
Com vista para o castelo, laca Elnett, o sorriso
De uma empregada de mesa num café vazio de manhã,
O vento que passou por pinheiros ainda quentes,
Cigarros de mentol, pastilhas de morango mastigadas
Por uma miúda de pele dourada com gotículas de suor,
Lábios lubrificados e púbis depilada num par de cuecas
Acabadas de vestir, o mesmo vento que passou pelos pinheiros
A tornar a tua saia numa bandeira de um país a conquistar,
Unhas lavadas e o cheiro a cobre por onde passam,
Uma língua manchada com vinho do Porto e
Lábios humedecidos à beira de um rio num crepúsculo de verão,
O fumo de um charro inalado dos pulmões de alguém
Numas águas-furtadas, um elástico de cabelo pouco usado
À volta de um pulso pálido e fino, o movimento de um lagarto
À sombra e a sombra de um escorpião sob a luz
De um candeeiro de rua, a porta de um elevador
Que se abre num sábado à noite e ninguém,
Segredos a roçar no lóbulo da orelha em inglês,
O que poderia ser o cheiro do pó das asas de uma borboleta,
A transpiração silenciosa das vertigens ou de alguém
Que espera sentado em granito à entrada da Estação de São Bento,
Tudo isto com um pouco de morangos silvestres comidos
Pela primeira vez antes de se saber ler
E um comprimido de paroxetina empurrado com uma páginas
De Kierkegaard antes de uma viagem de comboio
Com vinte euros no bolso em direcção à tua varanda
Onde esperavas o colo do meu hipocampo.



Turku


14.03.2016



João Bosco da Silva

domingo, 13 de março de 2016

Dissecação Dos Ecos

Em cada nova boca encontrava um eco cada vez mais diluído
Da verdade que foram os teus lábios de sonho
E vinha-me com a certeza e a vontade do vazio
E sentia que me engoliam sem qualquer magia,
Como se fosse um reflexo esculpido pelo hábito
Da obrigação, os batons rodeavam-me, anónimos e diversos,
Contudo sinceros no toque e com um brilho parecido ao desejo
No olhar, mas um desejo que se pede, mais do que rói por dentro
E no fim cede-se a um convite para tomar chá, já que o vinho
Perdeu o sabor, a vodka se enjoou há anos numa ilha
Que acabou por se tornar no modelo do purgatório
E não é sede, não há sede, só uma solidão que apaga
Aos poucos com os ecos diluídos que se encontram nas bocas
Que te sucederam, todos aqueles verões de saliva
E uma ordem de marfim forçado, cada vez mais pálidos perante
O esquecimento.

Turku

14.03.2016


João Bosco da Silva


Scavenger


Que fazer quando já não sobrou nada para cuspir
E se espera pela Primavera como pela próxima vida
Num beco sem saída entre muitos anos e outros tantos
Arrependimentos, cada verso é apenas um pedaço de saudade
Em segunda ou terceira mão, gasto e esquecido do cheiro original
Daquelas primeiras noites de Primavera, mais vale atirar
O desejo como uma toalha já seca do esforço vazio por sonhos
Com o mesmo recheio, se não se tiver pena, podem rasgar-se
As saudades até ao osso só para sentir brevemente o aroma
Das camélias no olival vizinho, e lá vai aquele cheiro
Ser encaixado entre três versos, como se fosse possível guardar
Nas palavras o que as papilas nos pedem, desconhecedoras
Da mortalidade de todos os momentos e sempre tão certas
De que o que nos revelam é o verdadeiro sentido da vida.


Turku


14.03.2016



João Bosco da Silva