terça-feira, 12 de julho de 2016


Poema Escrito No Bilhete De Autocarro Para Ruissalo

Protege a cerveja, lembra-te do Mint 400, não és o Hunter apesar de só
Numa multidão de vontade palpitante, faminta por uns segundos de sonho,
Deixa, hoje tiveste os olhos que te merecem, uma mão redentora e sobrevivente
E ouviste os nomes de todos aqueles mortos que adoras
E ainda bem que guardaste o bilhete de autocarro, agora take the ride,
Tens ruminado tanto com fome que acabas por te digerir a ti mesmo,
Cospe o pó que ainda não és, engole mais um gole da fria,
Monta no cavalo e vai, não esperes que o Sol se ponha.

Ruissalo (Ruisrock festival)

10-07-2016


João Bosco da Silva

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Necromancer

“Na minha horta
colhendo fruta
sinto-me um ladrão”

Yosa Buson

Insisto em trazer aos versos um punhado de mulheres que julguei terem sido minhas,
Quando era eu que me deixava lá ficar todo, espalhado pela distância, cada vez mais raro,
Um pó cada vez mais fino que nem se sente, elas regressam sempre com os dias quentes,
Um perfume de quem passa, o champô na cabeça de alguém que se tenta aproximar
De um vazio pesado de despedidas com ou sem intensão de o serem,
Procuro-me nelas, uma a uma, tento reunir o que de mim ficou perdido algures no bolso
De umas calças que já não se usam ou já não servem, reconheço-lhes os sorrisos,
Os olhos parecem-me sempre mais distantes, escondidos na sombra, e nos sorrisos
Traços imensos do que a vida impôs, nos rios, encontro-as a todas, uma a uma
E passam até ao mar do meu esquecimento, onde me diluirei com todas as mortes
E finalmente deixarei de desenterrar continuamente o mesmo punhado de mulheres
Para sacudir no papel um beijo desta, o olhar daquela, o primeiro e o último,
O perfume da outra entre goles de vinho do porto, as palavras doces com que se engoliam
As promessas e as traições e o sal das peles, dos lábios perdidos nos lábios e nos sonhos
De dedos confusos que se agarram num desespero de náufrago antes da próxima onda e mergulho.

07.07.2016

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 27 de junho de 2016

“Da Natureza Dos Deuses”

Se o engenheiro soubesse que as visitas não visitas, mas testemunhas do final,
Contagens decrescentes silenciosas e inquietas entre as palavras cruzadas,
Cães à espera que o velho morra e abra os dentes, deixe cair o osso que todos querem,
Todos sorrisos ao entrarem que logo se apagam num canto que espera que durma,
Durma senhor engenheiro, descanse, abra o dente que já mordeu muito,
E os olhos do homem no tecto a tentarem agarrar o que resta da vida,
Aquelas mulheres todas em troca dos favores e outras tantas em troca da ilusão,
Ele pode, ele se quiser, ele mete-te lá, ele mete, um deus quase, agora estrangulado
Numa fralda que sem dar por isso aquece e depois frio nas vergonhas
Que subjugavam, de joelhos se faz favor, engula toda, vá, não se esqueça
Do que fiz pelo seu marido, o seu filho passou graças ao apertinho bom da mãe,
A sua filha já tem que idade, todas naquele tecto vazio enquanto um parente
Se debate com uma palavra horizontal, tão fácil, tão simples, cinco letras, na ponta da língua,
Morte.

27.06.2016

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 21 de junho de 2016

Memórias De Garagem

Ela morava na garagem de um tio, a mãe era divorciada, devia andar a esconder-se do ex-marido, aquilo parecia-me tudo um crime, eu jogava com o irmão numa máquina que se ligava a uma televisão dos anos oitenta jogos dos finais de setenta e contudo muito melhores que a minha tetris de duas pilhas AA, imitação do jogo da moda, o tio da terra do meu pai,
Por isso nós namorados,
Ela uma ano mais velha que eu, cheia de experiência e com tanta fome que me dá a mão e me leva assim a correr à minha frente até à garagem, a prima uma mulher já de bikini a despertar o meu tesão de garoto, devia ter uns quinze já e simpática para mim,
Olhos lindos, dizia, olhos lindos, já tens namorada
E eu a cruzar as pernas e entortar um pé e a engolir aquela pele dourada toda, mas a namorada a ver tudo e a puxar-me a mão outra vez,
Anda jogar, gostas de jogar
E o irmão grande já, diziam que fumava e drogas, andava de boné com a pala para trás, uns dois ou três anos mais velho que eu, eu aceite mesmo que férias de Verão e todos os colegas de escola já a meio caminho de se esquecerem de mim, eu que não voltaria a vê-los, eu que me lembro até da garota que lambia tanto o bigode que o lábio superior até ao nariz, um cieiro gigante, era pobre, claro, todos o éramos, menos o filho do doutor que dizia que pinava a menina de quem eu gostava, filha de pescadores, e a meia-irmã que já andava no ciclo, no quintal ao lado da escola e contudo ficava impressionado com a gaita de um cão vadio a caminho de casa, ele nunca imaginaria que eu uma namorada que nunca dele,
As nossas mães são amigas, nós namorados e podes jogar quando quiseres com o meu irmão
E eu sem dizer nada, que sabia eu das regras dos grandes, a tua irmã divorciada, tu lá deves saber, e a mim, um monstro deformado com uma cicatriz enorme no queixo, que tinha que esperar pela barba para se esconder como o médico,
Eu também, por isso barba,
Bem me servia, era só para ir de arrasto de mão dada,
Anda,
E durou umas duas ou três vezes, depois fomos embora para Trás-os-Montes e ela de certeza que já no segundo filho ou marido, divorciada como a mãe, com calções em vez de bikini e eu apagado da memória completamente, eu que ainda sei a sua pele morena de cor.

Turku

20.06.2016


João Bosco da Silva
O Estado Do Tempo

Tenho os sentidos à beira da catástrofe, vivo num último gole constante,
Cada sirene que se apaga na urgência distante é uma morte anunciada
Ao lado da almofada, como podem os dentes apertar tanto numa fome silenciosa
De sonho, acorda-se todos os dias em cima de uma ponte mais pronto para o salto
Que para a travessia, e o Sol acende isto tudo com a sua miopia benevolente de deus,
A água passa mas o rio cada vez mais turvo e cada vez menos cães nas ruas da noite,
Cada vez mais o latir dos ossos encalhados nas pedras romanas,
A estas horas só a inutilidade de um verso pode salvar, a vontade não basta
E os sorrisos têm sido tantas vezes falsificados que se desconfia com os dentes todos,
Tenho os sentidos à beira da catástrofe enquanto as crianças brincam na rua
E também elas um fim anunciado muito antes da decadência dos seus brinquedos favoritos.

20-06-2016

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Ruína

Na caixa de papelão uns pedaços de cortiça esculpidos
Com a inocência dos primeiros artesões que foram crianças
O cheiro do Verão na relva recém cortada da casa dos vizinhos
A renda paga e os sacos de plástico ao lado do balde do lixo
A janela da cozinha engolia o mundo todo a meio da tarde
E aquela vizinha que nunca se esquecerá, seja em que Verão
Se lembre a praia e aquela pausa de felicidade entre joelhos
Esfolados e paixões por peixeiras e cerejas com sargaço no ar
Os pedaços de cortiça vacas antes de vacas esculpidas
Pelo avô no lameiro onde de certeza o centro do universo
De um universo ao menos, mesmo que os poços secos
E os cães mortos e as partilhas feitas e as macieiras queimadas
E a cerejeira seca e os tombos impossíveis agora
Porque já és grande e nunca vens a tempo das cerejas
Só de veres o mundo a arder e as chamas nunca tão altas
Podia ser tão grande se a infância não tivesse sido tão curta
Mesmo assim, trago hábitos de garoto agarrados aos vícios

17.06.2016

Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O Cemitério Somos Nós

“pobres girândulas finais dos destinos anónimos.”

António Lobo Antunes

O cemitério somos nós, enchemos num dia de chuva, todos os papéis
Que se perderam, todos os sorrisos que se lavaram, todos os nomes
E acima de tudo, todos os que nos foram e aqueles que não quiseram
Que fôssemos neles, todas as portas  fechadas com flores podres à entrada,
Os autocarros que partiram para a felicidade que se lhes imagina
E os que ficaram avariados nas garagens colonizadas por aranhas,
Todos os porcos nas manhãs geadas e o sangue quente a fumegar
Nos olhos dos vivos que fogos fátuos no verão, todos ao cemitério
Num dia de chuva entre dias quentes, todos os amigos a quem
Lhes falhou o tempo ou a vontade ou a vida, todas as curvas da estrada
E dos rios, todas as noites estreladas e as manhãs do mergulho no nevoeiro
Em direção aos bons-dias sempre quentes sem ponta de nariz,
O cemitério somos nós, onde todas as cidades convergem e se esmagam
Todas as ruas os mesmos segredos, cada árvore um gemido de madrugada,
Cada sonho uma derrota acordada, e todos os lábios nos olhos fechados
Em forma de lápide que muda de cor sob o céu que se desfaz numa tristeza universal.

16.06.2016

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Beijos E Multiversos

Se te tivesse beijado naquele jantar em que choraste depois
De uns copos de vinho branco, eu com uma garrafa de cerveja
A noite toda, quem era eu, não sei, se calhar eu hoje
Um desconhecido familiar sentado no sofá com a camisola
De um clube a acender inimizades com velhos amigos de cores diferentes,
Um carro na garagem que toda a gente vê e um buraco na carteira
Que eu não queria ver nem sentir, um par de garotos mais pesados
Que mil malas e todos os países que queria ver resumidos a
Uma lua-de-mel no Brasil ou nas ilhas de uma ex-colónia,
Provavelmente mais gordo, com as costas ainda mais encurvadas
Pelas palmadas da amizade, umas quantas putas no orçamento,
Uma amante no trabalho em sopro apressado no parque de estacionamento
Antes de regressar a casa para o conchego do cheiro a refogado,
Um cinema, ao menos, por semana com os garotos e o teu rubor
Nas bochechas ao passarmos por um colega teu que pensas
Que eu não vi a apertar os cordões com os olhos,
Tudo engolido com as pipocas e duas sonadas interrompidas
Pela urina do mais novo e as luzes do intervalo,
Mas que sabia eu de roubar beijos, eu que passava pelas montras
Da fome com os bolsos cheios de vontade.

Turku

06.06.2016


João Bosco da Silva

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Dívida De Esperma

Inspirado no poema “Os Lubrificados” de Hal Sirowitz

Naquele mês de Maio comprava uma caixa de três preservativos de cada vez
Porque sabia que o nosso amor não duraria mais do que umas quantas vezes,
Naquele dia em que te sentaste com um aperto de surpresa,
Já tinham acabado os preservativos e o esperma, mesmo assim,
Tiraste-me do fundo de ti, acolheste-me na tua boca e desses lábios
Que mais tarde voltaria a saborear, mais meus que teus, disseste-me
Entre mergulhos, quero que te venhas na minha boca,
Só anos mais tarde, em Agosto, te paguei a dívida de esperma
Num banco de trás com um preservativo no bolso emprestado por um amigo,
Mas aquela moeda de troca já tinha saído de circulação e a Lua sabia disso.

01.06.2016

Turku


João Bosco da Silva
Buraco Negro

É muito peso, todos os nomes, aqueles sorrisos fermentados
Em ódio ou esquecimento, aquelas pupilas encerradas em íris
De mil cores, os ritmo dos passos, os perfumes de dia e de noite,
Trago-vos a todas comigo, nos dedos, nos lábios, na sacodidela
Do tesão da manhã, no olho do cu, nos olhos, lá mesmo no fundo
Onde também vivem certos planetas e estrelas, onde morrem sonhos
E nascem medos, todas, tantas, perdidas para sempre.

31.05.2016

Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Botar Enxofre À Vinha

para o meu pai,

No ar daquela manhã o cheiro do Inferno, o Sol acendia o alvoroço
De asas e roçar de patas, Nietzsche no colo, nádegas sentadas
Sobre um banco improvisado de xisto azul e o pai a misturar suor
Com enxofre, enquanto eu, do cimo da vinha, procurava tornar-me
No poeta que só mais tarde conheceria, ali ainda entre o bem e o mal,
O pai jovem longe das dores nas cruzes, eu um garoto bem alimentado
A punhetas extraídas dos olhos fechados, a séculos do passo seguinte
E de todas as distâncias progressivas e irreversíveis,
Além do bem e do mal perfumado pelo roçar das folhas da videira
No ar expectante da manhã, o meu pai contente só por eu estar ali
A procurá-lo de vez em quando entre as cepas e mais um parágrafo.

29.05.2016

Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Perdição De Jerónimo Bosch

Estou perdido, o aço japonês pede-me ao menos a salvação da honra,
Mas ficou-me esquecida na mesma gaveta onde deixei a fé,
Pedia só mais um pecado à beira do abismo onde fomos paridos
Para extinguirmos uns quantos antes do suicídio dar resultado,
Dá-me a mão, suja, o quer que seja, um olhar com um pingo de vontade,
Uma corda que não seja à volta do pescoço, estou perdido numa cidade longe,
Num corpo estranho, num ano quase impossível que um dia futuro,
Ao menos grilos na erva seca de uma noite de escorpiões
E tendas à espera dos amigos perdidos e das punhetas ressuscitadas,
Só a barba cresce e os cabelos brancos e o potencial para fracassar,
Campónio, sim, campónio, em liberdade nesta prisão a céu aberto,
Neste berlinde cósmico, estou perdido neste saco de estrume por abrir.

Turku

25.05.2016


João Bosco da Silva
Ela

Ela passa com mil pés, nádegas de todos os tamanhos e feitios,
Marcando passos em todas as direcções,
Vai-se a rir, a fumar, lambe um gelado, fala com alguém ao seu lado,
Vai só, tem os olhos de todas as cores e leva com ela todos os sonhos,
Todo o prazer, basta uma palavra.

Turku

25.05.2016


João Bosco da Silva

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Inventar Sorrisos

“This is our last embrace
Must I dream and always see your face
Why can´t we overcome this wall
Well, maybe it´s because I didn´t know you at all”

Jeff Buckley

E agora quê, agora que cada passo teu me sabe a derrota,
Por ser mais um ano a caminho de uma década perdida,
Cada sorriso que apenas te imagino, um corte na ferida da distância,
Agora que cada gota de ti me dói tanto quando evapora
E as palavras que quando às vezes me pousam na fome
Me parecem ter sido lidas num livro que não me lembro,
Nunca serei um Hemingway, só na sede ao chumbo,
Só por dentro te agarrei naquele jantar antes das férias do Natal,
Aquela noite sim, foi a despedida e só anos depois encontrei
No livro do Caeiro que me deste, uma dedicatória nas últimas páginas,
Serão essas as nossas páginas, tantos livros perderam o significado
Agora que os teus olhos há tanto tempo, tanto, longe das páginas
Amarelecidas da minha vida, abusadas pela passagem dos anos,
E agora quê, fomos um beijo violento contra todos estes anos
E quilómetros, momentos antes do bater de uma porta,
Um subir de escadas, o bater de outra porta e logo
O primeiro sorriso que te inventei antes de acenderes a luz,
Enquanto esperava lá fora a olhar para os pés indecisos,
Ela ainda volta, mas só o táxi chegou e lá fui inventando sorrisos
Nos teus lábios até ao cemitério de Paranhos e de lá até hoje.

18.05.2016

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Anoitecer De Madrugada

Não posso ir agora, assim, já, ainda é cedo para me continuares
A contar histórias da guerra e do caralho, ainda acho que tenho
Uma carta ou duas, mesmo que pareça que já está tudo queimado,
A cama parece-me a coisa mais apetitosa do dia, daí gostar tanto
Do café das quatro da tarde na varanda enquanto o resto do mundo
Regressa já cansado da vida, dos cornos, dos trocos para o papel higiénico,
Eu ao menos, apesar do cu limpo no esquecimento, sei que salvei alguém
Para mais uns dias neste aquário de piranhas com milhões de peixinhos dourados
Para serem comidos pela fome das barrigas maiores, mas caralho,
Eu não posso ir assim, já, nem o raio de um bastardo se anunciou,
Tantos bancos de trás de tanta boleia, e nem um bastardo,
Vomitei tantas vezes na fome de cadelas, ninguém terá engolido
A minha vontade, terá sido tudo mentira, vou cortar no quê agora,
Até me apetece um ponto de interrogação num palheiro
No dia da festa de uma aldeia em Agosto, não posso ir assim agora,
Mas já amanhece e eu pouco mais tenho a dizer a não ser palavras
De revolta que só o poeta da capital vê, mal sabe ele o que é a vida
Seja onde for além da capital de um império fossilizado.

12.05.2016

Turku


João Bosco da Silva
Para Os Vossos Filhos Bastardos

Arranco os óculos antes da madrugada, fica tudo como está,
Sinto a chuva de Tóquio a tocar na pele da minha infância
E eu nunca usei chapéu amarelo nem fui levado de carrinho
Para a escola, levei na bentas, sangrei dos joelhos, rasgaram-me
As calças favoritas em segunda mão, tive medo de morrer
Afogado em merda numa fossa, não fosse uma velhota
Debaixo do que hoje me parece uma oliveira e tinha engolido
A merda do medo todo e nem um verso hoje, longo ou o que seja,
Hoje os filhos desses merdas têm o mesmo medo,
Eu não, eu nem me perdi em Tóquio, apesar de me ter perdido
Em muitas madrugadas, loiras, ruivas, da cor da madrugada,
Nem óculos tinha na altura, era por ser de longe,
Sempre fui de longe, por isso agora aqui e tão em casa,
Agora és o glaciar onde mijei na Noruega, o teu amigo é só
A carcaça morta de uma zebra numa tarde aborrecida na savana queniana,
Eu o garoto a quem custou demasiado caro um sorriso,
Desejei-vos a morte tantas vezes, e que triste que o maus durmam bem,
E no fim nem o comboio do destino poupa a vingança dos pobres,
Só espero um dia que os vossos filhos bastardos tenham que estudar
As merdas que escrevo por causa daquelas calças rotas naquele
Dia de chuva depois da escola na segunda classe.

12.05.2016

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 8 de maio de 2016

Como Uma Bic Entre Os Dedos

Nesta madrugada, enquanto estrio esta Bic preta,
Quantas adormecerão com o esperma de outro no estômago,
Será que alguma se lembrou de mim, um segundo que fosse,
Quando o primeiro filho nasceu delas, lembro-me bem do poema
Que começou isto tudo e nem fui eu quem o escreveu,
Foi um acto de terrorismo, também eu o tenho sido
Mesmo que a erva em Agosto por mim adentro,
Agora sem pinga de fanatismo, além da fome pelas madrugadas
Pouco mais me resta, tenho a tinta quase toda ainda
E já se digerem as palavras num hálito adocicado de sangue ácido
Pela manhã num acordar longe dos meus olhos,
Serei ainda um nome, um raio de sol no cabelo,
Um grão de areia que se trouxe da praia nos lábios,
Uma companhia nas insónias, um gato morto cuja cor
Se esqueceu, a tinta arrasta-se como se a implorar misericórdia
Ao esquecimento, também a mim me engoliram,
Mas de certeza que hoje não passo de um sabor familiar
Como esta Bic entre os dedos enquanto amanhece.

08.05.2016

Turku


João Bosco da Silva
Highlanders - Haikus

Anoitece na cidade
de pedra, o fumo
dos séculos.

Um dia com o peso
de um ano –
dia de aniversário.

A espada japonesa
no museu de Edinburgo –
ossos esquecidos longe.

A cada cerveja
o Mr. Hyde vai-se
revelando.

Os ibéricos olham-se
como estranhos –
Napoleão está morto.

Os britânicos sozinhos
venceram no Buçaco –
diz no museu.

Hoje regresso
sempre à beira
do rio.

A humidade no cabelo
a enrolar os
nossos corpos.

Em frente ao
Banco da Escócia,
dorme um homem no chão.

Ouvir Jim Morrison
na Morrison´s
Street.

No Loch Lomond
o líquen fala
a minha língua.

O vento sempre
um velho conhecido
onde quer que vá.

Quanto verde derramado
entre as duas
pontes de pedra.[1]

Escócia

2-4/05/2016

João Bosco da Silva


[1] Stirling Bridge

sábado, 7 de maio de 2016

Quantas Vezes Me Vim Com Medo

Só não se cura o desencanto, aquele que é o abandono cicatrizado,
Quantas vezes me vim com medo, fugi daqueles úteros férteis
Em promessas de casa de banho, desperdicei no chão o castigo
Dos deuses que não veio, tremi à luz das velas sem medo de cemitério,
Desviei-me das curvas perigosas dos lábios sibilantes,
Contudo o desencanto um dia chega a todos,
Uma luz verde que se apaga, uma boca que pede demasiada presença
Onde alguém se perdeu tantas vezes, a sede dos dias quentes
Sem início traz de volta os sonhos incompletos
Entre o aperto dos olhares pedintes e a boca aberta em chamas,
Rasga-me novamente, tem pena de mim.

07.05.2016

Turku


João Bosco da Silva
Castelo Em Ruínas

Quando olhares para um velho, não vejas as rugas na cara,
As cataratas nos olhos, a lentidão na marcha, o cheiro à morte,
Ao cansaço, ao sono e ao mijo cristalizado dos anos,
Olha e vê um castelo em ruínas, coberto de silvas e ervas,
Algumas flores silvestres, uma torre ainda imponente
Com vista para o horizonte passado, o reflexo de umas
Muralhas um dia o dobro da altura que têm hoje,
Uma cisterna que matou a sede a tantos,
Podes ver os nós dos dedos, esses a árvore centenária
Que resistiu ao esquecimento e aos cercos da solidão
No Inverno, vê os sonhos inquebráveis nas pedras
Que tombaram no fosso antes da entrada
Onde entrarás se arriscares um sorriso e aí se tiveres sorte,
Viajaras no tempo e serás mais jovem
Que as nuvens que hoje a noite escondeu.

04.05.2016

Edinburgo (Grass Market)


João Bosco da Silva

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Escrevo-te Da Montanha

Escrevo-te da montanha onde todas as madrugadas se encontram
E os sonhos são pedras que tocam o impossível,
Onde o vento é um deslumbramento da alma, a alma possível
Nos raios de Sol que amanhece e traz vida à vida,
Onde os corvos esperam pelo abandono e o esquecimento,
Por isso te escrevo e eles batem asas em direcção ao mar
Onde por vezes adormecemos e com sorte renascemos
Todas as manhãs com o sal de uma pele morena
Nas papilas cansadas dos dias vazios,
Daqui te escrevo, trasmontano, amigo, amante, carne universal,
Em comunhão com o vento dos tempos,
Escrevo-te da pedra com a delicadeza possível de uma primavera,
Sem medo ou vergonha porque ambos conheceremos a morte
E sabemos do amor e outras indelicadas erupções do desejo,
Escrevo-te sem fome ou sede, nada mais que um arauto dos sentidos,
Escrevo-te neste instante no extremo oposto à criação e saúdo-te
Amigo, amante, carne universal desde a montanha
Que é onde quer que seja o meu berço e o meu lar.

Edinburgo (Arthur´s Seat)

03/05/2016


João Bosco da Silva

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Caminhada Catártica

ao meu amigo carpinteiro,


Não sei se era o Sol que se punha, se éramos nós que caminhávamos
Para detrás da montanha por aquele caminho rodeado de castanheiros
No fim de uma tarde quente, seria verão, pela recordação em tons cinzentos
Parece que não, se calhar o calor só o da tua voz soprando o fumo de um cigarro
Que acreditava que eterno, afinal não, afinal também tu como o meu avô,
Não me lembro do que falávamos, mas parecias contar-me uma verdade
Sobre a vida e a morte, provavelmente falavas-me da guerra em África,
Ou da falta de sapatos nos dias frios, ou então do calor de um perfume francês,
A cova do meu avô ainda não tinha afundado e cada passo me parecia um abraço,
Eu garoto, ainda com tempo para tudo, goza a vida João, dizia-me,
Quantas vezes não a poupei só para não te deixar mal, mesmo que não
Te tenha contado tudo, a vida não é para se poupar, é comê-la à dentada
Antes que se estrague, depois nem dentes há para o pão duro em que se torna,
Entretanto o Sol pôs-se, a terra arrefeceu, passaram anos desde aquela
Caminhada na aldeia do meu pai, e agora tu além da montanha onde o Sol se esconde.

29.04.2016

Turku

João Bosco da Silva



quarta-feira, 27 de abril de 2016

Iluminações

Quantas vezes olho pela janela com fome de relâmpago,
E espero a porta aberta numa tarde de fim de Verão,
A chuva quente caindo na terra sedenta, e um raio sobre
O poste de alta tensão encravado entre uma fraga e um freixo,
E não ter medo do fim do mundo que se apresenta tão puro
Quanto a violência dos dias cinzentos e quentes,
Um salto na escuridão de um rádio que se desliga
Nos ouvidos surdos de tanta luz desperdiçada,
Quantas vezes olho pela janela como quem pede um raio
Purificador, que parta do ar este peso dos dias vazios.

27.04.2016

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 24 de abril de 2016

Trás-Os-Montes

Trás-os-Montes sempre foi a colónia mais longínqua do império,
Mas quando chegava a fome de carne para canhão, todos eram filhos
Da pátria, mesmo que fossem com pouca carne por causa das fomes
E dos invernos que a capital nunca viu em Portugal continental,
Não havia sapatos para todos, mas balas para matar os inimigos
Da nação nas suas próprias casas, à farta, depois houve uma revolução,
Eu continuava a ter que acelerar no Inverno a bicicleta,
Se fosse demasiado devagar, parava no meio de um charco de lama,
E enterrava-me lá todo, lá na aldeia, mas eramos só uns garotos,
E ninguém se importava muito em acender mais umas velas
Quando um de nós atirava contra os cabos eléctricos descarnados
Uma vara de sombreiro desde um arco improvisado
Com um pau de castanheiro e um baraço dos fardos,
Tractores, sim, tive um, o meu pai fez as rodas de cortiça,
Eu improvisei o resto e foi a inveja da povoação,
Os de plástico vi já andava farto de bater punhetas em palheiros,
Trazidos das feiras da vila, parecia a capital na altura,
Sujos não andávamos porque a pele das mães se tinha habituado
Às geadas, e que sorte não ter havido uma guerra no nosso tempo,
Só ouvíamos as histórias deste que veio maluco da Índia,
Tinha sido a droga e eu a pensar que a Índia lá para além de Bragança,
Depois da Espanha onde uma vez por ano íamos comprar chocolates
E meias, até o meu avô era conhecido na Espanha, traficante,
Na altura dizia-se contrabandista, de meias, um criminoso perigoso,
Um inimigo do Império, claro, não foi a nenhuma guerra,
Uma vez enfrentou um javali por fome com um machado,
Fartou-se durante uma semana, mancou o resto da vida,
Mas nada disto interessa, amanhã é dia da liberdade
E eu aqui longe de todos os que me queriam fazer pedir,
Longe de todos que me diziam não me querer ouvir,
Porque senhor doutor lá de uma fortuna na Suíça,
Longe de todos os que filhos deste e daquele, que julgaram
Que podia roubar-lhes o poleiro, longe do acordar
Para poder ir dormir, para voltar a acordar e no fim
Pouco mais sobrar que para o bilhete de autocarro
Para ir ver a família em Agosto que veio lá de longe,
Do estrangeiro, coitados, quando eu podia ir ao café todos os dias.

24-04-2016

Turku


João Bosco da Silva