domingo, 28 de agosto de 2016

AGOSTO

I – Torre de Dona Chama

O gato abandonado
atravessa o restolho
do fim da tarde.

A passarada canta
ao anoitecer –
são os vizinhos que restam.

O tractor regressa –
leva a fome
que contra o calor lutou.

Noite quente de Verão –
as rãs acordam
do seu sono molhado.

Os dedos soltam a corda –
naquele instante
nasce um poema.

Já no ar leva traçado
o seu lugar no alvo –
a flecha.

O rio passa
quer a cigarra
cante ou cale.

O Sol põe-se,
as cobras procuram
a companhia das sombras.

Pinheiro ao Sol –
do fundo do vale
olha-se a distância.

No cimo da fraga
acumulam-se
as fezes do gineto.

Quantas folhas caíram hoje,
não interessa –
o rio leva-as todas.

Reflectido no rio
o poeta vê-se mais nítido
que no poema.

Portas fechadas –
o Sol ainda beija
com a língua afiada.

Por cima da fraga dura
passa leve
a borboleta.

Debaixo do carrasco
eu também
onde as folhas caíram.

No crepúsculo do Verão
os grilos acendem
a noite.

[1]No carro do padre
cagaram
as pombas.

É quando o Sol
se põe que os juncos
mais crescem.

no mantra da noite quente
balança o passado
e o presente.

As pedras ainda quentes –
há anos que ela
partiu.

Os escorpiões em álcool
ainda duram –
quantos amores esquecidos.

O açúcar seca no fundo
da chávena –
o hálito a café permanece.

Noites quentes
de ausência –
confabulação.

A Lua segue
as gotas púbicas
na carne quente.

Caem-lhe dos bolsos
gordas larvas –
ninguém irá comer.

A macieira solitária
no lameiro verde
tem a sombra mais bela.

A brutalidade passeia
vestida de incêndio
na canícula.

Contra o rigor da natureza
e a crueldade do homem –
desabrocha a flor.

Quanto menos se tem
menos se
cala.

Ignoram as moscas
que o vidro frio
as espera na janela.

Ainda hoje procuro
o Sebastião Alba
longe do cemitério.

Não há cegueira
que trave
a visão da mão.

Escreve-se melhor
à sombra
dos teus beijos.

II- Figueira da Foz

Só as ondas
insistem
no regresso.

Estamos à distância
de um sorriso
ou de uma palavra?

Não é a partida
da andorinha
que traz o Outono.

Eles procuram ser
os sonhos
uns dos outros.

III- Porto

Acende-se um cigarro
e sopra-se
no fumo.

À beira do rio
outra vez
como nunca antes.

Entre séculos de fome
esperam inquietos
os fartos.

A loucura alimenta-se
de gritos
e solidão.

Nem o espelho
me reconhece
a desilusão.

A cerveja aquece –
mais rápido
a saudade aparece.

A gota de Porto
caiu-me na pele –
o teu suor.

Os turistas
na minha terra
como eu.

Instala-se o cansaço
como um
pôr-do-sol na montanha.

Um porto entre
cigarros –
o sabor da tua língua.

O rio corre
quer haja lágrimas
quer não.

Dói o luar
Desta noite –
Quebra-se um prato.

Babel –
é aqui que me sinto
em casa.

Agosto 2016

João Bosco da Silva



[1] Versão do haiku de Yosa Buson: “Sobre a imagem santa/defecou/uma andorinha”

sábado, 27 de agosto de 2016

Sleep Over

Com as mão cheias do vazio desta noite quente,
Deitado na cama já fria, lembro as pregas húmidas
Daquelas miúdas com a pele da cor do desejo,
Tão salgada sempre com os pêlos dos braços descolorados pelo Sol
E pela leveza dos tenros anos, lembro os meus dedos brutos,
Estes mesmo que os anos a habilidade aguçou cirurgicamente,
Procurando a lógica do prazer naquelas coxas apertadas
Enquanto lutavam com a minha língua contra a algazarra
Que os insectos impunham janela adentro,
Hoje todas elas esperam, certamente, uma cama vazia
Como esta, onde se deitam memórias à flor da pele, estreladas,
Onde possam fechar os olhos e afastar os joelhos e humedecer
Lentamente, sem a saliva apressada da sua besta ressonante
Que lhes consumiu os últimos anos bons,
E num toque de dedos hábeis, resolver o caminho de um orgasmo
Primordial.

Torre de Dona Chama

04.08.2016


João Bosco da Silva
Apocalipse

Terá já acabado o mundo, sei que a última folha ainda tarda,
Ninguém me entrou ainda porta adentro com baionetas de certeza
E me perguntou de que lado queria morrer ou pela mão de que deus,
A manhã amadureceu fresca e as cortinas das janelas
Dançam perdidas neste fim do mundo,
Será que onde me sento nasceu uma fronteira nova,
Quantos novos nomes terá a fraga da minha infância
Debaixo do mesmo Sol de sempre, pelo que sei o rio corre
Ainda e se houve sangue já o levou até à foz
Onde tudo se esquece apesar dos nomes cravados nos muros
E das estátuas sem nome, prova que não há nada tão inútil
Quanto a morte, tanto quanto sei, pode já ter acabado o mundo,
Contudo aqui me sento metralhando em paz, entre fragas e giestas,
Na única fronteira que reconheço, entre o esquecimento e a eternidade.

Torre de Dona Chama

04-08-2016


João Bosco da Silva

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Volta À Canícula Do Mundo

Cá estou eu entre a certeza do fim e a ilusão da novidade,
Dando voltas ao mundo no quintal e regressando sempre
Aos quinze ou dezasseis anos, aos versos certeiros fora de linha,
Aos pêssegos maduros antes da descida dos ramos da figueira,
Ardeu tudo tantas vezes, no fim o que resta é o monte rasteiro
E aqueles beijos acesos no rescaldo das noites do fim do Verão,
Resta também a palha que incomoda as costas nuas numa paz
De ruminância e fermentação do leite contaminado pela fome
Fulminante de alívio, custa-me crer que tanto azeiteiro
Com oliveiras tão magrinhas, de onde nascem as saudades
Ao canelho, à pinga da água quando o vento puxa a chuva,
Ao rio que o Sol e os espanhóis amassaram, à má vontade
De braços abertos, só as raízes que persistem agarradas
À terra estéril, depois de há muito ter tombado o tronco
Sem testemunhas, poderão dizer de onde nascem aqueles ribeiros
Que durante o Verão secam e passam o resto do ano
A abrir a terra mais funda, a aproximar o fim da ilusão,
A meter quilómetros ao que a um passo, por fim o vento
Separa-nos com um roçar quente de flor seca,
Nos cemitérios ninguém nos espera, só na vida se consente
O que ainda não está, como evitar a porta de um amigo
Que nunca mais estará do outro lado, só para não se confrontar
Essa ausência nos olhos da sua viúva, por isso aqui
No quintal, entre a certeza do fim e a ilusão da novidade,
Dou voltas ao mundo enquanto o sino anuncia mais uma partida.

Torre de Dona Chama

04.08.2016


João Bosco da Silva
Half Life

Acordo e passaram quinze anos,
Ninguém diz que me espera na pizzaria para tomar um tango,
Parece-me que nasceu mais gente do que os que morreram
E no entanto menos pratos na mesa nos dias de festa
E mais casas abandonadas nos bairros antigos,
Acordo e só o Sol e as moscas me parecem iguais,
O ar cada vez mais pesado e o horizonte
Cada vez mais fino, ninguém me diz,
Deixa lá isso e anda comer,
Deixa lá isso e vem ter comigo atrás da junta,
Deixa lá isso e vai viver a vida ainda a meia distância desta
E o Verão tinha o tamanho proporcional ao futuro,
Hoje que se celebra a sua chegada com tom de despedida,
Acordo num sobressalto, será que
Alguém me mandou aquele tão esperado toque,
Terei puxado o autoclismo,
Haverá manchas nos lençóis,
Será que a neta da vizinha me viu,
Mas só os buracos nos vidros das janelas
Espreitam cheios de ecos de olhares,
Acenando num abandono de cortina
Em reconhecimento à nossa passagem fantasmagórica de canícula,
A que horas passará aqui o melhor amigo,
Queria mostrar-lhe até onde cheguei neste desperdício de vida.

Torre de Dona Chama

12.08.2016


João Bosco da Silva
Regresso

Parti há tantos anos e no entanto o horizonte recebe-me sempre
O olhar com força de granito, reconhece a seiva filha
Que me corre quente nas veias dilatadas pela saudade
E os sonhos evaporados pela distância irmã que tudo amadurece,
Há gatos novos no bairro que atravessam as fronteiras dos muros
Como noutras noites que foram mais minhas, sem promessas
De regresso e todas as casas velhas partem e delas apenas fica
A ausência das boas noites, a água fresca na pele familiar
É a verdade que resta, embalada pela brisa quente nas ervas
Aromáticas, haverá sempre roupa que seca esquecida das geadas
Dos últimos invernos, um dia contarei aqueles segredos
Que não encontraram as palavras, que só aos dedos pertencem,
Com a mesma inocência com que, com a palma da mão,
Se cobre aquela serra ou a Lua ou os pesadelos dos olhos
Das noites dos que se tornaram eternos na ausência.

Torre de Dona Chama

29.07.2016


João Bosco da Silva
Distâncias e Areia

Há distâncias que os quilómetros não medem, nem o tempo as justifica,
Crescem tanto dentro da medula como o sangue e os sonhos vívidos,
São distâncias de areia na sede e de fastio nos banquetes que se repetem
Na celebração da distância e nunca seremos os que trazemos dentro
E todas as suas madrugadas de ampulheta acelerada e fome com a complexidade do fogo,
Há distâncias que separam a concordância entre as aurículas e os ventrículos
Como o alcance da vontade das mãos, desculpa-se tudo com o esquecimento
De quem está menos a distância que se impõe nos dias de Sol
Dos verões cada vez mais curtos e secos.

Figueira da Foz

16.08.2016


João Bosco da Silva

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Agosto

“Quanto mais longe vou, mais perto fico
De ti, berço infeliz onde nasci.”

Miguel Torga

Quase que chega Agosto, o mês da fome farta e da loucura
E sei de cor as curvas que se desenrolam Marão acima
E o pé que falha no rio passado da infância,
Só a sinfonia dos insectos à noite, continua indecifrável
Como as companhias cintilantes que da distância impossível
Nos visitam, do horizonte virão suspiros e pestilência,
Um Sol velado e uma Lua vermelha e mais um pedaço de pulmão
Que se calcina, nas ruas estreitas um cão novo que nos ladra
E um olá antigo que será um adeus e nem se sabe,
Os figos serão as estrelas da canícula e as folhas da figueira
A companhia fiel e silenciosa que guarda nas nervuras
Todos os segredos que o corpo repousado lhe conta em silêncio,
Quase que chega Agosto e todos os regressos tão breves
Que mal se chega e logo alguém pergunta quando é a partida.

27.07.2016


Turku

João Bosco da Silva

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Sábado À Noite Pelos Olhos De Uma Gaivota

ao Jack,

Da santíssima trindade serei sempre aquela gaivota, lá no topo do edifício
A olhar as gente que sai, bêbada, sorridente a cair das escadas e não é nada
Com a cabeça a sangrar levados pelos braços de um amigo,
Aquelas miúdas quase maduras a serem levadas pela mão ou pelo pé
De quem querem, a malícia de quem tem mais fome na vontade
Do que aquilo que realmente sabem e podem comer,
Serei sempre o de sorriso nos lábios, com esperança na música
Que salva a multidão, na tarte com gelado que salva a fome,
E somos tão simples e custa tão pouco um momento de felicidade
Para iluminar todos os dias escuros, serei sempre o que caminha,
Sempre, atravessando a vida, sorrindo porque ela ainda existe
Contra toda a morte, sem medo, apesar do medo, serei sempre
O bêbado feliz enquanto bêbado, quando longe da cabana,
Do delirium tremens, das garrafas vazias, dos burros mortos,
Do Big Sur, enquanto houver música nas ruas que engulam
Os tiros da noite passada, acreditarei, que somos humanos
Ainda, que seremos seja o que a madrugada nos trouxer,
E os monstros morrem lavados pelo sangue dos inocentes,
E a gaivota voa, voa e leva o fascínio por aqueles animais
Condenados a um passo de cada vez, serei sempre o Kerouac
Da santíssima trindade, caminhando com um sorriso, bêbado,
Iluminado pela carne cheia de sonhos, de desejos, de vida.

24.07.2016

Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 14 de julho de 2016

14 De Julho

Hoje, na varanda, enquanto engolia uns goles de sake à uma e meia
De uma noite clara do norte e olhava a bandeira orgulhosamente
Pendurada na varanda de emigrante, lembrei-me das primeiras bandeiras
Da minha vida, penduradas no posto da Guarda Fiscal e na aduaneira
Antes da ponte onde o meu pai comia as refeições quentes envolvidas
Em panos de cozinha que eu lhe levava, com os meus cinco seis anos,
Ele um herói de pistola à porta de Portugal, uma casa grande
Com cheiro a eucalipto e uma língua como a que se falava em casa,
Eu na altura era contrabandista de pastilhas elásticas e iogurtes,
Lutando contra a corrente do ribeiro para salvar os fantasmas
De plástico, brindes de um cromo premiado, caça-fantasmas,
Tinha a caixa de fósforos quase cheia de fantasmas minúsculos,
Todos corrente abaixo, menos eu, e do outro lado a senhora
Da mercearia galega uma língua igual à do Son Goku dobrado,
Nada de bandeiras nas pedras da ribeira que hoje atravessaria
Em três passos, hoje que um pontão e na ponte nem um bivaque,
Só o fóssil de um brasão de um lado e de outro, neste ano
Que ameaça tudo e mata mais os que de olhos no céu
Festejam a liberdade como se fosse algo que ainda exista,
Hoje, olhando uma bandeira, estrangeiro aqui como em todo lado,
Como a própria bandeira, a mesma daquele tempo em que
Ia ao pão com cem escudos e já era grande, e as couves cresciam
Apesar dos caracóis enormes e dos bolsos vazios de fantasmas,
Tão cheios de medo, não daquele medo da gabardina pendurada
No quarto onde dormia num divã, um medo de fogo-de-artifício,
Um medo de me distrair na felicidade num momento e ser
Engolido na loucura anónima que nos leva a erguer muros onde bandeiras.

15.07.2016

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 12 de julho de 2016


Poema Escrito No Bilhete De Autocarro Para Ruissalo

Protege a cerveja, lembra-te do Mint 400, não és o Hunter apesar de só
Numa multidão de vontade palpitante, faminta por uns segundos de sonho,
Deixa, hoje tiveste os olhos que te merecem, uma mão redentora e sobrevivente
E ouviste os nomes de todos aqueles mortos que adoras
E ainda bem que guardaste o bilhete de autocarro, agora take the ride,
Tens ruminado tanto com fome que acabas por te digerir a ti mesmo,
Cospe o pó que ainda não és, engole mais um gole da fria,
Monta no cavalo e vai, não esperes que o Sol se ponha.

Ruissalo (Ruisrock festival)

10-07-2016


João Bosco da Silva

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Necromancer

“Na minha horta
colhendo fruta
sinto-me um ladrão”

Yosa Buson

Insisto em trazer aos versos um punhado de mulheres que julguei terem sido minhas,
Quando era eu que me deixava lá ficar todo, espalhado pela distância, cada vez mais raro,
Um pó cada vez mais fino que nem se sente, elas regressam sempre com os dias quentes,
Um perfume de quem passa, o champô na cabeça de alguém que se tenta aproximar
De um vazio pesado de despedidas com ou sem intensão de o serem,
Procuro-me nelas, uma a uma, tento reunir o que de mim ficou perdido algures no bolso
De umas calças que já não se usam ou já não servem, reconheço-lhes os sorrisos,
Os olhos parecem-me sempre mais distantes, escondidos na sombra, e nos sorrisos
Traços imensos do que a vida impôs, nos rios, encontro-as a todas, uma a uma
E passam até ao mar do meu esquecimento, onde me diluirei com todas as mortes
E finalmente deixarei de desenterrar continuamente o mesmo punhado de mulheres
Para sacudir no papel um beijo desta, o olhar daquela, o primeiro e o último,
O perfume da outra entre goles de vinho do porto, as palavras doces com que se engoliam
As promessas e as traições e o sal das peles, dos lábios perdidos nos lábios e nos sonhos
De dedos confusos que se agarram num desespero de náufrago antes da próxima onda e mergulho.

07.07.2016

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 27 de junho de 2016

“Da Natureza Dos Deuses”

Se o engenheiro soubesse que as visitas não visitas, mas testemunhas do final,
Contagens decrescentes silenciosas e inquietas entre as palavras cruzadas,
Cães à espera que o velho morra e abra os dentes, deixe cair o osso que todos querem,
Todos sorrisos ao entrarem que logo se apagam num canto que espera que durma,
Durma senhor engenheiro, descanse, abra o dente que já mordeu muito,
E os olhos do homem no tecto a tentarem agarrar o que resta da vida,
Aquelas mulheres todas em troca dos favores e outras tantas em troca da ilusão,
Ele pode, ele se quiser, ele mete-te lá, ele mete, um deus quase, agora estrangulado
Numa fralda que sem dar por isso aquece e depois frio nas vergonhas
Que subjugavam, de joelhos se faz favor, engula toda, vá, não se esqueça
Do que fiz pelo seu marido, o seu filho passou graças ao apertinho bom da mãe,
A sua filha já tem que idade, todas naquele tecto vazio enquanto um parente
Se debate com uma palavra horizontal, tão fácil, tão simples, cinco letras, na ponta da língua,
Morte.

27.06.2016

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 21 de junho de 2016

Memórias De Garagem

Ela morava na garagem de um tio, a mãe era divorciada, devia andar a esconder-se do ex-marido, aquilo parecia-me tudo um crime, eu jogava com o irmão numa máquina que se ligava a uma televisão dos anos oitenta jogos dos finais de setenta e contudo muito melhores que a minha tetris de duas pilhas AA, imitação do jogo da moda, o tio da terra do meu pai,
Por isso nós namorados,
Ela uma ano mais velha que eu, cheia de experiência e com tanta fome que me dá a mão e me leva assim a correr à minha frente até à garagem, a prima uma mulher já de bikini a despertar o meu tesão de garoto, devia ter uns quinze já e simpática para mim,
Olhos lindos, dizia, olhos lindos, já tens namorada
E eu a cruzar as pernas e entortar um pé e a engolir aquela pele dourada toda, mas a namorada a ver tudo e a puxar-me a mão outra vez,
Anda jogar, gostas de jogar
E o irmão grande já, diziam que fumava e drogas, andava de boné com a pala para trás, uns dois ou três anos mais velho que eu, eu aceite mesmo que férias de Verão e todos os colegas de escola já a meio caminho de se esquecerem de mim, eu que não voltaria a vê-los, eu que me lembro até da garota que lambia tanto o bigode que o lábio superior até ao nariz, um cieiro gigante, era pobre, claro, todos o éramos, menos o filho do doutor que dizia que pinava a menina de quem eu gostava, filha de pescadores, e a meia-irmã que já andava no ciclo, no quintal ao lado da escola e contudo ficava impressionado com a gaita de um cão vadio a caminho de casa, ele nunca imaginaria que eu uma namorada que nunca dele,
As nossas mães são amigas, nós namorados e podes jogar quando quiseres com o meu irmão
E eu sem dizer nada, que sabia eu das regras dos grandes, a tua irmã divorciada, tu lá deves saber, e a mim, um monstro deformado com uma cicatriz enorme no queixo, que tinha que esperar pela barba para se esconder como o médico,
Eu também, por isso barba,
Bem me servia, era só para ir de arrasto de mão dada,
Anda,
E durou umas duas ou três vezes, depois fomos embora para Trás-os-Montes e ela de certeza que já no segundo filho ou marido, divorciada como a mãe, com calções em vez de bikini e eu apagado da memória completamente, eu que ainda sei a sua pele morena de cor.

Turku

20.06.2016


João Bosco da Silva
O Estado Do Tempo

Tenho os sentidos à beira da catástrofe, vivo num último gole constante,
Cada sirene que se apaga na urgência distante é uma morte anunciada
Ao lado da almofada, como podem os dentes apertar tanto numa fome silenciosa
De sonho, acorda-se todos os dias em cima de uma ponte mais pronto para o salto
Que para a travessia, e o Sol acende isto tudo com a sua miopia benevolente de deus,
A água passa mas o rio cada vez mais turvo e cada vez menos cães nas ruas da noite,
Cada vez mais o latir dos ossos encalhados nas pedras romanas,
A estas horas só a inutilidade de um verso pode salvar, a vontade não basta
E os sorrisos têm sido tantas vezes falsificados que se desconfia com os dentes todos,
Tenho os sentidos à beira da catástrofe enquanto as crianças brincam na rua
E também elas um fim anunciado muito antes da decadência dos seus brinquedos favoritos.

20-06-2016

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Ruína

Na caixa de papelão uns pedaços de cortiça esculpidos
Com a inocência dos primeiros artesões que foram crianças
O cheiro do Verão na relva recém cortada da casa dos vizinhos
A renda paga e os sacos de plástico ao lado do balde do lixo
A janela da cozinha engolia o mundo todo a meio da tarde
E aquela vizinha que nunca se esquecerá, seja em que Verão
Se lembre a praia e aquela pausa de felicidade entre joelhos
Esfolados e paixões por peixeiras e cerejas com sargaço no ar
Os pedaços de cortiça vacas antes de vacas esculpidas
Pelo avô no lameiro onde de certeza o centro do universo
De um universo ao menos, mesmo que os poços secos
E os cães mortos e as partilhas feitas e as macieiras queimadas
E a cerejeira seca e os tombos impossíveis agora
Porque já és grande e nunca vens a tempo das cerejas
Só de veres o mundo a arder e as chamas nunca tão altas
Podia ser tão grande se a infância não tivesse sido tão curta
Mesmo assim, trago hábitos de garoto agarrados aos vícios

17.06.2016

Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 16 de junho de 2016

O Cemitério Somos Nós

“pobres girândulas finais dos destinos anónimos.”

António Lobo Antunes

O cemitério somos nós, enchemos num dia de chuva, todos os papéis
Que se perderam, todos os sorrisos que se lavaram, todos os nomes
E acima de tudo, todos os que nos foram e aqueles que não quiseram
Que fôssemos neles, todas as portas  fechadas com flores podres à entrada,
Os autocarros que partiram para a felicidade que se lhes imagina
E os que ficaram avariados nas garagens colonizadas por aranhas,
Todos os porcos nas manhãs geadas e o sangue quente a fumegar
Nos olhos dos vivos que fogos fátuos no verão, todos ao cemitério
Num dia de chuva entre dias quentes, todos os amigos a quem
Lhes falhou o tempo ou a vontade ou a vida, todas as curvas da estrada
E dos rios, todas as noites estreladas e as manhãs do mergulho no nevoeiro
Em direção aos bons-dias sempre quentes sem ponta de nariz,
O cemitério somos nós, onde todas as cidades convergem e se esmagam
Todas as ruas os mesmos segredos, cada árvore um gemido de madrugada,
Cada sonho uma derrota acordada, e todos os lábios nos olhos fechados
Em forma de lápide que muda de cor sob o céu que se desfaz numa tristeza universal.

16.06.2016

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Beijos E Multiversos

Se te tivesse beijado naquele jantar em que choraste depois
De uns copos de vinho branco, eu com uma garrafa de cerveja
A noite toda, quem era eu, não sei, se calhar eu hoje
Um desconhecido familiar sentado no sofá com a camisola
De um clube a acender inimizades com velhos amigos de cores diferentes,
Um carro na garagem que toda a gente vê e um buraco na carteira
Que eu não queria ver nem sentir, um par de garotos mais pesados
Que mil malas e todos os países que queria ver resumidos a
Uma lua-de-mel no Brasil ou nas ilhas de uma ex-colónia,
Provavelmente mais gordo, com as costas ainda mais encurvadas
Pelas palmadas da amizade, umas quantas putas no orçamento,
Uma amante no trabalho em sopro apressado no parque de estacionamento
Antes de regressar a casa para o conchego do cheiro a refogado,
Um cinema, ao menos, por semana com os garotos e o teu rubor
Nas bochechas ao passarmos por um colega teu que pensas
Que eu não vi a apertar os cordões com os olhos,
Tudo engolido com as pipocas e duas sonadas interrompidas
Pela urina do mais novo e as luzes do intervalo,
Mas que sabia eu de roubar beijos, eu que passava pelas montras
Da fome com os bolsos cheios de vontade.

Turku

06.06.2016


João Bosco da Silva

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Dívida De Esperma

Inspirado no poema “Os Lubrificados” de Hal Sirowitz

Naquele mês de Maio comprava uma caixa de três preservativos de cada vez
Porque sabia que o nosso amor não duraria mais do que umas quantas vezes,
Naquele dia em que te sentaste com um aperto de surpresa,
Já tinham acabado os preservativos e o esperma, mesmo assim,
Tiraste-me do fundo de ti, acolheste-me na tua boca e desses lábios
Que mais tarde voltaria a saborear, mais meus que teus, disseste-me
Entre mergulhos, quero que te venhas na minha boca,
Só anos mais tarde, em Agosto, te paguei a dívida de esperma
Num banco de trás com um preservativo no bolso emprestado por um amigo,
Mas aquela moeda de troca já tinha saído de circulação e a Lua sabia disso.

01.06.2016

Turku


João Bosco da Silva