sexta-feira, 11 de novembro de 2016

10


Confesso que não me lembro da última vez em que te vi com os olhos,
Dez anos não são dez anos, são 10 vezes em que a neve derreteu
E 10 verões em que se achou impossível o seu regresso, foram noites
E piores manhãs, cada dia a nascer já mais gasto, o espelho uma
Memória que nos acorda para cada ano, não te reconheceria o sorriso,
Nós tão sérios na juventude, esperando o fim de décadas para finalmente
Dar razão à ilusão, enquanto se espera, os nomes apagam-se,
Só os sonhos ficam, as suas visitas inesperadas entre menos um dia e outra,
Ninguém me sonha como tu, a entrar naquela sala, levitando no soalho
De madeira com as tuas sapatilhas all star, até o sol encontrou o caminho
Para as janelas, ou alguém tinha acendido a luz, neste dia apagado,
Conto mais esquecimento que vontade, mais partidas que regressos,
Mais fomes que vidas, dez anos que não são dez anos, são cabelos
Que imitam a neve, olhos que reflectem o inverno, dedos demasiado curtos
Com profundidades anónimas gravadas na articulação obvia do fracasso,
Hoje até o Leonard Cohen morreu, os mortais sentem o paraíso cada vez mais
Distante, sentem-se mais longe de todos os reencontros possíveis com o amor,
Sentem-se mais neste mundo que passa para nada e é cada vez menos o que temos
Pena por não ser eterno, e dez anos são tantas eternidades perdidas.

Turku

11.11.2016


João Bosco da Silva

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Hurricane

Ainda deve estar entre aqueles meus primeiros poemas, o/a “Hurricane” do Bob Dylan,
Em papel reciclado e a tinta azul, que era sempre a que sobrava no fim do tinteiro,
Numa gaveta dominada por humidade e segredos que só os fungos agora conhecem,
Era uma canção, poetas americanos nunca tinha lido e o inglês do nariz ainda me custava
A entrar nas orelhas geadas, parecia-me um conto, mas era em verso, cantado,
Aquele mp3 que o amigo francês encontrou no Napster e só não se gastou
Por se ter perdido entretanto entre cds riscados e disquetes desmagnetizadas,
Ainda devo ter grandes obras imortais perdidas naqueles bits obsoletos,
Pensem nos vossos cérebros fossilizados, revoltados com aqueles títulos
De imortalidade atribuídos por mortais, revoltados da mesma forma com a fome
E a fartura dos outros, quando o estômago moderadamente cheio de reis,
Tenho lido desde então tantos poemas que não são canções sequer, só merda,
Escrito provavelmente ainda mais, mas nunca tive outras ilusões além da purga,
Toda a revolta dos poetas agora, lembra-me o Gregory Corso indignado
Porque alguém tinha escrito “poet” no túmulo do Jim Morrison,
Se calhar com inveja de um artista menor ser maior que a morte, “he beated the dust”
Parece-me que todos os poetas queriam ser na verdade rockstars,
Que todos lhe comem do prato dos restos e não conseguem parar de rosnar,
Ao mesmo tempo que se comovem com os cacos dos sonhos alheios e galinhas mortas,
Nada chega para todos, onde um está só o amigo cabe, amigo do ódio de estimação,
Imparcialidade impossível nos olhos amargos de dedos pesados pelo brilho de lata,
Cantor não entra, palavras só as da minha cor, em papel é que é,
A cantar ou a rosnar, de papel ou de ar, lembrem-se que
Cabemos todos neste barco de ilusão em direção ao esquecimento.

Turku

31.10.2016

João Bosco da Silva



sábado, 29 de outubro de 2016

Querido Diário

Acordei bastante cedo para um dia de folga, 12:30, café de cápsula,
Vamos todos morrer de qualquer forma, banho a ouvir Lana del Rey
No gira-discos avariado, duas fatias de pizza do dia anterior,
Sair uma vez de bicicleta e abortar pelo medo à chuva no pouco açúcar
Que resta na carcaça amarga, segunda tentativa de guarda-chuva amarelo
Trazido de Tóquio e outros dias cinzentos mais iluminados,
Ir comprar um disco do Bob Dylan para redimir os mp3 piratas que
Fizeram companhia nas noites solitárias de cidades doutros anos
E acabar com um dos Radiohead, ir ao banco levantar 500$,
Ver a bodybuilder iraquiana com o boné igual ao que trazes,
Depois de mais 10 minutos perdidos para sempre,
Acabar por ter que ir à Forex levantar os dólares, sem paciência
Para as tentativas de engate da funcionária, claro que é de férias,
Ir lá fazer mais o quê se nem imaginação se tem para um verso,
Entrar no bar favorito, vazio ainda às 4 e meia da tarde, ainda bem,
Pedir uma cerveja picante e pensar como raio se apaga a boca
Se a cerveja acende mais a língua, abrir o livro The Days Run Away
Like Wild Horses Over The Hills e emborcar o inferno na companhia
De um dos mortos favoritos e isto é o dia de um poeta so far,
E têm sido raros dias de chuva assim, mas tu sabes bem porque escrevo,
Querido diário.

Turku

28.10.2016

João Bosco da Silva

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Marla Singer

“At time, my life just seemed too complete, and maybe we have to break everything to make something better of out ouserlves.”
Chuck Palahniuk

Andei o dia todo a tropeçar em versos alheios e era a ti
Quem me parecia encontrar nas sombras entre cada verso,
Não consegui aguentar mais o poema assim que senti
O gosto do fumo do teu cigarro na ponta da língua, onde tem pernoitado
Na minha falta de sono e sonhos, tu umas filas à frente silenciosa
E tão gritante que nem um verso se ouve cair, de cinza e fumo,
Quanto tempo passamos a quebrar-nos para nos sentirmos inteiros
E acabamos inteiros como os filmes onde julgávamos encontrar-nos,
Mas eram afinal os ecos da ficção nos nossos corações vazios,
Foste a personificação da perdição pela qual me apaixonei,
Aquele sabor do meu sangue nos teus dentes enquanto a porta se abria
E a noite subitamente tudo, os autocarros perdidos à força dos últimos
Espasmos secos em fomes afogadas em enterros entre cigarros e outro tesão,
As luvas azedas esquecidas no lava-loiça cheio de esquecimentos menores
E vergonha, os inibidores da recaptação de serotonina que acabamos por aceitar
Como se aceita a vertigem na queda “and suddenly, I felt nothing”.

26.10.2016

Turku


João Bosco da Silva

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Mau Olhado

Invejarão a tua juventude enquanto a tiveres, serás sempre mais jovem que alguém,
Invejarão os teus sonhos, o que viveste e o que te morreu,
Invejarão até a tua pobreza e a liberdade que daí vem,
Invejarão as tuas escassas mulheres só porque não foram também deles,
Invejarão as fomes que não passaste e as que tiveram que ser,
Invejarão as manhãs que não viram e as tardes em que não acordaram,
Invejaram até a tua morte, a tua paz definitiva, o teu silêncio,
Por isso vive, leva esse corpo à morte, serás sempre o que eles não foram.

22.10.2016

Turku



João Bosco da Silva

domingo, 16 de outubro de 2016

“Por Delicadeza Perdi A Minha Vida”

Li que o bar de alterne do outro lado da rua reabriu,
De todas as vezes que tive vontade de lá entrar nunca o fiz,
Por estar sempre entre nós o constante viaduto da minha cobardia,
Vizinho do meu quarto de insónia e masturbação
Onde escrevia poemas enquanto imaginava o meu colega para ti,
Não vim até aqui para falar, a desapertar o cinto,
Tu que me fazias esquecer a fome de uma qualquer,
Nunca te ajoelhaste para mim, mesmo sabendo do meu deus perdido,
Só te me confessavas e eu queria era a absolvição
Do teu sangue quente que falhava nos trânsitos tortuosos
Da tua alma perdida entre a infância e o fim dos tempos
Naquela cidade em constante ruína,
O meu colega, queres que te leve a casa, enquanto pensava,
Mais uma, estão quase todas e eu intercalava os poemas
Com uma punheta ou mais um filme em que te encontrava,
Depois contigo no café, tentava apanhar com a ponta do dedo
Um cristal do teu açúcar na mesa suja,
As asas que não bateram na altura dos teus olhos
São hoje bandeiras de derrota.

15.10.2016

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 11 de outubro de 2016

Vim Para Perder

Vim para perder, se faz favor, deixai-me seguir o mesmo destino
Dos meus heróis enterrados, vim para perder e a cada carta
O destino sorri-me como se me estivesse a fazer um favor,
Mas vim para perder, deixai-me perder até as meias,
Nada foi meu, nada será meu, na verdade, só nada é verdade,
Já tenho mais do que o que trouxe para perder e nem a vida é minha,
Tantas memórias do tempo em que podia ganhar tanto com tão pouco,
Tanta ilusão juvenil ou já a miopia que se iniciava nos olhos derrotados,
Se a carta vem má há um bom samaritano que paga além da derrota
Com a sua sorte, até a sorte dos outros me persegue
Mesmo que tenha vindo para perder, mais uma carta,
Mais um dia para chorar por favor que os versos estão-me a acabar.

11.10.2016

Turku


João Bosco da Silva

sábado, 1 de outubro de 2016

1 de Outubro

É o primeiro dia de Outubro, desço da cabana até ao alambique
Onde cai em fio lento a aguardente para um garrafão,
Passando por uma cana onde uma espiga de trigo pendurada
A guiar a queda, corto o fio quente com o meu dedo
De onze anos umas três vezes e provo a aguardente
Doce, o ar promete chuva, o horizonte promete tudo,
Cinzento, já se devia adivinhar o resultado de tanto dedo,
Subi as fragas de volta à cabana, mais quente,
Maior, começa a chover sobre o telhado improvisado,
É o primeiro dia de Outubro, fecho os olhos para
Mais facilmente encontrar aquele sabor, aquele cheiro
A outono no ar, aquele horizonte que já nada promete,
A não ser distância, a cabana durou menos que a infância,
Às vezes ainda me fecho nela antes da chuva,
Outras vezes fecho-me em incontáveis mãos de sede
Mas nada se compara àqueles três dedos destilados de infância.

01/10/2016

Turku


João Bosco da Silva

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

À Espera De Um Poema

Na verdade, não me sai nada, sei que tenho um poema
No saco de plástico do Mercadona, perto de onde a turista
Foi decapitada por um louco, está enterrado na areia
Fecundada por aquele esperma com sabor a Martini
E pelos ruivos de anel de noivado no dedo,
Não sei, se calhar naquele recibo que serviu para limpar
O que os lenços de papel esquecidos não limparam,
Ou no bilhete daquele comboio até ao berço
Que se perdeu em úteros estranhamente familiares,
Geralmente, quando me sento, é sempre com tal vontade
Que sai tudo de rajada, limpo os dedos e puxo guardar,
Raramente o cansaço me inibe o ritmo, é outra coisa,
Como o deslizar de certas canetas nos tira o apetite,
Certos sorrisos nos fazem voltar a cara,
Certas promessas nos fazer rir à gargalhada,
Certos dias de sol só nos pedem cortinas
E rolhas de cortiça semeadas nos vazios que elas deixaram,
Acho que era um poema para uma filha delas,
Sobre fome, distância e como o sal da água do mar
Nos afasta aos poucos da memória uns dos outros,
Mas não me sai nada, vou arrumar as compras,
Pode ser que no fundo do saco, lá encontre aquele verso
No isqueiro novo e acenda mais um dia que já ardeu.

26.09.2016

Turku


João Bosco da Silva
Carta Ao Filho Que Nunca II

Lembras-te daquelas irlandesas velhas que trocavam gelo boca a boca,
Entre desconhecidos, como se fosse sábado à noite num inferno
Se os nazis tivessem ganho, já me perdi, o Johnny Cash também,
O anel de fogo aperta e cada vez mais cremoso, cada vez sei menos da vida,
Na altura pensava que estúpida esta gente toda, comigo lá enfiado,
Hoje penso apenas que vivemos mergulhados em estupidez
E a cada golfada de ar à superfície é uma maldade,
Não queres ter filhos, perguntam, e penso que eu ainda não estou inteiro,
Nunca estarei completo, quanto mais, não conseguiria mentir
A tanta pergunta inocente, olha, é o mundo que é assim, são loucos,
Os outros, ou então sou eu que não consigo vestir o fato que me querem impingir,
Ainda a cerveja não vai a meio filho, ainda tu não te decidiste
Se virás do colhão bom ou do mau e enfias-me assim a lâmina na ignorância,
Em três décadas que passaram num piscar de olhos, devo ter passado anos
De olhos fechados, sabes, escrevi muitas coisas, não exagerei em nada,
Mesmo assim, fecho os olhos, os punhos e parece-me que tudo cheira
A cona, e é tudo fome, a minha, a dos outros, a de outros, a de um por ele próprio,
Esta última a pior, é por isso que verás tantos sozinhos, zangados,
Agarrados a copos, garrafas, lâminas, seringas, putas e sonhos,
Entre uma música do Cash e do Sinatra, lembro-me das irlandesas
Na ilha, quando tinha vinte e um anos e nadava em certezas.

Turku

21.09.2016


João Bosco da Silva

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Sobre Um Poema

Às vezes quando vejo fotos de mulheres onde estive,
Não digo tive, nunca se tem ninguém, lembro-me daquele poema
Em que o poeta ao mijar, olha a gaita que tinha estado
Há pouco tempo dentro de uma mulher,
Eu olho a imagem daqueles corpos com os mesmos olhos
Com que lhes olhei as pupilas dilatadas enquanto me pediam
Para ir mais fundo, mais rápido, não parar, continuar,
Enquanto as unhas me desenhavam recordações mais breves
Nas costas, nos braços, no peito, nas nádegas,
Os mesmos olhos que agora veem apenas os dedos manchados
Pela tinta deste poema, escrito como quem mija
Depois da distância de um coito.

Turku

14-09-2016


João Bosco da Silva

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

madrugada

é geralmente de madrugada que elas chegam, certas recordações
que batem à porta do poema a pedir-lhe versos, sentem-se inseguras,
temem perder-se na escuridão ou ser engolidas pela luz de um novo dia,
às vezes são só o cheiro dum jornal fresco, atrás logo se acotovelam
manhãs de junho no quiosque da terra e os últimos dias do miúdo suicida,
logo vem um livro da época enquanto se esperava no carro
que venham os anos dos bancos de trás sem livros, só lábios, aos pares,
trazem mulheres ensonadas, sem elas saberem, se calhar só em sonhos
imaginam que as calças brancas mancharam alguém permanentemente,
é geralmente quando os cães se cansam de ladrar e as carroças
abrem a manhã com o seu chocalhar metálico em direcão à terra ainda fria,
quando se acaba a cerveja no frigorífico ou o equilíbrio para o malabarismo
de teclas, só a vontade de adormecer com uma recordação doce na boca
das que fazem a vida que passou valer a pena desta.

12.09.2016

Turku


João Bosco da Silva

sábado, 10 de setembro de 2016

Fear and Loathing In Figueira da Foz

“Que raio queres dizer, usar-me, virgem santíssima”, digo eu e entramos
No circo, todos com os bolsos cheios com os trocos espremidos dos pais
Ou da França ou da Suíça ou da Espanha ou da China ou de África
E o simpatiquíssimo coupiê a desconfiar da sorte do canto enquanto tenta
Desvendar em que nádega descai a tanga no cu da espanhola,
Ao meu lado levanta-se um, logo se senta outro, levanta-se este limpo,
Logo se senta aquele, cheira-lhes à sorte como se fosse algo contagioso,
Levanto-me eu do canto com um bolso do casaco de imitação de pele
Cheio de fichas e o outro cheio da desconfiança do dealer,
Então fica-se no 16 e pede no 17 fazendo 21, foi inspiração,
Lá sabem eles o que isso é, algo parecido à espanhola endireitar a tanga,
Contar, nunca fui bom nisso, nem a contar histórias, um dois lábios abertos,
É tudo, dos chineses que saltam de uma mesa para outra ninguém desconfia,
O gin espera, a tosta serrana com queijo da serra também,
Amanhã não haverá Sol, depois de amanhã só haverá sombra
E vontade de solidão e distância e hoje estamos aqui a mergulhar
No White Rabbit dos Jefferson Airplane e com pena
Que não haja uma banheira, toranjas e um advogado do diabo.

Turku

07.09.2016

João Bosco da Silva

domingo, 28 de agosto de 2016

Não Me Cruzei Contigo Em Shibuya

Não me cruzei contigo em Shibuya, apesar do que dizem das probabilidades,
Nem em nenhuma garrafa que espremi até ao verde do vidro vazio,
No Porto encontrei apenas a tua sombra nos bares em que entramos
E nos que hoje, podíamos entrar não fosse a morte ou isto que é
Parecido mas não mata, separa apenas, para sempre, até à verdadeira,
Nunca teremos Paris, nem sequer o aeroporto de Lisboa,
Eu tenho apenas aquela tarde no salão de chá onde me pareceu ver-me
Finalmente nas tuas pupilas, onde anos mais tarde, na mesma rua
Poetas gritariam a vontade que eu tinha de ti, mas não, nem isso,
Nem me lembro do que bebi, enquanto te engolia toda na certeza
De sempre a última vez e nunca mais, andamos a cruzar continentes
Para isto, enquanto hoje se iluminam águas furtadas no Porto
Longe dos nossos sonhos já apagados pelos anos e a submissão à vida.

29.08.2016

Turku


João Bosco da Silva
AGOSTO

I – Torre de Dona Chama

O gato abandonado
atravessa o restolho
do fim da tarde.

A passarada canta
ao anoitecer –
são os vizinhos que restam.

O tractor regressa –
leva a fome
que contra o calor lutou.

Noite quente de Verão –
as rãs acordam
do seu sono molhado.

Os dedos soltam a corda –
naquele instante
nasce um poema.

Já no ar leva traçado
o seu lugar no alvo –
a flecha.

O rio passa
quer a cigarra
cante ou cale.

O Sol põe-se,
as cobras procuram
a companhia das sombras.

Pinheiro ao Sol –
do fundo do vale
olha-se a distância.

No cimo da fraga
acumulam-se
as fezes do gineto.

Quantas folhas caíram hoje,
não interessa –
o rio leva-as todas.

Reflectido no rio
o poeta vê-se mais nítido
que no poema.

Portas fechadas –
o Sol ainda beija
com a língua afiada.

Por cima da fraga dura
passa leve
a borboleta.

Debaixo do carrasco
eu também
onde as folhas caíram.

No crepúsculo do Verão
os grilos acendem
a noite.

[1]No carro do padre
cagaram
as pombas.

É quando o Sol
se põe que os juncos
mais crescem.

no mantra da noite quente
balança o passado
e o presente.

As pedras ainda quentes –
há anos que ela
partiu.

Os escorpiões em álcool
ainda duram –
quantos amores esquecidos.

O açúcar seca no fundo
da chávena –
o hálito a café permanece.

Noites quentes
de ausência –
confabulação.

A Lua segue
as gotas púbicas
na carne quente.

Caem-lhe dos bolsos
gordas larvas –
ninguém irá comer.

A macieira solitária
no lameiro verde
tem a sombra mais bela.

A brutalidade passeia
vestida de incêndio
na canícula.

Contra o rigor da natureza
e a crueldade do homem –
desabrocha a flor.

Quanto menos se tem
menos se
cala.

Ignoram as moscas
que o vidro frio
as espera na janela.

Ainda hoje procuro
o Sebastião Alba
longe do cemitério.

Não há cegueira
que trave
a visão da mão.

Escreve-se melhor
à sombra
dos teus beijos.

II- Figueira da Foz

Só as ondas
insistem
no regresso.

Estamos à distância
de um sorriso
ou de uma palavra?

Não é a partida
da andorinha
que traz o Outono.

Eles procuram ser
os sonhos
uns dos outros.

III- Porto

Acende-se um cigarro
e sopra-se
no fumo.

À beira do rio
outra vez
como nunca antes.

Entre séculos de fome
esperam inquietos
os fartos.

A loucura alimenta-se
de gritos
e solidão.

Nem o espelho
me reconhece
a desilusão.

A cerveja aquece –
mais rápido
a saudade aparece.

A gota de Porto
caiu-me na pele –
o teu suor.

Os turistas
na minha terra
como eu.

Instala-se o cansaço
como um
pôr-do-sol na montanha.

Um porto entre
cigarros –
o sabor da tua língua.

O rio corre
quer haja lágrimas
quer não.

Dói o luar
Desta noite –
Quebra-se um prato.

Babel –
é aqui que me sinto
em casa.

Agosto 2016

João Bosco da Silva



[1] Versão do haiku de Yosa Buson: “Sobre a imagem santa/defecou/uma andorinha”

sábado, 27 de agosto de 2016

Sleep Over

Com as mão cheias do vazio desta noite quente,
Deitado na cama já fria, lembro as pregas húmidas
Daquelas miúdas com a pele da cor do desejo,
Tão salgada sempre com os pêlos dos braços descolorados pelo Sol
E pela leveza dos tenros anos, lembro os meus dedos brutos,
Estes mesmo que os anos a habilidade aguçou cirurgicamente,
Procurando a lógica do prazer naquelas coxas apertadas
Enquanto lutavam com a minha língua contra a algazarra
Que os insectos impunham janela adentro,
Hoje todas elas esperam, certamente, uma cama vazia
Como esta, onde se deitam memórias à flor da pele, estreladas,
Onde possam fechar os olhos e afastar os joelhos e humedecer
Lentamente, sem a saliva apressada da sua besta ressonante
Que lhes consumiu os últimos anos bons,
E num toque de dedos hábeis, resolver o caminho de um orgasmo
Primordial.

Torre de Dona Chama

04.08.2016


João Bosco da Silva
Apocalipse

Terá já acabado o mundo, sei que a última folha ainda tarda,
Ninguém me entrou ainda porta adentro com baionetas de certeza
E me perguntou de que lado queria morrer ou pela mão de que deus,
A manhã amadureceu fresca e as cortinas das janelas
Dançam perdidas neste fim do mundo,
Será que onde me sento nasceu uma fronteira nova,
Quantos novos nomes terá a fraga da minha infância
Debaixo do mesmo Sol de sempre, pelo que sei o rio corre
Ainda e se houve sangue já o levou até à foz
Onde tudo se esquece apesar dos nomes cravados nos muros
E das estátuas sem nome, prova que não há nada tão inútil
Quanto a morte, tanto quanto sei, pode já ter acabado o mundo,
Contudo aqui me sento metralhando em paz, entre fragas e giestas,
Na única fronteira que reconheço, entre o esquecimento e a eternidade.

Torre de Dona Chama

04-08-2016


João Bosco da Silva

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Volta À Canícula Do Mundo

Cá estou eu entre a certeza do fim e a ilusão da novidade,
Dando voltas ao mundo no quintal e regressando sempre
Aos quinze ou dezasseis anos, aos versos certeiros fora de linha,
Aos pêssegos maduros antes da descida dos ramos da figueira,
Ardeu tudo tantas vezes, no fim o que resta é o monte rasteiro
E aqueles beijos acesos no rescaldo das noites do fim do Verão,
Resta também a palha que incomoda as costas nuas numa paz
De ruminância e fermentação do leite contaminado pela fome
Fulminante de alívio, custa-me crer que tanto azeiteiro
Com oliveiras tão magrinhas, de onde nascem as saudades
Ao canelho, à pinga da água quando o vento puxa a chuva,
Ao rio que o Sol e os espanhóis amassaram, à má vontade
De braços abertos, só as raízes que persistem agarradas
À terra estéril, depois de há muito ter tombado o tronco
Sem testemunhas, poderão dizer de onde nascem aqueles ribeiros
Que durante o Verão secam e passam o resto do ano
A abrir a terra mais funda, a aproximar o fim da ilusão,
A meter quilómetros ao que a um passo, por fim o vento
Separa-nos com um roçar quente de flor seca,
Nos cemitérios ninguém nos espera, só na vida se consente
O que ainda não está, como evitar a porta de um amigo
Que nunca mais estará do outro lado, só para não se confrontar
Essa ausência nos olhos da sua viúva, por isso aqui
No quintal, entre a certeza do fim e a ilusão da novidade,
Dou voltas ao mundo enquanto o sino anuncia mais uma partida.

Torre de Dona Chama

04.08.2016


João Bosco da Silva