quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

E Agora?

Hunter S. Thompson, save us!

E agora que vamos fazer do mundo enquanto os tolos enfurecidos
Se matam por ideias carunchosas de glória e além não há merda nenhuma,
Agora que os reis nos cospem nos olhos mentiras que temos que abocanhar
Como cães que julgam que somos e digerir aquele veneno como
Se fosse para o nosso bem, enquanto eles dos altos castelos se riem
De que a sua merda humana nos faça medo e lhe tenhamos respeito,
Que vamos fazer agora que o passado impossível parece chegar como
Uma avalanche óbvia e inelutável, porque alguém deixou a porta aberta
Pois o inverno já tinha sido há muito tempo e os lobos entraram
Fecharam as portas, ergueram muros e sentaram-se a roer-nos
Os ossos e o futuro à lareira apagada, e agora, agora que o não chegam a tanto
Chegou, agora que o não vai lá foi e já passou até dos limites
Da imaginação dos livros distópicos que comemos na adolescência
A uma distância segura da loucura que germinava, fermentava,
Em silêncio debaixo dos nossos colchões de barriguinha cheia,
E agora, se tivermos que fazer a barba por medo, andar de cruz na lapela,
Ou de cruz escondida por medo, agora que anoitece e ninguém parece
Querer acreditar que se precisam acender os olhos e ver, ver de verdade,
Contra toda a areia que nos atiram nos olhos como quem nos quer
Semear vazios na cabeça, é que agora já é tarde, agora já passou da hora, agora.

26.01.2017

Turku


João Bosco da Silva
Selma Park

Enquanto engulo este vinho californiano, com um final
Que dizem pimenta, mas parece-me café, lembro-me
Daquelas garrafas embrulhadas em sacos de papel, ao Sol,
Daqueles homens e mulheres esquecidos do mundo
À procura de uma resposta à altura, no fundo da garrafa,
No bolso vazio, no êmbolo, no isqueiro debaixo da colher,
Na unha cheia, no cachimbo de vidro, na fome, no Sol,
Com os carrinhos de compras cheios de um lixo que lhes é tudo,
Estacionados ali ao lado das mesas onde se acumulam
Papeis engordurados e manchas de ketchup e maionese,
Evoco Schubert para me equilibrar na corda bamba do poema
De copo em riste e lembro-me daquele parque em Hollywood,
Minúsculo, a coisa mais parecida com uma prisão a céu aberto
Que já vi, só que lá dentro cada um preso à sua própria liberdade,
Imagino o Bukowski a acordar ali numa manhã quente,
Mas já ele estava longe da vida dos parques e da vida da vida
Quando abriram o Selma Park, o vinho californiano é-me sempre
Demasiado doce, deve ser do Sol e de misturarem a miséria
A céu aberto com a pouca vergonha do luxo à beira do abismo.

Turku

26-01-2017


João Bosco da Silva

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Tropeço Em Crónica

Despejavam-se os sacos de roupa no chão e o que mais me incomodava
Era o cheiro a estranho, aquele cheiro típico que é uma mistura da dieta,
Do detergente da roupa, do sabão, dos perfumes, da actividade física
E outros hábitos nocivos, aquele cheiro como uma assinatura,
Como os cheiros a casas alheias, ou até da própria depois de uma ausência prolongada,
Eram calças, camisas, camisolas, t-shirts, quase tudo números acima,
Teria que se esperar por mais uns centímetros de carne e osso,
Isso mais uns meses e dás um pulinho, no calçado colocava-se algodão nas biqueiras
Para não incomodar o ar com as unhas, não me lembro de cuecas,
Já chegava andar com o cu das calças de bombazina roçado por outro cu,
Já bastava aquele cheiro que parecia indomável ao sabão e à água fria do tanque de pedra,
São coisas boas, caras, de marca, e até eram, as peças rejeitadas dos senhores doutores,
Dos emigrantes, dos das cidades grandes, o pedaço de pão que não se acaba por luxo
E se atira aos pombos, mas era uma esmola sempre paga, batatas, azeite, vinho,
Um agradozinho para fazer o papel de pobre, a mim restava-me a vergonha
De se me descalçar um sapato ao andar ou que o antigo cu reconhecesse as calças
E tropeço agora numa crónica do António Lobo Antunes na qual me dou conta
Que fui, sem o ser, um pobrezinho de estimação.

Turku

24.01.2017


João Bosco da Silva

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017


Haikus de Monte

O pai lê o mestre –
sentados ao Sol
ambos fascinados.

Saltita ao Sol
o pardal –
o gato dorme.

A roupa estendida
saúda o Sol
em despedida.

Ladram os cães
ao longe –
batem talheres na louça.

O livro do mestre –
na capa brilham
gotas de orvalho.

A figueira sem folhas
um pinheiro japonês
sem agulhas.

As folhas dos nabos
ainda cheiram
à geada da noite.

Fendeu-se o muro
onde a água
já não passa.

A última folha do marmeleiro
recebe agora o Sol
de Inverno.

No tanque
as placas de gelo
brilham ao Sol.

As fragas cá me espera,
sempre,
para sempre.

Deixo o mestre ao Sol –
parto para o monte
da infância.

No banco de pedra gigante
Só eu me sento –
Além do Sol nada.

À esquerda a Lua,
À direita o Sol,
Eu e os Montes no meio.

As pinhas silenciosas
e os pássaros
não sei que me dizem.

No verão os incêndios,
de inverno as queimadas –
há sempre fumo no horizonte.

Entre uma Montanha
e outra
um mar de neblina.

Da janela do quarto
vejo o pôr-do-sol –
só a infância não amanhece.

Tocam os sinos,
pragueja a vizinha –
ainda há vida na vila.

No saco de plástico
respiram ainda
as folhas de louro.

Hora de almoço –
os miúdos gritam
e no ar mil aromas.

Os bugalhos esquecidos
nos ramos
juntos à infância.

Não invejo os que ficam
nem os que vão –
a dor é toda nossa.

Será que o musco
ainda reconhece
o peso dos meus pés?

Bebo o café ao Sol –
não sei
o que me aquece.

Subia e descia a montanha
com Kawabata –
atravesso-a com Bashô.[1]

Sempre teremos
Paris na ilusão
e o Porto na memória.

Despeço-me
antes do Sol
nascer novamente.

Janeiro 2017

Torre de Dona Chama - Porto



[1] Escrito atravessando o túnel do Marão.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Confissão De Um Crime

A primeira vez em que não ganhei um prémio de poesia
Foi no meu 6ºano, por altura do São Valentim, fiquei em segundo,
Perdi para o meu melhor amigo, as juízas foram as professoras de EVT,
Uma hippie e uma filha de militar de alta patente, a razão foi
Não ter feito referência a Camões na minha composição poética,
Na verdade foi para dar exemplo, já que eu era um criminoso,
Eu e o resto dos rapazes da turma tínhamos um processo disciplinar,
Todos, menos o vencedor do prémio, que depois da escola
Era levado directamente para casa, consta-se que espancamos violentamente
Uma colega em frente a um café depois da aulas,
Vingança por o seu mau comportamento na aula de português
Ter levado a que uma ficha de preparação se tornasse num teste de avaliação,
Muitas colegas choraram, não tinham estudado, não estavam preparadas,
Lá se fez e correu bem, na verdade eu fui um ladrão que ficou à porta,
Porque tive pena dela, também foi esse o argumento que me ditou a sentença,
O ditado popular, no julgamento, disse que lhe tinha dado um croquete,
Como fazia o professor de português do 5ºano, isto para não ficar fora,
O que fiz foi pousar-lhe a palma da mão na cabeça e ao sentir aquele cabelo
Quente senti uma grande amargura, por todos, pousei a mão como quem
Absolvendo se condena, e fomos condenados a trabalhos forçados,
Abrir buracos para o dia da árvore antes de almoçar, eu tive que abrir dois
Porque o primeiro chegou ao cabo eléctrico de um candeeiro,
No segundo que tive que abrir, todos os criminosos como eu, me ajudaram
E lá fomos comer, cheios de terra, fui destituído da função de chefe de turma,
Fiquei em segundo no prémio de poesia, acabaram por me dar cinco a EVT
E quatro a português, porque fui um ladrão que ficou à porta
E acabou por levar com uma sentença antes dos dez,
Deve ser por isto que até hoje nunca ganhei um prémio de poesia.

Turku

02.01.2017

João Bosco da Silva
Primeira Morte

Morreu com aquele verão dos seus dezasseis anos, a sua primeira morte,
O ano em que as torres dos filmes caíram de verdade e só anos depois
Voltaram a aparecer, o ano em que, depois de um poema sobre a queda
Por aquelas mãos que se queriam à volta da gaita, deu-se conta que era poeta,
Mesmo que aquelas mãos continuem a esgaçar homens mais práticos de números,
Até deus deixou de se engolir ainda com calos da cruz das procissões
E o riso contido do dente da velha a bater na patena, engolindo a hóstia
Com fome de tudo e sonhos apagados, morreu antes dos amigos
Terem provado o que ele provou no quarto escuro do avô,
O primeiro avô morto, a cona de uma miúda de treze anos
E a sua língua pelo tesão quase imberbe acima e abaixo,
Os seus primeiros pelos loiros do mento brilharam ao luar,
Uma alegria que não se voltará a recuperar por mais conas que prove
E naquela noite testou a resistência da pele do prepúcio
Até adormecer com o ressonar dos pais ao lado,
Agora dorme descansado ao lado do esquecimento,
Aquela primeira morte que foi arrefecendo nos bancos de jardim geados
E recebia, morto já, de braços abertos, vazios, autocarros
Vindos da capital até às mãos nos bolsos atrás da junta,
Com uma fome com a morte ali à mão e a outra em casa com a promessa
De que nunca aquele vestido azul no chão de um mesmo quarto,
E os poemas continuaram como as faúlhas de uma cremação demorada ao ar livre
Numa noite de inverno e não têm sido muito mais que isso, um desagrado à ausência.

Turku

02.01.2017


João Bosco da Silva

sábado, 24 de dezembro de 2016



Falhas de Natal

para o meu amigo Tomé

Passar a tarde no café a beber vinho do porto
Até serem horas de ter vergonha e ir para casa
Antes dos camarões arrefecerem e o polvo encolher
Até ao tamanho da memória de alguns Natais,
Chegar a casa a tempo do início de um dos filmes típicos,
Já entre a bebedeira e a ressaca, pronto para a sede do bacalhau
E do vinho tinto da última colheita que escorrega lubrificado
Pelo azeite novo, comer e continuar nos licores
Até à hora de quem tem fome de influenza em pés de barro
E canibalismo simbólico, fumar bem os anos todos
E continuar a beber por entre as ruínas do presépio
Coberto de papel de embrulho que encerrava o medo do esquecimento,
Lembrei-me de ti, lembrar-me-ei sempre de ti a quem não darei
Sequer mais um abraço, amanhã não haverá porco para matar,
Nem é preciso, não neste ano de cheiro constante a sangue no ar,
Lembrei-me de ti, não por estar longe,
Mas por ser o primeiro em que nunca mais estarás.

24.12.2016

Turku

Joao Bosco da Silva

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Visitando Bukowski

Longe, longe da skid row, dos carrinhos de compras cheios de lixo,
Dos quartos habitados por garrafas vazias nos quais vibravam sinfonias
Ao ritmo do estômago convulsivo das manhãs que nasciam famintas,
Longe dos murros nas paredes finas e dos gritos das mulheres
Indefesas e inocentes da loucura fermentada a delirium dos homens,
As crateras da tua cara uma lápide bem polida agora,
Dor só a que os outros sentem nas tuas palavras,
Os cavalos passam só os dos carros que levam a multidão até
Onde nunca se dá pelo amanhecer, as mulheres, mais agora
Que nos dias de fome, marcando os lábios na pedra fria
Que a chuva vai lavando e desfazendo os cigarros meio fumados,
Entre bandeirinhas vermelhas, rodeando uma advertência,
Um conselho, não tentes, se não for para ir até ao fim, não tentes,
(Veio ver o Bukowski, venha comigo por favor, a Sarah virá
Já atendê-lo, queira aguardar, a gente deixa-lhe cigarros
E garrafas, era o que fazia, beber e mulheres, viu o filme Barfly,
Sim, entre outras coisas, entre outras coisas, sim,
Olá seja bem-vindo, aqui tem as indicações, será fácil encontrá-lo,
Numa curva, monte acima, tenha um bom dia, obrigado),
Passar a vida num Inferno para acabar a eternidade num monte
Relvado com vista para o Pacífico, debaixo de um pinheiro.

14.12.2016

Turku

João Bosco da Silva


Madrugada






Cesárea Tinajero


Queria acordar só mais umas vezes de joelhos esfolados da bicicleta
Numa manhã de Julho em casa da minha avó, longe deste whisky,
Que sinto subir esófago acima, depois da queda, armado eu em vulcão
E na boca um gosto a últimos dias de Kerouac, ferro, cobre, não sei,
O cheiro dos dedos negros ao luar depois de dentro dela no cemitério,
Também gostava de ter recebido beijos à janela das miúdas que vinham
No Verão da capital, mas nunca tive sotaque de telenovela,
Foram destas ausências que se fez o meu caminho até à poesia,
Nunca vi certo filmes antes do fim dos anos noventa, nem na televisão,
A primeira vez que os vi foi nos lábios dos amigos com pais mais tolerantes
Às contas da luz com madrugadas incluídas, no fim de contas deu tudo
Na mesma merda, só que acabei por ir até onde os tais filmes acabavam,
Hoje sou todas as estações de metro, tão envelhecidas quanto a vontade
Que me leva à manhã seguinte, a cicatriz do joelho quase já nem se vê,
Estou a sei anos do Thomas Wolfe, ainda não tive olhos que me mereçam,
Mas são os dedos que não me seguem o pingar torrencial da tempestade de olhos secos,
Há seis anos, apesar da deriva, não estava tão perdido como hoje.

11-12-2016

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Inverno

É difícil escrever de portas fechadas, afogado em certezas de pó
E razões de vidro, enquanto lá fora o mundo todo chove
E continua a cair no fim dos tempos, num sopro cansado de deus
Reformado, é fácil cair-se na facilidade da sombra,
No encosto de cabeça na perdição morna que esquece
A melanina nos cabelos, é difícil escrever à deriva no tempo fechado,
Em abismos de esquecimento abertos como pernas de sonho,
Vai-se fazendo por ficar em alguém, que nos traga por cá
Por outros lados, que nos dê a boca e o tropeço do coração,
No inverno não há paciência para hastear bandeiras humedecidas
Com o sal dos dias quentes, correm-se as cortinas em vez de um poema
E lá fora tudo continua a escorrer frio como um sonho viscoso nos olhos.

08-12-2106

Turku


João Bosco da Silva

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Sacudindo A Gaita

“parecendo que não uma pitada de mau gosto melhora a qualidade de vida”

António Lobo Antunes

Entre ortodoxas, católicas, luteranas e muçulmanas nunca tive uma budista
E só passei ao lado de um casamento xintoísta, à parte disso, a caminho da serra,
Encontrei-me muitas vezes com três curvas seguidas, entre vacas a pastar,
Poços no auge da primavera e cerejeiras em flor, Caeiro queria ser japonês,
Mas só Bashô consegue ver com clareza absoluta, uma gota de água
Nunca poderá ser uma gota de ouro e por isso nunca terá menos valor,
Pára-se o carro ao lado de uma casa de guarda-florestal para um broche rápido
E logo desce de uma fraga o Gary Snyder com a sua barba branca
Até se apagar numa passagem de papel-higiénico num roçar de Bukowski
À espera de um quarto alugado no sofá de uma torre que partilha o horizonte
Com o castelo, alguém eleva uma revista mas não tem cona, por isso ninguém dá
Um caralho pelo gesto, no ar longe da condensação dos suspiros em pé de Hemingway
E a sua neve de papel caindo ao lado das pernas das amantes e do horror da mulheres,
As garrafas acabam sempre tão vazias quanto o espaço entre cada golo,
Queria dizer página, queria dizer mulher, queira dizer cona, queria dizer
Vazio, tão vazio, somos, tão vazios nos queremos, podendo ter a felicidade
Num aperto de mão que não quer largar, mas largamos tudo, todas,
E as rãs um sonho acidentado à beira de um poço em verões que mal se lembram,
O que nos terá feito tão velhos antes da careca de ping-pong do Miller,
O que nos terá feito tão cansados e salpicados pela tela toda do Pollock,
Será o medo de um extraterrestre humano, metade nós, ao lado da juventude,
Quando a juventude já longe dos primeiros pêlos de barba brancos,
Quando começamos a cair, se chegamos aos vinte já em queda livre,
Ainda estará livre a namorada Turca, já estará no museu a ortodoxa,
As luteranas ainda chupam gaitas indefesas nas festas das empresas,
As católicas continuam a engolir hóstias e gaitas no cu, que não é pecado,
O Álvaro de Campos deve estar enterrado nos Estados Unidos
Num monte verde, com uma engrenagem desenhada no granito,
Onde se lê, não dei por ela, mas foi minha, a viagem que já esqueci.

01.12.2016

Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

A Dança Do Que Vier

Continuarei a fazer a minha merda, entre mais uma garrafa de whisky
E a próxima viagem de encontro a menos um país,
Poupa-se no caixão, a eternidade é fácil de aguentar,
A vida é que nos pede demasiado, há que lhe dar o melhor que podemos
Sem ter que esforçar muito derrame de lágrimas,
Continuarei a sentar-me depois da tempestade, a encher o copo,
A procurar entre a árvore fulminada por um raio um resto de beleza e vida,
Continuarei a gritar contra ouvidos moucos de quem se sente dono da revolta,
Também continuarei a cagar neles, como eles querem cagar em mim,
Pobres pombos chatos de cidade, continuarei a declamar poesia
À luz de um candeeiro barato iluminando meus dedos,
Os mesmo que tocaram a pedra do túmulo de Bukowski e a relva verde,
E conas de que se perderam o nome mas tem-se uma ideia do número,
Seja como for todas perdidas, até o poema na rua onde se viu Rimbaud
Perdido, em Londres, ou o vidro do pub que reflectia a fome daquele pequeno-almoço,
Continuarei, cheio de remorsos por levar uma caneta, a mesma caneta,
Equador abaixo e acima, quando a diferença seria estar sem continuar
Umas horas ou uns dias, trocando dólares e euros pela possibilidade de mais uns versos,
Para livros que quase ninguém leu pela distância, pelo nome, por medo,
Continuarei até chegar ao magma, já lhe senti o calor algumas vezes,
Pena ninguém querer aturar a terra até ao que interessa,
Mesmo que muitas vezes seja a terra o que realmente interesse,
Continuarei a fazer a minha merda, com os anos até isto será combustível,
Com os anos até a poesia será combustível, para mim já tem sido, ou não chegaria aqui.

Turku

26.11.2016


João Bosco da Silva
Aquele Primeiro Mergulho Em Pétalas Orvalhadas

Procuro nestas pernas abertas aquele beijo às escondidas depois da catequese,
Aqueles lábios humedecidos com saliva doce de pastilha de morango
Brilhando no fim de tarde cinzento, procuro com a ponta da língua
O salto do coração que só na flor da idade da pele, procuro nestes olhos fechados
O eco daquele sabor nas chamas da lareira com o peito ainda em brasa,
Só em sonhos que a recordação focam, encontro, à distância de muitas lápides,
Aquele salto de ponte, aquele primeiro mergulho em pétalas orvalhadas.

Turku

25-11-2016


João Bosco da Silva
Metro de LA

“Please stand clear”, em vez do “Mind the Gap”,
Nesse tropeça-se à superfície, entre carne humana
Encaixotada em papelão e a banhada a ouro,
Quase ninguém dorme, muitos cantam, alguns gritam,
Contudo há quem se levante perante as rugas
E o cansaço cinzento, o cheiro varia entre o azedo
E o salgado da virilha húmida escondendo o amoníaco
Entre pernas apertadas, alguém sai e deixa à vista
Um cartaz onde se lê, “por favor llévese su basura con usted”.

Turku

24.11.2016


João Bosco da Silva

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

No Polo Norte
                       
Lua cor-de-rosa
na manhã
do Polo Norte.

Branco, branco –
não somos necessários
à beleza.

América

Vista do ar
a terra dos livres –
um tabuleiro de xadrez.

Um país de sal –
quantas
lágrimas?[1]

Está posta a mesa –
Pratos verdes
Sobre o deserto.[2]

É enorme o deserto –
lá não cabem
sonhos.[3]

Tanta gente na cidade –
tantos falam
sozinhos.

Cantam, dançam –
ninguém parece
lavar-se.

Com o Pacífico nos pés
o coração
exalta-se.

Areia quente
em Novembro –
Jim Morrison está frio.[4]


Ar-Los Angeles

Novembro 2016




[1] Sobre Salt Lake
[2] Sobre o Mojave
[3] Sobre o Mojave
[4] Em Venice Beach
Hora De Jantar Em Rodeo Drive

No parque de estacionamento de um hotel estão estacionadas as fomes de milhares,
As lojas estão cheias de funcionários aborrecidos, ao espelho, a confirmar o alinhamento
Dos dentes novos, enquanto esperam que uma estrela desça do seu castelo,
Os turistas, os que podem entrar com a segurança de uma boa dieta de verdes,
Parecem ser a minoria, os outros contentam-se em levar nos cartões de memória
A ilusão que não precisavam registar em primeira mão, as putas caras acabam de retocar
Os pêlos da púbis, preparando-se para o ordenado de um pobre mortal e o sabor salgado
Do golden shower de quem caga notas, anoitece, à entrada de uma loja fechada,
Uma família, um pai, uma mãe, uma menina e um menino,
Tiram hambúrgueres de um saco de papel e jantam, no chão daquela rua de ouro.

Los Angeles

18-11-2016

João Bosco da Silva

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Bukowski

Bukowski, para ti foi fácil, os metros tresandam a mijo pela manhã,
Dorme-se bem na rua de certeza, a areia é bem confortável, raramente faz frio,
É impossível estar só, aí compreendo o teu sofrimento, o Sol,
O Sol é sempre o das manhãs em Agosto, mesmo em Novembro,
Há sorrisos por todo lado, mesmo que de plástico sujo,
A maioria apaga-se depois da consumação da gorjeta, mesmo que das boas,
Há promessas de violência em cada olhar, há fome pela comida na mão alheia
Com a mesa posta em casa, há tanta sujidade com música nas ruas,
O mar silencioso parece não dar por nada, daqui ninguém teria vontade
De descobrir o velho mundo, depois de um dia, bastava sentares-te à máquina,
Fechado num quarto pequeno e vomitar tudo o que o dia te fez engolir,
Quando finalmente só, mesmo assim, não te invejo a sorte.

Los Angeles
(Santa Monica)

17-11-2016


João Bosco da Silva