sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Canícula E Gato

Enquanto a canícula incendeia os sonhos de quem tenta a sorte numa sesta,
Ouço os ecos de deuses mortais na companhia de um jovem gato
Que parece gostar desinteressadamente da minha companhia,
Apesar do meu corpo quente e cheio de arestas, parece que conhecendo,
Ignora todos os infernos, de olhos fechados, enfrentando cada segundo
Como uma eternidade, visitam-me derrotas como uma cólica renal
E sinto a náusea das que me esperam, que tenha mãos suficientes
Para conseguir perder tudo com a graça do sono do gato, que no fim
Tenha a sorte de ecoar numa banheira, depois da minha voz muda se apagar com os olhos.

Torre de Dona Chama

23.08.2017


João Bosco da Silva
Escrevo-te Da Ilha

Escrevo-te da ilha, cansado de tanto ódio de mão cheia de terra nos olhos,
Escrevo-te do isolamento inseguro, sobre este nevoeiro que se adensa
À volta do coração, queria falar-te dos voos das aves, do rebentamento do azul
Nas rochas dos sonhos, do ar leve e luminoso, mas não consigo, não enquanto
Nos passeios da minha cidade do norte, da minha casa, seca o sangue inocente,
Mais uma vez por uma sem razão, por mais um passo em direção à distância
Entre nós, escrevo-te da ilha com uma ilusão segura e de perto os corvos
Abordam-me com uma fome que me afasta as gaivotas, minha casa alugada vazia,
Meu coração, fechado naquela caixa onde guardo os livros mais raros,
É uma rocha que aos poucos se torna areia, dispersa num mar de distância.

Baleal (Peniche)

19/08/2017


João Bosco da Silva

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Morpheus Antes Do Café

Num café arrancado dum filme de David Lynch para uma vila do interior
Numa noite cinzenta do Sul, onde tu entras e logo sei que eu todo dentro,
Tu como uma estranha baunilha perversa me arrancaste a tábua antes
De suster a respiração para o mergulho, o teu amigo barman, sorrisos de lado,
Como posso ser um estranho no meu próprio sonho, como não conheço
Todas estas personagens com que o meu subconsciente me coloniza o sonho,
Nós na casa-de-banho, pintada toda de preto, como outra que conheci
Antes das paredes cobertas de hieróglifos florescentes, eu fascinado
Pela tua divina inocência animal, tão angelical como a descida do favorito,
Então neva em Agosto, mas logo o Sol torna a certeza de um sonho meio
Trapalhão e estavas no fim do degelo, numa igreja trazida de pixels
Ou de uma Boston que nunca visitei, o olhar da tua mãe como o sorriso
Do teu amigo, o teu cabelo como uma cortina ao te dares conta da minha presença,
Encolhi, os mesmos dezasseis anos, afinal tu de ninguém, eu apenas
Mais uma aposta com o teu amigo de café, o seu cabelo o meu cabelo
Oleoso dos dezasseis anos, nunca mais uma resposta tua e eu com uma fome
Que antes não conhecia, antes de me entrares pupilas adentro, antes de te entrar
Até ao equilíbrio térmico de dois corpos de ninguém, por tão pouco,
Só pelo prazer de ver alguém engolir sapos com o coração,
Então o café de David Lynch vencido por um tasco da terra, onde no bolso
A incerteza de pedir em liberdade e uma garrafa que se leva aos lábios
Para te esquecer ainda antes de ter acordado, quando o meu copo
No balcão, ao teu lado, onde me ignoravas com tanta força que parecias gritar.

Turku

03.08.2017


João Bosco da Silva

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Andorinhas e Detergente no Hipocampo

Onde será que se atrasaram as andorinhas, em que verões se terão apaixonado
Apressadamente, antes que as primeiras tempestades de setembro lhes
Desfaça o eterno amor de barro nos beirais esquecidos dos dias de vento,
Para que chegam agora, já lentas, trazendo as catástrofes humanamente naturais
Vindas dos excessos de história e outras saturações civilizacionais,
Para onde espantam os tímidos bebedores de sangue que mal vibram
No ar que o Sol já menos lento, se apressa em cobrir de prata fria e sono,
Que segredos gritam, trazidos de verões que ainda vão a meio, vidas que findam,
Há dez anos que ficaste num verão que só a música na sombra de um dia quente
Me traz, porque alguém tinha esfregado o passeio em frente e abri a janela para que a vida
Me entrasse finalmente dentro, lavada, o sol brilha só quando se tem luz dentro,
A primavera chega e parte sem uma andorinha, a vida encerra-se desvivida,
Só porque se acreditou que a vida um livro de vários volumes, outro filme,
Noutro filme, os anos nunca se atrasam e há um Inverno que não acabará.

Turku

João Bosco da Silva


27.07.2017

segunda-feira, 24 de julho de 2017

A Chester Bennington

No ar de Agosto havia aquela cheiro familiar à anormalidade dos incêndios,
Fazia parte do verão como os escorpiões na escadas, a música ruim nas ruas,
Que se entranhava na alma esponjosa mais facilmente que poemas imortais,
Havia a interior promessa de beijos roubados e o cheiro a perfume na palidez
Do sotaque francês, havia a longa caminhada seguida por incenso
Empunhando uma cruz metálica mais pesada do que os pecados cometidos
Entre as cuecas e a vontade das garotas que iam dormir lá em casa em noites de luar,
Havia todo o tempo do mundo, para tudo, as mãos ainda com espaço suficiente
Para agarrar quase o mundo todo e o coração cheio das certezas que nos ensinaram,
No entanto, deixou-se cair a cruz, os lábios que se humedeciam na língua
Não aqueles que a fome pedia, as certezas trocaram-se pela verdade do vazio,
O mundo tornou-se num castelo de cartas num vendaval, procuraram-se
As perdições alheias em páginas que dificilmente se encontravam em terra de brutos,
No espelho tomou forma uma presença que sendo tudo, não era nada,
A morte derrubou as torres do grande império e os reis começaram a injectar medo
Nos peões do tabuleiro, surgiu o poema, o vestido, o muro de pedra, caíram amizades,
Cresceram as dioptrias, os dióspiros ainda longe de maduros, tudo se tentou
Nas noites de insónia, sem mover um músculo, enquanto os grilos na rua
Semeavam o gosto futuro por filmes a preto e branco japoneses,
Nisto uma presença gritante, sempre, naquele quarto escuro e fresco,
Enquanto um mundo ardia e outro se desmoronava, alguém gritava o que as noites
Cobriam de escuridão, alguém que afogando-se em si mesmo, era uma mão,
Alguém que acabou por deixar de tentar acabar o castelo de cartas num vendaval
E se pendurou, alma e tudo, levando com ele uma parte de todos os desconhecidos que tocou.

24.07.2017

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 23 de julho de 2017

Sala De Espera

Quando é que os dias se tornaram numa sala de espera bafienta, escura,
Com mobília dos anos 70, onde zumbe já faminto o caruncho dos ossos,
Esperando que a porta se lhes abra e seja chamado o nome
À consulta kármica, para se receber um frasquinho com meia dúzia de dias felizes,
Depois deste volte cá e espere, a porta da rua está sempre aberta,
E lá fora ninguém, nada, a saída definitiva para um dia infinito e vazio,
Quando é que todas as revistas se tornaram sobre vidas desinteressantes,
Como espelhos ou então exemplos de todos os fracassos que se acumularam
Em nome de te tornares no que hoje és, algo afundado num sofá
Com as mãos sobre os joelhos, procurando encontrar em que linha te despistaste,
Como quem perdido num dia de chuva, procura encontrar o caminho
De volta, com um mapa ao contrário de uma outra cidade,
Quando é que surgiu esta vontade de saltar por cima de bocados enormes de vida,
Estações inteiras, companhias decentes, a fruta quase toda para o lixo
Na esperança de uma gota destilada de um Sol que se sinta tocar
Algo que enterramos há muito, bem fundo, só porque não se sabia, como nada se sabe
E por cima de toda a ignorância, erguemos este castelo de certezas e esperamos.

23-07-2017

Turku


João Bosco da Silva

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Primavera Paris Verão

Primavera

Muito tarda
o canto do cuco
em chegar ao norte.

A gengiva sangra
o sangue cospe-se
o dente fica.

É disto que te
estava a falar –
então acordo.

Não há adubo
que salve
a planta que secou.

Uma motosserra vizinha
e o meu pai
mais perto.

Seu mundo verde
e o meu
de distância.

A noite apaga-nos
os sorrisos –
que luz nos resta?

Não sorrias como se a noite
não te espere
no fim do dia.

Precisamos uma loucura
que nos salve
desta vida.

Eles regressam
a casa –
faço disto o meu mundo.

Só há verdadeira
paz
no cansaço.

São o lugar comum
que nos resta –
os sonhos.

Paris

A vinha de Montmartre
e um copo de vinho
ao Sol.

O verde antes
do palácio
satura os sentidos.

Salta a rolha
da garrafa de champanhe –
cabeça real no cesto.

Tosse o verde
cansado
de tanta pressa.

Verão

Tão pouco reino
para tanta
rainha e princesa.

Nas asas de uma borboleta
apenas pó
colorido.

Afogado em verde
o cavalo
não liga à solidão.

Verão no calendário –
pingos na lata
do coração.

Uma interrupção
consciente
na eternidade.

Chove nos paralelos
quentes –
gasta-se a vida.

Tanta água
nos passou
nas mãos vazias.

Vão e vêm
as ondas
do mesmo sangue.

Fecham-se portas –
novas flores
nascerão.

Na areia a pegada
apaga-se –
quem me recorda?

O Inverno
tão certo
como o esquecimento.

A felicidade –
isto com uma erva
na boca.

Riscar areia
com um pau seco –
poesia.

Turku-Paris-Helsínquia-Savonlinna

Maio – Julho 2017


João Bosco da Silva
Regresso Aos Dias Quentes

Quantos dia nos passam nas mãos vazias e as tornam menos nossas,
Quantos verões gastos no salto entre sonhos, quanto se deixou cair
Entre as almofadas dos sofás emprestados, para se ter uma amostra de regresso
E a certeza da sua impossibilidade e há tantos, tantos invernos
Que não a vejo a sorrir que todo o sol perdeu a força verde na pele para a terra,
Só as canções não mudam com as décadas, já o amor, esse é uma pegada na areia
Num belo dia quente, quando o inverno parece algo incerto num passado alheio
E se ignora como o esquecimento tão certo como a ausência.

Savonlinna

14-07-2017

João Bosco da Silva
Lavagem Dos Paralelos Em Julho

Naquele verão li uma pescaria inteira encostado a um choupo
À sombra da infância, enquanto ouvia inconscientemente
Os púbicos a crescer nas virilhas adolescentes das amigas da minha irmã
E o rio passava levando os segundos todos aos assentadores de paralelos
Que fazem estradas até verões chuvosos, devem andar todos fartos
Daquele verão tão espremido em ângulos diversos e vertido
Em versos parecidos a mais nada para ocupar a inocência silenciosa
De umas linhas em branco, já não estou habituado a viver,
Só sinto o sabor do que mordo, quando depois do sangue já coagulado,
Passo a língua nos dentes palidamente metálicos com um gosto
Já a melancolia e passado, moedas de cobre fora de circulação,
Só pelo filtro da saudade consigo perceber um dia de Sol
E estes verões de agora, longos fins de Setembro mas sem as tempestades
Das fomes adolescentes, só humidade nos ossos e cansaço nas bentas
Que viram tão pouco e parecem ter passado por tudo.

Helsínquia

13-07-2017


João Bosco da Silva

sábado, 1 de julho de 2017

Duas Cidades

Moras-me em duas cidades, no Porto, a que conheci entrando sala adentro
Levitando numas allstar velhas, a que senti dentina no lábio inferior,
A que desejei em versos e noites acendidas com mensagens tímidas lidas
Por namorados barbudos que te tinham de mão cheia e sotaques perfeitos,
Com quem bebias champanhe e fodias em carros pequenos,
A com quem sonhava Paris em águas-furtadas forrada com livros e sonhos,
Com quem jantei uma fome enorme vencida pelo medo da mesma vontade,
A outra mora em Paris, a que arrastei comigo e que nunca consegui apagar
Com a carne das outras, a que pinto com histórias que não vivi,
A dos sonhos recorrentes e do sorriso que já não me pertence, impossível,
A que ficou latejante na memória do sangue que se renova e nos afasta,
Que encontro numa reunião quântica na permanência das sinapses
Nas ruas onde estivemos em tempos separados, numas águas-furtadas
Onde alguém bebe o vinho da garrafa que não se abriu, enquanto outro 
De olhos fechados e em voz alta todas as palavras que não se trouxeram,
Na verdade não moras em duas cidades, és a ponte, em mim, entre a memória
E o sonho, o passado e a ausência, a ponte onde me és possível e presente.


Turku

20.06.2017


João Bosco da Silva
Dia Curto

Temos os dias contados neste mundo e os nossos paraísos ficarão esquecidos
Nas nossas fotografias de família, aquele rio, aquela figueira sem Judas,
O rio já seco que ninguém visita e muito menos imagina a felicidade que um dia 
Foi capaz, os peixes pó no esquecimento, os lobos uma memória antiga,
Tudo antes dos nossos ossos farinha e o nosso nome apenas isso,
Duas datas como no poema de Caeiro, se alguém se der ao trabalho
De ler pedras enquanto velas esperam dias de chuva para durarem mais que a vida.

22.06.2017

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 25 de junho de 2017

Digestão Em Montmartre

Tocam os sinos na Sacré Coeur e os meus sucos gástricos
Começam a dissolver os mexilhões que empurrei com pão e cerveja,
Tocam os sinos para o início da digestão, a única celebração interior
Realmente sagrada, em que a nossa vida se prolonga em comunhão
Com os pedaços de pão que serão glicose nas minhas pernas
Enquanto desço de regresso até Clichy, passam-me pelo colesterol
Os dias tranquilos de Henry Miller e todas as vidas que poderia ter tido,
Fosse a digestão outra, os mexilhões outros, outro o pão que o diabo amassou.

Montmartre


16.06.2017

João Bosco da Silva
Réquiem para Jim e Arthur

Tão pouco de ti na tua eternidade de pedra, entre ruínas de túmulos gastos
Pela fome dos vivos pela morte, querem tocar-te, fazê-la sorrir,
Brincar aos imortais, mas tão pouco de ti entre mausoléus de desconhecidos,
Whisky quente, flores murchas, encravado numa cidade que não te deu tempo,
A tua alma tão longe e o teu corpo regressando aos poucos às areias quentes
De Venice Beach, é um erro tentar encontrar alguém num cemitério,
A sua presença ecoa nos lugares que tocou de carne quente e loucura em riste,
Como se encontra Rimbaud mais vivo nos olhos frescos de uma francesa
À entrada de uma esplanada e que aponta para o teu peito e diz,
Monsieur, Rimbaud, com uma voz adocicada pelos cigarros
E um fascínio quase infantil, como uma criança a apontar para um balão
Perdido no céu, onde aí sim, quando se apaga o dia, todos moram de verdade.

21.06.2017

Turku


João Bosco da Silva

terça-feira, 20 de junho de 2017

Relatividades Paralelas

Quanto tempo entre o primeiro beijo incendiado a dentes e lábios cortados
E a última ejaculação no cu, quase por favor, só para quebrar as regras do catecismo,
Quanto tempo até que o pão não chegue e o vinho nunca suficiente para elevar
Muros invisíveis e estabelecer colónias longínquas em camas cujas línguas se desconhecem,
Quanto tempo até que o mundo todo um quarto demasiado pequeno e saturado,
Quanto tempo vai do amor eterno até ao nunca mais.

Montmartre

16.06.2017


João Bosco da Silva

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Colheita

É mais fácil semear ilusões do que colher saltos de ponte
Que valem por todos os fracassos nos espaços cheios,
Atirar uma promessa com sabor a universo alternativo,
Numa dimensão ali ao lado, naquele passo que se deu no sentido inverso
Ao que nos trouxe aqui, a este lugar perfeito mas solitário,
Um passo com o peso de muitos génesis, no início houve a dúvida
Até que o pé se pousou e acabou por se multiplicar ad infinitum.

Montmartre

16.06.2017


João Bosco da Silva

domingo, 18 de junho de 2017

Rendezvous

Vem ter comigo à pressa que se perde, ao lado daquele medo que se esquece,
À preguiça que perdeu a força, anda antes que o Sol se ponha e a vida
Que os outros nos querem comece, já nos chega colher os desencontros
Que a vida nos plantou nos anos mais férteis, já chegaram as noites ao lado
De uma cor de olhos de tom quase, de sorrisos de ângulo certo só na sombra,
Nada como o que ficou na última despedida, anda antes que o Inverno acabe de cobrir
A cabeça de neve e cansaço, tu sabes onde, aqui entre esta palavra e o próximo passo.

Place de la Bastille

15.06.2017


João Bosco da Silva

sábado, 17 de junho de 2017

Mais Um Em Montmartre

Hoje está mais claro, mais uma vez, à noite, no café dos sonhos distantes
E do talento fossilizado em cordas e unhas hábeis de âmbar, o vinho é ao lado do mesmo
A companhia multiplica-se de olhos fechados, a tinta sobra no copo e os amigos
Sentem-se próximos à distância de um verso comum, um lugar coincidente
Em estações diferentes, trazem-me os trocos e não tenho como pagar esta bela ilusão,
Tenho tido Paris, tenho temido por Paris e Paris, mas nem em Lisboa passaram
Dez anos desde o desencontro onde os aviões nos levam para perto do esquecimento
E à beira do abismo onde a vida enfrenta o sonho, é noite e hoje está mais claro
No copo de vinho tinto, ainda longe do fundo, tão perto de nada cada instante
E nós convencidos que mais dez anos para o encontro que vale uma vida que lá não chegará.

Montmartre

14.06.2017


João Bosco da Silva

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Pesadelo na Rua Do Almada

Há um pesadelo que revisito com frequência, regresso à solidão de um quarto
De uma cidade que aprendi a amar pela ausência, sempre mais fácil amar-se assim,
Quando ninguém nos sopra o perfume azedo na nuca, regresso à solidão
E não sei se tenho a renda em atraso, para o saber tenho de descer ao café cheio
À hora do almoço e perguntar entre o cheiro a fritos, mas se mantiver a porta fechada
E não sacudir muito o pó, talvez ninguém dê por mim, uma leve dança de cortinas
Quando me levanto, ou o miar do gato abandonado que se deixou entrar na solidão,
Pouco mais incomodo a passagem dos dias além do caixilho de madeira cansada,
Regresso e a cidade sempre daquela cor entre o azul metálico coberto por um cinzento
Cansado de ferrugem e séculos de saudades fossilizadas em salitre, é um pesadelo
Em que ela está sempre presente no espaço que não ocupa, na mesa-de-cabeceira,
Num poema do livro de Alberto Caeiro, nos meus tomates, naquele esperma
Que era para ser o nosso pecado profundo, mas acaba embrulhado no fundo do caixote do lixo
Como e com uns poemas ridículos, na esperança de a ver subir a rua, só,
E sentir uma pedra no vidro da janela, onde nunca estou quando acordo.

10.06.2017

Turku


João Bosco da Silva

domingo, 11 de junho de 2017

Savon de Marseille e Fósforos Azuis

Este sabão trazido de Nice, savon de Marseille, pur vegetal, de fabricação artesanal,
Que passo sobre a pele deste dia e que cobre o vapor de perfume
E me traz de volta àquelas peles de noites quentes, antes da vontade além cueca,
Aquelas emigrantes bem lavadas que regressavam à companhia dos galinheiros e das couves,
Aquelas peles demasiado brancas para o calor da procissão, deixando um rasto de perfume
Que se seguia atrás da cruz, este sabão laranja de jasmim que me traz aquelas manhãs
Em que as mulheres da aldeia se juntavam para fazer sabão azul em caixas de madeira
Forradas com plástico e na aldeia toda o cheiro da roupa lavada no estendal da eira
Com aquelas cuequinhas e cueconas a acender e apagar sonhos e vontades,
Este sabão para turista que me abre a porta de um banho à hora da sesta em verões
Com menos pêlos e lava tanto o sangue das mãos do que mata como do que salva
E me traz a caixa de fósforos de Paterson e todo o potencial das coisas pequenas
Para abrir portas e acender vidas na nossa, na nossa pele que todos tocam e nunca é a mesma.

Turku

10.06.2017


João Bosco da Silva

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Amor Universal

Estou contigo nos teus passos pelo inferno cinzento de Paris
Enquanto chove nos ossos do rei morto na banheira vazia,
Estou com as ondas do Pacífico na sua praia perfumada por mil charros
E sonhos de passeio em passeio, estou em San Pedro entre bandeirinhas
Vermelhas onde Bukowski jaz encerrado na eternidade
E de onde nunca mais despertará para mais um longo dia ressacado,
Resta-nos para sempre uma longa noite apagada,
Estou na ilusão dos que atravessam uma linha imaginária
Para o lado do sonho e acordam, estou em Espanha num caminho de terra
Onde cai um poeta e nasce uma lenda, estou com o búfalo que Hemingway
Abateu em África, naqueles anoiteceres lentos que se acendem em gotas
Pouco promissoras, estou no centro do centro de um império que desabou
E cujas embarcações apodreceram como os dentes que só têm fome
E pouco cuidado com o que trincam, estou com as pombas que cagam
Tanto no poeta como no marquês, estou com os saltos sem fuso horário
Na Earls Court esperando o fim de amores eternos que partem em aviões
Como em barcos e regressam ao cômodo esquecimento do lar,
Estou com Ginsberg cuja casa podia ser estar sentado num tronco farto e familiar,
Estou com o velho mestre tropeçando em haikus como jardins
Sobreviventes em Edo, que apesar de enjaulados entre aço e betão
Irradiam a paz que nunca se conquistará com a pregação da violência de néon,
Estou em casa em Agosto ouvindo a verdade dos grilos de Kurosawa,
Cuja recompensa dos heróis é uma vida heroica e uma morte mesma,
Como para todos, estou com o Sol que os conheceu a todos,
Mas mais que tudo, estou com quem nunca leu ou escreveu
Mais que o nome próprio, desenhado com esforço de quem tem mãos
Que rasgam a terra, sabendo que no fim o monte tomará novamente conta de tudo
E cobrirá os montículos de pedra ridículos que fomos amontoando para separarmos o inseparável.

Turku

06.06.2017


João Bosco da Silva

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Um Poema

Não tenta guardar qualquer momento, o poema, é como um olhar no espelho,
Cada verso é escrito com a areia que os dedos deixaram escapar,
Um poema bom é uma derrota bem conseguida, uma borboleta espetada num alfinete,
Nunca se captará o voo do tempo, só na ponta dos dedos se sente o que agora
Duro, para baixo, para baixo a tomar forma de uns seios, a passagem nuns lábios
Que nem os olhos um sorriso uma vez mais, é tão inútil, ressuscitar o que os mortos
Nos deixaram entre um esquecimento e outro e com isto acendem-se madrugadas,
Sacodem-se garrafas vazias numa vida que se extingue e só se dá pela ausência,
Os olhos deixam de ver quem nos aquece, procuram na distância míope
A ilusão que possa salvar a condenação certa, o poema mal toca na perdição,
Mal se acende e é todo falhas nos olhos dos especialistas de relâmpagos,
Demasiado barulho esta humidade reprimida e a terra continua a cobrir
Os olhos que nos mereciam, sempre os que se fecham a certeza de serem merecedores,
Um poema que tenha a pretensão de salvar o mundo é um poema inócuo,
Só aquele que cospe nos olhos da cegueira e mostra a luz demolidora do tempo
Justifica o mau uso da ponta dos dedos, o cansaço dos olhos na luz fraca,
A má-língua sem se importar com as más-línguas dos deuses que engordam ossos para a morte.

Turku

02-06-2017


João Bosco da Silva
Um Tropeço Nas Noites Frias

Não se regressará nunca àquelas três horas entre o salto e o medo,
Entre nós um aeroporto e tantas ilusões, lembras-te do gosto do tabaco naquela noite,
Fazia frio, era tão longe assim o que estava perto, sentia-se nos dentes de batom,
Sentia-se no tártaro de vaidade, à distância de duas portas batidas e alguma roupa
Desleixada a caminho do precipício ou da salvação, nunca saberemos,
Há sempre um táxi que nos salva da dor delico-doce das memórias que podíamos amargar,
Assim azedamos nos passos que engolimos, mais um pontapé ao lado do miocárdio,
Mais um adiar aquilo de que se abriu a mão no mar alto e por sorte
Um dia um tropeço na praia, ou uma areia no olho num dia de vento
Quando já mais não sopre na vida e tudo um acender de velas pela fome
Que não matamos e nos matou um pouco mais, a nós que já morremos tanto.

Turku

02.06.2017


João Bosco da Silva