segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Mau Poeta 

Gostava de ser um bom poeta, que se alimentassem com gosto do meu regurgitado, 
Que apreciassem o cheiro azedo da má fermentação dos dias, 
Que encontrassem caminhos na decomposição da perdição, 
Gostava de ser lido com as gengivas a sangrar e os olhos secos da insónia contida, 
Com uma palmada na coxa exausta ou um murro na inocência da mesa, 
Mas não, não sou um bom poeta, canto para mim mesmo a despedida das vidas 
Que me foram e me fui e só a mim me interessam ou até nem por isso, 
Por vezes alguém se encontra num salto de versos, mas nunca ninguém se reconhece, 
Ao menos trinco as tripas sem pudor e em silêncio, incomodo apenas quem quer ser incomodado 
E poeta sou, seja lá o que isso for, teria sido melhor ter tido gosto pela bola 
Ou ter lábia da que abre pernas e portas, mas saí antes um mau poeta. 

07-11-2017 

Seul 

João Bosco da Silva 
Uma Montanha Uma Casa 

Sempre me senti estrangeiro na humanidade, em casa um copinho de leite, 
Longe sempre uma sombra, a cor dos olhos um reflexo que não pertence 
A nenhuma luz artificial, sempre gostei de me perder em ruas estreitas, 
Só eu e as paredes, ruas estranhas que me reconhecem os últimos passos, 
Sorrisos que me levam até à próxima esquina e me apagam para sempre, 
Mas mesmo muito longe do carvão que me atribuíram como pátria, 
Sempre me encontro em casa, quando no horizonte, além dos dentes 
Estrangeiros e séculos alheios, se ergue uma montanha  
E com a sua imensa serenidade me saúda, verde e eterna. 

07-11-2017 

Seul 

João Bosco da Silva 
Assobiar Pela Rua 

Na rua alguém assobia Bolero de Ravel, a música viaja quanto faz viajar, 
Num instante, estou outra vez no escritório do padre da paróquia, com dezasseis anos, 
A ouvir a sua coleção da Deutch Grammophon e escolher alguns cds para piratear, 
O coreano de mochila às costas e pulmões clássicos, nem me viu desaparecer atrás dele, 
Nem eu me reconheci quando regressei e olhei a minha sombra artificial, 
Então repeti para mim mesmo aquele velho suspiro, se soubesse o que sei hoje, 
Mas logo me apercebi, como sempre, que naquele tempo sabia muito mais. 

Seul 

06-11-2017 

João Bosco da Silva 
Outros Incêndios 

Que me dirias tu hoje, depois de tantas lágrimas escondidas e tantos copos seguidos, 
Desta vez nem foi engolida inteira, não custará só a saída, tenho os lábios todos 
Como aquele beijo último, vai-se casar, mas nunca a conheceste, se calhar 
Reconheceste o meu olhar num fim-de-semana à lareira sob chouriços, 
Sobre a sueca, mas foi tudo, não poupei nem uma estalada, só sobraram pedaços da casca, 
Eram secas, da cor dos teus lábios de Inverno depois do vinho, dava jeito agora 
Esse vinho extinto para apagar este e outros fogos que só os incendiários viscerais conhecem, 
Que me diriam os teus lábios que já nem lábios, dos meus que aguentam até ao fim, 
Porque é de homem rijo e vivo, este longo e lento festival de malagueta. 

Seul 

06-11-2017 

João Bosco da Silva 

sábado, 11 de novembro de 2017

Metais Frágeis 

Nos museus, as espadas que permanecem mais fiéis àquilo que eram, 
Não são as de ferro, essas parecem ter sido digeridas pelo longo 
Intestino do tempo e só com um pouco de imaginação se conseguem 
Adivinhar os cortes letais que um dia foram capazes de infligir, 
No entanto, são as tecnologicamente ultrapassadas, frágeis, 
Que mantêm a sua forma original, mais verdes, mas com a ponta ainda 
Afiada, ainda capazes de levar a cabo a sua função e apagar os olhos 
Que as admiram, fazem-me lembrar a origem das cicatrizes que carrego 
E a natureza das lâminas que as originaram, houve ferro que quebrou facilmente 
O bronze, ferro que agora se desfaz se contra a pele e a lâmina de bronze, 
Apesar de quebrada, continua intacta na memória e durará até 
Que um dia chegue a hora de fechar o meu museu de aldeia. 

Seul 

11.11.2017 

João Bosco da Silva