Das Tripas Coração
Entrar num café e pedir solidão que te trazem num frasco,
Com um sorriso nos lábios contra o cheiro a formol,
Se soubesses que era o teu coração, tinhas pedido quente,
Assim vai como o resto das tripas, frio, enquanto ao lado,
Todos os amores curtos como a eternidade de um universo
Pequeno, tentam medir a profundidade nos olhos uns dos outros,
Quando na verdade apenas a vontade funda e a curiosidade
Do aperto, mais um nome para esquecer, uma idade para lembrar,
Um sinal num lugar estranho, um país exótico,
O tempo ridículo até ao esquecimento em três espasmos,
A solidão familiar, dura como um polvo cozido que se tirou
Do frigorífico, depois de acabar mais um Natal, um ano,
Uma vida que se tocou, para se abandonar no meio
Da roupa que já não se usa, ainda com o cheiro
Daqueles dias quentes, manhãs geadas, tabacos estrangeiros,
Mastiga-se na certeza de mais um fim, como tudo.
Turku
03.01.2018
João Bosco da Silva
quinta-feira, 4 de janeiro de 2018
terça-feira, 2 de janeiro de 2018
No Musso´s Como na Vida
Passei várias vezes em frente ao Musso´s na Hollywood Blvd.,
Mas nunca entrei, dei uma vista ao menu, preços acessíveis,
Espreitei lá para dentro, nada de Bukowski, um pouco de Faulkner,
Uns empregados de mesa de uniforme, mesas demasiado ornamentadas
E poucos turistas com ar disso, não sei ao certo o que me encolheu o passo,
O que me negou o salto porta adentro, não entrei sequer,
Nem soube o ar que aquilo tinha dentro, o restaurante favorito
Do Bukowski, está ali desde 1919, antes das luzes se cobrirem de lixo
E miséria, duvido que volte a passar lá tão cedo neste corpo,
Mas como com o Musso´s, assim tenho sido na vida,
Passei tantas vezes sem entrar, passei tantas vezes sem ter estado
Que me parece que em vez de viver, apenas passei perto,
Vi, desejei, aprecei, mas nunca entrei e a fome, essa ficou.
Lisboa-Helsínquia
28-12-2017
João Bosco da Silva
sábado, 30 de dezembro de 2017
Partida
Quando parto, todas as caras estranhas me parecem feias,
Todos os cus um volume amarelo de gordura que alivia o peso de ser
De cada um e lhes dá vontade de encher este mundo de mais idiotas,
Quando parto, todas as lágrimas me são estranhas
E apenas compreendo a tristeza das gotas de chuva nos vidros
Dos autocarros ou a distância da montanha, pintada na janela,
Que se cobre de neblina com medo das saudades,
Quando parto, parece-me sempre que nunca chegarei
A lado nenhum, fico em vez em equilíbrio entre o adeus
E o próximo abraço, tão incerto como o próximo passo,
Quando parto, lembro-me de todos os gatos mortos
E dos seus últimos olhares cheios de eternidade,
Quando parto, parece que vou despindo a alma pelas montanhas fora
E quando chego, não sei mais quem me fui, só onde me deixei.
Lisboa-Helsínquia (Espanha)
28-12-2017
João Bosco da Silva
quarta-feira, 20 de dezembro de 2017
Tons De Verde Fígado
Regressava da escola para o almoço, deviam andar pela 4ªclasse,
Ao pé do jardim do quiosque, perto dos caixotes do lixo,
Um homem no chão, de galochas, estaria morto, seria aquele
O meu primeiro morto, gente na esplanada do café da esquina,
Riam, não podia estar morto, mas no mundo não estava,
Não naquele momento, continuei e fui para casa,
A minha mãe disse-me que era um bêbado duma aldeia vizinha,
Que estava bem, ao voltar para a escola já não estaria lá,
Mas a beber mais um copo de vinho numa tasca ali perto,
Tinha razão, quanto ao vinho não sei, soube mais tarde
Que o meu avô ficaria para sempre deitado por causa do vinho,
Mas ao contrário do homem das galochas, o meu avô
Ficou verde antes de cair e tinha um cheiro ruim, mesmo longe
Dos caixotes do lixo ou das galochas soldadas aos pés,
Anos mais tarde, vi aquele mesmo homem, tão longe,
Em Seul, deitado no meio do passeio de manhã, perto do 7eleven
De Donhwamun-ro, gente comia comida de rua ali perto,
Caminhavam, enquanto ele abraçado a uma garrafa verde de soju,
O chão do mundo, o mundo inteiro, ali estava o homem das galochas,
Afogado em sonhos que só ele sabe que perdeu,
O meu avô agarrado à barriga inchada pelo fígado que desistiu,
Um desconhecido num país estranho a conhecer o meu olhar de 4ª classe,
No chão das cidades onde todas as almas perdidas se encontram.
20.12.2017
Turku
João Bosco da Silva
Subscrever:
Mensagens (Atom)