sábado, 6 de janeiro de 2018

Over And Out 

Agora que dormes no vazio, vais fazer o quê, 
Agora que já engoliste tudo, corações podres, 
Conas doentes, promessas como todas, vazias, 
Como te sentes cabrão, maior da tua terra, 
Que nem tua, nem um punhado de gente te aceita, 
Ouves mais uma música de sempre, pensas na lâmina, 
Achas ridículo, pensas que algo maior te levará, 
Mas nada, sempre nada, nem as palavras que 
Te tornam ridículo para os que fazem delas vida, 
Sempre pediste morte seu patinho feio, 
Sempre andaste a saltar em lagos podres, 
Com o sonho de juncos e lameiros e o teu avô 
A esculpir bois de cortiça e tu pequenino, 
Todos a foderem contigo, mesmo quando 
Tu tentavas chegar ao fim da garrafa para te mostrares  
Grande, grande merda, sempre, a lutar contra o sono azul, 
Agora vai-te foder, dorme com o desespero, 
Agora aguenta, espera pela má notícia enquanto 
Engoles os sapos infectados pela tua ilusão, 
As pernas fracas, os dedos arrastam-te até à praia, 
Nunca chegarás lá, deixa cair a caneta ridícula, 
Aquela bic azul com que escrevias poemas de amor 
Para o lixo, o lixo do teu coração imaculado, cabrão. 

Turku 

07.01.2018 

João Bosco da Silva 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Longa a Viagem quando nos Esperam - Haikus 

Os pinheiros 
que restaram 
pálidos de medo. 

Lá longe 
coze o bacalhau - 
Anoitece. 

Fim de Dezembro 
e ainda ouço 
o vento de Outono. 

O ar frio 
ainda se lembra 
do Inferno passado. 

Nada mais resta 
que durar a viagem - 
um haiku. 

Alimentam-se de vazios 
para o salto - 
respirar. 

Cada um ouve 
uma música diferente -  
vomita-se em Babel. 

Tantas luzes 
na cidade - 
olhares apagados. 

O que o Sol 
tocou 
a chuva agora lava. 

Caminho sob a chuva - 
que secura 
levo dentro. 

Esquece 
como o gato 
à lareira. 

Entra sem medo 
de teres 
que sair de casa. 

O sabor fresco 
daquele 
novo olhar. 

Lisboa-Porto-Torre de Dona Chama 

Dezembro 2017 

João Bosco da Silva