sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Post-It Manchado De Vinho 

Lembra-te de hoje, sempre, ficas pela metade de ti, 
Mesmo quando te atiras todo, não te esqueças 
Que o que te dizem, nem sempre é um sapo tão grande 
Que não seja melhor engolir logo, antes de acender o cigarro, 
Não durmas cedo, acaba a garrafa e agarra o diabo 
Pelos teus próprios cornos, não te arrependas depois 
Do mergulho no nada, nada tão duro, deixa-te cair 
Como quem sabe que contra a gravidade só há a certeza 
Da derrota, também há beleza nisso, morre, 
Mas morre com barulho, parte o copo antes de saíres, 
Não deixes nada nas mãos a não ser espaço para novas derrotas. 

Turku 

07.01.2018 

João Bosco da Silva 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Enquanto Se Espera Um Conto Sobre Paris 

Na primeira vez que visitei Paris, não comi ostras, nem tinha provado, 
Só mesmo nos livros do Hemingway e as pêras das páginas pareceram-me 
Muito melhores do que as que apodreciam na fruteira da cozinha, 
Acabei por trincar beiça junto a um muro do cemitério de Montmartre, 
As heras como testemunhas, depois de umas garrafas de vinho 
Com os tios franceses, o meu namorado foi acampar com amigos, 
Sempre a mesma conversa, ou pescar, ou ver um jogo não sei onde, 
Ou apresentar um livro, esses cornudos egoístas, era uma conquista 
Antiga, os anos caíram-lhe mal, a mim pouco me importava 
Com o barulho das luzes, o outro lado espera sempre e o vinho ajuda, 
Mais um corte de cabelo, uma confissão numa manhã primaveril, 
Uma mijada apertada depois de um filme longo num primeiro encontro, 
Não fossem os tios julgarem que a ssula estragada e contra uma árvore 
Pelo Sacré-Coeur abaixo, lá me chupou a língua escura do vinho 
Como os seus mamilos ao luar de um Agosto distante, 
Desculpa, mas tenho que ir e nunca mais a vi, ao muro sim, 
Sempre que por lá passo me lembra da noite em que não me perdi 
Em passados, e isto, aqui, só porque espero o conto de uma amiga sobre Paris. 

Turku 

11.01.2018 

João Bosco da Silva 

sábado, 6 de janeiro de 2018

Over And Out 

Agora que dormes no vazio, vais fazer o quê, 
Agora que já engoliste tudo, corações podres, 
Conas doentes, promessas como todas, vazias, 
Como te sentes cabrão, maior da tua terra, 
Que nem tua, nem um punhado de gente te aceita, 
Ouves mais uma música de sempre, pensas na lâmina, 
Achas ridículo, pensas que algo maior te levará, 
Mas nada, sempre nada, nem as palavras que 
Te tornam ridículo para os que fazem delas vida, 
Sempre pediste morte seu patinho feio, 
Sempre andaste a saltar em lagos podres, 
Com o sonho de juncos e lameiros e o teu avô 
A esculpir bois de cortiça e tu pequenino, 
Todos a foderem contigo, mesmo quando 
Tu tentavas chegar ao fim da garrafa para te mostrares  
Grande, grande merda, sempre, a lutar contra o sono azul, 
Agora vai-te foder, dorme com o desespero, 
Agora aguenta, espera pela má notícia enquanto 
Engoles os sapos infectados pela tua ilusão, 
As pernas fracas, os dedos arrastam-te até à praia, 
Nunca chegarás lá, deixa cair a caneta ridícula, 
Aquela bic azul com que escrevias poemas de amor 
Para o lixo, o lixo do teu coração imaculado, cabrão. 

Turku 

07.01.2018 

João Bosco da Silva