domingo, 4 de fevereiro de 2018

Sábados 

Nunca percebi o funcionamento dos Sábados, havia Sol e musgo nas unhas, 
Uma merenda obrigatória que nos chamava com voz de queijo e marmelada 
E lá tínhamos que descer desde as fragas, isto antes dos mundos pixelizados 
E da fome a cuequinhas molhadas, podia ir-se ao pão, o carteiro não deixava 
Nenhum postal do Brasil ou da França, os sinos não tocavam e no quiosque 
A certeza de uma banda-desenhada depois da mesada de mais uma semana 
Acumulada a saliva engolida nos intervalos, a vontade de catequese nenhuma, 
Agora poucos Sábados são no fim-de-semana, continuo a não perceber 
A sua utilidade, mais um dia, para levar todos os irmãos passados ao esquecimento 
Num último, já não vejo televisão, os filmes tornaram-se numa imitação confortável de vida, 
Repetições atrás de repetições, engrossando os contornos dos padrões, 
Nada de novo, se não se derrete manteiga num sofá ressacado, 
Prepara-se um domingo sem deus, como todos os dias, 
Nunca percebi o funcionamento da vida no geral, não só dos Sábados, 
Cheguei aqui por acumular incertezas, agora não passo de um saco cheio, 
Um buraco negro massivo, procurando a alma em mais um copo vazio. 

Turku 

03.02.2018 

João Bosco da Silva 

sábado, 27 de janeiro de 2018

Anoitecer 

Os cães morrem, revolve-se a terra no quintal e tudo fica na mesma, 
Os amigos esquecem-te, uns mais rápido que outros, a tua sombra cresce, 
O dia acaba, ninguém para te render e tudo fica na mesma, 
Morrem e em vez de acabar levam-te aos poucos o pouco que te fizeram, 
Contudo fica tudo na mesma, lentamente as garrafas se tornam em ti, 
Alguém te lembra daquilo que já não és, mesmo que te continues a chamar tu 
E mal te conheceu, tudo fica na mesma, cada vez menos pratos na mesa, 
Cada vez mais cacos nos sacos de lixo dos dias idos, tão lento a conta-gotas 
O tempo que te esvazia, os gatos todos jovens desconhecidos 
Que te reconhecem mas nunca te conhecerão e tudo fica na mesma, 
Como o silêncio depois daquela música como a chuva antes de anoitecer. 

Turku 

27.01.2018 

João Bosco da Silva 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O Perigo Das Varandas Nos Fins De Tarde De Verão 

Já devias conhecer bem o perigo das varandas 
Nos fins de tarde de Verão, aquelas saias arregaçadas 
No teu colo, com o castelo duríssimo de pedra e séculos, 
Aqueles luares de nádegas contra as tuas virilhas, 
Enquanto em baixo alguém fuma baixinho um cigarro 
Concentrado no roçar de patas das cigarras, 
Mesmo assim deixas-te cair como as folhas no Outono, 
Sempre, atiras-te verde, quando já maduro, 
E vens-te sempre com a fome das pupilas, 
Mesmo quando só te querem vender a íris, 
Até a maresia enquanto as cuecas do urso secavam 
Não te manteve longe da varanda e da ruiva com um pé no altar, 
Foste todo areia abaixo, até não se encontrar mais humidade, 
Iluminações depois dos orgasmos em que ficaste a perder, 
Continuas a cair nos crepúsculos como nas auroras, 
Bêbado de meia dúzia de metros e uns lábios rosados 
Num vórtice azul que te aperte o prepúcio até à alma, 
Já devias conhecer bem o perigo das varandas 
Nos fins de tarde de Verão, nunca te poupes àquela brisa quente. 

Turku 

19.01.2018 

João Bosco da Silva