sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Pequeno-almoço 

Duas torradas finas e café instantâneo, com tão pouco se começa um dia, 
Com menos se começa uma vida, umas gotas apressadas de alívio, 
Se calhar nesse mesmo dia nascido de manteiga derretida, 
Na mesa as flores murcham, secam, apodrecem, lições de beleza 
E vida, acaba tudo em decadência e morto, todos os beijos saberão 
À mesma cinza e pó, não à cinza que ficava agarrada às torradas 
Feitas à lareira em cima das tenazes abertas em casa da avó, 
Não ao pó agarrado às amoras nos caminhos de verão, 
A noite poderá trazer mais um relâmpago indeciso, 
Ou somente a sua eternidade, mesmo que o dia tenha começado 
Apenas com duas torradas finas e café instantâneo. 

09.02.2018 

Turku 

João Bosco da Silva

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Sábados 

Nunca percebi o funcionamento dos Sábados, havia Sol e musgo nas unhas, 
Uma merenda obrigatória que nos chamava com voz de queijo e marmelada 
E lá tínhamos que descer desde as fragas, isto antes dos mundos pixelizados 
E da fome a cuequinhas molhadas, podia ir-se ao pão, o carteiro não deixava 
Nenhum postal do Brasil ou da França, os sinos não tocavam e no quiosque 
A certeza de uma banda-desenhada depois da mesada de mais uma semana 
Acumulada a saliva engolida nos intervalos, a vontade de catequese nenhuma, 
Agora poucos Sábados são no fim-de-semana, continuo a não perceber 
A sua utilidade, mais um dia, para levar todos os irmãos passados ao esquecimento 
Num último, já não vejo televisão, os filmes tornaram-se numa imitação confortável de vida, 
Repetições atrás de repetições, engrossando os contornos dos padrões, 
Nada de novo, se não se derrete manteiga num sofá ressacado, 
Prepara-se um domingo sem deus, como todos os dias, 
Nunca percebi o funcionamento da vida no geral, não só dos Sábados, 
Cheguei aqui por acumular incertezas, agora não passo de um saco cheio, 
Um buraco negro massivo, procurando a alma em mais um copo vazio. 

Turku 

03.02.2018 

João Bosco da Silva 

sábado, 27 de janeiro de 2018

Anoitecer 

Os cães morrem, revolve-se a terra no quintal e tudo fica na mesma, 
Os amigos esquecem-te, uns mais rápido que outros, a tua sombra cresce, 
O dia acaba, ninguém para te render e tudo fica na mesma, 
Morrem e em vez de acabar levam-te aos poucos o pouco que te fizeram, 
Contudo fica tudo na mesma, lentamente as garrafas se tornam em ti, 
Alguém te lembra daquilo que já não és, mesmo que te continues a chamar tu 
E mal te conheceu, tudo fica na mesma, cada vez menos pratos na mesa, 
Cada vez mais cacos nos sacos de lixo dos dias idos, tão lento a conta-gotas 
O tempo que te esvazia, os gatos todos jovens desconhecidos 
Que te reconhecem mas nunca te conhecerão e tudo fica na mesma, 
Como o silêncio depois daquela música como a chuva antes de anoitecer. 

Turku 

27.01.2018 

João Bosco da Silva 

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

O Perigo Das Varandas Nos Fins De Tarde De Verão 

Já devias conhecer bem o perigo das varandas 
Nos fins de tarde de Verão, aquelas saias arregaçadas 
No teu colo, com o castelo duríssimo de pedra e séculos, 
Aqueles luares de nádegas contra as tuas virilhas, 
Enquanto em baixo alguém fuma baixinho um cigarro 
Concentrado no roçar de patas das cigarras, 
Mesmo assim deixas-te cair como as folhas no Outono, 
Sempre, atiras-te verde, quando já maduro, 
E vens-te sempre com a fome das pupilas, 
Mesmo quando só te querem vender a íris, 
Até a maresia enquanto as cuecas do urso secavam 
Não te manteve longe da varanda e da ruiva com um pé no altar, 
Foste todo areia abaixo, até não se encontrar mais humidade, 
Iluminações depois dos orgasmos em que ficaste a perder, 
Continuas a cair nos crepúsculos como nas auroras, 
Bêbado de meia dúzia de metros e uns lábios rosados 
Num vórtice azul que te aperte o prepúcio até à alma, 
Já devias conhecer bem o perigo das varandas 
Nos fins de tarde de Verão, nunca te poupes àquela brisa quente. 

Turku 

19.01.2018 

João Bosco da Silva