quinta-feira, 3 de maio de 2018

Que Se Foda 

Meio-dia e meio, cerveja na mesa, o mundo na rua lá fora se digere, 
Ignorando o sushi, a caminho do fim, como todos os pés passeio fora, 
Acelerador abaixo, comecei um livro do Bukowski, tão amargo 
Que tem sempre razão, não dá para olhar o mundo com um sorriso, 
Inspirar fundo rodeado por um cheiro a fossa com ar saudável, 
Cada vez menos sou capaz de tolerar olhares desconhecidos, 
Reduzi ao máximo a superfície de contacto entre o meu universo 
E os deles, a minha alma se preferirem, essa que facilmente vendi 
Num dia de São Patrício por um chapéu de feltro verde, 
Passei bem sem ela, mas uma noite mais tarde lá a recuperei 
De volta em troca duma cerveja, está Sol e parece que soltaram 
Uma avalanche de carne fresca, abatia tudo, não fossem os infernos 
Reservados além daquelas putas pupilas, mais vale isto, 
Uma cerveja antes da uma por cima do sake e do salmão, 
Duas moscas de bar de gerações diferentes e uma empregada 
Cuja cor dos olhos não vi sequer, pode arder o mundo lá fora 
Que não me levanto enquanto houver paz no copo. 

Turku 

11/04/2018 

João Bosco da Silva 

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Vinte e Oito 

Os vinte e oito banhistas do poema de Walt Whitman, 
A sua juventude, que foi minha, a sua força e beleza, 
A sua carne e os seus amores, hoje, vivos apenas 
Nos olhos de quem lhes volta a dar a vida naqueles versos, 
Há muito mortos todos, a carne pó, esquecimento, 
Os ossos talvez ainda um esqueleto mais ou menos inteiro, 
Aquele momento eterno, enquanto houver quem consiga 
Dar corpo à língua, tornar as palavras no reflexo de um tempo 
Cujo retorno impossível, será mesmo o universo 
Um holograma ou algo nos olhos de um poeta? 

25.04.2018 

Turku 

João Bosco da Silva 

domingo, 22 de abril de 2018

Dragon Ball Z 

"I believe in too much 
too early 
and when reality 
arrived I couldn´t 
stand it." 
Charles Bukowski 

Gostava de escrever coisas bonitas, sem sentido, mas bonitas, 
Como meter um relâmpago a foder com um abacate, 
Mas escrevo para salvar momentos, vergonhas que me esculpiram, 
Como quando na festa do monte, depois de apanhar coragem, 
Pedi à rapariga de quem gostava, que trazia um casaco à Bulma, 
Para dançar comigo, pensando que dançar era algo como o nadar dos cães, 
Que bastava dar as mãos e a magia descia aos pés, 
Mas afinal eu um desajeitado com pés enormes 
Que nunca tinha dançado antes, eu um abandono vergonhoso 
No meio do bailarico, ao menos os risos dos amigos 
Alimentados pela minha humilhação, mais tarde aprendi 
Que para foder bastava apenas um olhar e o cão lá dava às patas. 

Turku 

22.04.2018 

João Bosco da Silva 

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Objectos Últimos 

Comovem-me os pacotinhos de sumo barato nas mesas-de-cabeceira dos hospitais, 
Os desenhos e rabiscos de garotos de dois ou quatro anos que não se lembrarão do avô, 
O sumo dias e dias intocado, a fome dos últimos momentos pouca, a sede enganada gota a gota, 
Comovem-me os relógios de pulso, últimos companheiros não fosse a falha nas pilhas 
Ou de quem lhe dá corda, enfiados no fundo das gavetas contra vontade, 
Porque estavam a incomodar uma veia, escondendo assim a hora da partida, 
Os anos, décadas antes, presidentes já falecidos, à noite da boca descai-se um mãe, 
Tudo para enganar a última visita, quase sempre rodeados de outras solidões, 
Gemidos alheios que quase um eco, comovem-me as caixas de bombons 
Que ficam por ali, abertas, cheias, ao lado da placa que já não consegue nem um sorriso, 
Comovem-me os objectos pequenos, os últimos da vida, porque no fim 
Tudo sabe a tão pouco para nada ,a vida acaba e o pacotinho de sumo intocado. 

30.03.2018 

Turku 

João Bosco da Silva