Poema De Espera
Este é daqueles poemas de espera, dos que se escrevem quando
Não se tem um livro à mão, quando a cerveja exige companhia,
Podia estar à espera da abertura de umas pernas,
Ou de uns olhos que se fecharam para sempre,
Podia estar à espera da abertura do tasco da terra
Para adiar a ressaca mais umas horas,
Ou do autocarro que me leve de mim a mim e nunca chega,
Podia estar à espera de um sorriso que se apagou,
Mas não, estou só à espera que a óptica abra
Para ir levantar os óculos com as lentes novas,
Com as anteriores, via demasiado e não tinha espaço para versos.
Turku
01.06.2018
João Bosco da Silva
sábado, 2 de junho de 2018
quarta-feira, 30 de maio de 2018
Conselhos Ergonómicos
Para se viajar tem que se bater a porta, às vezes pela última vez,
Não insistas num livro que perdeu interesse, no fim também acaba
E foram páginas e horas desperdiçadas, alguém lhe encontrará graça,
Há burros para tudo e gente que está cansada de rilhar diamantes,
Desce da montanha as vezes que precisares de reencontrar o valor da montanha,
Também sabe bem o ruído de outras almas quando se podem silenciar
Assim que se desejar, se a solidão fosse o pior que te pudesse acontecer,
O Inferno estaria vazio à tua espera, regressa aos livros que te fizeram sentir
O Sol na pele e a brisa quente dos verões pela estrada fora, pelos vestidos acima,
Nunca te excedas na contenção, não tomes risos por felicidades,
Não imaginas os terríveis silêncios que escondem, bate a porta,
Bate a porta com a alegria da partida, não com a vontade do regresso,
Isto ou o que te der na gana, não uses roupa interior demasiado apertada.
29.05.2018
Turku
João Bosco da Silva
segunda-feira, 21 de maio de 2018
Há Coisas Que Ficam
Parece que o mundo acaba quando alguém fecha a porta pela última vez,
O perfume pouco dura nos lençóis, os cabelos acabam por se varrer todos,
Os ecos duram uns soluços que logo se pintam de ridículos,
O ar parece nunca ter sido respirado o mesmo, o Sol regressa ingrato
À pele cujo sal se conheceu tão bem na língua cansada dos dias,
Parece ter sido tudo por nada, como na verdade tudo é,
Mas então repara-se, depois de mais uma descarga de autoclismo,
No cheiro fresco e verde do mesmo bloco sanitário, persistente,
E percebe-se que não há nada que seja em vão, há sempre coisas que ficam.
Turku
21.05.2018
João Bosco da Silva
sexta-feira, 18 de maio de 2018
Verde À Beira Rio
Sentam-se à beira do rio, não sei se à espera que a noite chegue
Ou que o dia dure, ao lado de latas e garrafas preparadas para fazer companhia
Ou ajudar a tolerá-la, cada um com as chaves no bolso de uma casa vazia,
A louça suja à espera em castelo, alguém cansado numa incomodada paz,
Num sofá ou noutros braços, a fazer horas até que o cheiro de um,
Dê espaço ao do outro, as bicicletas passam levantando no ar
O aroma que dá cor ao tesão e cuequinhas húmidas,
Nos dedos manchados com tinta preta, os olhos descansam do mundo,
Descascam as dimensões que nos permitem, a prima afastada de Genghis Khan
Sorri do outro lado da rua e as folhas brilham verdes ao Sol nórdico,
Tudo iluminado e contudo, a caminho da noite e do esquecimento.
Turku
15.05.2018
João Bosco da Silva
quinta-feira, 3 de maio de 2018
Que tristeza devem sentir aqueles pequenos hotéis arruinados,
Belos ainda, apesar da ruína e da reconquista verde,
Com as janelas quebradas e as portas esventradas pelo esquecimento
E outros náufragos de carne e osso, nem um eco nos corredores vazios,
Só um gato vadio na varanda a fazer de vida, dando indiferente
O único calor àquelas paredes marcadas como os anos marcam
A beleza dos homens, as famílias nos fins-de-semana prolongados
Outras ruínas que na solidão relembram aqueles dias quentes
Antes do fim da última estação, os amantes já cansados há muito,
Os amores fossilizados no que antecede o abandono da memória,
A cozinha fria, dia após dia, acumulando folhas errantes, Outono após Outono,
Que beleza triste a daqueles vazios que tanta vida albergaram.
Sinaia
30/04/2018
João Bosco da Silva
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