terça-feira, 24 de julho de 2018

Quase Carta A Williams 

Seria possível nos dias de hoje a carta do AG ao William Carlos Williams, 
Hoje entre gatinhos, punhetas de dois minutos, minetes de bar, 
Cataclismos bíblicos de fim-de-semana, salvações de mundo porta a porta, 
Oscilações quânticas de orientações políticas, dentes do siso caducados, 
Eternidades fossilizadas na seiva das amizades dos dias de sol 
E outras merdas, claro que não, só há tomates nas pontinhas digitais, 
Incêndios verdes, como o escorrer de cera demasiado líquida 
Na cara de algumas japonesas de boas famílias, 
Isto agora, este lugar a que ainda se chama mundo, 
É apenas um armazém de carne por apodrecer, todos à espera 
Pelo brilho redentor durante dois ou três segundos depois da morte 
E o maior é aquele que brilhar mais tempo depois de se acabar o pio, 
Não compreendo essa revolta toda, disse-me um dia, 
Quem não me conhece de todo, confundindo um vulcão 
Com a desculpa de um cocktail molotov, ando farto de tanto nada 
A correr para as tripas da terra, ando cansado de tanto copo vazio 
Entre mais uma vida derrotada e uma morte que se andou a adiar, 
Peço desculpa pelo incómodo fico à espera da carta. 

24.07.2018 

Turku 

João Boco da Silva 
Último Uivo 

Ao segundo filho, acho que já gastei os poemas que tinha de ti, 
Não para ti, nem um te foi dedicado, sempre fui mais vampiro 
Que artista, apesar do meu amor à lua e tudo o que protege 
Com a sua luz em segunda mão, ser maior que o abarcar dos meus dentes, 
Já nem sequer sonho contigo, imagino apenas como seria agora 
Que tão velho, foder alguém da tua idade, 
É triste ficar branco, mas pior é secar, ficar amarelo, como as folhas 
Que se cansam da ausência do sol, tem havido tanto, 
Todos os dias, tanto que me apetece uivar aos inúteis candeeiros 
Dos jardins onde tenho pecado e bem, 
Tenho fome dos nevoeiros de Novembro, das últimas curvas possíveis 
Entre um tédio que se tenta esticar até brilhar à geada a sua sinceridade 
Sem nome, tão perto sempre do esquecimento, 
Não fossem as raízes dos caninos por natureza me chegarem ao límbico, 
Ao segundo filho, é isto, não houve consequências das noites à beira rio, 
Será que ainda te servem as calças brancas, tão secas quanto eu? 

24.07.2018 

Turku 

João Bosco da Silva 

domingo, 22 de julho de 2018

Cheiro Do Feno À Beira Da Estrada 

Agora que já segaram, que as chouriças demasiado secas, 
O vinho vinagre e das cerejas, quanto muito, uns frascos pálidos, 
Aproxima-se o regresso, com sorte umas batatas novas, 
Os vizinhos ainda todos vivos e se calhar um primo novo 
Ou uma mulher onde estivemos, sem marcar muito, 
Grávida de quem a salvou das tuas promessas de perdição, 
Os gatos esperam, quando eras garoto morriam mais 
E com eles mundos inteiros que acabavam e avalanches de amargura 
Nas lágrimas tenras, cheira a feno fresco e anoitece sem escurecer, 
Espero os grilos que entre um carro e outro, lá se deixam ouvir 
À beira de uma estrada, que como todas é um caminho para casa, 
Onde as mesmas paredes me recebem como se eu fosse o mesmo. 

Turku 

18.07.2018 

João Bosco da Silva

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Ensaio Sobre Vinho Tinto 

“Embora a maior dádiva que um poeta pode oferecer aos homens seja a revelação daquela presença secreta e sagrada, eles não compreenderão tudo o que o poema lhes tenta transmitir.” 

William Carlos Williams 

E agora quê, que o vinho tinto acabou e todos os teus amores 
Te trocaram por um grito seco, que vale tanto quanto todas 
As gotas de esperma que investiste em vazios, 
Todas as promessas com que pagaste ilusões, 
Cada um o potêncial máximo de um absolutamente nada, 
Agora quê, que só, porque os copos vazios, 
Que o Sol se põe ou vai andar a prometê-lo madrugada adentro 
E sempre cumpre uma manhã desesperada de arrependimento, 
E sujo de esquecimento e uma sede poeirenta, 
Agora que só tu e uma mesa vazia, um cigarro que arde no cinzeiro 
Arremedando o que fazes com os segundos, 
Quando não tens a gaita dentro de alguém, 
Sempre esse mesmo apêndice exigente de gente, 
De sonhos perdidos, de isqueiros esquecidos que chamam, 
Agora quê, levantas o cu, pedes mais um copo e adias, 
Adias o óbvio e o inelutável, o vazio que acaba sempre por vencer, 
Espalhas a cinza do cinzeiro como todos os amigos que não 
Voltarão a beber vinho na matança do porco 
pelos quais ainda choras em sonhos, 
Pelas conquistas francesas, pelas suas viúvas portuguesas 
Em aldeias esquecidas, todos, todas, acendes mais um cigarro, 
Tentas mais um poema, porque ainda estás vivo, se calhar. 

09.07.2018 

Turku 

João Bosco da Silva