sábado, 1 de setembro de 2018

Nos Olhos Deste Cão 

Nos olhos deste cão branco, um salto até ti, que já não estás, 
O mesmo olhar da cadela que nos deste, encontrada, 
Abandonada num verão qualquer, sempre uma alegria 
Quando nos visitavas, sempre uma tristeza agora 
Quando tropeço na evidência da tua ausência, 
Nunca mais no teu olhar, que tantos horrores trouxeram 
Do ultramar, sempre me ensinaste a única verdade sobre a vida, 
Que temos que a viver, contra todas as tosses e frios, 
Uma única vez e devemos agarrar como tudo o pouco 
Que o destino nos oferecer, seja um grupo de alemãs 
Com incêndios entre pernas, seja uma vizinha francesa 
A precisar de uma mãozinha na solidão insaciável, 
Um bom tinto da colheita do amigo, liberdade de certas distâncias, 
Os prazeres puros que a língua nos permite, 
Este cão branco, olha-me como se me conhecesse de verdade, 
Sempre encontrei multidões nos olhos dos cães, 
Amigos perdidos, amores esquecidos, sonhos que a luz da primavera 
Do dia apaga, a cadela morreu num verão quente, 
Há sempre um mais quente que o anterior, tudo caminha 
Ano após ano para o inferno ou o esquecimento, 
Contudo vamos vivendo e resgatando de onde podemos o irremediável. 

Kaskinen 

06.08.2018 

João Bosco da Silva 

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Hora de Almoço No Bótnia 

Tão familiar o tinir dos talheres, mesmo numa ilha do Bótnia, 
Onde também o abandono não esqueceu e a gente foi ficando, 
Erguendo museus vazios onde lares frios, nos jardins perdidos 
Ideias de cerejeiras em flor, onde noutros tempos famílias 
Sob suaves neves primaveris, a beleza da perdição está em 
Poder salvar do esquecimento com um pouco de imaginação 
E trazer todos os fins de verão na ponta dos dedos, 
O desânimo mostra as mãos cortadas pelas escamas dos peixes, 
Diz que curou a asma com dois gatos, um cão e solidão, 
Tem a casa à venda, porque em lado nenhum se vive só de verão 
Ou infância, especialmente em países de noites tão brancas como escuras, 
Investem-se décadas, os melhores anos, na beleza de ruas sem saída, 
Em todo lado se agarram à história quando o amanhã só cheira a esquecimento. 

Kaskinen 

04.08.2018 

João Bosco da Silva 

terça-feira, 24 de julho de 2018

Hotline Miami 

Ainda me lembro de ti, quando me disseste, não pertences aqui, 
Em forma de elogio, de certa forma encontrei-te, longe, 
Sem te ter tocado com um dedo, por causa do médico turco, 
A tua amiga mortinha por dormir, o teu carro cheio de tralha, 
Porque tenho sempre alguém a dormir na minha cama, 
Quando me posso perder tão facilmente em futuros habitantes 
Da minha almofada vizinha, sempre fui menino da mamã, 
Agora sem deus, agora sem ser capaz de aceitar um abraço, 
Agora alérgico a tudo que cheire a carinho, 
Já vi sacos de lixo mais amorosos que eu, 
Mas na verdade eu quero é ver as cinzas que restam, 
Não estou aqui para acreditar em dilúvios, 
O rapaz já gastou esse trunfo, se chovesse o que já bebi sem sede, 
O que dá uma sede que sabe ao castigo por gula, 
Afogávamos tanto santo nesta terra de pardal aldrabão, 
Já vou noutro, espera, vou ali encher o copo de escocês. 

25.07.2018 

Turku 

João Bosco da Silva