terça-feira, 28 de maio de 2013


Marco Quilométrico

Expõem orgulhosamente nas varandas a arte da sua limpeza, tudo tão amarelo como o branco
Possível, às páginas tantas, parece sentir-se o cheiro a algo real, mas numa inalação mais apurada,
Não passam de palavras secas ao sol, até as moscas zombam da consistência de tais emoções,
Sentam-se com o tamanho dos seus óculos a ser o currículo daquilo que não viram além de umas
Páginas áridas, medidas e desmedidas até à exaustão da alma, sentam-se sobre as sombras que nunca
Reconheceram, feitos de luz, dizem, nós, donos da quilometragem entediante, da hipnose
Para a foda de misericórdia, porque eu sou as palavras que crio dentro, eu por outro lado, por dentro
Crio merda, esperma e um golden shower vitaminado para quem quiser fortalecer os sentidos
Da pele, aborrecida de tanto esperma cáustico e gorduroso, nem uma cerveja sabem beber, tão
Concentrados nas suas queimaduras interiores, imagino as sanitas deles cheias de papéis amassados,
De saliva frustrada, empurrando clisteres e engolindo laxantes em busca de uma depuração, lixívia,
Para os versos que sinceramente, preferia com uma coloniazita, algo que me desse ao menos uma caganeira,
Não só nojo de sebo e sebentas, ursos pelados a tentar vender o seu salmão, só espinhas, porque
Nunca o engordaram, nunca o deixaram engordar, já que só as lentes comem e comem e engordam.

Coimbra

28.05.2013

João Bosco da Silva

segunda-feira, 27 de maio de 2013


Carne Em Promoção

Compra-me, diz um carro, o mesmo dizem uns saltos, toc toc, só em hotéis de luxo, bonecas
De porcelana recheadas com leite azedo e mutante, tudo cheira a interesse e cegueira, usados
Como novos, onde se terá que entregar a decência da indecência sincera, tudo trancado em
Aparências hipócritas, custa sorrir com os dentes todos sem um aparelho a medir caninos e
Aligeirar ângulos, número de contribuinte quer, com o hálito ainda a escorrer algarismos do
Cliente regular, é que não tenho necessidades, tenho exigências, criei classe na miséria,
Entretanto cresceram-me as carnes e posso alimentar-me de trufas e champanhe, que nem
Gosto, mas é caro, e pouco me custa submeter-me aos desejos do poder de papel, compra-me,
Uma indecência oferecer flores a monstros ilusionistas, espera a barba ao Sol por mais um
Pouco de poder para o esquecimento, a vida acordada é demasiado cara, mais vale parar, sair,
Dormir e ignorar quem caga de alto para os nossos ídolos e deuses de pobre, faz cara séria
Que as hortas à beira de estrada sempre vazias e do tamanho de mãos bem pagas com calos
E uma mesa com pouco mais de nada, compra-me e não me deixes passar perto da miséria visível,
Eu mijo-te em cima, mas pinta-me com uns sapatos novos, toc toc, veste-me com sonhos pequenos,
Sacos cheios de máscaras brilhantes, uma esperança para pôr ao peito, que outra nunca vi, bom preço, toc toc.

21.05.2013

Viseu

João Bosco da Silva

Quase Poema Sobre Poeta

Perguntam-me se conheço nome e eu respondo quem é, que não estou a ver, é um poeta de uma
Terra pequena que não assume como sua, premiado com um nome de uma escritora morta qualquer,
Isso dos prémios é uma questão de concorrer, e engulo que não participei naquele prémio, por exemplo,
É jovem, dizem-me, queixam-se que eu sou demasiado jovem, trabalha noutra coisa além de escrever,
Quem quer morrer de fome, admira-me que o tenham deixado entrar na sopa de letras, geralmente
Não aceitam omnívoros, entretanto lembro-me de um poema sobre gaivotas, areia, algo que me aborrece
Imenso, não me reconheço nos espelhos dele e com ar de ofendido, como se estivesse a ser ingrato
Ou presumido, despedem-se de mim com prontidão. Obrigado, mas sou um poeta que se alimenta
De abismos e os abismos são feitos de sombras, deixem-me habitar nas sombras e ignorar os que são alérgicos ao anonimato.


31.10.2013

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 23 de maio de 2013


Trepanação De Jerónimo Bosch

para Richard Marx

Um cavalo branco pasta num lameiro enquanto uma cidade adormecida arde sob uma Lua incerta,
Os porcos ressonam nas suas mansões de água e o povo grita com a boca cheia de cinzas e sede,
Arrotam os pançudos satisfeitos das conas vendidas das pobres que se querem habituar a luxos
Com os quais não cresceram, renascem, anéis em dedos ridículos a cada vez que a gaita lamacenta
Dos pançudos suínos lhe escorre da cona santa para quem é cego suficiente para as amar, o cavalo
Pasta e tudo ignora, a erva é fresca e verde, a cinza nem se sente a cair sobre o branco, as chamas
Só se alastram nas paredes sujas que encerram toda a merda humana no seu esplendor aflito para
Evitar um fim que é a única salvação, impossível, porque a água está cara para quem ainda quer
Conservar o que ainda não tem preço, mas vende-se, a honra, abençoa-me lâmina num hara kiri
Desmedido, abre-me todo o nojo para fora, uma boca suficientemente larga para vomitar toda a merda,
Tripas e tudo, ou isso, ou deixai-me pastar sossegado, que já anoitece e a noite promete ser clara.

Lisboa-Coimbra

20.05.2013

João Bosco da Silva

“Après Le Déluge”

“Depois, na grande mata violeta em botão, Eucáris disse-me que era Primavera”
Rimbaud

Ouve-se o rastejar de cobra por entre o silvado, sentado no muro, espero, uma mão nas costas,
Volto-me e é o sorriso de uma giesta em flor, então amigo, duas borboletas desaparecem
Num erotismo alado próprio das cores que lhes vestiram os genes pequenos, o sino da igreja
A dizer que foi deus que as vestiu, para sentir repugnância pelo amor plural, deve querer
O buraco do cu cheio de sacrifícios, fumos pestilentos, pão duro, órfãos e ovelhas cegas,
O Sol troça dele, inventou-se para explicar o rastejar das cobras num mundo de mãos
Que se agarram a tudo com medo à noite, o mundo consome-se em anos
E os segundos, silenciosos, roem o fervilhar das moscas à volta da sua própria merda,
A eternidade mora nos silêncios sentados, duros e de erosão lenta, onde se escreve
Do tamanho daquilo que se vê, num trono onde só os deuses reais se sentam imaginados.

23.05.2013

Torre de Dona Chama

João Bosco da Silva

O Último Em Børs

As estudantes passam com a sua admiração por vacas que já apodreceram há muito e eu,
A ficar mais loiro por dentro, escondido atrás dos óculos de sol e cara de vai-te foder, vou-te foder,
Dá cá mais cinco e eu sem dar nenhuma, és giro e obrigado, voltem sempre, fosse isso moeda
Da troca, não é Ginsberg, e tento regressar ao postal para o poeta e mais uma circunvoluções do médico
Com cheiro a guerra e ditadura, tenho um presidente que ainda mija na cama com medo a bruxas
E mesmo assim o Sol ainda me abençoa com uma luz de lés a lés, enquanto a minha pele
Ainda cheira ao sangue de quem mal consegui adiar um fim triste como todos os fins, a esplanada
Enche-se de cães e o Bukowski ignora os cagalhões no passeio onde outros cagalhões passam com uma
Bebedeira inútil, sem papel, caneta e dois dedos de inquietação, mais valia, mas realmente,
Não vale a pena, há Sol e amores que empalidecem os anos que os mataram em sofás solitários,
O amor aguenta o peso da leveza, mais que isso é arrastamento e cabelos brancos que se agarram
Aos dedos da mania, esquecem-se todos os pedaços de gente que passam sem nomes, apenas,
Que cu, grandes mamas a latejar, até mais um gole afogar tudo e envelhece-se mais numas horas
Do que o que se percebia nos anos primeiros, perde-se sempre que se ganha o que nunca é verdadeiramente
Nosso, mas mais nós, tirando-nos pedaços do original, que nunca foi, apenas menos gente, uma
Multidão suportável que nos viu mudar as fraldas e enjoar em viagens pequenas, o mundo acaba
Mais uma vez e tudo fica igual à estranheza de tudo.

Turku

16.05.2013

João Bosco da Silva

Magnólia

E sem querer, estava metido na pendente chuva de sapos, primeiro a banda sonora a entranhar-se
Nos meus dezasseis anos, não queria ser poeta, mas a falta de coragem nas mãos para a carne e na boca
Para as palavras, levaram-me a isto, escreve-me uma mensagem para lhe enviar e ainda hoje juntos,
Também eu ainda estou preso a isto, agora é mais limpeza, não tenta chegar a ninguém, apenas tenta
Sair de mim e aliviar um pouco o vazio com a ilusão de uma ausência, quando se cospem palavras em
Magnólias, deve esperar-se a explosão da Carmina Burana, estranho como me consideram uma pétala
Quando ignorava que nós flor, o que queria era apalpar o cu duro da colega e continuar inocente a ler
Nietzsche, a engolir Platão, a apaixonar-me por pequenos-almoços na América como se tivesse saudades
Do tempo em que não era nada, o tesão lá ia aliviando de olhos fechados a ver nas pálpebras aquela paixoneta
A lamber a rata daquela outra que nunca me olhou com olhos húmidos, enquanto a fodia, ou como
Imaginava que se fazia, também vais lá, e eu julgava que se referiam às torradas com leite achocolatado,
Ou porque tinha comprado um livro do Hemingway no hipermercado contra a vontade da minha mãe,
Que só considerava livros de verdade os manuais escolares, hoje pouco me interessam os anéis
De Saturno no chão em Chaves, mas ajudou-me perceber que há coisas piores que a morte e que há
Sempre uma porta aberta que fecha tudo para sempre, nunca chegaram a cair os sapos, engoli-os todos,
Depois deixei de sorrir pela luz e esmaguei a magnólia entre mais uma livro que nunca acabarei de ler,
A areia sacode-se, mas tem-se sempre vontade que anos mais tarde, se encontre alguma nos bolsos,
Como encontrar um pedaço da alma que lá ficou, onde se passou.

Turku

20.04.2013

João Bosco da Silva

Confissão Sem Pecados

Devo ter sido eu hoje, com mãos de cinco ou seis anos, uma curiosidade inocente na ponta da língua
Que não imaginava para badalar orgasmos, a abrir os grandes lábios pequenos e rechonchudos da prima
Mais ou menos pouco menos, da mesma idade, nem sei se fome, os interiores lugares que desconhecia
E os sonhos apenas ecos no escuro, com as sombras a tornar os casacos pendurados no fundo do quarto,
Homens sem pernas prontos a fazerem-me mal quando me absorvesse o divã, nem sabia que mal era o mal
Que me podiam fazer, a língua antes no lápis roído da menina filha da amiga da minha mãe, cujo pai
Morreu ou as abandonou, nem sei, a ausência a mesma nos olhos ainda inocentes, mas com vontade de lhe
Arrancar os lábios daquela carinha de olhos castanhos, a minha mãe a estranhar o meu gosto por bonecas,
Até me apanhar com uma dentro das cuecas com o cabelo loiro a escorrer de onde têm escorrido
E secado os momentos que me submetem, devo ter sido todo hoje, onde traria dentro tal perversidade,
A não ser que a perversidade toda ela em órgãos como ovários, com todo o futuro à espera da altura,
Uns poucos perdidos como na excitação que o cheiro a urina e merda e vício nas casas de banho públicas,
E o rolo de papel higiénico a ser desenrolado, rasgado na casa de banho das senhoras e eu a querer
Ter língua de papel higiénico, quando nem uma cerveja inteira aguentava, no tempo em que uma viagem
De quatro horas me parecia uma semana ao Sol dentro de uma quatro L branca, que cheiro é  este, e eu
A encolher as mãos e a pila tão menina, mijei no palheiro, e verdade, porque as hormonas não à altura
Da curiosidade inocente, ou eu hoje a fazer maldades ao garoto que me trouxe aqui, onde irei quando
Durmo, quando irei quando venço as insónias e os versos que teimam em não sujar os dedos que os engolem
Num vomitar arrependido, antes de tocarem os dentes, tornei-me passivo, castrado, por medo ao fogo do inferno
E às conas com os seus cheiros húmidos a vida, tive que perder a ilusão dos santos para poder
Voltar a ser livre como a criança que do nada inventou o cunnilingus, entre espigas de milho e palha e o bafo
Das vacas na parte da baixo do palheiro do avô, que também ainda vivo e com o cabelo mais cinzento do que o branco que o levou.

Turku

12.05.2013

João Bosco da Silva

quinta-feira, 16 de maio de 2013

DA ESCATOLOGIA


para o johnny bosch



Aqui está um rapaz que sabe

esperar pelo vazio, gerir o espaço

que fica depois de se vomitar,

com o escrúpulo dos deuses,

aquilo que tem de ser dito.



Montado na ténue folha dos

séculos, limita-se a imprimir

com força os dedos, o estômago,

o coração, as entranhas

que de tão estranhas a tudo isso

reagem adequadamente.



Deixai-o por isso prosperar,

progredir: a missa é a massa

que os seus olhos, claros como os

de um poeta, vêem, protestando

a aparência penteada do seu

símio parente:



este é o rapaz claro das noites brancas, e assim se faz à estrada.



Ricardo Marques

sexta-feira, 10 de maio de 2013




Refluxo Gastroesofágico

Tudo não passa de tentar tornar os muros dos meus avôs públicos, só porque me revoltam
Aquelas fontes nas capitais tão velhas como uma aldeia de peregrinos, as pedras tão gastas
Da curiosidade dos turistas e os muros dos meus avôs, dos seus pais a serem escondidos pela
Vergonha dos musgos e tento despir-me de tudo verde e só nos olhos a antítese dos musgos,
Dispo tudo com um fogo de chamas infernais, e no fundo com a inocência de quem esmaga
Grilos entre duas pedras lisas de xisto, a população toda de um lameiro, culpem o tédio, uma alma
Presa na camisa-de-força da doutrina de Domingo, quando as asas me pediam os dedos
Nas conas das catequistas, como o filho do cantoneiro, no palheiro do pai dela debaixo do
Reboque do tractor, e conspurquei-me com as fodas urbanas, os esguichos anónimos e apressados,
Sem acabar de tirar a camisa, molhada de prazer que não se consegue sentir pelo excesso de tudo
Menos do vinho da vinha do avô, também ele morto, na companhia do vazio do outro, também,
A ser esverdeado pela eternidade fora, enquanto eu conseguir imaginar uma eternidade fora,
Cá dentro, sentado no muro do lameiro grande, a ouvir as rãs do poço a fritar ao Sol, enquanto o meu avô
Esculpia da cortiça dois bois, e o outro armava laços aos javalis na vinha, e eu guardava anos dentro
Para os florir em pecado, tornar os muros anónimos em poemas que pelo menos levo dentro
E pisam comigo as calçadas das cidades antigas, das capitais de línguas desconhecidas,
Dos meus avôs, mais uns goles e isto vai lá, as mãos ainda latejam, o refluxo torna-se num
Vomitar contínuo, numa diarreia inversa, perde-se  o medo de perder e segue-se, esmagam-se
Um a um, os grilos, os pedaços de inocência levados pelo tédio, pela desilusão, pelos fungos
Que tornam os sonhos bolorentos até não se poderem comer mais, um beijo no pão e para o silvado,
Não se esquece, mas o mundo que se cria cá dentro tem o tamanho da nossa voz, avôs,
Tento gritar, mas a pipa, mesmo que seja a maior da terra, nunca será suficiente para
Aliviar a sede do mundo, os muros tão velhos, tão anónimos, só porque aí e até a cerca de arbustos
Daquela aldeia Massai, mais vista que estes muros, virgens comparando, onde atrás deles fodas tão
Inocentes, como o tédio que esmaga os grilos um a um e eu vendi a alma às cidades
Em troca de ejaculações quentes e inesperadas, sobre uma camisa à espera de versos
De vinho tinto e saudades e a puta da vida que vos acabou e me levam para lado nenhum,
Meto dois cartuchos, um será para assustar a morte e levantar os corvos dos castanheiros,
O outro será para ter sempre presente a esperança que só morrerá com a morte, até lá,
Gritarei pedras e esperma seco nos musgos, na manhã depois da festa do verão, meu vosso, nosso.


10.05.2013

Turku

João Bosco da Silva

Purga Na Interzone

Abro a porta da casa de banho e um miúdo está a foder um cu, com a cara de entusiasmo de quem
Está a mijar com alguém ao lado, era um cu, de resto adivinho a cabeça deitada sobre o autoclismo,
Olha-me e não me vê, fode e só sente o que não se sente, a ideia, devo ser eu, o fantasma translúcido
Daquele miúdo, a foder apaticamente uma cabeça de autoclismo, engole toda a merda, lava o esperma salpicado,
O entusiasmo perdido e eu como ele, não sinto nada, como não sinto nada ao ver o vizinho que nunca vi,
Pendurando presuntos pelo pescoço, ou quando os dedos num pulso não esperam mais o que é reservado a todos,
Amor, morte e fodas em casas de banho de bares, afinal não abri porta nenhuma, é um espelho de memória
A reflectir o ridículo sobre os meus cabelos brancos, hoje envelheço cem anos, sei disso porque
Não ando com relógio algum e conto as horas pelas vidas que trago dentro, presas apenas por um nome
E cujas células só são realmente as mesmas as que fodem sem qualquer entusiasmo, que tinham vergonha
De mijar ao lado dos amigos e foi-se, como o orgulho, foi-se tudo, , fecho a porta, viro as costas ao espelho
Sem esperança, encerrando em mim a possibilidade de todas as desilusões do mundo, livre, o miúdo
Não se vai vir, mas nunca esquecerei o que aquele autoclismo me disse, less is more, e a cor do cabelo daquele cu,
Na manhã seguinte tomará banho tentanto lavar os anos que lhe trazem cada vez mais ferrugem
Àquilo que nos faz sentir, abrirá uma porta na casa de banho de um bar e verá o seu reflexo a foder um cu  que diz, less is more.

Turku- Helsínquia

01.05.2013

João Bosco da Silva

segunda-feira, 15 de abril de 2013


Quando O Hank Reza

Detesto senhores e as vacas que os fazem senhores, ou os senhores que as fazem vacas,
Mesmo que sem leite na cona a secar, daquele que já não dá para merda nenhuma, apesar
Do nojo ao fluor, as pastilhas da terceira-classe e a cona das primas demasiado imberbe,
Absinto para meia dúzia, mesmo antes do gato despegar do turno das insónias
E para o inferno com a Lana del Rey e as punhetas mal batidas enquanto chovem lágrimas
No chuveiro, devias ter vergonha, visitar pessoas no cemitério, quando a tua vida mais morta que tu,
Espera por mais uns quantos, os teus amigos não morrerão, já têm, sei lá como conseguiram
Agarrar-se a esta merda, mas têm as unhas enterradas até ao caralho de deus e enquanto ele
Não lhe despejar dez litros de mentiras no focinho, bukake de quem é todos e tudo e o caralho,
Manda foguete, é dia de festa, a coleguinha da quarta-classe sobe o monte, vem a caminho
Para provar que nem sabes dançar nem porra nenhuma, vai-te morrer a gaita de tanta fome,
Afinal o contrário, e para o diabo que os pariu e os que vão parir, eu a inutilidade que detesta senhores,
Mas com loucura suficiente para acabar com eles num dia de chumbo e treino com o avô
Morto contra uma figueira onde Judas se cansou de mostrar que foi o único traído por palavras,
Ou também ele teria tido direito a um puto de um evangelho, grande merda na verdade, certo (?),
Foda-se, um ponto de interrogação, já acabou o filme, espera, já, pedimos desculpa,
Está na hora do fogo-de-artifício, esperem pelos raios que vos partam, se não gostam, dedo no cu. Amén.

15.04.2013

Turku

João Bosco da Silva

domingo, 14 de abril de 2013

Jack Encontra-se Perdido Em Lado Nenhum

Sempre tiveste medo do amor como do ridículo, o nu público do coração e preferias o elástico partido à tensão incerta
E agora perdeste as palavras todas Jack, engoliste todos os desejos que te impunhas, só para
Cheirares tão mal como o mundo te cheira, nesse nariz demasiado santo e puramente niilista, tudo merda e mijo,
Agora não sabes onde escondeste a pele de lobo, na companhia das moscas, nem se ainda és capaz de beber o sangue
Doente dos vazio que enchias com a tua incerteza e insegurança, como se os dentes fossem
Uma âncora no barco à deriva que tu sempre foste, agora esperas que a maré suba
E que a água verde te encha desde o convés até ao limite do que aguentas, suportas, sem segredos,
Porque não tens um jovem numa jaula a procurar palavras por ti, nem ninguém para sujares, usaste-as todas,
Como os momentos que espremeste até deixarem de ser recordacões, mas saudades das
Noites libertinas, com o ar carregado de um suor de terra e mil orações antes do assassínio
De mais um dia, esqueceste-te de que o mundo te comerá se continuares a passar fome, os dentes gastam-se no vazio,
Se insitires em beber das miragens que só tu vês, rias-te dos felizes que enchiam a boca de areia,
De esperma seco dos outros nas fontes que julgavam puras, muitas vezes o teu próprio esperma
E rias-te, agora Jack, mais valia engolir-lhes a desilusão que te oferecem com a loucura com que sempre
Te dedicaste a rasgar a vida e as vidas, mas a verdade mata-se com palavras e tu acabaste com elas.

14.04.2013

Turku

João Bosco da Silva

sexta-feira, 29 de março de 2013


“Territorial Pissings”


“I´m still alive
and have the hability to expel
wastes from my body.
and poems.
and as long as that´s happening
I have the ability to handle
betrayal
loneliness
hangnail
clap
and the economic reports into the
financial section”

Charles Bukowski
Mais um depósito de olhos fechados e a confusão será toda tua, escondida no fundo dos teus excessos,
Cuspida pela convulsão dos teus sonhos pintados a verniz colorido e espera-se um amanhecer diferente,
Dos que prometem outra coisa além da noite, um dia eterno, de olhos cegos pela luz indiferente
Ao segredos que fermentam na fossa séptica desesperados por uma foda séptica que lave a alma
E o orgulho intranquilo da roupa interior manchada pelo pagamento à ingratidão altruísta dos
Corações de ouro e esperma azedo, começa-se num capítulo e acaba-se num desperdício de páginas
E páginas só por uma capa colorida, prometendo tudo menos o vazio que esconde, o verniz estala
E as unhas crescem depois dos olhos fechados e fica apenas, o nada que foste, um saco vazio, agora inútil
Onde foi despejado o tédio de uma terceira idade pervertida pelo valor dos anos queimados na lareira
Dos enganos, despe-te de tudo e não serás mais do que aquilo que trocaste pelo que vestiste, nada,
Os olhos não enganam, e a colher que os arranca por nojo, acolhe a sopa com mais pureza, enquanto
A chama aquece a libertação, como uma morte que se aceita de veias abertas e coração perdido
Pela confrontação com os verdadeiros contos de fadas, pede-te a um mendigo, pode ser
Que ele tenha um pedaço do que foste e te ofereça, sem esperar de ti um pouco do teu vazio,
Um pouco da liberdade verdadeira, aquela que julgaste encontrar ao te abrires às portas do inferno.

29.03.2013

Turku

João Bosco da Silva

quinta-feira, 21 de março de 2013


“Viagem Ao Fim Da Noite”

O bidão onde o cão dormia e se refugiava dos foguetes da festa está vazio, a manta velha conserva
Quase tanto dele como a memória, uns quantos pêlos, faltam os olhos comidos pelos vermes como
O verme que o matou, nem sei se me revolte contra a morte se contra os seus dedos conscientes
E vivos, conheço mil e uma causas que levam um coração a parar, mas nunca compreendi as suas
Razões, é sempre um erro tentar encontrar o que motiva um músculo independente que por teimosia rasga
Os dias com vida e sangue, resta engolir, o sangue, até ficar doente e vomitá-lo depois negro,
Em linhas finas e irregulares que tentam dar um sentido à perdição, bebe-se, fuma-se e fode-se
Sem cuidado ou moderação, encosta-se a vida à parede como se fosse a própria morte, mas esta
Com sugestões atrás da orelha, vai que eu não sou para ti, tu imortal e o bidão vazio à espera
Do medo e do frio, dos olhos no infinito, a culpa disto tudo é dos poetas que tratam a eternidade
Com a mesma familiaridade com que tratam as palavras e a prometem como prometem o amor,
Com o mesmo convencimento que são capazes de trazer a carne toda ao pêlo que ficou agarrado
À memória, mas é mais real o ladrar de um cão assustado pelo quase silêncio da noite de últimos
Candeeiros da vila, que todos os poemas do mundo, a noite chega sempre ao fim,
Mas nem sempre o dia vem para lavar todas as suas sombras.

09.03.2013

Turku

João Bosco da Silva

O Sabor Do Sol

Engolir lentamente o café quente que cai no estômago vazio enquanto a pele sedenta se engasga com
A luz do Sol, a ligeira pressão das hastes dos óculos na têmporas que os anos tornam pálidas,
Sentir o ar fresco da manhã no início da tarde, inspirar fundo até ao alvéolo mais profundo a vida
Que nos morre, sem pensar nisso, e a vida sabe bem, estar sentado a olhar para o horizonte geometricamente
Recortado pela cidade, sem esperar nada das horas que tomarão o lugar desta, sabe bem, os
Sonhos ficaram a incomodar a almofada que ainda cheira a sono e insónias, na vida, só há uma coisa simples
Que dói, a ausência, a morte, dos outros, entretanto o Sol esconde-se atrás do edifício vizinho,
No fundo da chávena só o açúcar a manter entre os cristais a memória do café e uma mosca inerte,
Agarrada à esperança de uma primavera que chegará para lhe varrer o exoesqueleto, um sol que nunca será dela.

Turku

07.03.2013

João Bosco da Silva

quarta-feira, 20 de março de 2013


Procuro Em Mais Uma Guinness A Ausência Das Tuas Pupilas

Procuro em mais uma Guinness a ausência das tuas pupilas, mas não vale a pena, todas
As febres tropicais, todas as viagens para regressar a lado nenhum, tudo trocado por um pouco
De nada, ou a ilusão de tudo, que acaba por ser o mesmo nas mãos dos sonhadores, tão ricos
Com os seus bolsos vazios, ou nem bolsos, nem bolsos, só uma fome que não engole nada,
Só a amargura de mais um gole escuro de solidão, o olhar num espelho vazio onde só se envelhece
Para dentro, onde ninguém mora, ninguém vive, um cemitérios de foste, de estiveste, de quiseste,
Um currículo rico em perdeste, deixaste e é-se apenas o que se lembra, tão pouco,
Na superfície do momento, uma descida às catacumbas da velhota assassinada por um engano
E condenada à presença constante do que a todos espera, dou a mão ao copo frio,
E sinto a transpiração de outros dias, no dedo que ainda salgado de não sei que secou,
As lágrimas ausentam-se nestes dias, dizem-se inúteis nos dias escuros, ninguém as vê,
Só se engolem e só as sente o estômago castigado pelas fomes acumuladas nas madrugadas
No fim dos dias longos, que se vestem de noite para acalmar e atormentar, dependendo
Do preço que estamos dispostos a pagar, no fundo, o copo vazio, os pregos a trancar
O caixão vazio pela eternidade fora, cheio da gente que se foi, com todo o nada que enche um copo,
Mas de pupilas nada, só o sonho, como algo que realmente se morreu ao se ter vivido,
Os lábios recusam a língua, então cala-se mais um poema, para incomodar o ruido do mundo.

Turku

20.03.2013

João Bosco da Silva

segunda-feira, 18 de março de 2013


Não Sei Para Que Me Morreste Porque É Inútil

para o meu avô,

Não sei para que me morreste, mas também nunca percebi a morte, ou a vida, para quê uma se
A outra está para reduzir tudo a nada, nem cinzas, e os ossos anónimos não fosse o nome sobre
O qual as lágrimas dos que ficaram a ser menos e cada vez menos, não sei para que me morreste,
A égua já deve estranhar a tua ausência, porque hoje não é Domingo e tu de gravata, deitado, a estas
Horas, sem teres bebido gota de vinho e quero acreditar que por isso tão sossegado, não sei onde
Irei depois da festa do Verão amanhecer, agora que a carroça ficará de pernas para o ar e a madeira
Desistirá e cederá todos os anos que aguentou, ao caruncho e os melões ficarão a apodrecer, a vinha
Morrerá de sede do teu suor e o teu vinho não voltará a encher aquela caneca que parecia ir ficar
Pela eternidade fora em cima da lareira, do teu lado pelas noites frias fora, dos rigorosos Invernos
Da terra esquecida pelo país a que dizem que pertence, não sei para que me morreste, mas desculpa
Contrariar-te e roubar um pouco de ti que guardarei até eu morrer para os outros, podes fechar os
Olhos, podes não voltar a contar-me com orgulho a história do jogo da sardinha, que fui eu
Que escrevi nos teus olhos que não sabiam ler, junto à mesma lareira, podes não voltar a fazer batota
Na bisca dos nove, podes esquecer-te de mim, obrigado, eu sei como funcionam as sinapses e é
Na sua união que vive a alma, podes morrer-me, mas prometo-te e que me desculpe a morte,
Que os raios partam, que nunca te deixarei morrer de todo, não enquanto nas minhas veias correr
O teu sangue, não enquanto o dia me permitir acordar e ter saudades tuas, sentado debaixo daquela
Macieira, enquanto as vacas pastavam, com um pedaço de cortiça e uma faca nas mãos,
Com o teu ar de eternidade, as tuas mãos de raíz de castanheiro e cepa e da cortiça dois
Bois e eu convencido que era o neto de um deus real, por isso perdoo o teu coração humano, cansado
Pelos anos, calejado pelos dias, não sei para que me morreste, porque é inútil, nunca me morrerás.

Turku

02.03.2013

João Bosco da Silva

A Madrugada É Material Mutagénico

Um deus espirra uma incerteza e nasce um poeta, cheio de vazios e outros desvios
Que levam a lado nenhum, onde o mais profundo da alma se encontra com as chamas
Embriões de infernos como os de Dantes e os de agora, que são os mais reais,
Mais que a vizinha do andar de cima a aspirar o leite de mais um achado no bar da esquina,
Que só se imagina como será, um dia um encontro no elevador e o hálito a desconhecido,
Seria mais certa a canonizacão de Chuck Norris que acender mais uma fogueirinha no Vaticano,
Chega de queimar bruxas para cobrir múmias de poderes invisíveis, tanto desperdício
Onde não há carne e a carne tão vazia, pede uma e outra, todas as esferinhas tailandesas
A tornarem-se versos, numa desfermentacão de vinho para uvas, umas gota de água benta
Na cara em forma de ejaculação acumulada pelas obrigações tântricas pelas semanas
Das semanas, até à libertação das DSTs pelo corredor de merda dentro, como uma benção
Irónica, ou uma maldição bem intencionada, dá-me um beijo, pede depois do espirro
E a sua boca ainda adstringente onde futuros se sacrificam pela excitação da humilhação,
Quem diz deus, diz deusa e é indiferente qual o espasmo que expele, às vezes vomita
E mais um poeta, daqueles que passa a vida a digerir-se em versos para meter nojo ao mundo
Que já por si repugna, espera o último autocarro, pode ser que já não haja luz naquela janela.

10.03.2013

Turku

João Bosco da Silva

sábado, 23 de fevereiro de 2013


Fome Com Frigorífico Vazio

“eu não tinha gostos que pudessem ser levados a sério num miserável.”

Céline

Sacudo o dia das botas enquanto encerro a porta atrás de mim, entro no vazio,
Nada me espera e só a fome persiste ainda, abro a porta do frigorífico vazio e rio-me
Do ridículo, procurar-te no frigorífico, a dor é afinal ao lado do estômago, apetece-me
Um Pall Mall, mas falta-me a chama de enganar a morte enquanto ela deixar, espero
Que a noite se esgote antes de esvaziar o copo de Johnnie Walker, espero que o futuro
Me venha salvar do presente, mas tenho bebido muitos presentes e o futuro, quando vem
É mais um presente, esvazia-se o copo e no fim, invariavelmente, o vazio, o fundo
Como um reflexo assustador, como pode haver tanto entre dois vazios, quem saberá,
Tomo um analgésico demasiado forte para o que o corpo sente, mas como se pode
Chegar à alma se vive nos interstícios da dor, até os dedos me parecem abandonar
O ritmo absurdo deste latejar sinusal, resigno-me à tua ausência e adio-me
Até o Sol decidir rir-se da minha palidez forçada, sem agulhas, só as palavras me aliviam
Ou nem por isso, perdi deus numa avalanche que varreu quase todas as minhas ilusões
E agarro-me ao vazio que tu deixaste como se fosse a promessa da vida eterna,
As tuas mãos, em cima do muro daquela casa velha, o dia espalhado pelo chão,
Amanhã varrerei o ontem que hoje me foi, mais um dia à sombra da tua ausência
E adormecerei a fome, como quem embala um lobo enquanto nos morde a carne.

Turku

23.02.2013

João Bosco da Silva

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013


Dança Das Moscas À Volta De Um Poema

Sinceramente, a quem interessa o que tu esperas que passe, onde te sentas e o que te
Escorre desse órgão de emoções a que alguns dizem imortal, o Panero parece obcecado
Com sapos, sapos ao luar, numa noite húmida, as mãos negras de sangue, a química
Cerebral ou algum fio fora do lugar, ainda se compreende, agora os cheiros que te
Tocam no hipocampo, só porque está bem perto do nariz e é de ligação directa,
Quem se interessa quando não se podem cheirar palavras, que magia julgas tu ser capaz
De fazer com palavras que todos os dias se limpam com papel higiénico, esperma uns,
Sapo outros, o mesmo nojo da vida, as moscas dançam no ar cheio de merda, numas
Revistas amarelecidas repousa um cagalhão ressacado, tudo sépia e séptico, a vida,
E sinceramente, quem se interessa com a mesa posta, o teu cão morto, o teu avô
Que morreu num hospital onde nunca te deixaram entrar por seres criança e agora,
Farto da morte dos outros, esperando uns dias que o cansaço vença, mas a vida um
Cansaço que nunca vence até vir o raio que nos parte a todos, mais vale sacudir a garrafa,
Não deixar nada a azedar, que no fim sopra-se e o som o mesmo, o vazio e o impossível.

18.02.2013

Turku

João Bosco da Silva