sábado, 8 de setembro de 2018

“Don´t Dream It´s Over”

Aquelas noite de Junho, fodendo fronteiras 
À beira de rios estrelados, ouvindo músicas
Da juventude defunta da geração que nos pariu,
As rãs cantando a abrasão das virilhas,
Ninguém voltou a foder assim, com aquela fome
De os meus olhos um eclipse lunar
E dentro dela um futuro comum a nascer,
Algo impossível, como o destino veio a comprovar,
Depois de ter teimado duas vezes que não,
Fodei só, de vós nada mais que a memória
De noites de carne insatisfeita afogada em sexo,
Aquelas belas noites de Junho, a surpresa
Quente na cara, brilhando ao luar,
Hoje alguém te mama o leite materno,
Com a mesma avidez com que me fizeste desaparecer
Todas as promessas e nem uma gota sobrou para o futuro.

Turku

08.09.2018

João Bosco da Silva

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Hotel Aliados 

Foi tudo apenas um beijo e o resto vontade, 
Há amores que ficam apenas pelo salto em potência, 
Todos a altura da ponte e a distância onde entrariam os pés, 
E assim nada morre, fica-se com o peito cheio 
Do que poderia ter sido, as mãos com todo o espaço 
Para ir recebendo quem nos chupe um pouco mais de veneno, 
Ainda sinto gotas de esperma a despedirem-se do meu corpo, 
Da janela aberta, ouço o pulsar de uma cidade 
Que de tanto lavar a cara para inglês ver, 
Já mal a reconheço, da casa de banho um vapor perfumado 
Enche o quarto antigo e é de ti que me lembro, 
De como há quem nos morra logo no primeiro beijo, 
E vamos enchendo os dias com outras luzes e sorrisos, 
Matando a fome na fome, sonhando lado a lado distâncias. 

Porto 

29.08.2018 

João Bosco da Silva 

domingo, 2 de setembro de 2018

Depois do Meio-Dia 

A hora da partida chega, quando o gato começa 
A aproximar-se de nós outra vez, finalmente, 
Cada reencontro tem já o sabor da despedida, 
Chupa-se a felicidade por uma palhinha fina, 
Numa canícula que parece não ter fim nem ar, 
Só os lugares permanecem, cobertos pela ruína da ausência, 
Cheios de ecos que ninguém ouve, lareiras frias 
E remendos de quem já não tem remédio, 
De tudo, só a dor fica, nada mais é eterno, 
Amizades medem-se com cafés ou garrafas vazias, 
Os cigarros fumados pesam como anos 
Num peito cansado de partidas e outras desfeitas, 
No fundo, quando a tarde cai, é um salve-se quem puder, 
Vendem-se as memórias mais inocentes 
Por um esquecimento breve entre joelhos, 
A verdade encontra-se apenas numas flores cortadas 
Sobre uma mesa raramente viva, 
A eternidade sente-se no luar e nos grilos, 
Acorda-se tarde, acorda-se sempre demasiado tarde, 
Por vezes depois de quatro ou cinco anos, 
Só o gosto amargo na boca justifica o arrependimento, 
As horas passam e sempre a possibilidade da última 
Na próxima, o gato roça o pêlo na perna nua, 
Está na hora de plantar um novo esquecimento. 

Torre de Dona Chama 

27.08.2018 

João Bosco da Silva 
Manhãs Perdidas 

Raras são as manhãs em que parece entrar-te pelo nariz 
O cheiro de outros verões, antes da vontade da carne 
E da sede por vergonha tomarem conta da direção dos dedos, 
Aquelas manhãs antes do negrilho secar, antes da aflição dos gatos novos, 
Aquelas manhãs com cheiro a papel e pão fresco, 
Um leite que se tolerava bem, o que se engolia e o que se aguentava, 
Os pardais perderam o medo, na cara o Sol não planta sardas que sejam 
E o cabelo já não sabe o caminho para a iluminação, 
Só espero que o meu pai eterno, a minha mãe eterna 
E o vizinho do cavalo sempre uma alegria genuína e rara 
Quando regresso, não tarda arrefecem as pedras 
E todas aquelas manhãs quentes tão impossíveis 
Quanto os sonhos ridículos da infância. 

Torre de Dona Chama 

22.08.2018 

João Bosco da Silva 
Necromancer na Galiza 

Quando olho para os pêlos ruivos do meu braço 
Queimado pelo Sol, lembro-me se valerão a pena 
Tantas ruínas, tantas salas fechadas no pó 
Da memória, com a mobília a apodrecer 
Como os ossos dos velhos esquecidos, 
Com a força única da caneca ao copo 
E os suspiros contra todas as canículas 
Em que esperam tudo o que secou, 
Valerão a pena, bairros inteiros, peitos vazios 
Do ar fresco e verde de um abraço antigo 
Como os dentes de leite, 
Nada é ruína quando há memoria. 

Celanova 
(Galiza) 

20.08.2018 

João Bosco da Silva