quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Quase É Nunca 

A família tinha ido fazer a peregrinação pela Galiza aos anos felizes, 
Tinha três dias sozinho em casa, abastecido com latas de salsichas 
Que aquecia directamente no fogão e atum, o resto era pão da terra, 
Ela andava a tirar a carta de condução, loirinha, ou o quanto se podia 
Ser naturalmente loiro e dos montes, a melhor aluna, 
Que como quase todos os melhores daquela terra, morreram na praia 
Dos exames nacionais, uma tarde, depois da lição de condução 
E antes do pai a ir buscar, veio ter comigo a casa, 
Estava eu refugiado da canícula, a soprar o pó aos cartuchos, 
A curar uma ressaca de meia dúzia de cervejas, mergulhado 
Num estado de sala de espera do dentista aos dez anos, 
Escrevia um rascunho mental para ir estudando pelo caminho, 
Beijo-a aqui e levo-a até ao quarto, ao colo, não é muito longe, 
O quarto escuro, a primeira virgem, sangrará muito,  
Sairá aquela matéria que deixei, que fazer aos lençóis, 
O preservativo à mão, não vá o diabo tecê-las e acabou-se a festa 
Antes do fogo-de-artifício, ela chega, bate à porta timidamente, 
Conversamos, sobre o quê só o soube no segundo de cada palavra, 
Um beijo como um salto da ponte, oscilando entre cobardia e coragem, 
Levei-a ao colo, cabeçada logo à entrada do corredor, 
Quarto escuro, roupa para o chão, espero que não se esqueça de nenhuma meia, 
Tudo com a vontade e a precisão de um tsunami, 
Língua, beijávamos com o potencial de um alambique, mamilos, 
Que de certo também rosados no escuro, mão nas cuecas suculentas, 
Aquele aconchego familiar nos dedos, cuecas pernas fora, 
Mergulho de cabeça, mas nada de rebuçado, andava metido com Nabokov 
Na altura, aquilo tudo tão primitivo, o cheiro como a beleza da neve, 
Quando depois de ser vista pela janela, gela os dedos até aos ossos na rua, 
Batia uma enquanto puxava o lustro roçando o nariz nos fios de cobre, 
Se tivesse barba fazia um estrago naquelas virilhas, quando estava no ponto 
Meti o preservativo enquanto esfregava naquela lesma quente e me vinha 
A todo o comprimento, no único preservativo, o pai dela também quase a vir, 
Então não a metes, e não a meti, não lha ia meter nos próximos cinco minutos, 
Nem nunca mais, acho que pensou que nem a levantei, 
Mas aquilo tudo, depois de atestar o vazio, pareceu-me uma mata-porca, 
Sem fome, algo só para cumprir o ritual, nunca mais voltamos a falar, 
Humilhada pela minha vergonha, fui sabendo das vezes em que perdeu a virgindade, 
Tantos prontos a espetar a faca, os invernos tão longos, 
Nunca estive tão perto de além de ser um arrependimento, 
Ser o primeiro pedaço de vergonha alheia em alguém, mas quase, é nunca. 

Turku 

07.10.2018 

João Bosco da Silva

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

”Alguns Preferem Urtigas”

Encontra um pecado que te condene pela eternidade
E repete-o pela vida fora, está tudo perdido,
Seja como for, o namorado que tinha ido ver o hóquei
E a foda rápida no carro dele, atolado na lama,
O outro que tinha ido à pesca e a foda lenta na cama
Onde a roupa dele encartada, acabada de lavar,
O que tinha ido acampar enquanto ela procurava
Uma mamada apressada junto ao cemitério de Montmartre,
Depois filhos, deles, imaculados, nelas, será que ainda
Vestígios genéticos teus, nelas, quando eles fuçavam
Novas vidas naquelas conas, com fome de salvação,
Tu apenas um erro, uma vez, um esquecimento fingido,
Um respirar fundo antes do mergulho resignado,
Para ti um pecado, nesse coração herdado da doutrina,
Condenado à solidão, mesmo que rodeado por vontades,
Não lhes tomas os olhares, escondes-te na tristeza
Dos copos mal lavados, imaginas as vidas limpas
Dos que passam pela vida como se nem fim houvesse,
Tão leves, até na forma como ajoelham num desconhecido
E se lavam a seguir e o dia luminoso e a vida uma alegria
Humida patilhada corpo a corpo, iluminação pela carne,
Quando a ti apenas te escurece mais essa alma semi-católica,
A poesia o teu confessor, a gaveta o teu inferno privado,
Continuam os olhares como portas abertas para outros abismos,
Mais uma benção de um pecado, quando a vida te encosta
A um canto e te exige que te submetas, que já não tens idade
Para mandar tudo às urtigas, mas “cada bicho com seu gosto”,
Cada um com os seus pecados favoritos, haja algo
Que justifique a morte e as cores do crepúsculo.

Turku

27/09/2018

João Bosco da Silva

terça-feira, 25 de setembro de 2018

Três Juncos  

Voam as libélulas 
a hipocrisia 
afoga-se no vinho. 

Nesta casa pequena 
podia haver 
mais um copo. 

Sempre difícil partir 
quando se chega 
tão pouco. 

Não tentes apagar 
o que não podes 
esquecer. 

O poeta escreve 
na máquina -  
estão a fazer pipocas. 

Canta um galo 
e regresso 
verdadeiramente. 

Ainda os lagares 
tão vazios 
e as moscas desesperadas. 

Ao Sol da manhã 
não precisa de açúcar 
o café. 

O deslumbramento  
dos tolos  
fascina-me. 

Quem cortará 
o presunto -  
vespa no dedo. 

Aberta a melancia 
sobre a mesa -  
quem a esqueceu? 

Longe, tudo 
sempre -  
a vontade. 

Pastam as mulas 
o Sol 
que a terra guarda. 

Tantas portas 
se abriram  
pela fome. 

Enquanto parto 
três juncos 
o rio passa. 

A vespa pica 
até as mãos 
mais inocentes. 

Em frente ao rio 
de joelhos 
nasce um haiku. 

Passa o rio 
com ele 
nós também. 

Quantas vezes 
só o exosqueleto 
parte. 

Cidões, Agosto 2018 

João Bosco da Silva