quinta-feira, 8 de novembro de 2018

El Rey Motel 

Vamos encalhando uns nos outros, como por obrigação, 
Até a ferrugem tornar conta de nós, até nos confundirmos 
Com o resto do mar, apenas com a certeza da ruína 
E uma felicidade apêndice que queremos impingir nos outros, 
A liberdade torna-se na transgressão maior, 
Aguardas pelos sonhos para que te levem a um quarto 
Do El Rey Motel, mas atrás de cada porta, uma solidão estranha, 
Do tamanho do vazio que todas as companhias deixaram, 
Atrás daquelas mamas entumecidas de leite, ainda a menina 
Da festa da aldeia, a vontade da carne viva dentro cuspindo inutilidades 
Enquanto as searas douravam como o cabelo, 
Depois do primeiro enforcamento fracassado, 
A inocência que nos resta não chega para evitar esta vontade de precipício. 

Turku 

07.11.2018 

João Bosco da Silva

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Escorpiões de Cabeceira 

Passas a noite a caçar escorpiões com uma alpargata, 
Numa casa que é tua num passado que não te pertence, 
Um tio que não vês há anos resmunga por causa do barulho 
Uma frase herdada, quero dormir, sou Moisés, 
Dois escorpiões pequenos esmagados como os fins de Agosto 
Antes das tempestades e do apodrecer das uvas 
Com o cheiro a livros emprestados,  
O maior enfiou-se num pequeno armário embutido, 
Onde antes, mesmo que nunca, se guardava o pão e assim, 
Ninguém poderá dormir sossegado com aquela dor incerta 
Por ali, detestas coisas a dormir que nunca acordado, 
Também o medo te parece maior quando a tua indiferença 
Consciente tira férias do mundo que despreza, 
Então dás-te conta da massa crocante que mastigas distraidamente 
E começas a cuspir como quem se lembra dos amores 
Depois de já nenhum amor, ou do cu lambido antes do abatimento 
Do tesão no céu da boca, e enfias os queixos na torneira e cospes 
Com medo do espigão entalado entre os dentes com uma gota de veneno 
Para a bochecha, mas afinal tu numa loja antiga, antes do turismo, 
Fechada há muitas camadas de pó, madeira verde, 
Convertida num museu oportunista, com um funcionário com ar 
De fantoche sem ventríloquo, e te consome a luz do dia 
Até que é hora de te perderes lá fora, mal sobes as escadas podres 
Até ao segundo andar sem paredes, tudo é perder tempo, 
Visitar vazios de estimação, mastigar medos sem fundamento, 
Então acordas com um gosto familiar na boca, o do arrependimento. 

28.10.2018 

Turku 

João Bosco da Silva

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Dream Brother 

Acho que deixei de te amar naquela vez em que depois do trabalho, 
Fiquei dentro do carro, com a chauffage no máximo, a ouvir repetidamente 
Dream Brother do Jeff Buckley, com a mesma vontade de ir para casa 
Quanta a da neve descongelar em Fevereiro, ali no estacionamento, 
Refugiado da evidência de uma ruína e tudo aquilo me soube a um bloco 
De gelo amargo, plantado no estômago num dia de Sol, 
Como dar-me conta que o castelo de areia, quando a água seca, 
Não passa de um monte de areia, é apenas a ilusão breve que une 
Aqueles grãos, até que seca, tu em casa, a seres tu, a mesma 
Que me levava a vontade pela mão, como um garoto a mãe 
Até à montra onde o brinquedo desejado, se soubesse que seria sempre assim, 
Não arriscaria nem mais uma lágrima num sorriso, 
Nem apostaria mais uma gota de esperma num olhar, 
Por muito que as repitas, todas as músicas acabam em silêncio. 

Turku 

18.10.2018 

João Bosco da Silva